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quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

 

Pensando na transformação do momento presente

O relatório Hegel-Marx

Loic Chaigneau

« Este livro é destinado a três públicos que às vezes podem ser os mesmos, mas com três objetivos diferentes. Primeiro, apresenta-se como uma ferramenta de educação popular. Em segundo lugar, carrega um objetivo, e obviamente filosófico: a defesa, a priori não muito original, mas mais do que nunca necessário, do relatório Hegel-Marx e, portanto, do materialismo dialético e histórico. Tal leitura desafia tanto o estruturalista quanto o neonaturalista de Marx e Hegel. Uma vez que, no que diz respeito à articulação entre pensamento e transformação política, entre teoria e prática, que está no cerne da obra proposta, os vínculos com Hegel, sejam eles parte da continuidade ou descontinuidade, ocupam toda a trajetória intelectual de Marx.

Ligar Marx a Hegel ainda está nos capacitando hoje a pensar e transformar o mundo que parece ser “louco” para muitos de nós; além disso, em um momento de crises repetidas. Finalmente, essa preocupação epistemológica é então inseparável de uma preocupação política, e é o terceiro objetivo deste livro: abordar uma audiência ativista. Trata-se de combinar o envolvimento comunista com a abordagem prática materialista. `»Bertrand.pt - Penser La Transformation Du Moment Present - Le Rapport Hegel / Marx

 

Les veaux et les Choses

Num momento em que a cultura política liberal já não é capaz de se determinar segundo as suas categorias históricas tradicionais de direita ou esquerda, a demagogia ambientalista agregou-se aí para tornar mais sustentável a consciência colectiva específica do capitalismo: a ocultação das relações de classe, em forma de mercadoria .

Um produto que apostará, portanto, na durabilidade sustentável, de forma a preservar as suas virtudes decorativas.

É por isso que só podemos julgar a partir da questão subsidiária: ecologismo, a fase final do capitalismo?

A resposta, em última análise, está na pergunta.

E que, na realidade, apenas resta discutir o predicado último.

 

Dominique Mazuet
Prefácio de Dominique Pagani

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

 

Em seu relatório secreto de fevereiro de 1956, Nikita Khrushchev acusou Joseph Stalin de crimes imensos. O relatório desferiu um golpe terrível no movimento comunista internacional, mudou o curso da história. Grover Furr passou uma década estudando a enxurrada de documentos dos antigos arquivos soviéticos e publicado desde o final da URSS. Neste estudo aprofundado do relatório Khrushchev, ele revela os resultados surpreendentes de sua investigação: nem uma única “revelação” de Khrushchev está correta. O discurso mais influente do século – se não de todos os tempos – é uma farsa. As implicações para a nossa compreensão da história da esquerda são imensas. Ao basear suas obras nas mentiras de Khrushchev, historiadores soviéticos e ocidentais, incluindo trotskistas e anticomunistas, realmente falsificaram a história soviética. Quase tudo o que pensávamos que sabíamos sobre os anos de Stalin deve ser revisto. A história da URSS e do movimento comunista deve ser completamente reescrita. Khrushchev mentiu é um livro magnífico, um trabalho formidável de pesquisa e raciocínio, claro e preciso em sua escrita e emocionante em suas descobertas e conclusões. Ao revisitar fontes antigas e usar o novo material dos arquivos soviéticos, o estudo de Grover Furr requer um repensar completo da história soviética, da história do socialismo e até da história mundial do século XX. Roger Keeran, professor de História no Empire State College, em Nova York, co-autor do »socialismo traido: as causas da queda da União Soviética» (Traduzido em Portugal)

Grover Furr fez um serviço orgulhoso para o campo dos estudos soviéticos por um ataque profundo ao relatório secreto de N. Khrushchev de 1956. Embora algumas acusações feitas por Khrushchev tenham sido rejeitadas há muito tempo pelo Ocidente e pela Rússia, por exemplo, a ideia de que o chefe da polícia secreta, Lavrenti Beria, era um agente estrangeiro, muitos dos outros pontos levantados por G. Furr é novo e merece atenção renovada. Disse Robert W. Thurston, professor de História, Universidade de Miami; autor de Vida e Terror na Rússia de Stalin, 1934-1941 (Yale University Press, 1998).

Khrushchev mentiu

GROVER FURR (Io)

Preço: 28 euros

Referência: 978-2-915854-68-8

Morreu Antonio Negri, um pensador que é impossível ignorar

 

O comunismo não morreu

Tradução
Maurício Ayer

No mês de agosto que passou, o filósofo e militante histórico marxista Antonio Negri completou 90 anos. Para ele, a derrota da esquerda revolucionária pós-1970 aconteceu por não enxergar as mutações do Capital - mas o sistema segue em crise, o poder “é sempre dividido” e o amor “mantém a espécie humana em pé”.

