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sábado, 4 de novembro de 2017

A Revolução Russa e o adeus a Lenin (Imagens raras)

Bensaïd: As questões de Outubro

Daniel Bensaïd passa a limpo o legado da Revolução Russa ao longo de três questões cruciais de historiografia política.

Por Daniel Bensaïd.

Antes mesmo de entrar na massa dos novos documentos acessíveis pela abertura dos arquivos soviéticos (que permitirão, indubitavelmente, novas luzes e uma renovação das controvérsias), as discussão vem tropeçar no pensamento pronto da ideologia dominante, bem ilustrada pela recente homenagem necrológica consensual à François Furet. Nesses tempos de contra-reforma e de reação, não surpreende que os nomes de Lênin e Trótski se tornem tão impronunciáveis quanto foram aqueles de Robespierre e Saint Justsob a Restauração.

Para começar a limpar o terreno é conveniente retomar três ideias bastante aceitas hoje em dia:
  1. Em vez de revolução, Outubro seria mais o nome emblemático de um complô ou de um golpe de Estado minoritário impondo no conjunto, de cima para baixo, sua concepção autoritária da organização social em benefício de uma nova elite.
  2. Todo o desenvolvimento da Revolução Russa e suas desventuras totalitárias estaria inscrita em germe, por uma espécie de pecado original, na ideia (ou “paixão” segundo Furet) revolucionária: a história se reduziria então à genealogia e à execução dessa idéia perversa, em detrimento de grandes convulsões reais, de acontecimentos colossais e da saída incerta de toda luta.
  3. Enfim, a Revolução Russa teria sido condenada à monstruosidade por ter nascido de um parto “prematuro” da história, de uma tentativa de forçar o curso e o ritmo, quando “as condições objetivas” de uma superação do capitalismo não estavam dadas: em lugar de ter tido a sabedoria “de auto-limitar” seu projeto, os dirigentes bolcheviques teriam sido os agentes  ativos desse contratempo.

Revolução ou golpe de Estado?

A revolução Russa não é resultado de uma conspiração mas a explosão, no contexto da guerra, das contradições acumuladas pelos conservadorismo autocrático do regime tzarista. A Rússia, no começo do século, é uma sociedade bloqueada, um caso exemplar de “desenvolvimento desigual e combinado”, um país ao mesmo tempo dominante e dependente, aliando os traços feudais de um campo onde a servidão é oficialmente abolida há menos de meio século e os traços do capitalismo industrial urbano mais concentrados. Grande potência, ela é subordinada tecnologicamente e financeiramente (empréstimos). O caderno de condolências apresentado para Gapon por ocasião da revolução de 1905 é um verdadeiro registro da miséria que reina no país das tzares. As tentativas de reformas são rapidamente bloqueadas pelo conservadorismo da oligarquia, a teimosia do déspota e a inconsistência de uma burguesia que já está perseguida pelo movimento operário nascente. As tarefas da revolução democrática recaem, assim, numa espécie de terceiro-estado, no qual, à diferença da Revolução Francesa, o proletariado moderno, ainda que minoritário, já se constitui na ala dinâmica em marcha.
É isso que a “Santa Rússia” pode representar: “o elo fraco da cadeia imperialista”. A prova da guerra põe fogo neste barril de pólvora.
O desenvolvimento do processo revolucionário entre fevereiro e outubro de 1917, ilustra bem que não se trata de uma conspiração minoritária de agitadores profissionais, mas da assimilação acelerada de uma experiência política em escala de massa, de uma metamorfose das consciências, de um deslocamento constante das relações de forças. Na sua magistral História da Revolução Russa, Trótski analisa minuciosamente esta radicalização, de eleição sindical em eleição sindical, de eleição municipal em eleição municipal, junto aos operários, soldados e camponeses. Enquanto os bolcheviques representavam apenas 13% dos delegados ao congresso dos Soviets de junho, as coisas mudam rapidamente depois das “Jornadas de Julho” e a tentativa de putsch de Kornilov: eles representam entre 45% e 60% em outubro. Longe de representar uma manipulação conseguida pela surpresa, a insurreição representa o resultado e a conclusão provisória de uma prova de força que amadureceu ao longo do ano, no curso do qual o estado de espírito das massas plebéias esteve sempre à esquerda dos partidos e de seus estados-maiores, não somente dos socialistas revolucionários, mas mesmo daqueles do Partido Bolchevique ou de uma parte de sua direção (até inclusive sobre a decisão da insurreição).
Isso é o que explica que a insurreição de Outubro, comparativamente às violências que conhecemos desde então, tenha sido muito pouco violenta e pouco onerosa em vidas humanas, por mais que seja vão distinguir entre as vítimas de Outubro propriamente ditas (de ambas as partes) e aquelas da guerra civil a partir de 1918, sustentada pelas potências estrangeiras, com  a França e a Grã-Bretanha na primeira fila.
Se entendermos revolução por um elã vindo de baixo para cima, aspirações profundas de um povo, e não a execução de algum plano mirabolante imaginado por uma elite esclarecida, não há nenhuma dúvida que a Revolução Russa foi uma, no sentido pleno da palavra. Basta notar as medidas legislativas tomadas nos primeiros meses e no primeiro ano pelo novo regime para compreender que elas significam uma transformação radical das relações de propriedades e de poder, às vezes mais rápida que previsto e desejado, às vezes mesmo além do desejável, sob a pressão das circunstâncias. Numerosos livros testemunham esta ruptura na ordem do mundo (como Os dez dias que abalaram o Mundo, de John Reed, reedição do Seuil, 1996) e de sua repercussão internacional imediata (como La révolution d’Octobre et le mouvement ouvrier europeén, obra coletiva, EDI, 1967).
Marc Ferro sublinha (notadamente em La révolution de 1917, Albin Michel, 1997 e Naissance et Effondrement du régime communist em Russie, Livre de Poche, 1997) que não houve à época muita gente para apiedar-se do regime do tsar e para chorar o último déspota. Ele insiste, ao contrário, sobre a virada do mundo tão característica de uma autêntica revolução, que afeta até os detalhes da vida quotidiana: em Odessa, os estudantes ditam aos professores um novo programa de história; em Petrogrado, os trabalhadores obrigam seus patrões a aprender o “novo direito operário”; no exército, os soldados convidam o capelão a sua reunião “para dar um novo sentido a sua vida; em certas escolas, as crianças reivindicam o aprendizado do boxe para se fazer escutar e respeitar pelos adultos…”
Este elã revolucionário inicial se faz ainda sentir ao longo dos anos vinte, apesar das penúrias e do atraso cultural, nas tentativas pioneiras no front da transformação do modo de vida: reformas escolares e pedagógicas, legislação familiar, utopias urbanas, invenção gráfica e cinematográfica. É ele ainda que permite explicar as contradições e as ambigüidades da grande transformação operada com dor entre as duas guerras, onde ainda se misturam o terror e a repressão burocrática e a energia da esperança revolucionária. Nunca nenhum país do mundo conheceu uma metamorfose tão brutal, sob o chicote de uma burocracia faraônica: entre 1926 e 1939 as cidades aumentarão de 30 milhões de habitantes e sua parte na população global passará de 18% a 33%; durante o único primeiro plano quinquenal sua taxa de crescimento é de 44%, ou seja praticamente tanto quanto entre 1897 e 1926; a força de trabalho assalariada mais que dobra (passa de 10 a 22 milhões); o que significa a “ruralização” massiva das cidades, um esforço enorme de alfabetização e de educação, a imposição à marcha forçada de uma disciplina do trabalho. Esta grande transformação é acompanhada de um renascimento do nacionalismo, de um desenvolvimento do carreirismo, do surgimento de uma novo conformismo burocrático. Nesta grande confusão, ironiza Moshe Lewin, a sociedade estava, num certo sentido, “sem classes”, porque todas as classes estavam uniformes, em fusão (Moshe Lewin, La formation de l’Union Soviétique, Gallimard, 1985).

