Alemanha
1877-1962 --Prémio Nobel
MAUS TEMPOS
Agora nos calamos
E já não mais cantamos.
Nosso passo é pesado.
É a noite, o seu tempo é chegado.
Dá-me a tua mão.
Talvez que seja longo este caminho ainda.
E a neve cai, a neve!
O inverno em terra estranha nunca finda.
Onde está o tempo
em que uma luz, um lar por nós ardia?
Dá-me a tua mão.
Talvez que seja longo este caminho ainda.
NA NÉVOA
Como é estranho andar no nevoeiro!
Sozinha a pedra e a planta,
Uma ávore não vê a outra,
Solidão tanta.
Muitos amigos eu tinha
No tempo da vida viva;
Agora que a névoa cai,
De tudo a vista me priva.
Nada sabe quem não sabe
Como a treva nos separa
De tudo e todos, tão doce,
Inescapável, avara.
Como é estranho andar no nevoeiro!
A vida é solitude - não adianta.
Ninguém conhece um outro.
Solidão tanta.
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terça-feira, 13 de julho de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Giuseppe Ungaretti, Itália, 1888-1970
Vagabundo
Em nenhuma
parte
da terra
me posso
fixar
A cada
novo clima
que encontro
conheço
com tédio
que
uma vez
já me tinha habituado
E me separo sempre
estrangeiro
Nascendo
o regressar de épocas por demais
vividas
Gozar um só
minuto de vida
inicial
Procuro um país inocente.
Em nenhuma
parte
da terra
me posso
fixar
A cada
novo clima
que encontro
conheço
com tédio
que
uma vez
já me tinha habituado
E me separo sempre
estrangeiro
Nascendo
o regressar de épocas por demais
vividas
Gozar um só
minuto de vida
inicial
Procuro um país inocente.
Etiquetas:
Editorial Inova,
Poesia do século XX,
Porto,
trad. de Jorge de Sena
domingo, 31 de janeiro de 2010
PABLO NERUDA
A Grande Alegria
A sombra que indaguei hoje não me pertence.
Hoje tenho a alegria duradoura de um mastro,
a herança dos bosques, o vento dos caminhos
e um dia decidido sob a luz terrestre.
Não escrevo para que outros livros me aprisionem
nem para encarniçados aprendizes de lírio,
mas para simples habitantes que pedem
água e lua, elementos da ordem imutável,
escolas, pão e vinho, guitarras, ferramentas.
Escrevo para o povo, mesmo que ele não possa
ler minha poesia com seus olhos rurais.
Virá o instante em que uma linha, o ar
que alterou minha vida tocará seus ouvidos,
e então o camponês levantará os olhos,
o mineiro sorrirá partindo pedras,
o ferreiro limpará a fronte,
o pescador verá melhor o brilho
dum peixe que a palpitar lhe queima as mãos,
o mecânico, limpo, recém-lavado, cheio
de aroma de sabão, olhará meus poemas,
e dirão talvez:«Foi um nosso camarada».
Isso é bastante; é a coroa que busco.
Quero que à saída das fábricas e minas
estejam os meus poemas agarrados à terra,
ao espaço, à vitória do homem oprimido.
Quero que um jovem encontre na dureza
que constrói, com lentidão e com metais,
como um cofre, ao abri-la, face a face, a vida,
e mergulhando a alma toque as rajadas que fizeram
minha alegria, na altura tempestuosa.
A sombra que indaguei hoje não me pertence.
Hoje tenho a alegria duradoura de um mastro,
a herança dos bosques, o vento dos caminhos
e um dia decidido sob a luz terrestre.
Não escrevo para que outros livros me aprisionem
nem para encarniçados aprendizes de lírio,
mas para simples habitantes que pedem
água e lua, elementos da ordem imutável,
escolas, pão e vinho, guitarras, ferramentas.
Escrevo para o povo, mesmo que ele não possa
ler minha poesia com seus olhos rurais.
Virá o instante em que uma linha, o ar
que alterou minha vida tocará seus ouvidos,
e então o camponês levantará os olhos,
o mineiro sorrirá partindo pedras,
o ferreiro limpará a fronte,
o pescador verá melhor o brilho
dum peixe que a palpitar lhe queima as mãos,
o mecânico, limpo, recém-lavado, cheio
de aroma de sabão, olhará meus poemas,
e dirão talvez:«Foi um nosso camarada».
Isso é bastante; é a coroa que busco.
Quero que à saída das fábricas e minas
estejam os meus poemas agarrados à terra,
ao espaço, à vitória do homem oprimido.
