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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

NA HORA DA NOSSA MORTE (cont.)

DIÁRIO DE MARTA  3

Fiquei boquiaberta. A conversa com a Carla deixou-me perturbadíssima. A Carla é uma amiga minha, muito jovem, não é, talvez, ainda uma amiga, conhecia-a há muito pouco tempo, viajamos no mesmo autocarro para Lisboa, não gosto de conduzir, prefiro o transporte público, vou a Lisboa uma, duas vezes, quando calha, faço isso como uma fuga de mim própria e dos outros, desta cidade que cresce mas é pequena, onde proliferam os medíocres e os maledicentes, a inveja, vou à capital espairecer, os bons espectáculos de teatro ou dança distraem-me, embora por vezes chore com os dramas quando me tocam nas feridas, no fracasso do meu casamento, na morte da Gisela. Da Carla sei que trabalha e estuda em Lisboa, é simpática e pareceu-me tímida, a diferença de idades em vez de nos afastar aproximou-nos, provavelmente uma simpatia e confiança à primeira vista daquelas que ninguém sabe explicar. Ontem fomos as duas assistir ao espectáculo de dança da Olga Roriz. Temos essa afinidade pela dança, bem assim como pelo teatro. Danço sozinha, em casa, quantas vezes! Com o meu ex-marido íamos dançar frequentemente. A Carla é mais freguesa das discotecas, naturalmente para uma jovem, do que eu. Teatro experimentei-o há muito tempo, todavia ficou-me esse «bichinho» que nunca mais nos abandona. Fomos então as duas deliciar-nos com essa «Nortada» estupenda da Olga, e ficámos na conversa depois num barzinho confortável. É certo que as mulheres apreciam falar, conversar, sobretudo, umas com as outras (nos homens observo a mesma atitude, mas não sei se somos realmente diferentes), e as conversas são como as cerejas que se tiram do cabaz, contou-me mais pormenores, fui eu que puxei o assunto talvez para evitar que a Gisela viesse ao tema, sobre a empresa onde trabalha em part-time, uma empresa de arquitectos, é nessa actividade que ela está quase formada, desenham casas evidentemente, e pontes, etc., o administrador é um tal Vasconcelos, irritadiço e chato para os arquitectos subordinados, para ela nem tanto, anda sempre a pegar-se com um que se chama Carlos, um indivíduo do qual a Carla hesitou em falar, denunciou uma tão curiosa hesitação, baixando os olhos quando o referiu, que me obrigou a perguntar mais sobre ele. Prendeu-se-lhe a língua e deixou no ar apenas uma vaga insinuação, entre o elogio e um estranho rancor, estranho nela, que me parecia isenta em relação a tais sentimentos…Não insisti. Mudou de assunto, algo constrangida, e passou a convidar-me a ir visitar uma galeria de arte, vai lá com o namorado para a semana, não sou tão apreciadora ou conhecedora de artes plásticas como ela julga que sou, mas aceitei, vi nela interesse em apresentar-me o parceiro (essa súbita mudança de tema, em que passou do tal Carlos para o namorado pareceu-me sintomática). Foi então que a conversa ganhou um rumo inesperado: disse que o namorado conhecia o dono da galeria, faz-lhe uns fretes para ganhar uns cobres porque também anda a terminar os estudos, o tipo da galeria chama-se Bártolo…E aí, a minha curiosidade acendeu-se: como é esse tipo? Descreveu-me um indivíduo mais baixo do que alto, quase calvo, o resto do cabelo cortado à escovinha, vestindo-se de maneira exótica, que tanto parecia gay como não…Um corisco caiu-me no alto da cabeça como um martelo! Esse tipo conheço-o! Viu-o duas vezes com a minha mãe numa geladaria de Lisboa, bem conhecida aliás. Da segunda vez vi-os de mãos dadas. Assim mesmo. Nunca falei à minha mãe sobre isto, achei aquilo estúpido e ridículo. Mas à Carla perguntei de rompante se sabia algo sobre a vida pessoal desse tal Bártolo, se era casado, gay, se tinha uma amante. A Carla não sabia ao certo, o namorado contara qualquer coisa sobre isso, dele ter uma amante, uma senhora casada que o visitava na galeria, contudo não sabia descrevê-la, ela nunca a vira.


Desta conversa restam-me uma incerteza e uma certeza: a primeira é que o tal Bártolo lhe fora apresentado pelo arquitecto Carlos, com quem ela tivera, seguramente, uma relação íntima; a segunda, é que a minha mãe, a própria, tem um amante! Incrível. E, todavia, nada mais verdadeiro. A minha mãe. Começava a compreender as saídas frequentes dela e os amuos do meu pai quando o encontrava sozinho no apartamento, fechado como um túmulo, com o copo de uísque na mão. O uísque que não largava há anos e que contribuiu e muito para a catástrofe do seu casamento.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Na Hora da Nossa Morte (cont.)-