Vontade de poder ou contra-revolução burocrática

O destino da primeira revolução socialista, o triunfo do stalinismo, os crimes da burocracia totalitária constituem sem nenhuma dúvida um dos fatos maiores do século. As chaves de sua interpretação têm a maior importância. Para alguns, o princípio do mal residiria num fundo ruim da natureza humana, uma irrepreensível vontade de potência que pode manifestar-se sob diferentes máscaras, inclusive aquela da pretensão de fazer a felicidade dos povos, apesar deles, de impor-lhes esquemas pré-concebidos de uma “cidade ideal”. Importa-nos, ao contrário, encontrar na organização social, nas forças que a constituem e se opõem, as raízes e as molas profundas daquilo que às vezes chamamos “o fenômeno stalinista”.
O stalinismo, nestas circunstâncias históricas concretas, remete a uma tendência mais geral à burocratização em marcha em todas as sociedades modernas. Ela é alimentada fundamentalmente pelo desenvolvimento da divisão social do trabalho (entre trabalho manual e intelectual notadamente) e pelos “perigos profissionais do poder” que lhes são inerentes. Na União Soviética, esta dinâmica foi tanto mais forte e rápida quanto a burocracia se produziu sobre um fundo de destruição, de penúria, de arcaísmo cultural, na ausência de tradições democráticas. Desde a origem, a base social da revolução era ao mesmo tempo ampla e estreita, ampla na medida em que ela repousava sobre a aliança entre operários e camponeses que constituíam a esmagadora maioria social. Estreita na medida em que o componente operário minoritário, foi rapidamente eliminado pelos desgastes da guerra e as perdas da guerra civil. Os soldados para os quais os Sovietes tiveram em 1917 um papel central, eram  no essencial camponeses mobilizados pela idéia da paz de retorno ao lar.
Nessas condições, o fenômeno da pirâmide invertida ficou em seguida evidente. Não era mais a base que levava e empurrava o topo, mas a vontade do topo que esforçava-se de carregar a base. Daí a mecânica da substituição: o partido substitui ao povo, a burocracia ao partido, o homem providencial ao conjunto. Mas esta construção só se impõe pela formação de uma nova burocracia, fruto da herança do antigo regime e da promoção social acelerada de novos dirigentes. Simbolicamente, nos efetivos do partido após o recrutamento massivo da “promoção Lênin”, alguns milhares de militantes da revolução de Outubro não pesam mais a relação às centenas de milhares de novos bolcheviques, entre os quais os carreiristas vindos em socorro da vitória e os elementos reciclados da velha administração.
O testamento de Lênin (ver Moshe Lewin. Le dernier combat de Lenine, Minuit, 1979), é testemunha, em sua agonia, desta consciência patética do problema. Enquanto a revolução é assunto de povos e de multidões, Lênin moribundo está imaginando o futuro, avaliando os vícios e as virtudes de um punhado de dirigentes de quem tudo parece agora depender.
Se os fatores sociais e as circunstâncias históricas jogam um papel determinante no ascenso poderoso da burocracia stalinista, isto não significa que as idéias e as teorias não tenham nenhuma responsabilidade na sua existência. Particularmente, não há nenhuma dúvida que a confusão sustentada, desde a tomada do poder, entre o Estado, o partido e a classe operária em nome do definhamento rápido do Estado e do desaparecimento das contradições no seio do povo, favorece consideravelmente a estatização da sociedade e não a socialização das funções estatais. O aprendizado da democracia é uma questão longa, difícil, que não caminha no mesmo ritmo que os decretos de reforma econômica. Ela toma tempo, energia. A solução fácil consiste, então, em subordinar os órgãos de poder popular, conselhos e sovietes a um tutor esclarecido, o partido. Na prática, ela consiste também em substituir o princípio da eleição e do controle dos responsáveis pela sua nomeação, por iniciativa do partido, desde 1918, em alguns casos. Esta lógica desemboca, então, na supressão do pluralismo político e das liberdades de opinião necessárias à vida democrática, assim como a subordinação sistemática do direito à força.
A engrenagem é tanto mais implacável quanto a burocracia não procede somente ou principalmente de uma manipulação das altas esferas. Ela responde também, às vezes, a uma espécie de demanda das bases, a uma necessidade de ordem e de tranqüilidade dos cansaços da guerra e da guerra civil, das privações e do desgaste que as controvérsias democráticas, a agitação política, a demanda constante de responsabilidade provocam. Marc Ferro assinalou, em seus livros, de forma pertinente, esta terrível dialética.
Ele lembra, assim, que existiam “duas vertentes – democrática-autoritária na base, centralista e autoritária na cúpula”, no começo da revolução, “enquanto que em 1939 há apenas uma”. Mas, para ele, a questão é praticamente resolvida ao cabo de alguns meses, a partir de 1918 ou 1919, com o definhamento ou o enquadramento dos comitês de bairro e de fábrica (ver Marc Ferro, Les Soviets en Russie, coleção Archives). Seguindo uma aproximação análoga, o filósofo Phillipe Lacoue-Labarthe é ainda mais explícito declarando o bolchevismo “contra-revolucionário a partir de 1920-1921”, isto é, antes de Kronstadt (ver Revue Lignes n° 31, maio 1997).
O assunto é de maior importância. Não é questão de opor, ponto por ponto, de maneira maniqueísta uma lenda do “Leninismo sob Lênin” ao Leninismo sob Stálin, os anos 20 luminosos aos sombrios anos 30, como se nada houvesse ainda começado a apodrecer no país dos Soviets. É claro, a burocratização está quase imediatamente em andamento; é claro, a atividade policial da Tcheka tem sua lógica própria; é claro, o desterro político das ilhas Solovski está aberto depois da guerra civil e antes da morte de Lênin; é claro, a pluralidade dos partidos é suprimida de fato, a liberdade de expressão limitada, os direitos democráticos no próprio partido são restringidos a partir do 10° Congresso de 1921. O processo daquilo que chamamos contra-revolução burocrática não é um acontecimento simples, datável, simétrico da insurreição de Outubro. Ele não é feito num dia. Ele passou por escolhas, enfrentamentos, acontecimentos. Os próprios atores não pararam de debater sobre a periodização, não pelo gosto da precisão histórica, mas para tentar deduzir as tarefas políticas. Testemunhas como Rosmer, Eastman, Souvarine, Istrati, Benjamin, Zamiatini e Bulgakov (nas suas cartas à Stalin), a poesia de Maiakovski, os tormentos de Mandelstam ou de Tsvetaieva, os cadernos de Babel etc., podem contribuir a esclarecer as múltiplas facetas do fenômeno, seu desenvolvimento, sua progressão.
Mas isso não reduz o contraste, a descontinuidade irredutível, na política interna como na política internacional, entre o começo dos anos 20 e os terríveis anos 30. Nós não contestamos que as tendências autoritárias tenham começado a impor-se bem antes, que obcecados pelo “inimigo principal” (bem real na verdade) da agressão imperialista e a restauração capitalista, os dirigentes bolcheviquestenham começado a ignorar ou subestimar “o inimigo secundário”, a burocracia que os minava internamente e que acaba por devorá-los. Este roteiro era inédito na época, difícil de imaginar, foi preciso tempo para compreendê-lo e interpretá-lo, para tirar as conseqüências. Assim, se Lenin sem dúvida melhor compreendeu o sinal de alarme que significou a crise do Kronstadt, a ponto de impulsionar uma profunda reorientação política, é apenas bem mais tarde, na Revolução Traída, que Trótski chegará a fundar um principio de pluralismo político sobre a heterogeneidade do próprio proletariado, inclusive após a tomada do poder.
A maioria dos grandes testemunhos e dos estudos sobre a União Soviética ou sobre o próprio Partido bolchevique (ver Moscou sous Lenine de Rosmer, O Leninismo sob Lênin de Marcel Liebrnan, L’historie du Parti bolchevik de Pierre Broué, Staline de Souvarine e o do Trótski, os trabalhos de L. H. Carr, de Tony Cliff, de Moshe Lewin, de David Rousset) não permitem ignorar, na estreita dialética da ruptura e da continuidade, a grande virada dos anos 30. A ruptura ganha de longe, atestada pelos milhões e milhões de mortos de fome, os deportados, as vítimas dos processos e dos expurgos. Foi preciso desencadear tal violência para chegar ao “congressos  dos vencedores” de 1934 e a consolidação do poder burocrático porque a herança revolucionária deveria ser tenaz e não foi facilmente superada
Isto é o que chamamos uma contra-revolução, tão massiva, tão visível, tão esmagadora como as medidas autoritárias, por inquietantes que fossem, tomadas no calor da guerra civil. Esta contra-revolução faz igualmente sentir seus efeitos em todos os domínios, naquele da economia política (coletivização forçada e desenvolvimento em grande escala do Gulag), da política internacional (na China, na Alemanha, na Espanha), da própria política cultural ou da vida quotidiana, com aquilo que Trótski chamou “thermidor no lar”.

Revolução “prematura”

Após a queda da União Soviética uma tese readquiriu vigor entre os defensores do marxismo, especialmente nos países anglo-saxônicos (ver as teses de Gerry Cohen): aquela segundo a qual a revolução teria sido desde o começo uma aventura condenada porque prematura. Na realidade, esta tese tem sua origem muito cedo no discurso dos próprios mencheviques russos e nas analises de Kautsky, desde 1921: muito sangue, lágrimas e ruínas, escreveu ele, então, teriam sido poupados “se os bolcheviques tivessem tido o senso menchevique da auto-limitação àquilo que é acessível, onde se revela o mestre” (Vonder Demokratie zur statssklaverei, 1921, citado por Radek em Les voies de la Révolution russe, EDI, p. 41).
A fórmula é impressionantemente reveladora. Eis alguém que polemiza contra a idéia de um partido de vanguarda mas imagina em troca um partido-mestre, educador e pedagogo, capaz de regular à sua vontade a marcha e ritmo da história. Como se as lutas e as revoluções não tivessem também sua lógica própria. Ao querer auto-limitá-las tenta-se passar para o lado da ordem estabelecida. Não se trata mais então “de auto-limitar” os objetivos do partido, mas simplesmente de limitar as aspirações das massas. Nesse sentido, os Eberte os Noske, assassinando Rosa Luxemburgo e esmagando os sovietes da Baviera se tornaram ilustres como virtuoses da “auto-limitação”.
Na verdade, o raciocínio conduz de maneira inelutável à idéia uma história bem ordenada, regrada, como um relógio, onde tudo tem a sua hora, no tempo exato. Ele recai nas planícies de um estrito determinismo histórico tão seguidamente censurado nos marxistas onde a situação da infra-estrutura determina de maneira estreita a superestrutura correspondente. Ele elimina simplesmente o fato de que a história não tem a força de um destino, é cheia de acontecimentos que abrem uma série de possibilidades, nem todas garantidas. Trata-se mais de um horizonte determinado de possibilidades. Seus próprios atores pensaram a Revolução Russa não como uma aventura solitária, mas como primeiro elemento de uma revolução européia e mundial. Os Fracassos da Revolução Alemã ou da Guerra Civil Espanhola, os desdobramentos da Revolução Chinesa, a vitória do fascismo na Itália e na Alemanha não estavam escritos de antemão.
Falar nesse caso de revolução prematura significa um retorno a enunciar um julgamento de tribunal histórico, em vez de se colocar do ponto de vista da lógica interna do conflito e das políticas que se defrontam. Deste ponto de vista, as derrotas não são provas de erro ou de falhas, da mesma forma que as vitórias não são prova da verdade. Porque não há julgamento final. O que importa é o que foi traçado passo a passo na ocasião de cada grande escolha de cada grande bifurcação (a NEP, a coletivização forçada, o pacto germano-soviético, a guerra civil espanhola, a vitória do nazismo), a pista de uma outra história possível. É o que preserva a inteligibilidade do passado e permite tirar lições para o futuro.
Haveria, certamente, outros aspectos para discutir por ocasião deste aniversário. Nós estamos satisfeitos com “três questões de Outubro” hoje cruciais no debate. Mas o capitulo das “lições de Outubro” de um ponto de vista estratégico (crise revolucionária; dualidade de poder; relações entre partidos, massas e instituições; questões da economia de transição), de sua atualidade e de seus limites, é evidentemente tarefa decisiva. Isto conduz, também, contra “diabolizar” quem pretende responsabilizar a revolução por todas as misérias do século, a precisar que a União Soviética é certamente o país que, em três décadas viu o maior número de mortes violentas concentradas num território limitado, mas que não se pode sem mais nem menos, imputar à revolução as dezenas de milhões de mortes (os historiadores discutem a cifra hoje em dia), aqueles da Primeira Guerra Mundial, da intervenção estrangeira, da guerra civil ou da Segunda Guerra Mundial. Assim como, no bicentenário da Revolução Francesa era impossível imputar à Revolução os sofrimentos causados pela intervenção das monarquias ou das guerras napoleônicas.
Talvez nestes tempos de restauração seja proveitoso, para terminar,  lembrar estas soberbas linhas célebres de Kant, escritas em 1795, em plena reação termidoriana:
“Um tal fenômeno na história da humanidade não se esquece mais porque ele revelou na natureza humana uma disposição, uma faculdade de progresso tal que não seria possível com uma política de sutileza, separando-a do curso anterior dos acontecimentos somente na natureza da liberdade reunidas na espécie humana segundo os princípios internos do direito na medida da aparência, ainda que quanto ao tempo de uma maneira indeterminada e como acontecimento contigente. Mas mesmo se o objetivo visado por este acontecimento não foi ainda hoje atingido, mesmo quando a revolução ou a reforma da constituição do povo fosse finalmente fracassada, ou tivesse se passado um lapso de tempo, tudo recaísse no estado de coisas anterior (como a manutenção de certas políticas), esta profecia filosófica não perde nem um pouco de sua força. Porque este acontecimento é muito importante, muito ligado aos interesses da humanidade e de uma influência imensa sobre todas as partes do mundo para não se tornar mera memória nos papéis na ocasião de circunstâncias favoráveis e relembrar quando da retomada de novas tentativas deste gênero”.
Ninguém poderá conseguir que os dez dias que abalaram o mundo sejam apagados.
* Este artigo foi publicado originalmente em francês na revista Imprecor n. 418, em novembro de 1997, por ocasião do 80° aniversário da Revolução Russa. A tradução. de Maria Regina Pilla e Luis Pilla Vares para os Cadernos Em Tempo nº 298 (novembro 1997), é recuperada aqui para o dossiê temático em homenagem ao centenário da Revolução Russa, no Blog da Boitempo.
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A Boitempo lança em setembro, durante o no Seminário Internacional “1917: o ano que abalou o mundo”, o explosivo Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, livro de ensaios de Daniel Bensaïd e Michael Löwy organizado por José Correia Leite. Saiba mais sobre o evento, e leia outros textos sobre a história e o legado da Revolução Russa no dossiê temático do Blog da Boitempo:

