quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Sobre A. GRAMSCI (iremos publicar aqui alguns textos sobre A. Gramsci (democracia e parlamentarismo, sufrágio universal, hegemonia e consenso, intelectual orgânico, etc.)



Lincoln Secco

Assim como Max Weber, Gramsci amplia a noção de Estado. Portanto, para ambos o poder ultrapassa a mera coerção. Gramsci aceita os tipos ideais de Weber como um ponto de partida, ainda que procure lhes dar corpo histórico e empírico. O tipo carismático, por exemplo, apareceu entre os socialistas (lassallianos, broussistas, marxistas, guesdistas, jauresistas, blanquistas, etc.). Gramsci chega a se perguntar se não “exista analogia entre os partidos políticos e as seitas religiosas e as ordens monásticas” (CC, v. 3, p. 161).
Gramsci não só conhecia a obra de Weber, como a citou diversas vezes nos seus Cadernos. A crítica que faz da debilidade dos partidos na Itália compara-se à crítica que Weber faz no seu ensaio “Parlamentarismo e governo”, pois Gramsci acentua a ausência da elaboração intelectual de dirigentes políticos, a escassez de homens de governo, a miséria da vida parlamentar, a contínua cooptação pelo aparelho de Estado e a cultura mesquinha. Essas características do regime parlamentar italiano conduzem a burocracia a se forjar enquanto um “verdadeiro partido político”, substituindo a hierarquia intelectual por burocratas “apolíticos” com “formação mental puramente retórica, não-nacional” (Ib., p. 202).
Gramsci e Weber aproximam-se, portanto, na crítica de uma sociedade burocrática, particularmente quanto à necessidade de uma ação genuinamente política sobre esta burocracia (vista por Weber como inevitável). Gramsci chega a admitir a possibilidade de um bonapartismo progressista, quando o chefe carismático (ou a força política “carismática”) se coloca a favor das forças sociais historicamente progressistas, contra um equilíbrio estático de partidos dominantes, cristalizados em posições burocráticas, pois a burocracia pode se tornar, na vida moderna, o pior dos partidos (Ib.).
Gramsci afirma que o capo charismatico corresponde ao período de formação dos partidos de massa. O chefe carismático pode pertencer tanto a um partido autoritário quanto a um partido socialista ou um movimento anarquista e antiautoritário; essas combinações devem ser estudadas na história concreta, assim como o papel desses partidos na luta política. No que tange, entretanto, à burocratização dos partidos operários, Gramsci identifica um problema grave para o movimento socialista:
    “Os partidos socialistas, graças aos numerosos postos remunerados e honoríficos de que dispõem, oferecem aos operários (a certo número de operários, naturalmente!) uma possibilidade de fazer carreira, o que exerce sobre eles uma força considerável de atração (esta força se exerce, porém, mais sobre os intelectuais). “Complexidade progressiva da atividade política, em virtude da qual os líderes do partido se tornam cada vez mais profissionais e devem ter noções cada vez mais amplas, um tato, uma prática burocrática e, freqüentemente, uma esperteza cada vez mais ampla. Assim, os dirigentes se afastam cada vez mais da massa, dando margem à flagrante contradição que se manifesta nos partidos avançados entre as declarações e as intenções democráticas e a realidade oligárquica” (Ib., p. 166).
Mas a solução para esta burocratização do movimento socialista não reside, para Gramsci, na simples afirmação literária da necessidade de um chefe carismático, e sim na formação de um estrato médio de intelectuais orgânicos que façam a ligação entre os líderes e as massas, impedindo os líderes de se desviarem nos momentos de crise e, simultaneamente, elevando o nível político das massas. Além disso, o chefe carismático não é uma forma de governo, mas uma função, que pode até surgir em governos parlamentares de coalizão que assumam a função cesarista. Cesarismo não é um apenas um conceito sociológico ou de ciência política nem um cânone de interpretação histórica – diz Gramsci – mas uma fórmula política que deve ser identificada concretamente em cada contexto histórico (Ib., p. 76-7).

terça-feira, 28 de agosto de 2012

por Juan José Millás

Este artigo incendiou a Espanha.   Publicado a 14 de Agosto na secção de cultura de El Pais, em poucos dias tornou-se a peça mais lida de sempre naquele jornal e além disso teve milhares de acessos no Facebook.   O autor é um escritor espanhol comprometido com os anseios do seu povo.   Leia também a sua entrevista "Tornámo-nos uma colónia da Alemanha" em Dinheiro Vivo.
Juan José Milas, cartoon de Fernão Campos. Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos –, a economia financeira está para a economia real assim como o senhor feudal está para o servo, como o amo está para o escravo, como a metrópole está para a colónia, como capitalista manchesteriano está para o operário superexplorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de a teres semeado. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, ainda que vás à merda se baixar. Se o baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que tenhas caído, ainda que não haja nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta geralmente compra é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um tabuleiro de jogos no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este no caso, pouco importa, e diz "compro" ou diz "vendo" com a impunidade com que aquele que joga Monopólio compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno de milhares ou milhões de pessoas que antes de irem para a labuta deixaram no infantário público, onde ainda existem, os seus filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, é claro, por essa coisa a que temos chamado de Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres são desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, desviam-se num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro. Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem infantário ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos agora mera mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui alteram o preço das nossas vidas a cada dia sem que ninguém resolva o problema, pior, enviando as forças da ordem contra quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as forças da ordem empenham-se a fundo na protecção desse filho da puta que te vendeu, por meio de um roubo autorizado, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste as poupanças reais de toda a tua vida. O grande porco vendeu-lhe fumaça com o amparo das leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passe a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do seu sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
O original encontra-se em http://cultura.elpais.com/cultura/2012/08/13/actualidad/1344875187_015708.html
e a tradução em http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056741.html?page=0
(foram efectuadas pequenas alterações)


