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sábado, 9 de maio de 2026

Venezuela

 O que não se pode esquecer: A revolução bolivariana e o futuro
Cira Pascual Marquina
8 de maio de 2026

 

 

Desde a destituição de Maduro, as especulações sobre o futuro da Venezuela estão a fervilhar. É certo que as análises geopolíticas têm a sua importância. Mas, para alguns, inclusive na esquerda, bastariam para enterrar o futuro da revolução bolivariana sob os compromissos da presidente interina. Isso seria esquecer que a revolução não assenta apenas num chefe de Estado... (I'A)

 

 

 Recentemente, participei numa assembleia na zona oeste de Caracas, onde os membros da comunidade debatiam como dar prioridade a recursos escassos. A discussão não foi fácil. As pessoas não estavam de acordo. Deveríamos investir primeiro num sistema de abastecimento de água, numa iniciativa produtiva ou na reparação de um espaço comunitário? As vozes por vezes sobrepunham-se, os argumentos eram construídos e reconstruídos, as decisões demoravam a ser tomadas. Visto de fora, poderia parecer uma reunião rotineira e até aborrecida. Por dentro, era bem outra coisa: um esforço coletivo para pensar a vida material sob alta pressão.

Assembleias como esta não são excecionais. Fazem parte do funcionamento normal de uma sociedade que, mesmo sob o jugo imperialista, continua a organizar a sua vida material e política. É algo que muitas vezes passa despercebido nos relatos sobre a Venezuela escritos à distância, onde a atenção tende a concentrar-se na «alta política» — declarações institucionais, negociações, respostas geopolíticas —, negligenciando o denso tecido da prática política quotidiana que sustenta o processo.

Na verdade, o que poderia ser percebido como uma simples inércia é melhor compreendido na sua profundidade: a expressão de um processo histórico em curso que, há mais de duas décadas, transformou não só as instituições, mas também as capacidades do povo.

 A irreversibilidade do que não pode ser desfeito

É aqui que a questão da irreversibilidade, levantada por Chris Gilbert num artigo recente, se torna decisiva. Inspirando-se no trabalho do filósofo húngaro István Mészáros, Chávez defendeu que os processos revolucionários podiam, em determinadas condições, atingir um ponto de não retorno. Esta noção é frequentemente interpretada em termos institucionais, mas a sua dimensão mais profunda situa-se ao nível da base, onde a mudança é, por falta de melhor palavra, molecular.

Após mais de vinte e sete anos, a Revolução Bolivariana gerou uma densa acumulação de experiência política vivida. Milhões de pessoas participaram em processos de organização, tomada de decisão e luta. Não foram apenas testemunhas da política, praticaram-na.

A partir do interior deste processo, torna-se claro que tal experiência não pode ser facilmente revertida. As instituições podem ser transformadas, as políticas revertidas e os recursos reafetados. Mas a dignidade de se ter tornado cidadão/a após séculos de humilhação e de apartheid social, o conhecimento produzido pela prática vivida — a capacidade de interpretar e de organizar — não desaparecem tão facilmente. As pessoas (incluindo a liderança política do processo) não podem simplesmente «desaprender» o que viveram.
Ao mesmo tempo, seria um erro tratar o projeto comunal como autossuficiente ou abrangente. De um ponto de vista chavista, ou mesmo marxista-leninista, a comuna não pode permanecer isolada para realizar o seu verdadeiro potencial revolucionário. Deve tornar-se nacional, articulada com outras esferas de poder, incluindo o governo. O horizonte não é um mosaico de experiências locais desconexas, mas a transformação da sociedade no seu conjunto.

Não se trata de uma preocupação abstrata. Da minha perspetiva, é claro que as comunas — ainda marginais na economia nacional — não podem sustentar-se ou desenvolver-se se o Estado for perdido em benefício de forças hostis à revolução. Perder o governo não significaria o desaparecimento imediato da organização popular, mas interromperia a possibilidade de avançar para uma democracia substancial capaz de corroer o metabolismo do capital que começa a emergir nas comunas.

Isso não implica que o apoio ao governo deva ser acrítico. A relação entre o poder popular e o Estado tem sido contestada em momentos desde os primeiros dias da revolução. Houve momentos em que o governo se distanciou do projeto comunal, para depois voltar a ele sob a pressão de setores organizados.
Contra as apostas «demasiado seguras»

Isto leva-nos de volta às declarações derrotistas dos intelectuais de esquerda que mencionei anteriormente, que insistem no facto de que a Revolução
 Perder o governo não significaria o desaparecimento imediato da organização popular, mas interromperia a possibilidade de avançar para uma democracia substancial capaz de corroer o metabolismo do capital que começa a emergir nas comunas.

Isso não implica que o apoio ao governo deva ser acrítico. A relação entre o poder popular e o Estado tem sido contestada em alguns momentos desde os primeiros dias da revolução. Houve momentos em que o governo se distanciou do projeto comunal, para depois voltar a ele sob a pressão de setores organizados.
Contra as apostas «demasiado seguras»

Isto remete-nos para as declarações derrotistas dos intelectuais de esquerda que mencionei anteriormente, que insistem no facto de que a Revolução Bolivariana terminou, que o governo capitulou, que o que resta não passa de uma casca vazia. Visto de fora, isto pode parecer realismo. De dentro, reflete uma profunda incompreensão do processo. No cerne dessa incompreensão está a incapacidade de compreender a irreversibilidade.

Aqueles que declaram ou dão a entender que tudo está perdido tendem a concentrar-se no governo como se este fosse o único depositário da revolução. Os «especialistas» projetam na Venezuela aquilo que conhecem – a democracia representativa, os seus jogos de poder, a sua personalização. Deste ponto de vista, qualquer concessão ou recuo parece ser uma prova de

Fonte : Investig ´action. França 
Supporters of Venezuelan President Nicolas Maduro hold a portrait of late Venezuelan President Hugo Chavez and a Venezuelan national flag during a march in solidarity with the social movements that have exploded in Latin American countries in the last days, in Caracas, on October 24, 2019. Thousands of government supporters paraded down a main avenue to show their support for the protests in Chile, Honduras, Ecuador, and to support Bolivian President Evo Morales. (Photo by Yuri CORTEZ / AFP)

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