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terça-feira, 7 de março de 2017

sábado, 4 de março de 2017

O jornalismo, a manipulação e a censura   Jorge Seabra

Há poucas semanas os jornalistas portugueses reuniram-se no seu 4.º Congresso, com a presença de cerca de setecentos profissionais. É um acontecimento que se saúda e se há algo a estranhar é o vazio de quase duas décadas em que ele não se realizou.
http://www.abrilabril.pt/sites/default/files/styles/node_aberto_vp300/public/assets/img/lisb_micro.jpg?itok=eKwDH2foVejo, naturalmente, os jornalistas e o jornalismo de fora, como «cliente» de jornais, da rádio e da TV. Leitor do Primeiro de Janeiro nos mais verdes anos, do República, do Diário de Lisboa, do Expresso, do Público, do Le Monde Diplomatique, para referir os mais conhecidos. Relembro uma revista internacional que me faz falta. A velha Afrique-Asie, do falecido Simon Malley (antes de mudar de dono).
Foi nela que, nos anos setenta, vi denunciado o escândalo dos diamantes que, Bokassa, o «imperador» canibal da República Centro-Africana, ofereceu ao seu protector, o presidente francês Giscard D´Estaing.
Poucos falaram desses diamantes de sangue quando, em 2002, o aristocrata Giscard regressou à primeira linha mediática com a sua «Constituição Europeia», depois recusada em referendo pela França e pelos Países Baixos, que passou a Tratado de Lisboa sem mais incómodos.
E esse apagamento do passado é muitas vezes utilizado para anestesiar a compreensão da realidade pelos cidadãos.
O Seminário Diplomático Anual, também realizado há poucas semanas, teve, no seu programa, «o debate incontornável» sobre a harmonização fiscal na Europa (Público, 5-1-17).
É necessário evitar «os estados continuarem a concorrer entre si através de uma competitividade fiscal puxada para baixo e muitas vezes na margem da contemporização com a mais escancarada e escandalosa evasão fiscal», como afirmou o ministro Augusto Santos Silva.
A verdadeira ironia, contudo, encontrava-se no convidado de honra do Simpósio: Jean Paul Junker. O actual presidente da Comissão Europeia é, como se sabe, um maestro da fuga ao fisco, a estrela maior do escândalo «Luxleaks», mas desse seu menos edificante passado pouco se falou.
Voltamos, pois, às «falhas de memória» e «omissões» dos jornalistas, por vezes forçados à amnésia para se manterem na profissão.
Notícias como a do «acordo entre os patrões e os sindicatos», no Conselho da Concertação Social, sem que a CGTP, a principal central sindical, o tenha assinado, tornaram-se uma espécie de «pós-verdade» repetida, que deforma a percepção do que realmente se passa no país.
«Em todos os conflitos há, naturalmente, abordagens divergentes mas é a ausência de diferenças significativas nas notícias, a unanimidade no tratamento editorial, na repetição continuada dos mesmos títulos e "chavões", que reflecte o poder condicionador dos grandes meios de comunicação social.»
Também a tentativa do governo de compensar os patrões com dinheiro da Segurança Social (baixa da TSU) pareceu esquecer a habitual «preocupação» do PS, PSD e CDS sobre a sua sustentabilidade, mostrando a hipocrisia com que se usa esse argumento, pouco denunciada nos principais órgãos da nossa comunicação social.
A manipulação é ainda mais marcada em política externa. Quase sempre a linguagem dos media não tem o mínimo de rigor e projecta-se em ondas de pensamento único que parecem abafar qualquer espírito crítico.
Falar de Milosevic, o conciliador ex-dirigente jugoslavo como um facínora genocida, ou colar a Assad, presidente do regime laico da Síria, o rótulo de impiedoso ditador e de ameaça à paz da região, quando ainda há pouco era considerado um dos mais «civilizados» dirigentes do Médio Oriente (Sarkozy recebeu-o em 2002 com todas as honras de Estado), são bons exemplos desse contorcionismo jornalístico.
Neste jogo de sombras, os relatos iniciais dos enviados ao local, por vezes mais próximos da verdade, são frequentemente depois esquecidos.
No início da «revolta» da Praça de Maidan, a enviada especial do Público a Kiev, na Ucrânia, identificou e entrevistou dirigentes e militantes das organizações neonazis que a protagonizaram (Svoboda, Sector Direito), descrevendo factos e afirmações que confirmavam a sua ideologia fascista, anticomunista e anti-semita.
Também o general Loureiro dos Santos considerou a crise da Ucrânia uma «resposta (da Rússia) à iniciativa alemã de controlar o importante espaço geopolítico ucraniano, ao financiar extremistas que fizeram a revolta em Kiev e derrubaram o Presidente Ianukovich» (Público, 16-5-07).
Mas o apoio da Alemanha e do «Ocidente» aos neonazis que derrubaram o governo democraticamente eleito, e a reconhecida intenção de «expansão da Nato em direcção às fronteiras da Rússia», que Loureiro dos Santos também referia no seu artigo, acabaram por ser convenientemente esquecidos, estabelecendo-se o «consenso» repetido ad nauseam, de que o que aconteceu foi uma «agressão russa», justificando abusivas sanções económicas e o recente avanço para a Polónia de 4000 soldados americanos, uma das últimas decisões do agora branqueado Obama.
A História é rica em episódios inventados que levaram a guerras e tragédias indescritíveis, do incêndio do Reichtag, por Hitler, ao inventado «incidente do Golfo de Tonkin», que serviu a Kennedy para a escalada no Vietname, passando pelas «armas químicas» invocadas no Iraque, na Líbia e na Síria para justificar as neocoloniais agressões do «Ocidente» e dos USA, já esquecido das toneladas de «desfolhante laranja» com que envenenou o Vietname e que ainda hoje causa vítimas.
