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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Porque e como declina o império

 


As forças armadas dos EUA são altamente tecnológicas, dependentes do poder aéreo, sobrecarregadas com ativos de capital fixo vulneráveis ​​e caros em regiões perigosas e vinculadas a uma sociedade avessa a baixas, com pouca confiança nas instituições estatais para melhorar a vida interna ou externamente. (Chip Somodevilla/Getty Images)

Por que os EUA estão perdendo a guerra contra o Irão

Tradução
Pedro Silva

A hegemonia mundial dos EUA parece estar diminuindo. Podemos mergulhar ainda mais na loucura violenta e reacionária, ou construir uma alternativa política na qual o Ocidente desempenhe um papel mais construtivo em uma comunidade global.

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã não está saindo como planejado. A ampla campanha de assassinatos e o bombardeio aéreo massivo contra a infraestrutura militar e civil de Teerã não levaram a República Islâmica ao colapso nos primeiros dias do conflito, e sua capacidade de causar estragos em bases estadunidenses e na infraestrutura energética de aliados no Golfo Pérsico pegou Donald Trump, Pete Hegseth e seus principais assessores de surpresa. Os governos aliados em Londres, Roma, Ottawa, Islamabade e Seul, em sua maioria, evitaram oferecer apoio direto.

Acima de tudo, a capacidade do Irã de controlar efetivamente o fluxo de tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz mergulhou a economia mundial em uma profunda crise, da qual a recuperação completa pode levar anos.

O controle de fato do Irã sobre uma artéria central do capitalismo global também põe em xeque a imagem da hegemonia global estadunidense. Se os Estados Unidos não conseguem garantir a livre passagem por um importante canal de abastecimento energético e produção de alimentos global, que serventia o domínio estadunidense tem para seus principais parceiros na Ásia e na Europa?

Além disso, a própria crise de Ormuz foi precipitada por uma aventura desnecessária e mal concebida, empreendida por dois líderes internacionais cada vez mais desonestos: Trump e Benjamin Netanyahu. Isso apenas reforça a percepção global de que os Estados Unidos não são um gestor estável e visionário do capital global, mas sim um sabotador internacional cruel e incompetente. O desfecho desse conflito ainda permanece incerto, mas a crise com o Irã demonstrou a fragilidade fundamental do projeto global dos EUA.

Os rumores sobre o declínio do imperialismo estadunidense ganharam força no discurso político ocidental. Este momento é interpretado como uma “Crise de Suez estadunidense”, um ponto de inflexão que demonstra que a hegemonia global dos EUA, assim como a britânica antes dela, ultrapassou o ponto de não retorno. Dos reacionários do “EUA Primeiro” (America First) à esquerda anti-imperialista, dos ultra-realistas dos departamentos de relações internacionais aos colunistas liberais, surge um consenso de que a crise com o Irã revelou uma profunda deterioração nos mecanismos do império estadunidense e na nova ordem mundial multipolar que emerge de suas ruínas.

Esse consenso geral, no entanto, deixa muitas perguntas sem resposta: como surgiu a hegemonia global estadunidense? Quais foram os mecanismos de sua reprodução? Como e quando começou esse declínio? E como os Estados Unidos e o mundo poderão ser no período pós-declínio?

Para abordar essas questões, podemos recorrer ao trabalho do falecido sociólogo estadunidense Richard Lachmann e à sua síntese de marxismo político, teoria dos sistemas mundiais e teoria sociológica das elites no livro de 2020, First-class passengers on a sinking ship: Elite politics and the decline of great powers [Passageiros de primeira classe em um navio afundando: Políticas da elite e o declínio de grandes poderes].

Lachmann argumenta que a hegemonia global é uma condição relativamente rara na qual um único Estado é capaz de definir a agenda geopolítica e econômica em escala mundial. Os Estados alcançam a hegemonia global quando as elites domésticas conseguem gerir institucionalmente seus interesses concorrentes, a fim de mobilizar os recursos coletivos de suas sociedades para projetar poder e coordenar outras elites na escala planetária necessária. A hegemonia global estadunidense, forjada nas crises das décadas de 1930 e 1940, desmoronou no início dos anos 2000; parece estar praticamente extinta na década de 2020. As mudanças na economia política estadunidense no final do século XX resultaram em elites mais autárquicas e predatórias, que carecem cada vez mais da capacidade de se engajar em ações coletivas.

