Consequências da libertação de Alepo
Com
todas estas movimentações há um país que, na prática, desaparece do
Médio Oriente: os EUA. E este desaparecimento tem um actor que o tornou
possível: a Rússia.

A
vitória do governo sírio sobre o conglomerado de forças islâmicas que
controlavam os bairros orientais de Alepo – a partir de agora «os
contras?» [1] - traz consigo uma reconfiguração não apenas do mapa
político interno da Síria, mas também do Médio Oriente e mesmo mais. Não
só porque esta vitória marca um antes e um depois da guerra, mas porque
coloca claramente em cima da mesa três elementos dificilmente
questionáveis:
a) Bashar Al-Assad está de pedra e cal;
b) A Rússia tem todas as cartas na mão;
c) Os EUA deixam de ser o actor principal numa zona que até há muito pouco era do seu domínio exclusivo.
1. Antecedentes
Sem remontar aos seis anos de guerra e aos quatro que a cidade de
Alepo já tinha de dividida em três sectores, um pró-governamental, outro
curdo e outro em poder dos «contras», há que partir de um facto crucial
que pôs em movimento toda a engrenagem da situação que agora se vive no
país e na região. Foi quando, em 27 de Julho passado, depois de uma
vitoriosa, mas não falada ofensiva do exército sírio e dos seus aliados
lançada na zona norte da cidade, as forças governamentais conseguiram
cortar todas as linhas de abastecimento de armas e combatentes à zona da
cidade dominada pelos «contras». Alepo ficou cercada, com os «contras»
cercados por forças governamentais e curdas, que cooperaram tacticamente
com o governo, facilitando assim o seu triunfo.
Isto verificou-se dez dias apenas depois do golpe militar falhado na
Turquia e relevou o que até então só se podia intuir. A Turquia, ao
restabelecer relações políticas com a Rússia, depois do golpe falhado – é
cada vez mais claro que o mesmo só pôde ser derrotado pela informação
que a inteligência russa proporcionou ao governo de Erdogan –, tinha
deixado de considerar, como sempre tinha dito, Alepo como a sua «linha
vermelha» e a sua «zona de influência». Porque, ao mesmo tempo, a
Turquia fez dois movimentos inusitados: tirou os seus militares de uma
das zonas operacionais que os países que alimentam e sustentam os
«contras» têm na Jordânia e controlou com mais rigor a passagem das suas
fronteiras por homens e abastecimentos destinados aos «contras» na zona
de Idlib, chegando à posição extrema de fechar qualquer passagem
fronteiriça, tal como lhe tinha sido solicitado pela Rússia.
Sendo a ofensiva do governo sírio limitada a uma zona muito
concreta, mas de grande importância estratégica, a posição turca de não
intervir e nem sequer protestar foi considerada como um movimento
tectónico que ia influenciar, como influenciou, não só os «contras», mas
o futuro da guerra.
Os restantes patrocinadores dos «contras» rapidamente se deram conta
do que tudo isto implicava e, a partir das suas salas de operações,
planearam um contra-ataque que recuperasse o statu quo anterior. Para
isso foi escolhida outra zona da cidade, o sul, onde se supunha que
havia menos forças governamentais. Quatro dias mais tarde, a 1 de
agosto, lançou-se a ofensiva encabeçada pela isenta de pagamento de
franchising à Al-Qaeda, a Frente para a Conquista do Levante – que tinha
perdido o seu anterior nome, Frente Al-Nusra –, e a quem todos os
anteriores grupos se subordinaram (um total de 15 desses grupos
participou dessa ofensiva). O objectivo proclamado era o de romper o
cerco de Alepo, mas na prática, o que se pretendia era duplo: por um
lado fazer frente à Turquia, por outro demonstrar aos seus
patrocinadores que a Frente estava viva e podia executar operações
militares de envergadura.
