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sexta-feira, 31 de julho de 2026

 

Há 17 anos, em 24 de julho de 2009, milhares de trabalhadores da Companhia Siderúrgica Tonghua, uma estatal chinesa, se revoltavam contra a tentativa de privatização da empresa.

Desde 2005, o controle acionário da Tonghua vinha sendo transferido gradualmente para a companhia privada Jianlong. A reestruturação da empresa foi seguida por vários ataques aos trabalhadores, submetidos a demissões em massa, corte de salários, extinção de benefícios e aumento das metas de produtividade.

Temendo uma deterioração ainda maior das condições de trabalho caso a venda fosse concluída, milhares de funcionários paralisaram a produção da companhia. Quando o gerente geral da empresa ameaçou os manifestantes de demissão caso não voltassem ao trabalho, os operários o lincharam até a morte. Assustado com a vigorosa reação dos trabalhadores, o governo chinês decidiu cancelar a privatização.

As reformas econômicas na China

Após a morte de Mao Zedong e o fim da Revolução Cultural, a China ingressou em um período marcado por grandes mudanças políticas e econômicas. O fracasso do “Grande Salto Adiante” e a instabilidade gerada pela Revolução Cultural convenceram a cúpula do Partido Comunista sobre a necessidade de revisar o modelo de planejamento econômico vigente até então.

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As reformas de Mao Zedong produziram importantes avanços sociais, mas a China ainda enfrentava graves obstáculos. O país estava economicamente estagnado, com baixa produtividade agrícola e industrial e isolado no cenário internacional. Assim, em 1978, o Comitê Central do Partido Comunista deu início ao processo de abertura econômica.

As reformas foram coordenadas por Deng Xiaoping, presidente da Comissão Militar Central do Partido Comunista. Deng argumentava que a China ainda se encontrava na “etapa primária do socialismo”, o que justificaria o uso de mecanismos de mercado para desenvolver as forças produtivas antes de iniciar maiores alterações estruturais. O Estado chinês passaria a conciliar planejamento econômico com incentivos à economia privada, visando ampliar sua eficiência e competitividade em um mercado cada vez mais globalizado.


A partir dos anos 80, milhares de empresas estatais d China foram submetidas a processos de reestruturação. Muitas foram extintas por serem consideradas improdutivas, outras foram fundidas para aumentar sua escala de produção e várias passaram a operar sob modelos mistos, recebendo investimentos estrangeiros privados.

As reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping produziram uma profunda transformação nas relações de trabalho na China e modificaram radicalmente o modelo de proteção social vigente desde a revolução.

Até o início dos anos 80, era comum que os funcionários das empresas estatais tivessem direito a benefícios e garantias como estabilidade no emprego, moradia subsidiada, assistência médica, educação para os filhos, aposentadoria garantida, etc. À medida que as reformas avançavam, esse conjunto de garantias foi gradualmente desmontado. Os contratos de trabalho foram flexibilizados e a estabilidade foi abolida, facilitando as demissões.

Benefícios e garantias foram suprimidos e a gestão das estatais passou a privilegiar uma lógica empresarial voltada à produtividade e à lucratividade. Em regiões tradicionalmente industriais da China, onde grandes complexos estatais sustentavam cidades inteiras, essas mudanças produziram crescente insatisfação na classe trabalhadora.

: Protesto dos trababalhadores do Grupo Tonghua.
New Tang Dinasty Television

Companhia Siderúrgica Tonghua

Localizada na cidade de Tonghua, na província de Jilin, a Companhia Siderúrgica Tonghua era um dos principais complexos industriais do Nordeste da China. Como tantas outras grandes estatais, a empresa desempenhava um papel estruturante na economia local, sustentando dezenas de milhares de trabalhadores direta e indiretamente.

Ao longo das décadas, bairros inteiros cresceram ao redor da companhia siderúrgica. Hospitais, escolas, centros recreativos e moradias foram construídos para atender os funcionários. A identidade dos moradores da cidade estava profundamente ligada à empresa, que era vista não apenas como um empregador, mas como uma instituição responsável pelo bem-estar coletivo.

