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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Tal como outros , suponho, tive necessidade há uns anos a esta parte, de re-ver a obra e o pensamento de Lev Trótsky, tão vilependiado e silenciado por outra(s) corrente(s) do(s) marxismo(s). Pela única nos países que se reivindicavam de "pátria " do socalismo

 

Fuga da Sibéria

Artista desconhecido, Leon Trotski, s/d

Por LEONARDO PADURA*

Apresentação do livro de Liev Trótski

1.

Em agosto de 2020, quando se completaram oitenta anos do assassinato de Liev Davídovitch Bronstein, Trótski, pelas mãos do agente stalinista Ramón Mercader, recebi uma quantidade surpreendente de pedidos de entrevista, convites para escrever artigos e solicitações para participar de mesas-redondas sobre esse fato histórico. Ao mesmo tempo, chegavam até mim, de diferentes partes do mundo, especialmente de países latino-americanos, diversos materiais informativos dedicados a relembrar e analisar, com a perspectiva do tempo transcorrido, o crime de 20 de agosto de 1940 na casa do profeta exilado, na região administrativa mexicana de Coyoacán.

Que curiosidade histórica, que reivindicação do presente poderiam ter provocado aquele interesse renovado e intenso pela figura de Liev Trótski quase um século depois da sua morte? Em um mundo globalizado, digitalizado, polarizado da pior maneira, dominado pelo liberalismo desenfreado e triunfante e, para completar, assolado por uma pandemia de proporções bíblicas que colocou (e ainda coloca) em xeque o destino da humanidade, qual seria a explicação para a expectativa de resgatar o destino de um revolucionário soviético do século passado que, certamente, foi o perdedor em uma disputa política e pessoal que se pretendeu encerrar com seu assassinato?

O que poderiam nos dizer a esta altura – nestas coordenadas históricas e sociais – o crime de 1940 e a figura da vítima de um furioso golpe de picareta ordenado pelo Kremlin soviético? Liev Trótski e seu pensamento ainda teriam o vigor, a capacidade de transmitir algo de útil para nosso turbulento presente, três décadas depois do fim da União Soviética que ele ajudou a fundar?

A constatação de que determinadas teorias, a política e a arte desses tempos ainda se sentem convocadas pelas peripécias vitais e pelos aportes filosóficos e políticos de Liev Davídovitch Trótski pode ter um primeiro corolário (e muitos outros). E essa primeira elucidação talvez afirme (ao menos penso eu) que, derrotado na arena política, o exilado tornou-se um vencedor maltratado na disputa histórica projetada para o futuro; desta última, ao contrário de seus assassinos, ele saiu como um símbolo de resistência, coerência e, inclusive, para seus seguidores, como a encarnação de uma realização possível da utopia.

E esse processo peculiar aconteceu não apenas pela forma como ele foi assassinado, mas com certeza também pelos mesmos motivos que levaram Ióssif Stálin a liquidá-lo fisicamente, e os stalinistas do mundo inteiro a apagá-lo até das fotos, dos estudos históricos e dos relatórios acadêmicos. Um Stálin e alguns stalinistas que – é sempre bom repetir – não somente executaram a pessoa de Liev Trótski e tentaram fazer o mesmo com suas ideias, mas também, a golpes de autoritarismo socialista, se encarregaram de liquidar a possibilidade de uma sociedade mais justa, democrática e livre que, em determinado momento, sujeitos como Liev Davídovitch se propuseram a fundar.

O mesmo Liev Davídovitch que, em 1905, jovem recém-saído do partido menchevique, chegou a dizer: “para o proletariado, a democracia é em todas as circunstâncias uma necessidade política; para a burguesia capitalista, é em certas circunstâncias uma inevitabilidade política”…1 frase-chave que, posta em prática, talvez tivesse mudado o destino da humanidade.

2.

Não nos surpreende, então, que o resgate e a publicação de um texto de Liev Davídovitch (ou Leon Trotsky) provoque um interesse justificado. Afinal, dentro da vultosa bibliografia do homem que, inclusive, redigiu uma minuciosa autobiografia (Minha vida, publicada em 1930, obra que se encerra com o episódio de seu degredo na União Soviética oriental, início de seu exílio definitivo), as páginas de Fuga da Sibéria (no original, Tudá i obrátno; ou seja, Viagem de ida e volta) servem para nos entregar as armas de um jovem escritor e revolucionário cuja imagem, tão conhecida, delineia-se ainda mais com esta obra curiosa.

Isso porque Fuga da Sibéria, publicado em 1907 sob o pseudônimo de N. Trótski pela editora Chipóvnik, é um opúsculo que, pela proximidade entre os acontecimentos narrados e sua redação – pela conjuntura histórica em que ocorrem tais eventos, a idade e o grau de compromisso político de seu autor no momento de viver o que narra e imediatamente decidir-se a registrá-lo –, oferece-nos um jovem Liev Trótski quase em seu estado mais puro. Em todas as suas facetas: a do político, a do escritor, a do homem de cultura e, sobretudo, a do ser humano.

Assim, desde já, parece-me necessário advertir que as páginas de Fuga da Sibéria narram a história pessoal e dramática do segundo exílio de Davídovitch para as colônias penais da Sibéria (sua primeira deportação, vivida entre 1900 e 1902, foi um período de crescimento político e filosófico do qual saiu fortalecido e, inclusive, com o pseudônimo de Trótski, pelo qual logo ficaria conhecido) e as tremendas peripécias de sua fuga quase imediata, dessa vez no inverno de 1907.

Toda uma aventura vivida em consequência do chamado “Caso Soviete”, quando o autor, com outros quatorze deputados, foi julgado e condenado à deportação por tempo indeterminado e à perda dos direitos civis2 em consequência dos eventos ocorridos em São Petersburgo envolvendo a criação e o funcionamento do Conselho, ou Soviete, de Delegados Operários, liderado pelo próprio Trótski durante suas semanas de existência, nos últimos meses do conturbado ano de 1905.

O texto, então, remete-nos a um tempo em que a vida política e filosófica de seu autor estava no centro dos debates que definiriam os rumos pelos quais, mais tarde, se moveriam seu pensamento e sua ação revolucionários, exaltados pela experiência vertiginosa do primeiro Soviete da história, em 1905, amadurecidos no frutífero exílio que viveria a partir de 1907 e concretizados na Revolução de Outubro de 1917, durante a qual seria novamente protagonista. E dessa trajetória ele emerge como uma das figuras centrais do processo político que desemboca na fundação da União Soviética e na sempre polêmica instauração de uma ditadura do proletariado.

O Liev Davídovitch desses momentos é o revolucionário impulsivo e de cabelos revoltos que, segundo seu renomado biógrafo Isaac Deutscher, “[…] simbolizava o mais alto grau de “maturidade” até então alcançado pelo movimento [revolucionário] em suas aspirações mais amplas: ao formular os objetivos da revolução, Trótski foi mais longe do que Mártov ou Lênin e estava, por isso, mais bem preparado para um papel ativo no levante. Um instinto político infalível levou-o, nos momentos adequados, aos pontos sensíveis e ao foco da revolução […].”3

Nesse ponto, vemos também o pensador que logo escreve Balanço e perspectivas, sua principal obra do período, na qual apresenta os enunciados fundamentais do futuro trotskismo, inclusive a teoria da Revolução Permanente.4 Nessas páginas, o próprio Liev Trótski adverte, com a lucidez política que muitas vezes (nem sempre) o acompanha: “Na época de sua ditadura, […] [a classe trabalhadora] terá de limpar sua mente de teorias falsas e da experiência burguesa e expurgar suas fileiras de fazedores de frases políticas e revolucionários que olham para trás. […] Mas essa tarefa complicada não pode ser resolvida colocando-se acima do proletariado algumas pessoas escolhidas […] ou uma pessoa investida do poder de liquidar e degradar.”5

As páginas de Fuga da Sibéria, no entanto, não se convertem em um discurso político, tampouco em uma obra de propaganda ou reflexão: relatam, sobretudo, a história pessoal e dramática (compilada de modo muito sucinto em Minha vida) que nos oferece um Trótski observador, profundo, humano, por vezes irônico, que esquadrinha à sua volta e expressa um estado de ânimo ou faz a fotografia de um ambiente que, sem dúvida alguma, revela-se extremo, exótico, quase inumano.

3.

Concebido em duas partes claramente distintas (“Ida” e “Volta”), o testemunho dessas experiências segue todo o processo de deslocamento até o degredo de Liev Trótski e dos outros quatorze condenados por seu protagonismo na Revolução de 1905. Com efeito, o relato abarca desde a saída do cárcere da Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, no dia 3 de janeiro de 1907 (local onde se dedicara a escrever durante todo o ano de 1906), até a chegada ao povoado de Beriózov, em 12 de fevereiro de 1907, penúltima parada de um trajeto que devia terminar ali, onde se cumpriria a condenação, na remota localidade de Obdorsk,6 local situado vários graus ao norte do Círculo

Polar Ártico, a mais de 1.500 verstas da estação ferroviária mais próxima e a 800 verstas de uma estação telegráfica, segundo o próprio escritor.

