terça-feira, 17 de outubro de 2017


Chavismo ganha em 17 dos 23 Estados nas eleições regionais venezuelanas
O presidente do país, Nicolás Maduro, comemorou a vitória chavista: "ganhamos 75% dos governos do país (...) o chavismo está vivo, está triunfante e está nas ruas", disse
O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) venceu em 17 dos 23 estados do país nas eleições para governadores realizadas neste domingo (15/10), segundo os resultados oficiais anunciados pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
De acordo com o CNE, os candidatos da oposição venceram em cinco Estados, enquanto que os resultados do Estado de Bolívar ainda não foram divulgados devido à diferença apertada de votos entre os dois adversários.

O PSUV conseguiu ganhar da oposição o estado de Miranda (centro-norte) governado pelo duas vezes candidato à presidência do país Henrique Capriles, e os estados de Lara (oeste) e Amazonas (sul).

Com 95,8% das urnas apuradas, a presidente do CNE, Tibisay Lucena, disse que os resultados são "irreversíveis", explicando que nestas eleições houve uma participação de 61,14% do censo eleitoral.
Agência Efe
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CNE divulgou resultados do pleito neste domingo (15/08)
O PSUV vai continuar governando os estados de Apure, Aragua, Barinas, Carabobo, Cojedes, Delta Amacuro, Falcón, Guárico, Monagas, Portuguesa, Sucre, Trujillo, Vargas e Yaracuy. A oposição, por sua vez, ganhou em Anzoátegui, Mérida, Nueva Esparta, Táchira e Zulia.
Governo
O presidente do país, Nicolás Maduro, comemorou a vitória chavista. "Ganhamos 75% dos governos do país (...) o chavismo está vivo, está triunfante e está nas ruas”, disse.
"A oposição teve cinco vitórias, as reconhecemos como fizemos sempre, e há um governo em disputa", disse, ao se referir a Bolívar. "Hoje ganhou a verdade da Venezuela, hoje o chavismo arrasou, hoje temos 17 governos, hoje temos 54% dos votos, hoje temos 61% de participação, e hoje a pátria se fortaleceu com 75% dos governos", afirmou Maduro.
"Esta vitória é uma proeza moral e política do povo venezuelano, que conseguiu resistir aos embates da guerra da oligarquia e que disse 'não às sanções', 'não ao intervencionismo'", finalizou o presidente venezuelano. 
Oposição

A coalizão de partidos opositores Mesa da Unidade Democrática (MUD) tinha antecipado minutos antes do anúncio oficial da CNE que os números com que seus operadores eleitorais trabalham eram "muito diferentes" dos que o órgão eleitoral ia divulgar, e já disse – mesmo antes de conhecer os resultados – que não iria aceitar o pleito.

Para a oposição, o CNE tinha tido um comportamento suspeito e diferente do registrado em outras eleições.
O chefe da campanha da MUD, Gerardo Blyde, afirmou afirmou que a aliança opositora pedirá uma auditoria de todo o processo eleitoral. Blyde explicou que a oposição não reconhecia os resultados "não somente devido a todas as violações de lei que vieram sendo cometidas durante o processo", como a substituição de candidatos e a realocação de centros eleitorais.

 

Chavismo está vivo: uma primeira análise das eleições regionais na Venezuela

Estas eleições regionais vêm precedidas de um ciclo de violência erguido pelos fatores antichavistas dentro e fora da Venezuela. Após quatro meses de violência, e em que a oposição venezuelana tentou boicotar as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), o chavismo consegue levar o conflito para a rota eleitoral. A narrativa de que existe na Venezuela uma “ditadura” ficou deslocada com a participação da Mesa de Unidade Democrática (MUD) nestas eleições.
A Venezuela sofre, ademais, um ciclo de sanções políticas e econômicas auspiciadas pela Casa Branca. Assinalam a ausência de garantias democráticas na Venezuela. Por outro lado, a Organização de Estados Americanos (OEA), claramente tutelada pelos Estados Unidos, se baseia na mesma afirmação e, em diversas oportunidades, patrocinou atos de deslegitimação destas eleições, omitindo, inclusive, a participação de forças opositoras nelas.
No domingo, 15 de outubro, o presidente Nicolás Maduro criticou o silêncio das corporações midiáticas e porta-vozes políticos e governos que deslegitimaram a democracia venezuelana, ao tentar ocultar as eleições e seus resultados. Destacou os perigos de que se siga insistindo declarar a Venezuela como Estado foragido ou antidemocrático. E concluiu que “a Venezuela deu uma demonstração ao mundo de que vivemos em uma democracia plena”.
Em que pesem estas variáveis, a institucionalidade erigida do chavismo consegue organizar este evento eleitoral e submeter os currais da política aos fatores que, de maneira consistente, dentro e fora da Venezuela, tentaram socavar a estabilidade das instituições venezuelanas, empurrando o país ao preâmbulo de uma guerra civil.
Os resultados
A participação eleitoral de 61,14% dos inscritos no registro eleitoral permanente. Para o tipo de eleição, é considerada uma participação alta, superior a de eventos similares em países como Colômbia, Chile, Argentina, México, e as que se realizam em outras latitudes, com as de EUA, França e Alemanha.
O chavismo conseguiu alçar-se com 54% dos votos do total nacional, voltando ao caminho vitorioso em eleições para cargos públicos convencionais.
A MUD, por sua vez, obteve 45% dos votos. Setenta e cinco por cento dos Estados foram ganhado pelo chavismo, 17 governos de um total de 23. A MUD alcançou cinco governos e só um Estado (Bolívar), até agora, está por definir por não mostrar uma tendência irreversível.
No entanto, esta sólida vitória também se narra pelo simbólico: históricos bastiões políticos e eleitorais da oposição como Lara, Miranda e Amazonas, utilizados como catapulta política para se posicionar para as eleições presidenciais, passaram para as mãos do chavismo com uma margem folgada. Se isso se analisa desde sua lógica, de apresentar seus governos como “o modelo” alternativo ao chavismo, então a MUD perdeu três eleições presidências em sequência no dia de ontem. A liderança de Henri Falcón e Henrique Capriles fica diminuída e sem base de poder de onde se apoiar para aspirar a conquistas maiores.
Em termos de voto nacional, sem os resultados em Bolívar, o chavismo se alçou com mais de 5,2 milhões de votos – cifra que aumentará logo que 100% das atas eleitorais sejam transmitidas -, enquanto que a MUD chegou, arredondando, aos 4,5 milhões de votos.
Deste dado estatístico também se desprendem algumas comparações que não devem ser deixadas de lado: a MUD perdeu quase 3 milhões de votos se se compara com sua melhor votação, em que conseguiu mais de 7 milhões. Por sua parte, o chavismo, assediado e bloqueado pelos EUA, por seus satélites na região e alguns países europeus, conseguiu manter e recuperar seu capital político em um momento de grandes dificuldades.