Para entender as limitações do poder dos EUA no Estreito de Ormuz, é necessário analisar a coordenação e o conflito entre as facções rivais do poder da classe dominante nos Estados Unidos e como suas relações mutáveis com o Estado estadunidense, o capital financeiro e as classes dominantes estrangeiras têm restringido progressivamente sua capacidade de moldar o mundo.

O que foi a hegemonia dos EUA?

Embora muitos pensadores usem o termo “hegemonia” para descrever a influência que uma formação social exerce sobre outra, Lachmann segue o significado específico estabelecido por teóricos do sistema-mundo como Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein. Em First-class passengers, hegemonia se refere à capacidade de um Estado e sua classe dominante de definir os termos do comércio, das finanças e da geopolítica em todo o mundo.

As potências hegemônicas globais não são simplesmente grandes impérios que conquistam ou extraem recursos de sociedades menos poderosas. Elas também influenciam outros Estados poderosos e estruturam as finanças, o comércio e a geopolítica globais de tal forma que a maioria das outras elites globais poderosas considera a participação nessas estruturas vantajosa para seus próprios interesses. Após a Segunda Guerra Mundial, as elites estadunidenses criaram relações duradouras, assimétricas e mutuamente benéficas com as classes dominantes de outras regiões centrais e semiperiféricas, o que resultou em uma rede de bases militares dos EUA, domínio do dólar e comércio global.

“À medida que Israel se torna cada vez mais um Estado pária no Oriente Médio, o profundo envolvimento de suas elites com os EUA restringe a capacidade estadunidense de agir de maneiras que beneficiem outras potências regionais.”

Isso está em consonância com uma certa interpretação de Antonio Gramsci, na qual a hegemonia é entendida como liderança de classe, a capacidade de mobilizar o poder consensual juntamente com o poder coercitivo bruto, onde os interesses de uma classe passam a ser compreendidos como os interesses da totalidade nacional ou internacional. O esmagador domínio militar estadunidense após 1945 foi a condição fundamental que possibilitou sua hegemonia, mas ela se manteve porque grupos de elites em Londres, Riad, Frankfurt e Tóquio entendiam que seus próprios interesses estavam fundamentalmente alinhados com os sistemas do capitalismo global liderado pelos Estados Unidos.

Fundamentalmente, First-class passengers diverge da visão de Arrighi e de outros autores sobre os “grandes ciclos de poder” ao insistir que a hegemonia global não é um resultado estrutural de “ondas” de desenvolvimento capitalista, nem é uma passagem automática do bastão de uma potência hegemônica em declínio para outra em ascensão. Em vez disso, a hegemonia é, em certa medida, contingente, e os cerca de quinhentos anos de história do capitalismo global foram marcados por extensos períodos de não hegemonia ou multipolaridade.

Lachmann situa a hegemonia holandesa em um breve período de algumas décadas em meados de 1600, enquanto as elites britânicas foram capazes de reformar e reconstituir sua hegemonia com flexibilidade institucional ao longo de um período muito mais extenso, que se estendeu aproximadamente de meados de 1700 até o final de 1800. A hegemonia estadunidense, embora impressionante em seu alcance e intensidade globais, foi mais semelhante à holandesa em sua brevidade, durando de 1945 até o início dos anos 2000.

Mas as diferentes trajetórias de diversas potências hegemônicas globais ao longo da história levantam a seguinte questão: o que leva esses colossais poderes imperiais a construir e depois perder seu status hegemônico?

Pintura de Hendrik Cornelisz Vroom retratando o retorno a Amsterdã da segunda expedição holandesa às Índias Orientais, sob a liderança de Jacobus van Neck, em 19 de julho de 1599. (Rijksmuseum)

Da coordenação de elites ao conflito entre elas

Para que as elites domésticas acumulem poder e influenciem pessoas em outros territórios, elas precisam desenvolver mecanismos para equilibrar a competição interna. As lutas entre diferentes empresas, setores, bases geográficas ou blocos ideológicos e culturais constituem uma força centrífuga constante que ameaça a projeção de poder da classe dominante. Para entender a incapacidade dos Estados Unidos de moldar os eventos no Irã ou mesmo de definir agendas em capitais amigas na Europa e na Ásia, Lachmann nos lembra de observar, em primeiro lugar, os mecanismos de coordenação das elites domésticas que estão se desintegrando.