Além do mais, aquela ofensiva teve lugar no momento em que se ia
realizar a reunião entre Erdogan e Putin, em Moscovo. Foi em 19 de
agosto, e o objectivo geoestratégico da ofensiva era claro: meter a
Turquia na ordem, obrigando-a a «normalizar» a sua atitude, isto é,
voltar a ser o crivo passador dos «contras» e dobrar a Rússia. No caso
de não atingir o objectivo a situação tornar-se-ia irreversível para os
«contras» e os seus patrocinadores árabes e ocidentais.
Nessa ofensiva, os «contras» utilizaram praticamente tudo o que
tinham, além dos seus melhores membros. A partir dos seus próprios
portais na net anunciaram que, no total, se tinham mobilizado entre
9.000 e 12.000 combatentes e, pela forma como a batalha se desenrolou
deve ter sido verdade. Ainda que, inicialmente, conseguissem romper o
cerco, a perda de combatentes e material foi tão volumosa que não foi
possível a sua reposição. Os cálculos mais conservadores estimam que os
«contras» perderam entre um mínimo de 1.499 e um máximo de 1.903 mortos e
cerca de 5.000 feridos. Isto é, o número total de baixas nessa ofensiva
rondou os 60% dos combatentes. Por outro lado, o governo sírio e os
seus aliados tiveram entre 480 e 516 mortos, enquanto o número de
feridos terá superado os mil [2]. Os próprios «contras» anunciaram nos
seus portais que tinham escassez de sangue para efectuar as transfusões
necessárias devido ao alto número de feridos. Porém, este êxito não
durou nem um mês, visto que em 4 de Setembro o governo sírio
restabeleceu a situação e apertou ainda mais o cerco aos bairros
orientais de Alepo em poder dos «contras».
O golpe não foi apenas material, foi também moral. Os «contras»
entraram irreversivelmente em coma. Nem sequer os novos fornecimentos de
material, que tanto a Arábia saudita como o Catar anunciaram, os
salvaram da derrota. A Turquia retirou-se de cena e centrou-se
exclusivamente nos curdos, ao mesmo tempo que aceitava o papel que de
forma inteligente a Rússia punha na mesa: o pragmatismo sunita. A Rússia
apoia a constituição de Ancara como o grande centro do mundo sunita
afastado da hegemonia estado-unidense e das monarquias do Golfo Pérsico,
especialmente do wahabismo da Arábia Saudita.
2. Consuma-se a derrota, e não apenas dos «contras»
As coisas chegaram a um ponto tal que ficou claro para quase todo o
mundo o que se estava a passar. O governo sírio estava a ganhar a guerra
graças à ajuda da Rússia (e do Irão) e os «contras» não tinham já a
menor possibilidade de reverter a situação.
O Conselho do Atlântico [3], um centro de análise que fornece a
ideologia à NATO no campo das relações internacionais, reconhecia que o
mundo tinha dado uma volta inesperada, e que era a Rússia quem tinha
quase todos os trunfos na mão. Num relatório do seu programa Syria
Project dizia: «a Rússia ocupa agora uma posição forte e colocou os
rebeldes numa situação extremamente difícil».
Apesar disto, ainda restava uma última possibilidade: que nas
eleições presidenciais norte-americanas ganhasse Hillary Clinton,
furibunda partidária do derrube de Al-Assad da presidência da Síria. No
entanto, em 1 de Novembro os «contras» fizeram um último esforço para
evitar o que já então parecia inevitável: a derrota.
Então, nem sequer houve um triunfo fugaz. Novos golpes, novas
derrotas e a debacle. Entre outras coisas porque nessa ocasião os
«contras» só puderam dispor de uns 3.000 combatentes devido às perdas
sofridas na ofensiva anterior.
Para rematar o bouquet, Hillary Clinton perdeu as eleições. Trump, o
novo presidente, tinha dito claramente que a política externa dos EUA
ia mudar e que já não se centraria no derrube de governos considerados
hostis. A sorte dos «contras» estava traçada.
