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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

 

Se armar para salvar o capitalismo financeiro!

in A Terra é Redonda
 
 PorMAURIZIO LAZZARATO

O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição

“Por maior que seja uma nação, se ela ama a guerra, ela perecerá; por mais pacífico que seja o mundo, se ele esquece a guerra, ele estará em perigo” (Wu Zi, antigo tratado militar chinês).

“Quando falamos de sistema de guerra, referimo-nos a um sistema tal qual aquele que está em vigor e que supõe que a guerra, mesmo se ela seja somente planejada e não combatida, é o fundamento e o ápice da ordem política; quer dizer, das relações entre os povos e entre os homens. Um sistema onde a guerra não é mais um evento, mas uma instituição, não uma crise, mais uma função, não uma ruptura, mas uma pedra angular do sistema, uma guerra sempre depreciada e exorcizada, mas nunca abandonada come uma possibilidade real” (Claudio Napoleoni).

A ascensão de Donald Trump é apocalíptica, no sentido original do termo: desvelamento. Sua agitação convulsiva tem o mérito de mostrar a natureza do capitalismo. Isto é, a ligação – habitualmente velada pela democracia, pelos direitos humanos, pelos valores e pela civilização ocidental – entre a guerra, a política e o lucro, entre o capital e o Estado.

A mesma hipocrisia está no coração da narrativa construída para legitimar 840 bilhões de euros para o rearmamento que a União Europeia impôs a seus estados membros como recurso para o estado de exceção. Se armar não significa, como diz Mario Draghi, defender “os valores que fundaram nossa sociedade europeia” e que “garantiram durante décadas aos seus cidadãos a paz, a solidariedade e, com nosso aliado americano, a segurança, a soberania e a independência”, mas, sim, salvar o capitalismo financeiro.

Não é nem mesmo necessário grandes discursos e análises documentadas para mascarar a indigência dessas narrativas. Bastou um novo massacre de 400 civis palestinos para colocar em evidência a conversa fiada indecente sobre a unidade e a supremacia moral e cultural do Ocidente.

Donald Trump não é um pacifista. Ele apenas reconhece o defeito estratégico da OTAN na guerra da Ucrânia, enquanto as elites europeias rejeitam essa evidência. Para elas, a paz significaria o retorno ao estado catastrófico em que reduziram suas nações. Para elas, a guerra deve continuar, pois, como para os democratas e para o Estado profundo estadunidense, esse é o meio de sair da crise que começou em 2008 – assim como foi no caso da grande primeira crise de 1929.

Donald Trump pensa poder resolver a questão dando prioridade à economia, mas sem renunciar à violência, à chantagem, à intimidação, à guerra. É muito provável que nenhum deles tenha sucesso, já que ambas têm um enorme problema: o capitalismo, em sua forma financeira, está em crise profunda, e é precisamente de seu centro, os EUA, que chegam os sinais “dramáticos” para as elites que nos governam. Em vez de convergir em direção aos EUA, os capitais fogem em direção à Europa, o que é uma grande novidade e um sintoma de grandes rupturas imprevisíveis que correm o risco de ser catastróficas.

O capitalismo financeiro não produz bens, mas bolhas que inflam todos os EUA e estouram em detrimento do resto do mundo, revelando-se armas de destruição em massa. O setor financeiro estadunidense aspira o valor (capital) do mundo inteiro, investindo-o em uma bolha que cedo ou tarde estourará, obrigando as nações do planeta à austeridade e ao sacrifício para pagar seus fracassos: primeiro a bolha da internet, depois a bolha dos subprimes, que provocou uma das maiores crises financeiras da história do capitalismo, abrindo a porta à guerra. Tentaram também a bolha do capitalismo verde, que nunca decolou, e, enfim e incomparavelmente maior, a bolha das empresas de alta tecnologia.

Para colmatar as brechas dos desastres da dívida privada descarregadas sobre as dívidas públicas, o Federal Reserve e o Banco europeu inundaram os mercados de uma liquidez que, ao invés de “escorrer” para a economia real, serviram para alimentar a bolha das altas tecnologias e o desenvolvimento dos fundos de investimento, conhecidos pelo nome de “Big Three”: Vanguard, BlackRock e State Street (o maior monopólio da história do capitalismo, gerindo 50 000 trilhões de dólares, acionista principal de todas as mais importantes sociedades cotadas na bolsa). Hoje essa bolha também está em vias de murchar.

Se dividirmos por dois a capitalização total da bolsa de Wall Street, estaremos ainda longe do valor real das empresas de alta tecnologia, cujas ações foram inflacionadas por esses mesmos fundos, para manter os dividendos elevados para seus “investidores” (os Democratas também contavam substituir o welfare pelo “financiamento para todos”, como eles tinham delirado outrora com o “casa para todo os estadunidenses”).

Hoje, o festim atinge seu fim. A bolha atingiu seu limite e as ações despencam com um risco real de desmoronamento. Se adicionarmos a isso a incerteza que a política de Donald Trump, representante de um setor financeiro que não é aquele dos fundos de investimento, introduz em um sistema que estes últimos haviam conseguido estabilizar com a ajuda dos Democratas, compreendemos os receios dos “mercados”. O capitalismo ocidental precisa de uma nova bolha, pois ele só conhece a reprodução do idêntico (a tentativa trumpista de reconstruir a indústria manufatureira nos EUA está destinada a um fracasso certo).

A identidade perfeita da “produção” e da destruição

A Europa, que já gasta mais de 60% do valor total das despesas de armamento da Rússia (a OTAN representa 55% das despesas de armamento no mundo, e a Rússia, 5%), deliberou por um grande plano de investimento de 800 bilhões de euros para aumentar ainda mais as despesas militares.

A guerra e a Europa, onde ainda estão ativas as redes políticas e econômicas, os centros de poder que se referem à estratégia representada por Joe Biden, derrotado na última eleição presidencial, são a ocasião para construir uma bolha baseada no armamento, isso para poder compensar as dificuldades crescentes dos “mercados” estadunidenses. Desde dezembro, as ações das empresas de armamento já foram objeto de especulação, indo de alta em alta e desempenhando o papel de ativo de proteção para os capitais que julgam a situação estadunidense muito arriscada.

No coração desta operação estão os fundos de investimento, que são também dos maiores acionistas das grandes empresas de armamento. Eles detêm participações importantes na Boeing, Lockheed Martin e RTX, onde influenciam a gestão e as estratégias. Na Europa, eles estão igualmente presentes no complexo militar-industrial: Rheinmetall, uma empresa alemã que produz os tanques Leopard e cujo curso da ação aumentou 100% no decurso dos últimos meses, conta entre os seus principais acionistas com a Blackrock, a Société Générale, Vanguard etc…

Maior fabricante de munições da Europa, a Rheinmetall ultrapassou o maior construtor automobilístico do continente, a Volkswagen, em termos de capitalização, último sinal do apetite crescente dos investidores pelas ações ligadas à defesa.

A União europeia quer coletar e direcionar a poupança continental para o armamento, com consequências catastróficas para o proletariado e uma nova divisão da própria União. A corrida armamentista não poderá funcionar como um “keynesianismo de guerra”, uma vez que o investimento em armas intervém em uma economia financeirizada e não mais industrial. Construída com dinheiro público, ela beneficiará uma pequena minoria particular, agravando as condições de vida da grande maioria da população.

A bolha do armamento só poderá produzir os mesmos efeitos que a bolha da alta tecnologia estadunidense. Depois de 2008, as somas de dinheiro capturadas para ser investidas na bolha high-tech nunca “escorreram” para o proletariado estadunidense. Ao contrário, elas produziram uma desindustrialização crescente, empregos desqualificados e precários, baixos salários, uma miséria endêmica, a destruição do pouco de welfare herdado do New Deal e a privatização de todos os serviços. É isso que a bolha financeira europeia produzirá na Europa.

A financeirização conduzirá não somente à destruição completa do Estado de bem-estar social e à privatização definitiva dos serviços, mas também à fragmentação política do que resta da União europeia. As dívidas, contraídas por cada Estado separadamente, deverão ser reembolsadas e haverá enormes diferenças entre os Estados europeus quanto à sua capacidade de honrá-las.

