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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Um texto fundamental

A relevância contemporânea de Marx

Claudio Katz*    13.Jun.17    
Este texto que o diário.info hoje publica exige a mais ampla divulgação. Texto profundamente pedagógico, é em si uma notável expressão do valor e da actualidade do marxismo. Marx e Engels identificaram os aspectos essenciais do capitalismo do seu tempo e, ao mesmo tempo, construíram o método de análise que permite compreender as suas tendências de evolução – que em muitos aspectos anteciparam -, os seus limites, as suas cíclicas e inevitáveis crises. «A grande crise que rebentou em 2008 recolocou O Capital num lugar preponderante da literatura económica.»
A comemoração do 150º aniversário de O Capital renovou o debate sobre as contribuições legadas por Marx para a compreensão da sociedade actual. O texto continua a suscitar apaixonadas adesões e fanáticas rejeições, mas já não exerce a enorme influência que teve nos anos 60 e 70. Também não sofre o esquecimento que acompanhou o desmoronamento da União Soviética. Nenhum investigador probo ignora actualmente o significado do livro e as releituras trespassam a academia e a influência que exerce sobre numerosos pensadores.
O interesse por Marx verifica-se entre os economistas que salientam a sua antecipação da mundialização. Outros descobrem uma precoce interpretação da degradação do meio ambiente e ligam a ausência de soluções ao desastre ecológico, com a crise civilizacional prevista pelo teórico alemão.
A sua obra é retomada com maior frequência para caracterizar a etapa neoliberal. Vários autores investigam as semelhanças desse esquema com o «capitalismo puro» e desregulado que prevalecia na época de Marx.
Num tempo de privatizações, abertura comercial e flexibilização laboral transparecem traços que estavam ocultos durante a fase keynesiana.
Os diagnósticos do pensador alemão recuperaram nitidez no século XXI.
A grande crise que rebentou em 2008 recolocou O Capital num lugar preponderante da literatura económica. O desmoronamento financeiro não desembocou apenas numa impactante recessão. Além disso, precipitou uma expansão inédita da despesa pública para socorrer os bancos.
Marx retoma importância neste cenário de agudos desequilíbrios capitalistas. Por esta razão, as suas explicações sobre o funcionamento e a crise do sistema são revisitadas com grande atenção.
Do mesmo modo, alguns analistas pensam que as suas respostas perderam actualidade ao cabo de 150 anos. É evidente que o regime vigente é muito diferente do que imperava no período que o escritor alemão o conheceu. O registo destas diferenças contribui para evitar as descobertas dogmáticas do «já Marx disse» sobre acontecimentos que lhe sucederam.
Mas convém também recordar que o estudioso alemão investigou o mesmo modo de produção vigente na actualidade. Esse regime continua regulado pelas mesmas leis e sujeito aos mesmos princípios. Todas as denominações que ocultam essa persistência (economia apenas, mercado, modernidade, pós-industrialismo) obstruem a compreensão do capitalismo da nossa era.
A obra de Marx manterá o seu interesse enquanto subsistir uma estrutura económico-social governada pela concorrência, o lucro e a exploração. Mas quais são os aspectos mais pertinentes da sua teoria para clarificar o actual modelo neoliberal?
Refutações falhadas
Marx captou a especificidade do capitalismo corrigindo as inconsistências dos seus antecessores da economia política clássica. Manteve a indagação totalizadora da economia que Smith e Ricardo encararam, superando as ingenuidades da «mão invisível». Ao descobrir as obstruções com que o capitalismo se depara revolucionou o estudo desse modo de produção.
O autor de O Capital compreendeu que essas tensões são inerentes ao sistema. Destacou que os desequilíbrios não provêm do comportamento ou da irracionalidade dos indivíduos, nem obedecem à inadequação das instituições.
Marx demonstrou que o capitalismo está corroído por contradições singulares e distintas das prevalecentes em regimes anteriores. Essa compreensão permitiu-lhe transformar as críticas intuitivas numa impugnação coerente do capitalismo.
A ortodoxia neoclássica tentou refutar os seus questionamentos com toscos panegíricos do sistema. Concebeu insustentáveis fantasias de mercados perfeitos, de consumidores racionais e efeitos benévolos do investimento. Recorreu a uma acumulação de inverosímeis mitos, que contrastam com as aproximações realistas assumidas por Marx.
Os precursores do neoliberalismo não conseguiram desmentir o carácter intrínseco dos desequilíbrios capitalistas. Ensaiaram uma apresentação forçada dessas tensões como resultado de ingerências estatais, sem explicar por que razão o próprio sistema recria tantos desajustamentos.
Os critérios neoclássicos da maximização – complementados com as sofisticadas formalizações para solucionar alternativas – ignoram a lógica geral da economia. Reduzem a investigação nessa disciplina a um simples adestramento em exercícios de optimização.
O actual predicamento dessa abordagem não provém, pois, da sua solidez teórica. É assinalado pelas classes dominantes para difundir justificações dos atropelos aos assalariados. Instrumentalizam essas agressões alegando exigências naturais da economia. Sublinham, por exemplo, a impossibilidade de satisfazer as reclamações populares por restrições derivadas da escassez. Mas omitem o carácter relativo dessas limitações, apresentando-as como dados atemporais ou invariáveis.
A hostilidade dos neoclássicos a Marx contrasta com o reconhecimento exibido pela maioria da heterodoxia. Alguns autores dessa vertente, inclusive, procuraram a inclusão da economia marxista num campo comum de opositores da teoria neoclássica. Esta pretensão ilustra áreas de afinidade, mas esquece que a concepção forjada a partir de O Capital conforma um corpo contraposto à herança de Keynes.
A diferença principal entre ambas as visões radica na valoração do capitalismo. A heterodoxia aceita o carácter conflituoso do sistema, mas considera que essas tensões podem ser resolvidas através de uma adequada acção estatal.
Diferentemente, Marx postulou que essa intervenção só pospõe (e por fim agrava) os desequilíbrios que pretende resolver. Com este balizamento colocou as bases de uma tese de grande actualidade: a impossibilidade de forjar modelos de capitalismo humano, redistributivo ou regulado. Todo o pensamento marxista contemporâneo defende esta posição.
Mais-valia e superexplorados
Marx formulou substanciais observações para a compreensão da actual deterioração do salário. O modelo neoliberal generalizou essa retracção ao intensificar a concorrência internacional. A abertura comercial, a pressão por menores custos e o império da concorrência são utilizados para esmagar os recebimentos populares em todos os países. Os patrões recorrem à chantagem de relocalização das fábricas ou a deslocações efectivas da indústria para Oriente – para embaratecer a força de trabalho.
Esse atropelo obedece a crescentes taxas de exploração que exigem a acumulação. Marx esclareceu a lógica desta pressão quando distinguiu o trabalho da força de trabalho, quando separou o trabalho necessário dos excedentes e registou que porção da jornada laboral remunera efectivamente o dono da empresa.
Com essa exposição ilustra como actua a apropriação patronal do trabalho alheio. Apontou que essa confiscação fica mascarada pela inovadora coerção económica que impera sob o capitalismo. Diferentemente do escravo ou do vassalo, o assalariado é formalmente livre, mas está submetido às regras da sobrevivência impostas pelos seus opressores.
Marx fundamentou esta análise no seu descobrimento da mais-valia. Demonstrou que a exploração é uma necessidade do sistema. Mas também sublinhou que a queda do salário é um processo periódico e variável. Destacou que depende de processos objectivos (produtividade, base demográfica), conjunturais (ciclos de prosperidade ou de recessão) e subjectivos (intensidade e desenlace da luta de classes.
Esta caracterização permite compreender que o fundamento do atropelo neoliberal em curso é uma generalizada compulsão capitalista para elevar a taxa de mais-valia. Indica também que a intensidade e o alcance desta agressão são determinados pelas condições económicas sociais e políticas vigentes em cada país.
A teoria do salário de Marx situa-se nos antípodas das falácias neoclássicas de redistribuição do esforço do trabalhador. Também rejeita a ingenuidade heterodoxa de invariáveis melhorias acordadas na redistribuição dos recebimentos.
Mas é uma abordagem afastada de qualquer postulado de «miséria crescente». O teórico alemão nunca prognosticou o inexorável empobrecimento de todos os assalariados sob o capitalismo. A significativa melhoria do nível de vida popular corroborou essas prevenções.
Na etapa neoliberal o salário volta a cair pela necessidade cíclica com que o capitalismo se defronta de acrescentar a taxa de mais-valia, através de cortes nas remunerações dos trabalhadores.
Além disso, Marx apresentou um segundo tipo de caracterizações referidas aos desocupados da sua época, que tem especial interesse para a actual compreensão da exclusão. Este flagelo obedece a pressões da acumulação semelhantes às estudadas pelo pensador germânico, na sua avaliação da pauperização absoluta.
O intelectual europeu ficou muito abalado pelas terríveis consequências do desemprego estrutural. Ilustrou com violentas denúncias as condições inumanas de sobrevivência enfrentadas pelos empobrecidos. Esses retratos voltam a ter actualidade nos casos de perda definitiva do emprego e consequente degradação social. O que Marx investigou na sua descrição do «leprosário da classe operária» reaparece hoje no drama dos subjugados pela tragédia da subsistência.
O neoliberalismo alargou a pauperização a grande parte dos trabalhadores informais ou flexibilizados. Esses segmentos suportam não só situações de sujeição laboral extrema, taylorização ou desclassificação, mas também remunerações do salário muito abaixo do valor da força de trabalho.
Nas últimas décadas esse tormento não impera apenas na periferia. A precarização estendeu-se a todos os cantos do planeta e verifica-se nos diversos centros. O nível dos salários continua a diferir de forma significativa nos diversos países, mas a exploração redobrada verifica-se em numerosas regiões. É um sofrimento agudo no centro e dramático na periferia. O que Marx observava entre os desocupados da sua época também açoita actualmente grande parte dos precarizados de todas as latitudes.
Desigualdade e acumulação
As ideias expostas pelo autor de O Capital permitem interpretar a explosão de desigualdade recentemente medida por Pikety. Os dados são angustiantes. Um punhado de 62 bilionários tem o mesmo montão de recursos que 3.600 milhões de indivíduos. Enquanto se desmorona a segurança social, expande-se a pobreza, os magnatas desfinanciam os sistemas de previsão, escondendo as suas fortunas em paraísos fiscais.
A desigualdade não é o fenómeno passageiro que descrevem os teóricos ortodoxos. Os expoentes mais realistas (ou cínicos) dessa corrente explicitam a conveniência da iniquidade para reforçar a submissão dos assalariados.
A fractura social actual é frequentemente atribuída à preeminência de modelos económicos regressivos. Mas Marx demonstrou que a desigualdade é inerente ao capitalismo. Sob esse sistema as diferenças de recursos variam em cada etapa, diferem significativamente entre países e estão condicionadas pelas conquistas populares ou a correlação de forças entre opressores e oprimidos. Em todos os casos o capitalismo tende a recriar e a alargar as brechas sociais.
Marx atribuiu essa reprodução da desigualdade à dinâmica de um sistema assente nos lucros derivados da mais-valia extraída dos trabalhadores. O Capital sublinha esse traço na polémica com outras interpretações do lucro, centradas na astúcia do comerciante. Também objecta as caracterizações que sublinham as retribuições à contribuição do empresário, sem especificar em que consiste essa contribuição.
Os neoclássicos nunca conseguiram refutar essas posições, com a sua apresentação do lucro como um prémio à abstenção do consumo ou ao aforro individual. Mais insatisfatórias foram as suas caracterizações de retribuições a um inanimado «factor capital» ou a pagamentos das funções de gerente separadas da propriedade da empresa.
Idênticos desacertos cometeram os keynesianos ao interpretar o lucro como uma contraprestação do risco ou da inovação. Os pensadores mais contemporâneos dessa escola optaram por desviar o olhar de qualquer referência à origem do lucro.
Outros teóricos reconhecem a iniquidade do sistema, mas reduzem a origem da desigualdade a anomalias na distribuição dos recursos, devido a favoritismos ou políticas erradas. Nunca ligam esses processos com a dinâmica do capitalismo.
As caracterizações convencionais do lucro são mais insustentáveis no século XXI que no tempo de Marx. Ninguém pode explicar com critérios normais as monumentais fortunas acumuladas pelo 1% dos bilionários globais. Esses lucros, sem justificações de qualquer índole, são hoje mais naturais que no passado.
As críticas hoje em voga ao enriquecimento, no máximo, questionam os escandalosos lucros dos banqueiros. Em contrapartida, ponderam os lucros surgidos da produção sem avaliar as ligações entre ambas as formas de rentabilidade.
A releitura de O Capital permite recordar que a fatia obtida pelos banqueiros constitui, apenas, uma porção da massa total dos lucros criada com a exploração dos trabalhadores.
Marx analisou também as formas violentas que, em certas circunstâncias assume a captura de lucros. Avaliou essa tendência em estudos da acumulação primitiva, que foram utilizados pelos teóricos da acumulação como despossessão (Harvey).
Em O Capital investigou as formas coercivas que apresentou a apropriação de recursos na génesis do capitalismo. Mas o sistema continuou a recriar essas exacções em diferentes situações do século e meio posterior. As guerras do Médio Oriente, os saques em África ou as expropriações dos camponeses na Ásia ilustram diferentes modalidades recentes dessa sucção.
Marx inaugurou o estudo de formas excepcionais da confiscação do trabalho alheio. Essa investigação assentou as bases para a clarificar a dinâmica contemporânea da inflação ou da deflação.
Tal como os seus precursores clássicos, Marx postulou uma determinação objectiva dos preços em função do seu valor. Precisou que essa magnitude fica estabelecida pelo tempo de trabalho socialmente necessário à produção dos bens, em convulsivos processos de extracção de mais-valia e realização de valor.
Essa caracterização não só permite refutar a ingénua apresentação neoclássica dos preços como reflexos da utilidade pessoal, ou como espontâneos emergentes da oferta e da procura. Desmonta também a absurda imagem do capitalista como vítima de escaladas inflacionárias ou deflacionárias, alheias à sua conduta.
Nas conjunturas críticas, a determinação turbulenta dos preços reproduz lucros extraordinários aos grandes patrões, através de abruptas desvalorizações do salário. Esses mecanismos operam actualmente com a mesma intensidade que as expropriações violentas da época de Marx.
