Como
é um livro escrito a pensar no grande público, não é muito profundo nem
se detém na análise política e ideológica. É principalmente uma
descrição das circunstâncias que levaram à tomada do poder pelos
bolcheviques e das transformações por que passou a URSS até à sua
implosão. O resultado é um trabalho que respeita os factos e não
confunde relato histórico com propaganda anticomunista. Lenine, Trotsky,
Estaline, os bolcheviques em geral, não são tratados como criminosos,
mas como revolucionários que, chegados ao poder, se viram
impossibilitados de realizar o projecto igualitário a que se propunham
(o autor refere o insucesso da revolução de 1917 como resultado da
derrota da revolução alemã, do atraso económico e social de uma Rússia
recente e escassamente industrializada e com um enorme campesinato, da
mortandade de centenas de milhões de soviéticos provocada pela guerra
mundial, guerra civil, epidemias, fome generalizada, liquidação durante a
guerra civil da classe operária educada pelas décadas de luta
revolucionária que culminaram na revolução). Por isso se "viram
obrigados a improvisar".
Mas a verdade é que aqui e ali o verniz estala e surgem expressões
que traem a "imparcialidade" do historiador. A sua formação liberal
moderada transparece nas explicações políticas e sociais que faz de
alguns acontecimentos.
O MELHOR...
Como para o autor o modo de produção capitalista e a democracia estão
para além das ideologias, as políticas postas em marcha pelos
bolchevistas, estalinistas e pós-estalinistas são ajuizados
principalmente pelos resultados e eficácia na satisfação do bem-estar e
das liberdades, tendo como padrão os modelos dos países ocidentais mais
desenvolvidos. Por isso nas suas descrições e análises umas vezes
ignora, noutras dá pouca atenção, às tentativas do poder soviético para
substituir o modo de produção capitalista pelo socialista, eliminar as
desigualdades sociais e a exploração do homem pelo homem. Considera a
revolução "um acidente de percurso", simpatiza com a NEP e com as
relativas liberdades económica, política e cultural proporcionadas por
aquela abertura ao capitalismo e à iniciativa privada nos anos 20, a que
chama a era de ouro da revolução, em contraposição ao "utopismo" dos
primeiros meses de revolução e ao "comunismo de guerra", à fossilização e
aos métodos ditatoriais que se seguiram de Estaline a Gorbatchov.
O autor, ao estilo académico, adopta uma aparente neutralidade
ideológica. O que não o impede de fazer análises e observações
acertadas. Particularmente interessante é o espaço que dá à questão
camponesa e agrícola, sempre presente ao longo do livro, cobrindo todos
os períodos da história da URSS. Tal atenção é plenamente justificada,
dado o peso social esmagador do pequeno campesinato e dos camponeses sem
terra que constituíam mais de 70% da população russa, condicionando
assim de forma determinante a evolução da revolução e da União
Soviética. O autor considera que, face ao atraso da Rússia, foi o
campesinato quem pagou a industrialização da URSS e que foi à sua custa
que esta fez a acumulação primitiva de capital. Sem o seu apoio, mesmo
que relutante, os comunistas não teriam conseguido derrotar os "brancos"
nem os nazis e manter-se no poder durante décadas. Igualmente acertada a
observação de que, a partir dos anos 30, o marxismo tenha começado a
ser substituído como ideologia do partido pelo pragmatismo e uma mescla
de nacionalismo com elementos marxistas deturpados. Dá-se o abandono do
internacionalismo e do incentivo às revoluções operárias, privilegiam-se
os entendimentos com as pequena e média burguesias, alimenta-se a ideia
de que é possível construir o socialismo num só país, que no socialismo
cresce a resistência da burguesia e com ela a necessidade de reforçar o
Estado e a repressão, que a igualdade é uma ideia pequeno-burguesa
(Discurso de Estaline em Junho de 31, "revolução cultural", reavaliação
da história da Rússia e recuperação do heróis nacionais do império
czarista, "grande guerra patriótica", etc.). Evolução que é acompanhada
pelo definhamento teórico e cultural, crescimento do poder dos
burocratas e da polícia política, dos métodos ditatoriais e do culto de
Estaline.
... E O PIOR
À medida que avançamos no tempo, a neutralidade do historiador vai
cedendo à sua ideologia. Isso é particularmente notório no que se refere
à guerra fria, diante da qual a sua "objectividade" branqueia o papel
do Ocidente e em particular dos EUA – "os americanos não podiam ter
consentido de ânimo leve o comportamento soviético na Europa de Leste.
Tendo em conta a natureza de uma política externa controlada de forma
mais ou menos democrática... os políticos teriam dificuldade em explicar
aos seus eleitores que, se por um lado a Rússia estalinista era uma
ditadura sanguinária, por outro não representava uma ameaça aos
interesses vitais americanos".
É ridícula dsta forma aparentemente ingénua e cândida de explicar o
envolvimento norte-americano num confronto por si inspirado e comandado,
no qual foi referência e principal protagonista, dividiu o mundo em
dois blocos durante toda a segunda metade do século passado e por mais
de uma vez colocou o mundo à beira da guerra nuclear, espalhando a morte
e a destruição por todo o mundo, com o argumento do "escrutínio" dos
eleitores. É uma forma sonsa de dizer que os EUA foram empurrados pelas
circunstâncias, que os aliados não estavam alarmados com a possibilidade
de os comunistas – principais animadores dos movimentos de resistência e
das guerrilhas na Europa ocupada e noutras partes do mundo – ocuparem o
vazio deixado pela queda dos governos fantoches, principalmente na
França, Itália e Balcãs, onde a derrota dos nazis abriu portas a
levantamentos populares e alimentou sonhos em largos sectores populares
de que a revolução social se seguiria à libertação; de "ignorar" que foi
o medo desse cenário que levou Roosevelt e Churchill a "impor" a
Estaline, em Ialta, uma nova ordem internacional, comprometendo a União
Soviética com uma repartição de zonas de influência. À URSS
reconhecia-se o direito de tutelar os países de Leste que tinha ocupado
(teve de retirar da Áustria) e os Balcãs (à excepção da Grécia), ficando
o resto sob influência anglo-americana. Foi nesta conferência ditada
pelo alarme ocidental para conter a "ameaça comunista" que nasceu a
guerra fria. E paralelamente a corrida aos armamentos nucleares e
convencionais que a esgotou e levou ao colapso económico da URSS em 40
anos.
Para melhor fazer passar o seu ponto de vista, o autor adopta uma
atitude centrista. Distancia-se tanto dos analistas "que acreditavam que
os dirigentes soviéticos tinham um plano para a conquista do mundo em
que a incorporação da Europa de Leste era apenas o primeiro passo", como
dos que entendem que a guerra fria foi uma "consequência das políticas
agressivas do Ocidente, em particular dos Estados Unidos". Chegado aqui,
a objectividade sofre nova entorse. Os críticos dos EUA são
convenientemente reduzidos a "uma nova geração de historiadores (que)
iniciou o revisionismo" surgida nos anos 70, nos EUA. E são acusados de
"pouca atenção prestarem à União Soviética", de não "se mostrarem
particularmente interessados na cultura política soviética", de "não
dominar completamente a opinião ocidental". E em jeito de absolvição,
que "os arquivos americanos estavam disponíveis, mas não os arquivos
soviéticos". Conclusão, os que responsabilizam o Ocidente e os EUA são
ignorantes, não sabem do que falam.
"A eclosão da guerra fria estava predestinada". Ou seja, foi uma
fatalidade porque os governantes dos EUA não conseguirem explicar aos
seus governados que a URSS não constituía uma ameaça aos interesses
americanos, e "os dirigentes comunistas perceberam, correctamente, que
mais contactos com o Ocidente capitalista eram inerentemente
subversivos... Era considerado fundamental isolar os povos soviéticos do
resto do mundo... Os estalinistas descreviam o seu país como estando
rodeado de inimigos implacáveis. A guerra fria servia os seus intentos:
tornou-se um instrumento de mobilização que justificava as medidas mais
severas".