O dossiê especial “1917: o ano que abalou o mundo“, reúne reflexões de alguns dos principais pensadores críticos contemporâneos nacionais e internacionais sobre a história e o legado da Revolução Russa. Aqui você encontra artigos, ensaios, reflexões, resenhas e vídeos de nomes como Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Löwy, Christian Laval, Pierre Dardot, Domenico Losurdo, Mauro Iasi, Luis Felipe Miguel, Juliana Borges, Wendy Goldmann, Rosane Borges, José Paulo Netto, Flávio Aguiar, Mouzar Benedito, Ruy Braga, Edson Teles, Lincoln Secco, Luiz Bernardo Pericás, Gilberto Maringoni, Alysson Mascaro, Todd Chretien, Kevin Murphy, Yurii Colombo, Álvaro Bianchi, Daniela Mussi, Eric Blanc, Lars T. Lih, Megan Trudell, Brendan McGeever, entre outros. Além de indicações de livros e eventos ligados ao centenário.
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Daniel Bensaïd nasceu em Toulouse, na França, em 1946. Foi filósofo e dirigente da Liga Comunista Revolucionária, e um dos militantes mais destacados dos movimentos de Maio de 1968. Professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII, faleceu no dia 12 de janeiro de 2010, aos 64 anos. Pela Boitempo, lançou Os irredutíveis: teoremas de resistênica para o tempo presente (2008), Marx, manual de instruções (2013), seu último livro escrito em vida, e, junto com Michael Löwy, o mais recente Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, organizado por José Correia Leite.

Boitempo blog

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Grande texto do escritor China Miéville sobre capitalismo e utopias ecológicas

Por China Miéville.

No centenário da Revolução Russa, o premiado escritor de ficção científica e fantasia China Miéville ousou narrar a extraordinária história de um dos momentos decisivos do século XX. O resultado é o livro Outubro: história da Revolução Russa. O autor britânico, expoente daquilo que foi batizado de new weird fiction, nos apresenta aqui um livro cujos personagens e trama não deixam nada a desejar para nenhuma ficção bizarra. Mas não se engane, por mais inacreditável que possa parecer, todos os elementos contidos no livro são rigorosamente factuais. Apesar de apelar ao leitor não especializado, o livro intervém com rara erudição em debates historiográficos de longa data. Nem por isso, o autor cai na armadilha da suposta “neutralidade descritiva”. Doutor pela London School of Economics, com uma tese sobre marxismo e direito internacional e militante do Left Unity, China Miéville nunca escondeu seu engajamento político. Como ele insiste, trata-se de história e, como tal, objetiva e partidária, “escolhendo seus heróis e vilões”. Por ocasião do lançamento desta apaixonante narrativa de inimaginável transformação, publicamos agora o instigante artigo “Os limites da utopia”, traduzido por Pedro Salgado para o Blog da Boitempo.
Boa leitura!