Em todos os conflitos há, naturalmente, abordagens divergentes mas é a ausência de diferenças significativas nas notícias, a unanimidade no tratamento editorial, na repetição continuada dos mesmos títulos e «chavões», que reflecte o poder condicionador dos grandes meios de comunicação social.
E nessa ofensiva ideológica vale tudo, principalmente em política internacional, porque o alvo é a maioria mal informada que acredita nas mais toscas mentiras que se referem a uma realidade longínqua que muitas vezes pouco lhe diz.
Foi certamente essa a razão que levou o pivot de uma televisão nacional a iniciar a entrevista a Jerónimo de Sousa, na última campanha eleitoral para a Assembleia da República, com uma pergunta sobre a Coreia do Norte. Alguém conhece um português que se preocupe, nem que seja um minuto por dia, com o que se passa nesse distante e mal conhecido país?
A evidente patetice da pergunta apenas põe em evidência que se quis «apanhar» o entrevistado numa resposta redutora que cometa o «pecado» de contrariar o juízo ideológico pré-formado sobre uma realidade complexa, que o próprio entrevistador seguramente desconhece.
Ao longo dos anos, os media nacionais impingiram a falsa ideia de que os partidos fora do «arco do poder» eram demasiado «radicais», desprezando as responsabilidades da governação, não pertencendo, por isso, à ordem «normal» da democracia.
Explorando esse enviesado conceito, esses partidos (particularmente o PCP), foram (e são) excluídos de colóquios, debates e entrevistas, apesar de terem representação parlamentar, mantendo-se essa descriminação mesmo depois de terem passado a ser o suporte da actual solução governativa.
Exemplo disso, o mais antigo programa de debate político, «A quadratura do Círculo», que de início tinha uma imagem de pluralismo contando com representantes de todos os partidos com assento parlamentar, rapidamente se reduziu apenas aos do «arco do poder», ele mesmo um perverso conceito inoculado pelos media.
As mesmas manhas, mais descaradas ou bastante subtis, reflectem-se na distorção dos números das greves e das manifestações da esquerda ou, no plano internacional, abafando o protagonismo de candidatos mais progressistas como Mélanchon ou mesmo Hamon (França), Jeremy Corbyn (Inglaterra), Bernie Sanders (USA), substituídos nos noticiários por requentados nomes do conservadorismo neoliberal, apresentados como única alternativa à pouco «civilizada» extrema-direita ultramontana, agora também encarnada por Trump.
Uma parte importante da informação política representa apenas a repetição papagueada de uma qualquer central de propaganda, parecendo que alguém carrega num botão ficando depois a assistir à onda que se espalha pelos títulos dos jornais e dos noticiários da rádio e da TV, infiltrando-se nos programas da manhã, nos comentadores da tarde e nos talk shows da noite.
Naturalmente que os jornalistas não têm nenhuma condição genética que os faça especialmente ignorantes, desmemoriados ou piores que quaisquer outros profissionais. Apenas se adaptam (melhor ou pior) àquilo que lhes ensinam e às condições criadas num sector ideologicamente estratégico, confrontados com a insegurança no emprego e as pressões das chefias.
Segundo dados fornecidos no seu 4.º Congresso, em cada dez jornalistas no activo, seis (60%) ganham menos de mil euros, cinco (50%) têm vínculo precário, quatro têm recibos verdes, quatro têm medo de perder emprego e só um tem mais de 55 anos.
São eles o elo mais fraco de uma cadeia de interesses poderosos. Mas, alguns, apesar disso, resistem, enquanto outros cumprem o triste trajecto traçado pelas chefias para quem tudo está bem e «não há crise».
«Os jornalistas só têm poder se nunca se vergarem aos poderes»
marcelo rebelo de sousa
Há alguns anos, um jovem repórter contratado para produzir um vídeo sobre a história do “velho” Hospital Pediátrico, entrevistou-me.
Falei-lhe das diferentes etapas do desenvolvimento do hospital e, de passagem, referi uma «histórica» manifestação de médicos e enfermeiros, em 1997, que levou à construção de um novo Bloco Operatório pré-fabricado, resolvendo um bloqueio que se arrastava.
O protesto teve um inesperado impacto mediático, com a fotografia dos cirurgiões de mãos abertas, a aparecer nas primeiras páginas dos jornais e na TV. Para meu espanto, o jovem jornalista, respondeu-me: «Ah! Isso não pode ser! É muito polémico!».
Na verdade, ele nunca tinha ouvido falar do assunto. Apenas o considerou «polémico», talvez por a palavra «manifestação» lhe causar alguma alergia. Bem tentei convencê-lo de que não levantaria qualquer problema. Nada fez vacilar o seu arrepiado cérebro e a manifestação foi assim apagada da História e do vídeo.
«Os jornalistas só têm poder se nunca se vergarem aos poderes» – afirmou solenemente o Presidente Marcelo, no 4.º Congresso. Mas alguns vergam. É ver como defenderam a «austeridade» para os mais pobres, e a dificuldade que tiveram em engolir um governo com maioria parlamentar, após eleições para deputados, desconstruindo o mito da «votação para primeiro-ministro» que, durante anos, tinham construído.
A verdade, contudo, é que as bonitas frases do presidente não garantem a segurança profissional, a independência e seriedade editorial ou a tolerância democrática dos donos do dinheiro.
Defender a dignidade da profissão passa, como sempre, pela unidade dos bons profissionais.
Quando o mundo atravessa um momento particularmente perigoso, os jornalistas devem resistir e assumir uma corajosa atitude de denúncia de todas as tentativas de manipulação das consciências. A democracia não é apenas votar de vez em quando. Os cidadãos têm direito a serem bem informados.
A liberdade constrói-se também assim.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O significado da greve das mulheres neste 8 de março