Essa abordagem desafia as suposições dominantes sobre os Estados que permeiam a maior parte das análises políticas. Os Estados não são objetos sólidos preexistentes que simplesmente representam os interesses de suas nações. Em vez disso, os Estados são arquipélagos formados por instituições que são, nas palavras de Nicos Poulantzas, “condensações materiais” das relações de poder entre classes e frações de classe.

A geopolítica global não é melhor compreendida como um “jogo entre nações” ou um sistema em que certos países exploram outros. Em vez disso, o poder imperial consiste em disputas e compromissos interligados entre diferentes classes e as instituições que elas tentam construir, mobilizar e reconfigurar para promover projetos que atendam a percepções sempre mutáveis ​​de seus próprios interesses. E a capacidade das elites de liderar e moldar os assuntos globais não deriva primordialmente de sua onipotência ou de conspirações em salas enfumaçadas, mas da coerência dos arranjos institucionais que se desenvolvem no contexto de conflitos inter e intraclasses.

A arquitetura institucional da hegemonia estadunidense do pós-guerra foi forjada durante o New Deal e a Segunda Guerra Mundial, quando os traumas gêmeos da Grande Depressão e da guerra total transformaram o Estado e a economia dos EUA. First-class passengers identifica especificamente as raízes da estabilidade das elites nas regulamentações do New Deal que isolavam empresas de âmbito nacional de empresas de âmbito estadual em uma ampla gama de setores, como um método de proteção contra o pânico financeiro. Essas regulamentações também ajudaram a equilibrar e consolidar diferentes empresas e setores uns contra os outros, impedindo que qualquer setor se tornasse excessivamente poderoso, ao mesmo tempo que permitiam que as empresas construíssem relações estáveis ​​com representantes locais no Congresso, que, por sua vez, protegeriam seus interesses nas negociações políticas. A contrapressão do movimento sindical ajudou a estabilizar ainda mais o sistema, servindo como um freio para as grandes empresas estadunidenses dentro e entre os principais setores.

A infraestrutura institucional da classe empresarial estadunidense do pós-guerra foi sustentada por um consenso sem precedentes entre as elites dos Estados Unidos sobre a legitimidade das instituições estatais do New Deal, o anticomunismo da Guerra Fria, a gestão macroeconômica keynesiana e a busca por soluções científicas e baseadas em conhecimento especializado para a gestão da vida social. Os ganhos sem precedentes nos padrões de vida e nas conquistas tecnológicas pareciam fornecer às elites o apoio interno e a base de recursos necessários para moldar os eventos globais no período imediatamente posterior à guerra.

Lachmann argumenta que o conflito intra-elite escapou ao controle devido à onda de fusões que varreu as empresas estadunidenses a partir do final da década de 1960 e se expandiu pelas décadas de 1970 e 1980. À medida que a consolidação corporativa avançava, impulsionada pela desregulamentação e pela crise do movimento trabalhista dos EUA, os laços estreitos, porém dispersos, entre as empresas e a representação política começaram a se desintegrar. As empresas passaram a adotar práticas cada vez mais exploratórias contra os trabalhadores em suas próprias empresas e contra os concorrentes em seus setores, tornando-se cada vez mais predatórias em relação a outros setores do capital.

À medida que esses mecanismos de equilíbrio se desfizeram e elites cada vez mais autárquicas agiram com impunidade contra as classes trabalhadoras e entre si, os arranjos políticos que sustentavam a hegemonia estadunidense começaram a declinar. Como argumenta Paul Heideman em seu recente livro Rogue elephant [Elefante vigarista], essa dinâmica econômica remodelou o Partido Republicano, o partido tradicional dos grandes negócios estadunidenses. As elites políticas republicanas têm acessado cada vez mais dinheiro diretamente de redes de doadores, em vez de instituições — a Convenção Nacional Republicana e seus comitês, a Câmara de Comércio e até mesmo os próprios Comitês de Ação Política (PACs) — concebidas para coordenar o poder político e de classe comum.

