
O capitalismo teve a sua ascensão, mas um dia cairá
Pedro Silva
O historiador Sven Beckert discute a origem do sistema capitalista, o que o mantém vivo e o que seria necessário para derrubá-lo.
UMA ENTREVISTA DE
Loren BalhornAs últimas décadas foram turbulentas para o sistema mundial: a crise financeira, a ascensão de novas potências médias no Sul Global e as guerras na Ucrânia e em Gaza, para citar alguns exemplos, exerceram uma pressão sobre a ordem pós-guerra maior do que em qualquer outro momento de sua história. Contudo, apesar da crescente apreensão de que essa ordem possa estar à beira do colapso, seu fundamento econômico — o capitalismo — permanece notavelmente sólido. Pela primeira vez na história da humanidade, um único modo de produção domina o mundo quase sem exceção. Nenhuma força política, nem mesmo os partidos-Estados remanescentes que se autodenominam “comunistas”, oferece uma alternativa plausível à economia de mercado.
Mas como surgiu o capitalismo e o que o torna uma forma tão singularmente dinâmica — e, portanto, tenaz — de organização social e econômica? Essa questão tem ocupado estudiosos por dois séculos, a começar por pensadores como Adam Smith e Karl Marx. Alguns, como o historiador marxista e Robert Brenner, apontam para a transformação das relações de propriedade na Inglaterra em meados do último milênio, enquanto outros, como Jairus Banaji, veem o início do capitalismo muito antes na história da humanidade — ou seja, com o surgimento de redes de comércio centenas de anos antes.
O historiador e professor da Universidade de Harvard, Sven Beckert, publicou recentemente sua própria contribuição para o debate, Capitalism: A global history [Capitalismo: Uma história global], na qual entrelaça diversas vertentes da historiografia ao longo de mais de 1.200 páginas para construir uma narrativa abrangente e detalhada da ascensão do capitalismo ao domínio global nos últimos mil anos. Ele conversou com a Jacobin sobre sua formação intelectual, como seu trabalho se encaixa nos debates sobre a história do capitalismo e como — se é que isso é possível — esse notório modo de produção poderá um dia desaparecer do palco da história.
LOREN BALHORN
Como historiador, você estudou a emergência do capitalismo por muito tempo. Seu último livro, Empire of cotton: A global history [Império do algodão: Uma história global], também apresentou, de certa forma, uma história do capitalismo, ou pelo menos de aspectos específicos dele. O que você buscou alcançar com essa nova história do capitalismo?
SVEN BECKERT
A motivação para escrever o livro surgiu em parte da resposta acadêmica ao meu livro sobre a produção de algodão. Uma das críticas foi que o capitalismo é mais do que a história do algodão, o que é obviamente verdade. Empire of cotton apresenta vários argumentos sobre o capitalismo, mas o livro naturalmente cobre apenas uma pequena parte de sua história — temporal, espacial, mas também em termos do que a industrialização do algodão representa na história do capitalismo. Havia, naturalmente, muito mais que eu queria dizer sobre o capitalismo.
Além disso, porém, notei duas coisas sobre como falamos de capitalismo hoje em dia. Primeiro, o capitalismo desempenha um papel muito, muito importante nos debates políticos. Existem muitos argumentos fortes sobre o capitalismo, mas a compreensão do capitalismo em si muitas vezes não é particularmente bem desenvolvida — tanto na direita quanto na esquerda. Meu objetivo, portanto, foi escrever uma história do capitalismo a partir de uma perspectiva histórica, a fim de enriquecer os debates contemporâneos, proporcionando uma melhor compreensão do próprio capitalismo.
Em segundo lugar, o projeto surgiu de uma crítica às tentativas existentes de compreender o capitalismo. Uma corrente de pensamento muito proeminente sobre o capitalismo é ahistórica, considerando-o como o estado quase natural do mundo. Mudanças acontecem, é claro — produzimos mais do que antes; produzimos de forma diferente —, mas, em princípio, a lógica capitalista é universal e existiu em todas as sociedades ao longo da história. O livro desafia fundamentalmente esse argumento.
“O capitalismo nasceu global, por assim dizer, e só pode ser compreendido a partir de uma perspectiva global em todos os momentos de sua história.”