Venezuelanos votam em pleitos regionais para elegerem os 23 governadores do país

Chavismo ganha em 17 dos 23 Estados nas eleições regionais venezuelanas

Líderes latino-americanos celebram vitória do chavismo em eleições regionais na Venezuela


Agência Efe
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PSUV venceu em 17 de 23 Estados na Venezuela
A vitória do chavismo se mede não só na quantidade de governos alcançados e na votação obtida, mas também no decréscimo eleitoral de uma MUD que esperava capitalizar o descontentamento econômico patrocinado, vale reforçar, por eles próprios a partir da Assembleia Nacional e mediante as sanções financeiras desenvolvidas em conjunto com os EUA.
Fatores políticos que incidiram nos resultados
À primeira vista, alguns elementos sobressalientes poderiam ser ressaltados a fim de explicar a vitória do chavismo. A seguir, alguns dos mais relevantes:
- Em um marco de adversidade econômica, o chavismo implementou sistemas de proteção em matéria alimentar de alcance massivo. Os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) foram chaves em proteger setores amplos, contendo os efeitos da caotização  dos sistemas de abastecimentos e preços como parte da guerra econômica contra a Venezuela. Em agosto, a cobertura deste plano aumentou em 58%, alcançando mais de 9 milhões de famílias atendidas.
- O sistema Carnê da Pátria, uma política do Estado venezuelano para tornar eficiente e focalizar a gestão das Missões (programas sociais), foi efetivo para organizar a população em situação socioeconômica vulnerável. Frente ao marco de adversidade econômica atual, a opção eleitoral da MUD não se traduz em soluções concretas, fator que incidiu diretamente na diminuição de seu apoio eleitoral;
- A organização eleitoral do chavismo e sua proposta de soluções às grandes demandas da população foram elementos que se conjugaram adequadamente. Grande parte do eleitorado assumiu que é o chavismo o setor com capacidade de assumir as grandes tarefas e desafios  na gestão de governos regionais.
- As sanções da administração Trump e as ações abertas de ingerência por parte do governo estadunidense deram pé à coesão de forças chavistas e aumentaram significativamente o apoio para defesa e segurança nacional, independência e soberania como fatores de mobilização e ideias-força do chavismo. Motivado por isso, a empresa Datanálisis, uma das empresas de pesquisa mais influentes do país, afirmou que a popularidade do presidente Nicolás Maduro aumentou 5,8% no final de setembro.
- As ações violentas da MUD, assim como seus frequentes giros no estrangeiro, solicitando sanções e a asfixia econômica contra a Venezuela, foram também elementos-chave na mesma direção. O chavismo articulou uma campanha favorável para conquistar a paz política, rechaçando a agenda de intervenção, polarizando o cenário político entre aqueles que perseguem a destruição da nação e aqueles que buscam soluções para os problemas sem a violência como meio.
- Com exceção dos recursos administrativos ou de gestão para as eleições regionais, o chavismo conseguiu levar o centro do conflito político para as urnas: decidir entre a estabilidade política ou caos, entre ordem ou ingovernabilidade.
- Novas lideranças regionais ascenderam no chavismo para estas eleições. Estes coincidiram com lideranças regionais já consolidadas. A oferta eleitoral do chavismo se mostrou renovada em boa medida, enquanto que, para a oposição, a mescla entre dirigentes de baixo perfil, prefeitos com péssimas gestões e quadros do aparelho partidário não deu os resultados esperados e influiu diretamente nas grandes brechas que se deram em alguns Estados.
- O chavismo como identidade política também é um fator a se resenhar. Tem bastiões sólidos no interior do país. As forças revolucionárias ganham com amplas margens em vários Estados onde a guerra econômica golpeou com mais força, paradoxalmente. Isso só é explicável por altos níveis de consciência nesta comunidade política. O chavismo entende, a partir de uma lógica muito simples, que existe um marco de extorsão econômica propiciado por fatores empresariais e comerciais aliados à MUD e se contrapõe a essas ações de submissão. Em consequência, o chavismo vota para castigar os promotores da guerra.
- A violência dos meses de abri, maio, junho e julho deste ano, com saldos fatais em perdas humanas (147 falecidos) e incontáveis danos à propriedade pública e privada, junto a práticas de terrorismo de rua e violência paramilitarizada, fizeram estragos na sociedade venezuelana, dividindo a oposição entre aqueles que rechaçaram a violência e aqueles que a apoiavam.
- Produziu-se um paradoxo eleitoral: houve opositores que não votaram na MUD por interpretá-la como uma organização violenta. Mas, também, houve importantes setores que, fervorosamente, acreditaram em um derrocamento do chavismo e viram frustradas suas aspirações quando a MUD resolveu participar da contenda eleitoral. Ambos os grupos, especialmente o segundo, foram símbolo de desencanto contra a direção da MUD, a qual consideram traidora, errática e incongruente. A abstenção eleitoral jogou contra a MUD.
- As imagens ainda frescas da violência e do terrorismo que provocaram caos na Venezuela durante quatro meses, deixando um saldo de mais de 100 mortos, produziu uma situação desfavorável em termos de apoio eleitoral à MUD, para além da base opositora. Não haver cristalizado seus planos de derrocar o governo fortaleceu o chavismo como referente de ordem e estabilidade. Fator que, em momentos de estresse, insegurança com o futuro e turbulência como os de hoje, atraem o apoio da população.
- Uma parte do eleitorado não se identificou com as medidas de asfixia econômica generalizada impostas pela administração Trump e que haviam sido solicitadas consistentemente pelos dirigentes da MUD. As ações de ingerência econômica que complicam mais o cotidiano econômico da população não tiveram respaldo majoritário dos eleitores no momento de ir às urnas.
- Ao perder seus bastiões em Lara, Miranda e Amazonas, fica refletido que a MUD não é uma referência de gestão governamental eficaz, que atende as expectativas da população. A percepção sobre a MUD – organização repleta de promessas não cumpridas – foi um referente que melou o apoio de seus seguidores, não só nestes Estados, mas também em muitos outros. Não são uma referência de gestão regional.
- O discurso da MUD, unicamente centralizado em caracterizar o governo de Maduro como uma “ditadura”, foi insuficiente. Esse discurso não mobilizou o apoio, pois se centralizou em mobilizar o rechaço ao chavismo. Em eleições regionais, oferecer soluções a demandas populacionais é chave e esse elemento esteve ausente no discurso da MUD, que foi transversalmente demagogo e pouco coerente com as necessidades imediatas da população.
(*) Publicado originalmente em Mision Verdad
O chavismo se alça com uma importante vitória nas eleições regionais realizadas no último domingo, dia 15 de outubro