A greve internacional das mulheres visa encarar as degradações do capitalismo em todas as esferas da vida

8m-significado
Peça de divulgação da greve internacional das mulheres em português. Saiba mais no site oficial do #8M no Brasil que está centralizando algumas das mobilizações brasileiras.

Por Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya.

Leia também a convocatória “Por uma greve internacional militante no 8 de março“.
Organizações feministas, populares e socialistas de todo o mundo convocaram uma greve internacional das mulheres no 8 de março para defender os direitos reprodutivos e contra a violência, entendida como a violência econômica, institucional e interpessoal.
A greve ocorrerá em pelo menos quarenta países e será o primeiro dia internacionalmente coordenado de protesto em escala tão grande depois de anos. Em termos de tamanho e diversidade de organizações e países envolvidos, será comparável às manifestações internacionais contra o ataque imperialista ao Iraque, em 2003, e os protestos internacionais coordenados sob a bandeira do Fórum Social Mundial e do movimento de justiça global no início dos anos 2000.
O movimento Occupy, dos Indignados e o Black Lives Matter conseguiram ter eco internacional e desencadear manifestações, ocupações e protestos em vários países, mas havia pouca coordenação internacional consciente entre as várias organizações e grupos envolvidos. As revoluções árabes desencadearam acontecimentos extraordinários e históricos, mas as organizações sociais e políticas de outros países não foram capazes de promover uma poderosa mobilização coordenada internacionalmente em apoio.
Se houver êxito, a greve internacional das mulheres marcará um salto qualitativo e quantitativo no longo processo de reconstrução das mobilizações sociais em escala internacional contra o neoliberalismo e o imperialismo, as quais vários movimentos dos últimos anos, tais como o Occupy Gezi Park, os Indignados, o Standing Rock e o Black Lives Matter, deram forma. Isso também sinalizará a possibilidade concreta de um movimento feminista novo, poderoso, anticapitalista e internacionalista.

Por que estamos chamando isso de greve?

Muitas discussões sobre a greve, especialmente nos Estados Unidos, centraram-se em saber se é correto chamar o 8 de março de “greve”, em vez de uma manifestação ou protesto. Essa crítica é vazia de sentido. As greves das mulheres sempre foram mais abrangentes em seus alvos e metas do que as paralisações tradicionais por salários e condições de trabalho.
Em 1975, 90% das mulheres da Islândia fizeram uma greve nos locais de trabalho e se recusaram a realizar trabalho social não-remunerado durante um dia, a fim de tornar visível o trabalho e a contribuição das mulheres islandesas para a sociedade. Elas exigiram salários iguais aos dos homens e o fim à discriminação sexual no local de trabalho.
No outono de 2016, as ativistas polonesas adotaram a estratégia e a mensagem da greve das mulheres de Islândia em 1975 e organizaram uma greve massiva de mulheres para impedir a aprovação de um projeto de lei no parlamento que proibisse o aborto. Ativistas argentinas fizeram o mesmo em outubro passado para protestar contra a violência masculina contra as mulheres.
Esses eventos – que estimularam a ideia de uma greve maior no Dia da Mulher – demonstram como uma greve de mulheres é diferente de uma greve geral. A greve das mulheres surge da reflexão política e teórica sobre as formas concretas do trabalho feminino nas sociedades capitalistas.
No capitalismo, o trabalho das mulheres no mercado formal é apenas uma parte do trabalho que realizam. As mulheres são também as principais realizadoras do trabalho reprodutivo – trabalho não remunerado que é igualmente importante para a reprodução da sociedade e das relações sociais capitalistas. A greve das mulheres destina-se a tornar este trabalho não remunerado visível e enfatizar que a reprodução social é também um local de luta.
Além disso, devido à divisão sexual do trabalho no mercado formal, um grande número de mulheres ocupam postos de trabalho precários, não têm direitos trabalhistas, estão desempregadas ou são trabalhadoras sem documentos.
As mulheres que trabalham no mercado formal e informal e na esfera social não reprodutiva são todas trabalhadoras. Essa consideração deve ser central para qualquer discussão sobre a reconstrução de um movimento operário não só nos Estados Unidos, mas também globalmente.
Enfatizar a unidade entre o local de trabalho e o lar é fundamental, e um princípio organizador central para a greve de 8 de março. Uma política que leve a sério o trabalho das mulheres deve incluir não só as greves no local de trabalho, mas também as greves do trabalho reprodutivo social não remunerado, as greves de tempo parcial, os chamados para redução do tempo de trabalho e outras formas de protesto que reconhecem a natureza de gênero das relações sociais.
A “greve” tornou-se o termo genérico sob o qual várias formas de ação são incluídas, porque é o termo que melhor enfatiza a centralidade do trabalho das mulheres e sua auto-identificação como trabalhadores, qualquer que seja a forma de seu trabalho.

Recuperando o direito de greve

Os Estados Unidos têm talvez as piores leis trabalhistas entre as democracias liberais. As greves gerais e as greves políticas são proibidas, as permitidas estão ligadas a exigências econômicas restritas dirigidas aos empregadores e os contratos têm frequentemente cláusulas explícitas anti-greves, cuja violação pode fazer com que o trabalhador perca o emprego e acarretar multas pesadas para o sindicato que organiza-las. Além disso, vários estados, como Nova York, têm leis que proíbem explicitamente funcionários públicos de entrar em greve.
A discussão sobre como reverter esta situação e empoderar os trabalhadores tem sido a principal preocupação estratégica da esquerda dos Estados Unidos nas últimas décadas. No entanto, um dos perigos desta discussão é o de reduzir a luta de classes apenas à luta econômica e de unir as relações sociais capitalistas com a economia formal em sentido restrito.
A transformação das relações de trabalho nos Estados Unidos requer não apenas uma ativação da classe trabalhadora com base em demandas econômicas no local de trabalho, mas sua politização e radicalização – a capacidade de realizar uma luta política dirigida à totalidade das relações de poder, instituições e formas de exploração em vigor.
Isto não pode ser alcançado apenas melhorando e expandindo a organização do trabalho de base no local de trabalho. Um dos problemas centrais que o trabalho político radical enfrenta é seu isolamento e invisibilidade. Estabelecer as bases para a revitalização do poder operário exigirá operar em diferentes níveis – criando grandes coalizões sociais, agindo dentro e fora dos locais de trabalho e estabelecendo laços de solidariedade e confiança entre organizadores e ativistas trabalhistas, antirracistas, feministas, estudantes e anti-imperialistas. Também significa aproveitar a imaginação social através de intervenções criativas, intelectuais e teóricas, além da experimentação com novas práticas e linguagens.
Em vez de um foco estreito sobre as lutas no local de trabalho, precisamos conectar movimentos baseados em gênero, raça, etnia e sexualidade, em conjunto com a organização do trabalho e o ativismo ambientalista. Somente criando essa totalidade coletiva seremos capazes de abordar a complexidade das questões e demandas apresentadas pelas diversas formas de mobilização.
Este é o caminho que a greve internacional das mulheres está perseguindo com sua plataforma política expansiva e inclusiva.
O 8 de março não será uma greve geral. Mas será um passo importante para um novo ciclo de legitimação do direito de greve contra as degradações do capitalismo sentidas em todas as esferas da vida por todos os povos.
* Artigo publicado originalmente no blog da revista Jacobin. A tradução é de Daniela Mussi, para o Blog Junho.
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