O verdadeiro perigo não são os russos, mas os alemães, com seus 500 bilhões para o rearmamento e outros 500 bilhões para as infraestruturas e para os financiamentos decisivos na construção da bolha. A última vez que eles se rearmaram, combinaram as catástrofes mundiais (25 milhões de mortes somente na Rússia soviética, a solução final etc.). A célebre frase de Maruriac foi: “Eu gosto tanto da Alemanha que fico contente que tenham duas”.

Esperando os desenvolvimentos ulteriores do nacionalismo e da extrema direita, já em 21%, que o “Deutschland ist zurück” [A Alemanha está de volta] não deixará de produzir, a Alemanha imporá aos outros países europeus sua hegemonia imperialista habitual. Os alemães abandonarão rapidamente o credo ordo-liberal que não tinha base econômica, mas política, para abraçar de corpo e alma a financeirização anglo-estadunidense, e com o mesmo objetivo: dominar e explorar a Europa. O Financial Times fala de uma decisão tomada por Friedrich Merz, o homem da Blackrock, e Kukies, o ministro do Tesouro vindo de Goldman Sachs, com o aval dos partidos de “esquerda” SPD e Die Linke, que, como seus predecessores em 1914, assumem uma vez mais a responsabilidade das carnificinas por vir.

De tudo isso, que por enquanto permanece um projeto, somente o financiamento alemão parece crível. Quanto aos outros estados, veremos quem terá coragem de reduzir ainda mais radicalmente as pensões, a saúde, a educação etc. por uma ameaça fantasiosa.

Se o imperialismo interior alemão precedente estava fundado sob a austeridade, o mercantilismo das exportações, o congelamento dos salários e a destruição do Estado de bem-estar social, o atual, por sua vez, será fundado sob a gestão de uma economia de guerra europeia hierarquizada segundo os diferenciais de taxas de interesse a serem pagos para reembolsar a dívida contraída.

Os países já fortemente endividados (Itália, França etc.) deverão encontrar quem comprará suas obrigações emitidas para reembolsar suas dívidas, em um “mercado” europeu cada vez mais competitivo. Os investidores terão interesse em comprar as obrigações alemãs, as obrigações emitidas pelas empresas de armamento sob as quais a especulação em alta atuará, e os títulos da dívida pública europeia, certamente mais seguras e mais rentáveis que as obrigações de países superendividados.

O famoso “spread” desempenhará ainda seu papel como em 2011. Os bilhões necessários para pagar os mercados não estarão disponíveis para o Estado de bem-estar social. O objetivo estratégico de todos os governos e oligarquias nos últimos cinquenta anos, qual seja, a destruição das despesas sociais para a reprodução do proletariado e sua privatização, será alcançado.

27 egoísmos[i] nacionais se enfrentarão sem desafio, porque a história, onde “somos os únicos a saber o que é”, nos colocou contra a parede, tornados inúteis e insignificantes depois de séculos de colonialismo, de guerras e de genocídios.

A corrida armamentista é acompanhada de uma justificativa repetida – “estamos em guerra” contra todos (Rússia, China, Coréia do Norte, Iran, BRICS) – que não pode ser abandonada e que corre o risco de se concretizar, porque essa quantidade delirante de armas deve, de todo modo, “ser consumida”.[ii]

A lição de Rosa Luxemburgo, Kalecki, Baran e Sweezy

Somente quem não está bem informado pode se espantar com o que se passa. Tudo está no caminho de se repetir, mas no cenário de um capitalismo financeiro, e não mais industrial como era no século XX.

A guerra e o armamento estão no coração da economia e da política desde que o capitalismo se tornou imperialista. Eles estão, também, no coração do processo de reprodução do capital e do proletariado, concorrendo ferozmente um contra o outro. Reconstituamos rapidamente o quadro teórico fornecido por Rosa Luxemburgo, Kalecki, Baran e Sweezy, solidamente ancorado, contrariamente às inúteis teorias críticas contemporâneas, sobre as categorias do imperialismo, do monopólio e da guerra, que nos oferecem uma imagem da situação contemporânea.

Comecemos pela crise de 1929, que encontra sua origem na Primeira Guerra Mundial e a tentativa de saída ativando as despesas públicas através da intervenção do Estado. Segundo Baran e Sweezy, o inconveniente das despesas públicas nos anos 1930 era seu volume, incapaz de neutralizar as forças depressivas da economia privada.

“Considerado como uma operação de salvamento da economia americana de forma geral, o New Deal foi, assim, um flagrante fracasso. Mesmo Galbraith, o profeta da posteridade sem compromissos de guerra, reconheceu que no curso dos anos 1930-1940, a ‘grande crise’ nunca terminou”.

Somente com a Segunda Guerra mundial que ela teve fim: “Depois veio a guerra, e com a guerra veio a salvação […] as despesas militares fizeram o que as despesas sociais não haviam conseguido”, uma vez que as despesas públicas passaram de 17,5 bilhões de dólares para 103,1 bilhões de dólares.

Baran e Sweezy mostram que as despesas públicas não deram os mesmos resultados que as despesas militares, pois elas estavam limitadas por um problema político que é sempre de atualidade. Por que o New Deal e suas despesas não atingiram um objetivo que “estava à mão, como a guerra provou em seguida”? Porque, sob a natureza e a composição das despesas públicas, isto é, sob a reprodução do sistema e do proletariado, a luta de classes seria desencadeada.

“Dada a estrutura do poder do capitalismo monopolista estadunidense, o aumento das despesas civis havia quase atingido seus limites extremos. As forças que se opunham a uma nova expansão eram muito poderosas para serem vencidas”.

As despesas sociais concorreram ou prejudicaram as empresas e oligarquias, privando-as de seu poder econômico e político. “Como os interesses privados controlam o poder político, os limites das despesas públicas foram fixados de maneira rígida, sem se preocupar com as necessidades sociais, mesmo que estas sejam flagrantes”. E seus limites se aplicariam igualmente às despesas, à saúde e à educação que, à época, contrariamente ao que é hoje, não estavam diretamente competindo com os interesses privados das oligarquias.

A corrida armamentista permite aumentar as despesas públicas do Estado, sem que isso se traduza em um aumento dos salários e do consumo do proletariado. Como o dinheiro público pode ser gasto para evitar a depressão econômica que o monopólio provoca, evitando o fortalecimento do proletariado? “Através de armamentos, de mais armamentos, cada vez mais armamentos”.

Michal Kalecki, trabalhando sob o mesmo período, mas na Alemanha nazista, elucida outros aspectos do problema. Contra todo economicismo, que sempre ameaça a compreensão do capitalismo pelas teorias críticas, mesmo marxistas, ele destaca a natureza política do ciclo do capital: “A disciplina nas fábricas e a estabilidade política são mais importantes para os capitalistas que os lucros correntes”.

O ciclo político do capital, que não pode mais ser garantido pela intervenção do Estado, deve recorrer às despesas de armamento e ao fascismo. Para Michal Kalecki, o problema político se manifesta igualmente na “orientação e objetivos das despesas públicas”. A aversão pela “subvenção do consumo de massa” é motivada pela destruição “do fundamento da ética capitalista do ‘tu ganharás teu pão com o suor de tua testa’ (a menos que tu vivas dos rendimentos do capital)”.

Como garantir que as despesas do Estado não se transformem em aumento de emprego, do consumo e dos salários, e, assim, em força política do proletariado? O inconveniente para as oligarquias é superado com o fascismo, pois a máquina de Estado está sob o controle do grande capital e da direção fascista, com “a concentração de despesas do Estado no armamento”, enquanto que “a disciplina da fábrica e a estabilidade política estão asseguradas pela dissolução dos sindicatos e pelos campos de concentração. A pressão política substitui a pressão econômica do desemprego”. Daí o imenso sucesso dos nazistas junto à maioria dos liberais tanto britânicos quanto estadunidenses.

A guerra e as despesas com armamento estão no coração da política estadunidense, mesmo após o fim da Segunda Guerra mundial, pois uma estrutura política sem força armada, quer dizer, sem o monopólio do seu exercício, é inconcebível. O volume do aparelho militar de uma nação depende de sua posição na hierarquia mundial de exportação. “As nações mais importantes terão sempre necessidades mais importantes, e a extensão de suas necessidades (em forças armadas) irá variar conforme se desenrolará ou não entre eles uma luta acirrada pelo primeiro lugar”.