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Entrevista com Maria Orlanda Pinassi

Maria Orlanda Pinassi é professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp (campus de Araraquara, São Paulo) e é autora de Três devotos, uma fé, nenhum milagre (Editora Unesp, 1998) e do recém lançado Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica (Boitempo).
A autora participou no último dia 19 da mesa “Marx, Lukács e os intelectuais revolucionários”, durante o III Seminário Margem Esquerda, cujo tema, este ano, foi uma homenagem ao legado do filósofo húngaro István Mészáros. Abordando vários assuntos que se colocam no horizonte da civilização ante a crise estrutural do capital, Maria Orlanda comentou temas como a importância dos movimentos sociais, a obra de Mészáros, a questão agrária no Brasil e o feminismo. Confira a entrevista:
Durante o debate, você disse que após ler a obra de Mészáros, sentiu falta de um ‘o que fazer’,  de quais seriam os próximos passos após a crítica apurada que ele faz do sistema do capital. Se não há uma receita, quais seriam as ‘pistas’, as trilhas abertas por sua crítica que podemos seguir para desenvolvermos uma teoria e prática de transição, de superação do sistema?
De fato, eu disse que quando estava terminando de fazer a revisão da tradução do livro Para além do capital, pensei que, após ter atravessado aquela que me pareceu a mais arguta e radical crítica do sistema sócio-metabólico desde Marx, incluindo aí desde as experiências concretas da relação capital-trabalho, e todas as principais formulações teóricas, fossem elas apologéticas ou anticapitalistas, encontraria um capítulo conclusivo no qual pudéssemos trilhar os caminhos das pedras. No fundo, acho que todos nós buscamos modelos através dos quais possamos pegar atalhos. Não os encontrei ali, e só o amadurecimento da minha relação com as suas teses mais fundamentais é que me levaram a compreender que a realidade histórica é um processo ativado por causalidades impossíveis de serem controladas pela vontade revolucionária. Essa postura de Mészáros desmistifica, tanto quanto Marx fez no século XIX, a crença de que a consciência determina a história. O que Mészáros nos oferecia com aquele magistral estudo de mais de 25 anos eram as ferramentas para não só interpretarmos criticamente a nossa história passada e presente, mas, e acima de tudo, um chamado urgente da responsabilidade ontológica e da perspectiva radicalmente revolucionária na realidade potencialmente destrutiva e irreformável do capital.
Embora estejamos em uma democracia, os movimentos sociais e a pobreza seguem sendo criminalizados. Este é o preço a ser pago por quem se confronta com o capital? O movimento social é a base da transformação?
Durante muito tempo, as esquerdas acreditaram que o progresso do capitalismo corresponderia ao desenvolvimento da consciência da classe operária. Ou seja, que o momento mais desenvolvido do capital equivaleria, conseqüentemente, à construção plena das instituições democráticas e ao momento mais propício à ruptura revolucionária pela classe operária organizada e consciente de seu papel histórico. O que vivenciamos atualmente representa exatamente o contrário disso. Quanto mais o capital progride, mais recua a perspectiva revolucionária dos trabalhadores. O desemprego estrutural e a perda progressiva das conquistas trabalhistas são os principais motivos do refluxo da luta que cada vez mais assume contornos defensivos. Por outro lado, trabalhadores desempregados procuram, na mesma proporção, novas formas de representação político-organizativa, novas formas de aflorar a luta de classes, através de movimentos sociais de massas, cujas estratégias são baseadas, sobretudo, em ocupações de terra e de prédios públicos. Fora do controle imediato do Estado, essas estratégias põem à prova a verdadeira dimensão da democracia burguesa que vem se assumindo com muita desenvoltura os papéis que tradicionalmente foram desempenhados por regimes autoritários, fascistas. Neste caso, portanto, a criminalização dos movimentos e a repressão vêm para o primeiro plano na relação que o capital estabelece com o trabalho.
Qual o espaço de transformação pela via institucional? Após o fracasso das experiências sociais democratas na Europa, acredita que ela está esgotada?
Essa questão remete ao mesmo problema observado acima. Para István Mészáros, nesta fase de crise estrutural, o capital é irreformável, portanto, as velhas fórmulas de contenção das crises cíclicas articuladas pela social democracia, que no passado não muito longínquo, alcançaram tanto êxito, hoje não têm a menor chance de obter algum resultado realmente positivo. De alguma forma, podemos dizer o mesmo em relação a qualquer perspectiva de transformação pela via institucional que, na atualidade, vem se adaptando, através de múltiplas contra-reformas, às necessidades cada vez mais destrutivas, anti-civilizatórias e desumanizadoras do avanço do capital. Obviamente que, pela via institucional, ainda há necessariamente espaço efetivo para a luta defensiva seja pelos direitos humanos, seja nos planos sindical e político-parlamentar. No entanto, não se pode mais ter ilusões quanto à auto-suficiência e autonomia dessa luta historicamente controlada pela capital. Trata-se, hoje, de empreender formas de luta que só podem ser verdadeiramente ofensivas se constituírem uma importante unidade entre sindicatos, organizações político-partidárias e movimentos sociais de massas.
