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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

CATHERINE MALABOU, uma forma singular de ser materialista em filosofia

 

AFONSO DIAS RAMOS O que a levou a estudar filosofia?
CATHERINE MALABOU Em França, a filosofia é uma disciplina obrigatória no último ano do ensino secundário. Assim que fui iniciada na filosofia, decidi que era isso que queria fazer, rendi-me. Fui imediatamente atraída. Não havia mais nada. Nunca me perguntei que outra coisa poderia fazer ou que outra disciplina poderia estudar.
in ELECTRA, Fundação EDP
 
Catherine Malabou é uma das melhores filósofas continentais.
 
«ADR E como é que acabou a escrever uma tese de doutoramento sobre Hegel, isto numa altura em que havia tanto consenso anti-hegeliano?
CM A minha atração pela filosofia acontecia de forma muito geral. Na verdade, sentia-me atraída por algo que não compreendia. Só três anos mais tarde é que comecei a ler textos importantes, e Hegel destacou-se como o mais importante. O primeiro livro dele que li foi Princípios da filosofia do direito, no qual desenvolve uma crítica do modelo de sociedade à Rousseau com as pessoas no estado natural que se juntam e formam a sociedade civil. Hegel disse: «Não. A origem da política nunca é uma coleção de indivíduos, porque a política é sempre aquilo que é: a comunidade.» Esta ideia fascinou-me! Quando era nova, estava convencida do dogma do contrato social, a ideia de que existia um estado natural, que nos juntávamos, e por aí fora. Mas quando vi Hegel desafiar esta ideia, achei extremamente audacioso. A ideia era brilhante, claro, mas o que me impressionou foi o facto de ele poder desafiar uma tese muito bem recebida. Eram ambas as coisas. Depois comecei verdadeiramente a lê-lo e tornou-se para mim, e ainda o é, a figura mais importante. Mais inspiradora.
(...)
 

ADR Isso por sua vez também implicou pôr em causa o seu orientador, Jacques Derrida? Foi assim que se deparou com a ideia de «plasticidade»?

CM Quando decidi mostrar que Hegel não era um pensador do passado, mas tinha, de facto, um futuro, sabia que ia criar uma situação estranha ao escrever o meu doutoramento com Derrida. Não fora Derrida quem tinha escrito Glas, no qual equiparava Hegel com a morte? Houve bastantes discussões entre nós. Ao mesmo tempo, Derrida era tão aberto e generoso que foi muito fácil convencê-lo da plasticidade dos conceitos hegelianos. Mas para demonstrar este potencial, tive de encontrar um ângulo novo, uma escapatória a todas as interpretações estabelecidas. Foi assim que descobri a plasticidade, num canto esquecido deste sistema. A plasticidade, para Hegel, designa uma capacidade de se ser afetado por algo externo e de ser-se transformado por isso. Mas a plasticidade também implica uma resistência a uma transformação demasiado profunda. É um estado intermédio entre a solidez ou fixidade total e a liquidez ou fluidez total, entre permeabilidade e resistência. Interessei-me cada vez mais por este conceito. Um dia, numa estação de comboio, por acaso, comprei uma revista científica cujo título era sobre a plasticidade do cérebro e da memória. Descobri que a plasticidade é um conceito central da neurologia hoje em dia. O cérebro não surge, para os investigadores, como uma série de locais fixos, mas, pelo contrário, como uma capacidade de responder a influências externas, de integrá-las e, por sua vez, de transformá-las. Vamos encontrar o mesmo movimento e o mesmo estado intermédio entre a capacidade de receber e a de responder dando uma forma nova àquilo que é recebido. Foi assim que descobri que havia vários pontos de contacto entre Hegel e o cérebro, e que a plasticidade talvez se tratasse de uma propriedade de todos os sistemas em geral.

ADR Afirma que «o ser humano é plástico, não flexível».

CM Não é flexível na medida em que a resistência a uma quantidade excessiva de transformação é essencial. A flexibilidade significa que uma pessoa pode ser moldada de diversas formas, pode-se fazer o que se quiser com ela, e forçá-la a seguir qualquer direção. Na flexibilidade, não existe uma ideia de resistência. A plasticidade implica a capacidade de ouvir, de se ser influenciado, de se ser aberto. Mas, ao mesmo tempo, há um limiar de resistência que não pode ser transgredido. Se for transgredido, então terá como custo a sua própria destruição. Acho que isto é muito importante porque a principal palavra no capitalismo de hoje em dia é justamente a «flexibilidade».

 

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