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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Une histoire matérialiste du matérialisme

Nicolas Mathey
Mardi, 17 Septembre, 2013
L'Humanité
 
Histoire des philosophies matérialistes, de Pascal Charbonnat. Éditions Kimé, 2013, 706 pages, 34 euros.  

 La matière est partout la même. La deuxième édition de l’Histoire des philosophies matérialistes, de Pascal Charbonnat, permet de suivre un puissant fil conducteur de la pensée occidentale : le parti pris de la matière. Ce en quoi cette Histoire s’apparente à une histoire de l’athéisme, rassemblant ceux qui ont rejeté tout au-delà, tout principe divin, tout Ciel des idées.
Pas question pour Pascal Charbonnat de faire l’histoire des matérialismes à partir de penseurs supposés intemporels. « L’histoire du matérialisme ne devient pleinement significative qu’à condition qu’elle soit elle-même une histoire matérialiste, en reflétant la liaison entre l’idée matérialiste et le reste du monde », affirme l’auteur, qui se place dans la descendance de l’idéologie allemande, liant l’apparition des philosophies matérialistes aux bouleversements historiques, aux conditions matérielles de production et d’existence des sociétés.
Ainsi l’atomisme antique est-il relié à l’expérience grecque de la démocratie, avec Démocrite puis Lucrèce, lesquels s’attachent à expliquer le monde à partir de la nécessité interne de la nature, en rejetant toute intervention démiurgique. Plus tard, le système féodal et les assauts du christianisme et de sa philosophie scolastique conduisent à l’extinction du courant matérialiste. À l’époque moderne, l’essor des villes et des marchands provoque sa résurgence, sous la forme du mécanisme cartésien et de l’athéisme des Lumières.
Au XIXe siècle, l’essor des industries et des sciences aurait provoqué l’émergence des deux courants matérialistes contemporains. Le matérialisme évolutionniste avec Lamarck et Darwin conduit aux sciences contemporaines et à leur recherche d’unification des lois de la matière. Le matérialisme dialectique de Marx et Engels se tourne vers l’histoire des sociétés et de leurs conflits pour expliquer que l’état des forces de production et des rapports sociaux est le fondement des idées, dans un combat permanent pour l’émancipation sociale.
Le XXe siècle aura, selon l’auteur, vu ces deux courants continuer de s’ignorer, le premier s’enfermant dans la technicité et la spécialisation, tandis que le matérialisme dialectique s’est trouvé défiguré par le stalinisme, occulté par le capitalisme. « Le XXe siècle voit le capitalisme résister à sa contestation, voire donner l’impression qu’il triomphe, alors que la contestation de sa suppression, ou de sa fin certaine, n’est pas résolue », conclut Pascal Charbonnat.
La question des rapports entre capitalisme et matérialisme se pose avec insistance au terme de cette Histoire des philosophies matérialistes. Si l’avenir du matérialisme dialectique passe, selon l’auteur, par la renaissance du mouvement ouvrier, comment renouveler le lien politique qui permettrait cette renaissance ? Le capitalisme n’est-il pas cette capacité d’adaptation qui transforme la puissance et le soulèvement des peuples en pouvoir politique, qu’il soit bureaucratique et/ou oligarchique ? Le capitalisme n’est-il pas l’obscure victoire de la science matérialiste de la nature débarrassée de la question des origines, la victoire grise de la chose marchande débarrassée de la question de sa production ?
in L`Humanité