O Brasil tem reafirmado sua vocação agrícola no desenvolvimento desigual e combinado global? O que isto pode representar (os ônus) para o País em médio e longo prazo?
Eu costumo dizer que os países da América Latina, Brasil inclusive, apesar de seu novo papel “sub-imperialista” no continente, estão experimentando uma nova relação de colonialidade com os países do centro irradiador das determinações capitalistas. Essa condição se estabelece através da instalação extremamente agressiva, violenta e prepotente dos interesses das transnacionais do agronegócios por aqui que, estrategicamente, vêm obtendo todo tipo de incentivo do Estado, nos mais diversos níveis (federal, estadual, municipal), e se utilizam das elites internas para solapar o avanço dos movimentos sociais de massas, como o MST, no Brasil, e demais movimentos que compõem a Via Campesina. Caso clássico disso que estou dizendo é o que temos observado no Rio Grande do Sul, cujo governo é desavergonhadamente “parceiro” das transnacionais e tanto quanto os proprietários de terra (vide o terrível exemplo de São Gabriel) vêm comprometendo, mediante ameaças e severos atos de repressão, a permanência do MST no Estado. A intenção é também a de inviabilizar a atuação do Incra no sentido de desapropriar terras para fins de reforma agrária e destiná-las para plantio de soja, eucalipto, cana e demais monocultura. Tal cenário nos remete ao recrudescimento do insolvente desenvolvimento desigual e combinado que, para o bem e para o bem, impõe a absoluta desmistificação de que o progresso possa ainda ser civilizatório, sobretudo, neste canto do planeta. A curto prazo, portanto, – porque a intervenção é urgente – a desilusão com o sistema e a ausência de expectativas em relação às suas “positividades” deve necessariamente remeter a luta de classes para novas e muito mais desafiadoras formas de enfrentamento contra o capital.
Quando pensamos em autores do pensamento crítico radical, citamos poucas mulheres. Como o capital reforça a opressão de gênero? A sua superação garantirá a superação do machismo? Se não, qual a tarefa para os socialistas nesse sentido?
Para responder a essa questão, gostaria de me reportar a uma situação particularmente importante para mim. Venho acompanhando a organização interna das mulheres que compõem a Via Campesina, com destaque para as ações que, desde 2006, efetuam em oito de março, dia internacional das mulheres. Em todos esses momentos, uma questão que me parece particularmente problemática é a de que, muito embora a supressão da opressão das mulheres seja vital à construção de uma alternativa societária, essa afirmação está muito aquém de constituir unanimidade no interior dos movimentos sociais.
Ao que tudo indica, a atuação mais efetiva dos homens está voltada à realização objetiva das questões econômicas, tendendo a arrefecer com as conquistas mais imediatas da sua luta. A processualidade das lutas e a positividade das conquistas para o movimento como um todo é obviamente incontestável, mas pode também se converter numa regressividade – tendo em vista a retomada das relações hierarquicamente estruturadas – sobretudo para as mulheres que experimentam neste processo o retorno à antiga condição de seres submetidos à dominação patriarcal. É neste momento que as mulheres, ou pelo menos parte substantiva delas, tomam a decisão de não aceitar esse retrocesso e passam a lutar no interior do movimento pelo reconhecimento de seu papel fundamental em todos os momentos de afirmação da luta. Ou seja, são as mulheres que vêm impondo uma necessária autocrítica permanente ao movimento como um todo. [1]
Sua luta, portanto, não parece ser contra os homens, mas contra as deformações patriarcais que todos (inclusive mulheres) carreiam e reproduzem no movimento. Sua praxis ganha ainda mais radicalidade no confronto direto contra as transnacionais que reproduzem de forma explosiva a prática da monocultura e da destruição ambiental.
O quadro, enfim, descreve uma situação particularmente rica para tentarmos compreender e enfrentar os rumos atuais da organização da classe trabalhadora, tendo em vista as características que hoje se demandam do sujeito da transformação social. E, nesta medida, reúne alguns dos elementos que, a princípio, nos parecem essenciais: o protagonismo radical de mulheres trabalhadoras que, do interior de um movimento social de massas dos mais significativos da América Latina, enfrenta alguns dos epítetos mais consagrados do sistema sócio-metabólico do capital na atualidade, desafiando a própria capacidade deste movimento de constituir uma sociabilidade substantivamente igualitária.