As despesas militares continuaram a crescer, portanto, no centro do imperialismo: “Claro, a maior parte da expansão das despesas públicas esteve ligada ao setor militar, que passou de menos de 1% para mais de 10% do PIB e que representou cerca de dois terços do aumento total das despesas públicas desde 1920. Essa absorção massiva do excedente nos preparativos limitados foi o fator central da história estadunidense no pós-guerra”.

Michal Kalecki sublinha que em 1966, “mais da metade do crescimento da receita nacional provém do crescimento das despesas militares”.

Ora, após a guerra, o capitalismo não podia mais contar com o fascismo para controlar as despesas sociais. O economista polonês, “aluno” de Rosa Luxemburgo, assinalou: “Uma das funções fundamentais do hitlerismo foi superar a aversão do grande capital por uma política anticonjuntural em grande escala. A grande burguesia tinha dado seu consentimento com o abandono do laisser-faire e com o crescimento radical do papel do Estado na economia nacional, com a condição de que o aparelho de Estado estivesse sob o controle direto de sua aliança com a direção fascista”, e que a destinação e o conteúdo das despesas públicas fossem determinados pelo armamento.

Nos Trinta Gloriosos, sem que o fascismo assegurasse a orientação das despesas públicas, os Estados e os capitalistas fizeram concessões que são, de toda maneira, compatíveis com os lucros, alcançando taxas de crescimento desconhecidas até então. Mas mesmo esse compromisso foi demais, pois, apesar dos lucros importantes, “os trabalhadores tornam-se, então, ‘recalcitrantes’, e os ‘capitães da indústria’ estão preocupados em lhes ‘dar uma lição’”.

A contrarrevolução, que se desenvolveu a partir do final dos anos 1960, tinha como centro de destruição as despesas sociais e a vontade feroz de orientar as despesas públicas na direção dos únicos e exclusivos interesses das oligarquias. O problema, desde a República de Weimar, nunca foi uma intervenção genérica do Estado na economia, mas o fato de que o Estado tinha sido investido pela luta de classes e que tinha sido forçado a ceder às exigências das lutas das trabalhadoras e proletárias.

Nos tempos “tranquilos” da Guerra Fria, sem a ajuda do fascismo, a explosão das despesas militares precisou de uma legitimação, assegurada por uma propaganda capaz de evocar continuamente a ameaça de uma guerra iminente, de um inimigo à porta prestes a destruir os valores ocidentais: “Os criadores oficiais e não oficiais da opinião pública têm a resposta sempre pronta: os USA devem defender o mundo livre contra a ameaça de uma agressão soviética (ou chinesa)”.

Michal Kalecki, no mesmo período, precisa: “Os jornais, o cinema, as estações de rádio e de televisão trabalhando sob a égide da classe dirigente criam uma atmosfera que favorece a militarização da economia”.

As despesas em armamento não têm somente uma função econômica, mas também uma função de produção de subjetividades assujeitadas. Exaltando a subordinação e o comando, a guerra “contribui para a criação de uma mentalidade conservadora”.

“Enquanto as despesas públicas massivas em favor da educação e da proteção social tendem a minar a posição privilegiada da oligarquia, as despesas militares fazem o contrário. A militarização favorece todas as forças reacionárias, […] um respeito irrefletido e de submissão à autoridade é determinada; uma conduta de conformidade e de submissão é ensinada e imposta; e a opinião contrária é considerada como antipatriótica, vista como uma traição”.

O capitalismo produz um capitalista que, precisamente em razão da forma política de seu ciclo, é um semeador da morte e da destruição, em vez de um promotor do progresso. Richard B. Russell, senador conservador do Sul dos EUA nos anos 1960, citado por Baran e Sweezy, diz: “há alguma coisa nos preparativos de destruição que incita os homens a gastar dinheiro mais inconsideradamente do que se fosse destinado a fins construtivos. Eu não sei por que isso se produz, mas nos cerca de trinta anos em que ocupei um assento no Senado, eu me dei conta de que comprando armas para matar, destruir, riscar cidades da face da terra e eliminar grandes sistemas de transporte, há alguma coisa que faz com que os homens não calculem as despesas cuidadosamente como fazem quando se trata de pensar uma moradia decente e de cuidados à saúde dos seres humano”.

A reprodução do capital e do proletariado politizou-se através das revoluções do século XX. A luta de classes engendrou igualmente uma oposição radical entre a reprodução da vida e a reprodução de sua destruição, que não fez mais do que se aprofundar desde os anos 1930.

Como funciona o capitalismo

A guerra e o armamento, praticamente excluídos de todas as teorias críticas do capitalismo, funcionam como os discriminantes nas análises do capital e do Estado.

É muito difícil definir o capitalismo como um “modo de produção”, como o fez Marx, porque a economia, a guerra, a política, o Estado, a tecnologia são elementos estritamente ligados e inseparáveis. A “crítica da economia” não é suficiente para produzir uma teoria revolucionária. Desde o advento do imperialismo, uma mudança radical no funcionamento do capitalismo e do Estado se produz, colocando em evidência – por Rosa Luxemburgo – por que a acumulação tem dois aspectos.

O primeiro “concerne à produção da mais-valia – na fábrica, na mina, na exploração agrícola – e a circulação de mercadorias no mercado. Visto por este ângulo, a acumulação é um processo econômico cuja fase mais importante é uma transação entre o capitalista e o assalariado”. O segundo aspecto tem por teatro o mundo inteiro, uma dimensão mundial irredutível ao conceito de “mercado” e suas leis econômicas.

“Aqui, os métodos empregados são a política colonial, o sistema de empréstimos internacionais, a política de esferas de interesse, a guerra. A violência, a trapaça, a opressão, a predação se desenvolvem abertamente, sem máscara, e sendo difícil de reconhecer as leis estritas do processo econômico no emaranhamento da violência econômica e da brutalidade política”.

A guerra não é uma continuação da política, mas sempre coexistiu com ela, como mostra o funcionamento do mercado mundial. Onde a guerra, a fraude e a predação coexistem com a economia, a lei do valor jamais funcionou verdadeiramente. O mercado mundial é muito diferente daquele esboçado por Marx. Suas considerações parecem não mais se aplicar, ou melhor, devem ser precisadas: não é senão no mercado mundial que o dinheiro e o trabalho tornam-se adequados ao seu conceito, fazendo frutificar sua abstração e sua universalidade.

Pelo contrário, constatamos que a moeda, a forma mais abstrata e a mais universal do capital, é sempre a moeda de um Estado. O dólar é a moeda do EUA e só reina enquanto tal. A abstração da moeda e sua universalidade (e seus automatismos) são apropriadas por uma “força subjetiva” e são geridas segundo uma estratégia que não está contida na moeda.

Mesmo o setor financeiro, como a tecnologia, parece ser o objeto de uma apropriação pelas forças subjetivas “nacionais”, muito pouco universais. Sob o mercado mundial, mesmo o trabalho abstrato não triunfa enquanto tal, mas encontra outras formas radicalmente diferentes de trabalho (trabalho servil, trabalho escravo etc.) e o faz objeto de estratégias.

A ação de Donald Trump, tendo feito cair o véu hipócrita do capitalismo democrático, nos revela o segredo da economia: ela não pode funcionar senão a partir de uma divisão internacional da produção e da reprodução definida imposta politicamente, isto é, pelo uso da força, o que implica também a guerra.

A vontade de explorar e dominar, gerindo simultaneamente as relações políticas, econômicas e militares, constrói uma totalidade que não pode nunca se fechar sob si mesma, mas permanece sempre aberta, cindida pelos conflitos, as guerras, as predações. Nessa totalidade fragmentada, todas as relações de força convergem e se governam elas mesmas.

Donald Trump intervém no uso das palavras, mas também nas teorias de gênero, ao mesmo tempo em que gostaria de impor um novo posicionamento mundial, tanto político quanto econômico, dos EUA. Do micro ao macro, uma ação política dos movimentos contemporâneos está longe sequer de ser pensada.[iii]

A construção da bolha financeira, processo que podemos seguir passo a passo, se desenrola da mesma maneira. Os atores implicados em sua produção são numerosos: a União europeia, os Estados que devem endividar-se, o Banco europeu de investimento, os partidos políticos, as mídias e a opinião pública, os grandes fundos de investimentos (todos estadunidenses) que organizam o transporte dos capitais de uma bolsa à outra, as grandes empresas.