Com uma clareza que não é habitual, o Conselho Europeu do Assuntos
Exteriores [4] dizia, preto no branco, o quem quer que tenha olhos pode
ver e o quem quer que não tenha perdido a sua capacidade de pensar pode
deduzir: «já não há qualquer esperança real de depor Assad». E propunha
uma mudança da abordagem europeia à questão da Síria partindo desta nova
realidade: «com as forças da oposição síria, os seus patrocinadores
regionais e grande parte da comunidade política europeia pondo as suas
esperanças na vitória de Hillary Clinton, uma vez conhecidos os
resultados eleitorais a abordagem europeia deve necessariamente mudar
para uma melhor gestão da realidade da sobrevivência de Assad».
Toda a gente estava em estado de choque, incluindo os «contras». Foi
esse o momento que o exército sírio aproveitou para, juntamente com os
seus aliados – principalmente os palestinos que integram a «Brigada
Jerusalém» [5] –, iniciarem a batalha final pela libertação de Alepo. Os
bairros orientais em poder dos «contras» iam sendo libertados com
rapidez, um após outro, numa demonstração de descoordenação dos
«contras» que surpreendeu até os seus patrocinadores.
Depois dos fracassos das duas ofensivas anteriores, a única coisa
com que os «contras» ficavam era a guerra da propaganda. Primeiro foi
dito que se constituía o «Exército de Alepo para lutar contra o regime»,
depois, que a resistência não tinha sido possível porque Alepo tinha
sido destruída pelos bombardeamentos russo. Depois…
A realidade era o que diziam os meios de comunicação dos países que
estiveram, e ainda estão a apoiar os «contras»: «Para muitos organismos
regionais e internacionais é um mistério incompreensível [o derrube dos
«contras» como um castelo de cartas em Alepo], porque se esperava uma
luta dura e digna, dada a importância estratégica da cidade». Um
mistério que era muito fácil de explicar, como também se dizia: «as
divergências entre os diferentes grupos, as acusações entre eles sobre
quem é o responsável pelo desastre e como a inteligência militar [do
governo] tem olhos, agentes e espias em todas as estruturas militares,
de segurança e económicas dos grupos armados, o que permitiu ir
acumulando imagens, informação e coordenadas de contra o quê, contra
quem e onde agir». Inclusive, ia-se mais longe, deixando à vista outra
das grandes mentiras da propaganda: «uma boa parte da própria população
[dos bairros em poder dos «contras»] estava a proporcionar informação ao
exército sírio [6].
Esta afirmação não de todo surpreendente se se tiver em conta o que
disse a ONU depois de a Síria ter retomado o controlo completo da
cidade. Suponho que não é preciso recordar que durante meses se
massacrou insistentemente que a população «cercada» em Alepo
ultrapassava as 250.000 pessoas. Inclusive chegou a dizer-se que nesses
bairros morava meio milhão de pessoas. Nada mais longe da realidade,
pois quando se deu a libertação da cidade verificou-se que esses números
não eram verdadeiros. Segundo a ONU havia um total de 147.000 civis,
111.000 decidiram mudar-se para as zonas que eram controladas pelo
governo e 36.000 para a zona que os «contras» controlam, a província de
Idlib [7], quando se chegou a acordo para a sua evacuação.
Como consequência da derrota de Alepo, os «contras» estão na fase
terminal da sua crise. Cada vez que se negoceia uma rendição com o
governo, ela é feita nas condições determinadas pelo governo, e desde há
algum tempo que as condições são sempre as mesmas: entrega do armamento
pesado e transferência para Idlib. É uma província quase totalmente em
poder dos «contras». Mas o governo está a actuar de forma inteligente,
visto que ao transferir para ali todos os grupos dos diferentes grupos
dos «contras» está a acentuar os confrontos e as divisões internas,
debilitando assim qualquer hipotética estratégia, não apenas de combate
mas também de coordenação política.