Em seguida, e com uma visível mudança de estilo e concepção narrativa, o livro conta, sempre em primeira pessoa, a crônica da fuga de Trótski de Beriózov (onde consegue permanecer, fingindo estar doente, enquanto seus companheiros seguem em frente). Com seu esperpêntico7 guia, a partir daí prossegue na direção sudoeste, em busca da primeira estação ferroviária na zona mineradora dos Urais, para concretizar seu regresso a São Petersburgo, de onde parte para o exílio no qual, poucos meses depois, teria o primeiro encontro – aquele que talvez tenha decidido seu destino desde o primeiro instante – com o ex-seminarista Ióssif Stálin.

O primeiro elemento que singulariza a concepção de Fuga da Sibéria reside no fato de que a primeira metade é organizada com base nas cartas que Trótski foi escrevendo para a esposa, Natália Sedova, ao longo de quarenta dias extenuantes, enquanto ele fazia o percurso até o degredo com seus companheiros. Essa estratégia epistolar, quase como um diário de viagem escrito em tempo real, define o estilo e o sentido do texto, pois o narrado reflete uma realidade recém-vivida na qual não existe um conhecimento possível sobre o futuro, como teria acontecido com a redação evocativa do já conhecido.

O relato, que começa com uma carta de 3 de janeiro de 1907, quando Trótski e seus companheiros de condenação são transferidos para o cárcere provisório de São Petersburgo, estende-se até a carta de 12 de fevereiro, escrita já em Beriózov, onde, a conselho de um médico, o autor finge uma crise de dor ciática para ali permanecer e tentar a fuga.

Durante todo esse tempo e trajeto, que começa de trem (no fim de janeiro, no povoado de Tiumén) e continua em trenós puxados por cavalos, Liev Trótski e os demais condenados ignoram tanto o destino que lhes foi atribuído como quando chegarão a ele, por isso se cria uma expectativa próxima do suspense. Como era de se esperar em se tratando de correspondência que podia ser revistada, em nenhum momento o autor revela seus planos de fuga, ainda que fale das previsíveis evasões de condenados, ocorridas com grande frequência. “Para se ter uma ideia da porcentagem de fuga, deve-se levar em conta que, dos 450 exilados de uma determinada parte da província de Tobolsk, ficaram apenas uns 100. Só os preguiçosos não fogem”, comenta numa passagem. Todavia, Liev Trótski não deixa de assinalar os níveis de vigilância de que a partida de prisioneiros era objeto, com uma proporção que podia chegar a três guardas por detento, o que tornava quase inviável qualquer tentativa de fuga.

O estilo epistolar de toda a trama do texto é salpicado de descrições, reflexões, evocações, mas constitui fundamentalmente um resumo de feitos e de anotações do exaustivo e lento avanço, o que o escritor define como uma descida diária de “mais um degrau rumo ao reino do frio e da selvageria”, por regiões da tundra ou da taiga siberiana onde se considera que “o frio não é intenso” aos “−20 c, −25 c, −30 c. Há umas três semanas chegou a −52 c”.

A virada argumentativa e estilística que se observa na narrativa desde a carta escrita em Beriózov é de 180 graus: da epístola passa-se ao relato, do presente registrado em forma de crônica passa-se ao passado narrado ou descrito, da incerteza e do suspense encaminha-se para a expectativa e a recordação do já vivido, da ida passa-se à volta com um desenlace conhecido pelo leitor: o êxito da fuga.

A narrativa da primeira parte, entrecortada, pontuada, como que distante ou simplesmente mais objetiva, torna-se a partir desse ponto tensa e intensa, detida e dramática, enquanto se desenrola uma fuga que sempre pode ser interrompida por algum perseguidor, o que acrescenta mais um toque de suspense ao relato. Liev Trótski mostra-se mais observador, minucioso, por vezes até irônico e muito interessado no que vê ao longo de uma viagem cheia de peripécias. Entretanto, o fugitivo colocou seu destino nas mãos de um personagem realmente pantagruélico: o ziriano russificado Nikífor Ivánovitch, tão alcoolizado como a maioria dos habitantes dessa região da Sibéria.

Na descrição dos onze dias durante os quais avançam centenas de quilômetros através da tundra, Liev Trótski dá conta de suas impressões a respeito da paisagem natural e humana que encontra pelo caminho, cada uma delas extrema em seus comportamentos e em sua natureza.

Se a simples apresentação das paisagens da taiga, zona de temperaturas insuportáveis, é reveladora, mais interessante é a resenha que ele faz dos tipos e costumes observados, dos membros de povoados ziriaanos, ostíacos ou mansis, entre os quais imperam não somente o alcoolismo e as epidemias, mas também uma alienação social e civil que os faz vítimas das circunstâncias – incluindo a geografia e seu tempo histórico – e assinala até a possibilidade de sua extinção como culturas ancestrais independentes.

Nessa recordação, Trótski anota de passagem parágrafos como este: “Os ostíacos são terrivelmente preguiçosos, todo o trabalho é feito pelas mulheres. E isso não apenas nos afazeres domésticos: não é raro encontrar uma ostíaca saindo armada para caçar esquilos e zibelinas”.

Também registra descobertas como esta: “Converso com elas por meio de Nikífor, que fala com a mesma fluência russo, ziriano e dois dialetos ostíacos: o “elevado” e o “baixo”, quase totalmente diferentes um do outro. Os ostíacos daqui não falam uma palavra de russo. No entanto, os palavrões russos entraram completamente na língua ostíaca e, junto com a vodca, constituem a contribuição mais indiscutível da cultura estatal de russificação. Em meio aos obscuros sons da língua ostíaca, num local onde não se conhece a palavra russa zdrávstvui [olá], uma obscenidade familiar relampeja de repente como um meteoro brilhante, pronunciada sem o menor sotaque, perfeitamente clara.”

E faz anotações como esta: “Notei que, em geral, as crianças ostíacas são graciosas. Mas por que, então, os adultos são tão feios?”

Ao mesmo tempo, chama a atenção para o caráter de outros personagens importantes nessas paragens: as renas. As discretas e resistentes renas que puxam os trenós, devolvendo-lhes a liberdade. “As renas são criaturas incríveis: não sentem fome nem cansaço. Não comeram nada por um dia até a nossa partida, e logo fará mais um dia que seguem sem se alimentar. Segundo a explicação de Nikífor, elas acabaram de “pegar o ritmo”. Correm regularmente umas oito ou dez verstas por hora, sem se cansar. A cada dez ou quinze verstas, faz-se uma parada de dois, três minutos para que as renas se recuperem; depois, elas continuam. Essa etapa chama-se “corrida de renas”, e, como aqui ninguém conta as verstas, a distância é medida em termos de corridas. Cinco corridas equivalem a umas sessenta, setenta verstas.”

Essas renas fascinantes, somadas ao incontrolável ziriano Nikífor e a outros ostíacos e mansis alcoolizados, permitem a Liev Davídovitch chegar a salvo à zona mineradora dos Urais, dali escapar para São Petersburgo e depois partir para o exílio. A volta concretizou-se, com sobressaltos e aborrecimentos, mas com êxito em seus propósitos.

Fuga da Sibéria surge como uma inesperada fenda que nos permite sondar a personalidade íntima do homem político e revolucionário em tempo integral e suas relações com a condição humana. Constitui, ademais, uma amostra de suas capacidades literárias (não à toa por uma época apelidaram-no “A Pena”) e, para encerrar, sua publicação pode constituir uma homenagem à memória de um pensador, escritor e lutador assassinado há mais de oitenta anos que, neste mundo tão descrente de hoje, ainda faz alguns pensarem que a utopia é possível. Ou, ao menos, necessária.

*Leonardo Padura é escritor cubano. Autor, entre outros livros, de O romance da minha vida (Boitempo). [https://amzn.to/48sCm5W]

Referência


Liev Trótski. Fuga da Sibéria. Tradução: Letícia Mei. São Paulo, Ubu, 2023, 160 págs. [https://amzn.to/478Hn2l]

Notas


[1] Apud Isaac Deutscher, Trotski: O profeta armado (1879-1921), trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p. 134.

[2] Dois ou três anos antes, havia sido suprimido o castigo adicional de 45 chibatadas.

[3] I. Deutscher, Trotski, op. cit., p. 132; trad. modif.

[4] Ibid., p. 166.

[5] Apud ibid., p. 105.

[6] Atual Salekhard, capital do distrito autônomo de Iamalo-Nenetsie, em Tiumén. [N. T.]

[7] Adjetivo derivado do substantivo em língua espanhola “esperpento”: “pessoa, coisa ou situação grotescas ou extravagantes”; Real Academia Española, Diccionario de la lengua española (online). [N. T.]

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Uma crítica marxista ao conceito de "policrise" para a crise actual do sistema capitalista que domina todo o mundo e que nos conduzirá ao abismo

 

Bem-vindo ao mundo da “policrise”

Imagem: Matheus Viana

Por ROMARIC GODIN*

Ascensão e queda dessa noção da moda, que é conservadora e fatalista de um lado, de outro emancipatória e ativa

O historiador Adam Tooze ressuscitou a noção de “policrise”, que se tornou um tema favorito das elites políticas e econômicas mundiais. Consideramos, abaixo, a ascensão e queda dessa noção da moda.