Somente após o veredito de confronto/cooperação entre os centros de poder é que a bolha econômica e seus automatismos poderão funcionar. Há toda uma ideologia do automatismo a ser desmontada. O “piloto automático”, principalmente a nível financeiro, não existe e não funciona senão após ter sido politicamente colocado em ordem. Ele não existiu nos anos 1930 porque foi decidido politicamente; ele funciona desde o final dos anos 1970, por uma vontade política explícita.

Essa multiplicidade de atores que se agitam há meses está soldada por uma estratégia. Há, então, um elemento subjetivo que intervém de maneira fundamental. Na verdade, há dois. Do ponto de vista capitalista, há uma luta feroz entre o “fator subjetivo” de Donald Trump e o “fator subjetivo” das elites que foram derrotadas na eleição presidencial, mas que ainda tem forte presença nos centros de poder dos EUA e da Europa.

Mas, para que o capitalismo funcione, é preciso também ter em conta um fator: o do proletariado subjetivo. Ele desempenha um papel decisivo, porque ou se tornará o portador pacífico do novo processo de produção/reprodução do capital, ou terá que rejeitá-lo e destruí-lo. Dada a incapacidade do proletariado contemporâneo, o mais débil, o mais desorientado, o menos autônomo e independente da história do capitalismo, a primeira opção parece a mais provável.

Mas se ele não conseguir opor sua própria estratégia às inovações estratégicas permanentes do inimigo, capazes de se renovar sem cessar, cairemos em uma assimetria de relações de força que nos trará de volta a um tempo anterior ao da Revolução francesa, em um “antigo regime” simultaneamente novo e já visto.

*Maurizio Lazzarato, sociólogo e filósofo, é professor na Université Paris VIII – Vincennes – Saint-Denis. Autor, entre outros livros, de O governo das desigualdades: crítica da insegurança neoliberal (edUFSCar). [https://amzn.to/3LgKDUK]

Tradução: Lucas Donhauser & Danichi Hausen Mizoguchi.

Publicado originalmente em Lundimatin #498.

Notas dos tradutores


[i] Referência direta aos 27 países que compõem a União europeia.

[ii]Consommée” também tem o sentido de consumada.

[iii] A questão em torno da ação política dos movimentos contemporâneos a que se refere Lazzarato, alusão direta ao proletariado, será esclarecida no último parágrafo do texto.

domingo, 18 de janeiro de 2026

 

O Impensável acontece? – por Boaventura de Sousa Santos

By António Gomes Marques on 17 de Janeiro de 2026

O Impensável acontece?

por Boaventura de Sousa Santos

 

A história moderna é abundante em acontecimentos de tal modo extraordinários, aberrantes, revoltantes e surpreendentes que apetece exclamar: como é possível!? Normalmente, esta exclamação, enquanto fenómeno generalizado, não surge no momento em que tais acontecimentos têm lugar, mas anos ou séculos depois: como foi possível!? O espanto é de tal ordem que, muitas vezes, o que aconteceu ultrapassa, não só os limites do que é possível, como também os limites do que é pensável: como acontece ou aconteceu o impensável!?

Quando o grande historiador de arte, E. H. Gomrich, se dispôs a escrever (em seis semanas) o livro Uma Pequena História do Mundo para Jovens Leitores (Eine Kurze Weltgeschichte für junge Leser), publicado em Viena em 1935, o seu objectivo era ensinar história aos jovens. O livro teve um enorme êxito e foi depois várias vezes actualizado. Um dos leitmotivs da narrativa é precisamente mostrar aos jovens o modo como na história acontecem frequentemente coisas que parecem estar para além do possível, ou mesmo do pensável. E o mais estranho é que tais acontecimentos só são conhecidos muitos anos depois. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, nem ele (que emigrara para a Inglaterra em 1936 e trabalhava na BBC) nem a grande maioria dos alemães ou dos europeus sabia ou podia imaginar o horror dos crimes que estavam a ser cometidos contra os judeus (o Holocausto). Como é evidente, os exemplos poderão multiplicar-se. Como se poderia pensar que cristãos convictos (fossem eles portugueses, espanhóis ou peregrinos do Mayflower) se pudessem entregar ao horrível extermínio dos povos originários das Américas entre os séculos XVI e XIX? E quem saberia do que se passava no momento em que se passava? Claro que houve testemunhos contemporâneos muito eloquentes, como o de Bartolomé de las Casas, mas a sua voz era uma excepção e pouco ouvida. Quem poderia imaginar, e quantos belgas saberiam, que o civilizadíssimo Rei Leopoldo II organizava o extermínio de 50 a 75% da população do Congo em pouco mais de duas décadas (1885-1908)?

Hoje tudo parece diferente no que respeita ao conhecimento, mas não no que respeita à ocorrência do que se considera impossível ou sequer impensável. Devido à revolução nas tecnologias de informação e de comunicação, hoje sabemos em tempo real o que acontece no mundo. E o que acontece também nos leva muitas vezes a exclamar: é possível? É pensável?  Genocídios no Ruanda, Sudão e Palestina; propostas de compra de países (Gronelândia); captura por potência estrangeira de Presidentes em pleno exercício de funções de países soberanos (Venezuela); invasão e ocupação de países estrangeiros para segurança dos cidadãos do país invasor (Vietname, Iraque, Afeganistão); criminosos de guerra condenados pela justiça internacional viajando livremente no espaço aéreo de países signatários dos tratados e instituições da justiça internacional (Netanyahu, Putin); fragmentação de países como estratégia de dominação (Líbia, Síria, Sudão, Somália); regresso da pirataria no alto mar.

Este elenco levanta três questões. Porque é que o que parece impossível ou mesmo impensável acontece? Saberemos tudo o que está a acontecer, apesar de ser considerado impossível ou impensável? O facto de podermos saber que acontece o que parece ser impossível ou impensável é relevante?

Porque é que o impensável acontece

O impensável acontece porque em cada período histórico se cria uma ideia dominante de natureza humana que não permite conceber e muito menos prevenir que o impensável aberrante ou catastrófico aconteça porque precisamente não se considera o que acontece nem aberrante nem catastrófico. Desde o século XVII, a sociedade eurocêntrica moderna desenvolveu a ideia de que é próprio da natureza humana lutar pela evolução positiva e irreversível da sociedade. Chamou-se a esta ideia: progresso. Mas o progresso tem um custo porque não há progresso sem luta. Esta ideia está tão presente em Malthus como em Darwin e Marx. A luta e o custo do progresso significam que não é possível realizar os ideais do progresso sem cometer acções que contrariam esses ideais.

Para que essa contradição não seja politicamente visível é fundamental desumanizar os grupos sociais que perdem nessa luta e sofrem os custos correspondentes. Assim construída, a ideia do progresso não tem nada a ver com o bem-estar das populações. É que só contam como populações dignas de bem-estar as que têm poder para impor custos sem os sofrer. Essas populações podem ser cada vez mais minoritárias, mas isso em nada afecta a ideia de progresso. Aliás, haverá tanto mais progresso quanto mais selectivo ele for. Os bilionários de hoje são a melhor ilustração disso mesmo. A ideia do progresso não pode pensar a ideia do retrocesso. Só os grupos que perdem na luta e sofrem os custos é que podem questionar o progresso.  O império, quando se vê ao espelho, nunca vê o seu declínio.

Se atentarmos, por exemplo, no discurso do actual representante máximo do máximo progresso em máximo declínio, Donald Trump, é fácil concluir que a dicotomia que orienta o seu pensamento (se pensar for igual a falar) não é a de amigo/inimigo, nem sequer a de cidadão/estrangeiro. É a dicotomia humano/sub-humano. Quem discordar dele, por mais amigo ou cidadão que seja, passa de imediato à categoria de sub-humano.

O impensável acontece porque quem tem poder para que ele aconteça tem também o poder para que ele não seja considerado impensável. O impensável acontece abruptamente, mas é sempre lentamente gerado e preparado. A sua gestação tem várias componentes.