* * *

Distopias infestam os relatórios oficiais.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) demanda uma redução nas emissões em um terço para que se evite o desastre absoluto. A KPMG, na ladainha blindada de powerpointês corporativo, vê o mesmo horizonte. A NASA participa de um relatório alertando que o colapso civilizatório sistêmico “dificilmente será evitado”.
Podemos discutir as versões da mensagem, mas não seu conteúdo: o fim de todas as coisas está aí, à vista de todos.
O fedor e a cacofonia de cidades envenenadas, lúgubres bunkers subterrâneos, paisagens cinzentas… A degradação é a má consciência da melhora, a rejeição da distopia é parte integral da tradição utópica. Nós ansiamos e alertamos, nossos melhores e piores sonhos lado a lado contra o presente.
Se vacilarmos, teremos uma Terra ressecada, fria, quente, e morta. Se acertarmos? Existem pré-sonhos equivalentes a vidas inteiras de Novos Édens, de le Guin, Piercey, e vários outros, remontando à visão que Lactâncio, quase dois milênios atrás em Instituições Divinas, chamou de “Mundo Renovado”:
“a terra se abrirá em riquezas, oferecendo livremente os mais abundantes frutos; mel verterá das montanhas rochosas; córregos de vinho fluirão, assim como rios de leite; em suma, o mundo em si e toda a natureza regozijar-se-ão, vendo-se resgatados e libertos do domínio do mal e da impiedade, da culpa e do erro.”
Para Lactâncio, assim como para todas as utopias, não se trata apenas do mundo, mas da humanidade. O mundo regozijar-se-á porque finalmente seremos capazes de habitá-lo, livres do mal e da impiedade e da culpa e do erro com os quais o arrasamos. A relação entre a humanidade e o que agora chamamos “meio-ambiente” será curada.
Mas uma tradição tão rica não preveniu que incontáveis ambientalismos falhassem, não apenas em suas tentativas de mudar o mundo, mas de mudar a agenda de mudança do mundo.
Nós que queremos outra Terra, uma Terra melhor, nos orgulhamos (o que é compreensível) por manter alternativas vivas nesta época que pune o mero pensamento de mudança. Nós precisamos de utopias. Isso é dado por certo no ativismo. Se uma alternativa a este mundo é inconcebível, como poderíamos mudá-lo?
Mas a utopia tem seus limites, a utopia pode ser tóxica.
O desespero custa caro, é certo. Mas também devemos nos perguntar quanto pagamos pela esperança.
Em 1985 o governo municipal de Los Angeles anunciou a construção de um incinerador na região centro-sul da cidade, um ano depois de a autoridade de administração de lixo da Califórnia ter pago meio milhão de dólares em dinheiro público à firma de consultoria Cerrell Associates para decidir onde construir uma instalação tão controversa. O Relatório Cerrell é um manual, um guia listando as características do “perfil de menor resistência”. Mire nos menos educados, ele aconselha. Nos idosos. “Comunidades de um estrato socioeconômico médio e superior”, ele recomenda, “não devem estar dentro dos raios de uma milha e cinco milhas do local sugerido”.
Mire nos pobres.
Não surpreende que essa seja a estratégia. O que espanta é que eles a adimitam. A vontade é de responder: “Vocês sabem que a gente consgue ouvir, né?”
No caso a comunidade local resistiu, e com sucesso. Mas os chamados “Big Green” – os maiores grupos de ativismo ecológico, como Sierra Club, Friends of the Earth, Natural Resources Defense Council, Wilderness Society, e outros – recusaram o convite para se juntar à campanha. Segundo eles, não se tratava de uma questão ambiental, mas de “saúde comunitária”.
As falácias do Big Green. Partindo de heurísticas como rural e urbano, natural e social, fica fácil se tornar cúmplice (ou pior) de injustiça ambiental, de racismo, quando deparado com o poder opressor. Esse utopianismo urbofóbico simplista pode agregar desde os mais nostálgicos conservadores buscando refúgio em uma área de conservação até os mais extrópicos pós-hippies de alguma eco-start-up.
Para Lactâncio, caberia a Deus restaurar a natureza ferida. Mas esta é uma era mais secular, mais ou menos. Nem todo mundo deixa de lado o messianismo: alguns o incorporam em uma nova, e novamente vazia, totalidade.
Em 1968, Stewart Brand abriu o primeiro “Whole Earth Catalog” com uma imagem do Planeta Azul, a Espaçonave Terra, um bote salva-vidas que todos nós dividimos. Ao lado da imagem, o texto: “Nós somos como Deuses, e é melhor ficarmos bons nisso”.
Aqui, diz a imagem, há uma bela totalidade: Gaia. Aqui, dizem as palavras, está o sujeito ecológico: “nós”. Que obviamente deixa sem resposta a famosa pergunta de Tonto a Zorro: “Nós quem, cara-pálida?”
Diante da escala do que se aproxima, há um moralismo vulgar e perverso, um conjunto de boas maneiras ecológicas que é auto-limitador. “Qualquer coisa”, diz o argumento, “é melhor do que nada”. Daí as soluções que buscam atrair as empresas, em busca de uma racionalidade econômica que leve em conta fatores ecológicos. O capitalismo, de acordo com o eminente ambientalista britânico Jonathan Porritt, é o único jogo a ser jogado.
E as empresas se adaptam, de acordo com suas prioridades. Apesar de manterem seus detratores do aquecimento global de estimação, as empresas de petróleo tem Divisões de Mudança Climática – menos para evitar as mudanças do que para planejar como continuar lucrando através delas. Companhias crescem em direção a territórios recentemente monetizados. Daí o breve boom dos biocombustíveis, e a suposta solução para os problemas do planeta levando à aceleração do desmatamento e a protestos por comida, antes que a indústria e o mercado entrem em declínio. A mão invisível supostamente limpa sua própria sujeira com o Comércio Internacional de Emissões de Carbono. Oportunidades e incentivos para acordos escusos e estimativas inflacionadas aumentam incessantemente, assim como as emissões. O mercado de carbono da UE continua inútil. Novos instrumentos financeiros se proliferam: derivativos climáticos que fazem o caos lucrativo. Os chamados “créditos da catástrofe” mudam de mãos em vastas quantias, porque a vergonha está entre as perdas aceitáveis no capitalismo.
Cidadãos se inquietam com seu próprio lixo – que todos deveríamos minimisar, sem dúvidas. Mas no Reino Unido apenas dez por cento do lixo tem origem domiciliar. Lembre-se que a idéia de remoção adequada do lixo é uma invenção da indústria de embalagens norte-americana, em 1953, em resposta a uma proibição local a garrafas descartáveis. O manto de culpa atomisada e privatizada sob o qual somos encorajados a trabalhar é ardil deliberado.
Numa escala maior, as mais conciliatórias organizações ambientalistas ofuscam o nexo entre degradação ecológica, capitalismo e imperialismo, do qual são parte. Em 2013 a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos deu seu “Prêmio de Liderança Climática Nacional”, por “enfrentar o desafio da mudança climática com pragmatismo, sensatez, e soluções de baixo custo”, para a Raytheon.
Ainda não foi definido se os drones da Raytheon serão gravados com o símbolo do prêmio, para que seu compromisso com a sustentabilidade esteja visível enquanto eles fazem chover morte sobre vilas afegãs.
A serviço do lucro, até o plantio de árvores para reduzir emissões pode se tornar violência. Muito pior do que um mero fracasso, o plano de redução de emissões através de reflorestamento da ONU – conhecido pela sigla REDD, em inglês – legitima a monocultura e a acumulação de terras, em nome do planeta, para que as corporações continuem a poluir. Em Uganda, 22.000 agricultores foram despejados em nome da “New Forests Company”, com o apoio da ONU. E caso precisemos de uma metáfora menos sutil, o projeto de ação climática em Guaraqueçaba, no Brasil, financiado por Chevron, General Motors, e American Electric Power, remove o povo Guarani de sua própria floresta empregando uma guarda armada chamada de “Força Verde”.
Ambientalismo por desapropriação, ou, nos termos da Rede Ambiental Indígena, colonialismo de carbono.
E as ações da indústria pesada sobem. O relatório do IPCC deixa os mercados financeiros intocados: o valor que tais mercados atribuem às reservas de petróleo, carvão, e gás natural ignoram as metas internacionais de acordo com as quais tais reservas não apenas ainda estão no solo, mas lá devem permanecer. A bolha do carbono proclama que a escolha é entre uma catástrofe climática, ou mais uma catástrofe financeira.
Ou, claro, as duas.
Esqueça qualquer totalidade humana espúria: há uma outra realidade moderna muito real e perigosa em posição de liderança, com a qual muitos ambientalismos falharam em lidar. Nas palavras de Jason Moore, “Wall Street é uma maneira de organizar a Natureza”.
O próprio termo “Antropoceno”, que acena com a ideia de seres humanos como os responsáveis pela mudança ecológica, engana com seu “nós” implícito. Afinal, seja no desmatamento do que é hoje o Reino Unido, na extinção da megafauna na América do Norte, ou em inúmeros outros exemplos, o Homo sapiens, anthropos, sempre influenciou seu -ceno, a ecologia da qual é elemento constituinte, mudando o mundo. A mudança que fez desses efeitos relativamente locais eventos planetários, definindo uma época digna de um novo termo geocronológico, também não foi o nascimento (por milagre, em várias versões) da indústria pesada, mas uma mudança na economia política de como nos organizamos, com um ciclo acelerado de lucro e acumulação.
Que é justamente a razão de Moore insistir que esta época de catástrofe potencial não é o “Antropoceno”, mas o “Capitalceno”
Utopias são necessárias. Mas são insuficientes, e podem, em algumas formas, ser parte da ideologia do sistema, a totalidade ruim que nos organiza, aquece os céus, e condena milhões à peonagem em depósitos de lixo.
A utopia da “união” é uma mentira. Justiça ambiental significa reconhecer que não somos todos simplesmente passageiros do mesmo planeta. Não há um “nós” sem que haja um “eles”. Não estamos todos juntos.
O que significa combater o fato de que as multas por derramamentos tóxicos em áreas de população branca são cinco vezes superiores às em áreas habitadas por minorias. Significa não apenas fornecer meios de vida para as pessoas que sobrevivem revirando dejetos tóxicos, mas também se revoltar contra o imperialismo do lixo que os coloca ali, contra o neoliberalismo que cria uma competição entre países pobres pelo lixo dos ricos.
Significa se opor diretamente ao poder militar e à violência. Os assassinatos de ativistas ambientais e pelo direito à terra triplicou entre 2002 e 2012. Justiça ambiental significa acusar a Shell não apenas por transformar a região da Ogonilândia, na Nigéria, em uma fossa alucinógena, paisagem de um Ragnarok petroquímico, mas também por armar o estado nigeriano por décadas, durante e após o regime de Sani Abacha.
Comércio de armas, ditaduras e assassinato são políticas ambientais.
Os que atacam de cima contam não com a aquiescência, mas com a fraqueza dos que se opõem. O relatório Cerrell é claro: “todos os grupos socioeconômicos tendem a recusar a proximidade de grandes instalações, mas os estratos médios e superiores tem melhores recursos para efetivar sua oposição”.
Ou seja, os pobres são o alvo não porque não lutam, mas porque, sendo pobres, não tem meios para vencer. A luta por justiça ambiental é a luta contra isso.
Então, começemos com a não-totalidade do “nós”. Daí podemos não apenas enxergar a tarefa à frente, mas podemos voltar a nossas utopias e honrar o que há de melhor nelas.
Aqueles rios de leite e vinho podem parar de ser excedente. Não há nada de tolo em tais aspirações: são o brilho dos olhos voltados à liberdade humana, para além da necessidade. Longe de ser meramente oníricos, esses são aspectos de uma utopia que inclui elementos de economia política, uma aspiração dos que lutam sem poder. Na utopia medieval camponesa, Cockaigne, chove queijo. Charles Fourier imaginou os mares feitos de limonada. A Grande Montanha de Doces. Estes são sonhos de sustança além do limite dos sonhadores, da redução do trabalho, de um mundo onde a humanidade exaurida descansa.
Podemos dispensar as criticas mais banais da utopia. De que não é convincente como um projeto, como se isso fosse o que se espera dela. Que é monótona, cansativa, insossa e incolor, sempre a mesma. O desdem de que aspiração visionária por coisas melhores sempre as torna piores. Tais mentiras prestam um serviço à estagnação.
Há críticas melhores a se fazer, em prol das próprias utopias e das intervenções cotidias sem as quais elas correm o risco de se tornar válvulas para aliviar a pressão – e isso já em si uma de tais críticas.
Utopia, para começo de conversa, nunca foi território exclusivo dos que clamam por emancipação. Colonizadores e expropriadores clamaram seu excelente senso ambiental contra a impotência de nativos preguiçosos por séculos, finalmente realizando o potencial de terras espuriamente declaradas vazias, trazendo “crescimento” a esses “desertos”. Ecotopias já serviram de justificativa para colonização e império muito antes dos programas REDD das Nações Unidas. Já justificaram muitos assassinatos.
Há essa visão de que o mundo é um jardim ameaçado. Sufocado com o crescimento tóxico. Jardinagem de guerra. E a tarefa é a “eliminação implacável das ervas que disputam com as plantas maiores por nutrientes, ar, luz, e sol.”
Aqui, as melhores plantas são Arianas. As ervas são Judeus.
O SS-Obergrupenfuhrer e Reichminister de Agricltura do Terceiro Reich, Walther Darré, reuniu geologia, nostalgia, crenças pagãs, imperialismos, misticismo agrário e ódio racial em uma visão de renovação verde e administração planetária baseadas em genocídio. Ele era o mais influente teórico de Blut und Boden, “sangue e solo”, uma Ecotopia nazista de fazendas orgânicas e recuperação de florestas nórdicas, protegidas pelos camponeses-soldados de puro sangue.