O Capital facilitou a identificação posterior de quem são os artífices e os beneficiários do nível que os preços assumem. Essa caracterização não se limita a retratar situações de «luta distributiva». Sublinha a desigualdade de condições em que os trabalhadores disputam com os patrões e ressalta a consequente dominação que exercem os formadores de preços.
Desemprego e inovação
A actual massificação do desemprego constitui outra razão para ler Marx. Alguns pensadores neoclássicos assumem essa calamidade com um simples dado. Outros trombeteiam conselhos sobre a potencialidade futura dos serviços, para compensar a queda do emprego industrial. Em nenhum país essas previsões foram corroboradas.
Muitos analistas afirmam que a educação resolverá o problema. Mas esquecem-se de mencionar o crescente número de desocupados com títulos universitários. A destruição de postos de trabalho afecta já severamente os segmentos mais qualificados.
Diferentes medições começaram a registar que no modelo actual o desemprego não se reduz nas fases expansivas, em proporção equivalente ao seu incremento nos períodos recessivos. Este flagelo aumenta com a elevada rotação do capital e a vertiginosa redução dos gastos administrativos.
A revolução digital é invariavelmente mencionada como a causa principal de esta crescente perda de postos de trabalho. Mas os computadores são culpabilizados, omitindo os que definem a sua utilização. Esquece-se que esses instrumentos nunca atuam por si-mesmos. São geridos por capitalistas que multiplicam os seus lucros substituindo mão-de-obra. A informática e a automatização não destroem o emprego espontaneamente. A rentabilidade empresarial é que provoca essa demolição.
O Capital introduziu os principais fundamentos desta caracterização da mudança tecnológica. Marx afirmou que as inovações são incorporadas para incrementar a taxa de exploração que alimenta o lucro patronal.
A revolução informática em curso ajusta-se totalmente a este postulado. É um recurso utilizado pelas grandes empresas para potenciar a captura do novo valor gerado pelos assalariados.
Tal como ocorreu no passado com o vapor, o caminho-de-ferro, a electricidade ou os plásticos, a digitalização introduz transformações radicais na actividade produtiva, comercial e financeira. Embaratece o transporte e as comunicações e modifica completamente aos procedimentos de fabricação ou venda das mercadorias.
Um indício desta mutação é a influência alcançada pelos «senhores das nuvens». Sete das dez empresas com maior capitalização bolsista actual pertencem ao sector das novas tecnologias da informação. Há uma década e meia as firmas com mais capacidade financeira eram petrolíferas, industriais ou automotrizes. Hoje são a Google, Amazon, Facebook ou Twitter.
Esta irrupção suscita presságios felizes entre os pensadores que ocultam as consequências da gestão capitalista da informática. Omitem por exemplo, que a massificação da comunicação digital reforçou a privatização do espaço virtual. Esse é controlado por poucas empresas privadas estreitamente associadas ao Pentágono. O Capital permite entender as determinantes capitalistas deste perfil da inovação.
Marx iniciou a indagação da tecnologia como fenómeno social, abrindo um caminho dos estudos que floresceu nas últimas décadas. Mas diferentemente dos teóricos evolucionistas e schumpeterianos demonstrou que a alteração tecnológica desestabiliza a acumulação e potencia a crise.
A inovação guiada por princípios de lucro impõe uma encarniçada concorrência que multiplica a sobreprodução. Além disso, induz a hierarquizar o desenvolvimento de ramos tão destrutivos como a indústria militar.
Marx explicou por que razão o actual sistema impede uma gestão social proveitosa das novas tecnologias. Assinalou que essa gestão social requeria citérios de cooperação opostos aos princípios da rentabilidade. As potencialidades da informatização como instrumento de bem-estar e solidariedade só emergirão numa sociedade emancipada do capitalismo.
Multiplicidade de crises
Actualmente, Marx suscita um interesse especial pelos critérios que enunciou para interpretar as crises. O neoliberalismo não provoca apenas crescentes sofrimentos. Cada quinquénio ou decénio desencadeia convulsões que abalam a economia mundial. Essas perturbações induzem o estudo de O Capital.
As crises do último período incluíram a bolha japonesa (1993) a eclosão do Sudeste asiático (1997), o desabar da Rússia (1998), o desmoronamento das empresas ponto.com (2000) e o descalabro da Argentina (2001). Mas a magnitude e o alcance geográfico do abanão global de 2008 superaram amplamente aqueles antecedentes. O seu impacte obrigou à revisão das teorias económicas.
As recentes crises são efeitos directos da nova etapa de privatizações, de abertura comercial e flexibilidade laboral. Não são prolongamentos de tensões irresolutas dos anos 70. Emergiram no calor dos desequilíbrios peculiares do neoliberalismo.
Esse modelo erodiu os diques que morigeravam os desajustamentos do sistema. Por isso, o actual capitalismo atua com graus de instabilidade muito superiores aos do passado.
Os neoclássicos atribuíram a crise de 2008 a desacertos dos governos ou à irresponsabilidade dos devedores. Reduziram todos os problemas a comportamentos individuais, culpabilizaram as vítimas e apanharam os responsáveis. Além disso, ainda justificaram os socorros estatais aos bancos, silenciando que essas ajudas contrariam todas as suas prédicas a favor da concorrência e do risco.
Os heterodoxos explicaram as mesmas convulsões pelo descontrolo do risco. Esqueceram que essas supervisões são periodicamente socavadas pelas rivalidades entre empresas e bancos. As normas que protegem os negócios das classes dominantes são violadas pela própria continuidade da acumulação.
A releitura de O Capital permite superar essas inconsistências da economia convencional. Induz a investigação da origem sistémica desses rebentamentos. Oferece pistas para indagar os diversos mecanismos da crise, recordando que o capitalismo desencadeia uma ampla gama de contradições.
O cimento comum desses desequilíbrios é a geração periódica de excedentes invendáveis. Mas essa sobreprodução desenvolve-se por vários caminhos complementares.
Marx salientou a existência de tensões entre a produção e o consumo, derivadas da estratificação de classes da sociedade. Essa caracterização tem grande aplicação no panorama de agudos problemas de realização do valor das mercadorias, provocado pelo neoliberalismo.
Esse modelo provoca uma ampliação dos consumos sem permitir o seu desfrute. Expande a produção ao mesmo tempo que diminui os recebimentos populares e precipita crises derivadas da deterioração do poder de aquisição. O enorme crescimento do endividamento familiar não atenua a vulnerabilidade da procura.
Marx foi o primeiro a mostrar como a concorrência obriga os empresários a desenvolverem duas tendências opostas: por um lado ampliam as vendas e por outro reduzem os custos salariais. Esta contradição apresenta envergaduras e localizações muito diferentes em cada época.
Actualmente, o neoliberalismo estimula o consumismo e a riqueza patrimonial financiada com o endividamento nas economias centrais. Ao mesmo tempo impõe brutais retracções do poder de compra nos países periféricos.
O Capital também releva os problemas da valorização. Indaga como atua a tendência decrescente da taxa de lucro. Demonstra que o aumento do investimento produz um declínio percentual do lucro, ao ritmo da própria expansão da acumulação. O trabalho vivo que alimenta a mais-valia, decai proporcionalmente com o incremento da produtividade imposta pela concorrência.
Marx salientou que as crises emergem do crescimento capitalista. Não são efeitos ocasionais do desperdício ou do uso inadequado dos recursos. Explicou, além disso, como o sistema primeiro compensa, para depois agravar a queda periódica da taxa de lucro.
Esta tese permite compreender de que forma o neoliberalismo incrementou a taxa de mais-valia, reduziu os salários e embarateceu os factores de produção para contrariar o declive do nível de rentabilidade. Também ilustrou como o próprio problema reaparece no fim dessa cirurgia. A contradição descoberta por Marx, actualmente, verifica-se nas economias mais capitalizadas que sofrem desajustamentos de sobre-investimento.
A apresentação combinada e em termos marxistas dos desequilíbrios de realização e valorização em termos marxistas é muito pertinente, para compreender a heterogeneidade da mundialização neoliberal. Indica que contradições de ambos os tipos irrompem nos diferentes polos desse modelo, e como minam a sua estabilidade, a partir dos flancos complementares.
Finanças e produção
Marx sublinhou sempre os determinantes produtivos das crises capitalistas. Na época das enormes transformações provocadas pela globalização, esse sublinhado permite evitar leituras simplistas de carácter puramente financeiro.
Os grandes capitais deslocam-se actualmente de uma actividade especulativa para outra, em situações de alta desregulação, que acrescentam explosões de liquidez. Além disso, a gestão das empresas potencia os desajustamentos creditícios, a instabilidade cambial e a volatilidade bolsista.
Esse processo multiplica as tensões suscitadas pelos novos mecanismos de titularização, de derivados e alavancagens. É evidente que o neoliberalismo abriu as comportas a um grande festim de especulação.
Mas, há já 150 anos, que Marx demonstrou que essas tresloucadas apostas são próprias do capitalismo. A especulação é uma actividade constitutiva, não é uma opcional do sistema. Nas últimas três décadas alcançou dimensões desmedidas, mas não constitui um traço característico do actual modelo.
Esta precisão permite observar as conexões entre desequilíbrios financeiros e produtivos salientados em O Capital.
Seguindo esta pista, pode notar-se que a actual hegemonia das finanças constitui apenas um aspecto da reestruturação em curso. Não é um dado estrutural do capitalismo contemporâneo. A classe dominante utiliza o instrumento financeiro para recompor a taxa de lucro, através de uma maior apropriação de mais-valias.
Além disso, a globalização financeira está ligada com o avanço da internacionalização produtiva. A multiplicidade de títulos em circulação varia de acordo com uma gestão mais complexa do risco. Permite administrar actividades fabris ou comerciais mundializadas e sujeitas aos inesperados vaivéns dos mercados.
Também a expansão do capital fictício está ligada a estas condicionantes, e evolui de acordo com os movimentos do capital-dinheiro. Aprovisiona a produção e intermedeia a circulação das mercadorias.
Estas conexões explicam a persistência da globalização financeira depois da crise de 2008. Os capitais continuam fluindo de um país para o outro com a mesma velocidade e liberdade de circulação, para lubrificar o funcionamento das estruturas capitalistas mais internacionalizadas.
É verdade que todas as tentativas de reintroduzir controlos aos bancos falharam pela resistência dos financeiros. Mas essa capacidade de veto ilustra quão emaranhado com o universo produtivo está o mundo do dinheiro. São as duas caras de um mesmo processo de internacionalização.
O Capital aporta numerosas observações da dinâmica financeira que explicam essas ligações, a partir de uma interpretação muito original da lógica do dinheiro. Destaca o papel insubstituível da moeda na intermediação de todo o processo de reprodução do capital. Reafirma que as diferentes funções do dinheiro em circulação, o entesouramento ou a dispersão dos meios de pagamento, estão sujeitos à mesma lógica objectiva, que regula todo o desenvolvimento das mercadorias.
Esse papel apresentou nos diversos regimes de regulação monetária modalidades muito diferentes. O padrão ouro do século XIX diverge claramente das paridades atuais, administradas pelos bancos centrais. Mas em todos os casos dirige um caminho, determinado pela dinâmica da acumulação, da concorrência e da mais-valia.
O Capital contribui para recordar estes fundamentos, não só em contraposição aos mitos ortodoxos da transparência mercantil, à optimização da atribuição de recursos ou à vigência das moedas exógenas, neutrais e passivas.
Também releva as ingenuidades heterodoxas. Marx não apresentou a moeda como uma simples representação simbólica, um mecanismo convencional ou um instrumento moldado ao quadro institucional. Explicou o seu papel necessário e peculiar na metamorfose que o capital desenvolve, para consumar a sua passagem pelos circuitos comerciais, produtivos e financeiros.
Economia mundial e nacional
A centralidade que tem O Capital para a compreensão da dinâmica contemporânea dos salários, da desigualdade, do desemprego ou da crise deveria levar a uma revisão geral das suas contribuições para a teoria económica. Seria muito oportuno actualizar, por exemplo, o estudo das controvérsias suscitadas pelo livro que Mandel fez no centenário da primeira edição de O Capital.
A obra do pensador germânico não esclarece apenas o sentido das categorias básicas da economia. Também sugere linhas de investigação para compreender a mundialização em curso. Marx nunca chegou a escrever o tomo que preparava sobre a economia internacional, mas esboçou as ideias-chave para entender a lógica globalizadora do sistema.
No século XXI, estes princípios são muito relevantes. O capitalismo funciona na actualidade ao serviço de gigantescas empresas transnacionais, que corporizam o salto verificado na internacionalização. A produção Wal-Mart é maior que as vendas de uma centena de países, a dimensão económica da Mitsubishi transborda o nível de actividade da Indonésia e a General Motors supera a escala da Dinamarca.
As firmas globalizadas diversificaram processos de fabricação em cadeias de valor e mercadorias «feitas no mundo». Desenvolvem todos os seus projectos produtivos em função das vantagens que oferece cada localidade, seja esta em matéria de salários, de subsídios ou disponibilidade de recursos.
A expansão dos tratados de livre-comércio adapta-se a esta mutação. As companhias necessitam de baixos direitos aduaneiros e liberdade de movimentos para concretizar as transacções entre as suas firmas associadas. Por isso impõem convénios que consagram a supremacia das empresas em qualquer litígio judicial. Em certas áreas como a genética, a saúde ou o meio-ambiente, aqueles pleitos são decisivos.
Uma releitura de O Capital permite superar dois erros muito correntes na interpretação da internacionalização em curso. Um equívoco supõe que o capitalismo actual se rege pelos mesmos padrões de preeminência nacional que o regiam nos séculos XIX ou XX. O desacerto oposto considera que o sistema se globalizou por completo, eliminando as barreiras nacionais, dissolvendo o papel dos estados e forjando classes dominantes totalmente transnacionalizadas.
Marx escreveu a sua principal obra numa etapa da formação do capitalismo, uma etapa muito diferente da actual. Mas conceptualizou acertadamente como operam as tendências para a mundialização, no quadro dos estados e das economias nacionais. Mudou a proporção e a relevância comparativa dessa mistura, mas vigência dessa combinação mantém-se.