Comparar a preparação para a Guerra do Iraque de 2003 com a atual guerra no Irã revela a degeneração da coordenação entre as elites lideradas pelos Estados Unidos. No âmbito político interno, o governo Trump e seus aliados dedicaram um esforço insignificante ao cultivo de influências entre as elites da mídia, das empresas de energia, de Wall Street, das universidades e dos centros de pesquisa. Considere a campanha de meses orquestrada pelo governo George W. Bush, que instaurou o clima de guerra em todos os setores da vida estadunidense, explorando o nacionalismo ferido dos EUA pós-11 de setembro e o aparente sucesso inicial da guerra no Afeganistão para construir fortes maiorias na opinião pública e em setores-chave da elite.

“Embora os bombardeiros israelenses-estadunidenses possam dizimar bases militares iranianas fixas, a capacidade de Teerã de projetar poder no Golfo depende de tecnologias mais descartáveis ​​e móveis que evitam contramedidas aéreas.”

O cenário internacional também apresenta contrastes marcantes. A “Coalizão dos Dispostos” incluiu compromissos significativos de tropas e material bélico de países-chave do G20, como Reino Unido, Itália, Coreia do Sul e Austrália. Colin Powell fez sua infame apresentação no Conselho de Segurança das Nações Unidas numa tentativa de obter aprovação internacional para as guerras estadunidenses. Tanto na Guerra do Golfo de 1991 quanto na Guerra do Iraque de 2003, George H.W. Bush e seu filho exigiram a não participação de Israel para consolidar aliados no mundo árabe, seja em apoio ativo ou em uma neutralidade simpática.

Trump, por outro lado, lançou seu ataque ao Irã somente após coordenação com Israel, deixando aliados regionais e internacionais importantes completamente no escuro. No curto prazo, os países do Conselho de Cooperação do Golfo podem ser levados a uma maior hostilidade em relação ao Irã e a uma dependência ainda maior dos Estados Unidos. Mas a crise iraniana alterou permanentemente os cálculos de suas elites a respeito dos termos de seu acordo com os Estados Unidos como garantidor do comércio e da segurança regional.


Se a negligência dos Estados Unidos em relação aos seus aliados do Golfo é um indicador do declínio de sua influência hegemônica, o mesmo se aplica à sua relação sem precedentes com a elite de outro aliado do Oriente Médio: Israel. Lachmann identifica as relações entre as elites subimperiais e as elites do núcleo hegemônico como importantes fontes potenciais de desestabilização. Embora Israel não seja, de forma alguma, o aliado econômico ou militar mais essencial dos Estados Unidos, nossas elites governantes se integraram a um grau surpreendente. Em setores-chave do nosso complexo militar-industrial, como tecnologia, inteligência, policiamento, pesquisa universitária e fabricação de armas, grupos de elites israelenses e estadunidenses tornaram-se cada vez mais interligados. O governo Trump apresenta uma sobreposição ainda mais extrema do que qualquer governo anterior.

Comparar o período que antecedeu a Guerra do Iraque em 2003 com a atual guerra no Irã revela a degeneração da coordenação entre as elites lideradas pelos Estados Unidos. (Sargento Técnico John L. Houghton Jr./Força Aérea dos EUA)

O debate político nos EUA tem se acirrado recentemente em torno da questão da influência israelense sobre o Estado. Embora o lobby governamental pró-Israel, o sionismo cristão evangélico e o apoio tradicional de importantes instituições e líderes comunitários judaico-estadunidenses desempenhem claramente um papel na formulação da política dos EUA, o foco na direção dessa influência ignora o panorama geral. Devido à longa, duradoura e mútua relação entre os complexos militar-industriais das duas nações, segmentos-chave da classe dominante estadunidense entendem seus próprios interesses como intrinsecamente ligados aos das instituições militares, de inteligência e tecnológicas israelenses.