[1] “Fundar y construir uma nueva civilización humana – desafio presente de la humanidad em busca de supervivencia – significa fundar y construir um nuevo modo de vida. Esto significa incorporar la noción y visión de gênero como elemento constitutivo del pensamiento y las prácticas questionadoras de las sociedades actuales, y de los procesos de construcción de las nuevas. Ello posibilitará hacer visibles y modificar las relaciones sociales asimétricas establecidas entre hombres y mujeres, base para la producción y reproducción de otras tantas asimetrias y discriminaciones: de color de piel, discapacidad física, etnia, cultura, belleza, identidad sexual, etc.” Isabel Rauber. ”Gênero y alternativas populares en Latinoamérica y el Caribe”. Texto baseado no artigo “Movimientos sociales, género y alternativas populares em Latinoamérica y el Caribe”, publicado em Itinéraires IUED, Genebra, n. 77, 2005.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Noam Chomsky Diagnoses the Trump Era

The president has abetted the collapse of a decaying system; Chomsky explains how.

This interview has been excerpted from Global Discontents: Conversations on the Rising Threats to Democracy, the new book by Noam Chomsky and David Barsamian to be published this December.
David Barsamian: You have spoken about the difference between Trump’s buffoonery, which gets endlessly covered by the media, and the actual policies he is striving to enact, which receive less attention. Do you think he has any coherent economic, political, or international policy goals? What has Trump actually managed to accomplish in his first months in office?
Noam Chomsky: There is a diversionary process under way, perhaps just a natural result of the propensities of the figure at center stage and those doing the work behind the curtains.
At one level, Trump’s antics ensure that attention is focused on him, and it makes little difference how. Who even remembers the charge that millions of illegal immigrants voted for Clinton, depriving the pathetic little man of his Grand Victory? Or the accusation that Obama had wiretapped Trump Tower? The claims themselves don’t really matter. It’s enough that attention is diverted from what is happening in the background. There, out of the spotlight, the most savage fringe of the Republican Party is carefully advancing policies designed to enrich their true constituency: the Constituency of private power and wealth, “the masters of mankind,” to borrow Adam Smith’s phrase.
These policies will harm the irrelevant general population and devastate future generations, but that’s of little concern to the Republicans. They’ve been trying to push through similarly destructive legislation for years. Paul Ryan, for example, has long been advertising his ideal of virtually eliminating the federal government, apart from service to the Constituency—though in the past he’s wrapped his proposals in spreadsheets so they would look wonkish to commentators. Now, while attention is focused on Trump’s latest mad doings, the Ryan gang and the executive branch are ramming through legislation and orders that undermine workers’ rights, cripple consumer protections, and severely harm rural communities. They seek to devastate health programs, revoking the taxes that pay for them in order to further enrich their constituency, and to eviscerate the Dodd-Frank Act, which imposed some much-needed constraints on the predatory financial system that grew during the neoliberal period.
That’s just a sample of how the wrecking ball is being wielded by the newly empowered Republican Party. Indeed, it is no longer a political party in the traditional sense. Conservative political analysts Thomas Mann and Norman Ornstein have described it more accurately as a “radical insurgency,” one that has abandoned normal parliamentary politics.
Much of this is being carried out stealthily, in closed sessions, with as little public notice as possible. Other Republican policies are more open, such as pulling out of the Paris climate agreement, thereby isolating the US as a pariah state that refuses to participate in international efforts to confront looming environmental disaster. Even worse, they are intent on maximizing the use of fossil fuels, including the most dangerous; dismantling regulations; and sharply cutting back on research and development of alternative energy sources, which will soon be necessary for decent survival.
The reasons behind the policies are a mix. Some are simply service to the Constituency. Others are of little concern to the “masters of mankind” but are designed to hold on to segments of the voting bloc that the Republicans have cobbled together, since Republican policies have shifted so far to the right that their actual proposals would not attract voters. For example, terminating support for family planning is not service to the Constituency. Indeed, that group may mostly support family planning. But terminating that support appeals to the evangelical Christian base—voters who close their eyes to the fact that they are effectively advocating more unwanted pregnancies and, therefore, increasing the frequency of resort to abortion, under harmful and even lethal conditions.
Not all of the damage can be blamed on the con man who is nominally in charge, on his outlandish appointments, or on the congressional forces he has unleashed. Some of the most dangerous developments under Trump trace back to Obama initiatives—initiatives passed, to be sure, under pressure from the Republican Congress.
The most dangerous of these has barely been reported. A very important study in the Bulletin of the Atomic Scientists, published in March 2017, reveals that the Obama nuclear-weapons-modernization program has increased “the overall killing power of existing US ballistic missile forces by a factor of roughly three—and it creates exactly what one would expect to see, if a nuclear-armed state were planning to have the capacity to fight and win a nuclear war by disarming enemies with a surprise first strike.” As the analysts point out, this new capacity undermines the strategic stability on which human survival depends. And the chilling record of near disaster and reckless behavior of leaders in past years only shows how fragile our survival is. Now this program is being carried forward under Trump. These developments, along with the threat of environmental disaster, cast a dark shadow over everything else—and are barely discussed, while attention is claimed by the performances of the showman at center stage.
Whether Trump has any idea what he and his henchmen are up to is not clear. Perhaps he is completely authentic: an ignorant, thin-skinned megalomaniac whose only ideology is himself. But what is happening under the rule of the extremist wing of the Republican organization is all too plain.
DB: Do you see any encouraging activity on the Democrats’ side? Or is it time to begin thinking about a third party?
NC: There is a lot to think about. The most remarkable feature of the 2016 election was the Bernie Sanders campaign, which broke the pattern set by over a century of US political history. A substantial body of political science research convincingly establishes that elections are pretty much bought; campaign funding alone is a remarkably good predictor of electability, for Congress as well as for the presidency. It also predicts the decisions of elected officials. Correspondingly, a considerable majority of the electorate—those lower on the income scale—are effectively disenfranchised, in that their representatives disregard their preferences. In this light, there is little surprise in the victory of a billionaire TV star with substantial media backing: direct backing from the leading cable channel, Rupert Murdoch’s Fox, and from highly influential right-wing talk radio; indirect but lavish backing from the rest of the major media, which was entranced by Trump’s antics and the advertising revenue that poured in.
The Sanders campaign, on the other hand, broke sharply from the prevailing model. Sanders was barely known. He had virtually no support from the main funding sources, was ignored or derided by the media, and labeled himself with the scare word “socialist.” Yet he is now the most popular political figure in the country by a large margin.
At the very least, the success of the Sanders campaign shows that many options can be pursued even within the stultifying two-party framework, with all of the institutional barriers to breaking free of it. During the Obama years, the Democratic Party disintegrated at the local and state levels. The party had largely abandoned the working class years earlier, even more so with Clinton trade and fiscal policies that undermined US manufacturing and the fairly stable employment it provided.
There is no dearth of progressive policy proposals. The program developed by Robert Pollin in his book Greening the Global Economy is one very promising approach. Gar Alperovitz’s work on building an authentic democracy based on worker self-management is another. Practical implementations of these approaches and related ideas are taking shape in many different ways. Popular organizations, some of them outgrowths of the Sanders campaign, are actively engaged in taking advantage of the many opportunities that are available.
At the same time, the established two-party framework, though venerable, is by no means graven in stone. It’s no secret that in recent years, traditional political institutions have been declining in the industrial democracies, under the impact of what is called “populism.” That term is used rather loosely to refer to the wave of discontent, anger, and contempt for institutions that has accompanied the neoliberal assault of the past generation, which led to stagnation for the majority alongside a spectacular concentration of wealth in the hands of a few.
Functioning democracy erodes as a natural effect of the concentration of economic power, which translates at once to political power by familiar means, but also for deeper and more principled reasons. The doctrinal pretense is that the transfer of decision-making from the public sector to the “market” contributes to individual freedom, but the reality is different. The transfer is from public institutions, in which voters have some say, insofar as democracy is functioning, to private tyrannies—the corporations that dominate the economy—in which voters have no say at all. In Europe, there is an even more direct method of undermining the threat of democracy: placing crucial decisions in the hands of the unelected troika—the International Monetary Fund, the European Central Bank, and the European Commission—which heeds the northern banks and the creditor community, not the voting population.
These policies are dedicated to making sure that society no longer exists, Margaret Thatcher’s famous description of the world she perceived—or, more accurately, hoped to create: one where there is no society, only individuals. This was Thatcher’s unwitting paraphrase of Marx’s bitter condemnation of repression in France, which left society as a “sack of potatoes,” an amorphous mass that cannot function. In the contemporary case, the tyrant is not an autocratic ruler—in the West, at least—but concentrations of private power.
The collapse of centrist governing institutions has been evident in elections: in France in mid-2017 and in the United States a few months earlier, where the two candidates who mobilized popular forces were Sanders and Trump—though Trump wasted no time in demonstrating the fraudulence of his “populism” by quickly ensuring that the harshest elements of the old establishment would be firmly ensconced in power in the luxuriating “swamp.”