As ligações de Trump com o passado e a ressurreição da esquerda

James Petras    24.Feb.17    Colaboradores
Um dos aspectos mais significativos do momento actual é a evidência da agudização de fracturas internas nas principais potências imperialistas, nomeadamente nos EUA e na UE. Num quadro em que emergem novos perigos, emergem e tomam a iniciativa também forças sãs, populares e democráticas. A classe dominante gerou um mundo desumano e insuportável, cujos principais dirigentes são figuras repelentes. A luta de classes intensifica-se.
Introdução
O presidente Trump está profundamente entranhado na estrutura do estado profundo do imperialismo americano. Apesar de ocasionais referências à não intervenção em guerras além-mar, Trump tem seguido as pegadas dos seus antecessores.
Enquanto neoconservadores e liberais têm levantado um alarido acerca dos laços de Trump com a Rússia, as suas “heresias” relativamente à NATO e as suas aberturas para a paz no Médio Oriente, ele tem na prática descartado o seu imperialismo “humanitário de mercado” e tem-se empenhado nas mesmas políticas belicosas da sua rival presidencial do Partido Democrata, Hillary Clinton.
Uma vez que lhe falta a ardilosa “demagogia” do ex-presidente Obama e não recobre as suas acções com apelos baratos a políticas “de identidade”, os pronunciamentos toscos e abrasivos de Trump levam jovens manifestantes às ruas em acções de massa. Estas manifestações são não muito discretamente apoiadas pelos principais oponentes de Trump entre os banqueiros da Wall Street, especuladores e magnatas dos mass media. Por outras palavras, o presidente Trump é um homem que abraça e segue os ícones estabelecidos e não um “revolucionário” ou mesmo um “agente de mudança”.
Prosseguiremos, discutindo a trajectória histórica que originou o regime Trump. Identificaremos políticas e compromissos anteriores que determinam a orientação presente e futura da sua administração.
Concluiremos identificando como a reacção actual pode produzir transformações futuras. Contestaremo o actual delírio catastrofista e apocalíptico e apresentaremos razões para uma perspectiva optimista do futuro. Em suma, este ensaio indicará como tendências negativas actuais podem tornar-se realisticamente positivas.
Sequências históricas
Ao longo das últimas duas décadas presidentes dos EUA desbarataram os recursos financeiros e militares do país em múltiplas guerras intermináveis e perdedoras, bem como em milhões de milhões (trillion) de dólares de dívidas comerciais e desequilíbrios orçamentais. Líderes dos EUA enlouqueceram provocando grandes crises financeiras globais, levando à bancarrotas os maiores bancos, destruindo pequenos possuidores de hipotecas, devastando a indústria manufactureira e criando desemprego maciço a que se seguiu o emprego precário e mal pago que levou ao colapso os padrões de vida da classe trabalhadora e dos extractos baixos da classe média.
Guerras imperiais, bail-outs de milhões de milhões de dólares para os bilionários e fuga sem peias de corporações multinacionais para o exterior aprofundaram amplamente as desigualdades de classe e deram origem a acordos comerciais favorecendo a China, Alemanha e México. Dentro dos EUA, os maiores beneficiários destas crises têm sido os banqueiros, bilionários da alta tecnologia, importadores comerciais e exportadores do agro-negócio.
Confrontados com crises sistémicas, os regimes dominantes responderam com o aprofundamento e expansão dos poderes dos presidentes dos EUA sob a forma de decretos presidenciais. Para encobrir a longa série de derrocadas, denunciantes patriotas foram encarcerados e a vigilância estilo estado-policial infiltrou-se em todas as áreas da cidadania.
Os presidentes Bush, Clinton e Obama definiram a trajectória das guerras imperiais e da pilhagem da Wall Street. A polícia estadual, as instituições militares e financeiras estão firmemente incorporadas na matriz do poder. Centros financeiros, como Goldman Sachs, têm reiteradamente estabelecido a agenda e controlado o Departamento do Tesouro dos EUA e as agências que regulam o comércio e a banca. As “instituições permanentes” do estado permaneceram, enquanto presidentes, pouco importando de que partido, foram baralhados e descartado no “Gabinete Oval”.
O “Primeiro Negro” presidente Barack Obama prometeu paz e empreendeu sete guerras. O seu sucessor, Donald Trump, foi eleito com promessas de “não-intervenção” e imediatamente adoptou o “bastão de bombardeamento” de Obama: o minúsculo Iémen foi atacado pelas forças dos EUA; aliados da Rússia na região do Donbass da Ucrânia foram atacados com selvajaria pelos aliados de Washington em Kiev e o “mais realista” representante de Trump, Nikki Haley, adoptou uma atitude belicosa na ONU ao estilo da “Madame Intervenção Humanitária” Samantha Power, zurrando invectivas contra a Rússia.
Onde está a mudança? Trump seguiu Obama ao aumentar sanções contra a Rússia, enquanto ameaça a Coreia do Norte com aniquilação nuclear no seguimento da grande concentração militar acumulada por Obama na península coreana. Obama lançou uma guerra por procuração contra a Síria e Trump escalou a guerra aérea sobre Raqqa. Obama cercou a China com bases militares, navios e aviões de guerra e Trump prosseguiu em passo de ganso com retórica belicista. Obama expulsou um recorde de dois milhões de trabalhadores mexicanos ao longo de oito anos; Trump seguiu-o ao prometer deportar ainda mais.
Por outras palavras, o presidente Trump juntou-se obedientemente à marcha seguindo a trajectória dos seus antecessores, bombardeando os mesmos países alvos enquanto plagia os seus maníacos discursos nas Nações Unidas.
Obama aumentou o tributo anual (ajuda) a Tel Aviv para uns entusiásticos US$3,8 mil milhões enquanto balia umas poucas críticas pro-forma acerca da expansão israelense sobre terras palestinas usurpadas; Trump propôs deslocar a Embaixada dos EUA para Jerusalém enquanto choramingava algumas das suas próprias mini-críticas aos colonatos judeus ilegais em terras roubadas aos palestinos.
O que é esmagadoramente gritante é a semelhança das políticas e estratégias de Obama e de Trump em política externa, seus meios e aliados. O que é diferente é o estilo e a retórica. Ambos os presidentes “Agentes de mudança” romperam de imediatato as mesmas falsas promessas pré-eleitorais e funcionam bem dentro dos limites das instituições permanentes do estado.
Quaisquer que sejam as diferenças que existam elas são resultado de contextos históricos contrastantes. Obama assumiu no momento do colapso do sistema financeiro e procurou regular os bancos a fim de estabilizar operações. Trump assumiu após a “estabilização” de um trilião de dólares de Obama e procura eliminar regulações – nas pegadas do presidente Clinton! Assim, “demasiado barulho” [para nada] sobre a “desregulação histórica” de Trump!
O “Inverno do descontentamento” sob a forma de protestos em massa contra a proibição de Trump a imigrantes e visitantes de sete países predominantemente muçulmanos segue-se directamente às “sete guerras mortais” de Obama. Os imigrantes e refugiados são resultados directos das invasões e ataques de Obama a estes países que levaram a assassinatos, mutilações, deslocação forçada e desgraça para milhões de “predominantemente” (mas não exclusivamente) de muçulmanos. As guerras de Obama criaram dezenas de milhares de “rebeldes”, insurgentes e terroristas. Os refugiados, que fogem para salvar a vida, foram amplamente excluídos dos EUA sob Obama e a maior parte tem procurado abrigo nos campos imundos e caóticos da UE.