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

sábado, 25 de agosto de 2012


Intelectual Impostures
12 de Agosto de 2010 ⋅ Filosofia geral

O rei vai nu

Roberto Fernández
Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont
Lisboa: Gradiva, 1999, 300 pp.
Rio de Janeiro: Record, 2006, 322 pp.
“Impostura”, de acordo com o dicionário, significa “embuste, engano artificioso; afetação de grandeza; superioridade, orgulho, confinante com a empáfia e a bazófia”. Os cientistas Alan D. Sokal (Universidade de Nova Iorque) e Jean Bricmont (Universidade Católica de Lovaina, Bélgica) sustentam que intelectuais de renome, associados à corrente convencionalmente conhecida como “pós-modernismo”, têm incorrido sistematicamente em “abusos reiterados de conceitos e termos provenientes das ciências físico-matemáticas”, a ponto de constituírem verdadeiras imposturas intelectuais. Podem ser identificados quatro tipos de abusos:
  1. “Falar abundantemente de teorias das quais se tem, no máximo, uma vaga idéia”;
  2. “Importar noções das ciências exatas para as ciências humanas sem dar a menor justificação empírica ou conceitual”;
  3. “Exibir uma erudição superficial ao jogar, sem escrúpulos, termos especializados na cara do leitor, num contexto em que eles não têm pertinência alguma”; e
  4. “Manipular frases desprovidas de sentido e se deixar levar por jogos de palavras”.
Neste polêmico livro, os autores fundamentam suas teses mediante numerosas citações, organizadas por autor (Lacan, Kristeva, Irigaray, Latour, Baudrillard, Deleuze e Guattari e Virilio) e por tema (caos, teorema de Gödel, relatividade restrita).
Sokal e Bricmont não se atêm a pequenos erros ou imprecisões isoladas ou àquelas próprias de um uso metafórico no discurso literário ou poético. Pelo contrário, nos autores analisados, as teorias e conceitos científicos jogam um papel não marginal, seja porque são usados nos fundamentos das suas teorias (Lacan e Kristeva), seja porque são precisamente o objeto de estudo (Irigaray, Latour, Deleuze e Guattari); em todo caso, seu uso contribuiu para que fossem elogiados por seu “rigor”, “extrema precisão”, “erudição surpreendente” e juízos similares.
A lista de exemplos é longa e bem documentada. Atribui-se ao psicanalista Jacques Lacan o abuso de tipo 2, quando declara, sem fundamentação lógica ou empírica, que o toro (estrutura topológica correspondente a um anel) é “exatamente a estrutura do neurótico” e que outras estruturas topológicas correspondem a outras patologias mentais. Seu uso dos números imaginários é declaradamente feito como metáfora, mas conduz a afirmações curiosas como: o “órgão eréctil (…) é igualável à raiz de -1”. Os textos em que Lacan recorre à lógica matemática, por outra parte, são considerados exemplos dos abusos 2 e 3 ao mesmo tempo: “Lacan exibe diante de não especialistas seus conhecimentos de lógica matemática; mas (…) a ligação com a psicanálise não está sustentada por lógica alguma”. Sokal e Bricmont absolvem Lacan dos abusos de tipo 1, ainda que em certos textos ele apresente uma definição incorreta de conjuntos abertos, definições sem sentido da noção de limite e de conjuntos compactos, e confunda números irracionais com imaginários.
Os trabalhos sobre lingüística e semiótica de Julia Kristeva ilustram também exemplos de abusos de tipo 2 e 3. Conceitos matemáticos delicados são introduzidos sem que se explique sua possível relação com a lingüística e revelando óbvia falta de compreensão: o axioma da escolha, que justamente permite provar a existência de conjuntos sem construi-los explicitamente, é invocado como implicando uma “noção de construtividade”; a hipótese do contínuo é mencionada, se bem que o conjunto de todos os livros possíveis seja apenas enumerável, e o muito popular teorema de Gödel é interpretado exatamente ao contrário. A intelectual feminista Luce Irigaray, por sua vez, num ensaio sobre o “subdesenvolvimento” da mecânica dos fluidos (identificados com a feminilidade), confunde a dificuldade matemática para obter soluções das equações de Navier-Stokes com a “impotência da lógica” e demonstra não compreender que são derivadas usando aproximações que excluem sua aplicação a escalas moleculares.
Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Paul Virilio valem-se de abusos de tipo 1 e 4. Sokal e Bricmont selecionam extensas citações, inclusive uma de quase três páginas, em que se justapõem numerosos termos científicos (atrator estranho, exponencial, fractal, caos, singularidade, energia potencial, superfície topológica, função, partícula etc.), em parágrafos intrincados e sem concatenação lógica de argumentos, num jogo de analogias baseadas nos diferentes sentidos vagamente atribuídos a esses termos na linguagem comum.
Os escritos de Virilio são, talvez, os mais abertos à sátira. Por exemplo, no que diz respeito ao papel das velocidades, confunde velocidade com aceleração e quantidade de movimento com a equação logística. Mas Deleuze e Guattari providenciam ainda outro tipo de exemplo importante. Em suas análises de filosofia da matemática, retomam confusões devidas a Hegel (classificação errada de frações, noção de função superada há 150 anos) e fazem uma descrição obscura e complicada do cálculo infinitesimal, enquanto marcam a necessidade de uma “exposição rigorosa” de seus princípios. Aparentemente, ignoram que tal exposição existe desde o início do século passado.
O capítulo dedicado a Bruno Latour é particularmente revelador, pois ilustra os riscos de se tentar uma análise profunda a partir de uma compreensão superficial. Com o propósito de demonstrar que a teoria da relatividade restrita é uma construção social, faz uma leitura semiótica do livro Relativity, de Einstein, no qual se apresentam os argumentos baseados em trens, observadores e sinais luminosos, que todo estudante de física conhece bem. Latour engana-se e centra sua análise em elementos puramente pedagógicos da exposição de Einstein. Por exemplo, atribui grande importância à existência de três sistemas de referência a uma só vez (isso pode acontecer ocasionalmente numa exposição didática, mas a teoria trata da relação entre dois sistemas) e ao fato de os observadores serem humanos (eles são humanos nos exemplos do livro de Einstein, mas na maioria dos experimentos e fenômenos os “observadores” são instrumentos, discos de computador e até partículas elementares), e confere um papel privilegiado ao “narrador” (a teoria não tem sistema privilegiado nem “narrador”, se bem que a exposição pedagógica precise de um).
De fato, a teoria da relatividade conta com uma rica história de mal-entendidos por parte de filósofos. Os que se originam na interpretação errada de Bergson são especialmente persistentes, como fazem notar Sokal e Bricmont num capítulo muito claro e explícito. Henri Bergson, por razões puramente filosóficas, recusou-se a aceitar as noções einsteinianas de simultaneidade e tempo próprio e procurou estender o princípio de relatividade às acelerações. Seus argumentos conduzem a previsões que contradizem experiências atualmente conhecidas. No entanto, os erros bergsonianos reaparecem na obra de filósofos posteriores, como Jankélevich, Merleau-Ponty e Deleuze.
A teoria do caos é outra vítima de maltrato em livros e ensaios bastante difundidos. Sokal e Bricmont expõem e clarificam os erros mais típicos: o caos, quer dizer, a sensibilidade às condições iniciais, não marca qualquer “limite” ou cul-de-sac da ciência; pelo contrário, tem aberto novas possibilidades de pesquisa. O caos não significa o fim do determinismo (aparece em equações perfeitamente determinísticas), ainda que obrigue a adotar um sentido probabilístico da previsibilidade comparável ao adotado em mecânica estatística no último século. O caos não significa um descrédito da mecânica newtoniana, mas sim o seu renascimento. De fato, esta última, considerada o paradigma do “pensamento linear”, leva a equações não-lineares, que algumas vezes exibem caos, se bem que a mecânica quântica, considerada mais próxima do “pensamento não-linear” preconizado pelos pós-modernistas, seja exatamente linear.
O livro é escrito de forma direta, incisiva, sem ambigüidades, pedantismo, paráfrases ou elipses. Sokal e Bricmont não se interessam pelo vôo literário nem pelas sutilezas acadêmicas; querem apresentar seus pontos de vista sem dar lugar a dúvidas. Explicam pacientemente os aspectos científicos (com ajuda de uma lista de referências que pode ser de grande utilidade para os interessados em iniciar-se nesses temas) e expõem com franqueza suas intenções: “defender os cânones da racionalidade” e da honestidade intelectual. Sua posição filosófica contraria o relativismo cognitivo e questiona as teses de Popper, Quine, Kuhn e Feyerabend (que nutrem o ceticismo epistemológico) e do “programa forte” em sociologia da ciência. Essa franqueza algumas vezes chega ao limite da agressão verbal e introduz no livro um tom quase fundamentalista, que pode provocar discussões desnecessariamente marcadas pela emoção.
Mas o legado mais importante deste livro é, precisamente, o catálogo de exemplos de erros, de falta de compreensão e até de preguiça intelectual de pensadores contemporâneos, quando analisam o conhecimento científico recente e não tão recente. É um mostruário sólido, convincente, irrecusável, que tem existência independente das opiniões dos compiladores. Está ali para que cada um ajuíze. Compreensivelmente, na polêmica gerada pelo livro, ninguém põe em dúvida o fato de que os erros apontados são realmente erros. As críticas referem-se antes à relevância desses escritos na obra dos autores considerados e às intenções finais de um livro como este. Sokal e Bricmont esclarecem que não ajuízam o resto das obras dos autores analisados, mas apenas as referências à física e à matemática (todavia, gostariam que outros, mais competentes, ajuizassem tendo em conta as imposturas apontadas), nem discutem se as imposturas são premeditadas ou de boa fé (o título do livro fala de “imposturas”, e não de “impostores”). E, se bem Sokal e Bricmont confessem intenções filosóficas e até políticas, elas não vêm ao caso.
Os exemplos no livro falam por si. Para alguém com uma mínima formação científica, sugerem diversas questões para debate. Será que o hiato entre as “duas culturas” de Snow foi ampliado ou fossilizado? Será que todo um setor da intelectualidade, cuja atividade se baseia no discurso, nas argumentações teóricas, no confronto de pontos de vista, está perdendo a capacidade de compreender o método científico submetido ao controle inexorável dos experimentos? Será que a analogia injustificada e as “provas” por combinação de frases sugestivas são uma metodologia aceitável nas humanidades? Será que os argumentos baseados na precedência, inerentes às pesquisas nas humanidades, degeneraram-se num princípio de autoridade que acha os erros de Hegel mais confiáveis que 150 anos de desenvolvimento matemático? (Não é isso uma regressão aos tempos em que, quando as observações discrepavam da doutrina de Aristóteles, se preferia esta última?) Ou será que um verdadeiro menosprezo pela lógica e pelos desenvolvimentos científicos tem sido instalado em estratos visíveis da intelectualidade, perpetuado por círculos nos meios de comunicação inclinados a modas ou não qualificados e amparado na falta generalizada de formação científica, na indiferença (próxima ao pedantismo dos próprios cientistas) e numa tradição humanista de tolerância e não comprometimento, que deixa nas mãos do tempo a depuração do que vale?
É indubitável que o trabalho de Sokal e Bricmont abre a oportunidade para um debate muito saudável e necessário, o qual, se for desenvolvido com grandeza, pode inclusive catalisar uma aproximação entre a ciência e as humanidades, em sua busca comum da compreensão da natureza e do espírito humano.
Roberto Fernández
Originalmente publicado na Folha de São Paulo, Jornal de Resenhas, 11 de Abril de 1998

sexta-feira, 24 de agosto de 2012


Sobre o autor de "Imperio"

Antonio Negri ou a evaporação da dialéctica

por Rubén Dri [*]

"Ao alcançar o nível global, o desenvolvimento capitalista encontrou-se directamente confrontado com a multidão, sem qualquer mediação. Daí que se evaporasse a dialéctica, a ciência do limite e a sua organização". (Antonio Negri, Imp p. 222).
. O arco-íris global imperial

Antonio Negri, ou Toni Negri, é o novo intelectual da moda que nos chega da Europa com as suas novas categorias ou jargões e que nestas paragens, sempre ávidas de receber de forma acrítica o que nos de lá vem, causa furor. Não é a primeira vez que isso acontece, nem será a última. Antes foi Althusser. Quem podia então falar da situação nacional, da revolução, da ideologia, se não tivesse lido Althusser e não usasse categorias como Aparelho Ideológico do Estado e o escrevesse AIE, e não soubesse o que era o "corte epistemológico?".

Althusser passou, não sem deixar fundas sequelas na militância, que é o aspecto que me interessa nestas reflexões. Depois de Althusser chegaram outros como Foucault , Nietzsche e uma caterva de pensadores, todos com novidades, mas que, transformados muitas vezes em fetiches, mais que ajudar-nos a conhecermo-nos, à nossa sociedade e aos seus problemas, apenas serviam como palas para não nos vermos.

Para nossa desgraça, agora aparece Antonio Negri com categorias como "império", "multidão", "contra-poder" (palavra sagrada entre todas). Não me interessa por aí além o pensamento de Toni Negri, mas preocupa-me o efeito que causa na prática política militante, como noutro tempo me preocupou pela mesma causa o pensamento de Althusser.

A tese central de Negri diz que a etapa do imperialismo, essa que Lenine caracterizou como "fase superior do capitalismo", terminou, e, em seu lugar, tomou relevância "o império". Na fase do imperialismo havia Estados nacionais fortes, que constituíam verdadeiros centros de poder. Havia um interior e um exterior. O capitalismo não tinha aínda conseguido incorporar toda a humanidade no seu interior. Esse passo foi agora dado pelo império.

De agora em diante já não há mais centros, menos aínda, centro. “Os Estados Unidos não constituem – e na realidade, nenhum Estado – nação pode hoje constituir – o centro de um projecto imperialista. O imperialismo acabou. Nenhuma nação será líder mundial como o foram as nações europeias modernas” (Imp p. 15).

Esta é uma meia verdade e, como tal, um erro. É certo que a liderança exercida por determinadas nações na modernidade recente, como a Holanda primeiro e depois a Inglaterra, já não poderá ser exercida da mesma maneira, porque o poder dos grupos económicos, os gigantescos monopólios e oligopólios, aumentou desmesuradamente. Mas daí a concluir que os Estados Unidos não constituem o centro do poder imperial, é falso.

É certo que os poderes económicos manifestam uma certa independência do poder político, mas é um facto que os imensos poderes económicos actuais se concentram nas nações mais poderosas, ou seja, EUA, União Europeia (com destaque para a Alemanha) e Japão.

“O Estado-nação e as empresas que funcionam com estas nações-Estados são agora mais fortes que nunca. Estados e multinacionais funcionam assim numa relação sinérgica” (PG p. 27).

Para Negri todo o centro de poder se esfumou, se desterritorializou, de maneira que não se pode situar em lugar algum, pois desloca-se de um lado para outro. Derrida, o grande desconstrutor convida-nos a saltar do centro para a periferia e desta para o centro. Tudo é difuso acima, tudo são fluxos que vão e vêm, não há onde os apanhar, não há onde atacar. Dispersão absoluta, à qual responderá outra dispersão, a “multidão”.

O império fez praticamente desaparecer o que antes, na etapa do imperialismo se denominava primeiro mundo, segundo mundo e terceiro mundo, porque “se misturaram de tal forma que continuamente encontramos o Primeiro Mundo no Terceiro, o Terceiro no Primeiro e já quase não encontramos o Segundo em parte alguma. O capital parece estar a braços com um mundo uniforme ou, em realidade, com um mundo definido por novos e complexos regimes de diferenciação e homogeneização, desterritorialização e reterritorialização” (Imp. pp. 14-15).