A árvore pode não ter crescido como Darré esperava, mas suas raízes não morreram. Uma ampla variedade de grupos fascistas ao redor do mundo ainda proclama fidelidade à renovação ecológica, a um mundo verde, e se mobilizam ostensivamente contra mudanças climáticas, poluição e deflorestamento, se opondo a estes três venenos em nome de um outro: a lógica da supremacia racial.
Claro, apologistas reacionários de empresas poluidoras chamam ativistas ecológicos de fascistas rotineiramente. Isso não significa que tais ativistas não precisam se manter constantemente atentos para buscar e combater aqueles que realmente o são, exatamente o contrário.
Aspectos de má utopia eliminacionista podem ser encontrados muito além da extrema direita assumida. Muito do pensamento ecológico vem de mãos dadas com uma utopia sentimentalista e espiritualista nebulosa, que a ecofeminista Chaia Heller chama de “Eco-la-la”. Misturada com um Malthusianismo cru, formam uma variante cobativa chama de de “Ecologia Profunda”. O erro dessa visão pode ser transformar em brutalidade, uma vez que o problema aparece como excesso populacional, a própria humanidade. Sua versão mais excêntrica é o Movimento pela Extinção Humana Voluntária, defendendo o fim da reprodução. A mais cruel está nos pronunciamentos de David Foreman, do Earth First!, sobre a fome na Etiópia em 1984: “A pior coisa a se fazer na Etiópia é prestar ajuda – a melhor seria apenas deixar que a natureza busque seu próprio equilíbrio, deixar as pessoas morrerem de fome.”
Essa é uma utopia ecológica genocida. Também atende pelo nome “apocalipse”.
Apocalipse e utopia: o fim de todas as coisas, e o horizonte da esperança. Longe de opostos, os dois sempre foram inseparáveis.
Às vezes, como em Lacântio, a relação imaginada é cronológica, ou até mesmo de causa e efeito. O primeiro, o apocalipse, o fim dos tempos, abre o caminho para o outro, o que há do outro lado, o recomeço.
Algo aconteceu: agora eles estão mais inseparáveis do que nunca. “Hoje”, anuncia o sinistro filósofo Emil Cioran, “reconciliados com o terrível, assistimos uma contaminação da utopia pelo apocalipse (…). Os dois gêneros (…) que antes nos pareciam tão diferentes, se interpenetram, se misturam, formando um terceiro”. Tal reconciliação com o terrível, tal interpenetração, é vívida em tais devaneios da Ecologia Profunda por um mundo sem humanidade. O flagelo se tornou o sonho.
Não se trata exatamente de uma distopia, mas de uma terceira forma – apocatopia, utopalipse – e está entre nós. Estamos cercados por uma cultura de ruínas, sonhos de cidades em queda, um mundo despovoado explorado por animais. Conhecemos os clichés. Plantas tomam Wall Street como se pertencesse a elas, ao invés do contrário; a vastidão do lixo, dunas de restos; as sobras de alguma ponte vagamente reconhecível mas agora quebrada, um portentoso trampolim para o vazio; etcetera.
É como se ainda não enxergássemos nada melhor além dos destroços, porque nos falta força. Ou como se houvesse um esforço para voltar ao “nós”, mas negativamente – “nós” somos justamente o problema, e a ausência de “nós” se torna a solução. A melancolia é dissimulada. Há entusiasmo, um investimento desmentido em tais supostos avisos, nestas catástrofes. Os profetas do apocalipse não enganam ninguém. Muito tempo antes de Shelley imaginar o dia em que “a Abadia de Westminster resistirá, deformada em ruínas sem nome, em meio ao pântano despovoado”, estas já eram cenas de beleza.
Todos já passamos boquiabertos por páginas com imagens de Chernobyl, da ilha deserta de Gunkanjima no Japão, ou das ruínas de Detroit, em páginas clickbait de “Os Dez Lugares Abandonados mais Incríveis”. Isso não deveria gerar culpa. Nosso horror com as tragédias e crimes por trás de tais cenas é real: ele coexiste com nosso fascínio sem apagá-lo. Não escolhemos o que nos espanta. As imagens que nos fascinam não nos reduzem a uma política em particular. Mas certamente a beleza amoral de nossas apocatopias podem acabar em algo brutal e maléfico, um desgosto eliminacionista.
Não podemos ler tudo isso como mero diagnóstico. O que mais podemos fazer com o dilúvio de filmes sobre dilúvios? Com o empilhamento, como escombros sob as asas do anjo da história de Benjamin, de textos sobre pilhas de escombros.
Os sintomas mudam com o mundo. Uma andorinha, independente de seu orçamento, não faz verão. Mas não é necessário ter intimidade com a semiótica para perceber uma mudança cultural quando, no recente Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro, Idris Elba grita “Hoje nós cancelamos o apocalipse!”. Talvez já estejamos fartos do fim, e com essa fala damos início a algo diferente: um apocalise que falha. Estamos de volta, de esperança renovada.
Uma mudança parecida acontece com o surgimento da geoengenharia, ideias que já foram ficção e excentricidade. Agora, planos de borrifar ácido na estratosfera em escala planetária para criar uma camada de partículas capazes de espelhar radiação, remover CO2 da atmosfera, trazer água bêntica à superfície para resfriar oceanos, são propostos por cientistas premiados com Nobel, e discutidos no New Yorker e no MIT Technology Review. Uma nova esperança, o retorno da agência humana, mangas arregaçadas resolvendo o problema. Com ciência.
Essa gambiarra planetária, contudo, é altamente especulativa, controversa, e, de acordo com pesquisa recente do Centro Helmholtz, na Alemanha, totalmente inadequada para interromper o caos climático até na mais generosa das projeções. É absurdo que tais planos pareçam mais racionais do que a adoção das medidas sociais para cortar emissões que são inteiramente possíveis de imediato, mas que requerem uma transformação de nosso sistema político.
É um clichê da esquerda dizer que hoje em dia é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo: Andreas Malm lembra que com a mania de geoengenharia é mais fácil imaginar a transformação deliberada do planeta inteiro do que da economia política. O que inicialmente parece um novo Prometeu é na verdade capitulação, a rendição absoluta ao status quo. Utopia se torna a exoneração do poder estabelecido, cujas linhas vermelhas não devem ser cruzadas. Qual o preço da esperança?
Setenta por cento do staff da fábrica da Union Carbide em Bhopal, Índia, tiveram pagamento retido por ser recusarem a violar as práticas de segurança. Sem pessoal suficiente, inspeções eram feitas a intervalos insuficientes. Nenhum dos seis sistemas de segurança funcionava devidamente (caso funcionassem). O sindicato protestou, e foi ignorado.
No dia 3 de dezembro de 1984, vinte e sete toneladas de isocianato de metila foi despejado da usina. Entre 8 e 10 mil pessoas morreram naquela noite; mais 25 mil morreram desde então. Meio milhão de feridos, dos quais 70 mil permanentemente desfigurados. A taxa de nascimentos com alguma deformação na área é imensamente alta. A água no solo ainda tem níveis de toxinas muito além do considerado seguro.
Inicialmente, o governo Indiano exigiu US$3.3 bilhões em compensação, que a Union Carbide resistiu nos tribunais com um gasto de US$50 milhões. Por fim, em 1989, a companhia aceitou um acordo para pagar uma indenização de US$470 milhões, apenas 15 por cento do valor inicial. Os sobreviventes receberam, como compensação vitalícia, entre US$300 e 500 por pessoa. De acordo com Kathy Hunt, relações públicas da Dow-Carbide em 2002, “US$500 é bom o bastante para um Indiano”.
Por que retomar essa história terrível? Não apenas porque, como se sabe, Warren Anderson, ex-CEO da Carbide, jamais foi extraditado para a Índia, apesar de um mandado de prisão ter sido expedido em seu nome. Nem porque a Carbide, ou a Dow, que a comprou em 2001, negam qualquer responsabilidade e se recusam a recuperar a área ou a responder a intimações de tribunais indianos. Há outra razão.
Em 1989, o Wall Street Journal anunciou que executivos estadounidenses estavam extremamente ansiosos com esse primeiro grande teste da responsabilidade de uma corporação sobre um acidente no Terceiro Mundo. Por fim, em outubro de 1991, veio o momento chave para a discussão: a suprema corte indiana manteve o acordo da Carbide, e rejeitou todos os outros pedidos contra a empresa, conferindo assim proteção legal à companhia. E os preços de suas ações imediatamente dispararam. Porque Wall Street sabia que suas prioridades prevaleceram. Foi o momento de alívio.
Uma interpenetração de apocalipse e utopia no mundo real. Apocalipse para aqueles milhares que se afogaram em seus próprios pulmões. E para as corporações, agora asseguradas que os pobres, diferente dos lucros, são descartáveis? A utopia cotidiana.
Essa é outra das limitações da utopia: nós já estamos em uma, mas não na nossa.
Então, vivemos no apocalipse.
Terra: a confirmar. Utopia? Apocalipse? É pior ter esperança ou desespero? Só cabe uma resposta: sim. É pior ter esperança ou desespero.
Esperança ruim e desespero ruim são co-constitutivos. O capitalismo te encontra na ida, ou na volta. “Nós” podemos resolver o problema que “nós” criamos. E quando “nós”, os geoengenheiros, falharmos, “nós” podemos sobreviver e lidar com o peso na “nossa” consciência acumulando comida enlatada.
Há um otimismo melhor? Há uma maneira certa de perder a esperança? Depende de quem tem esperança, e em que, em quem – e contra quem. Nossa esperança precisa ladrar e morder.
Não seremos derrotados pelas demandas de burocratizar nossas próprias propostas. Na verdade, nao faltam modelos a ser considerados, mas crítica radical do cotidiano existe, mesmo que falte alternativa. Podemos ir além: se levarmos a utopia a sério, como uma reformulação total, concluímos que não podemos pensá-la do lado de cá. É o processo de fazê-la que nos permitirá pensá-la. É a fidelidade à utopia que fundamenta nossa recusa em explicá-la ou planejá-la.
Deveríamos ser utópicos com todas as nossas forças. Junto com uma humanidade plena, deveríamos imaginar também ilhas voadoras, bairros de coral auto-construídos, carros fotossintetizantes criados a partir de amostras de medula óssea. Grandes Montanhas de Doces. Porque assim nunca confundiremos tais sonhos com planos, nem com absurdos.
Utopias são novos Rorschachs. Colocamos nossas preocupações e nossas ideias para fora, e, ao sonhar, dobramos o papel para, abrindo-o, revelar novas formas. Podemos fazê-lo com algum grau de intencionalidade, mas o que realmente criamos está muito além de nossa capacidade de planejar. Nossas utopias devem ser aproveitadas e admiradas, elas são feitas de nossas preocupações e revelam muito sobre nosso presente, sobre nossos egos pré-utópicos. Elas devem ser interpretadas. Assim como as utopias de nossos inimigos.
Entender aquilo ao qual nos opomos requer respeito. A terra não está sendo destruída porque os desturidores são estúpidos, irracionais, por erro, ou por dados insuficientes. Precisamos dar continuidade a nossa luta com toda a urgência, e ganhar discussões, mas não devemos nos enganar: qualquer que seja a auto-ilusão, culpa, ou eventual lástima de um CEO, em um mundo de maximização de lucros é perfeitamente racional que as instituições de nosso status quo façam o que fazem. Indivíduos e eventualmente algumas organizações podem resistir em casos específicos, mas só ao recusar a lógica do sistema. O que, logicamente, o próprio sistema não pode fazer.
A luta por justiça ecológica é também uma luta contra tal sistema, porque há imensos lucros na injustiça. A batalha não será sempre sobre mudança climática catastrófica ou expropriação de terra: no neoliberalismo, até disputas locais sobre momentos fugazes de verde são lutas contra o poder. Os protestos que abalaram a Turquia em 2013 começaram os planos do governo para construir sobre o Parque Gezi, um dos últimos espaços verdes em Istambul.
Ao invés de vociferar união, nós lutamos melhor se aceitarmos que ela não existe. Se aceitarmos que existem lados. Nos aproximamos de um momento crítico. Ao invés de esperar por união, nossa melhor esperança está no conflito. Nosso objetivo, um aspecto da nossa utopia, deveria ser essa estratégia de tensão.
Há um pessimismo ruim assim como há um otimismo ruim. Contra a rendição grosseira de, digamos, um James Lovelock, há pelo menos razões científicas plausíveis para sugerir que não estamos ainda em um ponto onde não há mais volta. Em todo caso, até um mundo sem conserto é digno de luta. Precisamos de um novo tipo de beco sem saída, uma mudança social irrevogável, que requer um novo tipo de pessimismo, um olhar fixo e determinado ao quão ruim a situação está.
O pessimismo tem uma reputação ruim entre ativistas, que morrem de medo de se render. Mas ativismo sem o pessimismo que resulta do rigor é apenas sentimentalismo.
Há esperança. Mas para que seja real, e farpada, e forjada em arma, não podemos nos recostar nela. Precisamos testá-la, sujeitá-la às tensões do quase desespero que é apropriado. Precisamos de utopia, mas tentar pensar em utopia neste mundo, sem raiva, sem fúria, é um luxo que não podemos ter. Diante de tudo que é feito, não podemos pensar em utopia sem ódio.
Até nossos fins-do-mundo são muito aristocráticos. Ponhamos logo um fim ao apocalipse-em-um-só-país. Ao contrário, brindemos à utopia antinômica! Uma esperança que renuncie à esperança dos que estão no poder.
Os críticos supostamente sensatos são os mais profundamente irrealistas. Como diz Joel Kovel, “nós temos a acumulação de capital, e podemos ter a integridade ecológica, mas não podemos ter os dois juntos”. Acreditar no contrário seria excêntrico, se não fosse tão perigoso.
Em 2003, William Stavropoulos, CEO da Dow – que, lembre-se, não tem nenhuma responsabilidade sobre os mutilados químicos de Bhopal – disse em uma nota à imprensa que “responsabilidade ambiental é bom para os negócios”.
E isso, no sentido pejorativo, é a utopia mais absurda de todas.