UMA ENTREVISTA DE

Roberto Ciccarelli

Da infância nos anos de guerra ao aprendizado de filosofia e à militância comunista, de Maio de 68 ao massacre da Piazza Fontana, do Poder Operário à Autonomia e de 77 à prisão e ao exílio. E novamente a prisão, antes da liberdade definitiva. Toni Negri – que contou sua trajetória, em parceria com Girolamo De Michele, em três volumes autobiográficos: Storia di un comunista [História de um comunista], Galera e exílio [Prisão e exílio] e Da Genova a Domani [De Gênova ao amanhã] (Ponte alle Grazie) – completou 90 anos no dia 1º de agosto.

Nesta entrevista, o filósofo e militante retoma momentos cruciais de sua vida, como os anos 1960, o 68 italiano, os anos de prisão e exílio. Também coloca em perspectiva o Partido Comunista Italiano (PCI), que em determinado momento caiu na armadilha de um justicialismo e delegou a política aos magistrados, processo que está na origem, segundo Negri, do desaparecimento da esquerda no país, nos dias atuais.

A entrevista aborda também os escritos que deram ao filósofo uma renovada projeção internacional, em coautoria com Michael Hardt, professor de literatura na Duke University, nos Estados Unidos, como: ImpérioMultidãoComum e O Bem Estar Comum. E ainda revisita sua aproximação a pensadores como Spinoza, sobre quem escreveu um importante livro – Spinoza Subversivo – quando estava na prisão. 

Por fim, Toni Negri responde a um questionamento a respeito do modo como se refere a São Francisco de Assis, ao qual ele diz se sentir próximo desde muito cedo. Para ele, Francisco é, sobretudo, um modo de trazer o amor, “como uma arma para a vida”, para o campo político. Diz Negri:  

“Francisco é o amor contra a propriedade: exatamente o que poderíamos ter feito na década de 1970, revertendo esse desenvolvimento e criando uma nova maneira de produzir. Francisco nunca foi suficientemente abordado, nem a importância que o franciscanismo teve na história italiana foi devidamente levada em conta. Menciono isso porque quero que palavras como amor e alegria entrem na linguagem política.” 


RC

Você completou 90 anos. Como vive o seu tempo hoje?

TN

Lembro-me de Gilles Deleuze, que sofria de uma doença semelhante à minha. A assistência e a tecnologia de que dispomos hoje não existiam naquela época. A última vez que o vi ele se movia com um carrinho com cilindros de oxigênio. Foi muito difícil. Hoje também é para mim. Acho que nessa idade cada dia que passa é um dia a menos. Você já não tem forças para torná-lo um dia mágico. É como quando você come uma boa fruta e ela deixa na boca um gosto maravilhoso. Esse fruto é a vida, provavelmente. É uma de suas grandes virtudes.

RC

Noventa anos são um século breve.

TN

Pode haver vários séculos breves. Há o clássico período definido por Hobsbawm, de 1917 a 1989. Houve o século americano, que foi bem mais curto. Durou desde os acordos monetários e de governança global em Bretton Woods até os atentados às Torres Gêmeas em setembro de 2001. No que me concerne, meu longo século começou com a vitória bolchevique, pouco antes de eu nascer, e continuou com as lutas dos trabalhadores e todos os conflitos políticos e sociais dos quais participei.

RC

Este breve século terminou com uma derrota colossal.

TN

É verdade. Mas eles pensaram que era o fim da história e que havia começado uma era de globalização pacificada. Nada mais falso, como verificamos todos os dias há mais de 30 anos. Estamos em um momento de transição, mas na realidade sempre estivemos. Embora possa passar despercebido, encontramo-nos em uma nova era marcada pelo ressurgimento mundial de lutas, contra as quais existe uma resposta dura. As lutas dos trabalhadores começaram a se cruzar cada vez mais com lutas feministas, antirracistas, em defesa dos imigrantes e pela liberdade de movimento, ou com as lutas ambientais.

RC

Filósofo, você se tornou professor em Pádua ainda muito jovem. Participou da Quaderni Rossi, a revista do operariado italiano. Fez pesquisa e trabalho de base nas fábricas, a começar pela Petroquímica em Marghera. Você fez parte, primeiro, do Potere Operaio, depois da Autonomia Operaia. Você viveu o longo 68 italiano, começando com o impetuoso 1969 dos trabalhadores em Corso Traiano, em Turim. Qual foi o momento político culminante dessa história?

TN

A década de 1970, quando o capitalismo antecipou fortemente uma estratégia para o seu futuro. Com a globalização, precarizou-se o trabalho industrial e todo o processo de acumulação de valor. Nessa transição, foram lançados novos polos produtivos: trabalho intelectual, trabalho afetivo, trabalho social que constrói a cooperação. Na base da nova acumulação de valor também estão, é claro, o ar, a água, a vida e todos os bens comuns que o capital continuou a explorar para neutralizar a queda da taxa de lucro que vinha sofrendo desde os anos 1960.