Anatomia Ideológica da Disney

Fernando Buen Abad    02.Ene.18    Outros autores
É muito oportuna nesta época “festiva” a análise do esmagador domínio ideológico do conglomerado das indústrias do entretenimento, dos grandes meios de comunicação globais e das redes digitais. Um exemplo recente é bem elucidativo: a promoção da “franchise” Star Wars – hoje parte do universo Disney – por parte de destacadas figuras da extrema-direita norte-americana, destacando o conteúdo ideológico que sempre assumiu como essencialmente belicista, anticomunista e de propaganda imperialista. Através do eficaz e quase inatacável universo da cultura mediática de massas.
Como sucede com muitas outras mercadorias hiperventiladas publicitariamente, um “público” massivo e mundial decidiu sepultar toda a razão crítica perante o discurso Disney e cedeu-lhe territórios nodais tornando-o carne dos seus sonhos e dos seus afectos. Os filhos como primeiras vítimas. Até os mais recalcitrantes social-democratas vestem as suas meninas de princesitas. E há que ouvir as - nada pouco irresponsáveis - justificações.
Hoje o império Disney deu passos enormes na sua aventura monopolizadora do reino mediático global. Anuncia também a imprensa monopolista (como se se tratasse de uma conquista moral) a compra feita pela Disney de uma percentagem de acções da empresa Fox: “A compra por parte da Disney da divisão de entretenimento da Fox por US$52.400 milhões faz prever um abalo no mundo do consumo digital e audiovisual.” Mas nem tudo é dinheiro para estes “homens de negócios”. Já o diziam Ariel Dorfman e Armand Mattelart, (1972) históricos analistas da Disney.
No epicentro do problema que isto implica para a humanidade está não só o protagonismo descontrolado do império económico anglo-saxónico-israelita sobre os meios de comunicação e cultura planetários; está não só o perigo da uniformização dos gostos e dos consumos; está não só o cancelamento da diversidade e da liberdade de expressão dos povos… está o colonialismo da mentalidade belicista empenhada em convencer-nos a aceitar a indústria das guerras como um facto natural e darwiniano ante o qual apenas nos resta resignar-nos, consumir e aplaudi-los.
E para que o aceitemos mansamente, quer dizer consumidoramente, eles contam com os seus noticiários, os seus filmes, as suas séries televisivas, os seus heróis, os seus desenhos animados e os seus valores adornados mercantis. E contam também com as festas, os disfarces, a música, as canções e o Natal. Infiltraram a propaganda dos seus bastiões ideológicos com personagens emblemáticos até nos berços dos bebés. Dominação amplíssima dos territórios simbólicos. “Esta aquisição que antes teria sido impensável promete transformar Hollywood e Silicon Valley. É o maior contra-ataque de uma empresa de meios de comunicação tradicional contra os gigantes tecnológicos que se introduziram de forma agressiva no negócio do entretenimento”, sublinhou uma análise do diário The New York Times…”A Disney tem agora suficiente músculo para se converter num verdadeiro competidor de Netflix, Apple, Amazon, Google e Facebook no mundo em acelerado crescimento do vídeo em linha”. [1]