Essa desaparição dos mundos, dita desta maneira, configura igualmente um erro. Em primeiro lugar, porque sempre no primeiro mundo houve terceiro mundo e vice-versa. O novo, neste sentido, é a fissura que se fez desses mundos ou sub-mundos no seio de qualquer dos mundos. Em segundo lugar, afirmar que Haiti, Bolívia, Argentina, o Congo pertencem ao mesmo primeiro mundo que os Estados Unidos é, no mínimo, uma asneirada.

Isto é óbvio, algo que não devia ter sequer discussão. A questão é que teorias como estas produzem efeitos por vezes terríveis. Como sucedeu na Argentina, onde o governo de Menem “comprou” essa teoria do mundo único que, pelos vistos, era o que antes se denominava “primeiro mundo” e viveu-se uma década nessa ficção que, ao desmoronar-se, nos deixou nas franjas inferiores do terceiro mundo.

A dialéctica, ideologia burguesa, evaporou-se.
Um dos eixos do pensamento de Negri é a sua negação da dialéctica, apesar de se considerar marxista e de tomar partido por Marx, pois afirma pensar “com Marx e para lá de Marx” (Kam p. 11). Consegue, assim, aquilo em que fracassaram já outros dignos precursores como Althusser, Della Volpe e Colletti. Negri combina negações cortantes da dialéctica com outras, em que lhe concede algum alcance que definitivamente terminou com o advento do império.

Este é um tema central, a raíz dos desvarios da concepção de Negri, no qual me deterei um pouco, passando primeiro revista aos antecedentes citados. A discussão sobre o tema da dialéctica no pensamento de Marx gira em torno dos conceitos de ciência e de materialismo.

Efectivamente, se o “científico” é o que corresponde ao conceito de ciência natural, é lógico que não pode haver uma “dialéctica científica”. E não pode porque a dialéctica não pertence aos objectos ou coisas como entes separados da sua relação intrínseca com os seres humanos. Uma pedra ou uma mesa, se as considero em si mesmas, fazendo abstracção da sua inserção nas relações sociais, não podem ser dialécticas.

Simplesmente “são”. Isto leva-nos, por sua vez, ao materialismo. Se o que se entende por tal é a matéria em si, é a pedra, a mesa, os átomos, aqui não pode haver dialéctica. Simplesmente são. Um físico que estuda a composição da água, descobre leis, composição e decomposição de elementos, nada más. Aí não intervém a dialéctica.

Intelectuais marxistas como Althusser e Poulantzas, em França e Della Volpe, Colletti e Cerroni, em Itália, reflectiram, debateram e discutiram longamente sobre o estatuto “científico” do marxismo, entendido este como pensamento de Marx [1] , e esbarraram na dialéctica e na relação de Marx com Hegel. Mas, para todos eles, a ciência era a ciência natural, a que surgiu nos alvores da modernidade, com fundamento matemático, e que tantos êxitos havia logrado.

Para Althusser o marxismo é a ciência da história que rompeu com toda a ideologia. Como ciência da história, denomina-se “materialismo histórico”. Distingue-se do marxismo como filosofia, reduzida esta a uma epistemologia que traça o limite entre a ciência e a ideologia, e recebe o nome de “materialismo dialéctico”.

Como o conceito de ciência de Althusser é o que foi elaborado na base da epistemológica matemática, o mesmo que aceitava plenamente Kant e do qual partia para examinar as bases de todo o conhecimento verdadeiro, tropeça no problema da dialéctica que, de nenhum modo admitem, quer as matemáticas, quer a física, as duas ciências que Kant apontava como conhecimentos fundamentais.

Começa portanto a realizar uma tarefa depuradora dos textos de Marx, para descobrir e eliminar os “restos” –assim supunha– feuerbachianos e, sobretudo, hegelianos, que impediam o aceso ao conhecimento científico. Em dado momento deu-se na elaboração do pensamento de Marx a célebre “ruptura epistemológica”, depois da qual põe de lado Hegel e a dialéctica e funda a ciência da história.

Em Itália foi tentada uma empresa parecida, ou seja, descobrir o Marx científico, não dialéctico. O livro mais importante de Della Volpe diz claramente: “Lógica como ciência histórica”, onde começa afirmando que “com a presente investigação o autor chega àquela filosofia-ciência, cujos primeiros fundamentos metodológicos foram estabelecidos por Marx na sua crítica dos processos viciosos do idealismo hegeliano, assim como dos da “metafísica” da economia política' (Log p. 15) [2] .

A empresa, como afirma Colletti, consiste na “relação entre dialéctica e materialismo. Trata-se, naturalmente, do materialismo em gnoseología, ou seja, daquela fracção de realismo que se encontra, de facto, implícita na ciência”. A conclusão a que chega Della Volpe é que “aplicar a dialéctica à realidade é idealismo. A dialéctica, com efeito, é “negação da negação”. Pretender dialectizar os factos, as coisas, é reproduzir uma concepção “negativa” ou platónica da matéria (a matéria como “não ser”)”. Mas então é absurdo reclamar-se do materialismo" (TraM p. 84).

Segundo Della Volpe, o método de Marx é plenamente científico, na medida em que transpôs para a sociedade a lógica das ciências empíricas. As contradições da sociedade que Marx analisa em “O Capital”, não seriam contradições mas sim contrariedades, oposições sem contradição, motivo pelo qual Della Volpe apelida Marx o Galileu do mundo histórico-social.

Colletti, numa primeira fase, seguiu a corrente dellavolpiana, até se ver obrigado a confessar: “ Os meus males começaram quando me dei conta que (e, em boa verdade não se pedia muito; mas o facto é que para mim se pedia) a dialéctica está também em O Capital" TraM p. 149), do que evidentemente Negri parece não se ter dado conta.

É evidente que se nos referimos às coisas, aos factos, como se houvesse factos isolados que não se encontrem inseridos em relações sociais, como se fossem algo estático e não movimentos, aí não encontraremos dialéctica. Esta apenas se encontra, e não pode deixar de se encontrar, no âmbito dos sujeitos ou, por outras palavras, no âmbito social. O capital é dialéctico na medida em que se move com a subjectividade que lhe concede o sujeito seu criador.

As categorias classificatórias em filosofia são relativas. Servem pedagogicamente para ordenar os pensadores e as correntes de pensamento segundo determinadas categorias hegemónicas, mas de nenhum modo nos dão uma ideia cabal dos ditos pensadores e correntes de pensamento. Marx é sempre colocado no rubro “materialismo”, embora ele nunca dissesse que o era. Pode ser colocado nesse rubro apenas se “materialista” aí quiser significar “praxis”, prática transformadora, como oposição a ideia pura.

Se materialismo significa coisas, factos, não pode aí haver dialéctica. Mais ainda se quem defende tal concepção se confessa "nominalista", como o faz Negri. Nessa tarefa tinha sido precedido por Hobbes, a quem Negri odeia, embora talvez se trate do materialista mais consequente. Só que, como todo o materialista nominalista, cai na contradição e termina elaborando um sistema, o qual é impossível se o que existe é apenas matéria.

Os materialistas nominalistas, Negri afirma taxativamente ser nominalista e reclama-se absolutamente do conceito, "estão forçados a derivar tudo o que existe de um princípio determinado, de um princípio material como generalidade suprema, mas ao mesmo tempo, a matéria deve caracterizar aquilo que precisamente não é um princípio, que não é a figura mais geral do pensamento, mas antes o que não é redutível puramente a pensamento”(TF p. 179).

Sem dúvida que o materialismo de Negri, de acordo com as suas próprias afirmações, é o da praxis, não o dos factos isolados ou das coisas: “o meu propósito é, nestas lições, desenvolver a filosofia da praxis, o materialismo da praxis, insistindo sobre a dimensão da temporalidade como substrato ontológico do materialismo" (Kam p. 32). Dessa forma, colocar-se-ia na corrente seguida pelo jovem Lukács, Korsch, Gramsci, Mariátegui, Che Guevara. Como pode, então, negar a dialéctica?

Pretender praxis, ou seja, prática - consciência, sem dialéctica é como pretender fogo sem calor. A chave, ou uma chave, talvez, é-nos dada pelo próprio Negri ao interpretar a praxis como força – vis – na esteira do espinozismo: “dizer praxis é dizer força (vis) que constrói (ou transforma) a coisa em nome e o nome em coisa' (Kam p. 38).

O que é essa 'força' capaz de transformar a coisa em nome? Tem isso algum sentido? Toda a força provoca uma reacção, de maneira que se forma um "sistema de forças". O que não se vê é como a mera força possa transformar a coisa em nome e vice-versa. Isto é um aranzel, um jogo de palavras. A praxis não é mera força, mas sim prática-consciência, transformação consciente.

No estudo que dedica a Spinoza, Negri traça a maldita senda dialéctica que vai de Kant a Hegel, através de Rousseau, enquanto deixa livre de tal maldição a via Maquiavel, Spinoza, Marx. Como consegue recuperar um Marx sem dialéctica é um verdadeiro mistério, como o é o de sustentar a criação ex nihilo .

Precisamente um dos motivos, ou o motivo da negação da dialéctica é que esta não consente tal criação: "A dialéctica, enquanto forma do pensamento transcendental, refuta decididamente o poder de gerar ex nihilo (de produzir, plena, pleníssima de ser, no vazio, contra o vazio)' (Kam p. 159).

Negri refuta o axioma da filosofia e da teologia clássicas que sustentam que ex nihilo, nihil fit . Não apenas a dialéctica, mas todo o sentido comum e todo o pensamento sensato sustenta que do nada, nada se cria. Para o fazer, seria necessário um poder omnipotente como sempre defendeu a teologia. Defender que se pode produzir a partir do nada, do vazio, é má teologia.

Para Negri, a dialéctica é uma espécie de capuz que os filósofos idealistas da burguesia como Kant, Rousseau e sobretudo Hegel envergaram, e que lhes serviu para legitimar mentirosamente o seu domínio, mas que desaparece, se evapora, quando a multidão confronta directamente o império. Evidentemente, Marx não se tinha dado conta de semelhante armadilha burguesa.

De maneira que a dialéctica seria um verdadeiro obstáculo para ver a realidade, um antolhos que nos impediria de ver, porque “ser e não ser se afirmam e se negam simplesmente, discretamente, imediatamente. Não há dialéctica. O ser é o ser, o não ser é o nada” (AS p. 361). Já dizia o velho Parménides: o ser é, o não ser não é. Mas Parménides tirava a consequência lógica que se assim é, do ser nada se pode pensar nem dizer. Não é o que pensa Negri, que não pára de falar do ser.