A primeira componente é o trabalho ideológico que tem uma forte componente semiótica. Trata-se, por exemplo, de eliminar certas palavras e substituí-las por outras que neutralizem a carga política ou ética e naturalizem o novo normal. Assim se substitui capitalismo por economia de mercado. Flexibilidade laboral tem uma carga ideológica oposta a precariedade laboral e, no entanto, significam o mesmo na vida dos trabalhadores. Outro procedimento ideológico tem o sentido oposto: magnificar ou demonizar o alvo de modo a justificar uma reacção extrema:  a queda do dólar convertida em apocalipse; o político hostil convertido em ditador ou terrorista para que o político amigo pareça o contrário sem deixar de ser ditador ou terrorista; usar recorrentemente a expressão “sem precedentes” para magnificar agressões repetidamente praticadas.

A segunda componente consiste na informação selectiva de modo a fazer crer que a ponta do iceberg é o iceberg todo. Assim se fez, no domínio da energia atómica, até ao impensável das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Assim se fará com a inteligência artificial.

A terceira componente consiste em substituir tragédias humanas por estatísticas. A vida humana é uma qualidade enquanto um número de vidas ou de mortes é uma quantidade. Mas, neste caso, a chave consiste em ter poder para não deixar converter a quantidade numa nova qualidade. Depois da Segunda Guerra Mundial, os judeus, em colaboração com todos os democratas do mundo, conseguiram converter a quantidade numa nova qualidade: os seis milhões de mortos converteram-se no Holocausto. Pelo contrário, o povo palestiniano pode vir a ser eliminado sem que os palestinianos e os democratas do mundo tenham poder para transformar os milhares de crianças intencionalmente assassinadas em política de extermínio.

Finalmente, a quarta componente consiste em baixar progressivamente as expectativas de paz, de convivência democrática ou de bem-estar até que se torne irrelevante prescindir delas. Quando os cidadãos e as cidadãs apenas foram livres para ser miseráveis estaremos perante a miséria da liberdade.

Podemos concluir que o impensável só é impensável para a generalidade da população que é confrontada com a sua abrupta ocorrência. Mas foi paulatinamente pensado e por isso acontece.

Porque não sabemos tudo

Em cada período histórico, o contexto político-cultural dominante impõe limites ao que se determina ser a natureza humana. Na nossa época, o contexto dominante é o cientismo. Da etologia à biologia, da psicologia às neurociências é a ciência contemporânea que determina o que é a natureza humana, suas potencialidades e seus limites. O que a ciência não vê, não se vê. Como no actual contexto a ciência determina o que é a natureza humana, torna-se impossível pensar o contexto que torna possível esta ciência, e não outra. Tinha razão Kropotkin quando dizia: “Sim, sem dúvida, devemos basear a nossa teoria social na teoria biológica, mas então olhemos de novo para a teoria biológica”. Ora, enquanto na biologia do biólogo Darwin havia luta e competição, na biologia do biólogo Kropotkin havia cooperação e solidariedade.

Tendo isto em vista, muita monstruosidade pode estar a ser gerada ou já a acontecer sem sabermos e bem perto de nós, nos laboratórios das nossas universidades e das grandes empresas. Os monstros familiares parecem-se muito com a normalidade.

A ocultação tende a ser maior na medida em que se confundirem três conceitos: verdade, inverdade e mentira. A verdade é, de facto, a busca da verdade. São muitos os caminhos, mas o objectivo é um só, mesmo que nunca se alcance. A inverdade é a falsidade ou alta improbabilidade que se profere pensando que é verdade. O contexto político e financeiro em que a ciência é hoje produzida faz com que a inverdade ocorra frequentemente. Pelo contrário, a mentira é a falsidade que se diz sabendo-se que não é verdade. A mentira está fora do campo do cientismo, mas a promiscuidade do cientismo com a política faz com que esta recorra à mentira e a faça passar credivelmente por verdade ou inverdade.

É por esta razão que, ao ouvir certos políticos, um cidadão avisado pense num conselho de Santo Agostinho que Montaigne cita no nono ensaio (sobre os mentirosos): “estamos melhor na companhia de um cão que conhecemos do que na companhia de um homem cuja linguagem não entendemos”

Porque pensar o impensável é hoje irrelevante

O cientismo assenta numa ideia central: a ciência não é política nem ética. As aplicações da ciência podem ter implicações políticas ou éticas, mas a ciência em si não as tem. Para o cientismo só há duas categorias de pensamento: o pensado e o ainda não pensado. O impensável é irrelevante. Tudo isto porque a ciência só pode responder a perguntas formuladas cientificamente. Ora a categoria do impensável, tal como a da espiritualidade, da felicidade ou da transcendência, não pode ser formulada cientificamente. Logo, tal como a espiritualidade, a felicidade ou a transcendência, o impensável não existe como pergunta.

Se contra a corrente olharmos para a realidade numa perspectiva política ou ética, verificamos que o impensável de que até agora falei – o acontecimento extremamente aberrante, repugnante, catastrófico – é apenas um dos impensáveis. De facto, há dois tipos de impensáveis: o positivo e o negativo. O primeiro acciona a esperança e o segundo acciona o medo. Parecem excluir-se mutuamente, mas um não existe sem o outro. O impensável negativo é o que me tem ocupado neste texto. O impensável positivo é o de uma sociedade ideal ou de uma vida individual idealmente plena onde os problemas que a sociedade e os indivíduos hoje enfrentam estejam superados sem que outros novos e graves venham ocupar o seu lugar. No contexto da modernidade eurocêntrica o impensável positivo é a utopia. A ideia da utopia realista é uma contraditio in adjecto.

 O contexto do cientismo actual torna impossível imaginar o impensável positivo. Kropotkin perdeu a batalha. Não sei se perdeu a guerra. Política, cultural e eticamente tornou-se impossível imaginar uma sociedade alternativa onde os impensáveis negativos do nosso tempo (tanto os conhecidos do público como os desconhecidos) não pudessem acontecer. O cientismo dominante naturalizou tanto a natureza humana como o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.

O problema é que a impossibilidade do impensável positivo naturaliza o impensável negativo, ocultando a sua negatividade. É a sempre nova e sempre velha normalidade. Lutar contra esta torna-se impossível e utópico precisamente porque a possibilidade de utopias realistas é ... utópica.

Não se trata de uma fatalidade histórica. Trata-se antes de um contexto específico que António Gramsci designou como interregno: o mundo velho em que os horrores mais impensáveis são cada vez mais frequentes e “naturais” ainda não morreu totalmente enquanto o mundo novo de alternativas solidárias, pacíficas, justas entre seres humanos e entre estes e a natureza ainda não nasceu plenamente. É um contexto trágico em que a liberdade se confunde com a necessidade e em que o risco do destino funesto está em acreditar que forças ocultas e invencíveis controlarão para sempre as nossas vidas. Faltam-nos coveiros do velho e parteiras do novo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

É O DÓLAR!

 

ESTÁTUA DA LIBERDADE

Venezuela: quem se mete com o dólar, leva!

 Luís Gomes|

05/01/2026

 

No passado sábado, na Venezuela, consumou-se mais um acto solene do teatro imperial contemporâneo. Os Estados Unidos lançaram uma operação militar de grande envergadura, com bombardeamentos sobre Caracas e outras zonas sensíveis do território, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, conduzidos a solo norte-americano para enfrentarem acusações criminais.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, sem rodeios nem pudor, que o país seria “gerido temporariamente” por Washington. A linguagem é reveladora: não se fala de soberania, nem de autodeterminação, nem sequer de transição negociada. Fala-se de administração, como se um país fosse uma massa falida, um condomínio mal gerido, uma colónia regressada ao seu tutor natural.

Vintage gas pumps on a deserted seashore with a clear sky and ocean view.

Perante este quadro, impõe-se a pergunta elementar, aquela que precede todas as outras e que raramente é respondida com honestidade: para que serviu esta intervenção?

Uns dizem que foi para combater o narcotráfico, como se as drogas fossem um fenómeno exógeno que cai do céu tropical sobre as cidades norte-americanas. Outros afirmam que se tratou de restaurar a “liberdade” do povo venezuelano – curiosamente, à bomba, ao míssil, à prisão do chefe de Estado, numa pedagogia que faria corar qualquer tirano do século XX. Outros ainda apontam para o petróleo, e não sem razão: a Venezuela possui reservas estimadas entre 300 e 303 mil milhões de barris de crude, cerca de 17 a 20% das reservas globais, superiores às da Arábia Saudita. Quando a realidade é incómoda, multiplica-se a retórica; quando o motivo é simples, inventam-se justificações morais.

