JUÍZOS
Toda a gente pode ser filósofo. Foi dito por Denis Diderot no século dezoito ( pensando ele na sua “classe média”, isto é na burguesia de então), ou, no século passado, por Antonio Gramsci (pensando na sua classe operária de então). Na realidade, pode, mas não quer ; sobretudo, não pode. Não pode porque o sistema da produção não lhe dá tempo; o sistema de vida que dele decorre retira-lhe tempo; e os intervalos - ou pausas , chamadas férias- são ocupadas pelos produtos que o sistema lhe vende. Não quer porque o aparelho de comunicação (TV, redes sociais) oferece-lhe (na verdade, vende) tanta “informação”, instantânea, de fácil ingestão, que os indivíduos (isto é, os consumidores) acham que sabem, não precisam de refletir, isto é, de argumentar e analisar, a informação já vem fabricada à semelhança dos hambúrgueres do Mcdonald. Não lhe resta tempo, nem quer, refletir sobre o que viu ou escutou, mesmo que, mupaitas vezes, o assunto (normalmente esse chega manipulado) lhe diga inteiramente respeito. Não tem paciência. Ora, sem paciência não há conceito.
Assim, a civilização capitalista, mercê do seu processo de desenvolvimento, gerou especializações e profissões competentes. Deste modo, há médicos especialistas e professores catedráticos de filosofia. A diferença é que os primeiros, sendo competentes, podem curar, ou, pelo menos diagnosticar , enquanto os segundos, salvo exceções, não são filósofos, ou seja : não criam novos conceitos. Não se é filósofo porque se ensinam as teses deste ou daquele filósofo (realmente filósofo). O filósofo na sua plenitude criadora, reflexiva, cria conceitos. Ou, pelo menos, aplica conceitos justos e oportunos a circunstâncias atuais. É critico, doa a quem doer. Por exemplo, pensa com conceitos (e não há outra maneira de pensar) sobre os novos costumes, as mudanças, os modos de vida nas sociedades contemporâneas. E provoca nos outros transformações (às vezes íntimas, pessoais).
É por isso que todo o mundo pode filosofar. Não se restringe a gostar de “saber” (filo-sofía), mas de aprender, ou seja , de re-fletir, que significa dobrar, fletir novamente, encurvar, até mesmo romper. Em suma : criticar. O filósofo que se dedicou inteiramente a investigar pode ou não criar um sistema de explicação do mundo e da vida (como o fizeram Platão e Espinosa, por exemplo); pode propor uma justificação conservadora ou reacionária (no sentido literal : regredir, voltar a tempos que julga melhores) ; ou propor projetos revolucionários com que julga acabar de vez com a injustiça e a exploração do homem pelo homem. Contudo (e abstraindo que certos sistemas filosóficos são medíocres) as grandes exceções não fazem as regras : o operário também pode filosofar a partir das suas experiências de trabalho. Por exemplo: porque vende a sua força de trabalho a quem? O que sucede ao seu tempo? Etc. Todavia, para filosofar, de modo que possa explicar racionalmente um fenómeno que se passa consigo, necessita de generalizar, observá-lo universalmente e utilizar conceitos que foi encontrar em algum lado (o conceito de alienação, por exemplo). Significa que , salvo raras exceções, precisa de ler. Porque faz-se filosofia lendo-se filósofos, assim como se faz poesia lendo-se poetas.
Por conseguinte, todo o mundo pode analisar, investigar criticamente a felicidade, o amor, o sofrimento, a exploração, a “sociedade do espetáculo” ou “sociedade do cansaço”, ou da desigualdade, até mesmo a diferença da sua subjetividade com a subjetividade dos indivíduos dos séculos dezoito ou dezanove. Mas, para isso, necessitar ter tempo e ter paciência. Ou, talvez, contrair a necessidade.
N. P.
Sem comentários:
Enviar um comentário