É verdade que estes pontos de vista moldavam a política e a ideologia
da URSS. O problema é que eles são o resultado da guerra fria e não a
sua causa. Argumentar desta maneira é colocar as coisas de pernas para o
ar. Porque se sentia ameaçada e, como diz o autor "desconfiada" – e
tinha boas razões para isso, dada a hostilidade das democracias para com
a URSS: pacto de Munique, abertura da segunda frente só quando se
tornou evidente que os soviéticos iam vencer os alemães e libertar a
Europa) a União Soviética procurava os compromissos e não o confronto,
ordenava aos partidos comunistas contenção, entendimento com as suas
burguesias e nada de revoluções. Para o Ocidente, pelo contrário, a
perspectiva era outra, nada de compromissos e varrer das cabeças das
pessoas qualquer ideia de revolução social. Por isso criou o Plano
Marshal e aceitou que os trabalhadores tivessem melhores salários e
condições de vida, segurança social, férias pagas, direitos sindicais e
políticos, combinando e Estado providência com a diabolização do
comunismo e a perseguição aos comunistas. A criação da NATO, a
instalação de bases militares americanas e de mísseis nucleares e
gigantescos meios de guerra por toda a Europa central cercando o bloco
soviético não foram uma invenção. Tal como o não foram o maccarthismo, a
instauração de ditaduras sanguinárias na América Central e do Sul,
África, Ásia, Grécia e Turquia, o apoio a Salazar e Franco, ao
apartheid. Nem o afogamento em sangue das revoluções no Congo,
Nicarágua, El Salvador, Vietname e Camboja, Angola, Etiópia, ou golpes
preventivos e genocídas na Indonésia, Filipinas, Chile e Argentina,
entre outros de uma extensa lista.
in Diário Liberdade blogspot.com
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terça-feira, 7 de março de 2017
sábado, 4 de março de 2017
O jornalismo, a manipulação e a censura Jorge Seabra
Há
poucas semanas os jornalistas portugueses reuniram-se no seu 4.º
Congresso, com a presença de cerca de setecentos profissionais. É um
acontecimento que se saúda
e se há algo a estranhar é o vazio de quase duas décadas em que ele não
se realizou.
Poucos falaram desses diamantes de sangue quando, em 2002, o aristocrata Giscard regressou à primeira linha mediática com a sua «Constituição Europeia», depois recusada em referendo pela França e pelos Países Baixos, que passou a Tratado de Lisboa sem mais incómodos.
E esse apagamento do passado é muitas vezes utilizado para anestesiar a compreensão da realidade pelos cidadãos.
O Seminário Diplomático Anual, também realizado há poucas semanas, teve, no seu programa, «o debate incontornável» sobre a harmonização fiscal na Europa (Público, 5-1-17).
É necessário evitar «os estados continuarem a concorrer entre si através de uma competitividade fiscal puxada para baixo e muitas vezes na margem da contemporização com a mais escancarada e escandalosa evasão fiscal», como afirmou o ministro Augusto Santos Silva.
A verdadeira ironia, contudo, encontrava-se no convidado de honra do Simpósio: Jean Paul Junker. O actual presidente da Comissão Europeia é, como se sabe, um maestro da fuga ao fisco, a estrela maior do escândalo «Luxleaks», mas desse seu menos edificante passado pouco se falou.
Voltamos, pois, às «falhas de memória» e «omissões» dos jornalistas, por vezes forçados à amnésia para se manterem na profissão.
Notícias como a do «acordo entre os patrões e os sindicatos», no Conselho da Concertação Social, sem que a CGTP, a principal central sindical, o tenha assinado, tornaram-se uma espécie de «pós-verdade» repetida, que deforma a percepção do que realmente se passa no país.
«Em
todos os conflitos há, naturalmente, abordagens divergentes mas é a
ausência de diferenças significativas nas notícias, a unanimidade no
tratamento
editorial, na repetição continuada dos mesmos títulos e "chavões", que
reflecte o poder condicionador dos grandes meios de comunicação social.»
Também a tentativa do governo de
compensar os patrões com dinheiro da Segurança Social (baixa da TSU)
pareceu esquecer a habitual «preocupação» do PS, PSD e CDS sobre a sua
sustentabilidade, mostrando a hipocrisia com que se usa
esse argumento, pouco denunciada nos principais órgãos da nossa
comunicação social.A manipulação é ainda mais marcada em política externa. Quase sempre a linguagem dos media não tem o mínimo de rigor e projecta-se em ondas de pensamento único que parecem abafar qualquer espírito crítico.
Falar de Milosevic, o conciliador ex-dirigente jugoslavo como um facínora genocida, ou colar a Assad, presidente do regime laico da Síria, o rótulo de impiedoso ditador e de ameaça à paz da região, quando ainda há pouco era considerado um dos mais «civilizados» dirigentes do Médio Oriente (Sarkozy recebeu-o em 2002 com todas as honras de Estado), são bons exemplos desse contorcionismo jornalístico.
Neste jogo de sombras, os relatos iniciais dos enviados ao local, por vezes mais próximos da verdade, são frequentemente depois esquecidos.
No início da «revolta» da Praça de Maidan, a enviada especial do Público a Kiev, na Ucrânia, identificou e entrevistou dirigentes e militantes das organizações neonazis que a protagonizaram (Svoboda, Sector Direito), descrevendo factos e afirmações que confirmavam a sua ideologia fascista, anticomunista e anti-semita.
Também o general Loureiro dos Santos considerou a crise da Ucrânia uma «resposta (da Rússia) à iniciativa alemã de controlar o importante espaço geopolítico ucraniano, ao financiar extremistas que fizeram a revolta em Kiev e derrubaram o Presidente Ianukovich» (Público, 16-5-07).
Mas o apoio da Alemanha e do «Ocidente» aos neonazis que derrubaram o governo democraticamente eleito, e a reconhecida intenção de «expansão da Nato em direcção às fronteiras da Rússia», que Loureiro dos Santos também referia no seu artigo, acabaram por ser convenientemente esquecidos, estabelecendo-se o «consenso» repetido ad nauseam, de que o que aconteceu foi uma «agressão russa», justificando abusivas sanções económicas e o recente avanço para a Polónia de 4000 soldados americanos, uma das últimas decisões do agora branqueado Obama.
A História é rica em episódios inventados que levaram a guerras e tragédias indescritíveis, do incêndio do Reichtag, por Hitler, ao inventado «incidente do Golfo de Tonkin», que serviu a Kennedy para a escalada no Vietname, passando pelas «armas químicas» invocadas no Iraque, na Líbia e na Síria para justificar as neocoloniais agressões do «Ocidente» e dos USA, já esquecido das toneladas de «desfolhante laranja» com que envenenou o Vietname e que ainda hoje causa vítimas.
Em todos os conflitos há, naturalmente, abordagens divergentes mas é a ausência de diferenças significativas nas notícias, a unanimidade no tratamento editorial, na repetição continuada dos mesmos títulos e «chavões», que reflecte o poder condicionador dos grandes meios de comunicação social.
E nessa ofensiva ideológica vale tudo, principalmente em política internacional, porque o alvo é a maioria mal informada que acredita nas mais toscas mentiras que se referem a uma realidade longínqua que muitas vezes pouco lhe diz.
Foi certamente essa a razão que levou o pivot de uma televisão nacional a iniciar a entrevista a Jerónimo de Sousa, na última campanha eleitoral para a Assembleia da República, com uma pergunta sobre a Coreia do Norte. Alguém conhece um português que se preocupe, nem que seja um minuto por dia, com o que se passa nesse distante e mal conhecido país?
A evidente patetice da pergunta apenas põe em evidência que se quis «apanhar» o entrevistado numa resposta redutora que cometa o «pecado» de contrariar o juízo ideológico pré-formado sobre uma realidade complexa, que o próprio entrevistador seguramente desconhece.
Ao longo dos anos, os media nacionais impingiram a falsa ideia de que os partidos fora do «arco do poder» eram demasiado «radicais», desprezando as responsabilidades da governação, não pertencendo, por isso, à ordem «normal» da democracia.
Explorando esse enviesado conceito, esses partidos (particularmente o PCP), foram (e são) excluídos de colóquios, debates e entrevistas, apesar de terem representação parlamentar, mantendo-se essa descriminação mesmo depois de terem passado a ser o suporte da actual solução governativa.
Exemplo disso, o mais antigo programa de debate político, «A quadratura do Círculo», que de início tinha uma imagem de pluralismo contando com representantes de todos os partidos com assento parlamentar, rapidamente se reduziu apenas aos do «arco do poder», ele mesmo um perverso conceito inoculado pelos media.