O povo desagregou-se na multidão
Uma das categorias fundamentais de toda a filosofia da praxis e de toda a sociologia criada na América Latina é a de “povo”. Quando nos referimos ao povo, queremos dizer que não se trata da massa, duma simples multidão de átomos, de simples grupos fragmentados, mas de um sujeito, de uma totalidade que não implica a anulação de indivíduos e grupos, mas sim a sua articulação num projecto comum.

Não é fácil para um povo constituir-se como tal, criar-se como povo. O dominador sempre fará todos os esforços possíveis para o fragmentar, dividir, atomizar, numa palavra, para o reduzir a uma multidão. O caminho deve ser da multidão para o povo e não ao contrário como propõe Negri. A sua visão europeia fá-lo ver o povo como uma construção do “racismo colonial'”, de tal maneira que “os conceitos de nação, povo e raça nunca estão muito afastados entre si" (Imp p. 105).

É provável que, na óptica dos centros de poder donde emana a visão de Negri, as coisas sejam encaradas dessa maneira. O povo francês ou italiano pode achar-se superior aos povos do Terceiro Mundo, aos latino-americanos, digamos, mas isso não corresponde essencialmente ao conceito de povo. Não vemos assim as coisas nos países da periferia. Afirmar-se como povo na periferia significa afirmar-se como sujeito, significa não aceitar ser tratado como um objecto.

Para Negri o povo é uma “síntese constituída”, enquanto a multidão é “constituinte”. Toda a síntese simplesmente constituída é tratada como objecto. O dominador colonialista entrou com violência assassina genocida em comunidades e povos, desagregando-os, escravizando-os, impondo-lhes novos limites territoriais, novas leis, nova constituição política. Dessa forma, os povos são “sínteses constituídas", como diz Negri. Esta não é senão a acção e a visão do dominador.

Para nós, habitantes do Terceiro Mundo, que continua a existir apesar do que Negri diga, o povo foi muitas vezes transformado em objecto, mas nas suas lutas constitui-se como sujeito. O que fez o Terrorismo de Estado foi precisamente destruir os sujeitos políticos e sociais, cuja articulação nos constituía como povo capaz de resistir aos embates neo-liberais e de avançar em projectos libertado, pulverizando o povo em multidão.

O povo nunca é senão um fazer-se povo, ou seja, sujeito. Ser povo significa ter uma vontade comum como articulação de milhares de milhões de vontades expressas, não meramente de indivíduos, de particulares, mas de colectividades, de grupos que se constroem como sujeitos.

Quando se instalou a ditadura de Onganía em 1966, a resistência que a impediu de se impor não foi obra da multidão, mas antes do sujeito colectivo no qual se articulavam os diversos sujeitos colectivos, como os sindicatos de classe, a CGTA, os sindicatos combativos, a juventude peronista, as organizações armadas, o movimento villero. Quando, através do Terrorismo primeiro, a impunidade depois e a hiper-inflação por fim, quebrou o sujeito popular e o reduziu a multidão, o neo-liberalismo globalizador menemista passou como um furacão, não deixando nada na sua passagem.

________
Notas:
(1) Digo "o marxismo como pensamento de Marx", porque distingo entre o marxismo como ideologia ou interpretação que praticam os mais diversos movimentos e partidos que se reportam a Marx, do próprio pensamento de Marx. Para não criar confusões, emprego o termo “marxiano” quando me refiro ao pensamento de Marx e “marxismo” quando aludo a uma sua interpretação ou desenvolvimento. Como os autores citados não fazem diferença na terminologia e falam sempre de marxismo, tenho de indicar quando se referem ao pensamento de Marx ou a alguma interpretação.
(2) Traduzo directamente do texto italiano. Kairós, Alma Venus, Multitudo é a exposição da visão filosófica de Negri, a sua versão do materialismo. Entendo que não existe tradução para estas expressões.

Siglas:
AS — A anomalia selvagem
Log — Lógica como ciência histórica
PG — Globaloney
Imp — Império
Kam — Kairós, Alma Venus, Multitudo
TF — Terminología filosófica
TraM — Tra marxismo e no (Entre marxismo e não)

Bibliografia citada:
  • Adorno, Theodor, W.: Terminología filosófica. Taurus Ediciones, Madrid, 1977.
  • Colletti, Lucio: Tra marxismo e no. Laterza, Torino, 1999.
  • Della Volpe, Galvano: Logica come scienza storica. Editori Riuniti, Roma, 1969.
  • Hegel, G.W.F.: Fenomenología del espíritu. Fondo de Cultura Económica, México, 1973.
  • Negri, Antonio: La anomalía salvaje. (Ensayo sobre poder y potencia en B. Spinoza). Ed. Anthropos, Barcelona, 1993.
  • Negri, Antonio: Imperio. Editorial Paidós, Buenos Aires, 2002.
  • Negri, Antonio: Kairós, Alma Venus, Multitudo. Manifesto Libri, Roma, 2000.
  • Petras, James: Globaloney (El lenguaje imperial, los intelectuales y la izquierda). Editorial Antídoto, Buenos Aires, 2000.
    [*] Rubén Dri é professor e investigador de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires. Foi sacerdote e escreveu, entre outros livros, 'Racionalidad, Sujeto y Poder' (Biblos).

    O original foi difundido pela Argenpress . Tradução de Carlos Coutinho.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .  

  • Um governo a serviço do grande capital

    – Pacote da privataria petista é o "kit felicidade" do empresariado

    por PCB
    Almas gémeas. A Comissão Política Nacional do PCB avalia que o recente pacote econômico anunciado pelo governo, envolvendo recursos no valor de R$ 133 bilhões [1] para obras de infraestrutura da malha ferroviária e rodoviária, consolida e aprofunda a opção do governo do PT pelo grande capital e amplia de maneira acelerada o processo de privatização da economia brasileira, sob os disfarçados nomes "concessões", "parceria público-privada".

    Esse pacote é apenas a primeira etapa do chamado Programa de Investimento em Logística, que ainda vai abranger os setores de energia, portos e aeroportos e vem consolidar a linha iniciada com a privatização dos três principais aeroportos do País e de uma rodovia que liga o Rio de Janeiro ao Espírito Santo.

    Esta medida representa o escancaramento de uma linha política muito semelhante à do governo Fernando Henrique Cardoso, de entregar o patrimônio público para a iniciativa privada; tanto que o próprio PSDB publicou matéria paga nos jornais cumprimentando a presidente Dilma pelo novo programa de privatizações. Além disso, todo o empresariado comemorou o pacote e fez coro em elogios à presidente, chegando ao ponto de Eike Batista, o empresário mais rico do País, ter definido o pacote como o "kit felicidade" para o empresariado.

    O chamado choque de capitalismo – um volume colossal de concessões à iniciativa privada, como bem definiu a revista reacionária Veja – vai privatizar 7,5 mil quilômetros de rodovias, muito mais que todas as concessões do governo passado, que atingiram pouco mais de 5 mil quilômetros, e ainda 10 mil quilômetros de ferrovias. Como informa orgulhosamente o jornal O Globo, porta-voz dos interesses do grande capital, o Brasil, com 23,4 mil km de rodovias com pedágio [2] , passa a ser recordista mundial dessa forma de privatização, à frente até da Alemanha e Estados Unidos.

    Para facilitar ainda mais a vida do empresariado, o governo se encarregou de garantir a compra de toda a capacidade de transporte de carga das novas empresas concessionárias, o que significa que esses empresários não correrão qualquer risco de prejuízo em caso de baixa demanda por transporte de carga.

    Além disso, ainda dentro do pacote de bondades ao empresariado, ficou acertado que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiará cerca de 80% dos projetos de privatização, num processo também semelhante ao do governo FHC. É o dinheiro público, mais uma vez, financiando os investidores privados. E, para que não se tenha dúvida dos objetivos do governo, este ainda vai conceder incentivos (renúncias fiscais) aos consórcios vencedores das privatizações das rodovias e ferrovias e divulgar nas próximas semanas novas medidas privatizantes na área de portos e aeroportos.

    O governo, anuncia com alegria a imprensa burguesa, também concederá "incentivo" adicional aos vencedores das concessões: a desoneração da folha salarial nos setores de transporte aéreo e de carga, navegação de cabotagem, transporte marítimo, navegação de apoio marítimo e portuário, e manutenção e reparação de aeronaves, motores e componentes (renúncia de cerca de R$ 900 milhões [3] ). Ganha a burguesia e perdem os trabalhadores, pois estes setores deixam de contribuir com 20% da folha de pagamentos à Previdência Social, e passam a recolher uma alíquota de 1% ou 2% sobre o faturamento bruto.

    Trata-se, portanto, da consolidação de um modelo radical de construção de um estado máximo para o grande capital e mínimo para os trabalhadores. Não é essa a essência do que se chama de neoliberalismo? Mais uma vez fica demonstrado o caráter de classe do governo Dilma: enquanto nega reajuste de salários aos 400 mil funcionários públicos e professores universitários em greve e endurece as negociações com os trabalhadores, abre os cofres do governo, via BNDES, para os empresários adquirirem o próprio patrimônio público. O mais vergonhoso é que a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras centrais pelegas [4] , que deveriam estar ao lado dos trabalhadores grevistas, avaliaram as medidas privatizantes como positivas e deram seu aval às privatizações, o que demonstra a completa degeneração tanto do sindicalismo chapa branca [5] quanto do sindicalismo pelego [6] no Brasil.

    Não precisamos esperar que os vencedores das concessões sejam anunciados para saber, a priori, que, além das empreiteiras e dos novos ricos escolhidos pelo governo, os fundos de pensão ligados ao sindicalismo oficial e pelego (como Previ, Petros e Funcef) estarão entre os principais beneficiários da decisão do governo. Mais uma vez, o "PT Patrão" estará representado nos conselhos de administração das grandes empresas que serão criadas, em novos setores estratégicos da economia brasileira.

    Com esse pacote de privatizações, o governo do Partido dos Trabalhadores (e seus aliados à esquerda e à direita) tira a máscara definitivamente e sepulta as ilusões dos ingênuos e daqueles que ainda acreditavam que esse governo possuía alguma dimensão popular. Além disso, confirma as avaliações que o PCB vem fazendo a respeito do PT desde 2005, quando rompemos com o governo e passamos a ter uma posição independente, mesmo com a incompreensão de vários setores da esquerda. Afinal, o critério para avaliar um governo é a sua relação com os interesses dos trabalhadores. E, nesse caso, essa é uma administração que governa essencialmente para o capital, que articula e financia seus negócios, e dá apenas migalhas para os trabalhadores, de quem ainda quer retirar o pouco que têm, com a proposta de flexibilização para baixo de direitos trabalhistas, que em breve enviará ao Congresso Nacional.