Bruno Le Maire, Ministro das Finanças de França desde 2017, não é um escritor prolixo. Mas, nas horas vagas, ele também é profeta. No outono de 2021, quando apresentou a Lei das Finanças de 2022, disse aos deputados que o seu orçamento era a primeira pedra de uma “grande década de crescimento sustentável”. Foi um momento de otimismo: a economia global parecia estar se recuperando rapidamente da crise sanitária. Os comentários de Le Maire ilustram a euforia generalizada que aflorou nos círculos empresariais e entre os principais economistas após a superação da crise sanitária.

No dia 1º de janeiro de 2021, quando as feridas da Covid ainda estavam abertas, um dos principais colunistas do Financial Times, jornal da City de Londres, Martin Sandbu, abriu o ano novo de então com um texto intitulado: “Adeus 2020, ano do vírus; olá ‘loucos anos vinte’.” O termo final da alocução (…) refere-se à década de 1920, que, pelo menos nos Estados Unidos, foi um período de forte crescimento e de nascimento da sociedade de consumo. A posição de Martin Sandbu parecia simples. Os consumidores, tentando esquecer a crise sanitária, tal como um século antes tinham tentado esquecer os horrores da guerra, embarcaram num frenesi de gastos, colocando a economia num círculo virtuoso, ou seja, “na maior prosperidade num século”.

Essa ideia terá, pois, um grande sucesso em 2021. É compreensível. Desde meados da década de 1970, e ainda mais desde a grande crise financeira de 2008, o capitalismo parece atolado num processo de enfraquecimento sem fim, que combina um abrandamento estrutural do crescimento, turbulência financeira e tensões em torno da dívida pública e privada. O regresso esperado a uma fase de crescimento forte e partilhado parece conduzir a uma fase de estabilização política e social do capitalismo.

A nova palavra da moda

Mas dois anos seguintes, a atmosfera mudou. A inflação regressou à maioria das economias, ultrapassando os 10% em alguns países ocidentais pela primeira vez em quarenta anos. A tendência inflacionária começou em meados de 2021 e acelerou com a invasão russa da Ucrânia no ano seguinte, o que mais uma vez mergulhou o mundo na ameaça de uma guerra total. Os salários reais começaram a cair e o crescimento se reduziu enquanto as catástrofes ecológicas entram em aceleração.

Foi assim que o otimismo do início de 2021 acabou. Já não estamos falando mais dos estrondosos anos 20, mas de uma nova fase da crise, mais complexa, mais geral e mais profunda. Em 1º de janeiro de 2023, dois anos após a coluna de Martin Sandbu, o mesmo Financial Times definiu o ano que se iniciava com uma palavra: “policrise”. Esta palavra tornou-se a nova palavra da moda, a palavra privilegiada que todos nos círculos econômicos e políticos passaram a adotar. Poucas semanas depois, tornou-se o tema de abertura do debate no famoso fórum de Davos, o Fórum Econômico Mundial.

De onde vem a palavra? O termo foi recuperado pelo historiador britânico Adam Tooze no final de 2021 e se generalizou após o início da guerra na Ucrânia. Tornando-se uma verdadeira estrela entre as elites intelectuais do mundo anglo-saxão nos últimos anos, este professor da Universidade de Yale, de 56 anos, sempre tentou pintar quadros históricos complexos, como no seu livro de 2014 sobre as consequências da Primeira Guerra Mundial: The deluge.

Nos últimos anos, porém, a sua ambição tem sido tornar-se um “historiador do presente”. Depois do seu livro seminal sobre a crise financeira publicado em 2018, que o consagrou como uma autoridade mundial no assunto, no final de 2021 publicou outro sobre a crise sanitária, Shutdown, no qual defendeu que a pandemia de Covid mudou o paradigma dominante e que isso poderia levar a uma economia mais próspera. O seu vaticínio não está longe das ideias apresentadas por Martin Sandbu.

Mas o historiador do presente caiu na armadilha dos acontecimentos. Quando seu último livro foi publicado, o mundo estava passando por convulsões novas e imprevisíveis. Adam Tooze começou então a usar o conceito de “policrise” em seu blogue amplamente lido, antes de popularizá-lo em outubro de 2022 em um artigo do Financial Times intitulado “Bem-vindo ao mundo da policrise”.

O historiador explica o termo: “Na policrise, os choques são díspares, mas interagem entre si, de modo que o todo se afigura maior do que a soma das partes”. É como se os acontecimentos caóticos se multiplicassem e se reforçassem até culminarem numa forma de desestabilização geral do sistema (econômico, financeiro, institucional, ecológico etc.). “O que torna as crises dos últimos quinze anos tão desarmantes é que já não parece plausível apontar para uma causa única e, consequentemente, uma solução única”, diz Adam Tooze.

Pior ainda, as soluções para certos aspectos da policrise estão gerando novas crises. “Quanto mais enfrentamos [a crise], mais e mais aumentam as tensões”, resume o historiador. Terrível decepção, então, para aqueles que pensavam que a crise sanitária, e intervenção pública massiva que suscitou, inauguraria uma nova era de prosperidade. Embora esta solução tenha evitado o colapso da economia, lançou as bases para uma onda de inflação ao exacerbar as fraquezas da oferta na esfera da produção. Isto desestabilizou a ordem econômica dos últimos quarenta anos, baseada numa inflação baixa e em taxas de juro baixas; eis que dois choques fortes caracterizados, segundo os economistas, como “externalidade” negativas – está-se falando do conflito na Ucrânia e da crise ecológica –, tornaram a crise ainda mais difícil gerenciar.

Um conceito de Edgar Morin

Esta noção de policrise não é nova. Como aponta Adam Tooze, ela foi retirada de textos do pensador francês da complexidade, Edgar Morin. Ele o empregou na década de 70 como uma forma de levar em conta a questão ecológica. Ele lhe deu uma forma definitiva em seu livro Terre-Patrie, de 1993.

Edgar Morin define a policrise como uma situação em que “crises interligadas e sobrepostas” assumem a forma de um “complexo interdependente de problemas, antagonismos, crises e processos incontroláveis” que formam “a crise geral do planeta”. Esta visão é muito diferente daquilo que se conhece em economia como “crise sistêmica”, ou seja, uma crise que desestabiliza todo um sistema, mas cujo ponto de partida é um choque único e identificável. Neste último caso, a espiral da crise pode ser interrompida se o contágio puder ser contido. Esta é a lógica que rege a gestão de crises desde 2008, à qual falta sucesso.

Por outro lado, numa crise múltipla, este tipo de contenção não é possível, porque a crise faz parte de uma cadeia de acontecimentos tão complexa que é impossível pará-la. Ainda mais, como já dissemos, porque as soluções propostas dão origem a novos problemas que espalham para outras áreas por meio de contágio. O mundo sujeito à policrise não é estático, está vivo: a sua crise modifica o ambiente, e o ambiente modifica os termos da crise.

Embora não tenha sido descrita como uma policrise naquela altura, a crise financeira de 2008 ilustra como as “soluções” podem tornar-se “problemas”. Esta crise desencadeou um investimento excessivo na China que salvou a economia global do desastre, mas levou à superprodução de aço e de concreto, em particular, o que agravou a crise climática. Ao mesmo tempo, esta recuperação chinesa provocou uma reação nos Estados Unidos, levando Donald Trump ao poder, mas também uma crise de superprodução da qual a China só conseguiu escapar à custa de uma bolha imobiliária que rebentou em 2021… Cada solução abriu uma nova crise, causando desestabilização global.

O pensamento complexo desenvolveu-se muito no mundo anglo-saxão nas décadas de 2000 e 2010, especialmente no campo da história. Sem usar o termo “policrise “, tem estado no centro das controvérsias sobre um acontecimento antigo, mas bem intrigante: o final da Idade do Bronze que ocorreu no término do século XIII a.C. Um complexo civilizacional muito complexo em torno do Mediterrâneo oriental ruiu, ou melhor, desintegrou-se ao longo de várias décadas, causando o desaparecimento do império hitita e da civilização micênica, mas também desestabilizando toda a região durante vários séculos.

Houve muitas tentativas de explicar a situação, algumas citando a tradicional invasão dos “povos do mar” do oeste ou do norte, que destruiu a civilização mediterrânica, enquanto outras citaram causas puramente econômicas, sociais ou ambientais. Mas aos poucos outra ideia começou a prevalecer, a de era um complexo e, por isso, vinha ser ao mesmo tempo instável.

As interações e interdependências adquiriram tal importância que o menor grão de areia poderia desestruturar tudo e causar um colapso geral, por meio de uma série de crises que se alimentavam umas às outras. “Quanto mais complexo for um sistema, maior será a probabilidade de ele entrar em colapso”, resume o historiador Brandon Drake. A partir daí, sismos, crises climáticas, agitação social, revoltas e invasões sucederam-se sem coerência, acelerando o processo de desestabilização e acabando por abalar a coesão geral da civilização mediterrânica da Idade do Bronze.