O Capital melhorou as ideias expostas no Manifesto Comunista sobre o carácter internacional da expansão burguesa. No primeiro ensaio, Marx retratou a criação do mercado mundial, a pujança do cosmopolitismo económico e a veloz universalização das regras mercantis. No seu livro de maturidade precisou as formas que assumiam essas tendências e remarcou o seu enlace com os mecanismos nacionais do ciclo e da acumulação.
Marx ajustou o seu olhar sobre a internacionalização objectando as teses ricardinas das «vantagens comparativas». Ressaltou o carácter estrutural da desigualdade imperante no comércio internacional. Por isso rejeitou todas as expectativas de convergência harmoniosa entre países e as visões de modulação natural às condições dos concorrentes.
Esta abordagem permitiu-lhe notar a vigência de remunerações internacionais mais elevadas para os trabalhos de maior produtividade. No início do capitalismo Marx percebeu alguns fundamentos de explicações posteriores da falha em termos de intercâmbio.
O teórico germânico observou a sequela dos desajustamentos provocados pelo transbordo capitalista das fronteiras nacionais. Registou como esse processo provoca crescentes fracturas à escala global.
Por isso, O Capital investigou essa dinâmica em cenários nacionais muito específicos. Investigou a evolução dos salários, dos preços ou do investimento em economias particulares. Pontualmente, detalhou essa dinâmica no desenvolvimento industrial de Inglaterra.
A leitura de Marx convida, pois, a avaliar a mundialização actual como um curso preeminente, que coexiste com o continuado desenvolvimento nacional da acumulação. Sugere que ambos os processos operam de forma simultânea.
Polaridades com novo raciocínio
O Capital é muito útil para analisar a lógica da relação centro-periferia, subjacente à actual quebra global. Marx antecipou certas ideias sobre essa divisão nas suas observações sobre o desenvolvimento geral do capitalismo.
A princípio supunha que os países atrasados repetiriam a industrialização do Ocidente. Pensava que o capitalismo se expandia derrubando muralhas, criando um sistema mundial interdependente.
Expôs essa ideia no Manifesto Comunista. Aí descreveu como a China e a Índia seriam modernizadas com o caminho-de-ferro e a importação de têxteis britânicos. Marx realçava a dinâmica objectiva do desenvolvimento capitalista, e considerava que as estruturas precedentes seriam absorvidas pelo avanço das forças produtivas.
Mas ao redigir O Capital começou a perceber tendências opostas. Notou que a principal potência se modernizava alargando as distâncias em relação ao resto do mundo. Esta aproximação firmou-se com a sua percepção do que ocorreu na Irlanda. Ficou impressionado pela forma como a burguesia inglesa abafava o surgimento de manufactureiras na ilha para garantir o predomínio das suas exportações. Além disso, notou como ela se abastecia de força de trabalho barata para limitar a melhoria dos assalariados britânicos.
Nesta investigação intuiu que a acumulação primitiva não antecipa processos de pujante industrialização nos países submetidos ao jugo colonial. Este registo definiu as bases para a crítica posterior às expectativas de simples arrasto da periferia pelo centro. Com este fundamento se conceptualizou posteriormente a lógica do subdesenvolvimento.
Marx não expôs uma teoria do colonialismo, nem uma interpretação da relação centro-periferia. Mas deixou uma sementeira de observações para a compreensão da polarização global, que retomaram os seus sucessores e os teóricos da dependência.
Esta linha de trabalho é muito relevante para ver como actualmente o neoliberalismo multiplica as fracturas globais. Nas últimas três décadas ampliaram-se todas as fracturas que empobrecem a periferia inferior. Essa degradação intensificou-se com a consolidação do agro-negócio, o endividamento externo e o avassalamento dos recursos naturais dos países dependentes. Estas confiscações assumiram modalidades muito sangrentas em África e no mundo árabe.
As observações de Marx incluíram também um registo de diversidades no centro. Intuiu que o início industrial britânico não seria copiado em França, e notou a presença de novos caminhos de crescimento, misturados com servidão (Rússia) ou esclavagismo (Estados Unidos).
O autor de O Capital captou estas tendências amadurecendo uma alteração do paradigma conceptual. Nos seus trabalhos mais completos substituiu a primeira abordagem linear – assente no comportamento das forças produtivas – por uma outra multilinear, centrada no papel transformador dos sujeitos.
Com esta última abordagem, a rígida cronologia de periferias moldadas à modernização foi substituída por novas visões, que reconhecem a variedade do desenvolvimento histórico.
Esta metodologia de análise é importante para notar a especificidade das formações intermédias, que irromperam de forma persistente em diferentes períodos dos últimos centena e meia de anos. Com essa óptica pode-se avaliar a dinâmica de acelerados processos de crescimento contemporâneo (China), em etapas de grande reorganização do sistema (neoliberalismo).
Antecipações de anti-imperialismo
Marx estudou a economia do capitalismo para notar o seu efeito sobre a luta de classes que socava o sistema. Por isso investigou os processos políticos revolucionários à escala internacional.
Seguiu com interesse especial o curso das rebeliões populares da China, Índia e, sobretudo, da Irlanda, tendo intuído daí a importância dos nexos entre as lutas nacionais e sociais. Por isso promoveu a adesão dos operários britânicos à revolta da ilha contígua, tendo-se oposto às divisões que imperavam entre os oprimidos de ambos os países.
A partir dessa experiência, Marx já não concebeu a independência da Irlanda como uma consequência das vitórias proletárias em Inglaterra. Sugeriu uma junção entre ambos os processos, e transformou o seu internacionalismo cosmopolita inicial na defesa de uma confluência da resistência anticolonial com as lutas nas economias centrais.
Na sua etapa do Manifesto, o revolucionário alemão propagava denúncias anticoloniais de alta voltagem. Não se limitava a descobrir a destruição das formas económicas pré-capitalistas. Questionava de viva voz as atrocidades das grandes potências.
Mas nesses trabalhos juvenis Marx supunha que a generalização do capitalismo aceleraria a erradicação ulterior desse sistema. Defendia um internacionalismo proletário muito básico, aparentado com as velhas utopias universalistas.
Posteriormente, Marx ressaltou o efeito positivo das revoluções na periferia. Esses ensinamentos foram retomados pelos seus discípulos do século XX, para indicar a existência de uma contraposição entre potências opressoras e nações oprimidas e defender a convergência das batalhas nacionais e sociais. Dessas caracterizações surgiram as estratégias de aliança dos assalariados metropolitanos com os despossuídos do mundo colonial.
Com este fundamento, forjou também a síntese do socialismo com o anti-imperialismo, desenvolvida pelos teóricos do marxismo latino-americano. Essa conexão induziu as convergências da esquerda regional com o nacionalismo revolucionário, para enfrentar o imperialismo estado-unidense. Esta junção inspirou a revolução cubana e foi retomada pelo processo bolivariano.
Numa conjuntura marcada pelas agressões de Trump, esse acervo de experiências readquire importância. Os atropelos do magnata induzem a revitalização das tradições anti-imperialistas, especialmente em países tão espezinhados como o México. Ali ressurge a memória de resistências aos avassalamentos perpetrados pelos Estados Unidos.
Marx observava como as grandes humilhações nacionais desencadeiam processos revolucionários. O que ele percebeu no século XIX volta a gravitar na actualidade.
Adversidades e ideologia
Marx tinha de lidar com momentos de isolamento, refluxo da luta popular e a consolidação do domínio burguês. A escrita de várias partes de O Capital coincidiu com essas circunstâncias. Enfrentou a mesma adversidade que prevalece actualmente nas conjunturas de estabilização do neoliberalismo.
Nesse tipo de situações, o pensador alemão investigou como a classe dominante domina. Conceptualizou o papel da ideologia no exercício dessa supremacia. No estudo do fetichismo da mercadoria que tratou em O Capital há várias referências a esta problemática.
É importante retomar essas considerações para observar como funcionou o neoliberalismo nas últimas décadas. Os artífices do modelo actual transmitem fantasias de sabedoria dos mercados e ilusões de prosperidade espontânea. Pressagiam derrames de lucros e recriam numerosas mitologias do individualismo.
Com essa bateria de falsas expectativas, propagam uma influente ideologia em todos os sentidos do termo. Marx destacou essa variedade de facetas das crenças propaladas pelos dominadores para tornar natural a sua opressão.
O credo neoliberal fornece todos os argumentos utilizados pelo establishment para justificar a sua primazia. Ainda que o grau de penetração dessas ideias seja muito variável, salta à vista a sua incidência na subjectividade de todos os indivíduos. Mas tal como no tempo de Marx, o capitalismo reproduz-se também através do medo. O sistema transmite crenças sobre um futuro venturoso e ao mesmo tempo generaliza o pânico perante esse provir. O neoliberalismo multiplicou especialmente a angústia do desemprego, a humilhação perante a flexibilidade laboral e a desesperança face à fractura social.
Esses temores são transmitidos pelos grandes meios de comunicação com sofisticados disfarces e variados enganos. Não configuram apenas o sentido comum imperante na sociedade. Atuam como fábricas de propagação de todos os valores conservadores.
Os meios de comunicação complementam (ou substituem) as velhas instituições escolares, militares ou eclesiásticas na sustentação da ordem burguesa. A imprensa escrita, os meios audiovisuais e as redes sociais ocupam um espaço inimaginável no século XIX. Expandem as ilusões e os temores que sustentam politicamente a hegemonia do neoliberalismo.
Mas esses mecanismos ficaram seriamente abalados pela perda de legitimidade provocado pelo descontentamento popular. Trump, o Brexit e a ascensão de partidos reaccionários na Europa ilustram como esse mal-estar pode ser capturado pela direita. Face a este tipo de situações Marx forjou uma perdurável tradição de conceber alternativas, combinando a resistência com a compreensão da conjuntura.
Projecto socialista
Marx participou activamente nos movimentos revolucionários que debatiam as ideias do socialismo e do comunismo. Manteve essa intensa intervenção enquanto escrevia O Capital. Nunca detalhou o seu modelo de sociedade futura, mas expôs as bases desse porvir.
O acérrimo crítico da opressão alentava a criação de regimes económicos assentes na expansão da propriedade pública. Também promovia a criação de regimes políticos assentes na auto-administração popular.
Marx apostava num início breve desses sistemas na Europa. Percebeu na Comuna de Paris uma antecipação do seu projecto. Concebia o início dessa transformação revolucionária no Velho Continente e imaginava uma propagação ulterior a todo o planeta.
É sabido que a história seguiu uma trajectória muito diferente. O triunfo bolchevique de 1917 inaugurou a sequência de grandes vitórias populares do século XX. Esses avanços incluíram tentativas de construção socialista em várias regiões da periferia.
As classes dominantes ficaram aterrorizadas, e fizeram concessões inéditas para conter a pujança dos movimentos anticapitalistas. Nos anos 70-80 os emblemas do socialismo eram tão populares, que se tornava impossível contar quantos partidos e movimentos reivindicavam essa denominação.
Mas também é conhecido o que aconteceu posteriormente. O derrube da União Soviética deu lugar a um prolongado período de reacção contra o igualitarismo, que actualmente ainda persiste.
Este panorama foi alterado pela resistência popular e o declive do modelo político-ideológico da globalização neoliberal. Nestas circunstâncias, a releitura de O Capital converge com redescobrimentos do projecto socialista. Os jovens já não carregam os traumas da geração anterior, nem, as frustrações que pavimentaram a queda da URSS.
A própria experiência de luta é ensinadora. Muitos activistas compreendem que a conquista da democracia efectiva e a igualdade real exige que seja forjado um outro sistema social. Perante o sofrimento provocado pelo capitalismo, intuem a necessidade de construir um horizonte de emancipação.
A chegada de Trump incorpora novos ingredientes nesta batalha. O abastado presidente tenta recuperar pela força a primazia dos Estados Unidos. Pretende reforçar a primazia de Wall Street e a preeminência do lobby petrolífero, reactivando o unilateralismo bélico.
Não só proclama que os Estados Unidos devem alistar-se para ganhar as guerras. Já iniciou o seu programa militarista com bombardeamentos na Síria e Afeganistão. Além disso, exige uma subordinação do Velho Continente que socava a continuidade da União Europeia. Trump não se limita a construir o muro na fronteira mexicana. Acelera a expulsão de imigrantes, incentiva golpes de direita na Venezuela e ameaça Cuba.
Nesta convulsa conjuntura Marx retoma actualidade. Os seus textos não trazem apenas um guia para a compreensão da economia contemporânea. Também oferecem ideias para a acção política, à volta de três eixos primordiais do momento: reforçar a resistência anti-imperialista, multiplicar a batalha ideológica contra o neoliberalismo e garantir a centralidade do projecto socialista.
Atitudes e compromissos
As teorias que Marx introduziu revolucionaram todos os parâmetros da reflexão e transformaram as bases do pensamento social. Mas o teórico alemão salientou-se também como um grande lutador. Desenvolveu um tipo de vida que actualmente identificaríamos com militância.
Marx colocou-se na bancada dos oprimidos. Reconheceu os interesses sociais em jogo e rejeitou a atitude do observador neutral. Participou de forma decidida na acção revolucionária.
Este posicionamento orientou o seu trabalho para os problemas da classe trabalhadora. Promoveu a conquista dos direitos sociais com os olhos postos no forjar uma sociedade liberta da exploração.
Marx propiciou uma estreita confluência da elaboração teórica com a prática política. Inaugurou um modelo de fusão do intelectual, do economista e do socialista que foi retomado por inúmeros pensadores.
Com essa postura evitou desacertos: o refúgio académico afastado do compromisso político e do deslumbramento pragmático pela acção. Com ele chegou uma dupla mensagem de intervenção na luta e trabalho intelectual para compreender a sociedade contemporânea. Continuar por esse caminho é a melhor homenagem aos 150 anos de O Capital.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
- Amin, Samir 1973. ¿Cómo funciona el capitalismo?, Siglo XXI, Buenos Aires.
- Anderson, Kevin B, 2010. Marx at the margins, University Of Chicago Press,
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- Hilferding Rudolf, 1973, El capital financiero, Tecnos , Madrid.
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6-5-2017
* Claudio Katz é economista, Professor da Universidade de Buenos Aires, é investigador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET) e membro dos Economistas de Esquerda (EDI, na sua sigla em castelhano).