RC

Por que, desde meados dos anos 1970, a estratégia capitalista triunfou?

TN

Porque faltou uma resposta da esquerda. De fato, por muito tempo houve um total desconhecimento desses processos. Desde o final da década de 1970, foi eliminada qualquer força intelectual ou política, pontual ou de movimento, que tentasse mostrar a importância dessa transformação e que visasse a reorganização do movimento operário em torno de novas formas de socialização e organização política e cultural. Foi uma tragédia. Aqui aparece a continuidade do curto século no tempo que vivemos agora. Havia uma vontade da esquerda de bloquear o quadro político para preservar o que já tinha.

RC

E o que essa esquerda tinha?

TN

Uma imagem poderosa, mas já então insuficiente. Mitificou-se a figura do trabalhador industrial sem perceber que ele mesmo desejava algo muito diferente. Ele não queria se conformar com a fábrica de Agnelli, mas destruir sua organização; ele queria construir carros para oferecer aos outros sem escravizar ninguém. Em Marghera, eles não queriam morrer de câncer ou destruir o planeta. Isso é basicamente o que Marx escreveu em Crítica ao Programa de Gotha: contra a emancipação pelo trabalho mercantil patrocinado pela social-democracia e pela libertação da força de trabalho do trabalho mercantilizado. Estou convencido de que a direção tomada pela Internacional Comunista – de forma óbvia e trágica com o stalinismo, e depois de forma cada vez mais contraditória e impetuosa – destruiu o desejo que mobilizava massas gigantescas. Para toda a história do movimento comunista, aquela foi a batalha.

RC

O que foi enfrentado naquele campo de batalha?

TN

Por um lado, havia a ideia de libertação. Na Itália, foi iluminada pela resistência contra o nazifascismo. A ideia de libertação foi projetada na própria Constituição, como a interpretamos então quando éramos jovens. E aqui eu não subestimaria a evolução social da Igreja Católica que culminou no Concílio Vaticano II. Por outro lado, havia o realismo, herdado da social-democracia pelo Partido Comunista Italiano, aquele de Amendola e dos seguidores de Togliatti, de diferentes origens. Tudo começou a desmoronar nos anos 1970, precisamente quando, pelo contrário, surgiu a possibilidade de inventar uma nova forma de vida, uma nova forma de ser comunistas.

RC

Você continua a se definir como comunista. O que significa isso hoje?

TN

O que significou para mim quando jovem: conhecer um futuro em que teríamos conquistado o poder de ser livres, de trabalhar menos, de nos amar. Estávamos convencidos de que conceitos burgueses como liberdade, igualdade e fraternidade poderiam se materializar em palavras de ordem como cooperação, solidariedade, democracia radical e amor. Pensamos e fizemos, assim pensou a maioria que votou na esquerda e a fez existir. Mas o mundo era e é insuportável, tem uma relação contraditória com as virtudes essenciais do viver junto. No entanto, essas virtudes não se perdem, são adquiridas por meio da prática coletiva e vêm acompanhadas da transformação da ideia de produtividade, o que não significa produzir mais bens em menos tempo, nem travar guerras cada vez mais devastadoras. Pelo contrário, trata-se de alimentar a todos, modernizar, fazer as pessoas felizes. O comunismo é uma paixão coletiva alegre, ética e política que luta contra a trindade da propriedade, das fronteiras e do capital.

RC

As prisões de 7 de abril de 1979, primeiro momento da repressão ao movimento da autonomia operária, marcaram um antes e um depois. Por diversas razões, a meu ver, foi também pela história do Il Manifesto, graças a uma vibrante campanha garantista que durou anos, um caso jornalístico único realizado com militantes do movimento, um grupo de valentes intelectuais e o Partido Radical. Oito anos depois, em 9 de junho de 1987, quando desabou o castelo das acusações cambiantes e infundadas, Rossana Rossanda [fundadora do jornal Il Manifesto] escreveu que foi uma “reparação tardia e parcial de tantas coisas irreparáveis”. O que tudo isso significa para você hoje?

TN

Foi sobretudo o sinal de uma amizade que nunca foi traída. Rossana foi para nós uma pessoa de uma generosidade incrível. Porém, em determinado momento, ela também parou: ela não era capaz de responsabilizar o PCI pelo que o PCI havia se tornado.

RC

Em que ele se tornou?