Além disso, a história do capitalismo ainda é fortemente influenciada por perspectivas eurocêntricas. Meu estudo sobre a história do algodão já havia deixado claro para mim que o capitalismo não pode ser explicado a partir de uma perspectiva puramente europeia. Isso é especialmente verdadeiro no século XXI, quando até mesmo a observação mais superficial leva à conclusão de que é impossível compreender a economia global moderna sem considerar também outras partes do mundo além do continente europeu. Assim, pareceu-me importante analisar isso com maior profundidade. Um argumento central do livro é que o capitalismo nasceu global, por assim dizer, e só pode ser compreendido a partir de uma perspectiva global em todos os momentos de sua história — mesmo em seus momentos mais eurocêntricos.
LB
Como acadêmico, em quais tradições intelectuais ou escolas de pensamento você se baseia? Você menciona Fernand Braudel na introdução do livro. Você se considera um discípulo da Escola dos Annales?
SB
Acho difícil me definir como pesquisador de uma escola específica. A obra de Fernand Braudel sobre a história do capitalismo talvez tenha me influenciado mais do que os trabalhos de outros historiadores ou pensadores. Minha ênfase na importância do capital mercantil, no comércio — inclusive com o mundo não europeu — e na transformação radical da vida econômica pela revolução capitalista, sim, são ideias que também podem ser encontradas em Braudel, embora meu livro seja completamente diferente do dele. A ênfase na importância do Estado na história do capitalismo é definitivamente algo que compartilho com Braudel.
Mas essa é apenas uma das muitas obras que me influenciaram. Reflexões sobre a história do capitalismo têm pelo menos 200 ou até 250 anos. Existem tradições importantes em uma ampla variedade de disciplinas, de Adam Smith a Karl Marx e Rosa Luxemburgo, que também são importantes para o livro. Nesse sentido, sou influenciado por uma grande variedade de fontes. Por último, mas não menos importante, existem bibliotecas repletas de obras muito especializadas que muitas vezes atraem pouca atenção — mas sem elas eu não teria conseguido escrever Capitalism.
O livro não tem como objetivo provar que Smith ou Marx estavam certos ou errados, mas sim contar e analisar a história do capitalismo nos últimos quinhentos anos para melhor compreendê-lo — e, claro, para nos dar a oportunidade de pensar sobre o mundo em que vivemos hoje de uma maneira nova e talvez mais criativa.
LB
Você acabou de mencionar os últimos quinhentos anos do capitalismo, mas o próprio livro se refere a “mil anos” de história. Durante a leitura, fiquei um pouco surpreso ao perceber que você começa séculos antes do que a maioria dos historiadores consideraria o nascimento do capitalismo.
SB
Isso pode ser um mal-entendido. O segundo capítulo do livro se chama “Capitalistas sem capitalismo”. Os primeiros capítulos não tratam de argumentar que o capitalismo se originou no século XI ou XII, mas sim de duas outras questões. Primeiro, eles mostram que existiram outras formas de vida econômica e que estas seguiam uma lógica fundamentalmente diferente da do capitalismo. Isso nos permite perceber o radicalismo da revolução capitalista.
Em segundo lugar, vejo o surgimento do capitalismo como um processo fundamentalmente histórico que não pode ser precisamente datado ou localizado no mapa-múndi. Muitos estudiosos estão buscando, de certa forma, a semente da qual o capitalismo brotou: alguns a encontram em Florença, outros na agricultura do sul da Inglaterra. Acredito que essa busca está fadada ao fracasso. O capitalismo emerge como um processo globalmente interconectado que se desenrola lentamente. Em certo sentido, é também um processo contínuo que ainda podemos observar hoje em certas regiões do mundo ou em certas esferas de nossas vidas. A lógica capitalista ainda está em processo de emersão.
Contudo, o surgimento do capitalismo é uma questão histórica que, em certa medida, deve e pode ser situada no tempo e no espaço. Para tanto, considerei importante identificar os atores que introduzem essa nova lógica, tão diferente em sua estrutura, na vida econômica. Concordo com Braudel ou Jairus Banaji que, inicialmente, esses atores se encontram entre os detentores de capital. Até o século XIX, tratava-se, em grande parte, de pessoas que organizavam o comércio de longa distância ou o setor bancário.
Ao observar o mundo na primeira metade do segundo milênio, constato que, mesmo naquela época, já existiam diversos locais onde comunidades mercantis organizavam sua vida econômica segundo uma lógica diferente da dos governantes tributários ou dos agricultores de subsistência. Esses grupos podem ser encontrados em muitas partes do mundo, mas concentram-se em “ilhas de capital” urbanas. Frequentemente, estabelecem relações com a agricultura não capitalista e com os governantes tributários, o que lhes proporciona oportunidades para disseminar ainda mais a lógica do capital.