Este texto foi originalmente publicado em http://katz.lahaine.org/?p=296
Tradução de José Paulo Gascão
in ODiario.info

sábado, 10 de junho de 2017

Existe mesmo uma lei tendencial da queda da taxa média de lucro?


10 de junho de 2017

Baixa tendêncial da taxa de lucro

Debates, Marx

Estudioso alemão de manuscritos, notas e cartas de Marx revela que edições de O Capital contribuíram para "fetichizar" elementos teóricos inconclusos ou abandonados pelo autor em reflexões posteriores.


Por Cézar Xavier
Em visita ao Brasil, mais uma vez, o alemão Michael Heinrich inaugurou a terça-feira (6) de debates do 3o. Salão do Livro Político, no Tucarena, teatro da PUC, em São Paulo. Com tradução de Felipe Musetti e mediação de Lívia Cotrim, o pesquisador apresentou os últimos avanços do projeto MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), instituição que publica as obras completas de Marx-Engels, a partir dos manuscritos, notas e cartas dos autores.
Há 150 anos, Marx publicava o primeiro volume d’O Capital, conforme ressalta Heinrich. Infelizmente, Marx não foi capaz de publicar os volumes 2 e 3, que teve que ser editado por Friedrich Engels após sua morte. Após esta publicação por Engels, outras publicações surgiram como a de Karl Kautsky e as Teorias da Mais Valia.

Em 1920 e 1930, os escritos do jovem Marx foram publicados. Em 1939 veio pela primeira vez a público os Grundrisse, que num primeiro momento não foi reconhecido, “e as pessoas tinham outros problemas”, e não se debruçaram devidamente sobre eles. Nos anos 1930, pela primeira vez, foi publicada toda a correspondência de Marx e Engels.

“Estou falando isso para mostrar que cada geração teve acesso a obras diferentes de Marx. Então, pessoas importantes como Rosa Luxemburgo e Lênin não tiveram acesso a alguns textos do catálogo publicado que conhecemos hoje”, enfatizou o estudioso.

Após a segunda guerra, as pessoas passaram a ter a impressão de que conheciam toda a obra de Marx. Em 1975, começou a segunda MEGA, com a publicação da edição total de Marx, muito tardiamente, se considerarmos que a primeira iniciativa começou em 1927. Esta primeira MEGA foi iniciada e dirigida por David Riazanov, parte em Moscou e parte em Frankfurt. Com a chegada do nazismo e a ascensão de Stalin, que não gostava muito do projeto, o projeto foi abafado. “David Riazanov foi executado em 1938, e esses manuscritos foram à guerra e fracassaram. Assim, foram publicados apenas 12 volumes”, lamentou.

Esse segundo projeto, então, surgiu a partir de um esforço combinado do Instituto Marxista Leninista de Moscou e na Alemanha Oriental e algumas partes na República Tcheca.

Após a queda do Muro e o fim da URSS não estava claro o que aconteceria com este projeto editorial. “Tivemos, num primeiro momento a unificação em que a Alemanha Ocidental, dominando a Oriental, parecia não ver necessidade de uma publicação tão ampla da obra de Marx. Houve uma onda de protestos de cientistas e marxistas que argumentavam que Marx e Engels eram autores muito importantes. Sob pressão dos protestos, a Mega continuou o projeto”, contou ele.

Qual o diferencial da Mega para outras edições de Marx e Engels? O primeiro príncipio que ele destaca da Mega e o da completude, em que serão publicados, inclusive, rascunhos, notas, excertos e cartas trocadas entre Marx, Engels e terceiros.

Esse princípio da completude trouxe o primeiro volume d’O Capital em seis livros, as quatro edições alemãs que apareceram durante a vida de Marx e Engels, a tradução francesa que Marx controlou e aprovou e a primeira edição inglesa controlada por Engels.

Não apenas os seis livros, mas cada volume da Mega vem com um “aparatus”, dizendo o que acontece na transição entre cada tradução. “A partir desses seis volumes, há um primeiro resultado óbvio de que não há um último volume, um livro final, uma versão final atingida. Pra cada versão, há vantagens e desvantagens”, salienta.

Há ainda o princípio de apresentar o texto na versão original de Marx. Isso, para não ocorrer o que houve com A ideologia alemã, que, só em 1932, foi publicada por dois editores diferentes... “Na comparação, pareciam dois livros completamente diferentes!” Daí a importância da Mega em publicar os originais com o Aparatus das intervenções editoriais, mostrando o que realmente é texto de Marx.


Taxa de lucro e crise

Estes princípios estritos da Mega já trouxe novos resultados para a compreensão da obra de Marx. Heinrich procurou focar no volume 3 d’O Capital, pois não daria conta de fazer um sobrevoo sobre todos os resultados. O volume 3 foi editado por Engels em 1894, enquanto o manuscrito foi escrito por Marx 30 anos antes, entre 1864 e 1865. Já para o volume 2, Marx escreveu até os anos 1870.

“Nesses manuscritos, Marx fez progressos no que se refere ao dinheiro e à crise que não foram aproveitados porque eram mais velhos que a publicação do livro.”

A Mega percebeu que Engels fez intervenções bastante significativas na edição do livro 3, para tornar o texto mais legível e claro, embora em alguns aspectos ele mudou o significado do texto. “É o que acontece com a teoria da crise do Marx, no capítulo 15, que vem após capítulos que tratam da lei tendencial da queda da taxa média de lucros. O título do capítulo 15 é o desenvolvimento das contradições dessa lei, o que levou muitos leitores a acreditar que a teoria da crise é consequência dessa lei, o que é um equívoco, pois o título não foi dado por Marx, assim como os quatro subtítulos do capítulo”, explica Heinrich.

Em Marx, temos apenas algumas notas sobre crise no final dos comentários sobre a lei tendencial da queda na taxa de lucros. “Nos textos de Marx, fica claro que, nesse ponto, ele não desenvolveu uma teoria das crises, mas está traçando considerações sobre o assunto”, declara o pesquisador. Segundo ele, Engels pega essas notas, suprime passagens, reordena comentários numa ordem diferente dos originais. “A partir dessas intervenções, cria-se a impressão de que o texto é mais coerente do que realmente é”.

Um caso similar acontece com a teoria do crédito vista no livro 3. Na versão de Engels, a seção 5 inclui os capítulos 21 ao 25, quinze capítulos. Mas, em Marx, os manuscritos apontam apenas 6 pontos diferentes. Os pontos de 1 a 4  correspondem a 21 e 24. “A reordenação de capítulos deixa consequências significativas para o conteúdo”, afirma.

Marx termina o manuscrito do volume 3 em 1865, mas até 1881, - mais 16 anos -, ele continuou fazendo pesquisas. Fez pesquisas sobre crise e crédito. Ele leu muitos livros e tomou notas sobre, além de escreveu muitas cartas a respeito desses problemas. “Todas essas pesquisas não estão incluídas no volume 3, mas a Mega apresenta tudo isso em conjunto para se ter uma noção de que em qual direção Marx estava indo”, diz ele.

Nos manuscritos que serviram para edição do volume três, a teoria das crises parece focada na questão da produção. De acordo com isso, muitos marxistas consideram aspectos financeiros da crise como questões menores desse fenômeno. “Mas, quando Marx terminou o manuscrito, uma nova crise aconteceu na Grã-Bretanha, em 1866, e essa crise, como ele notou, tinha um caráter financeiro muito importante”, acrescentou.

Em 1868, Marx preencheu um grande caderno com notas sobre esta crise. Em 1869, ele coletou excertos de economistas e outras literaturas sobre o mercado financeiro. E continuou com essa preocupação até os anos 1870.

Em 1870, Marx pode observar um novo tipo de crise, de longa duração. Nessas cartas, fica claro que ele estava observando a influência dos bancos nesta crise.