TN

Em um opressor. Ele massacrou aqueles que denunciaram a situação em que ele se meteu. Naqueles anos, muitos de nós dissemos isso ao partido. Havia outra maneira, que era ouvir a classe trabalhadora, o movimento estudantil, as mulheres e todas as novas formas pelas quais as paixões sociais, políticas e democráticas estavam se organizando. Propusemos uma alternativa de maneira honesta, limpa e em massa. Fazíamos parte de um enorme movimento que investiu nas grandes fábricas, nas escolas e nas gerações. O fechamento do PCI levou ao surgimento do extremismo terrorista. Pagamos por tudo isso e muito caro. Só eu passei um total de 14 anos no exílio e 11 anos e meio na prisão. Il Manifesto sempre defendeu nossa inocência. Era completamente idiota que eu ou outros membros da Autonomia fôssemos considerados sequestradores de Aldo Moro ou assassinos de companheiros. Entretanto, na campanha pela inocência, que se manteve corajosa e importante, um aspecto substancial foi deixado de lado.

RC

Qual?

TN

Fomos politicamente responsáveis ​​por um movimento muito mais amplo contra o “compromisso histórico” entre o PCI e os democratas-cristãos. Houve uma resposta da polícia de direita contra nós, e isso é compreensível. Pelo contrário, o que não se quer perceber é a abrangência que o PCI deu a esta resposta. No fundo, eles temiam que o horizonte da classe política mudasse. Se esse nó histórico não for compreendido, como se poderá lamentar a inexistência de uma esquerda na Itália atual?

RC

A operação de 7 de abril e o chamado “teorema de Calogero” [em referência ao procurador que investigava o caso e que pediu as prisões dos principais líderes da Autonomia Operária] foram considerados um passo para a conversão de uma parte não desprezível da esquerda ao “judiciarismo” e a delegação da política ao poder judiciário. Como foi possível cair em tal armadilha?

TN

Quando o PCI substituiu a centralidade da luta econômica e política pela luta moral, e o fez por meio dos juízes que gravitavam em torno do partido, encerrou sua trajetória. Eles realmente acreditavam que estavam usando o judiciarismo para construir o socialismo? O judiciarismo é uma das coisas mais apreciadas pela burguesia. É uma ilusão devastadora e trágica que nos impede de ver o uso classista da lei, da prisão ou da polícia contra os subalternos.

Naqueles anos, os jovens juízes também mudaram. Antes eram muito diferentes. Eram chamados de “preceptores de assalto”. Lembro-me dos primeiros números da revista Democrazia e Diritto [Democracia e Direito], no qual também colaborei. Eles me encheram de alegria porque estávamos falando sobre justiça de massa. Depois a ideia de justiça decaiu de forma bem diferente, voltou aos conceitos de legalidade e legitimidade. E no Judiciário deixou de haver posição política, restando apenas coligações entre correntes. Assim, temos hoje uma Constituição reduzida a um pacote de regras que nem mais correspondem à realidade do país.

RC

Na prisão, você continuou a batalha política. Em 1983, escreveu um documento na prisão, publicado por Il Manifesto, intitulado Do You Remember Revolution? [Você lembra da revolução?]. Falava da originalidade do 68 italiano, dos movimentos dos anos 70 que não podiam ser reduzidos aos “anos de chumbo”. Como você viveu aqueles anos?

TN

Aquele documento dizia coisas importantes com certa timidez. Acho que estava dizendo mais ou menos as coisas que acabei de recordar. Foi um período difícil. Estávamos dentro, tínhamos que sair de alguma maneira. Confesso que em meio àquele imenso sofrimento era melhor para mim estudar Spinoza do que pensar na escuridão absurda em que nos encerraram. Escrevi um longo livro sobre Spinoza e isso foi meio que um ato heróico. Eu não poderia ter mais de cinco livros em minha cela. E estava constantemente mudando de prisão especial: Rebibbia, Palmi, Trani, Fossombrone, Rovigo. Cada vez em uma nova cela, com pessoas diferentes. Esperar alguns dias e recomeçar. O único livro que carreguei comigo foi a Ética de Spinoza. Tive a sorte de terminar meu texto antes do motim na prisão de Trani em 1981, quando as forças especiais destruíram tudo. Fico feliz que esse livro tenha produzido um choque na história da filosofia.

RC

Em 1983 você foi eleito deputado e saiu da prisão por alguns meses. O que você acha do momento em que votaram no parlamento a favor de seu retorno à prisão e você decidiu se exilar na França?

TN

Ainda sofro muito com isso. Se tenho que fazer um julgamento histórico e imparcial, acho que fiz bem em sair. Na França fui útil para estabelecer relações entre gerações e pude estudar. Tive a oportunidade de trabalhar com Félix Guattari e pude entrar nos debates do momento. Me ajudou muito a entender a vida dos “sans papiers” [ou “sem documentos”, referência aos imigrantes ilegais na França]. Eu também estava nessa situação: eu dava aulas, mesmo sem ter uma carteira de identidade. Meus colegas da Universidade de Paris 8 me ajudaram, mas em outros aspectos acho que me enganei. Fiquei profundamente abalado por ter deixado meus companheiros na prisão, aqueles com quem vivi os melhores anos da minha vida e as revoltas em quatro anos de prisão preventiva. Ainda dói tê-los deixado. Aquela prisão destruiu a vida de colegas que eu amava muito e, em muitos casos, também de suas famílias. Tenho 90 anos e fui salvo. Mas isso não me traz mais serenidade diante daquele drama.