O papel da Disney na história do belicismo mundial não é novo nem é ingénuo. Desempenhou o papel de uma agência de propaganda que foi capaz de seduzir “pequenos e grandes” com os néctares de uma trivialidade atrevida, um raciocínio mercantilista “linearizado” ao máximo e uma moral maniqueia que tomou conta do reino do “bem” enquanto se apropriava dos avanços tecnológicos e comunicacionais do seu tempo. “No que diz respeito à Disney, a participação deste projecto durante a guerra traduziu-se em lucros económicos e obviamente numa consolidação empresarial, mas sobretudo em algo absolutamente impagável: na associação da marca Disney (e de Mickey Mouse por extensão) ao espírito americano de liberdade dentro do imaginário colectivo da população da época mas que, de facto, chega até aos nossos dias”. [2]
A Disney contém na sua base ideológica todos os ingredientes nazi-fascistas que se “modernizaram” no decurso dos últimos anos. Tornam-se evidentes não apenas nos seus discursos explícitos mas também na própria alma dos seus modelos organizacionais como empresas monopolistas transnacionais. A grande emboscada radica em fazer deslizar como inocentes as manias burguesas mais insuportáveis. Desde o Tio Patinhas até à mais infernal enxurrada formas de agir mercantis e de estereótipos de conduta, que sob o manto sagrado da Disney intervêm contra crianças, adolescentes e adultos. E então “perdoa-se-lhes” tudo, inclusivamente que seja um dos maiores e mais perigosos dispositivos de concentração mediática do planeta. ¿Como pode ser tão maligno um consórcio que fabrica e vende personagens tão “angelicais” e “meigos”? Perguntar-se-ão alguns.
Uma das armas actualmente mais poderosas de guerra ideológica é a indústria mediática. 96% dos meios de comunicação do mundo estão sob o controlo de seis empresas. Sob a direcção de Robert A. Iger, empresário estado-unidense de origem judaica director da Disney desde o ano 2000, esta assentou a sua habilidade comercial e estratégica num mundo em que as guerras são um grande negócio, em ler os contextos para inserir os seus produtos, valores, ideologias e sensações de “segurança e bem-estar” tão necessárias para que a burguesa invista tranquilamente as suas poupanças em destruir ou reprimir a concorrência comercial ou os seus inimigos de classe. Serve para isso o imenso potencial propagandístico capaz de operar massivas lavagens ao cérebro utilizando todo o tipo de invenções de guerra psicológica. A lista dos donos de semelhante armamento ideológico é: Sumner Redstone (Murray Rothstein, Viacom, MTV), Robert Iger (Disney), Roger Ailes (Fox), Stanley Gold (Shamrock ABC/Disney), Barry Meyer (Warner Bros), Michael Eisner (Disney), Edward Adler (Time Warner), Danny Goldberg – David Geffen (Dreamworks, Elektra/Asylum Records), Jeffrey Katzenberg (Dreamworks, Disney), Jean-Bernard Levy (Vivendi, França), Joe Roth, Steven Spielberg, Ron Meyer, Mark Zuckerberg (Facebook), Mortimer Zuckerman, Leslie Moonves (CBS).
Mas retratar o poder colonizador é apenas uma parte muito básica. Faz falta delinear o que fazer. Tomar cautelas e dispor-se a criar as fontes culturais e comunicacionais transformadoras sem imitar os formatos hegemónicos, sem se subordinar aos seus modos alienantes, sem repetir os seus vícios. Faz falta claridade política e decisão organizada, faz falta que todas as lutas coloquem nas suas agendas a batalha das ideias e a batalha comunicacional num cenário de disputa simbólica em que se nos vai a identidade, se nos vai a palavra, se nos vai a vida. Nada menos.
—-
Notas:
[1]http://www.bbc.com/mundo/noticias-42359905
[2] Raquel Crisóstomo Gálvez: https://www.academia.edu/1778128/Walt_Disney_en_el_frente_propaganda_b%C3%A9lica_y_animaci%C3%B3n
Cubadebate
Texto completo em: https://www.lahaine.org/anatomia-ideologica-de-disney