Por um outro lado, ele observou o caráter internacional dessa crise, sobretudo atento às taxas de câmbio entre moedas. “Até agora, a gente pode incluir que as análises de Marx nos anos 1870 são bastante diferentes daquelas expostas no volume 3 do Capital”, completa.

O último ponto exposto se refere à lei tendencial da queda da taxa de lucro de Marx. “Marxistas ou não se questionavam se essa lei era sustentável ou não, ou se era necessário abandoná-la”, comenta. A partir dos manuscritos da Mega pode-se tirar algumas conclusões.

Nos manuscritos correspondente ao volume 3, Marx claramente afirmou essa lei e defendeu a existência dessa lei; mas, depois de 1865, Marx não se ocupou muito com ela. Em 1868, ele escreveu uma carta a Engels dizendo da estrutura do volume três. Nessa carta, a lei é mencionada pela última vez. “Após 68, Marx nunca mais a mencionou, nem em rascunhos ou cartas. Esse é um resultado bastante surpreendente, porque os manuscritos afirmavam sua importância e caráter decisivo para a economia capitalista”.

Nos manuscritos que são agora publicados pela Mega, pode-se ver Marx preocupado em encontrar uma relação precisa entre as taxas de lucro e mais valia. “Temos dois manuscritos em 1868 e 1870, e um grande escrito em 1875 com cerca de 150 páginas. Nesses manuscritos tardios, Marx, claramente, formula uma lei das taxas de lucro. Mas, então, nesses manuscritos dedicados à taxa de lucro, aquela lei tendencial não aparece. Porque? Não posso dar uma respostas definitiva mas posso apresentar algumas suposições”, sugere ele.

Nesses manuscritos tardios fica claro que, para Marx, essa lei tendencial da queda da taxa média de lucro não é tão clara como é nos anteriores. Em 1865, no manuscrito do volume 3, Marx acreditou que a ascensão do capital constante levaria, no longo prazo, a uma queda da taxa de lucro; mas a partir de vários exemplos, ele percebeu que qualquer coisa podia acontecer: pode haver um aumento do capital constante e, portanto, uma ascensão da taxa de lucro, ou também um aumento do capital constante e uma queda da taxa de lucro.

“Por causa disso, penso que Marx deveria ter sérias dúvidas acerca da lei tendencial da queda da taxa média de lucros”, acredita.

Quando Engels publicou a terceira edição do volume um, incluiu nessa edição uma nota feita à mão por Marx em sua cópia. Desde então, essa nota aparece em todas as traduções. Essa nota diz que a acumulação e composição orgânica do capital se eleva; sendo que a composição orgânica se refere entre capital constante e capital variável; quando isso ocorre, se eleva a taxa de lucro. “Isso é exatamente o oposto da taxa tendencial e essas notas têm mais de cem anos. Quando eu vi essa nota pela primeira vez, não estava convencido de que Marx havia abandonado a lei tendencial, porque, naquela época, quando li O Capital, -  nos anos 70 e 80 -, essa nota estava bastante isolada, portanto, eu não ousei pegar essa nota marginal e isolada para sustentar um grande argumento de que Marx teria abandonado a lei tendencial”, relata Heinrich.

Mas, agora, que existem esses manuscritos em que Marx contabiliza esses exemplos que não provam a lei tendencial; existe esse grande manuscrito de 1875 em que ele está preocupado com a queda da taxa de lucros, e essa lei nem sequer é mencionada; então, essa nota incluída por Engels não é isolada. “Agora, podemos combinar essa nota com todo esse material e sustentar esse argumento de que Marx teria abandonado a lei”, declara.

As "contratendências" da lei tendencial vêm de Marx e não das intervenções de Engels. O capítulo 14 tem muito menos intervenções de Engels, do que aquelas do capitulo 15. “Só faz sentido falar em "contratendência", se tem uma tendência a cair. Essa tendência a cair é a taxa de lucro, mas Engels tentou dar sentido à lei no capítulo 15”.

No capítulo 13, Marx não consegue encontrar razões suficientes para sustentar a lei da queda da taxa de lucro, na opinião dele. Nos seus manuscritos tardios, as "contra tendências" não desempenham nenhum papel. 
PCdo B
in FOICEBOOK.blogspot.com

Terrorismo organizado

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em 2017/06/01, em: http://resistir.info/chossudovsky/terrorismo_27mai17.html Colocado em linha em: 2017/06/09

Terroristas que se prezam deixam sempre assinatura...

Documentos de identificação descobertos no rastro de ataques terroristas – Manchester, Berlim, Paris, Nice, Londres, Nova York
Michel Chossudovsky
Este artigo faz a revisão do “misterioso” fenómeno dos documentos de identificação e passaportes que são rotineiramente descobertos (muitas vezes no entulho) junto a suspeitos de terrorismo após um ataque terrorista.
Na maior parte dos casos, o alegado suspeito já era conhecido das autoridades.
Segundo os governos e informações dos média, os referidos suspeitos são, sem exceção, ligados a uma entidade filiada à Al Qaeda.
Nenhum destes suspeitos de terrorismo sobreviveu. Homens mortos não falam.
No caso dos eventos trágicos de Manchester, o cartão bancário do alegado bombista suicida Salman Abedi foi encontrado no seu bolso, após a explosão.
Legitimação das narrativas oficiais? O Reino Unido é tanto uma “vítima do terrorismo” como um “Estado patrocinador de terrorismo”. Sem exceção, os governos de países ocidentais que são vítimas de ataques terroristas têm apoiado, direta ou indiretamente, o grupo de organizações terroristas Al Qaeda – incluindo o chamado Estado Islâmico (ISIS), o qual é alegadamente responsável por perpetrar estes ataques terroristas. Como está amplamente documentado, a Al Qaeda é uma criação da CIA.
Abaixo está uma revisão das circunstâncias e provas respeitantes aos passaportes e documentos de identificação descobertos após ataques terroristas selecionados, com links para artigos do Global Research e informações dos media (2001-2017) – esta lista não é de modo algum exaustiva.
Do 11/set em Nova York, à Manchester de maio/2017 – em ordem cronológica inversa
O ataque terrorista de Manchester, maio/2017
2
Suspeito da bomba de Manchester dizem ter ligações à Al Qaeda...1 NBCNews.com, 23/maio/2017, Manchester, Inglaterra — Salman Abedi, o britânico de 22 anos... num ataque bombista suicida, tinha ligações à Al Qaeda e havia recebido treino terrorista... foi identificado por um cartão bancário descoberto no seu bolso na cena do...
Ataque de Manchester como ricochete (blowback) do Mi6?2
Por Evan Jones, 26/maio/2017
“Um cartão bancário foi convenientemente descoberto no bolso do... O Daesh responsabilizou-se pelo ataque de Manchester, mas sem...”.
MANCHESTER, Inglaterra – Salman Abedi, o britânico de 22 anos que se acredita ter morto 22 pessoas num ataque bombista suicida3, tinha ligações à Al Qaeda e havia recebido treino terrorista no exterior, informou quinta-feira um responsável da inteligência dos EUA à NBC News, quando o Reino Unidos aumentou seu nível de ameaça terrorista para a categoria mais alta.
O responsável da inteligência dos EUA, o qual tem conhecimento direto da investigação, diz que Abedi, cuja família é de ascendência líbia, foi identificado por um cartão bancário descoberto no seu bolso na cena da explosão após um concerto de Ariana Grande na Manchester Arena. A identificação foi confirmada por tecnologia de reconhecimento facial, disse o responsável.
Abedi havia viajado para a Líbia nos últimos 12 meses, um dos múltiplos países que visitou, disse o responsável. E apesar de ter “ligações claras à Al Qaeda”, acrescentou o responsável, Abedi também podia ter conexões a outros grupos.
Nenhuma imagem do alegado cartão bancário está disponível.
Ironicamente, o suspeito Abedi foi primeiramente identificado por Washington, ao invés da polícia e segurança do Reino Unido. Como é que eles podiam saber quem era o culpado três horas após a explosão? Segundo Graham Vanbergen4:
Nas primeiras horas da manha de 23 de maio – aproximadamente 02:35 BST5, a NDTV6 via The Washington Post declarava bastante categoricamente que: “Responsáveis estado-unidenses, falando na condição de anonimato, identificaram o atacante como Salman Abedi. Eles não forneceram informação acerca da sua
1 http://www.nbcnews.com/storyline/manchester-concert-explosion/manchester-bomb-suspect-said-have-had-ties-al-qaeda-terrorism-n763691.
2 http://www.globalresearch.ca/manchester-attack-as-mi6-blowback/5591968.
3 http://www.globalresearch.ca/wp-content/uploads/2017/05/Screen-Shot-2017-05-26-at-12.11.21.png.
4 http://www.globalresearch.ca/manchester-bombing-what-we-dont-know/5591844.
5 https://en.wikipedia.org/wiki/British_Summer_Time.
6 http://www.ndtv.com/world-news/manchester-bombing-suspect-identified-us-officials-say-isis-claims-responsibility-1697456.
3
idade ou nacionalidade e responsáveis britânicos não quiseram comentar acerca da identidade do suspeito”.
Isto foi publicado no momento em que a polícia e os serviços de segurança britânicos estavam a recusar-se a fazer quaisquer declarações acerca de quem pensavam que fossem os perpetradores, porque naquele momento eles estavam a tratar das consequências imediatas do evento.
O ataque terrorista de Berlim com camião, Dezembro/2016
O suspeito terrorista do camião em Berlim e a curiosa questão dos documentos de identificação deixados atrás de si
Por WhoWhatWhy, 22/dezembro/2016
O suspeito do ataque terrorista com camião e a curiosa questão dos documentos de identificação deixados atrás de si. Por WhoWhatWhy. Global Research, 22/dezembro/2016. Who What Why 21….:
Os documentos de identidade do suspeito foram encontrados dentro do camião utilizado no ataque de segunda-feira num mercado de Natal, o qual resultou em 12 mortos, disseram responsáveis alemães da segurança.
O suspeito era conhecido dos serviços de segurança alemães como alguém em contacto com grupos islâmicos radicais e havia sido avaliado como apresentando um risco, informou o ministro da Westphalia a Norte do Reno, Ralf Jaeger, a repórteres.
4
O ataque terrorista de Nice, julho/2016 Fonte: Daily Mail, 15/julho/2016
O ataque terrorista de Nice: Rumo a um estado permanente de Lei Marcial em... o alegado perpetrador está morto e convenientemente deixou seus documentos de identidade atrás de si.
Nice, Massacre de 14 de julho: Rumo à Lei Marcial? O Estado Islâmico (ISIS-Daesh) assume responsabilidade?
Por Peter Koenig , 15/julho/2016
De acordo com Peter Koenig em relação ao ataque terrorista de Nice:
Durante a celebração noturna do Feriado Nacional Francês, cerca das 23 horas, um camião veloz acometeu violentamente uma multidão de milhares de pessoas que assistiam aos fogos de artifício ao longo do Boulevard Anglais mediterrânico. O condutor do camião estava simultânea e indiscriminadamente a atirar-se à multidão. Ele conseguiu andar cerca de 2 quilómetros antes de ser travado pela polícia, a qual instantaneamente disparou e matou-o.
Um horrendo ataque terrorista, matando multidões de pessoas, propagando sofrimento, miséria, medo e ultraje em França, na Europa – no mundo todo. Todas as indicações assinalam o Grande Roteiro (Big Script) de mais um ataque de falsa bandeira, mais uma vez em França.
O jovem condutor do camião foi identificado como um francês de 31 anos, residente em Nice, com origens tunisinas. Como nos casos anteriores, por "coincidência" seus documentos de identidade foram encontrados no camião.
5
O jovem foi morto instantaneamente pela polícia. Os mortos não podem falar. Um padrão já bem conhecido.
Ataque terrorista ao Charlie Hebdo, em Paris, janeiro/2015
A polícia encontrou o documento de identificação de Said Kouachi na cena do tiroteio no Charlie Hebdo. Será que isto soa familiar?
Por Dr. Paul Craig Roberts , 10/janeiro/2015
"De acordo com o noticiário, a polícia encontrou o documento de identidade de Said Kouachi na cena do tiroteio no Charlie Hebdo. Será que isto soa familiar? Recordem: as autoridades afirmam terem encontrado o passaporte intacto de um dos alegados sequestradores do 11/set entre as maciças ruínas pulverizadas das Torres Gémeas".
Ataque terrorista do Bataclan, Paris, novembro/2015
Os ataques terroristas do 11/set e de Paris: "Provas" semelhantes tornam-se suspeitas
Por Timothy Alexander Guzman, 20/novembro/2015
O Estado Islâmico (ISIS/ISIL) declarou ser responsável pelos ataques mais recentes em Paris, tal como o fez a Al Qaeda que também se responsabilizou pelo 11/set. ... Contudo, há semelhanças entre os ataques terroristas em Paris e na cidade de Nova York no 11 de Setembro.
Primeiro, os passaportes sírio e egípcio de dois dos bombistas suicidas foram encontrados na cena do ataque no estádio na parte norte da cidade. Mesmo depois de ambos os terroristas detonarem seus dispositivos explosivos, os seus passaportes ainda foram encontrados.
Isto traz-nos de volta aos ataques terroristas do 11 de setembro, em que responsáveis dos EUA recuperaram um passaporte intacto a uns poucos quarteirões do World Trade Center, pertencente a um dos sequestradores.
Passaportes mágicos recorrentes: O passaporte sírio alegadamente descoberto no bombista suicida de Paris
Por 21st Century Wire , 14/novembro/2015
No contexto do inquérito acerca dos massacres de Paris, um passaporte sírio (imagem à esquerda) foi encontrado junto a um dos bombistas kamikazes do Stade de France. Depois de ser apontado pelo presidente Hollande como responsável pelos ataques, o Estado Islâmico afirmou que havia engendrado a carnificina. O executivo francês, que já havia declarado pretender entrar em acção na Síria, alegadamente contra o ISIS, mas realmente contra Bachar El Assad, o qual “tinha de ir”, encara isto como uma pista significativa que incentiva sua expedição militar.
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Ataque terrorista de Londres, 7/julho/2005
As explosões londrinas de 7/Julho e a Operação “Stepford Four” do MI5: Como as explosões de Londres em 2005 transformaram todo muçulmano num "suspeito de terrorismo"
Por Karin Brothers , 26/maio/ 2017
Na terça-feira, 12 de julho, a esposa de Lindsay, Samantha Lewthwaite, telefonou à polícia para informar o desaparecimento do seu marido Germaine ("Jamal"). A polícia investigou a sua casa imediatamente. No dia seguinte, 14 de julho, a polícia anunciou que tinha o documento de identificação de Lindsay e que ele era o quarto bombista. Lewthwaite ficou incrédula e recusou-se a acreditar na acusação sem prova do DNA. A identificação da polícia foi espantosa porque eles tinham estado a afirmar que todos os suspeitos pareciam paquistaneses; não havia maneira de alguém poder confundir o grande e negro Lindsay com um asiático. Para o que a polícia estivera a olhar?
Ataques terroristas do 11/set: 11/setembro/2001
Será que a América foi atacada por muçulmanos em 11/set?
Por David Ray Griffin , 11/setembro/2016
A verdade do 11/Set e o inquérito conjunto do Congresso: 28 páginas de orientação errada sobre o papel da Arábia Saudita
Por Dick Atlee e Ken Freeland , 11/setembro/2015
Durante anos o movimento 9/11 Truth (9TM) esteve a implorar em vão ... ao agente do FBI Dan Coleman para que explicasse como o passaporte do sequestrador do 11/set ...
Contradições do 11/Set: o Mitsubishi de Mohamed Atta e sua bagagem
Por David Ray Griffin , 09/maio/2008
Contradições do 11/Set: o Mitsubishi de Mohamed Atta e sua bagagem ... Ele também continha um passaporte saudita, uma carta internacional de condução, ...
“Na versão oficial do 11/set o FBI afirmou que havia encontrado o passaporte incólume de um dos pilotos próximo a uma das torres que haviam sido reduzidas a cinzas pelas explosões, cujo calor fundira mesmo o aço das colunas na estrutura dos edifícios. O crash do quarto avião perto de Shanksville também rendeu um passaporte o qual, embora ligeiramente queimado, ainda permitiu ler o primeiro nome e o sobrenome e ver a sua foto de identificação. Isto é o mais perturbante de tudo pois nada restou na cratera, nenhuma parte do avião ou das pessoas que nele viajavam, só este passaporte parcialmente queimado.
Confirmado por Dan Rather, da CBS News: “um transeunte encontrou o passaporte de um dos sequestradores” na rua, apenas horas depois dos
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ataques do 11/set. (Vídeo aos 1'.23'').
Segundo Who What Why :
O [documento] de Visto (Visa) de Satam al-Suqami : Este documento de identidade de um dos alegados sequestradores do 11/set de algum modo sobreviveu incólume a uns poucos quarteirões das Torres Gémeas, embora o próprio avião fosse virtualmente aniquilado.
Os passaportes pertencentes a Ziad Jarrah e Saeed al-Ghamdi: os passaportes dos dois alegados sequestradores do Voo 93 da United Airlines supostamente sobreviveram ao crash ardente na Pennsylvania que deixou o próprio avião carbonizado e amplamente disperso – com um passaporte inteiramente intacto.
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Passaporte de Saeed al-Ghamdi
Matéria para meditação
Podemos nós acreditar na narrativa oficial do governo?
Podemos nós acreditar nos média ocidentais?
27/maio/2017
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/manchester-berlin-paris-nice-london-new-york-passports-and-ids-mysteriously-discovered-in-the-wake-of-terror-attacks/5592063