Essa lógica já existia há muito tempo, mesmo antes da primeira metade do segundo milênio, mas era marginal à vida econômica mundial. A resposta para a questão do surgimento do capitalismo reside, portanto, no momento em que essa lógica se disseminou e passou a ter uma influência mais forte na vida econômica. Para mim, isso finalmente aconteceu — e talvez seja uma visão bastante tradicional — no final do século XV e início do século XVI, com a expansão europeia.
LB
Foi nesse ponto que a lógica capitalista passou da periferia para o centro?
SB
Exatamente. Isso acontece, antes de tudo, na agricultura. Robert Brenner está certo: o capitalismo surge primeiro no campo. Esse processo pode ser encontrado de diferentes formas em diferentes regiões. É problemático dizer que o local onde essa transformação realmente importa é exclusivamente o sul da Inglaterra. É problemático por dois motivos: primeiro, mesmo nessas transformações rurais podemos ver a importância do capital mercantil. E segundo, esse capital mercantil está, obviamente, diretamente envolvido na expansão da produção no Caribe e nas Américas em geral. O desenvolvimento do capitalismo, portanto, só pode ser compreendido como um processo global interconectado que não pode ser entendido a partir de uma perspectiva local.
“Meu argumento é que a Europa mudou não apenas de dentro para fora, mas também de fora para dentro.”
É crucial analisar o mundo atlântico aqui: como os detentores de capital europeus foram capazes de mudar radical e rapidamente a lógica de produção no Caribe ou nas ilhas da África Ocidental, eles dispunham de um capital considerável, o que, por sua vez, permitiu que transformassem a estrutura social muito mais conservadora da agricultura europeia, frequentemente enfrentando forte resistência tanto das elites quanto dos próprios camponeses. Portanto, meu argumento é que a Europa mudou não apenas de dentro para fora, mas também de fora para dentro.
LB
O capitalismo só pode ser compreendido como um processo global, mas, ainda assim, um processo no qual a conquista violenta pelo Ocidente desempenhou um papel central?
SB
Absolutamente. Um dos meus principais argumentos é que o capitalismo não se baseia apenas na regulação contratual das relações sociais e econômicas, ou meramente na concretização da liberdade humana, mas também depende fortemente da coerção extraeconômica. Essa observação não era muito popular na era neoliberal, mas, quando olhamos para o mundo atual, infelizmente confirma alguns dos argumentos que apresento sobre a história do capitalismo.
A história do capitalismo, pelo menos em uma de suas fases importantes, é uma história de conquista violenta. A Europa desempenhou um papel central nessa história. O livro argumenta contra uma leitura eurocêntrica da história do capitalismo, ou seja, contra uma leitura que ignore virtualmente o resto do mundo. Por outro lado, também sou cético em relação aos argumentos que defendem a marginalização da Europa. Pelo contrário, como você disse, a Europa desempenhou um papel fundamental, especialmente do final do século XVIII até meados do século XX, e isso também deve ser levado em consideração em nossa reflexão sobre o capitalismo.
Mas mesmo nos momentos mais eurocêntricos do capitalismo — digamos, em meados do século XIX, quando muita atenção deve ser dada à Europa — os desenvolvimentos europeus só podem ser compreendidos se inseridos em uma história mais global. Aqui, novamente, o algodão é um bom exemplo: não podemos entender a Revolução Industrial na Inglaterra sem entender a transformação da agricultura no sul dos Estados Unidos. As duas estão intrinsecamente ligadas e devem ser explicadas em conjunto.
LB
Nos capítulos sobre meados do século XIX, você oferece descrições vívidas de como uma classe alta emergiu nas metrópoles e exibiu publicamente sua riqueza e poder recém-adquiridos. Em sua opinião, quando surgiu uma classe capitalista coerente e consciente como tal?
SB
Fico feliz que você tenha notado os capítulos sobre o século XIX. Muitas vezes, as pessoas prestam atenção primeiro aos capítulos sobre história antiga e depois aos sobre neoliberalismo, mas não a tudo o que está entre eles. No entanto, acredito que alguns dos argumentos mais originais do livro podem ser encontrados justamente nos capítulos sobre a história do século XIX.
Um dos resultados da revolução capitalista é o surgimento de uma sociedade de classes, e de fato, de um tipo específico de sociedade de classes. Eu a chamo de “civilização capitalista”. É claro que isso também significa o surgimento de uma burguesia autoconsciente que se entende como uma classe. Essas classes sociais são uma questão complexa em todos os momentos da história do capitalismo, porque nunca são completamente uniformes, cultural ou politicamente, e, obviamente, têm interesses econômicos concorrentes. Isso não pode ser subestimado. O mesmo se aplica aos trabalhadores: podemos observar o surgimento de uma classe trabalhadora no século XIX, mas ainda existem muitas diferenças e conflitos dentro dessa classe trabalhadora. Ela nunca é uma formação social homogênea.