Por terrível e ilegal que seja o encerramento da fronteira a muçulmanos decretado por Trump e por esperançosos que pareçam os protestos públicos em massa, ambos resultam da política de assassínio e agressão de quase uma década sob o presidente Obama.
Seguindo a trajectória da política - Obama derramou o sangue e Trump, no seu tosco estilo racista, tem a tarefa de “limpar os estragos”. Enquanto Obama foi agraciado com um “Prémio Nobel da Paz”, o resmungante Trump é fortemente atacado por empunhar a esfregona suja de sangue!
Trump optou por pisar o caminho do opróbrio e enfrenta a cólera do purgatório. Enquanto isso, Obama está a jogar golf, a surfar ao vento e a exibir o seu sorriso despreocupado aos escrevinhadores que o adoram nos mass media.
Enquanto Trump avança às patadas no caminho preparado por Obama, centenas de milhares de manifestantes enchem as ruas para protestar contra o “fascista”, com grande número das principais redes de mass media, dúzias de plutocratas e “intelectuais” de todos os géneros, raças e credos a retorcerem-se moralmente ultrajados! Fica-se confuso com o silêncio ensurdecedor destes mesmos activistas e forças quando as guerras agressivas e ataques de Obama levaram à morte e deslocação de milhões de civis, principalmente muçulmanos e principalmente mulheres – quando seus lares, festas de casamento, mercados, escolas e funerais foram bombardeados.
É assim o confusionismo americano! Dever-se-ia tentar entender as possibilidades que emergem de um sector maciço finalmente a romper seu silêncio quando o belicismo do loquaz Obama se transformou na marcha bruta de Trump para o dia do juízo final.
Perspectivas optimistas
Há muitos que desesperam mas há mais que se tornaram conscientes. Identificaremos as perspectivas optimistas e as esperanças realistas enraizadas nas actuais realidade e tendências. Realismo significa discutir desenvolvimentos contraditórios e polarizadores e portanto não aceitamos quaisquer resultados “inevitáveis”. Isto significa que resultados são “terreno contestado” onde factores subjectivos desempenham um papel importante. A interface de forças em conflito pode resultar numa espiral ascendente ou descendente – rumo a maior igualdade, soberania e libertação ou maior concentração de riqueza, poder e privilégio.
A mais retrógrada concentração de poder e riqueza encontra-se na oligárquica União Europeia de dominação alemã – uma configuração que está sob assédio por parte de forças populares. Os eleitores do Reino Unido optaram por sair da UE (Brexit). Em consequência, a Grã-Bretanha enfrenta uma ruptura com a Escócia e Gales e uma ainda maior separação da Irlanda. O Brexit levará a uma nova polarização quando banqueiros com base em Londres partirem para a UE e líderes do mercado livre confrontarem trabalhadores, proteccionistas e a massa crescente dos pobres. O Brexit fortalece forças nacionalistas-populistas e de esquerda na França, Polónia, Hungria e Sérvia e estilhaça a hegemonia neoliberal na Itália, Espanha, Grécia, Portugal e alhures. O desafio aos oligarcas da UE é que a insurgência popular intensificará a polarização social e pode trazer à tona movimentos de classe progressistas ou partidos ou movimentos autoritários-nacionalistas.
A ascensão de Trump ao poder e seus decretos executivos conduziu a uma elevada polarização dos eleitorados, aumentou a politização e a acção directa. O despertar da América aprofunda fissuras internas entre democratas com “d” minúsculo, mulheres progressistas, sindicalistas, estudantes e outros contra os oportunistas do Partido Democrata com “D” maiúsculo, especuladores, antigos belicistas Democratas, burgueses negros do Partido “D” (os líderes extraviados) e um pequeno exército de ONG’s financiadas pelas grandes empresas.
O abraço de Trump à agenda militar Obama-Clinton e da Wall Street conduzirá a uma bolha financeira, gastos militares empolados e mais guerras dispendiosas. Isto dividirá o regime dos seus apoiantes sindicais e da classe trabalhadora agora que o gabinete de Trump é composto inteiramente de bilionários, ideólogos, sionistas raivosos e militaristas (em oposição à sua promessa de nomear homens de negócios e realistas duros na negociação). Isto poderia criar uma valiosa oportunidade para a ascensão de movimentos que rejeitam a verdadeiramente feia cara do reaccionário regime de Trump.
A animosidade de Trump à NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e a defesa do proteccionismo e da exploração financeira e de recursos minará os regimes corruptos, assassinos e narco-liberais que têm dominado o México durante os últimos 30 anos desde o tempo de Salinas. A política anti-imigração de Trump levará mexicanos a escolherem “combater em vez de fugir” ao confrontar o caos social criado pelos narco-gangs e a polícia criminosa. Isto forçará o desenvolvimento do mercado interno e a indústria do México. O consumo e a propriedade de massa interna abarcará movimentos nacionais-populares. O cartel da droga e seus patrocinadores políticos perderão os mercados estado-unidenses e enfrentarão oposição interna.
O protecionismo de Trump limitará o fluxo ilegal de capital a partir do México, que ascendeu a US$48,3 mil milhões em 2016, ou 55% da dívida do México. A transição do México da dependência e do neocolonialismo polarizará profundamente o estado e a sociedade; o resultado será determinado pelas forças de classe.
As ameaças económicas e militares de Trump contra o Irão fortalecerão forças nacionalistas, populistas e colectivistas em relação a políticos neoliberais “reformistas” e pró ocidentais. A aliança anti-imperialista do Irão com o Iémen, Síria e Líbano consolidar-se-á contra o quarteto conduzido pelos EUA da Arábia Saudita, Israel, Grã-Bretanha e EUA.
O apoio de Trump à apropriação maciça de terra palestina por Israel e sua proibição “só judeus” contra muçulmanos e cristãos levará ao sacudir dos quislings multi-milionários da Autoridade Palestina e a ascensão de muitos mais levantamentos e intifadas.
A derrota do ISIS fortalecerá forças governamentais independentes no Iraque, Síria e Líbano, enfraquecendo a alavancagem imperial dos EUA e abrindo a porta a lutas populares democráticas e laicas.
A campanha anti-corrupção em grande escala e a longo prazo do presidente da China, Xi Jinping, levou à prisão e remoção de mais de um quarto de milhão de responsáveis e homens de negócios, incluindo bilionários e líderes de topo do Partido. As prisões, processos e encarceramentos reduziram o abuso do privilégio mas, mais importante, melhoraram as perspectivas para um movimento que ponha em causa as vastas desigualdades sociais. Aquilo que começou “de cima” pode provocar movimentos “a partir de baixo”. O ressuscitar de um movimento no sentido de valores socialistas pode ter um grande impacto sobre estados asiáticos vassalos dos EUA.
O apoio da Rússia a direitos democráticos no Leste da Ucrânia e a reincorporação da Crimeia através de referendo pode limitar regimes fantoches dos EUA no flanco sul da Rússia e reduzir a intervenção estado-unidense. A Rússia pode desenvolver laços pacíficos com estados europeus independentes com a ruptura na UE e a vitória eleitoral de Trump superando a ameaça de guerra nuclear do regime Obama-Clinton.
O movimento à escala mundial contra o globalismo imperialista isola a direita apoiada pelos EUA que tomou poder na América do Sul. A procura de pactos comerciais neoliberais por parte do Brasil, Argentina e Chile está na defensiva. As suas economias, especialmente na Argentina e Brasil, assistiram a um triplica do desemprego, um quadruplicar da dívida externa, crescimento de estagnado a negativo e enfrentam agora greves gerais com apoio de massa. O coaxar do neoliberalismo está a provocar lutas de classe. Isto pode derrubar a ordem pós Obama na América Latina.