RC

Rossanda também o criticou…

TN

Sim, ela me pediu para me comportar como Sócrates. Respondi que corria o risco de acabar como o filósofo. Por causa dos relacionamentos na prisão, eu poderia ter morrido. Pannella me tirou materialmente da prisão e depois jogou toda a culpa em mim porque eu não queria voltar. Muitas pessoas me enganaram. Rossana me alertou naquela época, e talvez ela estivesse certa.

RC

Houve outra ocasião em que ela fez isso?

TN

Sim, quando ela me disse para não voltar de Paris para a Itália em 1997, após 14 anos de exílio. Eu a vi pela última vez antes de partir, em um café perto do Museu Cluny, o museu nacional da Idade Média. Ela me disse que queria me amarrar com uma corrente para me impedir de pegar aquele avião.

RC

Por que você decidiu voltar para a Itália?

TN

Eu estava convencido de que iria lutar pela anistia para todos os companheiros da década de 1970. Na época, isso parecia possível. Fiquei seis anos na prisão até 2003. Talvez Rossana tivesse razão.

RC

Que lembranças você tem dela hoje?

TN

Lembro-me da última vez que a vi em Paris. Ela era uma amiga muito querida que estava preocupada com minhas viagens à China, com medo de que algo de mal se passasse comigo. Ela era uma pessoa maravilhosa, naquela época e sempre.

RC

Anna Negri, sua filha, escreveu Con un piede impigliato nella storia [Com um pé enredado na história] (DeriveApprodi), que conta essa história do ponto de vista de seus afetos e de outra geração.

TN

Tenho três filhos maravilhosos, Anna, Francesco e Nina, que sofreram de forma indescritível o que aconteceu. Assisti à série de Bellocchio sobre Aldo Moro e ainda fico atônito por ter sido acusado dessa incrível tragédia. Penso em meus dois primeiros filhos, que estavam na escola. Alguns os viam como filhos de um monstro. Esses meninos, de uma forma ou de outra, suportaram eventos enormes. Eles saíram da Itália e voltaram, eles mesmos passaram por aquele longo inverno. O mínimo que eles podem ter é uma certa raiva dos pais que os colocaram nessa situação. E eu tenho uma certa responsabilidade nessa história. Nós nos tornamos amigos novamente. Para mim, isso é um presente de imensa beleza.

RC

No final da década de 1990, coincidindo com os novos movimentos globais e, em seguida, com os movimentos contra a guerra, você conquistou uma posição de grande reconhecimento junto com Michael Hardt, começando com a publicação de Império. Como você definiria a relação entre filosofia e militância hoje, em um momento de retorno à especialização e às ideias reacionárias e elitistas?

TN

É difícil para mim responder a essa pergunta. Quando as pessoas me dizem que fiz uma “ópera”, eu respondo: lírica? Dá para acreditar nisso? Tenho de rir. Porque sou mais um militante do que um filósofo. Isso pode fazer algumas pessoas rirem, mas eu me vejo assim, como Papageno… [o personagem pássaro da ópera A flauta mágica, de Mozart].

RC

Mas a verdade é que você escreveu muitos livros.

TN

Tive a sorte de estar a meio caminho entre a filosofia e a militância. Nos melhores períodos da minha vida, passei constantemente de um para o outro. Isso me permitiu cultivar uma relação crítica com a teoria capitalista do poder. Pivô em Marx, fui de Hobbes a Habermas, passando por Kant, Rousseau e Hegel. Pessoas sérias o suficiente para serem combatidas.

Em contrapartida, a linha Maquiavel-Spinoza-Marx era uma alternativa real. Para reiterar: a história da filosofia, para mim, não é um tipo de texto sagrado que misturou todo o conhecimento ocidental, de Platão a Heidegger, com a civilização burguesa e transmitiu conceitos funcionais ao poder. A filosofia faz parte de nossa cultura, mas deve ser usada para o que é necessário, ou seja, para transformar o mundo e torná-lo mais justo. Deleuze falou de Spinoza e retomou a iconografia que o retratava como Masaniello. Gostaria que isso fosse verdade para mim. Mesmo agora que estou com 90 anos, ainda tenho essa relação com a filosofia. Viver a militância é menos fácil, mas consigo escrever e ouvir, em uma situação de exílio.

RC

Exilado, ainda hoje?