Diário de Carlos 4

Morreu na cama, durante o sono. Ninguém ao seu lado para pedir socorro. E como saber, se a pessoa ao nosso lado aparenta simplesmente dormir? Ninguém sabe se teve um sobressalto, se pediu ajuda, se teve a noção de que ia morrer. A única doença - os diabetes - que quase não o incomodavam, matou-o. A mulher, minha mãe, fora levada numa ambulância nesse dia para Coimbra, julgando que era ela que ia morrer. Provavelmente a aflição matou-o. Alguém deu-me a notícia pelo telefone, o traço com que desenhava uma vivenda para um cliente saiu subitamente torto, pousei o telefone e fixei demoradamente a chuva que fustigava a janela ampla do gabinete. Avisei os colegas, a Carla de olhos claros abraçou-me com insuspeitado carinho, o Vasco de brinco na orelha e esguio como um cipreste pôs ambas as mãos nos meus ombros, não senti vontade de chorar mas, antes, uma desconcentração, atrapalhei-me a encontrar o caminho para a saída, deixei ir abaixo o automóvel, estacionei em frente de casa amolgando a porta de outro carro, fiz um saco de viagem com meia dúzia de roupas sem nexo e já em plena viagem é que informei a Sofia do que sucedera e para onde eu ia. A vila onde meu pai falecera e ia ser enterrado ficava a mais de duas centenas de quilómetros. Cinquenta quilómetros andados voltei para trás, dirigi-me ao local de trabalho da Sofia, abracei-me a ela e foi então que chorei. Partimos juntos depois dela preparar a sua maleta com mais demora.

O meu pai havia sido um bom pai para mim, talvez duro demais com os outros filhos, comigo fora sempre compreensivo, mesmo quando reprovei um ano escolar naquela idade em que só fazemos parvoíces. Fui dos meus irmãos o único a querer seguir os estudos e ele apoiou-me, apesar de não existirem meios para mos sustentar. Foi por ele que aprendi muito cedo a apreciar a grande literatura, foi por ele que comecei muito cedo a gostar dos jogos com as palavras. Então, via nelas as ondas ora bravas, ora mansas, do mar. Hoje, vejo apenas a espuma.

Ontem fui jantar com a Carla. Devia dizer: levei-a a jantar? Na verdade já não se leva mulher alguma a jantar, a não ser que ela viva naquele sertanejo onde está sepultado o meu pai. Convencemo-nos ambos que poderia surgir algo da nossa longa camaradagem de trabalho. Divorciada, solteira, os olhos vivos, o andar tímido, miúda, Carla é a fragilidade em pessoa. Sempre a pedir desculpa por existir, por estar ali ou acolá. Todavia, por detrás daquela mansidão natural, não há submissão consentida. Se fomos para o seu apartamento fingir que íamos beber um último copo, foi porque ela o quis. De resto, ela não bebe qualquer espécie de álcool. Se fizemos amor foi porque ela me pediu para dançarmos ao som do cd que colocou, e ela saberá porque o escolheu, Prophesy, de Gilio Sawhney. Versos graves e quase tristes sobre um ritmo erotizante. Desprendeu-se (porque não fiquei surpreendido?) soltou a sua natureza feminina, maneou as ancas estreitas, primeiro com alguma timidez, depois foi crescendo no espaço, libertou-se no tempo, a Carla, afinal, mostrava experiência de discotecas, e porque não havia de ser assim? Não olhava para mim quando ritmou os movimentos preliminares, depois olhava-me cada vez mais longa e fixamente, a Carla exibiu uma perfomance magnífica, um corpito fino e juvenil, as mamitas sem volume, aquele tipo de mulher-rapariguita que os jovens não reparam , excepto cara a cara, porque são claríssimos os seus olhos azuis, vistosa a sua abundante cabeleira de cores quentes, calculadas as suas palavras. Dela se pode dizer que vai à fonte insegura mas formosa.

Hoje penso nela assim: um pequeno vulcão adormecido, a metáfora gasta serve muito bem. Penso nela e desisto dela. A diferença brutal de idades não me permite alimentar ilusões. Não se trata de paixão (em ambos a paixão seria recíproca e fulminante), ou melhor: porque se tratam de paixões é que não posso, não devo, permitir que Cupido faça de mim um alvo fácil, é comum a sabedoria de que a mulher jovem é ciumenta e, eu, se o não for de início, tornar-me-ei logo que lhe dê a conhecer os primeiros sinais da velhice que avança inexorável. Antevejo o sofrimento que virá, um dia não muito longínquo, quando ela se vir cortejada por um rapaz da sua idade ou pouco mais, um amigo, um colega da universidade onde ela tenta alcançar o mestrado (trabalha connosco em part-time). Inevitável. A Carla só pode ser um episódio na minha vida, um anúncio apenas de felicidade, de rejuvenescimento, dessa potência activa, alegre, de existir, de que tanto necessito. Somente isto: um clarão na noite escura.

Amanhã é sexta feira, não vou produzir, não vou criar nada. Vou conduzir duzentos quilómetros, rever a campa onde meu pai foi sepultado há vinte anos, quando eu era tão jovem que acreditava no amor apaixonado.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.