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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Graco Babeuf

 

Há 229 anos, em 27 de maio de 1797, os revolucionários franceses Graco Babeuf e Augustin Darthé eram executados na guilhotina, marcando o fim da Conspiração dos Iguais, movimento insurrecional que eclodiu durante a Revolução Francesa.

O movimento refletia a insatisfação popular com a crise econômica e com os rumos do processo revolucionário. A restauração dos privilégios dos ricos após a queda de Robespierre e os retrocessos impostos pelo governo do Diretório convenceram os membros do movimento de que a burguesia pretendia somente substituir a aristocracia no comando do Estado, mantendo o povo subjugado.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

A conspiração foi uma das primeiras tentativas de estabelecer um regime político baseado na igualdade econômica e social. Os membros do movimento defendiam a abolição da propriedade privada e a coletivização das terras e dos meios de produção. Para Karl Marx e Friedrich Engels, a Conspiração dos Iguais foi o primeiro movimento comunista moderno.

A Revolução Francesa e o Período do Terror

Tributária do avanço das ideias iluministas, a Revolução Francesa se consagrou como um dos eventos mais seminais da história moderna. Iniciado em 1789, o movimento deu vazão ao enorme descontentamento popular com o sistema político do Antigo Regime e com os privilégios do alto clero e da aristocracia.

Acossadas pela inflação e pelo desemprego, submetidas à fome e à miséria, as camadas populares passaram a questionar o poder absoluto do rei Luís XVI e a exigir reformas políticas e sociais profundas. O clamor por mudanças encontrou eco na burguesia francesa, que se ressentia por ter seu poder circunscrito aos aspectos econômicos, permanecendo excluída da governança e dos processos decisórios.


Frustrados com o impasse nos debates durante a Assembleia dos Estados Gerais, os representantes da burguesia e das classes populares se rebelaram contra a Nobreza e o Clero e formaram sua própria Assembleia Nacional. A tomada da Bastilha em julho de 1789 inflamou os ânimos da população, que passou a saquear e destruir os palácios, castelos e propriedades dos nobres.

A agitação social forçou as classes dirigentes a uma série de concessões. Os privilégios feudais foram abolidos, os bens da igreja foram confiscados e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada. Em 1792, a monarquia foi abolida e, no ano seguinte, Luís XVI foi decapitado.

Durante todo esse período, diferentes grupos disputavam os rumos do processo revolucionário. A crescente radicalização das massas, no entanto, acabou por beneficiar os jacobinos — grupo composto por setores da pequena burguesia, intelectuais radicais e lideranças populares.

Sob o comando de Maximilien de Robespierre, os jacobinos assumiram o controle da Convenção Nacional, tomando a liderança do movimento. Eles seriam responsáveis por uma série de medidas avançadas, incluindo a abolição da escravidão nas colônias francesas e a instituição do sufrágio universal masculino, mas também impuseram uma violenta repressão política.

Entre setembro de 1793 e julho de 1794, a revolução seria marcada pelo chamado “Período do Terror”, em que milhares de pessoas foram guilhotinadas — com números estimados entre 16 mil e 40 mil vítimas. Outras 300 mil pessoas foram presas.

A Reação Termidoriana e o Diretório

A radicalização crescente, somada ao medo disseminado entre antigos aliados, acabou por isolar os jacobinos. Temendo as perseguições, deputados moderados e girondinos (facção política da alta burguesia, defensora do liberalismo) se uniram contra Robespierre e seus aliados. Em julho de 1794, o líder jacobino foi preso e executado na guilhotina, encerrando o domínio dos radicais.

Com a queda de Robespierre, a alta burguesia assumiu o comando do processo revolucionário, dando início a uma fase conservadora intitulada “Reação Termidoriana”. O Clube Jacobino foi fechado e os militantes revolucionários foram perseguidos durante o chamado “Terror Branco”. As políticas consideradas excessivamente radicais foram revertidas e os privilégios da burguesia foram restaurados.