in blog da Boitempo

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O silenciado extermínio de Raqqa, o My Lai sírio

Nazanín Amirian    30.Oct.17    Outros autores
A intervenção imperialista na Síria acumula crimes de guerra. Ao mesmo tempo que fica cada vez mais evidente que não se trata de qualquer «combate ao terrorismo» mas sim de consolidar a utilização desse instrumento, que o próprio imperialismo criou, alimenta e protege. Prossegue a destruição do Estado sírio e a ocupação de parcelas do seu território.
O mundo estremeceu em Novembro de 1969 quando o jornalista Seymour Hersh revelou o massacre de My Lai (Vietnam): todos os seres vivos da aldeia tinham sido aniquilados depois de sofrerem vários dias de tortura e terror.
E agora ocultam ao mundo a dimensão da tragedia que causaram à gente de Raqqa, muito maior que My Lai: 25.000 pessoas foram atacadas com espadas, espingardas, bombas e misseis por dois grupos terroristas (Daesh e as Forças Democráticas Sírias (FDS)), dirigidas pelos EUA e seus aliados. Raqqa não foi libertada, apenas passou das mãos de um grupo terrorista para outro.
Entretanto a imprensa ocidental, que acusava de “crimes de guerra” a Rússia pela sua intervenção militar em Alepo, ficou muda ante aquilo a que a Amnistia Internacional chamou “um labirinto mortal” e a ONU aponta a responsabilidade da coligação liderada por Washington por “uma assombrosa perda de vidas” de milhares de bebés, velhos, mulheres e homens cujos cadáveres putrefactos cobrem as ruas da cidade nortenha da Síria.
Na semana passada, durante a suposta libertação da cidade assediada de Raqqa - ocupada pelos jihadistas em 2014 -, o Pentágono (que não tem nenhum mandato legal para levar a cabo ataques aéreos na Síria), utilizou duas armas especialmente terroríficas. Por um lado, o fósforo branco, cujo uso é ilegal, que abrasa o corpo até ao osso e que quando se respira queima os pulmões. Por outro, os foguetes MGM-140B, que disparam cerca de 274 granadas antipessoais, capazes de exterminar qualquer ser vivo num raio de 15 metros. ¡É assim que Trump faz a “América Maior”!
EUA, Israel e Arabia Saudita acolheram com grande satisfação a expansão do Daesh na Síria, por debilitar o governo baas de Assad em Damasco, uma vez que lhes oferece o que chamam algumas oportunidades estratégicas, sobretudo contra o Irão.
O secretário da Defesa estado-unidense James Mattis, apodado “cão raivoso”, anunciou já que o Pentágono estava a adoptar “tácticas de extermínio” na sua campanha na Síria: “As baixas civis são uma realidade neste tipo de situações”, disse. Milhares de civis sírios não são mais que “danos colaterais” dos seus infames interesses, tal como foram na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Iémen, Sudão e Somália.
Durante os ataques, que duraram meses, os franco atiradores de ambos bandos mataram inclusivamente as personas que se rendiam ou as que tentavam fugir pelo Eufrates, afundando-os com os seus barcos no rio. Mattis é o mesmo general que organizou o cerco à cidade iraquiana de Fallujah, em 2004, matando milhares de civis com balas, bombas, fome e sede.
Enquanto a coligação dirigida pelos EUA rodeava Raqqa a partir do norte, este e oeste, deixou que os jihadistas do Daesh se escapassem pelo sueste para se refugiarem na província de Deir ez-Zour, e daí continuar lutando contra o Exército sírio. Washington volta a fazer de bombeiro pirómano: deixa que o Daesh ocupe territórios sírios, para depois se apresentar como força libertadora, apropria-se dos territórios que são o seu despojo de guerra, utilizando os curdos e os árabes como tropas terrestres suas. Em 2016, John Kerry comentou que com o avanço do Daesh, Assad se verá obrigado a negociar, conseguindo assim os objectivos político-militares que a NATO não pode alcançar, na sua Guerra-negocio sem fim.
¿Por quê Raqqa?
Os EUA apodera-se de outra cidade da Síria, país onde por primeira vez na sua história conseguiu bases militares, graças ao colaboracionismo curdo, que mesmo assim afirmam ser de esquerda.
Entre os motivos do Pentágono para ocupar esta cidade estão:
1. Adiantar-se ao Exército sírio e aos seus aliados russo-iranianos para recuperar esta estratégica urbe.
2. Anexar Raqqa aos seus territórios ocupados na Síria, e ali estabelecer uma presença militar permanente; começou já a instalar uma nova base militar em Tabqa. Por isso, os países da NATO apressaram-se a anunciar que apesar da derrota do Daesh não abandonarão a Síria.
3. Raqqa será a capital de facto das chamadas forças moderadas sírias, convertida em contrapeso do governo de Assad em Damasco. Situação que também criaram em países atacados como Líbia e Iraque, impondo dois governos paralelos.
4. Este ataque, que coincide com a invasão de Idlib pela Turquia com dezenas de tanques, garante a desintegração real da Síria.
Entre os objectivos de Trump em Iraque e Síria não está lutar contra o terrorismo, mas sim consolidar a hegemonia dos EUA sobre uma região com vastas reservas de petróleo no Próximo Oriente e neutralizar dois principais obstáculos: Irão e Rússia, enquanto o objectivo final é conter o avanço do seu verdadeiro rival, a China.
A manipulação da informação sobre o que está a suceder no Próximo Oriente está a impedir a formação de uma oposição organizada nos países atacantes e de um movimento contra as crescentes guerras a nível mundial.
http://blogs.publico.es/puntoyseguido/4329/el-silenciado-exterminio-de-raqqa-el-my-lai-sirio/

domingo, 29 de outubro de 2017

OPINIÃO

Parafraseando L. Trotsky

Não é notável que aqueles que falam com mais indignação sobre as vítimas da revolução social (nomeadamente, hoje, da Revolução Socialista de Outubro na Rússia de 1917) são geralmente os mesmos que, se não directamente responsáveis  pelas vítimas das guerras imperialistas do século XXI, as prepararam e glorificaram, ou ao menos as aceitaram?

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O que não aprendemos com a Revolução Russa

Parece-me, por vezes, que alguns celebram a Revolução Russa para melhor esquecê-la.

Por Mauro Luis Iasi.

“[Em alguns] processos, acontece com extraordinária frequência
ser ‘recordado’ algo que nunca poderia ter sido ‘esquecido’,
porque nunca foi, em ocasião alguma, notado […]”
S. Freud,  “Recordar, repetir e elaborar”, 1914)
O centenário da Revolução Russa foi marcado, aqui e no mundo, por inúmeras celebrações, debates, publicações e outras iniciativas, o que demonstra o incrível impacto que este acontecimento teve e ainda tem sobre todos nós. Tudo isso é muito importante e configura um dado extremamente positivo nesta conjuntura de defensiva da esquerda.