Infelizmente para a classe dominante estadunidense, à medida que Israel se torna cada vez mais um Estado pária no Oriente Médio, o profundo envolvimento de suas elites com os EUA restringe a capacidade estadunidense de agir de maneiras que beneficiem outras potências regionais. E aqui nos Estados Unidos, esse envolvimento israelense-estadunidense mina a confiança popular nas elites estatais, reduzindo ainda mais os recursos políticos disponíveis para elas.

O curioso declínio do poderio militar estadunidense

Apesar de toda a incoerência das elites estadunidenses, as forças armadas dos EUA continuam sendo a maior e mais tecnologicamente avançada força da história da humanidade. Por que, então, parecem incapazes de vencer guerras contra inimigos muito mais fracos?

Lachmann aponta para incentivos dentro das próprias forças armadas, em particular as estruturas de progressão na carreira e aposentadoria de oficiais. Ele fundamenta essa afirmação na observação, um tanto contraintuitiva, mas convincente, de que os oficiais militares dos EUA não comandam tropas primordialmente, mas sim sistemas de armas. A ascensão na cadeia de comando está intimamente ligada à capacidade dos oficiais ambiciosos de dominar o conhecimento de sistemas de armas caros, complexos e de alta tecnologia, e de pressionar por sua expansão e aumento de financiamento para esses equipamentos.

Isso proporciona uma carreira sólida e relativamente estável: esses sistemas tendem a permanecer em um mesmo local e geralmente não são usados ​​nas complexas e trabalhosas operações de contrainsurgência que se tornaram a principal tarefa das operações de combate estadunidenses desde o Vietnã. Após a aposentadoria, essa experiência e a comprovada habilidade burocrática se tornam um ativo lucrativo quando esses oficiais aceitam empregos ou prestam consultoria para as próprias empresas contratadas pelas forças armadas para fornecer esses sistemas. E, claro, essas mesmas empresas obtêm margens de lucro muito maiores com armamentos de alta tecnologia e que exigem grande investimento do que com armamentos mais simples e descartáveis.

Devido à forma como os altos escalões militares e os fabricantes de armamentos operam, os sistemas de armas adquiridos pelas Forças Armadas dos EUA tendem a não ser particularmente úteis para as guerras que os Estados Unidos de fato travam. Comentaristas da grande mídia estão corretos na avaliação comum de que os Estados Unidos estão imprudentemente preparados para travar uma guerra terrestre fictícia contra os soviéticos na Europa Central. Mas as razões para essa postura têm menos a ver com doutrinas ultrapassadas ou resquícios da ideologia da Guerra Fria e mais com as instituições e estruturas de incentivo para as elites militares, tanto na burocracia estatal quanto no setor privado. Dwight D. Eisenhower estava certo ao afirmar que o desenvolvimento de um complexo militar-industrial público-privado representava uma ameaça às nossas instituições democráticas, mas, ironicamente, também se tornou uma limitação crucial na capacidade das Forças Armadas estadunidenses de manter sua hegemonia global.

Apesar dessa disfunção, a guerra contra o Irã confirmou a capacidade do poder aéreo estadunidense (e israelense) de infligir danos massivos à infraestrutura militar e civil. Mas o uso exclusivo do poder aéreo enfrenta uma série de obstáculos. O Irã tem utilizado drones e mísseis balísticos de baixo custo, lançados de caminhões e lanchas rápidas e difíceis de abater, para retaliar bases estadunidenses e infraestrutura energética no Golfo. Embora os bombardeiros israelenses e estadunidenses possam dizimar bases militares iranianas fixas, a capacidade de Teerã de projetar poder no Golfo depende de tecnologias mais descartáveis ​​e móveis que evitem contramedidas aéreas.

Mesmo antes do surgimento de drones baratos, já havia um consenso acadêmico sobre as limitações políticas do poder aéreo. A obra de Robert Pape cataloga a taxa de fracasso de 100% das tentativas de mudança de regime apenas por meio do poder aéreo. Tropas terrestres são necessárias para esse tipo de operação e, apesar de sua aparente falta de noção, Trump está bem ciente das consequências políticas internas de uma guerra terrestre.

“A China é o único país com capacidade para disputar a posição de hegemonia global. Mas suas elites governantes parecem desinteressadas nessa tarefa.”