3. As navalhadas dos «contras» no governo
Um dos mantras propagandísticos dos que apoiam os «contras» é que há
um segmento da população que não se revê nem nos radicais islâmicos nem
no governo e que em várias ocasiões em que se decretaram tréguas houve
manifestações populares de rejeição de uns e de outros. É uma meia
verdade, mais mentira que verdade. É certo que em algumas cidades, que
quase se podem contar pelos dedos de uma só mão, se verificaram
manifestações desse tipo, mas isso é uma velha estória. A verdade é que
os radicais islâmicos controlavam esses protestos desde o primeiro
momento e que actualmente o controlo dos radicais islâmicos é total,
incluindo a forma de governo do território que controlam, cada vez mais
pequeno.
Como o maior território é a província de Idlib, para onde o governo
os conduz cada vez que se rendem em alguma zona e recusam integrar-se na
vida civil (na sua grande maioria são amnistiados, dando-se até o caso
de em algumas cidades fazerem funções quase de polícia), há que falar da
forma de alguns dos seus métodos de «governo». E nada melhor para isso
que tomar como referência, uma vez mais, o Conselho do Atlântico [8].
Esta instituição fala concretamente do sistema judicial existente em
Idlib e diz que «é semelhante à lei da selva», porque aplicando a
Sharia e a Itijab elimina-se os inimigos internos e reforça-se o
controlo de uns grupos pelos outros. Acrescente-se que cada grupo tem o
seu próprio sistema judicial, que os predominantes são os ex-Nusra e
Ahar al-Sham, e que as sentenças têm, inevitavelmente, que ver com o
grau de afinidade ou parentesco das pessoas julgadas. «As pessoas
influentes minam os seus veredictos» e estes tribunais «encontram sempre
um qualquer pretexto legal para os seus actos ilegais. Diga-se que há
que ter em conta que as decisões “são sempre favoráveis aos «contras» ”,
que «as circunstâncias legais não mudaram desde que se instalou este
regime» (em Idlib), e que também se afirma que «os líderes militares
interferem directamente nos casos, de acordo com os seus interesses e
objectivos», que «todos os juízes são pró-salafitas» e que «se acusam
mutuamente de terem erros na doutrina e na aplicação da lei». Para não
tornar a referência mais extensa, acrescentar apenas que «estes
tribunais funcionam como organismos de segurança [das diferentes
organizações] que aterrorizam os residentes locais porque têm liberdade
total de deter, sequestrar ou inclusive assassinar as pessoas nas zonas
em que são responsáveis».
A citação é extensa, mas vale a pena porque põe em evidência uma
realidade que muito poucas pessoas têm querido ver e que, com toda a
crueza, reconhece também que uma outra seita antes muito prestigiada
caiu agora numa paralisia sectária, a Al-Quds Al Arabi. Numa pouco usual
mostra de reconhecimento dessa realidade, critica uma «oposição que há
uns anos tinha o controlo das principais cidades da Síria e que está
reduzida a umas poucas zonas sem relevância estratégica», entre outras
coisas «porque não foi capaz de demonstrar que pode governar com
eficácia os territórios que ocupa» e isso, logicamente, «foi
rentabilizado pelo regime» [9].
Depois da derrota de Alepo todos os grupos que compõem os «contras»
estão em luta entre si. Os assassínios de comandantes de este ou daquele
grupo são habituais (sem esquecer a responsabilidade dos comandos
especiais do exército sírio em alguns deles), e o desânimo espalha-se
como nódoa de azeite entre os «contras». A estratégia do governo sírio
está a dar frutos pois as divisões estão a acentuar-se. O facto de
grupos diferentes terem de conviver numa zona limitada e, sobretudo de
diferentes lealdades, está a mostrar-se um eficaz caldo de cultura. As
suas divisões internas e a sua debilidade – juntamente com a pressão da
Turquia – obrigaram já seis dos grupos que compõem os «contras» a
aceitar o cessar de hostilidades proposto pela Rússia e pela Turquia
[10].