TN

Um pouco, sim. Mas é um exílio diferente. Depende do fato de que os dois mundos em que vivo, Itália e França, têm dinâmicas de movimento muito diferentes. Na França, o operaísmo não teve um grande número de seguidores, mesmo que esteja sendo redescoberto hoje. O movimento de esquerda na França sempre foi liderado pelo trotskismo ou pelo anarquismo. Na década de 1990, com a revista Futur antérieur, com meu amigo e camarada Jean-Marie Vincent, encontramos uma mediação entre o gauchisme e o operaísmo: funcionou por cerca de dez anos. Mas fizemos isso com muita cautela. Deixamos o julgamento da política francesa para nossos camaradas franceses. O único editorial importante escrito por italianos na revista foi aquele sobre a grande greve dos trabalhadores ferroviários de 1995, que era muito parecida com as lutas italianas.

RC

Por que o operaísmo tem uma ressonância global atualmente?

TN

Porque responde à necessidade de resistência e de um renascimento das lutas, como em outras culturas críticas com as quais dialoga: feminismo, ecologia política, crítica pós-colonial, por exemplo. E também porque não é a costela de nada ou de ninguém. Nunca foi, nem foi um capítulo na história do PCI, como alguns se iludem. Em vez disso, é uma ideia precisa da luta de classes e uma crítica da soberania que coagula o poder em torno do polo patronal, proprietário e capitalista. Mas o poder é sempre dividido e está sempre aberto, mesmo quando parece não haver alternativa. Toda a teoria do poder como uma extensão da dominação e da autoridade, feita pela Escola de Frankfurt e suas evoluções recentes, é falsa, mesmo que infelizmente continue hegemônica. O operaísmo joga por terra essa leitura brutal. É um estilo de trabalho e pensamento. Assume a história de baixo para cima, feita pelas grandes massas que se movem, e busca a singularidade em uma dialética aberta e produtiva.

RC

Suas constantes referências a Francisco de Assis sempre me impressionaram. De onde veio esse interesse pelo santo e por que você o tomou como exemplo de sua alegria em ser comunista?

TN

Desde jovem, riam de mim porque eu usava a palavra amor. Eles me tomavam por um poeta ou um iludido. Pelo contrário, sempre achei que o amor era uma paixão fundamental que mantém o gênero humano de pé. Pode se tornar uma arma para seguir vivendo. Venho de uma família que foi miserável durante a guerra e me ensinou uma afeição com a qual vivo até hoje. No fundo, Francisco é um burguês que vive em uma época em que percebe a possibilidade de transformar a própria burguesia e criar um mundo em que as pessoas se amem e amem os viventes. O apelo a ele, para mim, é como o apelo a Ciompi feito por Maquiavel. Francisco é o amor contra a propriedade: exatamente o que poderíamos ter feito na década de 1970, revertendo esse desenvolvimento e criando uma nova maneira de produzir. Francisco nunca foi suficientemente abordado, nem a importância que o franciscanismo teve na história italiana foi devidamente levada em conta. Menciono isso porque quero que palavras como amor e alegria entrem na linguagem política.


Publicado originalmente no Il Manifesto e, em português, Outras Palavras.

Sobre os autores

é filósofo e militante marxista, líder de movimentos históricos da esquerda italiana como o Poder Operário e a Autonomia Operária e coautor, com Michael Hardt, de livros como "Império", "Multidão" e "Comum". Entre outros, também é autor de "Marx além de Marx: ciência da crise e da subversão. Caderno de trabalho sobre os Grundrisse" e "As verdades nômades", em coautoria com Félix Guatarri, ambos publicados pela Autonomia Literária.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

 



O Mundo perdeu o medo!

(Hugo Dionísio, in CanalFactual, 04/12/2023)


Embora os Estados Unidos tenham vindo a resistir à pressão para a desdolarização, conseguindo colocar o dólar a crescer 1% em relação ao ano passado (até Setembro), enquanto moeda de reserva, esta resiliência é conseguida à custa de muito endividamento. Com efeito, a estratégia utilizada pela Casa Branca para manter o dólar no topo e impedir a indesejada (também para a China) bola de neve em que se transformará a saída desta moeda, assenta em taxas de juro muito altas, entre as mais altas do mundo ocidental.

Ou seja, a informação para o mercado é que a economia americana está em expansão, mas, ao mesmo tempo, ao invés desta boa saúde se refletir em juros baixos para a emissão de títulos do tesouro, acontece, precisamente o contrário. Como forma de atrair compradores para o dólar, a estratégia da reserva federal tem sido a de garantir yields (rentabilidades) mais elevadas. Ver aqui.