As mesmas manhas, mais descaradas ou bastante subtis, reflectem-se na distorção dos números das greves e das manifestações da esquerda ou, no plano internacional, abafando o protagonismo de candidatos mais progressistas como Mélanchon ou mesmo Hamon (França), Jeremy Corbyn (Inglaterra), Bernie Sanders (USA), substituídos nos noticiários por requentados nomes do conservadorismo neoliberal, apresentados como única alternativa à pouco «civilizada» extrema-direita ultramontana, agora também encarnada por Trump.
Uma parte importante da informação política representa apenas a repetição papagueada de uma qualquer central de propaganda, parecendo que alguém carrega num botão ficando depois a assistir à onda que se espalha pelos títulos dos jornais e dos noticiários da rádio e da TV, infiltrando-se nos programas da manhã, nos comentadores da tarde e nos talk shows da noite.
Naturalmente que os jornalistas não têm nenhuma condição genética que os faça especialmente ignorantes, desmemoriados ou piores que quaisquer outros profissionais. Apenas se adaptam (melhor ou pior) àquilo que lhes ensinam e às condições criadas num sector ideologicamente estratégico, confrontados com a insegurança no emprego e as pressões das chefias.
Segundo dados fornecidos no seu 4.º Congresso, em cada dez jornalistas no activo, seis (60%) ganham menos de mil euros, cinco (50%) têm vínculo precário, quatro têm recibos verdes, quatro têm medo de perder emprego e só um tem mais de 55 anos.
São eles o elo mais fraco de uma cadeia de interesses poderosos. Mas, alguns, apesar disso, resistem, enquanto outros cumprem o triste trajecto traçado pelas chefias para quem tudo está bem e «não há crise».
«Os jornalistas só têm poder se nunca se vergarem aos poderes»
marcelo rebelo de sousa
Há alguns anos, um jovem repórter
contratado para produzir um vídeo sobre a história do “velho” Hospital
Pediátrico, entrevistou-me.Falei-lhe das diferentes etapas do desenvolvimento do hospital e, de passagem, referi uma «histórica» manifestação de médicos e enfermeiros, em 1997, que levou à construção de um novo Bloco Operatório pré-fabricado, resolvendo um bloqueio que se arrastava.
O protesto teve um inesperado impacto mediático, com a fotografia dos cirurgiões de mãos abertas, a aparecer nas primeiras páginas dos jornais e na TV. Para meu espanto, o jovem jornalista, respondeu-me: «Ah! Isso não pode ser! É muito polémico!».
Na verdade, ele nunca tinha ouvido falar do assunto. Apenas o considerou «polémico», talvez por a palavra «manifestação» lhe causar alguma alergia. Bem tentei convencê-lo de que não levantaria qualquer problema. Nada fez vacilar o seu arrepiado cérebro e a manifestação foi assim apagada da História e do vídeo.
«Os jornalistas só têm poder se nunca se vergarem aos poderes» – afirmou solenemente o Presidente Marcelo, no 4.º Congresso. Mas alguns vergam. É ver como defenderam a «austeridade» para os mais pobres, e a dificuldade que tiveram em engolir um governo com maioria parlamentar, após eleições para deputados, desconstruindo o mito da «votação para primeiro-ministro» que, durante anos, tinham construído.
A verdade, contudo, é que as bonitas frases do presidente não garantem a segurança profissional, a independência e seriedade editorial ou a tolerância democrática dos donos do dinheiro.
Defender a dignidade da profissão passa, como sempre, pela unidade dos bons profissionais.
Quando o mundo atravessa um momento particularmente perigoso, os jornalistas devem resistir e assumir uma corajosa atitude de denúncia de todas as tentativas de manipulação das consciências. A democracia não é apenas votar de vez em quando. Os cidadãos têm direito a serem bem informados.
A liberdade constrói-se também assim.
sexta-feira, 3 de março de 2017
O significado da greve das mulheres neste 8 de março
A greve internacional das mulheres visa encarar as degradações do capitalismo em todas as esferas da vida
Posted on 03/03/2017 // 5 Comments

Peça de divulgação da greve internacional das mulheres em português. Saiba mais no site oficial do #8M no Brasil que está centralizando algumas das mobilizações brasileiras.
Por Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya.
Leia também a convocatória “Por uma greve internacional militante no 8 de março“.
Organizações
feministas, populares e socialistas de todo o mundo convocaram uma
greve internacional das mulheres no 8 de março para defender os direitos
reprodutivos e contra a violência, entendida como a violência
econômica, institucional e interpessoal.
A greve
ocorrerá em pelo menos quarenta países e será o primeiro dia
internacionalmente coordenado de protesto em escala tão grande depois de
anos. Em termos de tamanho e diversidade de organizações e países
envolvidos, será comparável às manifestações internacionais contra o
ataque imperialista ao Iraque, em 2003, e os protestos internacionais
coordenados sob a bandeira do Fórum Social Mundial e do movimento de
justiça global no início dos anos 2000.
O movimento
Occupy, dos Indignados e o Black Lives Matter conseguiram ter eco
internacional e desencadear manifestações, ocupações e protestos em
vários países, mas havia pouca coordenação internacional consciente
entre as várias organizações e grupos envolvidos. As revoluções árabes
desencadearam acontecimentos extraordinários e históricos, mas as
organizações sociais e políticas de outros países não foram capazes de
promover uma poderosa mobilização coordenada internacionalmente em
apoio.
Se houver
êxito, a greve internacional das mulheres marcará um salto qualitativo e
quantitativo no longo processo de reconstrução das mobilizações sociais
em escala internacional contra o neoliberalismo e o imperialismo, as
quais vários movimentos dos últimos anos, tais como o Occupy Gezi Park,
os Indignados, o Standing Rock e o Black Lives Matter, deram forma. Isso
também sinalizará a possibilidade concreta de um movimento feminista
novo, poderoso, anticapitalista e internacionalista.

Por que estamos chamando isso de greve?
Muitas
discussões sobre a greve, especialmente nos Estados Unidos, centraram-se
em saber se é correto chamar o 8 de março de “greve”, em vez de uma
manifestação ou protesto. Essa crítica é vazia de sentido. As greves das
mulheres sempre foram mais abrangentes em seus alvos e metas do que as
paralisações tradicionais por salários e condições de trabalho.
Em 1975, 90%
das mulheres da Islândia fizeram uma greve nos locais de trabalho e se
recusaram a realizar trabalho social não-remunerado durante um dia, a
fim de tornar visível o trabalho e a contribuição das mulheres
islandesas para a sociedade. Elas exigiram salários iguais aos dos
homens e o fim à discriminação sexual no local de trabalho.
No outono de
2016, as ativistas polonesas adotaram a estratégia e a mensagem da
greve das mulheres de Islândia em 1975 e organizaram uma greve massiva
de mulheres para impedir a aprovação de um projeto de lei no parlamento
que proibisse o aborto. Ativistas argentinas fizeram o mesmo em outubro
passado para protestar contra a violência masculina contra as mulheres.
Esses
eventos – que estimularam a ideia de uma greve maior no Dia da Mulher –
demonstram como uma greve de mulheres é diferente de uma greve geral. A
greve das mulheres surge da reflexão política e teórica sobre as formas
concretas do trabalho feminino nas sociedades capitalistas.
No
capitalismo, o trabalho das mulheres no mercado formal é apenas uma
parte do trabalho que realizam. As mulheres são também as principais
realizadoras do trabalho reprodutivo – trabalho não remunerado que é
igualmente importante para a reprodução da sociedade e das relações
sociais capitalistas. A greve das mulheres destina-se a tornar este
trabalho não remunerado visível e enfatizar que a reprodução social é
também um local de luta.
Além disso,
devido à divisão sexual do trabalho no mercado formal, um grande número
de mulheres ocupam postos de trabalho precários, não têm direitos
trabalhistas, estão desempregadas ou são trabalhadoras sem documentos.
As mulheres
que trabalham no mercado formal e informal e na esfera social não
reprodutiva são todas trabalhadoras. Essa consideração deve ser central
para qualquer discussão sobre a reconstrução de um movimento operário
não só nos Estados Unidos, mas também globalmente.
Enfatizar a
unidade entre o local de trabalho e o lar é fundamental, e um princípio
organizador central para a greve de 8 de março. Uma política que leve a
sério o trabalho das mulheres deve incluir não só as greves no local de
trabalho, mas também as greves do trabalho reprodutivo social não
remunerado, as greves de tempo parcial, os chamados para redução do
tempo de trabalho e outras formas de protesto que reconhecem a natureza
de gênero das relações sociais.