    PCB – Partido Comunista Brasileiro

    Comissão Política Nacional, agosto de 2012
    [1] €53 mil milhões
    [2] Pedágio: portagem
    [3] €359 milhões
    [4] Centrais pelegas: centrais amarelas
    [5] Chapa branca: cor da matrícula dos carros oficiais
    [6] Sindicalismo pelego: sindicalismo amarelo


    O original encontra-se em pcb.org.br/...

    Esta declaração encontra-se em http://resistir.info/ .  

    terça-feira, 21 de agosto de 2012

    Obama e seu Oriente-monstro by Manlio Dinucci

    Os EUA defendem a democracia há 236 anos: foi o que disse Hillary Clinton no Cairo. Quer dizer: ela já apagou da história as mais de 160 intervenções armadas que o imperialismo norte-americano obrou pelo mundo, a partir dos anos 1940s; as guerras do período da Guerra Fria, no Vietnã, no Laos, no Cambodia e no Líbano; os golpes orquestrados pela CIA na Guatemala, Indonésia, Brasil, Chile e Argentina; e as guerras do período pós-Guerra Fria no Iraque, Somália, Iugoslávia e Afeganistão.

    Clinton guarante que o governo Obama mantém o mesmo compromisso em todas essas ações. De fato, se se considera a estratégia posta em prática pelo Republicano George W. Bush, do “Oriente Médio Expandido” (para incluir o Norte da África e a Ásia Central), Barack Obama, Democrata (e recipiendário de um Prêmio Nobel da Paz), mantém, sim, o mesmo compromisso, com a mesma estratégia, cujo alvo é toda a região do Pacífico Asiático, em declarada provocação a China e Rússia.

    O primeiro passo foi à guerra contra a Líbia, país que (com Bill Clinton e Bush fizeram na Iugoslávia) foi demolido, como estado unificado, para implantar no poder governantes servis, que obedeçam Washington. Assim se chegou a “eleições livres” na “Líbia livre”, vencidas pelo “liberal” Mahmoud Jibril, cuja vitória passa a ser responsabilidade do desejo popular.

    Quem diga isso ignora o fato de que os EUA e outras potências ocidentais gastaram milhões, na Líbia, para comprar o apoio de organizações e grupos tribais. Ignora também que Jibril é homem de confiança de Washington, economista formado nos EUA e propagandista do neoliberalismo econômico no mundo árabe. Em 2007, Jibril foi nomeado presidente do Conselho de Governo líbio para o desenvolvimento econômico, organismo ligado a empresas transnacionais de capital norte-americano e britânico. Nesse posto, Jibril alertou Washington para o fato de que Gaddafi bloqueara o projeto de privatizar a economia líbia e formar um governo ou grupo de influência no governo, de tendências ocidentalizantes. Disse também que aumentavam as pressões chinesas e russas. A vitória de Jibril começou a delinear-se, nas mesas de conspiração.

    Dia 30/3/2011 (dez dias antes do início da guerra contra a Líbia), o New York Times escreveu, com informação de releases do governo Obama: “Se a intervenção de forças norte-americanas e ocidentais derrubar Muammar Gadhafi, Mahmoud Jibril pode ser o novo líder líbio.”

    A guerra contra a Líbia é o modelo que os EUA adotaram para desintegrar outros estados, entre os quais Síria e Irã, que impedem o avanço na direção leste. Dado que vários países relutam, sem aceitar a implantação de bases militares dos EUA em seu território, o Pentágono está ocupando águas territoriais, a começar pelo Golfo Pérsico, e avançando gradualmente na direção leste, usando navios especiais que servem como bases flutuantes para forças especiais.

    Outras bases aéreas e navais já estão instaladas ou foram ampliadas, nas Filipinas, em Cingapura, Austrália e outros países. Em Cingapura, está ancorado o primeiro “navio de combate litorâneo”[1]. É um novo tipo de navio de guerra, que se pode aproximar da costa e atacar áreas em terra. A Marinha dos EUA já deslocou cerca de 50, para o Pacífico.

    Além da ofensiva diplomática, para criar disputas entre a China e países vizinhos, Clinton fez uma “visita histórica” ao Laos. Prometeu $9 milhões para o trabalho de remover minas e posou para fotografias ao lado de um menino mutilado, vítima de munição não detonada, cerca de 30% dos 2 milhões de toneladas de bombas que os EUA descarregaram contra o Laos em 1964-1973. Claro. Sempre defendendo a democracia.
    Notes
    [1] Orig. Litoral Combat Ship (LCS), em http://www.naval-technology.com/projects/littoral/

    Manlio Dinucci is a frequent contributor to Global Research.  Global Research Articles by Manlio Dinucci

    domingo, 19 de agosto de 2012


    01/08/2012 01h39 - Atualizado em 01/08/2012 08h04

    Morre aos 86 anos o escritor americano Gore Vidal

    Vidal era romancista e também escreveu para a Broadway e a televisão.
    Escritor morreu em Los Angeles, vítima de complicações de uma pneumonia.

    Do G1, com agências internacionais *
    6 comentários
    O escritor norte-americano Gore Vidal morreu nesta terça-feira (31), aos 86 anos, em sua casa, em Hollywood Hills, Los Angeles, na Califórnia, Estados Unidos, informou seu sobrinho ao jornal “Los Angeles Times”.
    “Vidal morreu em casa, de complicações de uma pneumonia”, afirmou ao jornal o sobrinho Burr Steers.
    O escritor era primo do ex-vice-presidente dos EUA Al Gore e meio-irmão da ex-primeira dama Jacqueline Kennedy. Ele foi romancista e ensaísta e residiu muitos anos em Ravello, na Itália. Gore escreveu livros e artigos para periódicos do mundo inteiro.
    Trajetória
    Gore Vidal nasceu na Academia Militar de West Point em 3 de outubro de 1925, dentro de uma família com excelentes contatos no mundo da política. Era filho de um pioneiro da aviação americana e foi criado em Washington, D.C., onde seu pai trabalhou para o governo Roosevelt e seu avô foi o senador T. P. Gore.
    Estudou na Universidade de Nova Hampshire.
    Ele ingressou na literatura quando adolescente, escrevendo contos e poemas. Publicou seu primeiro romance, “Williwaw”, aos 21 anos, ao servir às Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial. O livro foi escrito a bordo de um navio.
    Vidal escreveu 25 romances, incluindo obras históricas como “Lincoln” e “Burr” e sátiras como “Duluth” - sua produção literária girou em torno do romance histórico, da sátira sobre o estilo de vida dos americanos e da ficção científica. Seus livros mais famosos são "À procura de um rei", "O julgamento de Paris" e "A era dourada".
    Seu terceiro romance, "A Cidade e o Pilar", abordou sem subterfúgios o homossexualismo, decisão que escandalizou os críticos quando foi publicado em 1948, mas que abriu um novo terreno na literatura americana.
    Seu fascínio pela política foi evidenciado em 1967 no livro "Washington DC", que conta a história de uma família de políticos.
    Ele também escreveu sucessos da Broadway, roteiros e dramas para a televisão. Como roteirista de cinema, Vidal escreveu os textos de "Calígula" (1979) e "Paris está em chamas?" (1966).
    Em 1993, obteve o Prêmio Nacional do Livro dos Estados Unidos por seu ensaio "United States Essays, 1952-1992".
    Quando não estava escrevendo, aparecia em filmes, interpretando a si mesmo, como em “Roma de Fellini”.
    Escritor é fotografado em uma sessão literária, em 2009 (Foto: Florida Keys News Bureau, Carol Tedesco/AP)Escritor é fotografado em uma sessão literária na Flórida, em 2009. (Foto: Florida Keys News Bureau, Carol Tedesco / AP Photo)
    Vida pessoal e política
    Abertamente bissexual, Vidal retornou ao tema da identidade sexual 20 anos mais tarde, com a sátira "Myra Breckenridge."
    Nos anos 50 passou a sofrer perseguições por parte dos conservadores liderados pelo senador McCarthy, pois era um crítico das posturas belicistas adotadas pelos dirigentes norte-americanos.
    Ele tentou várias vezes, sem sucesso, ser eleito para cargos políticos. Nos anos 60, teve um papel muito ativo dentro das fileiras mais liberais do Partido Democrata e se apresentou sem sucesso para o posto de congressista pelo estado de Nova York.
    Entre 1970 e 1972, presidiu o People's Party (de tendência liberal), e em 1982 se apresentou como senador pela Califórnia e ficou perto de conquistar uma cadeira no Congresso ao obter mais de 500 mil votos.
    Nos últimos anos, suas opiniões políticas ficaram ainda mais radicais. Vidal foi particularmente ácido com o governo do presidente George W. Bush, a quem chamou uma vez de "homem mais estúpido dos Estados Unidos".
    Polêmicas com escritores
    Por várias vezes, Vidal se envolveu em polêmicas com outros escritores, como uma discussão com insultos com o colunista conservador William Buckley diante das câmeras de TV.
    Vidal considerava Ernest Hemingway uma piada  e chamou Truman Capote de "animal sujo".
    Em outro episódio famoso, Vidal afirmava que Norman Mailer havia dado uma cabeçada em seu rosto ao fim de uma discussão antes de um programa de televisão. Vidal também associou Mailer ao assassino Charles Manson.
    Ele elogiou, criticou ou fez piadas de amigos e inimigos como Anais Nin, Tennessee Williams, Christopher Isherwood, Orson Welles, Truman Capote, Frank Sinatra, Jack Kerouac, Marlon Brando, Paul Newman, Joanne Woodward, Eleanor Roosevelt e a família Kennedys, entre outras celebridades.
    (*) Com informações das agências de notícias Associated Press, Efe, France Presse e Reuters