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Noam ChomskyNoam Chomsky, Institute Professor emeritus at MIT, has written many books and articles on international affairs, in particular on Israel and Palestine. His latest book, Global Discontents: Conversations on the Rising Threats to Democracy, will be published in December 2017.

David BarsamianDavid Barsamian is the director of Alternative Radio in Boulder, Colorado (www.alternativeradio.org).

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

OPINIÃO

Tenho-me mantido do lado da Republica da Coreia do Norte, pelo seu passado mártir e heróico, pela razão que nos assiste, cidadãos livres e povos oprimidos, contra o imperialismo norte-americano e seus acólitos. No entanto, agora, julgo ser em demasia a retórica agressiva e provocatória do regime hostilizado. Nem a China, nem a Rússia, seus vizinhos (e hostilizados pelo imperialismo igualmente) já calam a sua discordância.
Porque o perigo é enorme. Os EUA e o Japão, aproveitam para militarizar o Mar da China. E já não sabemos mais o que poderá emergir da cabeça do ditador norte-coreano que venha ao encontro dos interesses do complexo industrial-militar dos EUA.

O nazismo também chegou aos EUA. Imagens descobertas são uma "granada"

As imagens não foram editadas para que as pessoas pudessem ver o que aconteceu, tal como se estivessem a assistir à reunião.

O nazismo também chegou aos EUA. Imagens descobertas são uma "granada"
Notícias ao Minuto
09:36 - 11/10/17 por Patrícia Martins Carvalho
Mundo Documentário
Estávamos em 1939 e a Segunda Guerra Mundial estava prestes a começar. Adolf Hitler, com a sua obsessão pela superioridade ariana, já se havia tornado há muito uma ameaça perigosa e todos os principais líderes mundiais sabiam disso.
Todavia, e apesar de o saberem, preferiram fechar os olhos a algumas invasões levadas a cabo pela Alemanha nazi, esperando que uma atrás da outra fossem suficientes para conter a ambição hitleriana.
Mas estava todos redondamente enganados e, durante seis anos, a Europa foi palco de um dos maiores conflitos da sua História.
No entanto, em 1939 esta realidade estava longe de ser imaginada e, ao contrário do que se pudesse esperar, até nos Estados Unidos da América Adolf Hitler reunia milhares de seguidores e admiradores.
As imagens que hoje lhe mostramos foram descobertas pelo realizador de documentários Marshall Curry quando este consultava arquivos históricos. Vistas as imagens, o profissional que já esteve nomeado para um Óscar, uniu-se à Field of Vision para criar um documentário - 'A Night at the Garden' (Uma Noite no Jardim, em português) que, mais do que espelhar a realidade de um facto ocorrido em 1939, tem como objetivo servir de “conto de cautela” num século XXI em que os nacionalismos começam a exacerbar-se novamente.
“A primeira coisa que me impressionou foi o facto de um evento como aquele se poder ter realizado no coração de Nova Iorque”, disse Marshall Curry ao portal The Atlantic, acrescentando que ver as imagens foi como se estivesse a ver um episódio de ‘Twilight Zone’”.
Quanto à filmagem, que mostra 20 mil nazis norte-americanos reunidos a fazer a saudação nazi e a aplaudir os ideais arianos, Marshall Curry descreve-a como “poderosa”, explicando que não editou as imagens porque quer ser “mais provocativo do que didático”.
“Uma pequena granada histórica atirada para a discussão que estamos a ter atualmente sobre a supremacia branca”, concluiu.
in Notícias ao Minuto