in  ODiário.info

HUMAN Extended version VOL.1

sábado, 30 de dezembro de 2017

Mészáros: Igualdade substantiva e democracia substantiva

No aniversário de István Mészáros, disponibilizamos o último artigo escrito por ele para a revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda.

Por István Mészáros.

Hoje, István Mészáros completaria seus 87 anos. Ele nos deixou no dia 1º de outubro deste ano, mas lega uma obra teórica e uma trajetória de vida da mais alta importância para as próximas gerações de lutadores sociais. Em homenagem a seu aniversário, o Blog da Boitempo disponibiliza aqui o último artigo que ele escreveu para a revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, cujo conselho editorial ele também compunha. Publicado no segundo semestre de 2015, na edição de número 25 da revista, o artigo discute o problema fundamental das determinações substantivas, fundamental para pensar conceitos como “igualdade” e “democracia” para além do capital. A tradução é de Nélio Schneider.
Boa leitura.
* * *
O problema das determinações substantivas se refere a uma mudança fundamental de uma futura sociedade, que, para se tornar historicamente sustentável, precisa ter a igualdade substantiva como princípio norteador vital do seu metabolismo social. Da mesma forma, nem é preciso dizer que alguns outros conceitos reguladores (como o da democracia substantiva) não podem ser dissociados desse requisito, no sentido de que todos eles precisam ser concebidos e implementados no espírito da igualdade substantiva.
Para mim, é da maior importância política, tanto na teoria quanto na prática, contrastar nossa concepção do metabolismo social radicalmente diferente do futuro – sem o qual a humanidade não sobreviverá – com as formas existentes. É por isso que uso a expressão “substantivamente democrático” (e, é claro, “democracia substantiva”, cujas características definidoras fundamentais a tornam indissociável da “igualdade substantiva”) em contraste inclusive com a concepção de democracia, que já foi genuinamente liberal e que, sob nenhuma condição, poderia ser substantiva, mesmo que tenha conseguido ser mais ou menos substancial em um sentido político limitado. Nesse sentido limitado, a política pode ser mais ou menos “substancialmente democrática” sob um regime liberal, mas jamais poderá ser substantivamente democrática. No caso do contraste feito aqui por mim, não pode haver política “mais ou menos substantivamente democrática” ou “mais ou menos substantivamente igual”. Ou ela é substantivamente democrática e substantivamente igual ou não é. Em outras palavras, no último caso ela de modo algum é substantiva. Em contraposição, sob certas condições históricas é perfeitamente legítimo falar de relações políticas/sociais “mais ou menos substancialmente democráticas” ou “mais ou menos substancialmente iguais”.
É nesse sentido que usei a expressão “substantiva” em Para além do capital e que continuo a usá-la no livro que estou escrevendo sobre o Estado. De fato, já discuti esses problemas nos mesmos termos em meu livro sobre A teoria da alienação em Marx, que comecei a escrever no ano de 1959 em Londres. Isso porque a profunda preocupação que tenho com a substância crucial desse assunto na verdade remonta bem explicitamente ao outono de 1951, a uma conversa que tive com Lukács, na época em que o governo húngaro aumentou o preço dos itens vitais alimentação e vestuário em 300% e os salários em somente 18 a 21%.
Na ocasião discutimos essa medida na Associação Húngara de Escritores com Márton Horváth (que atacou Lukács com veemência no “debate Lukács” dos anos 1949-1951), membro do Politburo do Partido responsável pelos assuntos culturais/ideológicos. Alguns dos meus amigos escritores e colegas recitaram a resposta que Horváth queria ouvir, dizendo que o povo aprovou entusiasticamente a referida mudança. Eu me mantive em silêncio total, mas ele se voltou para mim e perguntou: “E você, camarada Mészáros, o que você ouviu?” Minha resposta foi esta: “Eu não sei que parte do país meus amigos visitaram, mas onde eu vivo, que é um distrito da classe trabalhadora, as pessoas estão praguejando e maldizendo o Partido e o governo”.
Como lhe era típico, ele respondeu: “Camarada Mészáros, espera-se que você os lidere, não que siga atrás deles!” Isso mostrou que ele sabia muito bem o que o povo em geral estava pensando; o que ele queria saber era como os escritores propagandeariam a decisão do Partido. Dada a grande diferença entre a receita dos trabalhadores e a dos principais escritores, os aumentos de preço dos alimentos e do vestuário não afetaram significativamente os escritores, mas atingiram duramente os trabalhadores. O aumento de 18 a 21% no salário dos escritores proporcionou-lhes uma compensação razoável, ao passo que os trabalhadores sofreram uma redução importante em sua necessidade principalmente de suprimentos essenciais de alimentação e vestuário como resultado de seus salários inadequados.