Nossa reflexão aqui vai em uma direção um pouco distinta da necessária celebração. Já na abertura de sua magistral obra O Estado e a revolução Lênin nos lembra que Marx, assim como outros revolucionários, foram perseguidos em vida, que suas obras foram alvo do ódio mais feroz, da difamação e da mentira. No entanto, “depois da morte deles, tentam transformá-los em ícones inofensivos, canonizá-los, por assim dizer”, tudo isso para consolo e enganação dos oprimidos, ao mesmo tempo “castrando o conteúdo da doutrina revolucionária, embotando seu gume revolucionário, vulgarizando-a.” (Lênin, O Estado e a revolução, p. 27).
Creio que algo semelhante ocorre quando falamos da Revolução Russa. Ao mesmo tempo em que se ressalta seus líderes e ícones, seus símbolos e sua grandiosidade, tenta-se cerca-la de uma rígida fronteira que a circunscreveria em sua época, incapaz de qualquer universalidade que não seja abstrata. Transforma-se este episódio épico em ícone, castrando sua substância revolucionária, aviltando-o.
Sabemos que este como qualquer outro acontecimento histórico é constituído de particularidades que o identificam e caracterizam. Mas estamos convencidos de que há ensinamentos universais que nem sempre são destacados como deveriam, exatamente porque são incômodos e provocativos no interior do caminho que a esquerda brasileira escolheu trilhar. O desafio está em determinar o que há de particular e o que há de universal nessa experiência histórica.
Acreditamos que podemos indicar, resumidamente, cinco aspectos que são próprios da experiência soviética e que dificilmente se apresentariam em novos contextos históricos, são eles: a) o tsarismo e a luta pelas nacionalidades; b) uma particular estrutura agrária e a forma da luta camponesa; c) um desenvolvimento urbano e industrial peculiar com o desenvolvimento do movimento operário e revolucionário (com uma particular forma de presença do marxismo); d) a crise da II Internacional e a natureza da disputa ali travada; e) uma conjuntura marcada pelas guerras de 1904 e depois 1914.
Cada um desses aspectos mereceria uma análise aprofundada que não cabe aqui. Digamos somente que contribuíram para a singularidade da Revolução Russa, ao mesmo tempo que são a base de sua universalidade. O império tsarista formou-se no século XV, estendendo-se desde a Europa Oriental até o mar do Japão, submetendo ao seu domínio uma série de nacionalidades e povos (57% da população do império não era russa). A base servil das relações e a formação de uma aristocracia, cuja forma tsarista é a expressão, faz com que a resistência se expresse na dupla determinação da luta pela terra e pela afirmação das nacionalidades. Esta contradição se apresenta numa intensa luta camponesa, em rebeliões que culminam nas revoltas de Pugachev em 1858 e no Movimento Terra e Liberdade de Tchernichevski de 1860 que levarão à abolição da servidão em 1861. O Estado tsarista centraliza e articula esta dominação com base em uma imponente máquina militar e burocrática, apoiando-se em uma sociedade patriarcal e em uma ideologia da superioridade predestinada do povo russo e da infalibilidade do tsar e seu poder divino. O tsarismo soube modernizar-se, principalmente nos reinados de Pedro (1682-1725) e Catarina (1762-1796), criando grandes cidades e, finalmente com Alexandre II (1855-1881), iniciando um processo de industrialização associado a presença do capital imperialista.
Tanto o desenvolvimento industrial como os limites das lutas camponesas que evoluem para o chamado populismo russo dos narodiniks até o terrorismo e o anarquismo, marcará a forma política da luta de classes na velha Rússia. Por um lado, a tradição da luta camponesa desembocará na formação do movimento Socialista Revolucionário, que se forma como partido em 1901, e de outro pela entrada do marxismo através de Plekhanov, Vera Zassulitch, Martov e outros, primeiro através de círculos de estudo e, em 1883, com a formação do POSDR.
Um forte partido operário, articulado internacionalmente através da II Internacional, enraizado na classe trabalhadora concentrada nas três principais cidades do império, faz com que a Rússia acompanhe o amadurecimento do movimento e da luta operária europeia, equalizando sua situação, o que em outras condições não seria possível.
Por fim, uma conjuntura de crise do capital e de guerras, primeiro a guerra com o Japão desfechada em 1904 e que provocou uma situação revolucionária em 1905 e, depois, a primeira Grande Guerra que eclodiu em 1914. Dada a particularidade da estrutura agrária, responsável por 45,3% da economia tsarista e 37% de todo cereal consumido da Europa), uma produção agrícola de baixa produtividade unitária que alcançava seu volume pela dimensão de seu conjunto, a guerra produz impactos significativos na queda da superfície plantada, e por conseguinte, no preço dos gêneros de primeira necessidade. A convocação massiva de camponeses não impacta somente na produtividade no campo, mas muda a composição das famílias fazendo com que as mulheres, submetidas à secular opressão, possam emergir no terreno fértil da luta de classes. A crise se expressa, também, no agudizar das contradições internas do bloco dominante, fazendo emergir contradições no seio da aristocracia e da recente burguesia que cobram mais espaço político no extremamente centralizado poder autocrático do Tsar.
Não podemos esperar que nenhum destes aspectos particulares possam se apresentar além das circunstâncias específicas que os produziram historicamente, assim como a subjetividade política que deles deriva. Lideranças como Lênin, Trótski, Kollontai, Krúpskaia e outros foram tanto artífices destes tempos como seu produto. Em seu conjunto, esses fatores objetivos e subjetivos, pode levar à percepção de que a Revolução Russa é um acontecimento único e do qual não se pode retirar nenhum aspecto universal.
No entanto, para aqueles que compreendem os fundamentos da dialética materialista, não é novidade que uma universalidade é a síntese de múltiplas particularidades e que exatamente aquilo que confere a singularidade a um acontecimento pode ser também a base de sua universalidade. A particularidade da revolução Russa expressa a forma específica em esta formação social transitou para o modo de produção capitalista, amaneira particular que se expressou a formação de seu Estado, a forma típica que assumiu nestas condições a luta de classes, principalmente no momento em que se produzem situações revolucionárias. Dito de outra forma, uma maneira particular através da qual os russos viveram a singularidade de nossos tempos.
Marx e Engels também viveram tempos particulares e ao mesmo tempo em que tiveram que atuar e responder a questões muito bem determinadas da conjuntura política da luta de classes em que estavam envolvidos, teorizaram sobre os caminhos da revolução proletária. A Prússia do século XIX não é a Rússia do inicio do século XX, mas ao abstrair as condições particulares emerge uma singularidade que pode indicar momentos de uma universalidade em construção.
Em sua Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas (1850) Marx e Engels apontam alguns aspectos que devemos ressaltar: a) os trabalhadores encontram-se em uma situação histórica na qual ainda lutam contra os adversários de seus adversários, o momento da revolução burguesa; b) no curso desta luta os trabalhadores devem estabelecer alianças e, por isso, devem se preocupar em não marchar a reboque de seus aliados que devem triunfar em um primeiro momento, consolidando seu poder contra o proletariado; c) para isso os trabalhadores devem cuidar de sua independência e autonomia de classe, tanto mantendo sua organização independente (legal e secreta) como um programa próprio; d) No curso desta luta, no momento em que a burguesia tentar consolidar o poder em benefício próprio, os trabalhadores devem criar órgãos próprios de poder, criando uma dualidade de poderes que deve ser defendida a todo custo contra os ataques da burguesia; e) Trata-se de gerar, desde o início da Revolução Burguesa, as condições de desenvolvimento de uma Revolução Proletária, uma revolução em permanência, ou mais precisamente, uma Revolução Permanente.
Não é necessário muito esforço para notar que se abstrairmos o contexto particular das lutas na Alemanha de 1848/1850, estamos diante de uma universalidade vazia de determinações, ou seja, uma singularidade, que é praticamente o roteiro da revolução Russa. Não porque Marx tinha dons premonitórios, mas porque a análise da realidade particular de seu tempo se eleva a uma universalidade que serve de ponto de partida singular àqueles que pensaram os caminhos da revolução no inicio do século XX.
Ocorre que as experiências posteriores vão agregando novas particularidades, tornando cada vez mais rico a universalidade que daí deriva. Em 1850 Marx não tem como responder uma questão central: qual a forma do Estado nesta transição revolucionária. Será a Comuna de Paris de 1870 que agregará a forma finalmente encontrada.
A revolução Russa dá um passo essencial nesta construção histórica, sem dúvida por suas particularidades, mas estamos convictos que inscreve novos aspectos à universalidade da alternativa revolucionária. Acreditamos que a revolução Russa nos deixa algumas questões essenciais para pensar os nossos dias, são elas: a) a questão do Estado; b) a combinação da espontaneidade e da ação política dirigida conscientemente pela classe revolucionária; c) a questão da transição, tanto no que diz respeito a forma econômica quanto a forma política a ela correspondente.
Antes, entretanto, gostaríamos de destacar que a experiência russa é a última que atualiza e supera a primeira das características apontadas por Marx e Engels em 1850, qual seja, o momento democrático burguês da revolução proletária. Os marxistas posteriores, por uma série de motivos, transformaram este momento em uma “etapa”, em um longo processo em que o capitalismo deveria se desenvolver e consolidar antes que fosse possível uma revolução socialista. Na verdade, esta é uma afirmação característica da II Internacional e do reformismo que levará à sua falência e que será transformada em dogma pela III Internacional stalinizada. A visão de Lênin e Trótski é, neste aspecto, heterodoxa ao ser ortodoxa. Ambos, por razões muitas vezes distintas, vêm a necessidade de se aproveitar o momento para superar, o mais rapidamente possível, o momento democrático burguês, aproveitando-se da instabilidade da queda do antigo regime para avançar a revolução proletária, de forma que parte do desenvolvimento necessário será realizado já sob o poder proletário. Ambos parecem relativizar a convicção de Marx segundo a qual nenhuma sociedade nova pode surgir antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que a velha sociedade pode conter (daí sua heterodoxia), para se aproximar de Marx e sua afirmação de que o movimento que leva do momento burguês ao momento proletário da revolução é uma revolução permanente (daí sua ortodoxia).
Este fato coloca no centro a questão que julgo ser a fundamental colocada pela experiência soviética: o Estado. Já em agosto de 1917, ao apresentar seu livro sobre o assunto, Lênin afirmava que “a questão do Estado assume, em nossos dias, particular importância, tanto do ponto de vista teórico como do ponto de vista político prático”. Mas no que consiste, em suma, esta questão?