Podemos até zombar da denúncia de Pete Hegseth sobre um exército fraco e “politicamente correto”, que lembra as narrativas pós-derrota do tipo “eles não nos deixaram lutar”, propagadas pelos reacionários alemães após a Primeira Guerra Mundial ou pelos estadunidenses após o Vietnã. Mas a essência da verdade é que, com exceção da guerra total industrializada da Segunda Guerra Mundial, as forças armadas dos Estados Unidos jamais utilizaram toda a sua capacidade contra uma nação específica. Isso porque a guerra é fundamentalmente política.

As forças armadas dos Estados Unidos claramente possuem a capacidade técnica para incapacitar a infraestrutura de abastecimento de água, energia e transportes do Irã, o que, mais cedo ou mais tarde, resultaria no colapso da República Islâmica e da sociedade civil iraniana em geral. Mas quais objetivos isso alcançaria? Qual seria o impacto sobre os recursos e o pessoal dos EUA? Quais grupos da elite estadunidense se beneficiariam dessa situação? Como as elites da Europa e da Ásia poderiam ser convencidas de que tal ação promoveria seus interesses?

Donald Trump com Benjamin Netanyahu no Museu de Israel em Jerusalém, 23 de maio de 2017. (Embaixada dos EUA em Tel Aviv)

Essas são as questões que surgem quando pequenos grupos de elites estatais estadunidenses e israelenses — isolados não apenas das forças democráticas populares, mas até mesmo das forças de contrapeso dentro de Wall Street, da indústria petroquímica e das próprias burocracias militares e de inteligência — lançam ações militares massivamente destrutivas sem sequer fingir considerar os interesses dos centros de poder domésticos e regionais dos quais depende a influência global estadunidense.

As forças armadas dos Estados Unidos são uma força de alta tecnologia, dependente do poder aéreo, sobrecarregada com ativos de capital fixo vulneráveis ​​e caros em regiões perigosas, e vinculada a uma sociedade avessa a baixas, cuja população (e cada vez mais suas elites) tem pouca confiança nas instituições estatais para melhorar a vida interna ou externamente.

O mundo após a hegemonia estadunidense

O derramamento de sangue global e o autoritarismo da hegemonia dos EUA não são motivos para nostalgia. E mesmo em termos práticos, uma agenda para o renascimento da hegemonia estadunidense é letra morta. Mas isso não significa que os socialistas nos Estados Unidos e no exterior devam ser ingenuamente otimistas quanto ao fim da hegemonia estadunidense. O histórico do período pós-hegemônico, tanto para a antiga superpotência quanto para o resto do mundo, é de desigualdade e conflito.

No caso dos holandeses e, posteriormente, dos britânicos, Lachmann traça períodos pós-hegemônicos caracterizados por extensas temporadas de conflitos globais caleidoscópicos, ancorados por hegemonias em ascensão. Após o declínio da hegemonia holandesa, a Grã-Bretanha e a França se envolveram no que equivalia a um século de guerras que se estenderam por todos os continentes. A Guerra da Sucessão Austríaca, a Guerra dos Sete Anos e, por fim, as guerras da Revolução Francesa e de Napoleão resultaram em uma clara vitória britânica, em termos militares, mas ainda mais em termos comerciais. Após o declínio da hegemonia britânica no final do século XIX, foram as potências industriais emergentes dos Estados Unidos e da Alemanha que disputaram a hegemonia global. Os enormes conflitos globais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial confirmaram os Estados Unidos como o principal coordenador da acumulação de capital global.

Este modelo apresenta relevância inegável para o momento atual, mas também algumas diferenças cruciais. Por um lado, a multipolaridade emergente certamente multiplica o risco de guerras abertas entre potências industrializadas que competem por esferas de influência regionais. Há também uma alta probabilidade de hegemonias regionais exercerem força bruta sobre Estados mais fracos dentro de suas esferas. Mas há também um ponto de virada fundamental em relação aos períodos não hegemônicos do passado: não existem hegemonias aspirantes disputando o poder.

A China é o único país com capacidade para disputar a posição de hegemonia global. Mas suas elites governantes parecem desinteressadas nessa tarefa.