No dia seguinte, contei a Lukács essa experiência desconcertante na Associação de Escritores e ele riu comigo em um tom irônico e até sarcástico, sinalizando que desaprovava o comportamento de Horváth. E então ele explicou para mim que uma solução mais equitativa seria impossível, pois requereria somas elevadas com que a economia não conseguiria arcar. Na ocasião, a única coisa que consegui dizer foi: “Eu entendo, mas deve haver outra maneira”. Naquela altura da vida, eu não fazia a menor ideia do que poderia e deveria ser essa “outra maneira” e de como se poderia colocar em prática uma alternativa real às enormes desigualdades existentes. Eu só sabia que “deve haver outra maneira”. Naturalmente eu também sabia que as massas do povo estavam praguejando e maldizendo e que delas faziam parte meus camaradas de classe e companheiros de infância.
Precisei de algumas décadas de trabalho duro, em um período de fortes agitações e reviravoltas históricas, para entender as complexas ramificações históricas e sociais da diferença vital entre o que é chamado de “mais igualdade” (que significa nenhuma igualdade real) e o requisito historicamente irreprimível de igualdade substantiva.
As sociedades democráticas liberais frequentemente afirmam sua pretensão de legitimidade política insuperável proclamando sua intenção de instituir reformas políticas que promovam a “democracia representativa” e “mais igualdade” (junto com “taxação progressiva” etc.) e prometendo proteger a sociedade da “interferência excessiva do Estado”. Na realidade, poucas dessas pretensões e intenções resistem a um exame sério. Mas as sociedades do tipo soviéticas pós-revolucionárias tampouco lograram viver à altura dos princípios que haviam proclamado e acabaram retrocedendo ao mais desigual dos moldes capitalistas (ver Gorbachev etc.). Ao derrubar temporariamente o Estado capitalista, elas foram capazes de introduzir por certo tempo algumas reformas sociais limitadas, mas não a mudança estrutural necessária que surgiu no horizonte histórico na forma do desafio objetivo para a realização da igualdade substantiva.
Na verdade, a questão da igualdade substantiva está ligada a um certo número de assuntos vitais, que posso apenas mencionar sumariamente aqui. Ela diz respeito ao capital como tal (isto é, ao sistema do capital em sua totalidade) e não apenas ao capitalismo.
Igualmente, ela diz respeito ao Estado do sistema do capital como tal (isto é, ao Estado do capital em toda a sua variedade conhecida e factível), e não apenas ao Estado capitalista. Em outras palavras, trata-se da redefinição e reprodução permanente e historicamente viável do metabolismo social em sua totalidade, e não apenas da derrubada do domínio político estabelecido.
As ilusões associadas à noção de “democracia direta” etc. precisam ser avaliadas nessa linha, dentro do quadro de referência do modo radicalmente redefinido de reprodução societária. A razão disso é que as projeções irrealizáveis da “democracia direta” permanecem irrealizáveis precisamente por estarem presas na armadilha das limitações estruturais do domínio político vigente, enquanto o desafio histórico inevitável é a transformação radical de todos os níveis do metabolismo social de uma maneira não hierárquica. A política pode iniciar mudanças sociometabólicas importantes e de fato fundamentais, mas não pode constituir uma mudança por si só. Ela pode afetar de maneira significativa as condições da reprodução material, mas ela própria é dependente – inclusive quanto ao modo de articular suas demandas por uma mudança importante – da natureza de dado ou visado quadro de referência reprodutivo de ordem material (bem como, é claro, do seu correspondente cultural e ideológico).
Mudanças políticas estratégicas são sempre formuladas nos termos de tal quadro estrutural de ordem material – não importando que ele não esteja explicitado ou até tenha sido cinicamente camuflado –, o que ocorreu sob as condições da história passada, marcada pelos dados objetivos da determinação e da espoliação classistas. E quando se visa, em nosso tempo, a uma tomada de decisão globalmente política de cunho socialista para o futuro, esta precisa deixar claro seus próprios termos práticos de referência em conformidade com o quadro de referência reprodutivo de ordem material visado para a nova sociedade. O “diretamente político” significa muito pouco nesse tocante, se é que significa algo, ao passo que o materialmente substantivo faz toda a diferença (“sob o teto de nossas casas”, como já dizia Babeuf).