4. A recomposição do Médio Oriente
Os EUA e a União Europeia nunca se arrependerão o suficiente pelo
seu papel no golpe-de-estado falhado na Turquia. Se a implicação do
primeiro parece clara, a inacção da segunda foi clamorosa. Isso
enfureceu Erdogan e facilitou a movimentação da Rússia. A reconciliação
da Turquia com a Rússia incluiu, entre outras coisas, a retoma o
gasoduto «Corrente Turca (Turk Stream), pelo que a operação desenhada
pelos EUA e os seus aliados árabes, Catar e Arábia Saudita, de trazer o
gás para a União Europeia através da Síria – que foi a origem da guerra –
passou definitivamente à história. Este era o grande trunfo que os EUA
tinham para estrangular definitivamente a Rússia, juntamente com o
conflito ucraniano, visto que por este país passa a parte de leão do gás
utilizado pela União Europeia.
O principal prejudicado pelo modo como as coisas evoluíram e pela
vitória do governo sírio é o Catar que, pouco a pouco, se foi habituando
à ideia do que implica ter tomado partido contra a Rússia e os seus
interesses na zona. Foi o primeiro país a dar conta do que se estava a
passar e a iniciar uma aproximação silenciosa à Rússia que já se
traduziu na compra de 19,5% das acções da principal petrolífera russa, a
Rosneft, de propriedade estatal (10 de Dezembro de 2016). O Catar
rompia com estrondo o suposto «isolamento» da Rússia e fê-lo quando a
ofensiva final para libertar Alepo ainda estava em marcha, com o que,
literalmente, deixou de rabo ao léu os seus patrocinados «contras».
Então, já era evidente que os «contras» estavam a desmoronar-se como um
castelo de cartas que, apesar de toda a sua retórica anterior, a Turquia
considerava a cidade de Alepo e a província do mesmo nome (que era o
pulmão industrial da Síria, ou que o era antes da guerra) dentro da sua
zona de influência e que, com quem há que contar é com a Rússia e não
com outros.
O Catar está já a começar a entender até onde levou a sua estratégia
de apoio aos Irmãos Muçulmanos em geral, e aos salafitas e takfiristas
na Síria em particular. Depois, para salvar a face e não perder
definitivamente a possibilidade, por remota que seja hoje, de vender gás
na Europa, o que tinha de fazer era iniciar uma nova relação com o país
que neste momento tem todas as cartas na mão: a Rússia.
Já tinha havido outros movimentos nos países árabes de aproximação à
Rússia, ainda que não directamente ligados à guerra contra a Síria. É o
caso do Egipto. Este país está muito sentido com a Arábia Saudita por
depois do golpe que derrotou os Irmãos Muçulmanos não terem chegado os
milhões de dólares prometidos pela Arábia Saudita como contrapartida.
Por isso, o Egipto moveu-se imperceptivelmente, não só para a Rússia mas
também para o governo sírio. O Egipto e a Rússia fizeram manobras
conjuntas no Sinai – um lugar onde há uma forte implantação do chamado
Estado Islâmico –, os barcos russos têm facilidades no trânsito no Canal
do Suez e discute-se a compra a compra de armamento russo pelos
egípcios.
Por isso, não é de estranhar que no passado mês de Outubro o Egipto
rompesse as ligações à Liga Árabe (onde o lugar da Síria foi atribuído
aos «contras) e votasse no Conselho de Segurança da ONU uma resolução
apresentada pela Rússia que era contrária a uma outra apresentada pela
França e Espanha, em nome dos países ocidentais e árabes. Foi uma
chamada de atenção que não passou despercebida, e que um mês mais tarde
foi seguida de uma muito mais importante: o envio de 18 aviões de
combate para a Síria e 200 soldados em «apoio ao governo sírio» na sua
luta contra o chamado Estado Islâmico.