Em seu livro sobre o tema O ano em que a civilização entrou em colapso, o antropólogo Eric Cline resume o interesse desta teoria da complexidade aplicada a este acontecimento histórico singular: “Adotamos a teoria da complexidade, porque ela nos permite visualizar uma progressão não linear, contemplando uma série de fatores – e não apenas um fator único. Ela tem vantagens tanto para explicar o colapso ocorrido no final da Idade do Bronze Final quanto para propor uma forma de continuar a estudá-lo.”

Esta hipótese continua a ser discutida por muitos historiadores, mas não podemos deixar de relacioná-la com a situação atual e com a análise de Adam Tooze. As crises multiplicam-se, sucedem-se e sustentam-se mutuamente, sem que seja identificada qualquer ligação global coerente entre elas. O aumento da inflação, a crise sanitária, o aumento das tensões entre a China e os Estados Unidos, a guerra russo-ucraniana e a catástrofe ecológica são crises autônomas que certamente se autoperpetuam, mas não são o resultado de uma perturbação exemplar que se generaliza.

Como se sabe, Adam Tooze resume tudo em um diagrama que lista essas interdependências. Causas e consequências, crises e reações se cruzam para criar riscos. Desta forma, o historiador pode desenvolver uma espécie de “matriz” da crise, indicando as áreas susceptíveis de se deteriorarem, aquelas que podem diminuir e aquelas cujo desfecho permanece incerto.

De acordo com este esquema, a crise atual não é uma crise sistêmica. São múltiplas as perturbações de diversas origens, não apenas econômicas, que estão conduzindo, através da procura de soluções específicas, a uma desestabilização do todo. Ao contrário da crise de 1929, não há uma recessão repentina, mas sim polos de resistência, como o emprego e alguns serviços, e polos de depressão, como a indústria e o consumo. Mas a crise não é menos geral e profunda porque parece imprevisível e incontrolável. Tudo isto se parece muito com a trajetória “não linear” de crise que alguns invocaram para explicar o fim da Idade do Bronze.

Surge então inevitavelmente a questão: como responder, em tal hipótese, a este tipo de desestabilização complexa? Quais são as consequências do pensamento de policrise para a ação política e econômica?

O esgotamento dos tratamentos neoliberais

Em 15 de maio de 2023, Robert Lucas, o economista que ganhou o prêmio do Banco da Suécia em homenagem a Alfred Nobel, em 1995, morreu sob grande indiferença dos principais meios de comunicação de língua inglesa. No entanto, este homem foi um dos criadores de uma peça da síntese intelectual que fundou o neoliberalismo com a sua teoria das “expectativas racionais”, apresentada em 1972.

A ideia é simples: os agentes econômicos, desde que não sejam enganados, são capazes de reagir racionalmente aos acontecimentos econômicos. Parece agora possível propor um modelo fiável de funcionamento do mercado que permita evitar crises macroeconômicas. Foi isto que levou o vencedor do Prêmio Nobel a declarar que a questão da prevenção das crises estava resolvida em 2004.

Robert Lucas exerceu considerável influência na economia até meados dos anos 2000. Depois, sua estrela foi ofuscada e quase desapareceu. Quando ele morreu, em maio de 2023, foram necessários quase cinco dias para que o Financial Times e o New York Times publicassem aqueles obituários reduzidos habituais. A anedota é significativa. Na era da policrise, o pensamento de Robert Lucas tornou-se inoperante. Como poderiam os agentes formular “expectativas racionais” num contexto de múltiplas crises com efeitos tão imprevisíveis e aparentemente intransponíveis?

Na realidade, este beco sem saída é parte do problema. Com efeito, embora a influência intelectual de Robert Lucas tenha diminuído, embora ninguém possa propor seriamente a hipótese das “expectativas racionais”, as suas teorias continuam a estruturar a ciência econômica e as políticas públicas. Estas, de repente, parecem desorientadas neste período de policrise, mas os neoliberais neoclássicos, gênios apenas para si mesmos, se vangloriaram durante décadas que haviam atingido o limite do conhecimento econômico.

Na maior desordem desde 2020, todas as principais organizações internacionais estudam incansavelmente uma situação econômica que foge cada vez mais os seus modelos. Sem dúvida que sempre foi assim, mas a distância da realidade é agora cada vez maior. “Desde a pandemia de Covid-19, as bolas de cristal dos economistas tornaram-se opacas ao ponto da caricatura”, observou um editorial do Le Monde no final de maio de 2023.

Esta crescente ineficácia da ciência econômica está criando agora um novo perigo: o das políticas públicas causarem novas crises, precisamente porque se baseiam nesta ciência internamente falhada. Como os modelos não levam em conta a complexidade da crise, concede-se prioridade ao preenchimento das lacunas que criam novos focos perturbadores, agravando a policrise.

Foi o que aconteceu com a política de aperto monetário dos bancos centrais. Perante o aumento da inflação, os bancos centrais não tiveram alternativas senão agir, dados os modelos prevalecentes: a subida dos preços reduziu na mesma medida as taxas de juro reais, abrindo caminho ao risco de sobreaquecimento da economia e à espiral inflacionista. Mas o aumento das taxas nominais apenas criou outras tensões. Tanto é assim que Adam Tooze considera este endurecimento como o novo “coração da crise”.

No contexto de uma policrise, a gestão global não só é impossível, mas também contraproducente. Neste quadro, os agentes são obrigados a suportar a crise e a estratégia a seguir consiste apenas em minimizar os seus efeitos. Não é possível parar o movimento e nem mesmo controlá-lo.

Como Adam Tooze concluiu no seu artigo de outubro de 2022 no Financial Times: “se a sua vida já foi perturbada, está na hora de agir em conjunto. A nossa corda bamba sem fim tornar-se-á cada vez mais precária e angustiante.”

Uma falsa solução: resiliência

A história, portanto, está agora caindo sobre pessoas impotentes para controlar os seus eventos. Assim, a lógica da policrise lembra a lógica dos conservadores clássicos, que acreditavam que a história é uma força que as pessoas não podem controlar e que, portanto, devem suportá-la.

A única resposta possível seria a “resiliência”, outro conceito em voga que é irmão gêmeo da policrise. Este termo já entrou no vocabulário tecnocrático: depois da crise sanitária, o plano de apoio europeu é oficialmente denominado “plano de recuperação e resiliência”.

Resiliência é a capacidade de resistir às crises, de suportar os eventos da história e sair dela da melhor forma possível. Neste contexto, o papel das políticas públicas beira a impotência. Devemos desistir de tentar superar as crises, de controlá-las, porque isso pode causar novas crises. Resta reforçar a resiliência, ou seja, a capacidade de absorver choques. A policrise dá origem a uma política do mal menor.

Mas esta ideia de resiliência também dá um reforço à lógica de competição. Diante de crises que não podemos controlar, temos que tentar se superar nos embates da vida. Isto é tão verdadeiro para os Estados como para os indivíduos. Pode haver um aspecto coletivo na resiliência, mas acima de tudo há uma lógica individualista.

Assim, é fácil compreender o entusiasmo de certos meios empresariais e a comoção que se gerou em torno da noção de policrise, tanto antes como depois de Davos. No seu relatório sobre riscos globais publicado em 9 de março de 2023, a Zurich Seguros viu “boas notícias por trás da policrise”. E a boa notícia é justamente que existem profissionais de “gestão de risco” em quem todos deveriam confiar para aumentar a sua resiliência.

Existem até maneiras de ganhar dinheiro com esse caos. O presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI), Werner Hoyer, que também foi um dos protagonistas da crise grega no início de 2010, afirmou com serenidade que “a policrise é também uma poli-oportunidade de investimento”. Portanto, o Fórum Econômico Mundial só poderia celebrar tal conceito e elaborar o seu próprio diagrama de “riscos interligados” para ajudar as pessoas a investir e a se proteger da melhor forma possível.

Embora os agentes econômicos já não disponham mais do luxo das “expectativas racionais” de Robert Lucas, agora eles já podem adoptar uma postura oportunista para fazer melhor do que os seus vizinhos. Do ponto de vista social, a continuação de tal processo parece dar um interesse renovado à visão de Friedrich Hayek.

Ao contrário dos neoclássicos dos quais Robert Lucas descendia, Friedrich Hayek acreditava que os agentes eram incapazes de compreender a complexidade das situações econômicas e sociais. Por esta razão, juntamente com Ludwig von Mises, opôs-se ao planeamento socialista das décadas de 1930 e 1940.

A ideia de Friedrich Hayek é simples: se o conhecimento está sempre fragmentado, o Estado não só é incapaz de uma gestão ótima: ele próprio se torna um elemento perturbador. A única forma de coordenação possível é, portanto, o confronto dos interesses individuais no mercado, o que dá origem a uma “ordem espontânea”, em que único equilíbrio é capaz de satisfazer a todos.

Procurando um equilíbrio “menos pior”, por assim dizer, podemos ver a ligação com a policrise: a incerteza fundamental sobre a situação leva a estratégias individuais oportunistas, apresentadas como as únicas verdadeiramente eficazes em tais casos. Essas estratégias têm um lugar ideal: o mercado livre.

