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terça-feira, 6 de outubro de 2026

 Valores?
 Publico - 06 Outubro 2026
 Manuel Loff Historiador.


2,2 milhões de votos num total de quase 159 milhões de
eleitores, a menor diferença entre os dois candidatos que
passam a uma 2.ª volta nas eleições brasileiras desde a
chamada redemocratização. É a vantagem do Bolsonaro-filho
sobre Lula. Dizer que o cenário político brasileiro está
polarizado é uma banalidade. Em todas as sociedades onde as
direitas extremas herdeiras do fascismo conseguem criar a
sensação de que podem assaltar o poder, todas as eleições
parecem ser disputadas junto a um abismo. Pior ainda nos
sistemas presidencialistas, onde as escolhas são
completamente personalizadas e onde os governos se decidem
em duelos, modelo claramente preferido pela extrema-direita,
cujo modelo de comunicação política — isto é, desinformação
em estado puro — substitui a discussão dos problemas sociais
e económicos pelas fakes que forem necessárias para
assassinar moralmente o adversário.
O perfil do eleitorado bolsonarista permanece
fundamentalmente o mesmo de 2018 e 2022. Como se verifica
com todas as direitas fascizadas, Bolsonaro terá recebido os
votos da maioria dos homens (42% contra 37% de Lula), mas
perde entre as mulheres (34%/42%). Tem o apoio de uma
pequena maioria dos eleitores em idade ativa, nas faixas dos
25 aos 59, mas perde entre os jovens (16 a 24 anos, por
32%/46%) e entre os maiores de 60 (38%/47%). Desmentindo

a já velha ideia feita de que a extrema-direita tem o seu celeiro
eleitoral entre os menos escolarizados e (também por isso) os
mais pobres,
Bolsonaro perde por grande distância entre quem tem apenas
o ensino básico (28%/56%) ou é negro (25%/43%), mas ganha
entre os licenciados (43%/31%) e os que ganham mais de
cinco salários mínimos (45%/34%).
Apesar da interferência do fator religioso (evangélicos votam
cada vez mais Bolsonaro, católicos ainda votam
maioritariamente
Lula), o voto brasileiro continua a ser sobretudo de classe: as
classes populares, os que menos rendimento têm e as regiões
onde elas são maioritárias continuam a votar à esquerda, ou
seja, Lula. Votam à direita os bairros ricos, o mundo rural dos
proprietários que continuam, ao fim de 500 anos, a roubar
terras aos povos originários.
Depois de ter derrotado Bolsonaro-pai em 2022, depois de o
negacionismo científico (uma das componentes centrais do
bolsonarismo) deixar centenas de milhar de mortos na
pandemia, e apesar de se ter arriscado a fazer apurar
responsabilidades pelo golpe que o bolsonarismo organizou
em 2023, Lula perdeu dois milhões de votos entre a 1.ª volta
de 2022 e a de anteontem; o bolsonarismo ganhou cinco. A
transição autoritária que se iniciou com o impeachment de
Dilma (2016), que parecia travada em 2022, está a ganhar um
novo impulso. O Brasil, uma das sociedades mais
contraditórias e desiguais do mundo e, simultaneamente, uma
das mais criativas, é um bom exemplo (Portugal é outro) de
quão arriscado é querer democratizar sem tocar nos
fundamentos desigualitários da ordem social, ou consagrar

formas de emancipação legal mas deixá-las sujeitas ao assédio
e ao ódio de quem conserva o domínio material da economia e
da informação. É o que permite que corruptos protegidos pelo
privilégio social encenem todo o debate político no campo da
moral, que políticos autoproclamados cristãos violem todas as
normas da moral cristã, ao mesmo tempo que juram ser
“instrumentos de Deus”.
Não creio, por isso, que o cientista político Felipe Nunes tenha
razão ao dizer que “o voto económico explicava muito; o que
explica agora são os valores, e a direita tem identidades e
valores que são muito claros” (O Globo, 5.10.2026). Os
“valores” da direita não são claros: são velhos, reconhecíveis;
os de Lula no poder perdem-se na inconsistência da coligação
contraditória que, com um Parlamento tão reacionário, é
obrigado a dirigir. Nada disto é novo na história. Sobrepor à
realidade uma alucinação foi o que a propaganda fascista fez
há cem anos, criando um imaginário que mobilizava um voto
há muito ressentido com a sensação de que soprava um vento
de mudança na História, mas que passara a ser possível
inverter o seu sentido. Isto é, derrotar a História.

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