No entanto não é tudo, dias mais tarde, dia 20 desse vertiginoso mês
de Dezembro, a Rússia, o Irão e a Turquia chegavam a um acordo sobre a
Síria que definia novas linhas sobre a guerra e mostrava uma nova
relação de poder na zona. Em síntese, estes três países acordaram que a
Síria deve manter intactas as suas fronteiras, manter um estado secular,
alcançar a paz inter-religiosa interétnica, combater o chamado Estado
Islâmico e a Frente para a Conquista do Levante, ex Al-Nusra (Al-Qaeda) e
dirigir as conversações directas que haja entre o governo sírio e os
grupos dos «contras» que se juntaram ao fim das hostilidades, bem como
alguns outros que não pegaram em armas.
Pensar que quando a Rússia e a Turquia chegaram a acordo sobre o
cessar das hostilidades, o fizeram sem ter em conta, por um lado, a
Síria e o Irão (além de um actor não estatal como o Hezbollah) e a
Arábia Saudita e o Catar, por outro, é não ter em conta nada de nada e
não saber nada de nada. A Turquia foi rapidamente ao Catar explicar
«profundamente» o conteúdo do acordo e anunciou também que se ia reunir
ali com um representante saudita. Neste momento, a Turquia é a potência
inquestionável da zona, com a inestimável ajuda da Rússia, ainda que
seja uma situação que apenas agora começou a definir-se. Se o cessar das
hostilidades tiver êxito, e não estamos a falar das conversações de paz
do Cazaquistão, ficará nessa posição durante muito tempo.
Por seu lado, a Rússia também não esteve parada e o seu ministro dos
Negócios Estrangeiros viajou até ao Egipto para propor o
comprometimento deste país no acordo de paz do Cazaquistão, como
«mediador e garante», e estudar a possibilidade de enviar um contingente
maior de tropas como «forças da paz» nas localidades que aderiram ao
acordo de reconciliação que o governo promove. Se esta proposta
russo-síria for aceite será o golpe de misericórdia no velho Médio
Oriente e ver-se-á melhor que nunca essa recomposição em andamento.
5. E mais além
Mas o interessante é que com todas estas movimentações há um país
que, na prática, desaparece do Médio Oriente: os EUA. E este
desaparecimento tem um actor que o tornou possível: a Rússia. Dizer que
os EUA perderam a guerra contra a Síria pode parecer muito atrevido, mas
é bastante parecido com o que estamos a viver. Sem questionar que as
primeiras semanas houve revoltas populares, e que a partir desse momento
começou uma guerra de agressão contra a Síria por parte de uma
associação de países encabeçados pelos EUA, Arábia Saudita e Catar, a
verdade é que esta associação de países armou, financiou e manteve os
seus patrocinados «contras» até ao ponto de, no final de 2015, darem a
impressão de ir conseguir o seu grande objectivo: derrotar Al-Assad,
seguindo o padrão usado na Líbia. Foi quando, a pedido do governo, a
Rússia e a história mudaram de rumo até chegar a situação de agora: os
«contras» estão derrotados, tal como a estratégia dos EUA, da Arábia
Saudita e do Catar. Isto para não falar ainda da NATO.
A Rússia quis sempre chegar a um qualquer acordo com os EUA, mas tal
não foi possível, entre outras coisas, pela divisão que havia entre o
governo de Obama e o Pentágono. Foram dezenas de contactos, reuniões e
acordos que não chegaram a parte alguma o que levou, a Rússia, perante a
situação de enquistamento a que se chegou, a um movimento inédito:
deixar os EUA à margem e iniciar conversações com outros atores.
Primeiro com os amigos (Irão) e depois com os inimigos (Turquia). Isto
colocou os outros na defensiva e à espera do que estes novos atores
decidissem, e do que resultou tudo isto.
Em muitos anos, esta é uma situação inédita que ainda é cedo para
avaliar, mas o que toda a gente está a observar com muito interesse é
que, se vitoriosa, ela marcará o rumo geopolítico do futuro. E é
evidente que também se está numa situação precária, e que não se sabe o
que se vai passar com a presidência de Trump. No entanto, por pouco que
se verifiquem as suas promessas sobre a Síria teremos assistido ao
nascimento de uma nova era na zona (e um pouco mais além).