Conclusão

Por todo o mundo e no interior dos países mais importantes, a ordem ultra-neoliberal do último quarto de século está em desintegração. Há um ascenso maciço de movimentos a partir de cima e de baixo, de democratas de esquerda a nacionalistas, de populistas independentes a reaccionários da “velha guarda” da direita. Emergiu um universo polarizado e fragmentado. O começo do fim da actual ordem imperial-globalista está a criar oportunidades para uma nova ordem democrático-colectivista dinâmica. Os oligarcas e as elites da “segurança” não cederão facilmente a exigências populares nem se afastarão. Facas serão afiadas, decretos executivos avançarão e golpes eleitorais serão encenados para tentar tomar poder. Os movimentos democrático-populares emergentes precisam de ultrapassar a identidade fragmentária e estabelecer líderes unificados e igualitários que possam actuar de forma decisiva e independente em relação aos líderes políticos existentes que fazem gestos progressistas dramáticos, mas falsos, enquanto procuram um retorno ao fedor e imundície do passado recente.
09/Fevereiro/2017
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=2127
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . Tradução revista por odiario.info

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O presidente “bom” e o presidente “mau”

Manlio Dinucci    21.Feb.17    Outros autores
Com as manifestações realizadas a 21 de Janeiro, muitos cidadãos de diversos países aceitaram comportar-se como seguidores e instrumentos de uma das facções em confronto nos EUA. Entre o beatificado Obama e o demonizado Trump, a escolha a fazer não é entre nenhum deles. É a escolha pela soberania nacional, pela paz, pelo direito de cada povo decidir do seu próprio destino, liberto da ingerência e da pressão dos EUA, da NATO, do imperialismo em geral.
Quebrando lanças pelos seus amos estado-unidenses, os europeus – em vez de lutar pela sua própria soberania – unem-se em coro ao concerto de críticas – nem sempre justificadas – sob a batuta das elites da margem ocidental do Atlântico. Invocando a «democracia», desfilam inclusivamente contra o resultado das eleições. Barack Obama foi designado «santo subito», ou seja “santo de imediato”: quando entrou na Casa Branca, em 2009, foi-lhe entregue a título preventivo o Premio Nobel da Paz pelos «seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos».
Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo, através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário, foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.
As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália, Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.
E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.
O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.
Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União Europeia.
Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento, inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua, certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.
Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista, para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.
Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf
in ODiario.info

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Raduan Nassar: O Escritor e o Homem




“Vivemos tempos sombrios”
 
Raduan Nassar não é o intelectual asceta que ignora a sociedade onde se insere, Nassar assume o empenho de cidadão viril que dignifica o intelectual completo.
Em seu pronunciamento na entrega do Prêmio Camões de literatura, o escritor critica o golpe, o governo Temer e o STF.
Nassar, palavras firmes no Prêmio Camões
Às dez e meia da manhã desta sexta-feira 17, o escritor Raduan Nassar subiu ao palco montado no Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016, honraria concedida pelos governos do Brasil e Portugal e um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. Nassar ofereceu à plateia o seguinte discurso:
Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício. Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados. 
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.
  
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.
Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco.
Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas
É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
 O golpeestava consumado!
 Não há como ficar calado.
 Obrigado.

OBRIGADO, RADUAN NASSAR!
Este artigo encontra-se em: as palavras são armas http://bit.ly/2kA5VyS

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Em coluna

Comentários à História da União Soviética de Peter Kenez

António Barata - Publicado em Segunda, 17 Outubro 2011 02:00
António Barata
Editado inicialmente nos EUA em 1999, a História da União Soviética, de Peter Kenez (Edições 70) foi publicado em Portugal em 2007, tendo sido reposto pela FNAC este Verão.