quarta-feira, 7 de junho de 2017


Uma opinião sobre a acumulação de capital

Publicamos versão em francês e sua tradução em Castelhano
“La salida de la crisis, es decir, una nueva fase prolongada de acumulación de capital, no es posible”
02/06/2017 | Henri Wilno 
Para François Chesnais 1/, el capitalismo, inmerso en sus contradicciones internas y también abocado a la crisis ecológica que genera, choca hoy con “límites infranqueables”.
Henri Wilno – El debate entre economistas marxistas sobre las causas de la crisis actual no está cerrado ni mucho menos. ¿Cómo te posicionas en este debate? ¿Cómo se articulan los distintos factores de la crisis?
François Chesnais – El comienzo de la crisis suele datarse a finales de julio y comienzos de agosto de 2007. En estos nueve años transcurridos, mi posición ha evolucionado, por supuesto. En un texto de otoño de 2007 para el congreso Marx International, publicado en el n.° 1 de la revista conjunta A l’Encontre-Carré rouge, dije de inmediato que la crisis había comenzado de una manera muy clásica en el sistema crediticio estadounidense, que se trataba de una crisis de sobreproducción y sobreacumulación basadas en un endeudamiento masivo de las empresas y los hogares, facilitado por medios de ingeniería financiera inéditos y cuyo terreno era el mercado mundial. La crisis de septiembre de 2008 en Wall Street estuvo a punto de llevarse por delante el sistema financiero mundial y provocó una recesión mundial parada al vuelo por China.

Desde una perspectiva mundial, ha habido una reestructuración y no una destrucción del capital productivo. Este no ha sido el caso del capital ficticio, es decir, de los títulos que dan derecho a participar en el reparto de beneficios en el caso de las acciones y obligaciones privadas y, en el de los bonos del Tesoro, a cobrar a través del servicio de la deuda pública con cargo a los ingresos centralizados por el impuesto. Para sus titulares, estos títulos, que deben ser negociables en todo momento en mercados especializados, representan un “capital” del que esperan un rendimiento regular en forma de intereses y dividendos (una “capitalización”). Desde el punto de vista del movimiento del capital que produce valor y plusvalía, no son, en el mejor de los casos, más que el “recuerdo” de una inversión ya realizada, de ahí el término de capital ficticio.
A partir de estas formas primarias, la “ingeniería financiera” ha engendrado formas derivadas (en inglés, derivatives). En mis textos he subrayado la actualidad del “ciclo corto” del capital-dinero (A-A’, es decir, recibir más dinero que el aportado inicialmente), en el que los inversores esperan, sin salir de los mercados financieros, flujos de ingresos regulares “como los perales traen peras” [según una expresión irónica de Marx].
Sobre la cuestión de la tasa de beneficio, en relación con la cual yo no tenía nada que aportar, me he adherido a la posición clásica, que la vincula a la composición orgánica del capital, pero he insistido en la necesidad para el capital industrial de realizar el ciclo completo, A-M-P-M’-A’ (para obtener A’ habiendo adelantado A, hace falta que haya habido compra de fuerza de trabajo, producción y comercialización), y por tanto de interesarse por la demanda. En los últimos meses en que estuve escribiendo Finance Capital Today, cayó en mis manos un texto en inglés de Ernest Mandel de 1986, que no se ha citado nunca o casi nunca, sobre las consecuencias de lo que él llamaba el “robotismo”, que entonces estaba en sus comienzos.
Mandel sostiene en este escrito que “la extensión de la automatización más allá de cierto límite conduce inevitablemente, primero a una reducción del volumen total del valor producido, y después a una reducción del volumen de la plusvalía realizada”. 2/
Veía allí un “límite infranqueable”, portador de una “tendencia del capitalismo al hundimiento final”. La robotización bloquea la posibilidad de rebajar la composición orgánica, es decir, la relación entre la parte constante (el valor de los medios de producción) y la parte variable (el valor de la fuerza de trabajo, la suma de los salarios), de manera que el juego efectivo de los factores que “contrarrestan la baja tendencial de la tasa de beneficio” se torna esporádico y lo que era un límite relativo se convierte en un límite absoluto.
Mucho más recientemente, en un texto clarificador de 2012, Robert Kurz habla de “producción real insuficiente de plusvalía” sobre el trasfondo de la “tercera revolución industrial (la microelectrónica)”. La debilidad de la inversión productiva hace que el capital ficticio viva cada vez más en una esfera cerrada. Los “perales dan menos peras”, salvo en el caso de los bonos del Tesoro, la labor de los operadores consiste en realizar beneficios, minúsculos en la mayoría de transacciones, pasando de un compartimiento del mercado a otro. El resultado es la inestabilidad financiera endémica y la formación de burbujas, que es otro rasgo característico del periodo.
¿Podemos decir que el único horizonte del capitalismo es la perpetuación de esta crisis?
Así lo creo, máxime cuando se producirá un entrelazamiento con los efectos económicos, sociales y políticos del cambio climático. Dos potentes mecanismos, que se calificaban de “procíclicos”, se han vuelto estructurales y favorecen esta situación en que la salida de la crisis, es decir, una nueva fase prolongada de acumulación de capital, ya no es posible. El primer mecanismo está claramente identificado, a saber, la defensa incondicional de las pretensiones de los poseedores de títulos de deuda pública, que implica imponer la austeridad presupuestaria y el ataque a los derechos sociales. El segundo es un mecanismo cuya función empieza a reconocerse, a saber, los efectos de la robotización, cuya ralentización resulta imposible debido a la competencia capitalista, a la disminución tendencial de la plusvalía y a la dificultad de satisfacer a los accionistas. Solo hay que ver lo que está comenzando en el sector bancario, sin duda “la siderurgia de mañana”.
Por otro lado, la crisis económica, al prolongarse, se combinará con los efectos económicos, sociales y políticos del cambio climático; las relaciones que ha establecido el capitalismo con “la naturaleza” han conducido a otro límite, cuya caracterización está en discusión. Marx no podía prever la destrucción por la producción capitalista de los equilibrios ecosistémicos, particularmente de la biosfera. Apenas previó el agotamiento de los suelos por efecto de la industrialización de la producción agrícola. Algunos marxistas, empezando por O’Connor, han tratado de llenar el vacío. Han empezado definiendo la destrucción de los recursos no renovables bajo sus múltiples formas y más tarde el cambio climático como un “límite externo”.
Defiendo la tesis de la internalización del límite, la necesidad ahora de abandonar la oposición entre “contradicción interna” y “contradicción externa” a raíz de la imposibilidad para el capitalismo de modificar sus relaciones con el medio ambiente. En efecto, la valorización sin fin del dinero convertido en capital en un movimiento de producción y venta de mercancías, también sin fin, le impide frenar sus emisiones de gas de efecto invernadero, controlar el ritmo de explotación de los recursos no renovables. El mecanismo que conduce a la “sociedad de consumo” y su insensato despilfarro es el siguiente: para que la autorreproducción del capital sea efectiva, es preciso que el ciclo de valorización se cierre con “éxito”, es decir, que las mercancías fabricadas, la fuerza de trabajo comprada en el “mercado de trabajo” y utilizada de manera discrecional por las empresas en los centros de producción, se vendan.
Para que los accionistas estén satisfechos, hace falta sacar al mercado una vasta cantidad de mercancías que cristalizan el trabajo abstracto contenido en el valor. Para el capital, es absolutamente indiferente que estas mercancías representen realmente “cosas útiles” o que simplemente lo parezcan. Para el capital, la única “utilidad” que cuenta es la que permite obtener beneficios y proseguir el proceso de valorización sin fin, de modo que las empresas se han convertido en maestras en el arte de convencer, mediante la publicidad, a quienes tienen realmente o de forma ficticia (el crédito) el poder adquisitivo de que las mercancías que les ofrecen son “útiles”.
A propósito de la crisis ecológica, para designar la tendencia y señalar las responsabilidades se utiliza a menudo el término “antropoceno”. Tú lo rechazas. ¿Puedes precisar qué hay detrás de este debate?
Lo que está en juego es la necesidad de dar un fundamento sólido al ecosocialismo. No hay que olvidar que el artículo publicado en Inprecor es una traducción de la conclusión de Finance Capital Today. Para mí se trataba de proporcionar a un público anglófono un punto de referencia. El nombre de Jason Moore le es familiar. El término “antropoceno” lo han inventado unos científicos para designar la actual era geológica, que se caracteriza por el hecho de que la “humanidad” se convierte en una fuerza geológica efectiva que altera el conjunto de factores climáticos, geológicos y atmosféricos.
En un trabajo que pretende “multiplicar los puntos de vista”, Christophe Bonneuil y Jean-Baptiste Fressoz han propuesto una “lectura ecomarxista del antropoceno”, consistente en “releer la historia del capitalismo bajo el prisma no solo de los efectos sociales negativos de su globalización, como en el marxismo estándar (cf. la noción de ‘sistema-mundo’ de Immanuel Wallerstein y la de ‘intercambio desigual’), sino también de sus metabolismos materiales insostenibles (consistentes en fugas adelante recurrentes hacia la ocupación de nuevos espacios hasta entonces vírgenes, implantando en ellos relaciones extractivistas y capitalistas) y sus impactos ecológicos”. 3/Bonneuil y Fressoz, al igual que Jason Moore, establecen un vínculo entre el cambio de las relaciones del ser humano con la naturaleza, teorizado por Francis Bacon y René Descartes, y el de las relaciones entre los seres humanos con la creación de la esclavitud y después la construcción de la dominación imperialista.
Moore es menos ecuménico que los autores franceses y hunde el clavo. La palabra “capitaloceno” sirve para afirmar que vivimos “la edad del capital” y no la “edad del ser humano”. “La edad del capital” no tiene para él tan solo una acepción económica, sino que designa una manera de organizar la naturaleza, haciendo de la naturaleza un elemento externo al ser humano y también un elemento cheap, en el doble sentido que puede tener esta palabra en inglés: barato, pero también el derivado del verbo cheapen, que significa rebajar, abaratar, degradar. 4/Esto vale para los y las trabajadoras, cuando la intensidad de la explotación del trabajo culmina en las minas y las plantaciones.
Tú reactualizas el debate sobre los límites del capitalismo. Esto realza la importancia de lo que está en juego en el periodo actual. Ahora bien, a diferencia de los años treinta, asistimos sin duda a un ascenso de las fuerzas reaccionarias de todo pelaje, pero no al del movimiento obrero, mientras que el movimiento altermundialista, en el mejor de los casos, está estancado y los ecologistas son capaces de ofrecer resistencias locales feroces, pero no más… En este contexto, ¿cuáles pueden ser las perspectivas y los puntos de apoyo de los marxistas revolucionarios?
Hay que tener cuidado con la analogía de los años treinta, cada vez más marcada por la perspectiva de una nueva guerra mundial. Pero por lo demás tienes razón. Todo está en manos de las y los “de abajo”. El peso del paro lastra las luchas obreras. La tarea del momento es transformar la indignación en cólera en todos los terrenos en que la suscitan las desigualdades, y sembrar sus gérmenes y apoyarla cuando estalle. Es esencial dirigirla contra el capital y la propiedad privada. Las luchas ecologistas sacan fuerza de su convicción y de la delimitación exacta del enemigo. Por el contrario, el movimiento altermundialista se estanca porque ha eliminado el componente anticapitalista que ha tenido en algún momento.
01/04/2017
Publicado originalmente en la revista L’Anticapitaliste n°86 (abril de 2017) :
http://bit.ly/2rJ0YnU
Traducción: viento sur
1/ Miembro del grupo de trabajo de Economía del Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) y del consejo científico de Attac, François Chesnais ha escrito, por ejemplo, Les Dettes illégitimes (Editions Raisons d’agir), y dirigido La Finance mondialisée (Editions La Découverte 2004).
2/ Ernest Mandel, Introduction, en Karl Marx, Capital, Libro III (Penguin, 1981), p. 78.
3/ Attac, Les Possibles, n° 3, primavera de 2014, donde resumen las posiciones defendidas en su libro L’événement anthropocène – La Terre, l’histoire et nous, Le Seuil, 2013.
4/ Jason Moore, Capitalism in the Web of Life, Ecology and the Accumulation of Capital, Verso, 2015.
 Este artigo encontra-se em: FOICEBOOK http://bit.ly/2qZgmzr