Quero que um jovem encontre na dureza
que constrói, com lentidão e com metais,
como um cofre, ao abri-la, face a face, a vida,
e mergulhando a alma toque as rajadas que fizeram
minha alegria, na altura tempestuosa.
sábado, 2 de janeiro de 2010
POEMAS DE PABLO NERUDA
A VERDADE
Amo-vos, idealismo e realismo,
como água e pedra
sois partes do mundo,
luz e raiz da árvore da vida.
Não me fechem os olhos
mesmo depois de morto,
ainda precisarei deles para aprender,
para olhar e compreender a minha morte.
Necessito da boca
para cantar depois, quando não existir.
E de minha alma, meu corpo, minhas mãos
para continuar a amar-te, minha amada.
Sei que não pode ser, mas desejei-o.
Amo o que não tem mais do que sonhos.
Tenho um jardim de flores que não existem.
Sou decididamente triangular.
Dou pela falta das minhas orelhas,
mas enrolei-as para as abandonar
num porto fluvial do interior
da República de Malagueta.
Não posso mais com a razão ao ombro.
Quero inventar o mar de cada dia.
Veio ver-me uma vez
um grande pintor que pintava soldados.
Todos eram heróicos e o bom homem
pintava-os no campo de batalha
morrendo com prazer.
Também pintava vacas realistas
e eram tão extremamente vacas
que nos íamos tornando melancólicos
e dispostos a ruminar eternamente.
Execração e horror! Li novelas
interminavelmente bondosas
e tantos versos sobre
o Primeiro de Maio
que agora escrevo apenas sobre o 2 desse mês.
Parece que o homem
atropela a paisagem
e a estrela que antes tinha céu
abate-nos agora
com a sua pertinácia comercial.
Assim acontece com a beleza
como se não quiséssemos comprá-la
e empacotam-na a seu gosto e maneira.
Há que deixar que a beleza baile
com os galãs menos recomendáveis,
entre o dia e a noite:
não a obriguemos a tomar a pílula
da verdade como um medicamento.
E o real? Também, sem dúvida alguma,
mas que nos aumente,
que nos alongue, que nos arrepie,
que nos exprima
tanto a ordem do pão como a da alma.
A sussurar! ordeno
ao bosque puro
que diga em segredo o seu segredo,
e à verdade: Não te detenhas tanto
que te endureças até à mentira.
Não sou reitor de nada, não comando
e por isso entesouro
os equívocos todos do meu canto.
Amo-vos, idealismo e realismo,
como água e pedra
sois partes do mundo,
luz e raiz da árvore da vida.
Não me fechem os olhos
mesmo depois de morto,
ainda precisarei deles para aprender,
para olhar e compreender a minha morte.
Necessito da boca
para cantar depois, quando não existir.
E de minha alma, meu corpo, minhas mãos
para continuar a amar-te, minha amada.
Sei que não pode ser, mas desejei-o.
Amo o que não tem mais do que sonhos.
Tenho um jardim de flores que não existem.
Sou decididamente triangular.
Dou pela falta das minhas orelhas,
mas enrolei-as para as abandonar
num porto fluvial do interior
da República de Malagueta.
Não posso mais com a razão ao ombro.
Quero inventar o mar de cada dia.
Veio ver-me uma vez
um grande pintor que pintava soldados.
Todos eram heróicos e o bom homem
pintava-os no campo de batalha
morrendo com prazer.
Também pintava vacas realistas
e eram tão extremamente vacas
que nos íamos tornando melancólicos
e dispostos a ruminar eternamente.
Execração e horror! Li novelas
interminavelmente bondosas
e tantos versos sobre
o Primeiro de Maio
que agora escrevo apenas sobre o 2 desse mês.
Parece que o homem
atropela a paisagem
e a estrela que antes tinha céu
abate-nos agora
com a sua pertinácia comercial.
Assim acontece com a beleza
como se não quiséssemos comprá-la
e empacotam-na a seu gosto e maneira.
Há que deixar que a beleza baile
com os galãs menos recomendáveis,
entre o dia e a noite:
não a obriguemos a tomar a pílula
da verdade como um medicamento.
E o real? Também, sem dúvida alguma,
mas que nos aumente,
que nos alongue, que nos arrepie,
que nos exprima
tanto a ordem do pão como a da alma.
A sussurar! ordeno
ao bosque puro
que diga em segredo o seu segredo,
e à verdade: Não te detenhas tanto
que te endureças até à mentira.
Não sou reitor de nada, não comando
e por isso entesouro
os equívocos todos do meu canto.
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1975,
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Editorial Inova,
Porto,
trad. de José Bento
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