A reação se intensificou a partir de 1795, quando foi instituído o governo do Diretório. Uma nova Constituição foi promulgada, abolindo o sufrágio universal em favor do voto censitário, restrito aos cidadãos mais ricos. Revoltas populares em Paris foram violentamente esmagadas pelo Exército, iniciando um processo de militarização das disputas políticas que pavimentaria o caminho para a ascensão de Napoleão Bonaparte.

Além dos retrocessos políticos, o novo governo também instituiu medidas econômicas impopulares. O fim do controle estatal sobre os preços e salários resultou no súbito aumento do custo de vida. Para agravar a situação, em fevereiro de 1796, o Diretório suspendeu a distribuição de pão e carne a preços subsidiados.

As medidas aprofundaram a insatisfação das classes populares, que já sofriam com a inflação galopante, o aumento da fome e o desemprego. Enquanto a alta burguesia enriquecia com guerras, especulação e apropriação dos bens tomados da aristocracia, o povo se sentia traído. A revolução, que mobilizara as massas prometendo “liberdade, igualdade e fraternidade”, restringia cada vez mais os dividendos a uma minúscula elite.

Graco Babeuf

Foi nesse contexto de decepção com os rumos da Revolução Francesa que surgiram novas vozes radicais exigindo uma segunda revolução, agora voltada a garantir justiça social e igualdade econômica para todos os cidadãos franceses.

A mais ressonante dessas vozes foi a de um jornalista chamado François Noël Babeuf, um representante dos “sans-culottes” — membros das camadas populares urbanas da França. Ele era mais conhecido pelo pseudônimo Graco Babeuf, referenciando os célebres irmãos Graco, tribunos romanos que foram assassinados por suas reformas em favor dos despossuídos.

Babeuf participou ativamente da Revolução Francesa. Ele serviu como membro do comitê revolucionário no departamento de Somme, atuou no registro dos bens confiscados da nobreza e endereçou várias petições com reivindicações populares à Assembleia dos Estados Gerais.

Como jornalista, Babeuf escreveu diversos ensaios e artigos defendendo a coletivização das terras, a abolição dos direitos feudais e as reformas em prol da igualdade. Suas posições radicais, a admiração por Robespierre e a proximidade com os jacobinos lhe custaram sucessivas prisões, mas também lhe renderam forte apoio popular e o respaldo de líderes como Jean-Paul Marat.

Após a execução de Robespierre, Babeuf fundou o jornal “A Tribuna do Povo”, no qual denunciava a corrupção do Diretório e exortava a luta pela restauração da Constituição de 1793. Preso novamente por suas “atividades subversivas”, Babeuf travou contato com outros revolucionários perseguidos pelo Diretório, incluindo Augustin Darthé e Philippe Buonarroti.

: Insurgentes jacobinos são fuzilados após a derrota do Levante de Grenelle. Gravura anônima de 1796. Biblioteca Nacional da França
/ Wikimedia Commons

A Conspiração dos Iguais

Libertado em outubro de 1795, Babeuf voltou a editar a “Tribuna do Povo”, escrevendo artigos com denúncias vigorosas contra o governo do Diretório e criticando o caráter excludente da ordem social construída pela revolução.

A crise econômica do Diretório criava terreno fértil para a agitação política e Babeuf logo angariou muitos seguidores. Passando da retórica à ação, o jornalista fundou um grupo intitulado Sociedade dos Iguais, que pregava abertamente a tomada do poder.

A agremiação foi reforçada por vários militantes do proscrito Clube dos Jacobinos e por membros do Clube do Panteão. Além de Darthé e Buonarroti, juntaram-se à sociedade os revolucionários Sylvain Maréchal, Félix Lepeletier, Pierre-Antoine Antonelle e Jean-Baptiste Drouet, entre outros.

A Sociedade dos Iguais não pretendia apenas derrubar o Diretório, mas substituí-lo por um ambicioso projeto de transformação social, baseado na igualdade absoluta. O grupo pregava a abolição da propriedade privada e a coletivização das terras e dos meios de produção. A exploração econômica do homem pelo homem deveria ser suprimida e o Estado deveria garantir o trabalho e a subsistência de todos os cidadãos.