    terça-feira, 14 de agosto de 2012


    1
    Pelo Socialismo
    Questões político-ideológicas com atualidade
    http://www.pelosocialismo.net
    _____________________________________
    Publicado em: http://www.hist-socialismo.com/docs/LudoMartensBalancocolapsoURSS.pdf
    Colocado em linha em: 2012/08/12
    Balanço do colapso da União Soviética
    Sobre as causas de uma traição e as tarefas futuras dos comunistas1
    Ludo Martens
    2 de Abril de 1992
    [Publica-se a primeira parte do artigo, que está integralmente publicado no sítio “Para a História do Socialismo”, no endereço eletrónico supra]
    Na União Soviética, o primeiro Estado socialista do mundo, o país natal de Lénine e de Stáline, onde, após esforços heróicos e sacrifícios imensos, os trabalhadores criaram uma nova sociedade sem classes exploradoras, neste país, caro aos revolucionários do mundo inteiro, o capitalismo foi agora restaurado.
    É dever de todos os revolucionários do mundo inteiro reflectir sobre as causas desta tragédia e fazer uma análise meticulosa dos factos em causa.
    Obviamente, os capitalistas dos cinco continentes aproveitaram este acontecimento inesperado para propagar milhões de vezes a mensagem de que «o socialismo não funciona e o capitalismo cria prosperidade». E em todos os países, os oportunistas desertaram para o lado da democracia imperialista, fechando os olhos ao facto de o capitalismo, que «funciona tão bem», assentar em milhões de cadáveres, vítimas da opressão e da exploração do Terceiro Mundo.
    Porém, ecoava ainda o clamor da vitória histórica do capitalismo, tivemos de concluir que o restabelecimento do capitalismo na Europa Oriental e na União Soviética havia agravado todas as contradições fundamentais no mundo, e que nos aguardavam grandes convulsões e agitações. Longe de testemunharmos o fim da história, como
    1 Título original: Balance of the collapse of the Soviet Union, on the causes of a betrayal and the tasks ahead for communists (retirado em 15.06.2011 de: http:/wpb.be/doc/doc.htm). Este documento, encontrado na altura apenas em inglês, deixou entretanto de constar no referido site, podendo ser consultado em castelhano em: http://accioncomunista.jimdo.com/descargas/libros/
    Com a publicação deste artigo queremos também assinalar a passagem do primeiro aniversário sobre a morte de Ludo Martens (24 de Março de 1946 - 5 de Junho de 2011), cuja obra precursora constitui um valioso contributo para a desmontagem das falsificações sobre a construção do socialismo na URSS, para a análise das causas da sua derrota e para o desmascaramento e combate ao revisionismo moderno (N. Ed.)
    2
    havia declarado um membro do governo norte-americano, ou assistirmos ao fim da luta de classes, estávamos no início de uma nova fase da luta global dos oprimidos contra um sistema imperialista mundial que se tornara incompatível com a simples sobrevivência de centenas de milhões de seres humanos. Efectivamente, a revolução socialista transformara-se numa questão de sobrevivência para a vasta maioria da população mundial. A traição final do revisionismo não podia apresentar com maior clareza esta situação.
    No entanto, se a parte oprimida da humanidade tem de avançar para a sua libertação, ela precisa da ajuda de organizações combativas que tenham uma compreensão clara das leis fundamentais da revolução. Os comunistas de todo o mundo têm de reavaliar o rumo tomado na União Soviética. Terão de distinguir claramente revolução de contrarrevolução e marxismo-leninismo de revisionismo. O resultado do curso oportunista tomado na União Soviética permite-nos colocar algumas questões fundamentais, que têm sido objecto de acaloradas discussões desde 1956. As experiências positivas bem como as negativas provam que a adopção de uma linha orientadora justa é decisiva para o futuro do Partido Comunista e da revolução.
    Lénine, Stáline e a ditadura do proletariado
    As primeiras fábricas, os gérmenes da sociedade industrial europeia, surgiram na sequência do genocídio dos povos da África negra e da América. Levando a «civilização» aos impérios asteca e inca, os exploradores europeus causaram cerca de 60 milhões de mortos entre a população nativa. Isto, é claro, além de terem saqueado enormes quantidades de ouro e prata. Desde princípios do século XVI, os comerciantes europeus capturaram e venderam entre 100 milhões a 200 milhões de escravos africanos. Dezenas de milhões de homens e mulheres perderam a suas vidas na Ásia e na África à medida que as conquistas coloniais do século XIX lançavam as sociedades locais no caos, provocando a fome, transmitindo doenças desconhecidas, difundindo o abuso do álcool e do ópio. Durante os séculos XVIII e XIX, a revolução industrial na Europa causou, entre outras convulsões, a expulsão violenta de milhões de camponeses das suas terras e o trabalho forçado de mulheres e crianças de 12 a 15 horas por dia. Na I Guerra Mundial, os estados burgueses europeus lançaram-se às gargantas uns dos outros, com o fim de uma nova partilha dos domínios coloniais. Dez milhões de trabalhadores pagaram com as suas vidas esta rivalidade colonial.
    Perante estas realidades, o socialismo não podia desenvolver-se e sobreviver senão através da organização da ditadura do proletariado, para unir todas as classes populares contra a burguesia. Esta experiência fundamental de Lénine e de Stáline adquiriu um importante significado no recente contexto dos povos que aspiram a libertar-se da «democracia» imperialista. A derrota da via reformista no Chile em 1973 e a eliminação do poder sandinista na Nicarágua, depois de amplas concessões à burguesia, mostram a importância destes princípios revolucionários defendidos por Lénine e Stáline.
    Os operários e camponeses russos já sofriam a opressão tsarista há séculos quando pagaram um preço excessivamente alto durante a I Guerra Mundial: quase três milhões de mortos. Deste sofrimento insuportável, os bolcheviques extraíram a
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    energia, a coragem e a determinação necessárias para organizar a revolução socialista e quebrar a ditadura burguesa pela força. A terra e os meios de produção tornaram-se propriedade pública, a máquina opressiva do Estado do regime tsarista foi sistematicamente desmantelada e substituída por um Estado de operários e camponeses.
    Apoiados pelos exércitos intervencionistas britânicos, franceses e checos e outras tropas estrangeiras, as classes reaccionárias e as forças tsaristas desencadearam o Terror Branco contra o socialismo. Praticamente sozinhos contra o resto do mundo, os bolcheviques conseguiram trazer para o lado da classe operária as amplas massas de camponeses e organizaram o terror em massa contra os seus inimigos. Neste baptismo de fogo, o bolchevismo criou raízes firmes nas classes do campesinato e entre os pobres. Sem este decidido Terror Vermelho, o socialismo não teria triunfado na Rússia e o Terror Branco teria restabelecido o aparelho opressivo, que mantém os operários e povos inteiros sob o seu jugo. Teria reinstalado esse baluarte da reacção mundial, que constituía o tsarismo.
    Foi Lénine que elaborou os princípios essenciais do desenvolvimento socialista sob a ditadura do proletariado. Todavia, quando morreu em 1924, o seu trabalho tinha apenas começado.
    Entre 1924 e 1953, o Partido Bolchevique, sob a liderança do camarada Stáline, levou a cabo a parte essencial dos planos de Lénine. Com um heroísmo popular sem precedentes, a União Soviética construiu o sistema socialista e defendeu-o da agressão fascista. Em geral, o Partido Bolchevique e o povo soviético, sob a liderança de Stáline, conseguiram realizar as tarefas colocadas por Lénine.
    O Partido Bolchevique realizou a industrialização socialista entre 1921 e 1941, o que permitiu responder às necessidades básicas dos trabalhadores e adiar o ataque dos exércitos fascistas.
    A colectivização da agricultura contrariou eficazmente a tendência espontânea para a diferenciação de classes no campo, em particular o desenvolvimento dos kulaques, a classe dos proprietários fundiários ricos, que seriam uma ameaça fatal para o desenvolvimento do socialismo na URSS. Graças à colectivização, o sistema foi capaz de alimentar a população urbana em rápida expansão.
    Com a organização da revolução cultural, a União Soviética conseguiu, em apenas 15 anos, que dezenas de milhões de camponeses analfabetos, que viviam em condições medievais, entrassem no século XX. Este esforço produziu um exército de técnicos e especialistas bem qualificados e politicamente conscientes, que desempenharam um importante papel na guerra antifascista.
    Desde os anos 20 até aos anos 50, o Partido Bolchevique contribuiu decisivamente para o reforço do movimento comunista internacional. A simples existência da União Soviética tornou possíveis revoluções socialistas na Europa Oriental e a revolução na China, que foi uma vitória com ressonância mundial. O êxito da reconstrução socialista na União Soviética, combinado com uma política externa que promovia a
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    independência e a paz, deu um forte impulso ao movimento de descolonização na África e na Ásia.
    Aqui chegados é importante reflectir um pouco sobre certos aspectos da luta liderada por Stáline, que continua a provocar intensa controvérsia. Referimo-nos à colectivização e às purgas.
    Na União Soviética, em 1928, sete por cento dos camponeses não tinham terra, 35 por cento eram camponeses pobres, 53 por cento podiam classificar-se como relativamente abastados e cinco por cento eram agricultores ricos, os chamados kulaques, que controlavam 20 por cento dos cereais comercializados. O curso natural da situação reforçou esta classe de ricos agricultores, dado que, através do seu crescente controlo sobre os stocks de cereais colocados no mercado, podiam privar de alimentos as cidades e sabotar a industrialização socialista. A modernização da agricultura medieval, em que predominavam ainda os arados de madeira e a tracção animal, era uma necessidade absoluta para o êxito da industrialização. Se a mecanização fosse introduzida no campo, mediante os meios de capital fornecidos pela classe rica dos kulaques, a exploração, a miséria e a fome teriam sido uma consequência inevitável para a maioria dos camponeses. Além disso, uma classe burguesa agrária revigorada teria indubitavelmente atacado o socialismo, assim que se sentisse capaz disso. Para defender o poder dos trabalhadores não havia outra via senão a colectivização. Neste processo libertou-se o ódio reprimido durante anos pelos camponeses pobres contra a classe rica dos kulaques. Esta luta de classes organizada pelos camponeses pobres e médios demonstrou ser o facto decisivo na colectivização. Como o Partido Bolchevique não dispunha mais do que 200 mil membros no campo, o seu impacto permaneceu limitado naqueles primeiros anos. O processo de colectivização decorreu à medida que a guerra civil eclodia de novo no campo. Os ricos proprietários fundiários assassinaram um grande número de quadros e líderes camponeses e abateram parte do gado para sabotar a economia colectiva. A repressão conduzida pelos camponeses pobres contra os kulaques foi em grande parte uma reacção a séculos de opressão e de humilhação que se tornou incontrolável.
    As purgas organizadas pelo Partido Bolchevique, entre 1937 e 1938, justificavam-se tendo em conta a aproximação da guerra. No entanto, estas purgas foram acompanhadas de graves erros, na sua maior parte inevitáveis dada a complexidade da luta. Stáline sabia bem que a deterioração da situação internacional e a possibilidade crescente de uma guerra de agressão contra a União Soviética lançava uma luz particular sobre a luta política no interior do Partido. Tendo em conta a aproximação do conflito mundial, suspeitou justamente que a Alemanha nazi e outras potências imperialistas estavam a enviar espiões, sabotadores e outros agentes para o país. Entre as classes burguesas derrotadas, dentro e fora da União Soviética, havia bastantes candidatos ciosos de vingança para ajudar a causa imperialista. Oportunistas e derrotistas no interior do Partido, impressionados pela «superioridade» do sistema imperialista, podiam tentar estabelecer contacto com o inimigo. Stáline organizou uma vasta mobilização do povo em apoio à purga. A depuração do movimento visava dois tipos de adversários do socialismo.
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    O primeiro tipo eram elementos das antigas classes opressoras, que desejavam vingar-se da sua derrota, capitulacionistas e elementos pró-germânicos, que esperavam que o ataque nazi os viesse «libertar». O segundo tipo de inimigos que o poder popular combateu eram burocratas e tecnocratas, que se tinham afastado das massas e se estavam rapidamente a transformar numa nova burguesia, pronta a submeter-se ao mais poderoso, ou seja, à Alemanha de Hitler, com vista a defender as suas posições. Assim, a purga do movimento socialista era uma necessidade política absoluta. Nas condições da época, isso também significava que muitos erros seriam seguramente cometidos. Por vezes os burocratas conseguiam desviar o escrutínio para pessoas inocentes, com o fim de defenderem as suas posições. Oportunistas faziam acusações falsas para subirem nas suas carreiras partidárias. Agentes inimigos infiltrados no Partido fabricavam «provas» para incriminar comunistas leais, e comunistas honestos cometeram excessos esquerdistas. Em geral, no entanto, as purgas atingiram os seus objectivos. Isto ficou demonstrado na guerra antifascista, quando, contrariamente à situação de outros países, houve muito poucos colaboracionistas que apoiaram os nazis na União Soviética. Na Europa Ocidental, como Stáline previra, muitos oportunistas juntaram-se às fileiras das forças nazis ocupantes. Proeminentes figuras dos sociais-democratas belgas aclamaram publicamente Hitler como um libertador. Em França, a maioria dos sociais-democratas votou a favor da atribuição de plenos poderes ao regime colaboracionista de Pétain. Se tivermos em mente estes factos, não surpreende que as facções burguesas denunciem unanimemente as «purgas criminosas» organizadas pelo Partido Bolchevique. O poder estabelecido, a maior parte dos barões da indústria, os banqueiros, quadros de partidos nacionalistas, partidos cristãos, liberais e sociais-democratas, todos colaboraram com os nazis enquanto a sua vitória parecia assegurada.