Em função de sua viabilidade histórica, esse tipo de redefinição de política e sociedade requer que o capital seja erradicado totalmente do metabolismo social. Sem isso não pode haver igualdade substantiva (ou democracia substantiva). Naturalmente esse requisito acarreta também a erradicação total (ou o “fenecimento”) do Estado como o conhecemos. O metabolismo reprodutivo do capital não pode ser erradicado sem isso, pois, em seu âmago, o Estado é necessariamente hierárquico. Ele foi historicamente constituído como o expropriador e usurpador da tomada de decisão global do processo de reprodução societária. Além disso, o quadro de referência reprodutivo de cunho material da ordem metabólica social do capital não teria nem condições de funcionar sem os processos de tomada de decisão hierárquica estruturalmente arraigados do Estado do capital correspondente.
Uma consideração adicional precisa igualmente receber a devida ênfase nesse ponto: a capacidade de restauração do capital. Pois, por sua natureza, o capital só pode ser inexoravelmente onipotente, já que não é capaz de reconhecer qualquer limite. Daí o absurdo completo da fantasia de Gorbachev (e de qualquer outra similar), postulando uma “sociedade de mercado controlada”. (Como bem sabemos, essa fantasia pode ter muitas variedades ilusórias, especialmente em condições de severas crises econômicas.)
Tendo em vista todas essas considerações, a única solução historicamente sustentável para o futuro é a reconstituição radical do metabolismo social no espírito do princípio orientador da igualdade substantiva. Isso só poderá ser visualizado bem além da irrealizável terra do nunca e do lugar nenhum “substancialmente mais equitativo” da esperança piedosa. De modo algum causa surpresa que, no curso do desenvolvimento histórico conhecido, apregoado nos termos dos postulados ilusórios da concepção democrático-liberal da “redistribuição mais equitativa da riqueza” (em nome do “Estado de bem-estar” ou do que quer que seja), as promessas feitas não deram em absolutamente nada. As relações sociais resultantes não só não são “substancialmente mais equitativas”, como não são nem sequer um pouquinho mais equitativas. Pelo contrário, temos testemunhado a obscena concentração cada vez maior da riqueza. Tanto que até mesmo alguns economistas políticos neoclássicos decentes, como Thomas Piketty, expuseram-na em seus escritos, mesmo que não tenham apresentado qualquer solução.
Reorganizar a sociedade, transferindo o poder da tomada de decisão aos produtores livremente associados, é o único modo factível de introduzir o planejamento significativo. Isso é condição absoluta, totalmente incompatível com a natureza inerente do capital, devido à sua centrifugalidade estruturalmente insuperável. Essa dimensão do metabolismo social fundamental de nossa ordem estabelecida – isto é, sua incompatibilidade com o planejamento global, mas não com o “planejamento” parcial/gerador de antagonismos das grandes corporações – é agravada pelo requisito sistêmico do metabolismo reprodutivo de ordem material do capital, que tende inexoravelmente para a globalização materialmente invasiva, sem que haja qualquer processo correspondente e factível de tomada de decisão global no plano político legitimador do Estado. Pois seria nada menos que um absurdo completo se (ou quando) os apologistas da ordem metabólica social estabelecida do capital visarem a um sistema global do seu gosto sem um processo de planejamento globalmente viável e historicamente sustentável.
É claro que um processo de planejamento racional não antagônico em um plano global e amplo é inconcebível sem a correspondente modalidade apropriada de intercâmbio entre as células constitutivas – que podem ser chamadas de “microcosmos” – da abrangente ordem social. Nesse sentido, o planejamento globalmente viável só é factível sobre a base de um processo de reprodução societário horizontalmente coordenado (isto é, verdadeiramente não hierárquico). Essa é uma questão paradigmática de reciprocidade social, no centro da qual encontramos o requisito histórico da igualdade substantiva. Sem planejamento, o inevitável intercâmbio global em nossa reprodução societária presente e futura não pode ser considerado historicamente sustentável. Ao mesmo tempo, o planejamento em escala global é inconcebível sem a remoção das desigualdades hierárquico-estruturais tão evidentes no mundo atual.