Podemos resumir esta complexa questão à afirmação leniniana, sustentada numa compreensão precisa da teoria do Estado em Marx e Engels, segundo a qual o Estado Burguês não pode ser ocupado ou disputado, mas deve ser aniquilado pela ruptura revolucionária, substituindo-o por um Estado Proletário. Mencheviques e Socialistas Revolucionários de direita (existiam os de esquerda, como Martov que se opuseram a política de participação no Governo Provisório), estavam convencidos que era possível participar no Estado burguês graças a uma correlação de forças favorável que permitiria utilizar o Estado como instrumento de uma intencionalidade popular.
Esta questão teórica e política/prática foi respondida cabalmente pela Revolução Russa, mas não somente, também pela derrota da Revolução Alemã de 1918/19, por toda experiência socialdemocrata do pós segunda guerra, pelo governo da Unidade Popular no Chile (1970-1973) e inúmeras outras experiências do século XX.
No entanto, curiosamente, a esquerda construiu uma certeza no sentido exatamente oposto a este. Parece ter se consolidado a convicção que a ruptura e a passagem revolucionária para um Estado Proletário é um aspecto particular da Rússia e que a característica própria dos tempos que se abriam era de uma alteração na natureza do Estado que permitiria que se estabelecesse sua disputa e utilização no sentido da transição socialista ou de uma transição para o socialismo. É comum atribuir a Gramsci esta concepção de um “Estado ampliado” em contraposição a uma compreensão “restrita de Estado” presente em Marx e Lênin. Não cabe aqui aprofundar se esta atribuição é ou não pertinente (estamos convencidos que Gramsci debate sobre a forma da via revolucionária, mas não rompe com os fundamentos da Teoria de estado de Marx e, mesmo, de Lênin), mas o fato é que a Revolução Russa aconteceu e se consolidou, assim como a Chinesa em 1949 e a Cubana em 1959, ao mesmo tempo em que nenhuma das chamadas experiências de “democratização” do Estado burguês, desde o eurocomunismo e a social democracia até as recentes experiências democráticas populares levaram a nada remotamente perto do socialismo.
A atual tendência do irracionalismo hoje reinante funciona assim: escolhe um aspecto da realidade, o isola e proclama o fim da possibilidade do socialismo num êxtase hiperempirista, logo e seguida, quando a realidade parece desmentir sua convicção, passa a defender que a realidade não existe.
O mesmo ocorre com o segundo ensinamento da Revolução Russa. Lênin tinha certeza que as revoluções não acontecem simplesmente, elas precisam ser feitas. Isto é, a revolução proletária possui um aspecto de intencionalidade política muito mais marcante que sua antecessora histórica. Isto não significa que ela seja unicamente produto da intencionalidade da classe revolucionária ou de sua organização política. O que a Revolução Russa comprovou, e o rico debate entre Lênin e Rosa apenas expressa no campo teórico, é que a revolução de nossos tempos é uma combinação entre aspectos espontâneos e intencionais, objetivos e subjetivos, da luta de classes. Não é o caso de repassar aqui os fatos sobejamente conhecidos, mas reafirmar que a revolução não teria sido possível sem episódios onde a espontaneidade da classe foi marcante – tais como a insurreição de 1905 ou a de fevereiro de 1917, a revolta nas bases militares, as greves – da mesma forma que nada disso teria encontrado sucesso sem a capacidade de organização, de ação política e iniciativa de direção no sentido de resistir – como ocorreu depois do fracasso das jornadas de junho e a reação do governo, como na resistência ao golpe de Kornílov e a ação que levou à derrubada o Governo Provisório como em outubro de 1917.
No lugar desta complexa dialética, a esquerda contemporânea parece ter se rendido a um culto ao espontâneo e a uma inversão estranha. Empenha-se em realizar as tarefas objetivas, fazer manifestações, produzir greves, criar insatisfação, enquanto espera que a história resolva os problemas que só a ação subjetiva da classe pode gerar, tais como as questões da estratégia e da tática, o programa, o plano operacional e a via, os problemas da organização e outros.
Sem dúvida, a maior contribuição da Revolução Russa deriva do fato que ela possibilitou levar a transição socialista a um ponto onde não se havia antes chegado. Para o bem e para o mal, isto é, o que os russos generosamente nos ensinam se fundamenta em grande parte nos seus erros. Aqui, mais uma vez retornamos a questão do Estado. Se para nós a questão da necessária destruição do Estado burguês e sua substituição por um Estado proletário se comprovou válida, pela experiência soviética e pelos fatos posteriores, a relação entre o Estado proletário e a transição socialista nos coloca uma série de questões sobre as quais precisamos refletir.
Marx parecia estar convencido que na primeira fase da sociedade comunista, o que nós resolvemos chamar de socialismo, ocorre uma transição econômica que tem por objetivo eliminar as bases daquilo que um dia dividiu a sociedade em classes e que ele sintetiza em cinco iniciativas: a) superar a escravizante subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho; b) superar o antagonismo entre trabalho intelectual e manual; c) transformar o trabalho de meio de vida em primeira necessidade da existência; d) superar o indivíduo burguês, desenvolvendo o ser social em todos os sentidos; e) desenvolver as forças produtivas para sejam capazes de produzir além das necessidades, em abundância. Somente isso permitiria que cada um trabalhasse de acordo com suas possibilidades e recebesse de acordo com suas necessidades superando “os estreitos horizontes do direito burguês”, conforme Marx famosamente afirmou na Critica do programa de Gotha. A estas mudanças econômicas corresponderia uma transição política na qual o Estado só poderia ser a Ditadura Revolucionária do Proletariado.
Coerente com sua concepção de revolução permanente, Marx pensava que não apenas a passagem do momento democrático burguês para o momento proletário, mas da primeira fase para o comunismo, portanto, para uma sociedade sem classes e sem Estado, deveria ser um movimento contínuo. Dada as características das tarefas enunciadas, este movimento não poderia ser efetivado pelo ato único da revolução, daí a concepção de uma transição e da necessidade do Estado. Tal necessidade resulta diretamente da experiência da Comuna à qual nos referimos, seja pela necessidade de resistir às classes dominantes derrotadas e destruir sua capacidade de reação o que faltou fazer na Comuna de Paris), seja pela consolidação de uma ordem que seja fosse de conduzir a transição até a superação do Estado.
Lênin atribui este movimento um caráter de “definhamento”, uma vez que a própria ação do Estado proletário na medida em que fosse implementando as medidas citadas, iria tornando cada vez mais desnecessário o Estado. Para isso, a Ditadura do Proletariado deveria ser um Estado dos operários, camponeses e demais trabalhadores e não um Estado dos funcionários, como alertava o próprio Lênin em seu O Estado e a revolução. Ora, a experiência soviética demonstrou que a suspeita dos anarquistas que um Estado desenvolveria interesses próprios em sua perpetuação, independente do caráter revolucionário da classe que representa, acabou por se mostrar mais problemático que nós marxistas julgávamos.
O fato é que o Estado não definhou, pelo contrário, fortaleceu-se e consolidou uma profunda deformação burocrática invertendo a previsão leniniana, isto é, tornou-se de fato um estado dos funcionários com enorme poder sobre os trabalhadores. Costuma-se utilizar este fato como comprovação daquela convicção citada sobre o denominado caráter ampliado do Estado contemporâneo, isto é, o caráter “oriental” da formação social russa, nos termos gramscianos, teria permitido a tomada do poder, mas condenado a transição a um ato dirigido pelo alto, imposto à sociedade sem mediações. Nesta leitura os problemas da transição seriam melhor resolvidos pelo desenvolvimento de uma sociedade civil forte, resultado de um pleno desenvolvimento do capitalismo. O problema é que esta leitura faz com que muitos visitem o túmulo dos bolcheviques para criticá-los por sua impaciência enquanto levam flores e desculpas aos injustiçados mencheviques.
Acreditamos que os motivos e as determinações deste fenômeno são outros (trataremos deste assunto na próxima coluna), no entanto, não podemos concordar que a solução seria não ter ousado tomar o poder e construir uma experiência proletária e socialista, até porque a alternativa à tomada do poder pelos bolcheviques aliados aos SRs de esquerda e anarquistas não seria o lento amadurecimento de uma democrática sociedade ocidental, mas o golpe de Kornílov e possivelmente o desmembramento da Rússia em áreas de influência imperialista como ocorreu na China.
Assim, o risco é que muitos enaltecem e celebram a Revolução Russa para defender que hoje devemos fazer exatamente o oposto do que nossos camaradas realizaram: devemos ceder a tentação de tomar o poder e, no lugar da ruptura revolucionária propor a democratização do Estado burguês até que com o desenvolvimento das forças produtivas e da consciência de classe dos trabalhadores torne-se possível a passagem para o socialismo; devemos acreditar que as massas mudarão a sociedade quando estiverem prontas e dispostas a fazê-lo e as demais classes da sociedade (principalmente as camadas médias) estejam dispostas a aceitar isso sem surtar histericamente ou reagir de forma brutal; e, finalmente, devemos rejeitar a proposta de socializar os meios de produção exercitando formas mistas de propriedade e convivência de relações sociais de produção que vá introduzindo, aos poucos, formas socializadas em uma economia de mercado até que, em um místico dia futuro, cheguemos ao socialismo sem traumáticas rupturas.
Os herdeiros do reformismo se inquietam diante de uma realidade que atualiza o impasse do início do século: a guerra, o imperialismo, a crise, a prepotência de um Estado de classe se esforçando para manter um Modo de Produção moribundo. Lênin, na mesma apresentação do livro citado afirmou que dezenas de anos de relativa paz criaram os elementos do oportunismo que predominava nos partidos socialistas oficiais, mas que a crise teria varrido as certezas que embasam os desvios oportunistas e o líder bolchevique podia prever, com certo otimismo, ao final de sua apresentação que:
“A questão da atitude da revolução socialista do proletariado em relação ao Estado adquire, desse modo, não apenas importância política prática, mas também relevância da maior atualidade como questão do esclarecimento das massas sobre aquilo que terão de fazer num futuro próximo para sua libertação do jugo do capital.” (Vladímir Lênin, O Estado e a revolução, p.24)
As últimas décadas de “relativa paz” criaram as condições para a ressurreição do oportunismo. A crise atual recria as condições para a crise deste oportunismo e a retomada de uma política revolucionária.
Parece-me, por vezes, que alguns celebram a Revolução Russa para melhor esquecê-la.

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Tariq Ali apresenta O Estado e a revolução, de Lênin, na TV Boitempo.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

The CIA and the Pentagon’s Dirty Secrets

By Global Research News
Global Research, October 25, 2017

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