Comecemos pelo primeiro argumento, o mais gasto e talvez o mais cínico: o combate ao narcotráfico. O proibicionismo moderno, erigido como cruzada moral em 1971, iniciou-se num contexto em que cerca de 1 a 2% da população norte-americana apresentava dependência de drogas. Meio século depois, após décadas de guerra declarada, de repressão policial, de encarceramento em massa, de vigilância e controlo, o problema não diminuiu: multiplicou-se.

1 U.S.A dollar banknotes

O número de dependentes é hoje várias vezes superior ao de então. Se os Estados Unidos quisessem, genuinamente, resolver o problema das drogas, a solução seria simples e já conhecida: pôr termo ao proibicionismo, retirar o negócio ao crime organizado, tratar a dependência como uma questão de saúde e responsabilidade individual. Mas isso não interessa. O proibicionismo não é um fracasso acidental; é um instrumento funcional. Serve de pretexto para intervenção externa, para financiamento de aparelhos repressivos, para expansão do Estado penal e para exportação do caos sob a capa da moral.

Passemos ao segundo argumento: a “libertação dos povos”. Mais de metade da população mundial vive sob regimes autoritários ou ditaduras declaradas. Se a solução “ética e lúcida” para cada tirania é chamar o império de serviço, então abrimos a porta à intervenção permanente: África, Médio Oriente, Ásia, América Latina – não sobra um continente incólume. Isso não é realismo político; é guerra sem fim. O critério deixa de ser a justiça e passa a ser a conveniência do mais forte – a lei da selva, a única que se aplica entre Estados, organizações criminosas por excelência –, aplicada de forma selectiva, arbitrária e interessada. Ditaduras amigas são toleradas; ditaduras desalinhadas são demonizadas. A moral varia conforme a latitude e o subsolo.

Além disso, convém desfazer um equívoco persistente: as chamadas democracias não são moralmente superiores por definição. São, em muitos casos, ditaduras da maioria, sustentadas por eleições onde se promete roubar uma minoria para comprar os votos da maioria. O mecanismo é mais sofisticado, mais polido, mais decorado com linguagem jurídica e cerimónia institucional, mas a essência permanece: coerção legitimada pela maioria que deseja assaltar a outra parte. Não é virtude; é aritmética. Quem aceita um salvador armado abdica, desde logo, da própria dignidade política.

U.S. American flags under clear sky

Resta o petróleo, o argumento que muitos repetem como se fosse a chave de tudo. Mas também aqui a análise exige sobriedade. Os Estados Unidos são, há vários anos, o maior produtor de petróleo do mundo, à frente da Arábia Saudita e da Rússia. Produzem energia suficiente para cobrir o seu consumo interno e, desde 2019, são exportadores líquidos de energia. Importam petróleo, sim, mas por razões logísticas, de refinação e de qualidade do crude: importam alguns tipos pesados e exportam outros mais leves. Não precisam do petróleo de ninguém para sobreviver. Importam e exportam por eficiência económica, não por necessidade vital. O petróleo venezuelano, por si só, não explica aviões, helicópteros e bombardeamentos.

A razão principal é outra, mais funda e mais perigosa: a defesa do dólar norte-americano. Desde a Segunda Guerra Mundial, ao tornarem-se emissores da moeda reserva do mundo, os Estados Unidos habituaram-se a um privilégio exorbitante: imprimir dinheiro e comprar ao resto do mundo aquilo que este produz.

Não é casual que a produção industrial norte-americana seja hoje uma sombra do que foi, quer no pós-guerra imediato, quer mesmo há algumas décadas. A fábrica do mundo é hoje a China. O dólar permitiu aos norte-americanos viverem sistematicamente acima do que produzem, exportando inflação e importando bens reais. É um estatuto que nenhum império abdica voluntariamente. A história ensina-o: a perda do estatuto de moeda reserva termina quase sempre com violência.

architectural photograph of lighted city sky

Sempre que um país necessita de comprar petróleo – a principal fonte de energia do sistema económico moderno – tem, regra geral, de adquirir dólares norte-americanos para efectuar os pagamentos. Essa procura estrutural por dólares norte-americanos permite aos Estados Unidos exportar inflação para o resto do mundo, sem sofrerem as consequências que qualquer outro país sofreria. A inflação torna-se global; o benefício é local. É este mecanismo, e não uma súbita paixão pela “liberdade dos povos”, que sustenta a política externa norte-americana.

É aqui que a Venezuela entra como problema. Há anos que o regime venezuelano procura afastar-se do dólar norte-americano. Em Setembro de 2017, anunciou oficialmente que passaria a cotar o preço do petróleo em iuane chinês, abandonando a referência exclusiva ao dólar norte-americano, como resposta directa às sanções norte-americanas.

O próprio Ministério do Petróleo publicou preços nesse formato, gesto simbólico mas politicamente explosivo. Em 2019, surgiram relatos de ofertas de pagamento a fornecedores e contratados através de contas em iuane mantidas na China, precisamente para evitar os sistemas financeiros em dólares norte-americanos bloqueados pelo OFAC (Office of Foreign Assets Control dos EUA). Durante algum tempo, os preços do petróleo venezuelano foram efectivamente publicados em iuane chinês, sinal claro de intenção estratégica. Não se tratou de uma transição total e imediata, mas de uma ruptura progressiva, e isso bastou.

assorted banknotes

Por isso sofreu o golpe. O regresso das grandes empresas petrolíferas à Venezuela implicará, quase inevitavelmente, o regresso da venda de petróleo exclusivamente em dólares norte-americanos. O argumento de que tal intervenção serve para reparar antigas nacionalizações não resiste a um exame sério.

Os Estados Unidos são peritos em confiscar o petróleo dos outros quando lhes convém. Síria e Iraque são exemplos recentes de um desprezo absoluto pela propriedade alheia, a que se somam as frequentes apreensões de petroleiros em águas internacionais. A propriedade privada só é sagrada quando pertence aos aliados certos.

O padrão é claro e repete-se com regularidade. No Iraque, Saddam Hussein anunciou, em 2000, que o petróleo passaria a ser vendido em euros. Seguiram-se sanções, invasão em 2003, derrube do governo e retorno imediato do petróleo ao dólar norte-americano. Na Líbia, Muammar Gaddafi defendeu um dinar de ouro africano e comércio energético fora do dólar norte-americano. O resultado foi a intervenção da NATO em 2011, a destruição do Estado, o desaparecimento das reservas de ouro, mercados de escravos a céu aberto, e um país fragmentado até hoje.

Na Venezuela, sob Chávez e Maduro, assistimos a tentativas de vendas em iuane e acordos fora do sistema bancário norte-americano, seguidas de sanções severas, bloqueio da PDVSA (a petrolífera do estado venezuelano), asfixia económica prolongada e uma mudança de regime tentada, agora consumada pela força.

Há ainda o caso que muitos preferem esquecer, talvez por ser demasiado claro: o Irão. Em 2008, criou uma bolsa de petróleo com contratos em euros, rial e iuane, recusando explicitamente o dólar norte-americano. O resultado foi previsível: décadas de sanções, exclusão do sistema SWIFT, pressão militar constante, operações encobertas e sabotagem. É talvez o exemplo mais limpo do padrão depois do Iraque.

Há o caso grande demais para “resolver” da mesma forma: a Rússia. Desde 2014, após o golpe de estado perpetrado pelos EUA, que depôs um presidente ucraniano eleito democraticamente, reduziu o uso do dólar norte-americano e celebrou acordos energéticos em rublos, iuane e ouro.

sunset

Após 2022, exigiu pagamentos de gás em rublos. O resultado foi um pacote maciço de sanções, congelamento de reservas, guerra económica aberta e um conflito militar indirecto na Ucrânia. Aqui não houve mudança de regime rápida porque há armas nucleares. A variável decisiva é sempre a mesma: capacidade de dissuasão.

Casos em observação multiplicam-se. A Síria, alinhada com Irão e Rússia, recusou a arquitectura financeira ocidental e foi mergulhada numa guerra prolongada, com sanções e fragmentação territorial. A China criou o petroiuane, contratos de petróleo em iuane convertíveis em ouro, e enfrenta hoje pressão comercial, guerra tecnológica e cerco geopolítico. Aqui o confronto é estrutural, não militar directo – por enquanto.