É claro que esta não é explicitamente a posição de Adam Tooze e, como argumenta Edgar Morin, um projeto de solidariedade coletiva pode ser construído para enfrentar a policrise. O fato é que a base da teoria da policrise é conservadora. E no contexto da desintegração do paradigma neoliberal, em que o Estado deveria apoiar o desenvolvimento dos mercados, a hipótese da policrise poderia muito bem reavivar a opção de um radicalismo libertário individualista e nacionalista.

Uma crise sem causa?

À primeira vista, então, a noção de policrise parece adequar-se ao mundo que nos rodeia. Mas ele é bem problemático. Uma comparação com o final da Idade do Bronze evidencia isso. Como aponta Eric Cline, se a teoria da complexidade aparentemente oferece uma explicação adequada para o colapso desta civilização, é também porque o nosso conhecimento do período é fragmentário e incompleto.

Nessa perspectiva, invocar a “complexidade” parece ser, de fato, uma solução fácil, uma forma de esconder os limites da nossa reflexão sobre a realidade, quer porque o nosso conhecimento é limitado, como no caso da Idade do Bronze, quer porque se está diante de um quadro que não permite clareza em nossa compreensão da realidade.

Há outra objeção importante à hipótese de Adam Tooze: se os sistemas humanos se tornam mais complexos ao longo da história, porque é que as policrises não são sistemáticas? Por que é que a complexidade leva à desestabilização geral em determinados momentos e não noutros? A noção de policrise não responde a esta questão, o que levanta questões sobre a sua relevância. Se a complexidade nem sempre é sinônimo de crise, pode ser porque o próprio quadro em que esta complexidade é exercida e organizada está em crise.

Adam Tooze considera que a noção de policrise permite acabar com os “monismos”, permitindo que se possa emancipar das explicações monocausais. Aponta especialmente para o marxismo e, em menor grau, para esquemas neoclássicos. Mas também neste caso poderíamos tentar seguir o caminho mais fácil, contentando-nos com uma “fenomenologia” da crise: identificamos os choques, notamos as ligações entre eles, mas desistimos de tentar compreender como e o porquê da perturbação, por que ela aparece num determinado momento da história.

Capitalismo em crise

Assim, portanto, contentamo-nos com a superfície dos acontecimentos e limitamo-nos a tentar encontrar uma forma de evitar ou superar as suas consequências com a ajuda de seguradoras ou gestores de risco. Isto é também o que Adam Tooze faz no seu blog: uma entrada é dedicada a cada faceta da policrise que supostamente demonstra a sua complexidade, mas qualquer outra análise global é descartada.

Tal visão torna-se então quase tautológica: é porque nos recusamos a compreender a dinâmica global – ou não o fazemos – que teorizamos a sua ausência em nome da complexidade. Então é impossível compreender o que move o todo. No final, a noção de policrise equivale a esconder uma hipótese central: que as múltiplas crises atuais estão todas ligadas à incapacidade do sistema capitalista de cumprir as suas funções históricas. Ao falar de uma crise sem causa única, evitamos levantar a questão do esgotamento do próprio capitalismo. Esta é sem dúvida uma das razões do sucesso da noção de policrise em Davos e noutros lugares.

Mas há um fato óbvio que deve ser lembrado: o capitalismo já não é apenas outra forma de gestão econômica. É agora o único modo de funcionamento econômico e social em todo o planeta. A lógica de acumulação e produção de valor generalizou-se. Este monismo que Adam Tooze tanto detesta é, portanto, uma realidade objetiva. Seria, portanto, estranho se um sistema que determina o rendimento de quase todos os países e molda a existência humana não estivesse envolvido como sistema na gestação da crise atual.

Mas se este sistema em si está em crise, não pode ser uma crise isolada entre outras. Por que seria então uma crise no quadro em que ocorrem os outros fenômenos? É a esta hipótese que devemos recorrer se quisermos compreender a multiplicidade das crises e a sua profundidade.

Ao contrário do que sugere Adam Tooze, a existência deste tipo de causa “primária” não é contraditória com um estudo dos diversos e complexos aspectos da crise. É bem possível que a perturbação original assuma várias formas que são transmitidas através de ligações causais e dependências complexas. Mas não compreender tal enquadramento da presente crise é, na realidade, recusar compreendê-la.

A queda na produtividade

Portanto, temos de nos voltar para o capitalismo, que está inegavelmente em crise. O economista marxista Michael Roberts insiste no carácter “limitado” da noção de policrise “na medida em que esconde a base subjacente destas diferentes crises, os fracassos do capitalismo”.

E não são apenas os marxistas que veem as coisas desta forma. Num editorial publicado em 4 de maio de 2023, Olivier Passet, economista do canal econômico Xerfi Canal, falou da crise do capitalismo e de um “modo de produção e consumo que está esgotado”. O declínio constante dos ganhos de produtividade durante meio século é um dos principais sintomas desta crise. Contudo, nenhuma inovação, nem mesmo as revoluções digital e informática, foi capaz de inverter o fenômeno.

O problema da produtividade ocupou os economistas durante décadas, dando origem a debates muitas vezes inconclusivos. Mas a realidade é que o crescimento dos países avançados está em constante declínio, e o abrandamento dos ganhos de produtividade tem muito a ver com isso: as economias com menores ganhos de produtividade sofrem naturalmente pressões sobre a rentabilidade das empresas, ou seja, sobre a sua capacidade de criar valor.

Esta pressão dá origem a reações, ou “contratendências”. Desde a década de 1970, tem havido inúmeras reações deste tipo, desde a globalização e a financeirização até à pressão exercida sobre o trabalho pelas reformas neoliberais e pelo recurso massivo à dívida. O baixo equilíbrio de inflação em que se baseou a economia política após a crise de 2008 é um produto destas tendências contrárias, que contribuíram para limitar o impacto dos aumentos reduzidos da produtividade do trabalho.

Mas à medida que o movimento subjacente persistiu, estas tendências contrárias esgotaram-se e, por sua vez, provocaram novas crises que agora ameaçam o sistema. A financeirização, a globalização e a moderação salarial são, por sua vez, desafiadas pela crise de 2008, pela crise sanitária e pela emergência da inflação. As contratendências são urgentemente improvisadas, mas têm se mostrado inúteis: o sistema está desestabilizado, com óbvias consequências sociais, ambientais e geopolíticas.

Michael Roberts teorizou esta longa crise num livro de 2016 sob o termo “longa depressão”. Ele distingue entre “o que os economistas chamam de recessões […] e depressões”. As recessões são crises econômicas regulares que são rapidamente absorvidas por uma recuperação do nível da atividade. “As depressões são diferentes”, explica o economista inglês, “em vez de emergirem da depressão, as economias capitalistas permanecem deprimidas durante um período mais longo; observa-se, então, um crescimento da atividade, do investimento e do emprego mais baixo do que antes”.

Segundo Michael Roberts, 2008 marca assim o início da terceira depressão na história do capitalismo, depois das de 1873-1897 e 1929-1941. E nada parece capaz, no curto prazo, de tirar o capitalismo desta fase de ocaso. Michael Roberts vê uma “intensificação das contradições do modo de produção capitalista no século XXI”, com três componentes: econômica, ambiental e geopolítica.

A teoria do colapso

Este quadro não nega a complexidade da crise, a sua diversidade, ou mesmo o entrelaçamento das suas consequências para além da própria economia. Mas aponta o esgotamento, no quadro geral da atividade humana, do capitalismo. Esta luta agora para cumprir a sua função histórica: a criação de valor a partir de atividades produtivas. Esta reflexão ecoa naturalmente as de Karl Marx no Livro III de O capital, ampliadas pelo economista polaco Henryk Grossmann, em 1929.

Grossmann apontou o inevitável esgotamento do sistema capitalista devido à própria dinâmica da lei do valor, que leva ao aumento do “trabalho morto” (máquinas) em relação ao “trabalho vivo”, único produtor de valor. No seu modelo, o capitalismo estava preso na sua própria lógica de desenvolvimento, de tal modo que entraria numa crise subjacente permanente. Quanto mais o tempo for passando, mais o capitalismo tentará encontrar tendências contrárias.

Segundo Henryk Grossmann, este esgotamento conduz a um “colapso”, não inevitável e natural, mas sob a forma de uma “crise final” em que a luta de classes se desenrola à escala internacional. “Se estas tendências contrárias enfraquecem ou param, a tendência ao colapso é imposta e concretiza-se na forma absoluta de uma crise final”, escreveu ele.

A lógica de Henryk Grossmann é que o esgotamento do sistema levará à revolução. Mas o seu tradutor australiano, Rick Kuhn, salientou depois que este colapso “é contingente”. “Henryk Grossmann não propõe a ideia de que o capitalismo irá simplesmente entrar em colapso, mas, pelo contrário, será cada vez mais difícil para ele sair das suas crises porque a rentabilidade será cada vez mais baixa”, acrescenta Michael Roberts. Isto é precisamente o que está acontecendo na atual “depressão”.

Se a revolução não estiver na ordem do dia, o que resta é a crise de um sistema que recorre a todos os seus recursos para sobreviver: a guerra, a criação de dinheiro, o apoio público à economia privada, a precipitação tecnológica, a aceleração da devastação ecológica etc.