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

É preciso repensar de forma diferente a estratégia orçamental

Eugénio Rosa    09.Oct.17  
Foi recentemente divulgado um estudo com a designação “Policy Paper 10- Estratégias orçamentais 2017-2021: as opções de política” de Ricardo Cabral, Luís Morais, Paulo Trigo e Joana Vicente, em que é defendida aquilo que os seus autores designam por uma variante de estratégia de consolidação orçamental alternativa à do governo. A “solução” proposta diferencia-se da do governo apenas por ser menos restritiva em algumas décimas (ou melhor centésimas). Mas esse estudo é importante não pelas ideias que defende mas por poder constituir um ponto de partida e um estímulo para que se debata de uma forma aprofundada e alargada, ou seja, de uma forma como nunca foi feita, a estratégia orçamental que está a ser seguida e para onde nos está a conduzir.
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Para perceber porque luta o povo da Catalunha (13),  (14) e (15) António Jorge
Para perceber porque luta o povo da Catalunha (13)
Foto de António Jorge.Para perceber porque luta o povo da Catalunha (13)     Guerra Civil na Catalunha
Catalunha na Guerra Civil Espanhola, Portugal na Guerra Civil Espanhola, País Basco... na Guerra Civil Espanhola, e Andorra durante a Guerra Civil Espanhola.
Vários factores explicam o início da chamada Guerra Civil em Espanha.
Em primeiro lugar está a impossibilidade de estabelecer uma República.
Ao longo do século XIX a Espanha desatou-se em três guerras que não conseguiram liberalizar e modernizar o país.
A Revolução Industrial entrou tarde e no início de século XX os progressos na economia não se tinham refletido nas condições sociais de vida do povo.
A crise de 1929 nos Estados Unidos, contribuiu para enfraquecer ainda mais a economia da Europa, que apenas tinha acabado de passar por uma longa guerra de quatro anos. Contudo o fascismo começou a subir e Hitler não demorou a entrar no governo alemão.
Em Espanha o nacionalismo espanhol radicalizou-se virando para o lado fascista.
Não se aceitava de nenhuma das maneiras que a Catalunha e o País Basco pudessem se governar a eles próprios.
As tentativas de criar uma República federada que soubesse incorporar as nações catalã, basca e castelhana fracassavam num contexto político altamente tenso.
Isso veio revoltar a direita contra o governo republicano que tinha iniciado uma tímidas reforma agrária e progressistas, tais como o sufrágio eleitoral feminino.
Mas as reformas não eram aceites pelas classes que dominavam desde a monarquia, tais como os latifundiários, Igreja Católica e elite agrária.
O golpe de Estado falhado de Sanjurjo que pretendia acabar com as reivindicações catalãs deu pê a um novo golpe de Estado no dia 18 de julho de 1936.
Comandado pelo general Francisco Franco, futuro ditador fascista, a Espanha, País Basco e Catalunha entram em guerra.
Uma guerra de caráter internacional, pois será o mecanismo de ensaio da Segunda Guerra Mundial por parte da Alemanha nazi.
Efetivamente o ditador italiano, Benito Mussolini, e o alemão, Adolf Hitler, assim como outros países fascistas, resolvem ajudar o golpe militar fascista em Espanha.
Durante 3 anos a guerra condena a morte milhões de pessoas e obriga a mais de meio milhão de pessoas a pedir refúgio no estrangeiro.
O destino principal foi a França e Andorra. As nações catalã e basca colocam-se do lado republicano, enquanto que em Castela de forma geral o fascismo ocupa quase todo o território.
Ainda que houvesse fascistas na Catalunha e que a própria população catalã se defrontasse com ela, o panorama político deixou evidente as grandes diferenças que existem entre as nações castelhana, basca e catalã.
Os partidos comunistas catalães resolveram unir-se sob o Partit Socialista Unificat de Catalunya (do catalão, Partido Socialista Unificado da Catalunha), enquanto que os outros partidos políticos uniram-se no Comitè de Milícies Antifeixistes (do catalão Comité de Milícias Antifascistas).
A comunidade internacional decidiu não intervir e não ajudou a República Espanhola.
Optou-se por uma posição de neutralidade, tal como foi o caso durante a invasão das repúblicas atuais Checa e Eslováquia pelos nazis.
Esta falta de ação intencional que devia supostamente evitar uma segunda guerra mundial, provocou precisamente o contrário.
Hitler, por exemplo, provou a sua capacidade militar na aldeia de Guernica, no País Basco, que foi bombardeada pela aviação nazi de Hitler e de Mussoline durante 3 horas.
Pablo Picasso denunciou naquela altura a situação de guerra e de desprezo sofrido com sua pintura de mesmo nome que da aldeia, Guernica.
Apesar da neutralidade internacional, houve voluntários de países a participar na guerra. As Brigadas Internacionais trouxeram soldados britânicos e americanos. George Orwell, escritor e célebre pela sua obra 1984, veio participar e defender a República e os valores republicanos.
O rio Ebro representou o ponto decisivo da guerra.
A Catalunha foi o último território a resistir a ofensiva fascista e na Batalha do Ebro não resistiu por mais tempo.
O governo catalão foi obrigado a refugiar em França.
Então o fascismo entra vitorioso em Espanha e proclama uma ditadura cruel chefiada por Francisco Franco.     A ditadura franquista foi uma das mais repressivas da Europa, ao mesmo nível que o nazismo de Hitler e de Mussolini em Itália.             continua...
Para perceber porque luta o povo da Catalunha (14)
Foto de António Jorge.Para perceber porque luta o povo da Catalunha (14)   Ditadura franquista
Pós-guerra e Segunda Guerra Mundial    Terror Branco (Espanha) e Cronologia da repressão contra a língua catalã
O ditador Franco mandou construir um mausoléu que ainda está em pé e é exaltado cada ano por fascistas espanhóis no chamado dia da hispanidade; celebração marcada pelo ditador como Dia da Raça.
O após-guerra foi fatídico para os catalães.
A Europa entrou na guerra e Hitler conseguiu ganhar posições em grande parte da Europa, até mesmo invadir o norte da França.
Esta situação teve consequências catastróficas para o continente europeu que se encontrou em pouco tempo quase todo sob regime fascista.
Logo após à guerra, Franco arranja maneira de ocupar o seu cargo de forma vitalícia.
Os catalães refugiados escolhem a França, Andorra, América ou México e a URSS para aqueles que simpatizam com o comunismo.
Mas a entrada dos nazis em França fez com que os campos de acolhimento franceses se tornassem em campos de trabalho e concentração.
Franco também construiu campos de concentração e foram milhões os catalães a morrerem em campos nazis ou franquistas.
O regime de Francisco Franco impôs a censura e a exterminação da oposição.
Foi particularmente duro para com os catalães e bascos, porque pretendeu exterminar qualquer sinal identitário catalão e basco.
As empresas catalãs foram boicotadas e sabotadas. Entraram em recessão. A economia entrou numa fase de paralisia.
Fome, corrupção, proibições energéticas, paragem industrial e crescimento do mercado negro.
Aqueles catalães que conseguiram fugir do regime tentaram combatê-lo a partir da França, nomeadamente através de guerrilhas chamadas "maquis".
Outros resolveram combater o fascismo alemão ajudando a resistência francesa. Lluís Companys, presidente do governo catalão, foi detido pela polícia alemã quando o nazismo conseguiu invadir a França.