Energia é poder. O dólar é o instrumento de controlo, a base em que assenta o império norte-americano. Quem tenta sair do sistema é sancionado, isolado ou destruído. Sem dissuasão, cai; com dissuasão nuclear, entra-se numa guerra longa e indirecta. Isto não é teoria da conspiração; é geopolítica monetária elementar.

Desde o fim do padrão-ouro, o mundo tornou-se totalmente dependente da infra-estrutura do dólar, um império que começa a ruir, visível nas fracturas abertas pela guerra na Ucrânia e pelos acordos energéticos fora do dólar norte-americano entre Rússia e China. O império apela ao direito internacional quando lhe convém e ignora-o quando o contraria. As fronteiras são sagradas, excepto quando estão sobre petróleo, rotas estratégicas ou moedas indisciplinadas.

O ponto de partida é simples e raramente explicitado: o dólar norte-americano não é dominante apenas porque é usado, mas porque se tornou a moeda reserva do mundo desde a segunda guerra mundial. Qualquer transacção que toque no dólar norte-americano, ou que atravesse um banco correspondente sediado nos Estados Unidos, cai automaticamente sob jurisdição norte-americana, ainda que nenhuma das partes seja norte-americana e a operação ocorra integralmente fora do território dos EUA.

Uma empresa portuguesa pode comprar petróleo a uma empresa angolana, ambas em pleno acordo e sem qualquer conflito jurídico entre si; se o pagamento for feito em dólares norte-americanos, esse pagamento terá de passar por um banco correspondente em Nova Iorque, ficando sujeito às regras, sanções e listas do Departamento do Tesouro e da OFAC. O dólar norte-americano transforma um negócio externo num assunto interno dos Estados Unidos. Isto não é uma anomalia: é jurisdição extraterritorial de facto, normalizada e aceite como se fosse uma lei da natureza.

brown and white concrete building

Este poder não se exerce directamente, mas através de um filtro silencioso: o sistema de branqueamento de capitais. O AML (políticas de combate ao branqueamento de capitais) funciona como um porteiro do sistema financeiro global, com uma pergunta implícita e não negociável: “queres operar no mundo?” – então terás de cumprir regras que não definiste. KYC (Conhece o teu Cliente) detalhado, monitorização permanente, reporte de transacções suspeitas e cooperação estreita com as autoridades, sobretudo norte-americanas, tornaram-se condições de existência.

Formalmente, os padrões são definidos por entidades multilaterais como o GAFI (liderada por burocratas não eleitos e totalmente desconhecidos); na prática, alinham-se com os interesses estratégicos dos Estados Unidos e dos seus aliados. Não se trata de combater crime, mas de condicionar o acesso. O sistema não pergunta se algo é justo ou legítimo; pergunta se é compatível com a arquitectura dominante.

O verdadeiro gargalo está nos bancos correspondentes. Mesmo um banco europeu, a operar em euros e a servir clientes não norte-americanos, depende estruturalmente do acesso ao dólar norte-americano para o comércio internacional, energia, matérias-primas e liquidação final. Se violar – ou apenas se aproximar perigosamente – das regras AML ou das sanções dos EUA, perde esse acesso e fica morto do ponto de vista funcional.

a yellow sign with black text

Não é preciso encerrar o banco; basta cortar o dólar. É por isso que bancos europeus já pagaram multas multimilionárias por violarem sanções norte-americanas, mesmo quando não infringiram qualquer lei local. É por isso que o cumprimento com excesso de zelo se tornou regra: perante um cliente venezuelano, iraniano ou russo, perfeitamente legal à luz do direito europeu, o banco prefere recusar. Não por justiça, mas por medo. O AML deixa de ser jurídico e passa a ser preventivo.

Daí a parte mais desconfortável: na prática, o AML não elimina o grande crime financeiro. A lavagem sistémica, os fluxos gigantescos através de fundos, veículos offshore e instituições “grandes demais para cair” continuam a passar.

O que é efectivamente punido são países, empresas e indivíduos que tentam sair da órbita do dólar norte-americano. Quando um país decide vender petróleo fora do sistema, usar iuane, ouro ou trocas directas, o castigo chega sem tiros: bancos recusam pagamentos por “risco AML”, seguradoras retiram cobertura, transportadoras recusam cargas, o acesso ao SWIFT é cortado. O país fica isolado sem que uma única bomba seja lançada.

Donald Trump nesting dolls on red textile

Tudo legal, tudo regulatório. É assim que o dólar norte-americano mantém a sua hegemonia sem necessidade de coerção permanente – e é por isso que qualquer alternativa monetária real, do iuane ao Bitcoin, provoca reacções tão viscerais: não ameaça o crime, ameaça o controlo, obrigando o exército norte-americano a actuar em defesa.

A Venezuela é apenas o capítulo mais recente de uma longa narrativa. Não é sobre drogas, nem sobre liberdade, nem sequer sobre petróleo em bruto. É sobre a sobrevivência de um sistema monetário que permite a uns viverem do trabalho dos outros. Quando esse sistema é posto em causa, as bombas voltam a falar. Sempre falaram!

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

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Entre la agresión forajida y la carencia de legitimidad interna

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Stephen Sefton (Radio La Primerísima).— Siempre ha habido una brecha irreparable entre la hipotética alta moralidad de la cultura occidental y su práctica habitual de pillaje y masacre alrededor del mundo. Sin embargo, con la derrota de la Alemania Nazi y el imperio de Japón en 1945, los poderes occidentales establecieron la Organización de las Naciones Unidas y lo manejaron para prestar un barniz de legitimidad a una nueva fase de su imperialismo.

 

Ahora, hay un amplio consenso alrededor del mundo que el apoyo occidental al genocidio de Israel contra el pueblo palestino y el brutal secuestro del presidente de un país pacífico demuestran el efectivo colapso del derecho internacional. La criminal agresión norteamericana contra Venezuela expresa de manera especialmente dramática la aguda crisis de la legitimidad en las relaciones internacionales y la crónica irrelevancia de las Naciones Unidas.

El nazismo nunca murió

Hace poco, el destacado economista Michael Hudson explicó una realidad fundamental de la historia contemporánea. Comentó que cuando los gobiernos occidentales aparentemente derrotaron el fascismo en 1945, en verdad lo rescataron. Junto con los demás pueblos del mundo mayoritario, los pueblos de América Latina y el Caribe han sido testigos de esa profunda verdad en carne propia durante ochenta años.

En ese tiempo y hasta la fecha, la unión fascista del poder corporativo y el poder estatal estadounidense, ha significado constante interferencia y repetidas intervenciones en nuestros países, siempre desplegado con el disfraz de su falsa ideología hipócrita de la democracia electoral, los derechos humanos y el mercado libre. Por medio de su poder económico, político-militar y mediático, las élites gobernantes estadounidenses, lograban imponer la ficción de la legitimidad de su poder aun durante los más sádicos episodios de dictadura por sus brutales aliados locales en la región desde Trujillo y Duvalier en el Caribe hasta Videla y Pinochet en el Cono Sur.

Sin embargo, la base de la auténtica legitimidad no es el aplastante poder de fuego o el incuestionable dominio financiero, sino la repartición equitativa y justa de los derechos y deberes entre los países del mundo de manera consensuada y voluntaria.

Aparte de las conocidas agresiones militares de los últimos 25 años, que ahora incluyen el ataque a Venezuela, la práctica estadounidense y sus aliados ha sido de persistentes, progresivas y mayores provocaciones para lograr uno u otro cambio de gobierno y para desgastar a sus contrincantes principales China y Rusia. Se despliegan innumerables medidas coercitivas unilaterales, intensas ofensivas mediáticas y diplomáticas, sistemáticas acciones de desestabilización interna e, incluso, sabotaje y terrorismo directo. Con el mayor declive de su poder económico y político-militar relativo a China y Rusia, las élites oligarcas occidentales han actuado con más y más desesperación, de la cual, en su política exterior, la agresión forajida contra Venezuela es la más reciente expresión.

Occidente sin legitimidad interna

Esta misma desesperación también se refleja en la pérdida de legitimidad interna a nivel nacional de las autoridades norteamericanas y europeas, de su sistema de mal gobierno y de sus perversos sistemas de injusticia. En el caso estadounidense, el despliegue en varias ciudades del país de agentes federales armadas ha provocado notorios episodios de brutalidad contra la población civil.