O problema, desta estratégia, é que aumenta exponencialmente o serviço da dívida pública americana, prevendo-se que, dentro de poucos anos, o serviço chegue a 25% da receita fiscal anual. Daí que, se em Setembro a Reuters dava boas indicações para quem comprava dólares, agora, no final do corrente ano, o discurso mudou de forma diametral.

A maioria dos analistas que a Reuters inquiriu na sua pool, realizada entre dia 03 e 07 de Novembro, retirou a conclusão de que, para o ano de 2024, o dólar perderá espaço para outras moedas regionais e provenientes de mercados emergentes. Ver aqui.

Existem já várias movimentações que apontam nesse sentido: Lena Petrova, no seu canal Youtube, noticiou que, neste momento, os bancos americanos estão com mais de 684 biliões de dólares em perdas relacionadas com de títulos do tesouro americano não vendidos. Ver aqui .

Acresce agora que, para tornar tudo mais negro e depois da própria Reuters voltar a publicar que os investidores estão a despejar dólares no mercado, para poderem realizar ganhos, pois sabem que, para o ano a taxa de juro irá ser reduzida (não é preciso ser esperto, pois, o endividamento não pode continuar a este ritmo), depois do Iraque, vêm agora os Emirados Árabes Unidos anunciar que, para o ano de 2024, acabam-se os almoços grátis. Com efeito, com a entrada para os BRICS, os EAU deixarão de negociar petróleo em dólares, passando a fazê-lo apenas em moedas nacionais, tendo já começado a fazê-lo com a India, vendendo petróleo em rúpias. Ver  aqui. Está tudo farto de um papel que nem o papel vale. Só vale para se ser invadido, bloqueado, sancionado e ameaçado.

Ora, esta é apenas a face visível do processo de complexificação das relações internacionais entre os estados, processo esse a que se convencionou designar de “Multipolaridade”, por oposição a “Unipolaridade”. A este processo não estarão alheios dois factos:

·         O apoio inequívoco a Israel que visa segurar aquele que é a guarda avançada do petrodólar e que tem custado tanto apoio interno ao projeto hegemónico, nomeadamente, por parte da juventude que não consegue conviver com o genocídio ao vivo e a cores.

·         À entrada de dois porta-aviões, um no Mediterrâneo e outro no Mar Vermelho, que visavam praticar a chamada “deterrence” (dissuasão), usando uma arma que os EUA ainda possuem, a força naval.

Há que meter medo para tentar travar uma tendência que, no pensar da Casa Branca, nem deveria ter começado. Não parece é que esteja a dar certo, pelo menos pelas impressões que do Irão têm vindo. Com efeito, face à falta de armas que a NATO tem evidenciado, são os EUA, agora, a não estarem interessados em guerras militares de elevada escala.

Não podendo, ou querendo, ir já para a fase militar (pelo menos no Médio Oriente, como acredito), os EUA jogam tudo noutros campos. Neste processo enquadram-se também as recentes denúncias que acusam o presidente da COP-28 de usar a sua posição para fazer charme a favor do uso de combustíveis fósseis. Afinal, o Sultão Ahmed Al Jaber é apenas CEO da Abu Dhabi National Oil Company (Adnoc), que no ano passado vendeu 2.7 milhões de barris. Sabendo-se que os EAU querem aumentar a produção em 2024, não era preciso ser-se um génio para saber para que quereria o Sultão tal poiso.

E se isto diz tanto do que é a COP-28 e de como veem estes tipos o problema da poluição, também diz muito do porquê de só agora se ter levantado o problema. Por que razão, só agora, logo BBC e New York Times vieram denunciar a situação? Pois… O meu palpite está precisamente nas ações dos Emirados em matéria de petrodólar e de reposicionamento geopolítico. Ou seja, mais preocupação com o meio ambiente.

Mas, para aqui chegarmos, ao ponto em que os EUA tentam esconder a queda, em que já vão, por todos os meios ao seu alcance, inclusive, à custa de afundarem a vassalagem europeia; algo foi acontecendo que, na essência e no substrato, representou o despertar para a liberdade de muitas nações, antes prisioneiras, passarem a pensar pelas suas cabeças. O que é que se terá passado, então, que tão grande segurança dá a estas nações?

Enquanto descansavam à sombra da arquitetura hegemónica construída a partir da Segunda Guerra Mundial, segundo a qual dominam as instâncias saídas de Bretton Woods, fazendo-as dançar ao som do consenso de Washington, o resto do mundo, os chamados “países emergentes”, tão desprezados pelas elites oligárquicas americanas, foram-se reorganizando e cooperando mutuamente.

O estudo “multipolar ou Multiplex? Interaction capacity, global cooperation and world order” dá-nos uma visão do barro com que o mundo multipolar (ou o mundo multiplex como lhe chamam no estudo) foi sendo construído.