Como é um livro escrito a pensar no grande público, não é muito profundo nem se detém na análise política e ideológica. É principalmente uma descrição das circunstâncias que levaram à tomada do poder pelos bolcheviques e das transformações por que passou a URSS até à sua implosão. O resultado é um trabalho que respeita os factos e não confunde relato histórico com propaganda anticomunista. Lenine, Trotsky, Estaline, os bolcheviques em geral, não são tratados como criminosos, mas como revolucionários que, chegados ao poder, se viram impossibilitados de realizar o projecto igualitário a que se propunham (o autor refere o insucesso da revolução de 1917 como resultado da derrota da revolução alemã, do atraso económico e social de uma Rússia recente e escassamente industrializada e com um enorme campesinato, da mortandade de centenas de milhões de soviéticos provocada pela guerra mundial, guerra civil, epidemias, fome generalizada, liquidação durante a guerra civil da classe operária educada pelas décadas de luta revolucionária que culminaram na revolução). Por isso se "viram obrigados a improvisar".
Mas a verdade é que aqui e ali o verniz estala e surgem expressões que traem a "imparcialidade" do historiador. A sua formação liberal moderada transparece nas explicações políticas e sociais que faz de alguns acontecimentos.
O MELHOR...
Como para o autor o modo de produção capitalista e a democracia estão para além das ideologias, as políticas postas em marcha pelos bolchevistas, estalinistas e pós-estalinistas são ajuizados principalmente pelos resultados e eficácia na satisfação do bem-estar e das liberdades, tendo como padrão os modelos dos países ocidentais mais desenvolvidos. Por isso nas suas descrições e análises umas vezes ignora, noutras dá pouca atenção, às tentativas do poder soviético para substituir o modo de produção capitalista pelo socialista, eliminar as desigualdades sociais e a exploração do homem pelo homem. Considera a revolução "um acidente de percurso", simpatiza com a NEP e com as relativas liberdades económica, política e cultural proporcionadas por aquela abertura ao capitalismo e à iniciativa privada nos anos 20, a que chama a era de ouro da revolução, em contraposição ao "utopismo" dos primeiros meses de revolução e ao "comunismo de guerra", à fossilização e aos métodos ditatoriais que se seguiram de Estaline a Gorbatchov.
O autor, ao estilo académico, adopta uma aparente neutralidade ideológica. O que não o impede de fazer análises e observações acertadas. Particularmente interessante é o espaço que dá à questão camponesa e agrícola, sempre presente ao longo do livro, cobrindo todos os períodos da história da URSS. Tal atenção é plenamente justificada, dado o peso social esmagador do pequeno campesinato e dos camponeses sem terra que constituíam mais de 70% da população russa, condicionando assim de forma determinante a evolução da revolução e da União Soviética. O autor considera que, face ao atraso da Rússia, foi o campesinato quem pagou a industrialização da URSS e que foi à sua custa que esta fez a acumulação primitiva de capital. Sem o seu apoio, mesmo que relutante, os comunistas não teriam conseguido derrotar os "brancos" nem os nazis e manter-se no poder durante décadas. Igualmente acertada a observação de que, a partir dos anos 30, o marxismo tenha começado a ser substituído como ideologia do partido pelo pragmatismo e uma mescla de nacionalismo com elementos marxistas deturpados. Dá-se o abandono do internacionalismo e do incentivo às revoluções operárias, privilegiam-se os entendimentos com as pequena e média burguesias, alimenta-se a ideia de que é possível construir o socialismo num só país, que no socialismo cresce a resistência da burguesia e com ela a necessidade de reforçar o Estado e a repressão, que a igualdade é uma ideia pequeno-burguesa (Discurso de Estaline em Junho de 31, "revolução cultural", reavaliação da história da Rússia e recuperação do heróis nacionais do império czarista, "grande guerra patriótica", etc.). Evolução que é acompanhada pelo definhamento teórico e cultural, crescimento do poder dos burocratas e da polícia política, dos métodos ditatoriais e do culto de Estaline.
... E O PIOR
À medida que avançamos no tempo, a neutralidade do historiador vai cedendo à sua ideologia. Isso é particularmente notório no que se refere à guerra fria, diante da qual a sua "objectividade" branqueia o papel do Ocidente e em particular dos EUA – "os americanos não podiam ter consentido de ânimo leve o comportamento soviético na Europa de Leste. Tendo em conta a natureza de uma política externa controlada de forma mais ou menos democrática... os políticos teriam dificuldade em explicar aos seus eleitores que, se por um lado a Rússia estalinista era uma ditadura sanguinária, por outro não representava uma ameaça aos interesses vitais americanos".