Los más recientes incidentes han sido la ejecución extrajudicial en plena calle en Minneapolis, sin la más mínima justificación, de una ciudadana norteamericana por un agente de la Fuerza de Control de Migración y Aduana (ICE). El siguiente día en Portland, estado de Oregon, un agente de la Oficina de Aduanas y Protección Fronteriza (CBP) hirió con disparos a dos personas durante una parada rutinaria de vehículos. Los respectivos alcaldes de Minneapolis y Portland han condenado fuertemente la violencia letal fuera de control en sus ciudades de estos agentes federales.

En Europa, aunque no se han reportado víctimas de violencia oficial con armas de fuego contra la población, los niveles de extrema represión de libertad de expresión son cada vez más comunes. En Inglaterra, a personas que protestan contra el genocidio sionista en Palestina se aplica la ley antiterrorista del país. En noviembre del año pasado un grupo de ocho personas presas bajo esa ley, iniciaron una huelga de hambre. Cinco decidieron dejar su huelga por motivos de riesgos de salud, pero tres siguen y ya llevan más de 60 días sin comer. No ha habido esta clase de desafío moral a la criminalidad del gobierno británico desde la muerte del republicano irlandés Bobby Sands en 1981 después de 66 días de huelga de hambre junto con otros 9 compañeros republicanos presos bajo el régimen de Margaret Thatcher. Por supuesto, los medios británicos suprimen la noticia.

De similar significado en el colapso moral del Occidente colectivo es el caso del coronel en retiro del ejército suizo, el compañero Jacques Baud, destacado autor y comentarista sobre temas militares y la geopolítica. El Consejo de la Unión Europea acusa al Coronel Baud de haber difundido propaganda rusa aunque lo que ha escrito y comentado sobre la guerra de la OTAN en Ucrania se ha basado exclusivamente en fuentes europeas, ucranianas y norteamericanas.

Contra toda norma que protege la libertad de expresión, el Consejo de la Unión Europea ha emitido un decreto ejecutivo que priva al Coronel Baud de todos sus derechos civiles, le prohíbe viajar y congela su cuenta bancaria, dejándolo dependiente de amistades para poder adquirir alimentos. Ya que no ha habido ningún proceso judicial, el único remedio legal parece ser un largo proceso en la Corte de Justicia Europea.

La censura, el abuso de leyes contra el terrorismo y la criminalización de la legítima libertad de expresión empeoran todavía más la crisis de legitimidad de los países occidentales. Es una crisis ya evidente en la decisión antidemocrática de casi todos los gobiernos europeos de priorizar la militarización de sus economías por encima de las necesidades básicas de sus poblaciones.

Entre los elementos socioeconómicos más urgentes de la crisis en Europa y Norteamérica están el acceso a una vivienda a precio asequible, la pérdida de poder adquisitivo de los salarios y el costo exagerado de la energía para las residencias familiares y para las instalaciones empresariales. A nivel general se aumenta progresivamente la notoria desigualdad entre las mayorías y las élites y lo que parece ser un crónico declive en la competitividad de las economías europeas más importantes, como las de Alemania, Francia e Italia.

Los cómplices arrepentidos

En América Latina y el Caribe ahora los gobiernos de Brasil, Chile, Colombia y México condenan la criminal agresión ataque yanqui contra la soberanía de Venezuela. Pero ellos mismos lo habían socavado durante años al acusar al gobierno bolivariano de ser autoritario y hasta ilegítimo. De esa manera, perjudicaban la independencia y soberanía de nuestros países al no respetar los principios fundamentales de la autodeterminación del pueblo venezolano y la no interferencia en sus asuntos internos.

Por ufanarse de ser grandes demócratas al estilo occidental y no mostrar la solidaridad que demasiado tarde se les ha ocurrido demostrar ahora, los gobiernos de estos países efectivamente facilitaban la criminal agresión económica norteamericana y europea contra Venezuela. Ellos comparten la responsabilidad para la crisis que enfrenta nuestra región en este momento.

La posición de los países de la Alianza Bolivariana de nuestras Américas ha resaltado fuertemente la legitimidad de la Venezuela Bolivariana, la Cuba Revolucionaria y nuestra Nicaragua Sandinista junto con las naciones hermanas del Caribe. Nuestros gobiernos siempre han promovido el respeto para los intereses de las demás naciones y el derecho internacional, la promoción de la paz y la cooperación solidaria.

De hecho, el pasado mes de diciembre, el Presidente Nicolás Maduro anunció la reactivación del programa solidario Petrocaribe y otras iniciativas para fortalecer la soberanía energética, alimentaria y sanitaria de los países del ALBA y de la región. Ha sido precisamente el compromiso de los países del ALBA con los principios de derecho internacional del desarrollo soberano de los pueblos que asegura y afianza la incuestionable legitimidad de nuestros gobiernos.

En diciembre de este año se cumplen cuarenta años de la “Declaración del Derecho al Desarrollo” aprobado por mayoría abrumadora en la Asamblea General de las Naciones Unidas en diciembre 1986. No es mera coincidencia que la declaración se hizo en el mismo año en que la Corte Internacional de Justicia condenó al gobierno norteamericano de Ronald Reagan por su campaña de terrorismo contra Nicaragua.

La Declaración afirma una esquema de relaciones internacionales que prioriza el derecho al desarrollo socioeconómico de todos los pueblos e identifica la persona humana como el enfoque de ese desarrollo. Ha sido el Occidente colectivo y sus aliados los que han estorbado el progreso e implementación de las medidas para promover ese derecho fundamental.

China, la esperanza

Ahora la República Popular China ha reafirmado el derecho al desarrollo de los pueblos de una manera muy robusta con sus cuatro iniciativas globales internacionales para el desarrollo, la seguridad, la civilización y la gobernanza. Estas iniciativas refuerzan de manera categórica la Declaración del Derecho al Desarrollo de 1986 la cual consta que todos los países y sus pueblos tienen “el derecho inalienable a la plena soberanía sobre todas sus riquezas y recursos naturales”.

En consonancia con este principio básico, la vocera de la Cancillería de China afirmó el pasado 7 de enero que “creando una esfera de influencia o la creación de confrontación geopolítica no va a hacer un país más seguro, menos traer la Paz al mundo. Es la seguridad cooperativa en común que la sostiene… Venezuela es un Estado soberano y tiene plena soberanía permanente sobre todos sus recursos naturales y actividades económicas”.

De la misma manera, la presidenta de México, Claudia Sheinbaum, ha aseverado, “…cada país tiene la soberanía para poder decidir qué hace con sus recursos naturales… Eso es parte de la política exterior de México”.

Lula da Silva, presidente de Brasil, ha declarado: “repudiamos los ataques contra la soberanía venezolana y rechazamos cualquier visión que pueda implicar la anticuada división del mundo en zonas de influencia”.

El presidente ruso Vladimir Putin también ha afirmado de manera categórica la solidaridad de Rusia con Venezuela. Así que hay un amplio consenso en el mundo mayoritario que la agresión contra Venezuela atenta contra el legítimo desarrollo soberano de todas las naciones, lo cual requiere la Paz como condición esencial.

Con su poder político-militar y económico relativo a los países del mundo mayoritario en declive, las forajidas élites occidentales y sus aliados en otros países se hunden más y más en un estéril nihilismo. Sus gobiernos promueven nuevamente sin vergüenza relaciones internacionales a base de la extorsión con amenazas de la destrucción y la muerte, como se ve en todo su horror en Gaza, y aquí en nuestra región en la catástrofe socioeconómica en Haití. La lucha del gobierno bolivariano contra el fascismo del Occidente colectivo y sus aliados exige la solidaridad internacional porque defiende no solamente la legítima autodeterminación de los pueblos sino la Paz que lo hace posible. Los países con integridad y entereza responden a la intensificación del descarado asalto del régimen norteamericano y sus aliados sobre las normas internacionales del diálogo, el respeto y la igualdad con una renovada urgente afirmación de la Paz como principio fundamental de la legitimidad en las relaciones internacionales. Como lo ha expresado nuestro gobierno “la paz ha sido profundamente herida y la familia humana, la comunidad de naciones, los pueblos del mundo, urgimos que se reinstale como absoluto reflejo de la dignidad de los pueblos”.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.