Analisando cerca de 33.104 tratados comerciais assinados entre 1945 e 2017, este trabalho permite retirar conclusões muito importantes:

·         É após a queda da URSS que se dá a construção da base sobre a qual irá assentar o “mundo multipolar”, sendo o período de 1991-2005 aquele em que mais tratados de cooperação comercial se assinaram;

·         Até 1990, os EUA eram o país que, todos os anos mais contratos assinavam, sendo ultrapassados pela Alemanha entre 1991-2005 e 2006-2017;

·         O Reino Unido que era sempre o segundo, entre 1976-1990 foi ultrapassado pela Alemanha;

·         Nos períodos 1991-2005 e 2006-2017, o Reino Unido foi ultrapassado por Brasil, França, Holanda, Coreia do Sul, Austrália, Turquia, Argentina, Japão, México Espanha, Suíça, Africa do Sul…;

·         Os próprios EUA, entre 2006-2017 estão na casa das duas centenas de acordos celebrados, tal como Austrália, Turquia, Argentina, Arica do Sul.

·         Ao longo dos anos, a própria centralidade dos EUA em matéria de cooperação foi-se mantendo, mas observa-se uma aproximação desse centro por vários países, principalmente europeus.

·         A China, por exemplo, passou do 37.º país a 13.º com mais acordos celebrados.

·         Interessante é também o aprofundamento do agrupamento de países (clusters), com muito relevo para um cluster nórdico estabelecido a partir de 1991, entre a Federação Russa e os países escandinavos, mais a Islândia e a Etiópia (sim, a Etiópia), a que se juntou, depois, Israel;

·         A partir de 1991 a Alemanha surge a liderar o segundo maior cluster mundial (a seguir ao dos EUA);

·         A Alemanha, a ASEAN, México, Brasil, China e Coreia do Sul parecem ser os que mais se fortaleceram com o adormecimento dos EUA.

Estes dados, que podem ser consultados aqui, dão-nos pistas extremamente importantes para caracterizar o declínio do império hegemónico, bem como para explicar o que aconteceu com a Europa.

Os EUA, está bom de ver, adormeceram à sombra da vitória. Derrotada a URSS, não mais os EUA se preocuparam como antes no estabelecimento e crescimento das suas redes transnacionais. Foi o tempo da arbitrariedade, da hegemonia, do quero, posso e mando. O que esta realidade reflete, a meu ver, é também a crescente incapacidade por parte dos EUA em fazerem acordos que não fossem exatamente como queriam. O mundo viu a verdadeira cara dos EUA, a sua arrogância e supremacismo, e não gostou, começando a trabalhar na base e surdamente, para a viragem que agora estamos a presenciar.

Quando acordaram, os EUA viram o perigo de autonomização da Europa, principalmente a União Europeia, resquício da guerra fria e instrumento de combate político anticomunista. A Alemanha crescia fortemente, à custa da energia e matérias-primas baratas da Rússia e dos tratados que ia fazendo por todo o mundo. Foi o tempo da Alemanha motor da EU e do Eixo Franco-Alemão. Não nos podemos esquecer do papel da NATO (keep Germany down; Russia out and other in – colocar a Alemanha em baixo, a Rússia fora e os outros dentro). As coisas estavam a sair “dos eixos”.

A norte, os países escandinavos iam resistindo às formas mais brutais de neoliberalismo, protegendo o seu modelo com recurso à energia e matérias-primas baratas da Rússia, bem como a um mercado de mais de 200 milhões de pessoas (Rússia e EAEU) para escoar os seus excedentes.

É aqui que se torna ainda mais trágico o suicídio europeu, em particular o alemão e o francês. Mas como é que, de uma assentada, entre 2017 e 2022, estes países prescindem dos seus fatores mais vantajosos? Degradação democrática à parte, infiltração da CIA e muita corrupção e tráfico via mundo académico e comunicação social, à parte, foi o reabrir do capítulo da guerra fria que permitiu o acordar dos arquétipos adormecidos que tinham estado na origem da EU – o anticomunismo primário, o reacionarismo e o pensamento neocolonial em relação aos países considerados “menores”.

Uma autêntica tragédia, que se agravou com a tragédia da NATO na Ucrânia e que se acelerará logo que já não se possa esconder que a NATO é supérflua, anacrónica e ultrapassada como estrutura. O mundo, a natureza e a história não precisa dela. Todos sabem que, quando olham para a NATO, é Washington que veem. A própria EU não está longe dessa visão também, pois quem aceita autoflagelar-se como o fez a Comissão Europeia, colocando em depressão os países que a alimentam, em nome de interesses que se situam do outro lado do Atlântico, não pode ir muito longe.

A guerra que opõe a NATO à Rússia, em solo Ucraniano e usando o povo ucraniano como exército, e, agora, a limpeza étnica sionista em curso, serão dois dos episódios trágicos da queda da “hegemonia liberal” como lhe chama o estudo.

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.