terça-feira, 6 de junho de 2017

O agravamento das desigualdades de rendimentos entre Portugal e a UE e também em Portugal

Eugénio Rosa    04.Jun.17    Outros autores
O rendimento médio em Portugal tem diminuído nos últimos anos e é apenas 52% da média da UE. Mas o rendimento mais elevado no nosso país é 155 vezes superior ao mais baixo. O rendimento médio desce, as desigualdades acentuam-se. São elementos que os dados do IRS ilustram. E recorde-se que uma parte significativa dos rendimentos de Capital e de Propriedade “fogem” ao pagamento de IRS. Se fossem incluídos, as desigualdades seriam ainda muito maiores.
Leer texto completo [PDF]

domingo, 4 de junho de 2017

Consolidando o poder

Por AK Malabocas, via ROAR Magazine, traduzido por Daniel Alves Teixeira
David Harvey, um dos principais pensadores marxistas de nosso tempo, sentou-se com o coletivo ativista AK Malabocas para discutir as transformações no modo de acumulação do capital, a centralidade do terreno urbano na luta de classes contemporânea, e as implicações de tudo isto para o anti-capitalismo organizado.

AK Malabocas: Nos últimos quarenta nos, o modo de acumulação capitalista mudou globalmente. O que essas mudanças significam para a luta contra o capitalismo?
David Harvey: De uma perspectiva macro, qualquer modo de produção tende a gerar um tipo de oposição bastante distinto, que é uma curiosa imagem espelhada de si mesmo. Se você olhar de volta para os anos 1960 ou 1970, quando o capital era organizado em grandes corporações, formas hierárquicas, você tinha estruturas de oposição que eram aparatos políticos de tipo corporativistas, unistas. Em outras palavras, um sistema Fordista gerava um tipo de oposição fordista.
Com a queda desta forma de organização industrial, em particular nos países capitalistas avançados, você chegou a uma configuração do capital muito mais descentralizada: mais fluída no espaço e tempo do que pensado anteriormente. Ao mesmo tempo nós vimos a emergência de uma oposição fundamentada no trabalho em rede e descentralização e que não gosta da hierarquia e das formas anteriores de oposição fordista.
Então, de um jeito meio engraçado, os esquerdistas se reorganizaram da mesma maneira que a acumulação de capital está reorganizada. Se nós entendermos que a esquerda é a imagem espelhada do que nós estamos criticando, então talvez o que devemos fazer é quebrar o espelho e sair dessa relação simbiótica com o que nós estamos criticando.
AKM: Na era fordista, a fábrica era o principal lugar de resistência. Onde nós podemos encontrá-lo agora que o capital se mudou do chão de fábrica em direção ao terreno urbano?
DH: Primeiro de tudo, a forma-fábrica não desapareceu – você ainda encontra fábricas em Bangladesh ou na China. O que é interessante é como o modo de produção nas cidades centrais mudou. Por exemplo, o setor logístico passou por uma grande expansão: UPS, DHL, e todos esses trabalhadores de entrega estão produzindo valores enormes nos dias de hoje.
Nas últimas décadas, uma forte mudança ocorreu também no setor de serviços: os maiores empregadores de trabalho nos anos 1970 nos EUA eram a General Motors, Ford e US Steel. Os maiores empregadores de trabalho hoje são McDonald’s, Kentucky Fried Chicken and Walmart. Antes, a fábrica era o centro da classe trabalhadora, mas hoje nós encontramos a maior parte da classe trabalhadora no setor de serviços. E porque nós deveríamos dizer que produzir carros é mais importante do que produzir hambúrgueres?
Infelizmente a esquerda não está confortável com a ideia de organizar trabalhadores de fast-food. Sua imagem da classe trabalhadora clássica não se encaixa com produção de valor dos trabalhadores do serviço, de entrega, restaurante, supermercados.
O proletariado não desapareceu, mas existe um novo proletariado que tem características muito diferentes daquele tradicional que a esquerda usou para identificar a vanguarda da classe trabalhadora. Nesse sentido, os trabalhadores do McDonald’s se tornaram os trabalhadores do ferro do século XXI.
AKM: Se este é o novo proletariado, onde estão os lugares para organizar a resistência agora?
DH: É muito difícil se organizar nos lugares de trabalho. Por exemplo, entregadores estão se movendo para todos os lugares.  Então essa população talvez estivesse melhor organizada fora do lugar de trabalho, isso quer dizer nas estruturas de vizinhança.
Existe mesmo uma interessante frase no trabalho de Gramsci de 1919 dizendo que organizar-se e fazer conselhos no lugar de trabalho é muito bom, mas nós deveríamos ter conselhos de vizinhança também. E os conselhos de vizinhança, ele disse, tem um entendimento melhor de qual é a condição da classe trabalhadora como um todo comparado com o entendimento setorial da organização no lugar de trabalho.
Trabalhadores organizados no lugar de trabalho normalmente sabiam muito bem o que um trabalhador do ferro era, mas eles não entendiam o que o proletariado era como um todo. A organização de vizinhança poderia então incluir por exemplo os limpadores de rua, os trabalhadores de casa, os entregadores. Gramsci nunca realmente tomou isso e disse: “vamos, o Partido Comunista deve organizar assembleias na vizinhança!”
Nada obstante, existem umas poucas exceções no contexto Europeu onde Partidos Comunistas de fato organizaram conselhos de vizinhança – porque eles não podiam se organizar no lugar de trabalho, como na Espanha por exemplo. Nos anos ’60 esse era uma forma muito poderosa de organização. Por isso, – como eu tenho argumentado há muito tempo – nós devermos olhar para a organização da vizinhança como uma forma de organização de classe. Gramsci somente mencionou isso uma vez em seus escritos e ele nunca seguiu adiante.
Na Grã-Bretanha na década de 1980, houveram formas de organização do trabalho em plataformas por toda a cidade com base em conselhos comerciais, que estavam fazendo o que Gramsci sugeriu. Mas dentro do movimento sindical estes conselhos comerciais foram sempre considerados como formas inferiores de organização do trabalho. Eles nunca foram tratados como sendo fundamentais para a forma como o movimento sindical deve operar.
Na verdade, descobriu-se que os conselhos comerciais eram frequentemente muito mais radicais do que os sindicatos convencionais e isso porque eles estavam enraizados nas condições de toda a classe operária, não só nos setores muitas vezes privilegiados da classe trabalhadora. Então, na medida em que eles tinham uma definição muito mais ampla da classe operária, os conselhos comerciais tendem a ter políticas muito mais radicais. Mas isso nunca foi valorizado pelo movimento sindical em geral – sempre foi olhado como um espaço onde os radicais poderiam jogar.
As vantagens desta forma de organização são óbvias: ele supera a divisão entre a organização setorial, rla inclui todos os tipos de trabalho “desterritorializado”, e é muito adequada às novas formas de comunidade organizações baseadas em assembleias, como Murray Bookchin estava advogando, por exemplo.
AKM: Nas últimas ondas de protesto – na Espanha e na Grécia, por exemplo, ou no movimento Occupy – você pode encontrar esta ideia de “resistência localizada”. Parece que esses movimentos tendem a se organizar em torno de questões da vida cotidiana, em vez das grandes questões ideológicas que a esquerda tradicional costumava focar.
DH: Por que dizer que a organizar-se em torno da vida cotidiana não é uma das grandes questões? Eu acho que É uma das grandes questões. Mais de metade da população mundial vive em cidades, e a vida cotidiana nas cidades é ao que as pessoas estão expostas e que traz as suas dificuldades. Estas dificuldades residem tanto na esfera da realização do valor como na esfera da produção do valor.
Este é um dos meus argumentos teóricos mais importantes: todo mundo lê o Volume I de O Capital e ninguém lê o Volume II. O Volume I é sobre a produção do valor, o Volume II é sobre a realização do valor. Concentrando-se no Volume II, você vê claramente que as condições de realização são tão importantes como as condições de produção.
Marx fala frequentemente sobre a necessidade de ver o capital como a unidade contraditória entre produção e realização. Onde o valor é produzido e onde ele é realizado são duas coisas diferentes. Por exemplo, um monte de valor é produzido na China e é realmente realizado pela Apple ou pelo Walmart nos Estados Unidos. E, evidentemente, a realização do valor está envolvido na realização de valor por meio de um consumo caro da classe trabalhadora.
O capital pode conceder salários mais altos no ponto de produção, mas então recupera-o no ponto de realização pelo fato de que os trabalhadores têm de pagar rendas muito mais elevadas e custos de habitação, despesas de telefone, despesas de cartão de crédito e assim por diante. Assim, a luta de classes sobre a realização – habitação a preços mais acessíveis, por exemplo – são tão significativas para a classe trabalhadora como as lutas por salários e condições de trabalho. Qual é a vantagem de ter um salário maior se ele é imediatamente tomado de volta em termos de custos de habitação elevados?
Em sua relação com a classe trabalhadora, os capitalistas há muito tempo aprenderam que podem fazer um monte de dinheiro tomando de volta o que eles haviam dado. E, na medida em que – particularmente nas décadas de 1960 e 1970 – os trabalhadores se tornaram cada vez mais empoderados na esfera do consumo, o capital passa a concentrar muito mais puxando para baixo o valor através do consumo.
Então as lutas na esfera da realização, que não eram tão fortes nos tempos de Marx, e o fato de que ninguém lê o maldito livro (Volume II), é um problema para a esquerda convencional. Quando você me diz: ‘o que é o macro-problema aqui?’ – bem, isso é um macro-problema! O conceito de capital e a relação entre produção e realização. Se você não vê a unidade contraditória entre ambos, então você não vai obter toda a imagem. A luta de classes é escrita toda sobre ele e eu não consigo entender por que um monte de marxistas não podem colocar na cabeça como isso é importante.
O problema é como entendemos Marx em 2015. Nos tempos de Marx, a extensão da urbanização era relativamente conveniente e o consumismo da classe operária era quase inexistente, por isso tudo que Marx tinha que falar era que a classe trabalhadora conseguia sobreviver com um salário escasso e que eles eram muito sofisticados em fazer isso. O capital deixou eles a seus próprios planos para que eles fizessem o que quisessem.