A “greve”
tornou-se o termo genérico sob o qual várias formas de ação são
incluídas, porque é o termo que melhor enfatiza a centralidade do
trabalho das mulheres e sua auto-identificação como trabalhadores,
qualquer que seja a forma de seu trabalho.
Recuperando o direito de greve
Os Estados
Unidos têm talvez as piores leis trabalhistas entre as democracias
liberais. As greves gerais e as greves políticas são proibidas, as
permitidas estão ligadas a exigências econômicas restritas dirigidas aos
empregadores e os contratos têm frequentemente cláusulas explícitas
anti-greves, cuja violação pode fazer com que o trabalhador perca o
emprego e acarretar multas pesadas para o sindicato que organiza-las.
Além disso, vários estados, como Nova York, têm leis que proíbem
explicitamente funcionários públicos de entrar em greve.
A discussão
sobre como reverter esta situação e empoderar os trabalhadores tem sido a
principal preocupação estratégica da esquerda dos Estados Unidos nas
últimas décadas. No entanto, um dos perigos desta discussão é o de
reduzir a luta de classes apenas à luta econômica e de unir as relações
sociais capitalistas com a economia formal em sentido restrito.
A
transformação das relações de trabalho nos Estados Unidos requer não
apenas uma ativação da classe trabalhadora com base em demandas
econômicas no local de trabalho, mas sua politização e radicalização – a
capacidade de realizar uma luta política dirigida à totalidade das
relações de poder, instituições e formas de exploração em vigor.
Isto não
pode ser alcançado apenas melhorando e expandindo a organização do
trabalho de base no local de trabalho. Um dos problemas centrais que o
trabalho político radical enfrenta é seu isolamento e invisibilidade.
Estabelecer as bases para a revitalização do poder operário exigirá
operar em diferentes níveis – criando grandes coalizões sociais, agindo
dentro e fora dos locais de trabalho e estabelecendo laços de
solidariedade e confiança entre organizadores e ativistas trabalhistas,
antirracistas, feministas, estudantes e anti-imperialistas. Também
significa aproveitar a imaginação social através de intervenções
criativas, intelectuais e teóricas, além da experimentação com novas
práticas e linguagens.
Em vez de um
foco estreito sobre as lutas no local de trabalho, precisamos conectar
movimentos baseados em gênero, raça, etnia e sexualidade, em conjunto
com a organização do trabalho e o ativismo ambientalista. Somente
criando essa totalidade coletiva seremos capazes de abordar a
complexidade das questões e demandas apresentadas pelas diversas formas
de mobilização.
Este é o caminho que a greve internacional das mulheres está perseguindo com sua plataforma política expansiva e inclusiva.
O 8 de março
não será uma greve geral. Mas será um passo importante para um novo
ciclo de legitimação do direito de greve contra as degradações do
capitalismo sentidas em todas as esferas da vida por todos os povos.
* Artigo publicado originalmente no blog da revista Jacobin. A tradução é de Daniela Mussi, para o Blog Junho.
https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fwomenstrikeus%2Fvideos%2F1929997260555847%2F&show_text=0&width=400***
Cinzia Arruzza é professora adjunta de filosofia na New School. Tithi Bhattacharya é
professora associadade história na Purdue University. Ambas assinam,
junto com Angela Davis, Keeanga-Yamahtta Taylor, Linda Martín
Alcoff, Nancy Fraser e Rasmea Yousef Odeh, o manifesto que originalmente
convocou uma greve internacional militante das mulheres para o próximo
dia 8 de março de 2017, “Por uma greve internacional militante no 8 de março“.
in Boitempo blog
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
As ligações de Trump com o passado e a ressurreição da esquerda
James Petras 24.Feb.17 Colaboradores
Introdução
O presidente Trump está profundamente entranhado na estrutura do estado profundo do imperialismo americano. Apesar de ocasionais referências à não intervenção em guerras além-mar, Trump tem seguido as pegadas dos seus antecessores.
Enquanto neoconservadores e liberais têm levantado um alarido acerca dos laços de Trump com a Rússia, as suas “heresias” relativamente à NATO e as suas aberturas para a paz no Médio Oriente, ele tem na prática descartado o seu imperialismo “humanitário de mercado” e tem-se empenhado nas mesmas políticas belicosas da sua rival presidencial do Partido Democrata, Hillary Clinton.
Uma vez que lhe falta a ardilosa “demagogia” do ex-presidente Obama e não recobre as suas acções com apelos baratos a políticas “de identidade”, os pronunciamentos toscos e abrasivos de Trump levam jovens manifestantes às ruas em acções de massa. Estas manifestações são não muito discretamente apoiadas pelos principais oponentes de Trump entre os banqueiros da Wall Street, especuladores e magnatas dos mass media. Por outras palavras, o presidente Trump é um homem que abraça e segue os ícones estabelecidos e não um “revolucionário” ou mesmo um “agente de mudança”.
Prosseguiremos, discutindo a trajectória histórica que originou o regime Trump. Identificaremos políticas e compromissos anteriores que determinam a orientação presente e futura da sua administração.
Concluiremos identificando como a reacção actual pode produzir transformações futuras. Contestaremo o actual delírio catastrofista e apocalíptico e apresentaremos razões para uma perspectiva optimista do futuro. Em suma, este ensaio indicará como tendências negativas actuais podem tornar-se realisticamente positivas.
Sequências históricas
Ao longo das últimas duas décadas presidentes dos EUA desbarataram os recursos financeiros e militares do país em múltiplas guerras intermináveis e perdedoras, bem como em milhões de milhões (trillion) de dólares de dívidas comerciais e desequilíbrios orçamentais. Líderes dos EUA enlouqueceram provocando grandes crises financeiras globais, levando à bancarrotas os maiores bancos, destruindo pequenos possuidores de hipotecas, devastando a indústria manufactureira e criando desemprego maciço a que se seguiu o emprego precário e mal pago que levou ao colapso os padrões de vida da classe trabalhadora e dos extractos baixos da classe média.
Guerras imperiais, bail-outs de milhões de milhões de dólares para os bilionários e fuga sem peias de corporações multinacionais para o exterior aprofundaram amplamente as desigualdades de classe e deram origem a acordos comerciais favorecendo a China, Alemanha e México. Dentro dos EUA, os maiores beneficiários destas crises têm sido os banqueiros, bilionários da alta tecnologia, importadores comerciais e exportadores do agro-negócio.
Confrontados com crises sistémicas, os regimes dominantes responderam com o aprofundamento e expansão dos poderes dos presidentes dos EUA sob a forma de decretos presidenciais. Para encobrir a longa série de derrocadas, denunciantes patriotas foram encarcerados e a vigilância estilo estado-policial infiltrou-se em todas as áreas da cidadania.
Os presidentes Bush, Clinton e Obama definiram a trajectória das guerras imperiais e da pilhagem da Wall Street. A polícia estadual, as instituições militares e financeiras estão firmemente incorporadas na matriz do poder. Centros financeiros, como Goldman Sachs, têm reiteradamente estabelecido a agenda e controlado o Departamento do Tesouro dos EUA e as agências que regulam o comércio e a banca. As “instituições permanentes” do estado permaneceram, enquanto presidentes, pouco importando de que partido, foram baralhados e descartado no “Gabinete Oval”.
O “Primeiro Negro” presidente Barack Obama prometeu paz e empreendeu sete guerras. O seu sucessor, Donald Trump, foi eleito com promessas de “não-intervenção” e imediatamente adoptou o “bastão de bombardeamento” de Obama: o minúsculo Iémen foi atacado pelas forças dos EUA; aliados da Rússia na região do Donbass da Ucrânia foram atacados com selvajaria pelos aliados de Washington em Kiev e o “mais realista” representante de Trump, Nikki Haley, adoptou uma atitude belicosa na ONU ao estilo da “Madame Intervenção Humanitária” Samantha Power, zurrando invectivas contra a Rússia.
Onde está a mudança? Trump seguiu Obama ao aumentar sanções contra a Rússia, enquanto ameaça a Coreia do Norte com aniquilação nuclear no seguimento da grande concentração militar acumulada por Obama na península coreana. Obama lançou uma guerra por procuração contra a Síria e Trump escalou a guerra aérea sobre Raqqa. Obama cercou a China com bases militares, navios e aviões de guerra e Trump prosseguiu em passo de ganso com retórica belicista. Obama expulsou um recorde de dois milhões de trabalhadores mexicanos ao longo de oito anos; Trump seguiu-o ao prometer deportar ainda mais.