Mas é uma corrida para o fundo. Podemos imaginar uma recuperação da produtividade e da rentabilidade das empresas graças à inteligência artificial e à robotização, mas será que isto resolverá todas as tensões? Do ponto de vista ambiental é duvidoso, bem como do ponto de vista geopolítico.

É verdade que este quadro explicativo pode levar-nos a pensar que a crise sistêmica é unicamente de origem econômica. Robert Kurz, fundador da escola da “crítica do valor”, adopta uma abordagem diferente de Marx e propõe uma análise mais global da crise capitalista.

No seu livro seminal, O colapso da modernização, publicado em 1991, ele argumenta que existe uma crise generalizada no “sistema mundial de produção de mercadorias”.

No capítulo nono desse livro, ele narra as diversas facetas desta crise e seu caráter intransponível, pintando um quadro não muito diferente do quadro atual da “policrise”. Mas “a razão da crise é a mesma para todas as partes” deste sistema global, diz ele. Isto é o que ele chama de declínio histórico da “substancialidade abstrata do trabalho”.

Com o desenvolvimento das forças produtivas e o aumento contínuo da produtividade, o sistema de mercadorias perdeu a base sobre a qual funciona. Se antes o capitalismo era capaz de encontrar os recursos necessários para se perpetuar, superando barreira, agora isso já não é possível.

“Com este nível de produtividade qualitativamente novo, tornou-se impossível criar o espaço necessário para a acumulação real”, disse Kurz numa entrevista em 2010. Como o trabalho já não era capaz de produzir valor suficiente, era necessário encontrar soluções alternativas, mas todas elas falharam, até mesmo, em última análise, a confiança no Estado. Aqui encontramos uma das características dominantes do período: o recurso ao Estado como salvaguarda do sistema, que abre os capítulos político, social e geopolítico da policrise.

Já em 1991, Robert Kurz não tinha ilusões sobre o “estatismo do fim dos tempos que, através da violência do Estado, persistirá em manter a casca vazia da relação dinheiro-mercadoria, à custa de uma gestão brutal tendente ao terror, isto é, a autodestruição absoluta”. A partir daí, a “dinâmica da crise tomará sucessivamente conta não só de todos os setores da produção de mercadorias, mas também de todas as áreas da vida, que durante décadas se tornaram dependentes da expansão do crédito porque não conseguiam alimentar-se da produção real de excedentes de valor e sua redistribuição social”.

Robert Kurz certamente acredita que existem “esferas diferenciadas” da crise que têm uma lógica própria e estão organizadas a nível socioinstitucional e individual. Estas esferas são parcialmente autônomas. Algumas facetas de sua realidade podem escapar à crise de valor, mas todas elas são afetadas por esta perturbação.

Assim se desenrola a “policrise”, mas esta não pode ser compreendida independentemente da crise da “totalidade social”. A menos que nos limitemos a uma fenomenologia das diferentes esferas e nos recusemos a compreender o ponto de partida e o ponto comum destas perturbações.

A noção de policrise é, portanto, talvez mais superficial do que sugere a sua natureza que se remete à complexidade. Ao se limitar a afirmar que a complexidade é um fato irredutível da vida, quem a utiliza não compreende o funcionamento global das atividades humanas nem a lógica que lhes está subjacente. Tudo o que resta é uma simples observação que conduz a respostas que são, na melhor das hipóteses, defesas passivas e, na pior das hipóteses, oportunismo individual.

Em suma, a noção de policrise ignora a existência de um sistema global dominante que determina os aspectos mais gerais da vida humana: o sistema capitalista. Dado que nada escapa ao domínio das mercadorias, seria surpreendente se a crise das mercadorias fosse um mero epifenômeno de uma crise global.

Esta crise do sistema não significa – e este é o erro fundamental de Adam Tooze – que as perturbações que provoca não sejam complexas e difíceis de prever. Mas as muitas facetas desta crise são sintomas da incapacidade de funcionamento do sistema.

Compreender a policrise como a crise do próprio capitalismo significa que podemos prever soluções que ataquem a lógica do capitalismo e da mercadoria. É mais fácil falar do que fazer, sem dúvida. Neste sentido, as duas visões de Henryk Grossmann e Robert Kurz, por exemplo, são frontalmente opostas: a revolução clássica num caso, a crítica radical de todo o modo de vida ligado à mercadoria no outro.

O que está aqui em conflito são duas visões radicalmente diferentes: a visão metafísica e quietista da policrise, por um lado, e a visão materialista e histórica da superação do capitalismo, por outro. Na realidade, esta distinção trai a distinção entre duas leituras da história: uma conservadora e fatalista, a outra emancipatória e ativa. E é precisamente neste ponto que a noção de policrise se torna problemática.

*Romaric Godin é jornalista. Autor, entre outros livros, de La monnaie pourra-t-elle changer le monde. Vers une écologique et solidaire (10 x 18).

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Publicado originalmente no portal Sin permisso.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Venezuela Militancia comunista en Táchira: el Gobierno de Nicolás Maduro «es corrupto, anticomunista y mentiroso»


(Comunicado).- El presidente de la República, Nicolás Maduro Moros, en un acto con los diputados del Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), dijo que el 2023 había sido un año «bonito» porque le quitó la tarjeta del Gallo Rojo a la militancia comunista, con la ayuda del mercenario Henry Parra. Además, Maduro celebró que su operador político le hubiera robado la personalidad jurídica a la dirección legítima de las y los comunistas venezolanos, asegurando sin prueba alguna que ésta se había entregado a «la corrupción» y «al imperialismo».

Es bueno aclarar que la corrupción está es en el Gobierno y quienes han salido huyendo del país han sido los militantes del PSUV; por ejemplo el exministro Rafael Ramírez, quien además ostentaba el cargo de presidentes de Petróleos de Venezuela (PDVSA). En su momento, el PCV propuso su interpelación ante la Asamblea Nacional porque dejó sin cargo fijo a los trabajadores de PDVSA que se restearon con Chávez en los años 2002, 2003 y 2004. Sin embargo, Ramírez fue protegido por la cúpula del PSUV que dirigía en ese periodo el parlamento nacional, Cilia Flores y Diosdado Cabello. ¿Fue algún militante del PCV quien defendió a los corruptos? ¡No!

Por otra parte, la corrupción ha seguido galopando en el gobierno de Maduro; en la misma PDVSA ha habido administraciones como la de Manuel Quevedo, que salió por su comprobado robo de la gasolina que se importaba y que a pesar de ello goza de buena salud política ya que en la actualidad es Diputado Nacional por el PSUV. Luego, el mandatario nacional Nicolás Maduro nombra al frente de la industria petrolera a Tareck El Aissami y al poco tiempo se ve envuelto en actos de corrupción que llevaron a su renuncia al cargo (desaparecido desde marzo de 2023). También está el caso del diputado del PSUV – Trujillo, Hugbel Roa, parte de una red de corrupción gubernamental en la empresa Petrocedeño, dirigida por sus testaferros y por lo cual le allanaron la inmunidad parlamentaria. ¿Esos corruptos militaban en el PCV? ¡No!

Mientras esa red de corrupción se roba veintitrés mil millones de dólares en menos de tres años, los obreros, trabajadores públicos y empleados en general tienen que soportar no solo las medidas unilaterales impuestas por el imperialismo estadounidense, sino la política antiobrera del Gobierno, pues desde el Ministerio del Trabajo se lanza el Memorando 2792, con el cual se borran de golpe y porrazo las contrataciones colectivas, manteniendo el salario mínimo desde hace más de un año en ciento treinta bolívares mensuales y elaboran el instructivo de la Oficina Nacional de Presupuesto (ONAPRE) que ha reducido a su mínima expresión bonos, primas y demás pasivos laborales. ¿Eso lo hace un gobierno obrero? ¡No!

El gobierno de Maduro, quien emula a los héroes enlatados de la TV gringa, ha venido haciendo pactos con FEDECAMARAS, con AD, COPEI, Primero Justicia, Voluntad Popular (Juan Guaidó), Vente Venezuela (María Corina Machado) y con el Gobierno estadounidense de Joe Biden, quien está imponiendo la agenda electoral al dictaminar a quienes habilitar políticamente. ¿Eso lo hace un gobierno antiimperialista? ¡No!

Entonces, las acusaciones maliciosas hechas por el presidente Maduro, además de ser una mentira del tamaño del cielo, son más bien una confesión de lo que ha sido su gestión, pero que quiere endilgarle al único partido que se ha opuesto a sus políticas corruptas, hambreadoras y proimperialistas.

Nuestro glorioso Partido Comunista de Venezuela tiene una trayectoria de más de 90 años combatiendo tanto la corrupción, la explotación del hombre por el hombre, condenando al imperialismo y a sus gobiernos títeres, lo que nos permite determinar cuándo un gobierno es revolucionario y cuándo es un lacayo del imperialismo con disimulo, como el gobierno actual.

Nuestra condición de marxistas nos permite hacer análisis objetivos sobre los procesos sociales aquí o en cualquier parte del mundo. Marx decía que «los hombres se juzgan por lo que hacen, no por lo que dicen; no por lo que dicen ser, sino por lo que en realidad son» y así mismo se juzgan a las revoluciones y a los revolucionarios.