Quanto a esse aspecto, uma vez mais, defender o “substancial” (em termos de alguma mudança postulada, mas irrealizável) não significa absolutamente nada, porque seu quadro de referência orientador e a correspondente medida que delimita os melhoramentos dos seus projetos permanecem a ordem hierárquica existente, estruturalmente arraigada. O assim chamado “mais equitativo” pode até ser, em um sentido parcial, “relativamente mais substancial” do que sua variedade anterior, mas ele inevitavelmente falha – como fica amplamente comprovado no desenvolvimento histórico real – no sentido vital de que não representa nenhum desafio real à ordem social existente no que se refere a seus parâmetros estruturais autossustentáveis e autojustificadores, muito bem ilustrados pela apregoada pretensão liberal do “mais equitativo”. (Ver as projeções originais – feitas por liberais como lorde Beveridge e outros – a respeito do “Estado de bem-estar” e sua realização histórica patética e liquidação definitiva até mesmo nos poucos países capitalistas privilegiados.) Para sair dessa ordem social estruturalmente desigual necessitamos de uma igualdade substantiva qualitativamente diferente como princípio orientador e também da medida apropriada de sua realização.
Esse também é o único modo pelo qual a questão da transição para uma transformação socialista da ordem metabólica social pode adquirir um significado apropriado: provendo os critérios e a medida pelos quais poderão ser confirmadas as realizações particulares rumo a uma sociedade substantivamente equitativa em sua totalidade.
Por razões historicamente compreensíveis, os movimentos políticos particulares que tentam afirmar suas políticas certamente têm de prometer resultados tangíveis aos seus potenciais seguidores. Esse é um problema muito difícil porque se tende a impor as demandas colocadas pelas expectativas de curto prazo dos movimentos políticos, em vez de se operar com a perspectiva historicamente sustentável de longo prazo. Na verdade, porém, a transformação estrategicamente viável não é factível sem a plena observância dos requisitos objetivos e subjetivos de longo prazo. Infelizmente, contudo, a distinção entre “estratégia e tática” frequentemente é usada para justificar a negligência em relação ao longo prazo, quando se diz que “isso e aquilo” foram pensados “apenas taticamente”, embora se encontrassem em contradição direta ao longo prazo estrategicamente viável.
O fato é que a adoção de tais táticas pode provocar um descarrilamento sério da necessária estratégia de longo prazo. Além disso, não haverá estratégia viável sem um quadro de referência orientador apropriado às determinações globais das tendências e potencialidades de longo prazo historicamente determináveis. É por isso que nossa preocupação com o contraste entre substantivo e substancial é de importância vital. Quando se visualiza uma transformação socialista historicamente sustentável não se pode abandonar o princípio orientador radical e a medida da igualdade substantiva, os quais podem permitir a constante avaliação do período de transição para uma ordem metabólica social fundamentalmente diferente.
Tudo isso é perfeitamente compatível com as opiniões de Marx. Porém, em nosso período histórico, o quadro de referência conceitual deve ser articulado no sentido anteriormente exposto, refletindo as condições agravadas e cada vez piores da irreversível fase descendente de desenvolvimento do capital, com sua tendência para a destruição global da humanidade, que só poderá ser evitada através da constituição de uma ordem sociometabólica substantivamente equitativa. Nossa crítica ao Estado deve ser concebida a partir dessa perspectiva.
***
István Mészáros é autor de extensa obra, ganhador de prêmios como o Attila József, em 1951, o Deutscher Memorial Prize, em 1970, e o Premio Libertador al Pensamiento Crítico, em 2008, István Mészáros se afirma como um dos mais importantes pensadores da atualidade. Nasceu no ano de 1930, em Budapeste, Hungria, onde se graduou em filosofia e tornou-se discípulo de György Lukács no Instituto de Estética. Deixou o Leste Europeu após o levante de outubro de 1956 e exilou-se na Itália. Ministrou aulas em diversas universidades, na Europa e na América Latina e recebeu o título de Professor Emérito de Filosofia pela Universidade de Sussex em 1991. Entre seus livros, destacam-se Para além do capital – rumo a uma teoria da transição (2002), O desafio e o fardo do tempo histórico (2007) e A crise estrutural do capital (2009), A obra de Sartre, e O conceito de dialética em Lukács todos publicados pela Boitempo.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