Notas:
[1] O termo «contras» foi utilizado na Nicarágua sandinista para se
referir aos diferentes grupos que se opunham ao governo da FSLN e que
recebiam apoio desde o exterior do país, sobretudo dos EUA que foram os
impulsionadores da guerra que se lançou contra a Nicarágua e que
financiaram com salários e forneceram material militar aos «contras».
[2] http://elterritoriodellince.blogspot.com.es/2016/11/del-colapso-la-derrota-de-nuevo-otra.html
[3] http://www.atlanticcouncil.org/syriaproyect
[4] http://www.ecfr.eu/article/commentary_the_first_trump_test_european_policy_and_the_siege_of_aleppo7186
[5] Síria é um dos países onde se acolhem refugiados palestinos.
Calcula-se que no país viviam antes da guerra uns 500.000, que na sua
maioria continuam a viver aí, ainda que aproximadamente 100.000 se
tenham mudado para o Líbano, alojando-se nos campos de refugiados ali
existentes. Quando se iniciou a guerra os palestinos tentaram manter-se à
margem. Havia duas posturas, a do Hamas, que defendia a participação ao
lado dos «contras», e a das diferentes organizações de esquerda que
defendiam a participação ao lado do governo. Esta situação durou mais de
um ano, até que os «contras» tomaram o campo de refugiados de Handarat,
situado no norte de Alepo, e atacaram os que defendiam o governo. Este
campo ficou famoso no verão de 2016 por os «contras» terem decapitado um
menino de 12 anos, por defender Al-Assad. Não obstante, desde 2012 e
2013 que a imensa maioria dos palestinos refugiados na Síria defendem o
governo de Al-Assad e constituíram três brigadas de combate: a
«Jerusalém», a «Galileia» e a formada pelo Exército de Libertação da
Palestina. Além disso, organizações como a Frente Popular de Libertação
da Palestina-Comando Geral, a Al Fatah Intifada e um ramo do Hamas
denominado Aknaf Bait al Maqdis combate ao lado do governo sírio na zona
central do país, especialmente nos arredores do campo de refugiados de
Yarmouk, cujo controlo se reparte entre os «contras» e o chamado
Exército Islâmico.
[6] The National, 12 de Dezembro de 2016 (principal jornal dos Emiratos Árabes Unidos).
[7]
http://www.un.org/press/en/2017/db170111.doc.htm?__hstc=143095274.8e6501ed1ff01abb67548d3e30635247.1480686736463.1484425528466.1484469935998.10&__hssc=143095274.6.1484469935998&__hsfp=282875472
[8] http://www.achariricenter.org/factions-judicial-system-in-idlib-ar/
[9] Al-Quds Al-Arabi, 2 de janeiro de 2017 (jornal editado en Londres).
[10] Faliak al-Sham (Legião do Levante), Jaish al-Islam (Exército do
Islão), Suvar al-Sham (Revolução do Levante), Jaisj al-Mudzhahiddin
(Exército dos Mujaidines), Jaish Idlib (Exército de Idlib) e Dzhabhat
al-Shamiya (Frente do Levante). Inicialmente também se juntou o próprio
Ahrar al Sham (Movimento Islâmico do Povo do Levante), mas depois de um
agitado debate interno decidiu retirar a sua assinatura do acordo. Este
grupa conta já com uma importante divisão, porque a maioria dos seus
membros são partidários da fusão com a antiga Frente Al-Nusra
(Al-Qaeda). Estes dois grupos são os que controlam a província de Idlib.
O resto não passa de comparsas sem a menor influência política ou
social, pelo que o cessar de hostilidades será, no melhor dos casos,
parcial e com âmbito militar muito reduzido, mas que terá importância
política se se conseguir algum acordo.
* Escritor e jornalista especializado em Relações Internacionais
Texto completo en: http://www.lahaine.org/repercusiones-de-la-liberacion-de
Tradução de José Paulo Gascão
in ODiario.info