Por eso y muchas razones más, la militancia del PCV en el estado Táchira, leales al XVI Congreso del PCV, levanta su voz contra el asedio y la censura contra los comunistas venezolanos y contra el vilipendio de este Gobierno, que miente descaradamente para ocultar su verdadera cara neoliberal, antiobrera y anticomunista.

¡COMBATIR LA CORRUPCIÓN ESTÉ DONDE ESTÉ!

¡GOBIERNE QUIEN GOBIERNE LOS DERECHOS SE DEFIENDEN!

¡FUERA MANOS DEL PCV!

       Fuente: PCV e Diario Octubre

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Faleceu Antonio Negri

 Antonio Negri, também conhecido como Toni Negri, foi um filósofo político famoso e controverso nos círculos marxistas ou influenciados pelo marxismo, académico e militante político italiano. Tradutor dos escritos de Filosofia do Direito de Hegel, especialista em Descartes, Kant, Espinosa, Leopardi, Marx e Dilthey, O seu estudo sobre Baruch Espinosa é merecidamente inovador e influente. Neste século outras obras alcançaram enorme difusão e discussão , nomeadamente IMPÉRIO, MULTIDÃO.

Nascimento: 1 de agosto de 1933, Pádua, Itália
Falecimento: 16 de dezembro de 2023, Paris, França
 Antonio Negri - WikipediaSpinoza Subversivo

domingo, 7 de janeiro de 2024

SUSANA KHALIL---Fundadora da Associação CANAAN Susana Khalil recebeu um BA em Ciência Política da Universidade de Quebec, Canadá. Ela é ativista da Palestina e pesquisadora independente com foco na história antiga da Palestina e no movimento sionista como uma forma de colonialismo europeu. Ela é a fundadora da Associação Succour para o Povo Palestino, CANAAN, uma associação de direitos humanos na Venezuela. Nos últimos cinco anos, a CANAAN produziu um programa de rádio nacional – “Palestina: 11.000 anos de história”, que Khalil apresentou. A organização também realizou em várias ocasiões o Festival Internacional: “Evento Acadêmico e cultural: Palestina: 11.000 anos de história”. A CANAAN pratica o ativismo cultural, acadêmico, pedagógico, educacional, social e político, não apenas para a Palestina, mas para toda a pátria árabe, com a esperança de neutralizar todas as formas de preconceito contra as comunidades árabes.

 

SUSANA KHALIL. Palestina y la izquierda ramera

Publicado:

Decir a estas alturas (ante el exterminio del pueblo semita palestino) que Hamas es un «grupo terrorista» puede ser una afirmación ingenua, por no decir ignorante, y si hay alguien de la izquierda que lo dice, es una actitud inmadura y demagógica, cayendo en una postura criminal, siendo una postura que beneficia al fascismo imperial y colonial.

Decir a estas alturas que Hamas es un grupo terrorista, que esos ataques no se justifican, que es grave lo que ha hecho, que no se debe usar la violencia, que la violencia no es la solución.  Decir esto, es un desconocimiento no solo de la dolorosa realidad del pueblo nativo palestino sino, de la sobrevivencia como pueblo y es además desconocer la amenaza fascista imperial que atraviesa la historia contemporánea mundial.

En general existe mucha demagogia intelectual y la izquierda no escapa a ella. Es muy cómodo condenar a Hamas e igualmente sabemos del sofisticado miedo que no nos permite ser completamente honestos.

Hay que ser más respetuoso en no imponer o dictar al otro, cómo debe luchar.

La Causa Palestina se encontraba camino al matadero, estábamos asistiendo a su féretro. Desde Oslo, donde fueron burlados los acuerdos de paz. La Normalización, donde algunas petro tiranías árabes están abiertamente a favor de ese colonialismo y de espaldas a su pueblo hermano palestino. Donde amargamente el pueblo nativo semita palestino sufre la humillante traición de la Autoridad Palestina. El activismo pacífico es igualmente censurado. Hamas irrumpe a través de una acción militar contra ilegales colonos, en territorio Palestino.

Justamente este episodio de la Causa Palestina debería servir a una reflexión revolucionaria y no al confort intelectual del Statut Quoi.

El Statut Quoi es la guillotina. Es la muerte miserable e indigna. Si el pueblo nativo semita palestino se rinde, se confinaría a su desaparición. Si el pueblo nativo semita palestino lucha tal vez sea exterminado. Pero hay que dejar claro, que es mejor desaparecer en lucha y no desaparecer rindiéndose  a través de impostores discursos  humanistas. 

El pueblo nativo palestino no solo está derramando su sangre por la liberación de su pueblo sino que se encuentra protegiendo a toda la humanidad ya que se enfrenta al movimiento fascista más poderoso de nuestro tiempo, el sionismo. Es por eso que es tan difícil la Causa Palestina, es por eso que existe tanta cobardía disfrazada de estrategia y de solo imponer la lucha pseudo pacífica.

Nos vendieron que se trata de un conflicto difícil debido a que es complejo, milenario, religioso, no, todo eso es una alienante mentira. Lo difícil es debido a que es un pueblo nativo que se enfrenta al fascismo más poderoso de nuestro tiempo histórico, el sionismo. Es una lucha que se enfrenta directamente al poder imperial.

Lo difícil de la Causa Palestina, es nuestra elegante cobardía. 

El espectro de la izquierda no toca la raíz de la Causa Palestina, aunque muchos palestinos y árabes en general tampoco. La izquierda sigue el patrón colonial occidental, habla de esa tramposa propuesta de dos Estados (dos Estados es una modalidad colonial). No lo asume como un régimen colonial, lo condena y maldice pero a su vez sostiene que «Israel» tiene el derecho a existir (ningún colonialismo tiene derecho a existir). Habla del “Pueblo Judío”, cuando en realidad son europeos conversos a la religión Judía y se disfrazan de “Pueblo Judío, de Semitas, de Hebreos” para colonizar Palestina. La izquierda forma parte de ese círculo que orgánicamente no afecta al eurocéntrico fascismo sionista.

La lucha armada

Si bien es verdad que la lucha armada no es lo ideal, es también verdad que es inmoral  no hacer uso de ella ante el exterminio que ejerce ese colonialismo eurocéntrico israelí.

Hamas forma parte de la diversidad política del pueblo nativo palestino. Hamas es un partido político palestino de postura en pro de la lucha armada ante el colonialismo y de línea religioso. 

En los estatutos de Hamas tiene absolutamente prohibido realizar cualquier acto armado fuera de Palestina. Este grupo político religioso, sostiene que es un pecado, un acto de terror realizar atentados fuera del suelo nacional que buscan liberar. Contrariamente a los grupos políticos seculares palestinos que sí cometían atentados fuera de Palestina, como los actos terroristas que cometían en Europa.

Por otra parte existe una represiva atmosfera dirigida a castrar, a cercenar cualquier acto de lucha armada. Esta represión, la ejecutan entre otros las fuerzas de dominación fascistas, mediante la tramposa instrumentalización de los valores humanos, ejemplo: no a la violencia, no a la guerra, la guerra no es la solución. Algo así como: no se puede ser demócrata o feminista y apoyar una lucha armada. …la lucha debe ser pacífica, en el combate de las ideas, en la fuerza del dialogo, en la dialéctica del debate. Es cómo decir, no a la lucha armada aunque tal negación sirva al exterminio del pueblo nativo palestino.

La caída del anacronismo colonial de «Israel», sería la pérdida del control imperial estadounidense en todo el Levante, esto sería el crónico declive de la bestialidad imperial y un triunfo de la soberanía de los pueblos árabo-perso-kurdo. Sería un aporte a la consolidación de un mundo más multipolar. Un mundo que da paso a un orden internacional más democrático y equitativo.

Sin tabú y sin miedo, sí, creo en la liberación del pueblo nativo, arabo-semita, palestino, levantino, cananeo de la Gran Siria. Sí, fin del colonialismo eurocéntrico israelí. Ahora la población que porta el gentilicio colonial israelí pasaría a portar el gentilicio nativo palestino. Me opongo a que sean expulsados, esto sería moralmente un atentado a la madre Causa Palestina.

El histórico y digno rol de los pueblos nativos ante la barbarie colonial es combatirlos. 

Si un elemento tan vital como lo es la lucha anti imperialista, antifascista y anticolonial no prevalece en la conciencia de la Izquierda, no creo que sea una izquierda que esté comprometida con la justicia humana.

Que la oportunista actriz estadounidense Angelina Jolie condene los atentados de Hamas, lo podemos comprender, pero cuando son figuras de la izquierda quién lo dice, esto los convierte no solo en demagogos, desconocedores e insensibles sino en arlequines funcionales de la atrofia e inhumanidad imperial. 

(Al Mayadeen)

O Império do Caos em ação

 

Yemen está listo para hacer frente a una nueva coalición imperial

Nadie perdió nunca dinero apostando por la capacidad del 'Imperio del Caos, la Mentira y el Saqueo' para construir una 'Coalición de los dispuestos' cuando se enfrenta a un dilema geopolítico.

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© AP Photo / Hani Mohammed
© AP Photo / Hani Mohammed

Pepe Escobar.— En todos los casos, debidamente amparados por el imperante orden internacional basado en reglas, el término dispuestos se aplica a vasallos seducidos por zanahorias o palos para seguir al pie de la letra los caprichos del Imperio.