É ridícula dsta forma aparentemente ingénua e cândida de explicar o envolvimento norte-americano num confronto por si inspirado e comandado, no qual foi referência e principal protagonista, dividiu o mundo em dois blocos durante toda a segunda metade do século passado e por mais de uma vez colocou o mundo à beira da guerra nuclear, espalhando a morte e a destruição por todo o mundo, com o argumento do "escrutínio" dos eleitores. É uma forma sonsa de dizer que os EUA foram empurrados pelas circunstâncias, que os aliados não estavam alarmados com a possibilidade de os comunistas – principais animadores dos movimentos de resistência e das guerrilhas na Europa ocupada e noutras partes do mundo – ocuparem o vazio deixado pela queda dos governos fantoches, principalmente na França, Itália e Balcãs, onde a derrota dos nazis abriu portas a levantamentos populares e alimentou sonhos em largos sectores populares de que a revolução social se seguiria à libertação; de "ignorar" que foi o medo desse cenário que levou Roosevelt e Churchill a "impor" a Estaline, em Ialta, uma nova ordem internacional, comprometendo a União Soviética com uma repartição de zonas de influência. À URSS reconhecia-se o direito de tutelar os países de Leste que tinha ocupado (teve de retirar da Áustria) e os Balcãs (à excepção da Grécia), ficando o resto sob influência anglo-americana. Foi nesta conferência ditada pelo alarme ocidental para conter a "ameaça comunista" que nasceu a guerra fria. E paralelamente a corrida aos armamentos nucleares e convencionais que a esgotou e levou ao colapso económico da URSS em 40 anos.
Para melhor fazer passar o seu ponto de vista, o autor adopta uma atitude centrista. Distancia-se tanto dos analistas "que acreditavam que os dirigentes soviéticos tinham um plano para a conquista do mundo em que a incorporação da Europa de Leste era apenas o primeiro passo", como dos que entendem que a guerra fria foi uma "consequência das políticas agressivas do Ocidente, em particular dos Estados Unidos". Chegado aqui, a objectividade sofre nova entorse. Os críticos dos EUA são convenientemente reduzidos a "uma nova geração de historiadores (que) iniciou o revisionismo" surgida nos anos 70, nos EUA. E são acusados de "pouca atenção prestarem à União Soviética", de não "se mostrarem particularmente interessados na cultura política soviética", de "não dominar completamente a opinião ocidental". E em jeito de absolvição, que "os arquivos americanos estavam disponíveis, mas não os arquivos soviéticos". Conclusão, os que responsabilizam o Ocidente e os EUA são ignorantes, não sabem do que falam.
"A eclosão da guerra fria estava predestinada". Ou seja, foi uma fatalidade porque os governantes dos EUA não conseguirem explicar aos seus governados que a URSS não constituía uma ameaça aos interesses americanos, e "os dirigentes comunistas perceberam, correctamente, que mais contactos com o Ocidente capitalista eram inerentemente subversivos... Era considerado fundamental isolar os povos soviéticos do resto do mundo... Os estalinistas descreviam o seu país como estando rodeado de inimigos implacáveis. A guerra fria servia os seus intentos: tornou-se um instrumento de mobilização que justificava as medidas mais severas".
É verdade que estes pontos de vista moldavam a política e a ideologia da URSS. O problema é que eles são o resultado da guerra fria e não a sua causa. Argumentar desta maneira é colocar as coisas de pernas para o ar. Porque se sentia ameaçada e, como diz o autor "desconfiada" – e tinha boas razões para isso, dada a hostilidade das democracias para com a URSS: pacto de Munique, abertura da segunda frente só quando se tornou evidente que os soviéticos iam vencer os alemães e libertar a Europa) a União Soviética procurava os compromissos e não o confronto, ordenava aos partidos comunistas contenção, entendimento com as suas burguesias e nada de revoluções. Para o Ocidente, pelo contrário, a perspectiva era outra, nada de compromissos e varrer das cabeças das pessoas qualquer ideia de revolução social. Por isso criou o Plano Marshal e aceitou que os trabalhadores tivessem melhores salários e condições de vida, segurança social, férias pagas, direitos sindicais e políticos, combinando e Estado providência com a diabolização do comunismo e a perseguição aos comunistas. A criação da NATO, a instalação de bases militares americanas e de mísseis nucleares e gigantescos meios de guerra por toda a Europa central cercando o bloco soviético não foram uma invenção. Tal como o não foram o maccarthismo, a instauração de ditaduras sanguinárias na América Central e do Sul, África, Ásia, Grécia e Turquia, o apoio a Salazar e Franco, ao apartheid. Nem o afogamento em sangue das revoluções no Congo, Nicarágua, El Salvador, Vietname e Camboja, Angola, Etiópia, ou golpes preventivos e genocídas na Indonésia, Filipinas, Chile e Argentina, entre outros de uma extensa lista.
in Diário Liberdade blogspot.com

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.