Fundador do Clube do Panteão, Philippe Buonarroti foi um dos principais ideólogos do movimento. Ele foi responsável por elaborar o projeto da “república igualitária” a ser implementada após a queda do Diretório: “Os bens da comunidade nacional serão propriedade coletiva de todos os membros. A comunidade nacional proverá a cada pessoa moradia digna, vestuário, alimentação adequada e assistência médica”, previa o autor.

Por sua vez, o poeta Sylvain Maréchal foi responsável por redigir o “Manifesto dos Iguais”. O documento denunciava a burguesia como a nova aristocracia e conclamava o povo francês a se engajar na luta pela supressão das diferenças: “Não podemos permitir que a imensa maioria dos homens esteja ao serviço e ao mando de uma pequena minoria. (…) Devemos fazer desaparecer todas essas odiosas distinções de classes entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, entre senhores e servos, entre governantes e governados”, dizia o manifesto.

Inicialmente limitada a reuniões secretas e panfletos clandestinos, a Conspiração dos Iguais ganhou as ruas. O movimento conquistou enorme força em Paris, congregando milhares de seguidores, e logo se estendeu para outras cidades da região. O general Jean Antoine Rossignol, um dos líderes da tomada da Bastilha, introduziu a conspiração dentro do Exército, passando a coordenar uma rede de militares favoráveis à insurreição.

Uma canção de protesto composta por Babeuf passou a ser entoada nos bares e cafés de Paris, evocando os que estavam “morrendo de fome, morrendo de frio”. Em abril de 1796, os muros da capital francesa foram cobertos por cartazes divulgando a “doutrina de Babeuf” e assinalando que “a natureza deu a cada homem o direito a usufruir de uma parte igual de toda a propriedade”.

Repressão e legado

Inicialmente, as autoridades do Diretório ignoraram a Conspiração dos Iguais, julgando que a radicalidade de seus membros afastaria a população. Surpreendido pela adesão em massa dos populares ao movimento e alarmado pela crescente agitação, o governo francês resolveu agir.

O Diretório infiltrou agentes no movimento para obter informações detalhadas sobre os planos insurrecionais. Georges Grisel, um dos principais líderes da Sociedade dos Iguais, traiu seus companheiros em troca de um pagamento em dinheiro, repassando às autoridades informações decisivas sobre a agremiação.

Em maio de 1796, antes que a insurreição armada pudesse ser iniciada, o governo desencadeou uma ampla operação repressiva. Babeuf e dezenas de conspiradores foram presos. Mais de 240 mandados de prisão foram emitidos.

Unidades militares e batalhões policiais que haviam aderido ao movimento foram desarmados e dissolvidos. Em setembro de 1796, um grupo de 500 jacobinos associados a Babeuf ainda tentou articular uma revolta contra o governo, dando início ao Levante de Grenelle. A revolta foi rapidamente sufocada e dezenas de pessoas morreram durante a repressão.

O julgamento dos líderes da Conspiração dos Iguais teve início em Vendôme em fevereiro de 1797 e se estendeu por três meses. Babeuf e Darthé foram condenados à morte e guilhotinados em 27 de maio de 1797. Buonarroti foi encarcerado na Ilha de Oléron. Drouet, membro do Conselho dos Quinhentos, conseguiu fugir, possivelmente com anuência do próprio Diretório.

Embora derrotada, a Conspiração dos Iguais deixou um importante legado e foi reivindicada por algumas das maiores lideranças revolucionárias do século 19. O conhecimento sobre o levante foi difundido a partir de 1828, após a publicação do livro “História da Conspiração de Babeuf pela Igualdade”, de Philippe Buonarroti, influenciando socialistas utópicos, anarquistas e comunistas.

Karl Marx e Friedrich Engels consideravam a Conspiração dos Iguais como “a primeira aparição de um partido comunista verdadeiramente ativo”. Graco Babeuf, por sua vez, foi apontado por Rosa Luxemburgo como “o primeiro precursor dos levantes revolucionários do proletariado”.

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