Por outras palavras, o presidente Trump juntou-se obedientemente à marcha seguindo a trajectória dos seus antecessores, bombardeando os mesmos países alvos enquanto plagia os seus maníacos discursos nas Nações Unidas.
Obama aumentou o tributo anual (ajuda) a Tel Aviv para uns entusiásticos US$3,8 mil milhões enquanto balia umas poucas críticas pro-forma acerca da expansão israelense sobre terras palestinas usurpadas; Trump propôs deslocar a Embaixada dos EUA para Jerusalém enquanto choramingava algumas das suas próprias mini-críticas aos colonatos judeus ilegais em terras roubadas aos palestinos.
O que é esmagadoramente gritante é a semelhança das políticas e estratégias de Obama e de Trump em política externa, seus meios e aliados. O que é diferente é o estilo e a retórica. Ambos os presidentes “Agentes de mudança” romperam de imediatato as mesmas falsas promessas pré-eleitorais e funcionam bem dentro dos limites das instituições permanentes do estado.
Quaisquer que sejam as diferenças que existam elas são resultado de contextos históricos contrastantes. Obama assumiu no momento do colapso do sistema financeiro e procurou regular os bancos a fim de estabilizar operações. Trump assumiu após a “estabilização” de um trilião de dólares de Obama e procura eliminar regulações – nas pegadas do presidente Clinton! Assim, “demasiado barulho” [para nada] sobre a “desregulação histórica” de Trump!
O “Inverno do descontentamento” sob a forma de protestos em massa contra a proibição de Trump a imigrantes e visitantes de sete países predominantemente muçulmanos segue-se directamente às “sete guerras mortais” de Obama. Os imigrantes e refugiados são resultados directos das invasões e ataques de Obama a estes países que levaram a assassinatos, mutilações, deslocação forçada e desgraça para milhões de “predominantemente” (mas não exclusivamente) de muçulmanos. As guerras de Obama criaram dezenas de milhares de “rebeldes”, insurgentes e terroristas. Os refugiados, que fogem para salvar a vida, foram amplamente excluídos dos EUA sob Obama e a maior parte tem procurado abrigo nos campos imundos e caóticos da UE.
Por terrível e ilegal que seja o encerramento da fronteira a muçulmanos decretado por Trump e por esperançosos que pareçam os protestos públicos em massa, ambos resultam da política de assassínio e agressão de quase uma década sob o presidente Obama.
Seguindo a trajectória da política - Obama derramou o sangue e Trump, no seu tosco estilo racista, tem a tarefa de “limpar os estragos”. Enquanto Obama foi agraciado com um “Prémio Nobel da Paz”, o resmungante Trump é fortemente atacado por empunhar a esfregona suja de sangue!
Trump optou por pisar o caminho do opróbrio e enfrenta a cólera do purgatório. Enquanto isso, Obama está a jogar golf, a surfar ao vento e a exibir o seu sorriso despreocupado aos escrevinhadores que o adoram nos mass media.
Enquanto Trump avança às patadas no caminho preparado por Obama, centenas de milhares de manifestantes enchem as ruas para protestar contra o “fascista”, com grande número das principais redes de mass media, dúzias de plutocratas e “intelectuais” de todos os géneros, raças e credos a retorcerem-se moralmente ultrajados! Fica-se confuso com o silêncio ensurdecedor destes mesmos activistas e forças quando as guerras agressivas e ataques de Obama levaram à morte e deslocação de milhões de civis, principalmente muçulmanos e principalmente mulheres – quando seus lares, festas de casamento, mercados, escolas e funerais foram bombardeados.
É assim o confusionismo americano! Dever-se-ia tentar entender as possibilidades que emergem de um sector maciço finalmente a romper seu silêncio quando o belicismo do loquaz Obama se transformou na marcha bruta de Trump para o dia do juízo final.
Perspectivas optimistas
Há muitos que desesperam mas há mais que se tornaram conscientes. Identificaremos as perspectivas optimistas e as esperanças realistas enraizadas nas actuais realidade e tendências. Realismo significa discutir desenvolvimentos contraditórios e polarizadores e portanto não aceitamos quaisquer resultados “inevitáveis”. Isto significa que resultados são “terreno contestado” onde factores subjectivos desempenham um papel importante. A interface de forças em conflito pode resultar numa espiral ascendente ou descendente – rumo a maior igualdade, soberania e libertação ou maior concentração de riqueza, poder e privilégio.
A mais retrógrada concentração de poder e riqueza encontra-se na oligárquica União Europeia de dominação alemã – uma configuração que está sob assédio por parte de forças populares. Os eleitores do Reino Unido optaram por sair da UE (Brexit). Em consequência, a Grã-Bretanha enfrenta uma ruptura com a Escócia e Gales e uma ainda maior separação da Irlanda. O Brexit levará a uma nova polarização quando banqueiros com base em Londres partirem para a UE e líderes do mercado livre confrontarem trabalhadores, proteccionistas e a massa crescente dos pobres. O Brexit fortalece forças nacionalistas-populistas e de esquerda na França, Polónia, Hungria e Sérvia e estilhaça a hegemonia neoliberal na Itália, Espanha, Grécia, Portugal e alhures. O desafio aos oligarcas da UE é que a insurgência popular intensificará a polarização social e pode trazer à tona movimentos de classe progressistas ou partidos ou movimentos autoritários-nacionalistas.
A ascensão de Trump ao poder e seus decretos executivos conduziu a uma elevada polarização dos eleitorados, aumentou a politização e a acção directa. O despertar da América aprofunda fissuras internas entre democratas com “d” minúsculo, mulheres progressistas, sindicalistas, estudantes e outros contra os oportunistas do Partido Democrata com “D” maiúsculo, especuladores, antigos belicistas Democratas, burgueses negros do Partido “D” (os líderes extraviados) e um pequeno exército de ONG’s financiadas pelas grandes empresas.
O abraço de Trump à agenda militar Obama-Clinton e da Wall Street conduzirá a uma bolha financeira, gastos militares empolados e mais guerras dispendiosas. Isto dividirá o regime dos seus apoiantes sindicais e da classe trabalhadora agora que o gabinete de Trump é composto inteiramente de bilionários, ideólogos, sionistas raivosos e militaristas (em oposição à sua promessa de nomear homens de negócios e realistas duros na negociação). Isto poderia criar uma valiosa oportunidade para a ascensão de movimentos que rejeitam a verdadeiramente feia cara do reaccionário regime de Trump.
A animosidade de Trump à NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e a defesa do proteccionismo e da exploração financeira e de recursos minará os regimes corruptos, assassinos e narco-liberais que têm dominado o México durante os últimos 30 anos desde o tempo de Salinas. A política anti-imigração de Trump levará mexicanos a escolherem “combater em vez de fugir” ao confrontar o caos social criado pelos narco-gangs e a polícia criminosa. Isto forçará o desenvolvimento do mercado interno e a indústria do México. O consumo e a propriedade de massa interna abarcará movimentos nacionais-populares. O cartel da droga e seus patrocinadores políticos perderão os mercados estado-unidenses e enfrentarão oposição interna.
O protecionismo de Trump limitará o fluxo ilegal de capital a partir do México, que ascendeu a US$48,3 mil milhões em 2016, ou 55% da dívida do México. A transição do México da dependência e do neocolonialismo polarizará profundamente o estado e a sociedade; o resultado será determinado pelas forças de classe.
As ameaças económicas e militares de Trump contra o Irão fortalecerão forças nacionalistas, populistas e colectivistas em relação a políticos neoliberais “reformistas” e pró ocidentais. A aliança anti-imperialista do Irão com o Iémen, Síria e Líbano consolidar-se-á contra o quarteto conduzido pelos EUA da Arábia Saudita, Israel, Grã-Bretanha e EUA.
O apoio de Trump à apropriação maciça de terra palestina por Israel e sua proibição “só judeus” contra muçulmanos e cristãos levará ao sacudir dos quislings multi-milionários da Autoridade Palestina e a ascensão de muitos mais levantamentos e intifadas.
A derrota do ISIS fortalecerá forças governamentais independentes no Iraque, Síria e Líbano, enfraquecendo a alavancagem imperial dos EUA e abrindo a porta a lutas populares democráticas e laicas.