    Perante a recente restauração completa do capitalismo na URSS sob Gorbatchov, podemos agora compreender melhor alguns aspectos das purgas de 1937-38. Stáline afirmou que os trotskistas, os partidários de Bukhárine e os nacionalistas burgueses defendiam uma política burguesa e, de facto, os interesses das classes opressoras derrotadas. Com as suas acções ajudaram estas classes e outros grupos anti-socialistas a reagrupar forças. Khruchov iniciou o processo afirmando que esta análise era errónea e tinha levado a actos arbitrários. As teses nacionalistas e as ideias de Trótski e de Bukhárine começaram a reaparecer nas políticas do PCUS. Finalmente, Gorbatchov reabilitou os trotskistas, os bukharinistas e os nacionalistas burgueses como «gente boa» e «vítimas do stalinismo». Dois anos mais tarde, a restauração do capitalismo tornou-se um facto. A história provou que visão de Stáline sobre esta questão estava inteiramente correcta.
    Khruchov: a primeira ruptura com a revolução socialista
    Recordemos agora quatro teses essenciais apresentadas há 30 anos por Khruchov, que nos permitirão compreender melhor os acontecimentos recentes na URSS.
    Primeira tese: Na União Soviética o poder deixou de ser da classe operária. O Estado da classe operária foi substituído pelo Estado de todo o povo, um Estado para todas as classes. «Assegurada a vitória total e definitiva do socialismo – a primeira fase
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    do comunismo – e a transição da sociedade para a construção em grande escala do comunismo, a ditadura do proletariado cumpriu a sua missão histórica e do ponto de vista dos objectivos do desenvolvimento interno deixou de ser necessária na URSS. O Estado, que surgiu como Estado da ditadura do proletariado, transformou-se na actual nova etapa no Estado de todo o povo, num órgão que expressa os interesses e a vontade de todo o povo.»2
    Esta ideia conduziu ao abandono da luta contra as tendências burguesas e reaccionárias sob influência do imperialismo. Igualmente tornou possível uma espécie de tranquilidade para a burocracia que procurava separar-se dos trabalhadores. Num «Estado de todo o povo», esta burocracia podia instalar-se confortavelmente, adquirir privilégios e obter benefícios pessoais através dos cargos políticos e económicos. Afinal de contas, já não podiam desenvolver-se contradições de classe entre ela e as massas laboriosas, pelo menos assim foi declarado.
    Segunda tese: Khruchov anunciou, em 1962, que a União Soviética alcançaria o comunismo em 1980 e que, nessa altura, teria ultrapassado os Estados Unidos. «Não demorará muito até que a União Soviética ultrapasse os Estados Unidos no campo económico. Na competição pacífica com os Estados Unidos, a União Soviética alcançará uma vitória histórica de importância universal (…) Teremos nós tudo o que é preciso para criar a base material e técnica do comunismo no espaço de duas décadas? Sim, camaradas, temos tudo o que precisamos.»3 Assim, actualmente, a União Soviética deveria estar a gozar a eterna felicidade do comunismo totalmente desenvolvido, a abundância para todos, e tudo isto desde 1980. Na realidade, estas promessas de um futuro ideal serviram para acalmar as massas, nas quais as ideias da revolução, do socialismo e do comunismo eram muito populares, e para consolidar as posições dos burocratas e tecnocratas no poder.
    Terceira tese de Khruchov: Declarou que o capitalismo entraria em colapso em todo o mundo à medida que o socialismo marchava para a vitória final. O rápido progresso da União Soviética atrairia a simpatia dos trabalhadores em todo o mundo, enquanto o capitalismo, gravemente enfraquecido, não seria capaz de resistir. Explicava-se assim que seria possível tomar o poder na Europa e no resto do mundo por via pacífica e parlamentar. «Na sequência da vitória do socialismo na União Soviética, surgiram condições mais propícias para a vitória do socialismo noutros países. O vasto campo de países socialistas, cuja população já ultrapassa os 900 milhões de habitantes, continua a crescer e a reforçar-se. As ideias do socialismo criaram profundas raízes no espírito de toda a classe operária. O capitalismo tornou-se muito mais fraco. Os partidos burgueses de direita e os seus governos fracassam cada vez mais». Isto cria a possibilidade de «conquistar uma maioria sólida no parlamento e transformar este parlamento num instrumento de verdadeiro poder
    2 XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 17-31 de Outubro de 1961, relato estenográfico, Gossudárstvenoi Izdátelstvo Politítcheskoi Literaturi, Moscovo, 1962, t. 3, p. 303. [O autor não menciona referências bibliográficas neste artigo. A presente citação encontrámo-la por semelhança no Programa do PCUS aprovado no XXII Congresso. (N. Ed.)]
    3 Idem, Discurso de Khruchov sobre o Programa do PCUS, ed. cit., t.1, p.169. Apenas a última frase constitui uma citação exacta deste discurso, estando a anterior presente em várias passagens, o que nos leva a concluir que se trata de uma síntese do autor. (N. Ed.)
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    popular.»4 Estas posições, que embelezam a sociedade imperialista e a ditadura da burguesia, constituem uma mudança radical de política.
    O quarto ponto de Khruchov refere-se à atitude para com os Estados Unidos. A superpotência imperialista havia sido até então considerada como o polícia mundial número um, intervindo e perseguindo agressivamente os seus interesses nos cinco continentes. Entretanto, Khruchov declarou: «Queremos ser amigos dos Estados Unidos e cooperar com eles na luta pela paz e segurança dos povos. Comprometemo-nos a alcançar este fim com boas intenções e sem propósitos ocultos». Isto foi dito num momento em que as nações do Terceiro Mundo, na sua maioria, seja na Ásia, África ou América do Sul, estavam envolvidas num luta terrível contra o imperialismo americano, que queria submetê-las ao domínio neocolonial.
    Bréjnev: a degeneração acelera-se
    Depois chegou Bréjnev. Alguns comunistas pensaram que ele se tinha distanciado pessoalmente dos erros mais flagrantes de Khruchov. A análise dos quatro congressos realizados sob a sua presidência não confirma esta opinião.
    Nikita Khruchov tinha proclamado três temas chave: o fim da luta de classes, um Estado de todo o povo, a defesa da burocracia privilegiada.
    Bréjnev continuou por este caminho. Apresentou ao público imagens brilhantes de uma sociedade sem classes, que ocultava uma crescente diferenciação de classes e estratos sociais. Aplaudiu «a eliminação do fosso entre classes e grupos sociais». «A nossa intelligentsia considera ser seu dever dedicar toda a sua energia criativa à construção da sociedade comunista.» Dizia isto apesar de nesse momento uma parte importante desta intelligentsia já estar completamente despolitizada e fascinada pelo Ocidente. Nos sonhos de Bréjnev, não eram só as diferenças de classe que desapareciam, mas também as distinções entre nacionalidades. Bréjnev inventou a noção de «povo soviético», segundo a qual as classes e as nacionalidades teriam desaparecido sem deixar rasto. «No nosso país temos sido testemunhas da formação
    4 No programa do PCUS aprovado no XXII Congresso do PCUS, atrás citado, pode ler-se uma afirmação com conteúdo semelhante a esta citação não referenciada pelo autor: «Nas condições actuais, numa série de países capitalistas, a classe operária, dirigida pelo seu destacamento de vanguarda, tem a possibilidade, na base de uma frente operária e popular e de outras formas possíveis de acordos e de cooperação política com diferentes partidos e organizações sociais, de unir a maioria do povo, conquistar o poder de Estado sem guerra civil e assegurar a passagem dos principais meios de produção para as mãos do povo. Apoiando-se na maioria do povo e repudiando decididamente os elementos oportunistas, incapazes de recusar a política de conciliação com os capitalistas e latifundiários, a classe operária tem a possibilidade de derrotar as forças reaccionárias e antipopulares, conquistar uma sólida maioria no parlamento, transformá-lo em instrumento ao serviço do povo trabalhador, desenvolver fora do parlamento uma ampla luta de massas, quebrar a resistência das forças reaccionárias e criar as condições necessárias para a realização pacífica da revolução socialista». Programa do PCUS, XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 17-31 de Outubro de 1961, ed. cit., t. 3, pp. 256-257. (N. Ed.)
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    de uma nova comunidade histórica: o povo soviético. Novas relações harmoniosas entre classes, grupos sociais e entre nações e nacionalidades surgiram do trabalho comum.» Com Bréjnev, o marxismo-leninismo transformou-se de ciência da luta de classes em ideologia. Por «ideologia» entendemos aqui a falsa consciência que representa os interesses de um grupo privilegiado separado dos trabalhadores. Nunca naqueles quatro congressos, Bréjnev abordou a realidade viva das diferentes classes, estratos sociais e forças políticas, com vista a definir algumas orientações de luta ou de mobilização.
    Sob o regime de Bréjnev, a elite burocrática entrincheirou-se quase completamente. O brejnevismo assegurou o conforto à nova classe burguesa. Um dos partidários de Khruchov, Jaurés Medvédiev, escreveu: «Na época de Stáline, os dirigentes do Partido sentiam mais a potencial ameaça do aparelho de segurança do que os cidadãos comuns.» E acrescenta: «Bréjnev não era um verdadeiro líder em 1964. Era mais o representante da burocracia, que procurava uma vida fácil com privilégios crescentes e garantidos. O seu eleitorado era a elite burocrática. Neste aspecto, Bréjnev também mudou o sistema porque, mais do que qualquer outro, criou as condições propícias para a expansão de uma autêntica elite privilegiada, uma autêntica nomenklatura.»
    Com uma vida confortável assegurada, os membros da elite não se contentaram com os seus rendimentos legais. «A estabilidade garantida à elite teve um outro efeito negativo. A corrupção dos funcionários desenvolveu-se rapidamente em todos os níveis. A disciplina do partido diminuiu, o nepotismo tornou-se uma prática corrente e o prestígio ideológico e administrativo do Partido foi conspurcado. A grande corrupção dos altos funcionários soviéticos tornou-se numa espécie de “doença profissional”. A distinção entre propriedade pública e privada deixou de ser respeitada.»
    Longe de denunciar os erros de Khruchov, Bréjnev seguiu pelo mesmo caminho desastroso, tornando ainda pior o desvio revisionista.
    Além disso, Bréjnev imprimiu uma orientação militarista a toda a política soviética. Contava quase exclusivamente com a expansão do poder militar soviético para defender e ampliar as posições da União Soviética. «O reforço do Estado soviético pressupõe a expansão máxima da capacidade de defesa da nossa pátria». Congratulou-se com «o equilíbrio militar e estratégico atingido pela URSS e pelos Estados Unidos.» O caminho para a «paridade militar e nuclear» com o complexo militar-industrial ocidental não era praticável e era destrutivo para um país socialista. Estando já no Museu da História a mobilização das massas, a continuação da luta de classes e a educação revolucionária, Bréjnev optou por um conceito militar digno dos seus adversários. Tudo aquilo que constituía a força de defesa do socialismo na época de Stáline desapareceu. O esforço militar desproporcionado minou por completo a economia civil da União Soviética.
    Efectivamente, através dos efeitos combinados do revisionismo e do hegemonismo, Bréjnev arruinou o movimento comunista internacional. Em 1966 «excomungou» a China e a Albânia, acusando estes países de «stalinismo» e de «desvios esquerdistas»,
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    porque tinham manifestado a sua desaprovação ao revisionismo de Khruchov. Três anos mais tarde, Bréjnev transformou a política de confrontação com a China num conflito armado.
    Intoxicados com as «novas ideias» de Khruchov, numerosos partidos comunistas inclinaram-se para a reconciliação com a burguesia nos seus próprios países, provocando a ulterior desintegração do movimento comunista internacional.
    Nos países socialistas da Europa de Leste, Dubcek e outros da sua laia propuseram a liquidação dos últimos vestígios da ditadura do proletariado e a introdução do sistema social-democrata burguês. Os partidos que recusaram aceitar o modelo soviético como a única referência e que se opuseram aos ditames e à intervenção soviética foram marginalizados por Bréjnev pelo seu «nacionalismo» e «anti-sovietismo». Finalmente só restaram aqueles que mostravam uma lealdade incondicional à URSS. Bréjnev chamou-lhes «autênticos marxistas-leninistas». Dado que o revisionismo corroía as bases do socialismo na Europa de Leste, Bréjnev teve de recorrer ao controlo militar para manter a aparência de unidade no seu campo. Proclamou então: «As fronteiras da comunidade socialista são invioláveis e inexpugnáveis. A irmandade dos países socialistas unidos é a melhor defesa contra as forças que tentam atacar e enfraquecer o campo socialista. Sob qualquer ponto de vista, a União Soviética demonstra deste modo a sua lealdade ao internacionalismo proletário.» Mas a sua interferência e tendência crescente para o controlo directo desgastaram este socialismo enfermo. A teoria de «defender a União Soviética como a melhor protecção do socialismo» era um fiasco. A melhor defesa do socialismo será sempre a mobilização dos trabalhadores, o desenvolvimento da sua consciência, o seu esforço independente para defender o seu poder. Nesta base, um país socialista pode pedir ajuda a outra nação amiga, mas apenas em circunstâncias excepcionais e por um período de tempo limitado. Assim fez por exemplo a República Democrática da Coreia quando foi atacada pelo exército norte-americano em 1950.
    A «revolução mundial», tal como era vista por Bréjnev, consistia essencialmente no alargamento da influência soviética a todo o globo, seguindo o modelo da Europa de Leste. Bréjnev negou que o socialismo mundial nasceria da mistura de diferentes experiências revolucionárias nacionais. Não reconheceu o facto de que os partidos revolucionários têm de estar ancorados na realidade específica do seu país, que devem mobilizar as amplas massas para a luta revolucionária e que têm de esmagar o imperialismo e a reacção local. Bréjnev rejeitou a ideia de que só as massas populares armadas podem constituir um baluarte eficaz contra o imperialismo e a reacção. Continuou a enganar os povos do Terceiro Mundo apresentando o Exército Soviético como o garante da sua liberdade. Bréjnev: «O socialismo é a melhor defesa dos povos que lutam pela sua libertação e independência.» Sob a liderança de Bréjnev, a União Soviética apoiou reformistas (Chile), putchistas e aventureiros (Etiópia, Afeganistão), bem como militaristas (Egipto, Síria), os quais apresentava invariavelmente como artesãos da revolução socialista. Como a União Soviética estava do «seu lado» e o seu exército «constituía a melhor defesa da sua liberdade», Bréjnev interveio em vários países para manter as forças reformistas pró-soviéticas no poder. Esta política aventureira atingiu o auge com as invasões do Kampuchea e do Afeganistão.