Na primeira metade do século XIX, surge em algumas partes do mundo uma sociedade fortemente subjugada pela lógica capitalista, mas que, em certo sentido, ainda se encontra cercada por formas pré-capitalistas de poder político, vida social e organização do trabalho. Surgiram tensões entre a dinâmica economia capitalista e essas antigas tradições de organização política e trabalhista, tensões que explodiram em meados do século XIX. Este é o momento em que as formas mais antigas de governo político ou de mobilização do trabalho, como a escravidão, são marginalizadas. Refiro-me a esse período no livro como a era das rebeliões.
“As classes sociais são uma questão complexa em todos os momentos da história do capitalismo, porque nunca são completamente uniformes, cultural ou politicamente, e têm interesses econômicos concorrentes.”
LB
De forma semelhante, tanto para a classe alta do século XIX quanto para os detentores de capital anteriores, conforme descrito em seu livro, a família patriarcal é central, tanto para a transferência de propriedade quanto para a própria estrutura social da classe. Ao mesmo tempo, podemos observar tendências contraditórias em direção à dissolução das estruturas familiares no capitalismo. Diante dessas tensões, seria possível existir capitalismo sem a família?
SB
A questão de saber se será possível, no futuro, a civilização capitalista prescindir da família burguesa é pertinente, mas de difícil resposta. Diria que existem razões para supor que a família continuará a desempenhar um papel fundamental. Em primeiro lugar, porque a família burguesa é essencial para a produção da cultura burguesa e para a criação de conexões e redes sociais, que, por sua vez, são essenciais para a constituição da burguesia, mas também para a organização da própria economia capitalista. É claro que a família também é fundamental porque permite a transferência do capital acumulado, algo difícil de conceber sem ela.
Mas além disso, como sabemos, a família não é apenas central para a burguesia, mas também para a reprodução da força de trabalho e, portanto, para a produção. Assim, não existem exemplos de capitalismo que não se baseiem numa ideia de família ideologicamente e socialmente importante, e não creio que isso seja fundamentalmente diferente hoje em dia. No início da entrevista, você perguntou quais autores me influenciaram. Uma autora que definitivamente me influenciou é Nancy Fraser, que explica por que o não-mercado é tão importante para a constituição do mercado e para a constituição do capitalismo. Concordo plenamente com isso.
LB
Existe um debate antigo entre marxistas precisamente sobre essa questão do externo ou exterior que o capitalismo deve incorporar constantemente. Em seu livro, você descreve a era do colonialismo europeu, por exemplo, como uma espécie de “capitalismo de guerra”. Diante das tensões geopolíticas que se intensificam rapidamente hoje, estamos caminhando de volta para um período semelhante?
SB
A não-mercantilização e a coerção desempenharam um papel importante em todos os momentos da história do capitalismo. Sou um tanto cético em relação a uma interpretação que diga: sim, existe uma história inicial violenta do capitalismo, mas que, em última análise, ela dá lugar, no século XIX ou XX, a uma história pacífica de contratos e liberdade humana. Eu questionaria essa narrativa.
É claro que a forma como essa violência é exercida e as formas que assume mudam. Às vezes, há uma tendência a generalizar e dizer: “Bem, a escravidão não é tão diferente do que os trabalhadores têxteis no Camboja têm que suportar hoje”. Discordo disso. É importante observar como essas formas de coerção se transformaram ao longo da história do capitalismo.
“Estamos retornando a um momento em que a retórica, as questões e até mesmo a política do final do século XIX estão repentinamente ressurgindo no presente.”
Hoje, muitos observadores estão chocados e desorientados porque se apegaram a uma narrativa que pressupunha que essa história inicial do capitalismo havia sido definitivamente superada e que havíamos entrado em um momento completamente diferente do capitalismo. Na era do neoliberalismo, a ideia de que contratos e mercados poderiam e deveriam estruturar da melhor forma todas as relações humanas tornou-se, por assim dizer, uma lei da natureza. Agora vemos que o que alguns observadores consideravam natural nos últimos cinquenta anos foi, na verdade, apenas um momento específico na história do capitalismo. E, para surpresa de quase todos eles, estamos retornando a um momento em que a retórica, as questões e até mesmo a política do final do século XIX estão repentinamente ressurgindo no presente.