A campanha anti-corrupção em grande escala e a longo prazo do presidente da China, Xi Jinping, levou à prisão e remoção de mais de um quarto de milhão de responsáveis e homens de negócios, incluindo bilionários e líderes de topo do Partido. As prisões, processos e encarceramentos reduziram o abuso do privilégio mas, mais importante, melhoraram as perspectivas para um movimento que ponha em causa as vastas desigualdades sociais. Aquilo que começou “de cima” pode provocar movimentos “a partir de baixo”. O ressuscitar de um movimento no sentido de valores socialistas pode ter um grande impacto sobre estados asiáticos vassalos dos EUA.
O apoio da Rússia a direitos democráticos no Leste da Ucrânia e a reincorporação da Crimeia através de referendo pode limitar regimes fantoches dos EUA no flanco sul da Rússia e reduzir a intervenção estado-unidense. A Rússia pode desenvolver laços pacíficos com estados europeus independentes com a ruptura na UE e a vitória eleitoral de Trump superando a ameaça de guerra nuclear do regime Obama-Clinton.
O movimento à escala mundial contra o globalismo imperialista isola a direita apoiada pelos EUA que tomou poder na América do Sul. A procura de pactos comerciais neoliberais por parte do Brasil, Argentina e Chile está na defensiva. As suas economias, especialmente na Argentina e Brasil, assistiram a um triplica do desemprego, um quadruplicar da dívida externa, crescimento de estagnado a negativo e enfrentam agora greves gerais com apoio de massa. O coaxar do neoliberalismo está a provocar lutas de classe. Isto pode derrubar a ordem pós Obama na América Latina.
Conclusão
Por todo o mundo e no interior dos países mais importantes, a ordem ultra-neoliberal do último quarto de século está em desintegração. Há um ascenso maciço de movimentos a partir de cima e de baixo, de democratas de esquerda a nacionalistas, de populistas independentes a reaccionários da “velha guarda” da direita. Emergiu um universo polarizado e fragmentado. O começo do fim da actual ordem imperial-globalista está a criar oportunidades para uma nova ordem democrático-colectivista dinâmica. Os oligarcas e as elites da “segurança” não cederão facilmente a exigências populares nem se afastarão. Facas serão afiadas, decretos executivos avançarão e golpes eleitorais serão encenados para tentar tomar poder. Os movimentos democrático-populares emergentes precisam de ultrapassar a identidade fragmentária e estabelecer líderes unificados e igualitários que possam actuar de forma decisiva e independente em relação aos líderes políticos existentes que fazem gestos progressistas dramáticos, mas falsos, enquanto procuram um retorno ao fedor e imundície do passado recente.
09/Fevereiro/2017
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=2127
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . Tradução revista por odiario.info
O presidente Trump está profundamente entranhado na estrutura do estado profundo do imperialismo americano. Apesar de ocasionais referências à não intervenção em guerras além-mar, Trump tem seguido as pegadas dos seus antecessores.
Enquanto neoconservadores e liberais têm levantado um alarido acerca dos laços de Trump com a Rússia, as suas “heresias” relativamente à NATO e as suas aberturas para a paz no Médio Oriente, ele tem na prática descartado o seu imperialismo “humanitário de mercado” e tem-se empenhado nas mesmas políticas belicosas da sua rival presidencial do Partido Democrata, Hillary Clinton.
Uma vez que lhe falta a ardilosa “demagogia” do ex-presidente Obama e não recobre as suas acções com apelos baratos a políticas “de identidade”, os pronunciamentos toscos e abrasivos de Trump levam jovens manifestantes às ruas em acções de massa. Estas manifestações são não muito discretamente apoiadas pelos principais oponentes de Trump entre os banqueiros da Wall Street, especuladores e magnatas dos mass media. Por outras palavras, o presidente Trump é um homem que abraça e segue os ícones estabelecidos e não um “revolucionário” ou mesmo um “agente de mudança”.
Prosseguiremos, discutindo a trajectória histórica que originou o regime Trump. Identificaremos políticas e compromissos anteriores que determinam a orientação presente e futura da sua administração.
Concluiremos identificando como a reacção actual pode produzir transformações futuras. Contestaremo o actual delírio catastrofista e apocalíptico e apresentaremos razões para uma perspectiva optimista do futuro. Em suma, este ensaio indicará como tendências negativas actuais podem tornar-se realisticamente positivas.
Sequências históricas
Ao longo das últimas duas décadas presidentes dos EUA desbarataram os recursos financeiros e militares do país em múltiplas guerras intermináveis e perdedoras, bem como em milhões de milhões (trillion) de dólares de dívidas comerciais e desequilíbrios orçamentais. Líderes dos EUA enlouqueceram provocando grandes crises financeiras globais, levando à bancarrotas os maiores bancos, destruindo pequenos possuidores de hipotecas, devastando a indústria manufactureira e criando desemprego maciço a que se seguiu o emprego precário e mal pago que levou ao colapso os padrões de vida da classe trabalhadora e dos extractos baixos da classe média.
Guerras imperiais, bail-outs de milhões de milhões de dólares para os bilionários e fuga sem peias de corporações multinacionais para o exterior aprofundaram amplamente as desigualdades de classe e deram origem a acordos comerciais favorecendo a China, Alemanha e México. Dentro dos EUA, os maiores beneficiários destas crises têm sido os banqueiros, bilionários da alta tecnologia, importadores comerciais e exportadores do agro-negócio.
Confrontados com crises sistémicas, os regimes dominantes responderam com o aprofundamento e expansão dos poderes dos presidentes dos EUA sob a forma de decretos presidenciais. Para encobrir a longa série de derrocadas, denunciantes patriotas foram encarcerados e a vigilância estilo estado-policial infiltrou-se em todas as áreas da cidadania.
Os presidentes Bush, Clinton e Obama definiram a trajectória das guerras imperiais e da pilhagem da Wall Street. A polícia estadual, as instituições militares e financeiras estão firmemente incorporadas na matriz do poder. Centros financeiros, como Goldman Sachs, têm reiteradamente estabelecido a agenda e controlado o Departamento do Tesouro dos EUA e as agências que regulam o comércio e a banca. As “instituições permanentes” do estado permaneceram, enquanto presidentes, pouco importando de que partido, foram baralhados e descartado no “Gabinete Oval”.
O “Primeiro Negro” presidente Barack Obama prometeu paz e empreendeu sete guerras. O seu sucessor, Donald Trump, foi eleito com promessas de “não-intervenção” e imediatamente adoptou o “bastão de bombardeamento” de Obama: o minúsculo Iémen foi atacado pelas forças dos EUA; aliados da Rússia na região do Donbass da Ucrânia foram atacados com selvajaria pelos aliados de Washington em Kiev e o “mais realista” representante de Trump, Nikki Haley, adoptou uma atitude belicosa na ONU ao estilo da “Madame Intervenção Humanitária” Samantha Power, zurrando invectivas contra a Rússia.
Onde está a mudança? Trump seguiu Obama ao aumentar sanções contra a Rússia, enquanto ameaça a Coreia do Norte com aniquilação nuclear no seguimento da grande concentração militar acumulada por Obama na península coreana. Obama lançou uma guerra por procuração contra a Síria e Trump escalou a guerra aérea sobre Raqqa. Obama cercou a China com bases militares, navios e aviões de guerra e Trump prosseguiu em passo de ganso com retórica belicista. Obama expulsou um recorde de dois milhões de trabalhadores mexicanos ao longo de oito anos; Trump seguiu-o ao prometer deportar ainda mais.
Por outras palavras, o presidente Trump juntou-se obedientemente à marcha seguindo a trajectória dos seus antecessores, bombardeando os mesmos países alvos enquanto plagia os seus maníacos discursos nas Nações Unidas.
Obama aumentou o tributo anual (ajuda) a Tel Aviv para uns entusiásticos US$3,8 mil milhões enquanto balia umas poucas críticas pro-forma acerca da expansão israelense sobre terras palestinas usurpadas; Trump propôs deslocar a Embaixada dos EUA para Jerusalém enquanto choramingava algumas das suas próprias mini-críticas aos colonatos judeus ilegais em terras roubadas aos palestinos.