    domingo, 12 de agosto de 2012

    O fim do euro em Portugal

    por Pedro Braz Teixeira [*]
    O euro é um projecto insustentável, por duas razões principais. Em primeiro lugar, porque permitiu a acumulação de desequilíbrios muito superiores ao que existiriam com moeda própria. A Grécia jamais poderia acumular as dívidas que hoje tem, a Irlanda jamais assistiria a uma tão grande expansão do seu sistema bancário, Portugal jamais poderia ter uma dívida externa de 100% do PIB, Espanha nunca teria embarcado numa tão grande bolha imobiliária. Mas, mais grave do que permitir desequilíbrios maiores, o euro deixa os países com menos instrumentos para os corrigir, em particular o instrumento cambial, o que torna as correcções muitíssimo mais difíceis.

    Em segundo lugar, com moeda própria, a variável que sinaliza os problemas – a taxa de câmbio – ajuda a resolver esses mesmos problemas. No euro, a variável que serve de alerta – a taxa de juro de longo prazo – agrava todos os desequilíbrios. Quando percebi este aspecto, nos finais de 2010, fiquei convencido de que os dias do euro estavam contados.

    Há quem imagine que há soluções para os problemas do euro, mas se há soluções tecnicamente viáveis, elas são politicamente impossíveis.

    Dado o melindre de escrever sobre o fim do euro, adiei ao máximo isso, mas em Dezembro do ano passado comecei a escrever um livro sobre isso, que deveria estar pronto em Abril. Vicissitudes várias fizeram com que o projecto se atrasasse e só este mês deverá estar disponível, com o título "O fim do euro em Portugal?", numa edição da Actual Editora, do Grupo Almedina.

    Apesar do ponto de interrogação no título estou firmemente convencido, não só de que o euro deixará de ser a moeda em Portugal, como de que isso ocorrerá até ao final deste ano.

    Os problemas estruturais do euro estão lá, mas as autoridades europeias têm-se esmerado em tornar as coisas ainda piores. Mario Draghi, tinha-nos pedido para acreditarmos nele, que o BCE tudo faria para preservar o euro. Afinal o BCE pondera voltar a comprar obrigações dos países em dificuldades, mas apenas DEPOIS de estes pedirem ajuda, que virá sob fortes restrições. Então a intervenção do BCE não era para evitar que estes Estados chegassem ao ponto de ter de pedir auxílio?

    O ministro alemão da Economia e o presidente do Eurogrupo, Juncker, consideram que a saída da Grécia do euro é "gerível". Importam-se de repetir? Se a Grécia sair do euro, isso pode bem desencadear um processo de desintegração do euro. Mas, se isso não acontecer, e isto é que é um dos maiores dramas, há muitos mais acontecimentos que podem colocar em marcha a desagregação do euro: um pedido de resgate pleno de Espanha, para o qual não há fundos suficientes; subida vertiginosa das taxas de juro em Itália; na Holanda, nas eleições de 12 de Setembro, vitória do partido que defende a saída do país do euro; veto do Tribunal Constitucional alemão às condições de expansão das competências dos fundos europeus de resgate; etc, etc, etc.
    08/Agosto/2012

    [*] Investigador do NECEP da Católica Lisbon School of Business and Economics (as opiniões expressas no texto não vinculam o NECEP). Foi assistente na Faculdade de Economia da UNL, economista-chefe do Banco Santander Totta e adjunto da ex-ministra das Finanças Dra. Manuela Ferreira Leite. Actualmente é economista independente. Tem o blog individual Abelhudo , e colabora no blog colectivo O Cachimbo de Magritte . Email: pbteixeira3@gmail.com

    O original encontra-se em http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=572565


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

    Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

    Templo grego clássico da Concórdia

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    Viagem à Sicília

    Teatro greco-romano

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    Viagem à Sicília

    Pupis

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    Viagem à Sicília Agosto 2009

    Viagem à Polónia

    Viagem à Polónia
    Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

    Viagem à Polónia

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    Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

    Forum Romano

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    Viagem a Roma, 2009

    Roma - Castelo de S. Ângelo

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    Viagem a Roma,2009

    Roma-Vaticano

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    Roma-Fonte Trévis

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    Viagem a Roma,2009

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    Viagem a Roma, Maio 2009

    Vaticano-Igreja de S.Pedro

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    Grécia

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    Acrópole

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    Acrópole

    Viagem à Grécia

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    NOSTALGIA

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    CLAUSTROFOBIA

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