GUY DEBORD

«Publicada em 1967, A Sociedade do Espectáculo é a obra filosófica e política mais famosa de Guy Debord e uma análise impiedosa da invasão de todos os aspectos do quotidiano pelo capitalismo moderno. O espectáculo, segundo o autor, «uma droga para escravos» que empobrece a verdadeira qualidade da vida, é apontado como uma imagem invertida da sociedade desejável, na qual as relações entre as mercadorias suplantaram os laços que unem as pessoas, conferindo-se a primazia à identificação passiva, em detrimento da genuína actividade. O autor afirma que «quanto mais [o espectador] aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo».
A Sociedade do Espectáculo oculta uma das grandes contestações revolucionárias. «Num mundo realmente às avessas, o verdadeiro é um momento do falso.» E o espectáculo a suprema falsificação da vida.»

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

À atenção de alguns ministros da educação portugueses que, de reformeca em reformeca, deram cabo do sistema.eca


Educação, um dos maiores sucessos de Cuba




Havana – O direito ao ensino a todos os níveis é um dos baluartes de Cuba, e o seu desenvolvimento gradual constitui uma das principais linhas do sistema socialista desta nação caribenha.
Apesar das limitações impostas durante décadas pelos Estados Unidos mediante um bloqueio económico, financeiro e comercial, a ilha cumpre grande parte das metas instituídas pelo capítulo número dois dos Objetivos do Desenvolvimento do Milénio, referente à educação.
Segundo relatórios da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Cuba é o país da América Latina com maior índice no desenvolvimento da educação e o único a cumprir os objetivos globais da Educação para Todos.
Cuba dispende com a educação 13 por cento do Produto Interno Bruto. Este ano, os fundos planeados para a Educação aumentaram em oito mil 275 milhões 400 mil pesos cubanos (mais de 331 milhões de dólares), equivalentes aos 23 por cento da despesa orçamental.
No aspecto económico, os investimentos estão destinados à formação de professores e ao funcionamento de escolas primárias, ensino médio, universitário e a círculos infantis (centros de atenção à primeira infância).
Em Cuba, a educação consta na Constituição como um direito inalienável para todos os cidadãos e simboliza uma prioridade para o Estado.
O ensino académico, os programas de prevenção contra a delinquência e padrões de condutas questionáveis, uma educação sexual responsável, a formação de valores e a igualdade de género ocupam um lugar central no programa de ensino.
Actualmente a educação especial estende-se a todo o sistema nacional em escolas regulares e nos diversos níveis educacionais, onde se trabalha para potenciar o desenvolvimento integral de pessoas com necessidades específicas.
Escolas de arte, de educação física e desportiva, consideradas também como direito do povo, possibilitam a confluência de estudantes de diferentes idades com talentos e aptidões para as manifestações artísticas e modalidades desportivas.
Vários centros estimulam a formação de profissionais e instrutores nestas esferas e contribuem para incrementar o futuro das artes e o desporto em Cuba.
Durante o Congresso Internacional Pedagogia 2017, diretores de organismos internacionais, membros da Unesco e destacadas personalidades, entre elas o prémio Nobel da Paz Kailash Satyarthi, reconheceram os enormes avanços de Cuba na esfera educacional.
Tudo isto se deve à aplicação de um abrangente sistema, o ensino gratuito e os elevados índices de qualidade.

Fonte – Prensa Latina
Ler artigo em: Associação de Amizade – Portugal/Cuba: Home http://bit.ly/2B7TiCu
de alguns

Sistema eleitoral seguro: vitória do PSUV mostra força da democracia

12 de dezembro de 2017
Ler artigo em: Associação de Amizade – Portugal/Cuba: Home http://bit.ly/2nRIenL

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.