O que é esmagadoramente gritante é a semelhança das políticas e estratégias de Obama e de Trump em política externa, seus meios e aliados. O que é diferente é o estilo e a retórica. Ambos os presidentes “Agentes de mudança” romperam de imediatato as mesmas falsas promessas pré-eleitorais e funcionam bem dentro dos limites das instituições permanentes do estado.
Quaisquer que sejam as diferenças que existam elas são resultado de contextos históricos contrastantes. Obama assumiu no momento do colapso do sistema financeiro e procurou regular os bancos a fim de estabilizar operações. Trump assumiu após a “estabilização” de um trilião de dólares de Obama e procura eliminar regulações – nas pegadas do presidente Clinton! Assim, “demasiado barulho” [para nada] sobre a “desregulação histórica” de Trump!
O “Inverno do descontentamento” sob a forma de protestos em massa contra a proibição de Trump a imigrantes e visitantes de sete países predominantemente muçulmanos segue-se directamente às “sete guerras mortais” de Obama. Os imigrantes e refugiados são resultados directos das invasões e ataques de Obama a estes países que levaram a assassinatos, mutilações, deslocação forçada e desgraça para milhões de “predominantemente” (mas não exclusivamente) de muçulmanos. As guerras de Obama criaram dezenas de milhares de “rebeldes”, insurgentes e terroristas. Os refugiados, que fogem para salvar a vida, foram amplamente excluídos dos EUA sob Obama e a maior parte tem procurado abrigo nos campos imundos e caóticos da UE.
Por terrível e ilegal que seja o encerramento da fronteira a muçulmanos decretado por Trump e por esperançosos que pareçam os protestos públicos em massa, ambos resultam da política de assassínio e agressão de quase uma década sob o presidente Obama.
Seguindo a trajectória da política - Obama derramou o sangue e Trump, no seu tosco estilo racista, tem a tarefa de “limpar os estragos”. Enquanto Obama foi agraciado com um “Prémio Nobel da Paz”, o resmungante Trump é fortemente atacado por empunhar a esfregona suja de sangue!
Trump optou por pisar o caminho do opróbrio e enfrenta a cólera do purgatório. Enquanto isso, Obama está a jogar golf, a surfar ao vento e a exibir o seu sorriso despreocupado aos escrevinhadores que o adoram nos mass media.
Enquanto Trump avança às patadas no caminho preparado por Obama, centenas de milhares de manifestantes enchem as ruas para protestar contra o “fascista”, com grande número das principais redes de mass media, dúzias de plutocratas e “intelectuais” de todos os géneros, raças e credos a retorcerem-se moralmente ultrajados! Fica-se confuso com o silêncio ensurdecedor destes mesmos activistas e forças quando as guerras agressivas e ataques de Obama levaram à morte e deslocação de milhões de civis, principalmente muçulmanos e principalmente mulheres – quando seus lares, festas de casamento, mercados, escolas e funerais foram bombardeados.
É assim o confusionismo americano! Dever-se-ia tentar entender as possibilidades que emergem de um sector maciço finalmente a romper seu silêncio quando o belicismo do loquaz Obama se transformou na marcha bruta de Trump para o dia do juízo final.
Perspectivas optimistas
Há muitos que desesperam mas há mais que se tornaram conscientes. Identificaremos as perspectivas optimistas e as esperanças realistas enraizadas nas actuais realidade e tendências. Realismo significa discutir desenvolvimentos contraditórios e polarizadores e portanto não aceitamos quaisquer resultados “inevitáveis”. Isto significa que resultados são “terreno contestado” onde factores subjectivos desempenham um papel importante. A interface de forças em conflito pode resultar numa espiral ascendente ou descendente – rumo a maior igualdade, soberania e libertação ou maior concentração de riqueza, poder e privilégio.
A mais retrógrada concentração de poder e riqueza encontra-se na oligárquica União Europeia de dominação alemã – uma configuração que está sob assédio por parte de forças populares. Os eleitores do Reino Unido optaram por sair da UE (Brexit). Em consequência, a Grã-Bretanha enfrenta uma ruptura com a Escócia e Gales e uma ainda maior separação da Irlanda. O Brexit levará a uma nova polarização quando banqueiros com base em Londres partirem para a UE e líderes do mercado livre confrontarem trabalhadores, proteccionistas e a massa crescente dos pobres. O Brexit fortalece forças nacionalistas-populistas e de esquerda na França, Polónia, Hungria e Sérvia e estilhaça a hegemonia neoliberal na Itália, Espanha, Grécia, Portugal e alhures. O desafio aos oligarcas da UE é que a insurgência popular intensificará a polarização social e pode trazer à tona movimentos de classe progressistas ou partidos ou movimentos autoritários-nacionalistas.
A ascensão de Trump ao poder e seus decretos executivos conduziu a uma elevada polarização dos eleitorados, aumentou a politização e a acção directa. O despertar da América aprofunda fissuras internas entre democratas com “d” minúsculo, mulheres progressistas, sindicalistas, estudantes e outros contra os oportunistas do Partido Democrata com “D” maiúsculo, especuladores, antigos belicistas Democratas, burgueses negros do Partido “D” (os líderes extraviados) e um pequeno exército de ONG’s financiadas pelas grandes empresas.
O abraço de Trump à agenda militar Obama-Clinton e da Wall Street conduzirá a uma bolha financeira, gastos militares empolados e mais guerras dispendiosas. Isto dividirá o regime dos seus apoiantes sindicais e da classe trabalhadora agora que o gabinete de Trump é composto inteiramente de bilionários, ideólogos, sionistas raivosos e militaristas (em oposição à sua promessa de nomear homens de negócios e realistas duros na negociação). Isto poderia criar uma valiosa oportunidade para a ascensão de movimentos que rejeitam a verdadeiramente feia cara do reaccionário regime de Trump.
A animosidade de Trump à NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e a defesa do proteccionismo e da exploração financeira e de recursos minará os regimes corruptos, assassinos e narco-liberais que têm dominado o México durante os últimos 30 anos desde o tempo de Salinas. A política anti-imigração de Trump levará mexicanos a escolherem “combater em vez de fugir” ao confrontar o caos social criado pelos narco-gangs e a polícia criminosa. Isto forçará o desenvolvimento do mercado interno e a indústria do México. O consumo e a propriedade de massa interna abarcará movimentos nacionais-populares. O cartel da droga e seus patrocinadores políticos perderão os mercados estado-unidenses e enfrentarão oposição interna.
O protecionismo de Trump limitará o fluxo ilegal de capital a partir do México, que ascendeu a US$48,3 mil milhões em 2016, ou 55% da dívida do México. A transição do México da dependência e do neocolonialismo polarizará profundamente o estado e a sociedade; o resultado será determinado pelas forças de classe.
As ameaças económicas e militares de Trump contra o Irão fortalecerão forças nacionalistas, populistas e colectivistas em relação a políticos neoliberais “reformistas” e pró ocidentais. A aliança anti-imperialista do Irão com o Iémen, Síria e Líbano consolidar-se-á contra o quarteto conduzido pelos EUA da Arábia Saudita, Israel, Grã-Bretanha e EUA.
O apoio de Trump à apropriação maciça de terra palestina por Israel e sua proibição “só judeus” contra muçulmanos e cristãos levará ao sacudir dos quislings multi-milionários da Autoridade Palestina e a ascensão de muitos mais levantamentos e intifadas.
A derrota do ISIS fortalecerá forças governamentais independentes no Iraque, Síria e Líbano, enfraquecendo a alavancagem imperial dos EUA e abrindo a porta a lutas populares democráticas e laicas.
A campanha anti-corrupção em grande escala e a longo prazo do presidente da China, Xi Jinping, levou à prisão e remoção de mais de um quarto de milhão de responsáveis e homens de negócios, incluindo bilionários e líderes de topo do Partido. As prisões, processos e encarceramentos reduziram o abuso do privilégio mas, mais importante, melhoraram as perspectivas para um movimento que ponha em causa as vastas desigualdades sociais. Aquilo que começou “de cima” pode provocar movimentos “a partir de baixo”. O ressuscitar de um movimento no sentido de valores socialistas pode ter um grande impacto sobre estados asiáticos vassalos dos EUA.
O apoio da Rússia a direitos democráticos no Leste da Ucrânia e a reincorporação da Crimeia através de referendo pode limitar regimes fantoches dos EUA no flanco sul da Rússia e reduzir a intervenção estado-unidense. A Rússia pode desenvolver laços pacíficos com estados europeus independentes com a ruptura na UE e a vitória eleitoral de Trump superando a ameaça de guerra nuclear do regime Obama-Clinton.