Entregue ao fascismo espanhol, será julgado no castelo de Montjuïc e condenado à morte, onde terá pronunciado "visca Catalunya" (em catalão, viva a Catalunha).
O governo catalão no exílio na França tentou fazer valer os direitos da Catalunha sem grande sorte. Josep Irla foi escolhido presidente no exílio.
Outro dos grandes objetivos do franquismo foi eliminar o catalão e toda amostra de catalanidade.
Para isso a propaganda foi posta ao serviço do fascismo. Houve censura de toda publicação em língua catalã.
Falar catalão era motivo de pena de morte. Nas ruas os cartazes obrigavam as pessoas a "falar a língua do império" (o castelhano).
A escola foi usada para castelhanizar os bascos e catalães.
As ruas, nomes próprios e outras denominações foram castelhanizadas à força.
O língua catalã foi proibida nas universidades e escolas, perseguida no âmbito intelectual.       Grandes intelectuais catalãs foram assassinados.       continua...
Para perceber porque luta o povo da Catalunha (15)
Foto de António Jorge.
Foto de António Jorge.Para perceber porque luta o povo da Catalunha (15)    Guerra Fria
A Guerra Fria, acabaria por provocar a melhoria as condições económicas, mas não políticas, durante os anos 1960. Devido ao confronto leste e oeste, vários países em ditadura foram apoiados por um lado ou outro, podendo entrar em guerra.No caso do franquismo, este abriu-se ao capitalismo após os EUA instalarem em 1953 bases militares em Espanha. Aproveitando a situação de guerra, o ditador espanhol auto-proclamou-se sentinela de Ocidente numa tácita de afastamento premeditado contra o comunismo e que pagou, embora houvessem redes de resistência comunistas em Espanha.
A liberalização do comércio, a entrada de capital estrangeiro, o restabelecimento do mercado de divisas,... transformou a Catalunha. A economia catalã diversifica-se e vê aparecer o turismo de massas.  O urbanismo especulativo fez crescer casas e edifícios como cogumelos.  Apareceram os primeiros automóveis, as primeiras televisões, o cinema (censurado), novos interiores,... Tudo sob um regime autoritário e militarizado que condenava à morte todo aquele que não pensa como ele. Mesmo assim, estas transformações também mudaram a mentalidade dos catalães e isso deu ares a todos aqueles que resistiam contra a ditadura.
Resistência anti-franquista
Os anos 60 do século passado, e sobretudo os de 1970, são considerados como o ponto de retrocesso da ditadura.
Em 1959 a resistência anti-franquista decide finalmente sair a rua e não se esconder mais.
A partir deste momento a oposição ao regime é cada dia mais visível e isso faz incrementar a repressão policial na sociedade espanhola.
Os Fets del Palau de la Música marcam, neste sentido, o início do fim do medo. O dia 19 de maio de 1960 é celebrada uma homenagem ao poeta catalão Joan Margall no Palau de la Música.
O regime proíbe os assistentes de cantarem El cant de la Senyera, poema de Joan Margall. Mas o público desobedece e a subsequente repressão não passa desapercebida. Entre os detidos está o futuro presidente da Catalunha, Jordi Pujol.
Apenas uns anos depois o caso do padre Escarré enterra o regime causando grande desconcerto dentro do fascismo espanhol.
A Igreja Católica tinha dado apoio ao regime franquista, mas no dia 14 de novembro de 1963 o padre Escarré publica um artigo no jornal francês Le Monde onde critica abertamente o regime e defende os direitos da nação catalã.
O padre é condenado ao exílio mas marca outro precedente porque coloca um membro da Igreja Católica contra o regime que tinha usado o nacional-catolicismo como ideologia de estado e de governação.
Os jovens começam a perder medo e pouco a pouco saem também a rua.
O regime resolve tentar parar a situação com torturas sistemáticas.
Mas as publicações clandestinas têm cada vez mais apoio.
Foi neste contexto que se criou a Gran Enciclopèdia Catalana. Os membros dos partidos políticos em clandestinidade aumentam a produção da música em catalão, que começa a representar uma forma de resistência ao regime.
Em 1961, por exemplo, a criação do grupo de música catalão Setze Jutges marca o início da Nova Cançó (do catalão, Nova Canção). A Nova Cançó foi o nome que se deu o renascimento do catalão no âmbito musical.
Proibido durante anos, o catalão foi revitalizado através da música rock. Deste período destaca-se o grupo SAU e a sua canção “Boig per tu”.
A ETA, o grupo armado independentista de mesmo estilo que o IRA, e a FRAP (Front Revolucionari Antifeixista) são perseguidos pelo franquismo que não os consegue calar.
A resistência já não tem só lado pacífico, mas passou também a exercer-se pelas armas.
Em 1975 morre o ditador e a Espanha caminha progressivamente durante os últimos anos da década dos 1970 para uma democracia.
A monarquia é restaurada e os militares espanhóis alojados no Sáhara são obrigados a sair com pressa depois do fim da ditadura em portuguesa, aliada de Franco, devido à vitória da revolução portuguesa do 25 de abril de 1974.
Os últimos residuos do fascismo europeu, o regime franquista e salazarista, têm os dias contados.
Numa última tentativa de impor medo, Salvador Puig Antich, um jovem catalão e antifascista, é condenado em 1974 a pena de morte com o método de garrote vil.
A Transição Democrática ou simplesmente Transição é o nome que refere o período que se estende da morte do ditador Francisco Franco até à restauração da monarquia sob regime parlamentar.
Durante este período o regime fascista tenta resistir como pode.
Em 1973, por exemplo, Luís Carrero Blanco, chefe militar e segundo cabecilha do franquismo, é escolhido pelo regime como Presidente de Governo com a finalidade de suceder ao ditador.
Mas Franco, que se intitulava como tutor da monarquia espanhola, desejava que o seu sucessor fosse o rei Juan Carlos de Bourbon, cuja família vivia no exílio em Portugal.
O ditador tinha-o educado durante a sua infância para que este continuasse o seu trabalho uma vez chegasse à idade adulta.
O ditador encontrava-se mal de saúde e no dia 20 de novembro de 1975, morre acamado.
Dois dias depois Juan Carlos é proclamado pelo regime como seu sucessor, pois a tentativa de colocar Luís Carrero Blanco no poder faliu depois que a ETA o assassinasse num atentado.
A 21 de maio de 1976 é restabelecido provisoriamente o Estatuto de Autonomia da Catalunha de 1932 e restabelecido também, provisoriamente o governo da Generalidade da Catalunha.
O rei delega em Adolfo Suarez a presidência do governo espanhol em 3 de julho de 1976.
Em 15 de dezembro de 1976, com a aprovação da Lei de Reforma Política, a Constituição espanhola começa a ser elaborada e no mês seguinte começam a ser entregues expedientes de legalização de diversos partidos políticos.
Ao mesmo tempo que em Andorra, se inicia uma primeira revolta paralela que permite a sua autodeterminação em 1994.             continua...
(Enviado por João Fróis)

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

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Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

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NOSTALGIA

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CLAUSTROFOBIA

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