Em primeiro lugar, a interdependência sem precedentes entre as economias chinesa e estadunidense, mesmo no contexto de sua crescente rivalidade estratégica, representa uma barreira bastante íngreme para um conflito aberto. Embora certas facções mais agressivas dentro do Exército de Libertação Popular possam se sentir encorajadas pela desastrosa guerra estadunidense no Irã, segmentos-chave das elites chinesas no partido-Estado e em grandes empresas aliadas parecem relutantes em tentar perturbar um sistema que facilitou sua ascensão histórica. Embora a China claramente queira consolidar sua posição como hegemonia no Leste Asiático e como um ator importante no comércio global, infraestrutura e tecnologia, isso está muito longe do tipo de hegemonia global exercida durante o meio século estadunidense.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, maio de 2026. (Casa Branca/X)

Mais importante ainda, mesmo que as elites chinesas consigam expandir seu comércio global, infraestrutura e presença militar por meio da Nova Rota da Seda e iniciativas semelhantes, o sistema financeiro da China está mal equipado para coordenar o capitalismo global, um requisito fundamental para a hegemonia global. A liderança da República Popular da China considera seu sistema de controle de capitais, a gestão ativa do mercado de ações e a falta de livre conversibilidade da moeda chinesa como essenciais para a estabilidade política e econômica interna. No entanto, essas políticas tornam o sistema financeiro chinês incapaz de fornecer a liquidez e a flexibilidade necessárias para se tornar o guardião de uma moeda de reserva ou de um sistema bancário globais.

“A ausência de um sucessor plausível para a hegemonia estadunidense na esfera financeira significa que, ao menos num futuro próximo, as finanças dos EUA permanecem centrais para o capitalismo global.”

De fato, o valor das instituições financeiras estadunidenses para o capitalismo global inegavelmente se aprofundou nos últimos vinte anos. Tanto na crise financeira de 2008 quanto na de 2020, o Federal Reserve demonstrou seu papel central na coordenação e no fornecimento de liquidez ao sistema econômico global. Embora tenha havido alguma discussão sobre a guerra com o Irã e o sistema do “petrodólar”, os economistas políticos Stephen Maher e Scott Aquanno apontam que os fluxos globais de petróleo são cotados em dólares porque o dólar é a moeda mundial, e não o contrário. As elites estatais e corporativas ao redor do mundo ainda veem o Federal Reserve e o sistema do dólar como instituições que recompensam enormemente sua participação. A ausência de um sucessor plausível para a hegemonia estadunidense na esfera financeira significa que, ao menos num futuro próximo, as finanças ados EUA permanecem centrais para o capitalismo global.

No âmbito interno, o estudo de Lachmann sobre a Grã-Bretanha e a Holanda pós-hegemônicas não oferece nenhum motivo específico para otimismo. Imediatamente após perderem seu status, essas nações não se tornaram mais ricas e igualitárias. Mas também não oferecem fórmulas conclusivas para prever a trajetória dos Estados Unidos nas próximas décadas.

Embora a possibilidade de um nacionalismo catastrófico ainda mais arraigado seja certamente uma das principais apostas, a ampla oposição interna ao governo Trump — suas políticas econômicas, sua política externa, suas políticas de imigração — constitui um terreno político fértil. A agenda republicana é amplamente impopular entre a população estadunidense e, apesar dos altos e baixos dos recentes ciclos de luta, a esquerda dos EUA está em uma posição mais forte agora do que esteve nas últimas décadas.

Uma política que vincule a redução da presença militar estadunidense global a maiores investimentos em cooperação internacional, programas sociais internos e infraestrutura verde poderia consolidar um período de grandes mudanças na política dos Estados Unidos. Se os movimentos nas ruas, nos locais de trabalho e nas urnas impulsionarem os EUA rumo a um futuro político menos belicista, mais social-democrata e mais inclusivo, poderemos desempenhar um papel mais construtivo na comunidade internacional.

O caminho para um futuro global democrático e socialista é árduo, mas se as políticas progressistas e da classe trabalhadora conseguirem conter nossas elites desonestas, os Estados Unidos pós-hegemônicos terão a chance de desempenhar um papel positivo nessa jornada.

Robbie Nelson

é membro da organização Socialistas Democráticos da América da cidade de Nova York (NYC-DSA).

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