A consciência da humanidade revolta-se contra o «tudo para nós, nada para os outros», credo do império predador erguido sobre as ruínas das nações. A impudência e a insolência atingiram o seu paroxismo, e as ameaças de Trump ilustram a depravação de uma civilização em declínio. Não devemos permanecer meros testemunhos passivos, mas tornar-nos os artífices de um mundo novo onde a arrogância desmorona e a justiça triunfa.
Um vasto grupo transnacional de personalidades – entre as quais ex-funcionários da ONU, diplomatas de carreira aposentados, ex-ministros, académicos e intelectuais, figuras políticas e ex-parlamentares, militares e especialistas em segurança, artistas, juristas, bem como jornalistas, ativistas e figuras do movimento pacifista, provenientes de 30 países – publicou uma carta aberta criticando veementemente o papel dos Estados Unidos na cena internacional e apelando a uma nova ordem internacional baseada na soberania e na resistência ao que qualificam de domínio ocidental.
A maioria dos signatários é originária de países ocidentais, juntamente com participantes da Ásia, da América Latina e de África. A declaração, intitulada «Declaração à consciência da humanidade», foi assinada por mais de 170 pessoas de países como os Estados Unidos, o Reino Unido, o Canadá, a Alemanha, a França, Portugal, a Bélgica, a Itália, a Escócia, Irlanda, Austrália, Suíça, Países Baixos, Suécia, Sérvia, Polónia, Bósnia-Herzegovina, Lituânia, Rússia, China, Malásia, Índia, Brasil, Venezuela, Argentina, México, África do Sul, Líbano, Turquia e Irão.
Nesta carta aberta, fundamentada em factos, os autores apresentam uma crítica mordaz à política externa e à conduta histórica dos Estados Unidos. Afirmam que, durante «249 anos – ou seja, desde a sua criação em 1776 –, os Estados Unidos construíram um historial de atrocidades digno de uma época pré-civilizada e mais sombria», qualificando o país de «império predador construído sobre as ruínas das nações».
Os signatários, entre os quais se contam professores, atuais e antigos, afiliados a 52 universidades e instituições académicas de todo o mundo, acusam Washington de manter o seu domínio militar mundial graças a uma presença militar massiva no estrangeiro. Afirmam que os Estados Unidos mantêm «mais de 800 guarnições militares que contaminam mais de 90 países e territórios estrangeiros» e cultivaram o que os signatários designam como «uma doutrina de predação absoluta». A declaração condena igualmente o envolvimento dos Estados Unidos nos principais conflitos dos séculos XX e XXI, referindo nomeadamente «o horror genocida do Vietname», «a aniquilação do Camboja» e «o massacre sistemático dos coreanos», bem como a destruição do Iraque, da Líbia, da Síria e do Afeganistão
O documento destaca o atual confronto com o Irão. Estas figuras públicas afirmam que a situação atual reflete o que descrevem como uma estratégia expansionista dos Estados Unidos destinada a dominar os recursos mundiais. Segundo a declaração, o governo norte-americano é guiado pelo «credo demoníaco do “tudo para nós, nada para os outros”», que, na sua opinião, procura controlar os recursos mundiais, desde o «petróleo da Venezuela» às «riquezas mineiras da Gronelândia» ou às «reservas energéticas do Canadá».
Os signatários afirmam ainda que a política norte-americana «se concentra agora no Irão», uma vez que este país possui «mais de sete por cento das riquezas mineiras e energéticas mundiais», que qualificam de «última fronteira da pilhagem». O documento critica igualmente a atual liderança norte-americana, afirmando que «o colapso moral do Ocidente encontra a sua encarnação na figura patética do Sr. Trump», e apelando ao fim daquilo a que chamam de «era da pilhagem».
Para além da crítica à política norte-americana, a declaração apresenta várias exigências que os signatários consideram necessárias para pôr fim à atual guerra contra o Irão. Trata-se, nomeadamente, de garantias contra qualquer agressão futura, do desmantelamento das instalações militares americanas na região, de uma condenação internacional formal dos atos de agressão, de reparações pelos danos causados pela guerra, do estabelecimento de um novo quadro jurídico para o estreito de Ormuz, do reconhecimento da soberania do Irão, bem como da perseguição e extradição dos agentes dos meios de comunicação anti-iranianos que incitaram a este banho de sangue.
Os autores apelam igualmente aos intelectuais, académicos, instituições e organizações da sociedade civil de todo o mundo para que condenem o que é descrito como a normalização das violações do direito internacional e para que questionem as estruturas globais que perpetuam a dominação e a intervenção militar.
Em conclusão, os signatários afirmam que o momento atual representa um ponto de viragem histórico decisivo. «Estamos do lado da justiça, não como testemunhas passivas, mas como atores na construção de um mundo novo», indica a carta, sublinhando que a comunidade internacional deve enfrentar o que qualifica de regresso dos poderes predatórios à política mundial.
Entre os signatários contam-se cientistas eminentes e personalidades que representam um vasto leque de especializações e funções de liderança, nomeadamente filósofos, economistas, historiadores, sociólogos, juristas, teólogos, islamólogos, pastores, biólogos, médicos, músicos, cineastas, compositores, cantores, empresários, engenheiros, romancistas, teóricos, bem como um físico, um psicólogo, um antropólogo e um humorista. Esta coligação diversificada reflete a consciência coletiva da humanidade, unindo profissionais, académicos e ativistas de múltiplas disciplinas num apelo comum contra o excepcionalismo americano.
O texto integral da declaração, bem como a lista completa dos signatários, foi divulgado em mais de dez línguas:
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