Da perspectiva da ideologia dos últimos cinquenta anos, isso é surpreendente, mas da perspectiva da longa história do capitalismo, não é nada surpreendente. De certa forma, um dos principais argumentos do livro é que o capitalismo assumiu formas políticas muito diferentes no passado — mas também formas muito diferentes de regimes de trabalho, formas muito diferentes de organização territorial — e que essas diferenças sempre se combinaram e recombinaram de novas maneiras. Às vezes, elas foram relativamente estáveis por longos períodos históricos, mas nunca de forma permanente.
Agora, estamos testemunhando outro momento em que esses elementos estão se recombinando. De certa forma, isso nos lembra o final do século XIX ou o início do século XX. Mas a história não se repete. A Europa não está mais no centro da economia global — hoje, as economias capitalistas mais dinâmicas encontram-se na Ásia. Portanto, não se trata de um retorno ao século XIX, mas sim de uma retomada de certos temas e estratégias, ainda que em uma configuração global diferente.
LB
No epílogo, você se refere ao conceito de Erik Olin Wright de “utopias reais”, ilhas de relações não capitalistas, e as relaciona à sua imagem das primeiras “ilhas de capital” que se espalharam gradualmente como uma possível forma pela qual o capitalismo poderia um dia chegar ao fim. Mas, se aceitarmos seu argumento de que o Estado foi um fator central no estabelecimento do capitalismo, qualquer lógica não capitalista não precisaria também de uma relação semelhante com o Estado?
SB
Isso não está no livro, mas é um excelente ponto, e absolutamente correto. A social-democracia também incorporava isso; ela seguia precisamente essa estratégia. Ninguém pode prever o futuro. Eu tentei apresentar apenas dois argumentos: primeiro, que o capitalismo é histórico. Há alguns anos, Immanuel Wallerstein tentou datar o fim do capitalismo. Eu estava presente quando ele fez isso. Não tenho esse tipo de certeza. Dito isso, tudo que tem um começo também tem um fim.
Ao reler Erik Olin Wright, fiquei surpreso ao perceber — algo que eu havia esquecido completamente — que existe um certo paralelo entre seus argumentos e o meu sobre o surgimento do capitalismo. Isso é pura especulação, mas talvez haja algo nessa história das “ilhas” que seja útil para pensarmos sobre o futuro.
LB
Talvez uma diferença fundamental entre a civilização capitalista atual e o capitalismo histórico seja a ausência de um adversário poderoso na forma do movimento operário. A ascensão e queda do movimento que outrora contestou o capitalismo no coração da Europa também desempenham um papel importante em seu livro. Você agora o considera um fenômeno histórico inevitável que emergiu de um momento específico da história?
SB
O movimento operário que moldou o século XX na Europa Ocidental e na América do Norte é, creio eu — e talvez esta seja uma lição deprimente da história — também histórico. Está fortemente ligado ao momento de seu surgimento — um momento que não se baseou apenas na indústria pesada e nos operários industriais do sexo masculino, mas também num momento da história do capitalismo em que o Estado-nação desempenhou um papel extremamente importante, e os sindicatos e os partidos social-democratas e socialistas concentraram-se justamente nesse Estado-nação.
Em certo sentido, o capital se libertou desse Estado-nação no final do século XX, enquanto os sindicatos e os partidos social-democratas e socialistas permaneceram enraizados nele. É claro que isso não se deveu apenas a um erro de cálculo estratégico, mas também ao fato de ele representar uma fonte de poder real. Portanto, não é particularmente surpreendente que essas instituições continuassem a se agarrar à fonte de seu poder.
Um tema central do livro é mostrar que o capitalismo mudou significativamente ao longo de sua história. Essa mudança não ocorreu apenas em função da lógica do próprio capital, ou porque os empresários repentinamente vislumbraram outras preferências, interesses ou oportunidades de lucro, mas também devido à resistência coletiva e individual de movimentos sociais que alteraram aspectos centrais do capitalismo. Analiso em detalhes as revoltas de escravizados no Caribe, que puseram fim a um componente essencial do capitalismo dos séculos XVIII e XIX: a escravidão nas plantações. Outro exemplo é o movimento operário do final do século XIX e do século XX, que acabamos de discutir.
Portanto, se eu extrapolar essa lição histórica para o futuro, presumo que os movimentos sociais de diversos tipos continuarão a desempenhar um papel crucial. No entanto, é difícil prever exatamente que forma eles assumirão. Mesmo assim, é certamente uma questão produtiva que vale a pena refletir.
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