Saltemos al último capítulo: la Coalición Prosperidad Genocida, cuya denominación oficial, heroica, marca registrada de los magos de las relaciones públicas del Pentágono, es Operación Guardián de la Prosperidad, supuestamente dedicada a “garantizar la libertad de navegación en el mar Rojo”.

Traducción: esto es Washington prácticamente declarando la guerra a los hutíes de Yemen. Ya fue enviado un destructor estadounidense adicional al mar Rojo.

Ansarolá permanece firme y no permite intimidación en lo absoluto. Los militares hutíes ya subrayaron que cualquier ataque contra los activos yemeníes o las bases de lanzamiento de misiles de Ansarolá teñiría todo el mar Rojo literalmente de ese color.

Los militares hutíes no solo reafirmaron que disponen de “armas para hundir sus portaviones y destructores”, sino que hizo un impresionante llamamiento tanto a los suníes como a los chiíes de Baréin para que se rebelen y derroquen a su rey, Hamad Jalifa.

Previamente, incluso antes del inicio de la operación, el portaviones Eisenhower estaba a unos 280 km de las latitudes más cercanas controladas por Ansarolá. Los hutíes disponen de misiles balísticos antibuque Zoheir y Jalij e Fars con un alcance de 300 a 500 km.

El miembro del Consejo Político Supremo de Ansarolá, Muhamed Bujaiti, se sintió obligado a volver a subrayar lo obvio: “Aunque Estados Unidos logre movilizar al mundo entero, nuestras operaciones en el mar Rojo no serán detenidas a menos que cese la masacre en Gaza. No renunciaremos a la responsabilidad de defender a los mustazafeen [oprimidos] de la Tierra”.

Más vale que el mundo esté preparado: un “portaviones hundido” puede convertirse en el nuevo 11-S.

La navegación en el mar Rojo sigue abierta

El vendedor ambulante de armas Lloyd Raytheon Austin, en su actual puesto de puerta giratoria como jefe del Pentágono, está visitando Asia Occidental, principalmente Israel, Catar y Baréin, para promover esta nueva “iniciativa internacional” para patrullar el mar Rojo, el estrecho de Bab el Mandeb (que une el mar Arábigo con el mar Rojo) y el golfo de Adén.

Como señaló Bujaiti, la estrategia de Ansarolá consiste en atacar cualquier barco vinculado a empresas israelíes, o que abastezca a Israel, que navegue por el mar Rojo, algo que para los yemeníes demuestra su complicidad con el genocidio de Gaza. Esto solo cesará cuando cese el genocidio.

Con un solo movimiento —un bloqueo marítimo de facto— Ansarolá demostró que el rey está desnudo: Yemen hizo más en la práctica por defender la causa palestina que la mayoría de los principales actores regionales juntos. Por cierto, a todos ellos Netanyahu les ordenó en público que se callaran. Y así lo hicieron.

Es bastante instructivo ir una vez más por el dinero. El golpe fue muy fuerte para Israel. El puerto de Eilat está prácticamente cerrado y sus ingresos cayeron un 80%.

Por ejemplo, el gigante naviero taiwanés Yang-Ming Marine Transport Corporation planeó en un principio desviar su carga con destino a Israel al puerto de Asdod. Luego cortó cualquier envío a cualquier destino israelí.

No es de extrañar que Yoram Sebba, presidente de la Cámara Naviera de Israel, se revelara perplejo ante las “complejas” tácticas de Ansarolá y sus criterios “no revelados”, que impusieron una “incertidumbre total”. Arabia Saudita, Egipto y Jordania también han caído en la red yemení.

Es crucial mantener en perspectiva que Ansarolá solo bloquea los barcos que están dirigidos a Israel. La mayor parte de la navegación marítima en el mar Rojo sigue abierta.

Por lo tanto, la decisión del gigante naviero Maersk de no utilizar el mar Rojo, junto con otros gigantes del transporte marítimo mundial, puede estar forzando demasiado las cosas, como para casi rogar que se ponga en marcha una patrulla liderada por Estados Unidos.

El ingreso de la CTF 153

Hasta ahora, por un lado, tenemos a Yemen prácticamente gobernando el mar Rojo. En el otro lado, encontramos el tándem Emiratos Árabes Unidos-Arabia Saudita-Jordania, en forma de un corredor terrestre de carga alternativo establecido desde el puerto de Jebel Ali, en el golfo Pérsico, a través de Arabia Saudita hasta Jordania y luego Israel.

El marco general de todo esto es el plan Un Solo Israel, promovido con entusiasmo por Netanyahu, cuyo objetivo clave es una conexión con la península arábiga y, sobre todo, la metrópolis tecnológica NEOM, que estará construida teóricamente para 2039 en la provincia noroccidental de Tabuk en Arabia Saudita, al norte del mar Rojo, al este de Egipto, a través del golfo de Áqaba, y al sur de Jordania.

NEOM es el proyecto de Mohamed bin Salmán para modernizar el país, que por cierto, contará con ciudades con inteligencia artificial, operadas por Israel.

Esto es por lo que realmente apuesta Riad, mucho más que por estrechar relaciones con Irán en el marco de los BRICS+. O por preocuparse por el futuro de Palestina.

Sin embargo, en cuanto al previsto bloqueo naval de Yemen, los saudíes fueron mucho más circunspectos. Incluso cuando Tel Aviv pidió directamente a la Casa Blanca que hiciera algo, cualquier cosa, Riad “aconsejó” a Washington que ejerciera cierta moderación.

Sin embargo, como pocas cosas son más importantes para los psicópatas neoconservadores straussianos, quienes dirigen actualmente la política estadounidense, que el proteger los intereses comerciales en el mar Rojo de su ‘portaviones en Asia Occidental’, la decisión de crear una coalición era prácticamente inevitable.

Se trata de la última, en realidad cuarta, encarnación de la Fuerza Marítima Combinada (CMF): una coalición multinacional de 39 naciones creada en 2002 y dirigida por la Quinta Flota estadounidense en Baréin.

El grupo operativo ya existe: es la CTF 153, centrada en “la seguridad marítima internacional y los esfuerzos de capacitación en el mar Rojo, Bab el Mandeb y el golfo de Adén”. Esa es la base de la Coalición Prosperidad Genocida.

Entre los miembros de la CTF 153 figuran, además de los sospechosos habituales, Estados Unidos, el Reino Unido, Francia y Canadá, europeos como Noruega, Italia, Países Bajos y España, la superpotencia Seychelles y Baréin (el elemento de la Quinta Flota).

Arabia Saudita y Emiratos Árabes Unidos, crucialmente, no son miembros. Saben, después de una guerra de siete años cuando formaban parte de otra “coalición” (donde EEUU estaba en cierto modo “liderando desde atrás”), lo que significa luchar contra Ansarolá.

Todos a bordo de la Ruta Marítima del Norte

Si la situación en el mar Rojo se torna realmente roja, hará añicos instantáneamente el alto al fuego entre Riad y Saná. La Casa Blanca y el deep state estadounidense simplemente no quieren un acuerdo de paz. Quieren a Arabia Saudita en guerra con Yemen.

Si el mar Rojo se tiñe de rojo, la crisis energética mundial también caerá en picada. Después de todo, al menos 4 millones de barriles de petróleo y el 12% del total del comercio marítimo mundial con Occidente transitan por el Bab el Mandeb cada día.

Así que una vez más tenemos la confirmación gráfica de que el Imperio del Caos, la Mentira y el Saqueo solo pide un alto al fuego cuando está perdiendo fuerte: véase el caso de Ucrania.
Sin embargo, la ausencia de un alto al fuego en Gaza, apoyado por la inmensa mayoría de los Estados miembros de la ONU, corre el riesgo de convertirse en una metástasis de la expansión de la guerra en Asia Occidental.

Ello podría encajar en la torpe lógica imperial de prender fuego al Oriente Medio para perturbar el impulso comercial de la Iniciativa de la Franja y la Ruta de China y la entrada de Irán, Arabia Saudita y Emiratos Árabes Unidos en los BRICS ampliado en enero. Al mismo tiempo, y en sintonía con la ausencia de una verdadera planificación estratégica en Washington, esto no tiene en cuenta una serie de terribles consecuencias imprevistas.

Así que, según la óptica imperial, el único camino a seguir es una mayor militarización, desde el Mediterráneo hasta el canal de Suez, el golfo de Áqaba, el mar Rojo, el golfo de Adén, el mar Arábigo y el golfo Pérsico. Esto encaja exactamente en el marco de la guerra de los corredores económicos.

Un axioma debería estar grabado en piedra: Washington prefiere apostar por una posible y profunda recesión mundial que simplemente permitir un alto al fuego humanitario en Gaza. La recesión bien podría turboalimentar un colapso económico generalizado del Occidente colectivo y un ascenso aún más rápido de la multipolaridad.

Para ofrecer el alivio necesario a tanta locura: casi casualmente, el presidente Putin comentó recientemente que la Ruta Marítima del Norte se está convirtiendo en un corredor de comercio marítimo más eficiente que el canal de Suez.

Fuente: Diario Octubre

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