O movimento à escala mundial contra o globalismo imperialista isola a direita apoiada pelos EUA que tomou poder na América do Sul. A procura de pactos comerciais neoliberais por parte do Brasil, Argentina e Chile está na defensiva. As suas economias, especialmente na Argentina e Brasil, assistiram a um triplica do desemprego, um quadruplicar da dívida externa, crescimento de estagnado a negativo e enfrentam agora greves gerais com apoio de massa. O coaxar do neoliberalismo está a provocar lutas de classe. Isto pode derrubar a ordem pós Obama na América Latina.
Conclusão
Por todo o mundo e no interior dos países mais importantes, a ordem ultra-neoliberal do último quarto de século está em desintegração. Há um ascenso maciço de movimentos a partir de cima e de baixo, de democratas de esquerda a nacionalistas, de populistas independentes a reaccionários da “velha guarda” da direita. Emergiu um universo polarizado e fragmentado. O começo do fim da actual ordem imperial-globalista está a criar oportunidades para uma nova ordem democrático-colectivista dinâmica. Os oligarcas e as elites da “segurança” não cederão facilmente a exigências populares nem se afastarão. Facas serão afiadas, decretos executivos avançarão e golpes eleitorais serão encenados para tentar tomar poder. Os movimentos democrático-populares emergentes precisam de ultrapassar a identidade fragmentária e estabelecer líderes unificados e igualitários que possam actuar de forma decisiva e independente em relação aos líderes políticos existentes que fazem gestos progressistas dramáticos, mas falsos, enquanto procuram um retorno ao fedor e imundície do passado recente.
09/Fevereiro/2017
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=2127
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . Tradução revista por odiario.info
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
O presidente “bom” e o presidente “mau”
Manlio Dinucci 21.Feb.17 Outros autores
Quebrando
lanças pelos seus amos estado-unidenses, os europeus – em vez de lutar
pela sua própria soberania – unem-se em coro ao concerto de críticas –
nem sempre justificadas – sob a batuta das elites da margem ocidental do
Atlântico. Invocando a «democracia», desfilam inclusivamente contra o
resultado das eleições. Barack Obama foi designado «santo subito», ou
seja “santo de imediato”: quando entrou na Casa Branca, em 2009, foi-lhe
entregue a título preventivo o Premio Nobel da Paz pelos «seus
extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a
cooperação entre os povos».
Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo, através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário, foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.
As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália, Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.
E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.
O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.
Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União Europeia.
Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento, inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua, certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.
Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista, para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.
Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf
in ODiario.info
Isso sucedeu enquanto a sua administração preparava já em segredo, através da secretaria de Estado Hillary Clinton, a guerra que 2 anos mais tarde destruiria o Estado líbio, guerra que se estenderia depois a Síria e Iraque através dos grupos terroristas, instrumentos da estratégia dos Estados Unidos e da NATO. Donald Trump, pelo contrário, foi demonizado de imediato, inclusivamente antes de entrar na Casa Branca. Acusam-no de usurpar o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma operação maléfica ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin.
As “provas” vêm da CIA, inquestionavelmente perita em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações destinadas a provocar guerras contra Vietnam, Camboja, Líbano, Somália, Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia y Síria; ou os seus golpes de Estado em Indonésia, Salvador, Brasil, Chile, Argentina e Grécia. E as suas consequências: milhões de personas encarceradas, torturadas e assassinadas; milhões de pessoas deslocadas das suas terras, convertidas em refugiados, vítimas de uma verdadeira conversão em escravos.
E sobretudo as mulheres, adolescentes e meninas submetidas a escravatura, violadas, obrigadas a exercer a prostituição. Haveria que recordar tudo isso a quem, nos Estados Unidos e na Europa, organizaram em 21 de Janeiro a Marcha das Mulheres para defender precisamente essa paridade de género conquistada em duras lutas e constantemente questionada por posições sexistas, como as que Trump expressa. Mas não é por essa razão que se aponta o dedo a Trump numa campanha sem precedente no processo de transmissão do poder na Casa Branca.
O facto é que, nesta ocasião, os perdedores se negam a reconhecer a legitimidade do presidente eleito e estão a implementar um impeachment preventivo. Donald Trump está a ser presentado como uma espécie de Manchurian Candidate que, infiltrado na Casa Branca, estaria sob o controlo de Putin, inimigo dos Estados Unidos. Os estrategas neoconservadores, artífices desta campanha, tratam desse modo de impedir uma mudança de rumo na relação dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama fez retroceder aos tempos da guerra fria.
Trump é um «trader» que, embora continue a assentar a política estado-unidense na força militar, tem intenção de abrir uma negociação com a Rússia, provavelmente para debilitar a aliança entre Moscovo e Pequim. Na Europa, os que temem que se produza uma diminuição da tensão com a Rússia são antes de mais os dirigentes da NATO, que ganharam importância graças à escalada militar da nova guerra fria, e os grupos que detêm o poder nos países do leste – principalmente na Ucrânia, na Polonia e nos países bálticos – que apostam na hostilidade anti-russa para obter maior apoio militar e económico de parte da NATO e da União Europeia.
Nesse contexto, não é possível deixar de mencionar, nas manifestações de 21 de Janeiro, as responsabilidades dos que transformaram a Europa na primeira línea de enfrentamento, inclusivamente nuclear, com a Rússia. Teríamos que sair à rua, certamente, mas não como súbditos estado-unidenses que rechaçam um presidente “mau” mas exigindo um “bom”, para nos libertarmos do que nos amarra aos Estados Unidos, país que – não importa quem seja o seu presidente – exerce a sua influência sobre a Europa através da NATO.
Teríamos que manifestar-nos, mas para sair dessa aliança belicista, para exigir a retirada do armamento nuclear que os Estados Unidos têm armazenado nos nossos países. Teríamos que manifestar-nos para ter o direito a opinar, como cidadãs e cidadãos, sobre as opções em matéria de política externa que, indissoluvelmente ligadas às opções económicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.
Fonte: Il Manifesto, http://www.investigaction.net/es/el-presidente-bueno-y-el-presidente-malo/#sthash.rGRUnNBL.dpuf
in ODiario.info
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Raduan Nassar: O Escritor e o Homem
“Vivemos tempos sombrios”
Raduan
Nassar não é o intelectual asceta que ignora a sociedade onde se
insere, Nassar assume o empenho de cidadão viril que dignifica o
intelectual completo.
Em seu pronunciamento na entrega do Prêmio Camões de literatura, o escritor critica o golpe, o governo Temer e o STF.
Nassar, palavras firmes no Prêmio Camões
Às dez e meia da manhã desta sexta-feira 17, o escritor Raduan Nassar subiu ao palco montado no Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões
de 2016, honraria concedida pelos governos do Brasil e Portugal e um
dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa.
Nassar ofereceu à plateia o seguinte discurso:
Senhor Dr. Roberto Freire,
Ministro da Cultura do governo em exercício. Senhora Helena Severo,
Presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Professor Jorge Schwartz,
Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados.
Tive
dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo
voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter
sido contemplado no berço de nossa língua.
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos
no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente
acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos,
membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto;
violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua.
Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
Com
curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por
omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive
por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo
exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta
figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
Os
fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor:
contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra
universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e
altiva de Celso Amorim.
Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa
concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo
inteiro.
Mesmo
de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo
Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
Prova
da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o
ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o
pleito de Moreira Franco.
Citado
34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com
foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um
elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter
barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas
É
esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu
passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão
da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da
Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de
impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
Não há como ficar calado.
Obrigado.
OBRIGADO, RADUAN NASSAR!
Este artigo encontra-se em: as palavras são armas http://bit.ly/2kA5VyS
sábado, 18 de fevereiro de 2017
- Em coluna
Comentários à História da União Soviética de Peter Kenez
- António Barata - Publicado em Segunda, 17 Outubro 2011 02:00
António Barata
Editado inicialmente nos EUA em 1999, a História da União Soviética, de Peter Kenez (Edições 70) foi publicado em Portugal em 2007, tendo sido reposto pela FNAC este Verão.
Editado inicialmente nos EUA em 1999, a História da União Soviética, de Peter Kenez (Edições 70) foi publicado em Portugal em 2007, tendo sido reposto pela FNAC este Verão.
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