Mas hoje em dia estamos em um mundo onde o consumismo é responsável por cerca de 30 por cento da dinâmica da economia global – nos EUA é ainda quase 70 por cento. Então por que estamos sentados aqui dizendo que o consumismo é algo irrelevante, fixando no Volume I e falando sobre a produção e não sobre o consumismo?
O que a urbanização faz é nos forçar a certos tipos de consumo, por exemplo: você tem que ter um automóvel. Portanto, o seu estilo de vida é ditado de muitas maneiras pela forma que a urbanização toma. E, novamente, nos dias de Marx isso não era significativo, mas em nossos dias, isto é crucial. Nós temos que perseguir formas de organização que realmente reconheçam essa mudança na dinâmica da luta de classes.
AKM: Dada esta mudança, a esquerda teria que definitivamente ajustar suas táticas e formas de organização, bem como a sua concepção do que é organizar.
DH: Os grupos que carimbaram os movimentos recentes com seu caráter, provenientes das tradições anarquistas e autonomistas, estão muito mais embebidos na política da vida cotidiana, muito mais do que os marxistas tradicionais.
Eu sou muito simpático com os anarquistas, eles têm uma linha muito melhor sobre isso, precisamente em lidar com a política de consumo e sua crítica do que o consumismo é. Parte do seu objetivo é mudar e reorganizar a vida cotidiana em torno de princípios novos e diferentes. Então eu acho que este é um ponto crucial para o qual muitas ações políticas têm de ser dirigida nestes dias. Mas eu discordo de você quando você que isto não é uma “grande questão”.
AKM: Então, olhando para os exemplos da Europa Ocidental – redes de solidariedade na Grécia, auto-organização na Espanha ou Turquia – estes parecem ser bastantes cruciais para construir movimentos sociais em torno da vida cotidiana e das necessidades básicas nos dias de hoje. Você vê isso como uma abordagem promissora?
DH: Eu acho que isso muito promissor, mas há uma clara auto-limitação, que é um problema para mim. A auto-limitação é a relutância em tomar o poder em algum ponto. Bookchin, em seu último livro, diz que o problema com os anarquistas é a sua negação da importância do poder e sua incapacidade de tomá-lo. Bookchin não vai tão longe, mas eu acho que isso é a recusa de ver o estado como um possível parceiro para a transformação radical.
Existe uma tendência de considerar o Estado como sendo o inimigo, o 100 por cento inimigo. E há uma abundância de exemplos de Estados repressivos fora do controle público onde este é o caso. Sem questão: o Estado capitalista tem de ser combatido, mas sem dominar o poder do Estado e sem tomá-lo você rapidamente entra na história do que aconteceu, por exemplo, em 1936 e 1937 em Barcelona e então em toda a Espanha. Ao se recusar a tomar o estado no momento em que tinha o poder de fazê-lo, os revolucionários da Espanha permitiram que o estado caísse de volta nas mãos da burguesia e da ala stalinista do movimento Comunista – e o estado se reorganizou e esmagou a resistência.
AKM:  Isso pode ser verdade para o Estado espanhol em 1930, mas se olharmos para o estado neoliberal contemporânea e o recuo do Estado social, o que resta do estado a ser conquistado, a ser aproveitado?
DH: Para começar, a esquerda não é muito boa em responder a questão de como podemos construir infra-estruturas maciças. Como é que a esquerda irá construir a ponte de Brooklyn, por exemplo? Qualquer sociedade depende de grandes infra-estruturas, infra-estruturas para uma cidade inteira – como o abastecimento de água, eletricidade e assim por diante. Eu acho que há uma grande relutância entre a esquerda para reconhecer que por isso precisamos de algumas formas diferentes de organização.
Existem partes do aparelho do Estado, até mesmo do aparelho de Estado neoliberal, que são ainda assim terrivelmente importantes – o centro de controle de doenças, por exemplo. Como podemos responder a epidemias globais como o Ebola e similares? Você não pode fazê-lo no caminho anarquista da DIY-organização. Há muitos casos em que você precisa de algumas formas de infra-estrutura similares ao estado. Não podemos enfrentar o problema do aquecimento global somente através de formas descentralizadas de confrontos e atividades.
Um exemplo que muitas vezes é mencionado, apesar de seus muitos problemas, é o Protocolo de Montreal que visa eliminar gradualmente a utilização de clorofluorcarbonetos em frigoríficos para limitar a degradação da camada de ozono. Ele foi aplicado com sucesso na década de 1990, mas precisava de algum tipo de organização que fosse muito diferente daquela que resulta da política baseada em assembleias.
AKM:  A partir de uma perspectiva anarquista, eu diria que é possível substituir até mesmo instituições supra-nacionais como a OMS com organizações confederadas que são construídas de baixo para cima e que, eventualmente, chegam a tomada de decisões em nível mundial.
DH: Talvez até um certo grau, mas temos de estar cientes de que sempre haverá algum tipo de hierarquia e vamos sempre enfrentar problemas como prestação de contas ou o direito de recurso. Haverá relações complicadas entre, por exemplo, pessoas que lidam com o problema do aquecimento global do ponto de vista do mundo como um todo e do ponto de vista de um grupo que está no terreno, digamos, em Hanover ou qualquer outro lugar, e que perguntará: ‘por que devemos ouvir o que eles estão dizendo?’
AKM:  Então você acredita que isso exigiria algum tipo de autoridade?
DH: Não, haverá estruturas de autoridade de qualquer maneira – sempre haverá. Eu nunca estive em uma reunião anarquista onde não havia nenhuma estrutura de autoridade secreta. Há sempre essa fantasia de tudo ser horizontal, mas eu sentava lá, assistia e pensava: ‘Oh, Deus, existe toda uma estrutura hierárquica aqui, mas ela é coberta.’
AKM:  Voltando aos recentes protestos em todo o Mediterrâneo: muitos movimentos concentraram-se em lutas locais. Qual é o próximo passo a tomar para a transformação social?
DH: Em algum momento temos que criar organizações que são capazes de reunir e forçar a mudança social em uma escala mais ampla. Por exemplo, o Podemos na Espanha será capaz de fazer isso? Em uma situação caótica como a crise económica dos últimos anos, é importante para a esquerda agir. Se a esquerda não fazê-lo, em seguida, então a direita é a próxima opção. Eu penso –  e eu odeio dizer isso – mas penso que a esquerda tem que ser mais pragmática em relação à dinâmica que está acontecendo agora.
AKM: Mais pragmática em que sentido?
DH: Bem, por que eu apoiei o SYRIZA mesmo sabendo que ele não é um partido revolucionário? Porque abriu um espaço no qual algo diferente poderia acontecer e, portanto, foi um movimento progressivo para mim.
É um pouco como Marx disse: o primeiro passo para a liberdade é a limitação da duração da jornada de trabalho. Exigências muito estreitas abrem espaço para resultados muito mais revolucionárias, e mesmo quando não há qualquer possibilidade de quaisquer resultados revolucionários, temos que procurar soluções de compromisso que ainda assim revertam a absurda austeridade neoliberal e abram o espaço onde novas formas de organização possam ter lugar.
Por exemplo, seria interessante se o Podemos procurasse organizar formas de confederalismo democrático – porque de certa forma o Podemos originou-se de muitas reuniões do tipo de assembleias ocorrendo em toda a Espanha, então eles são muito experientes com a estrutura de assembleia.
A questão é como eles conectam a forma-assembleia com algumas formas permanentes de organização relativos a sua ascensão à uma posição como um forte partido no Parlamento. Isso também vai volta para a questão da consolidação do poder: você tem que encontrar maneiras de fazer isso, porque sem ele a burguesia e capitalismo corporativo irão encontrar maneiras de se reafirmar e tomar o poder de volta.
AKM: O que você acha sobre o dilema das redes de solidariedade preencherem o vazio após a retirada do estado de bem-estar e indiretamente se tornarem um parceiro do neoliberalismo desta forma?
DH: Há duas formas de organização. Uma delas é o vasto crescimento do setor das ONG, mas um monte destas são financiadas externamente, não nas bases, e não abordam a questão dos grandes doadores que definem a agenda – que não será uma agenda radical. Aqui tocamos a privatização do estado de bem-estar.
Isto me parecer ser muito diferente politicamente com organizações de base, onde as pessoas estão por conta própria, dizendo:’. OK, o Estado não liga para nada, então vamos ter que cuidar dele por nós mesmos”. Isso me parece estar levando a formas de organização de base com um estatuto político muito diferente.
AKM: Mas como evitar a preencher essa lacuna, ajudando, por exemplo, os desempregados a não serem espremidos pelo Estado neoliberal?
DH: Bem, tem de haver uma agenda anti-capitalista, de modo que quando o grupo trabalha com pessoas todo mundo saiba que ele não é apenas sobre ajudar a lidar com o sistema, mas que há uma intenção organizada para mudá-lo politicamente na sua totalidade. Isto significa ter um projeto político muito claro, o que é problemático com tipos descentralizados e não homogéneos de movimentos onde um trabalha de uma maneira, outros de forma diferente e não há nenhum projeto coletivo ou comum.
Isto se conecta à primeira questão que você levantou: não existe uma coordenação de quais são os objetivos políticos. E o perigo é que você apenas ajude as pessoas a lidar com o problema e assim não qssim não haverá nenhuma política que saia disso. Por exemplo, Occupy Sandy ajudou as pessoas a voltar para suas casas e eles fizeram um trabalho fantástico, mas, no final, eles fizeram o que a Cruz Vermelha e os serviços federais de emergência deveriam ter feito.
AKM: O fim da história parece já ter passado. Olhando para as condições reais e exemplos concretos de luta anti-capitalista, você acha que “ganhar” é ainda uma opção?
DH: Definitivamente, e mais ainda, você tem fábricas ocupadas na Grécia, economias de solidariedade que atravessam as cadeias de produção sendo forjadas, as instituições democráticas radicais na Espanha e muitas belas coisas acontecendo em muitos outros lugares. Há um crescimento saudável do reconhecimento de que temos de ser muito mais amplos em matéria de política entre todas estas iniciativas.
A esquerda marxista tende a desconsiderar um pouco algumas dessas coisas e eu acho que eles estão errados. Mas ao mesmo tempo eu não acho que nada disso seja grande o suficiente por si só para realmente lidar com as estruturas fundamentais do poder que precisam ser desafiadas. Aqui falamos de nada menos do que um estado. Então a esquerda terá que repensar o seu aparato teórico e tático.

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.