Vinculada ao governo provincial, a Companhia Tonghua também foi submetida ao processo de reestruturação das estatais implementado pelas autoridades chinesas. Os gestores passaram a defender a necessidade de atrair investidores privados para modernizar a produção e tornar a empresa mais competitiva.

Em 2005, o governo provincial deu aval para um plano de reestruturação baseado em uma parceria com o Grupo Jianlong, uma das maiores companhias siderúrgicas do país. A Jianlong adquiriu 36% das ações da Tonghua, tornando-se seu principal acionista privado.

A chegada da Jianlong foi acompanhada de demissões em massa, substituições dos gestores e redução expressiva dos salários e benefícios. O plano de reestruturação previa o corte de mais de 10.000 funcionários. Até mesmo o sistema de aquecimento da empresa foi desligado para conter gastos, obrigando os funcionários a trabalhar sob frio intenso no inverno. Enquanto os operários perdiam direitos e tinham rendimentos reduzidos, as metas de produtividade se tornavam cada vez mais agressivas.

A crise econômica iniciada em 2008 agravou ainda mais as tensões na siderúrgica. A retração da economia global derrubou a demanda pelo aço, provocando queda na produção e gerando dificuldades financeiras para as empresas do setor. Alegando a deterioração das condições de mercado, o Grupo Jianlong ampliou os cortes de empregos e benefícios e suspendeu seus investimentos, ameaçando romper a parceria com a Tonghua.

Poucos meses depois, com a recuperação do mercado siderúrgico graças aos estímulos econômicos do governo chinês, a Tonghua voltou a registrar lucros. Diante da mudança do quadro, o Grupo Jianlong resolveu não apenas retomar a parceria, como propôs assumir o controle acionário da estatal.

O motim

Em julho de 2009, o governo provincial de Jilin anunciou a privatização da Tonghua, repassando 65% das ações da empresa para o Grupo Jianlong. O anúncio causou descontentamento entre os funcionários, que temiam novas demissões em massa, cortes nos salários, retirada de mais direitos e deterioração das condições de trabalho. Havia também a desconfiança generalizada de que a operação estaria ligada a esquemas de corrupção, com favorecimento de empresários ligados à burocracia estatal e desvio de verbas públicas.

Os trabalhadores também se ressentiam da crescente disparidade salarial entre os gestores da companhia e os operários. Enquanto os executivos indicados pela Jianlong tinham rendimentos superiores a três milhões de yuans por mês, o salário dos operários não chegava a 500 yuans mensais.

Para conduzir a reorganização administrativa, o Grupo Jianlong nomeou o executivo Chen Guojun como gerente geral da Tonghua. A indicação caiu como uma bomba entre os funcionários. Além da postura arrogante e autoritária, Chen teria defendido um corte radical no quadro de funcionários, propondo a demissão de até 25.000 pessoas.

Em 24 de julho de 2009, data em que a Tonghua anunciaria formalmente a posse da nova diretoria, os funcionários deram início a um motim. Milhares de trabalhadores interromperam as atividades e se concentraram em frente ao prédio da diretoria, entoando gritos de “não à privatização” e “fora, Jianlong”.

Os protestos não se limitaram às instalações da siderúrgica. Uma enorme multidão se concentrou nos portões da empresa e outras manifestações eclodiram pela cidade. Os populares invadiram as plantas fabris e interditaram as linhas férreas, bloqueando o transporte de matérias-primas e forçando o desligamento dos altos-fornos. A produção foi completamente interrompida.

Cerca de 30.000 trabalhadores tomaram parte das manifestações. Os operários reivindicavam o cancelamento imediato da transferência do controle acionário da Tonghua para a Jianlong e exigiam garantias de que os empregos e benefícios seriam mantidos.

Quando Chen Guojun ameaçou demitir todos os funcionários caso não voltassem ao trabalho, os grevistas se revoltaram. O gerente foi cercado e agredido pelos trabalhadores. Chen conseguiu se desvencilhar da multidão e se esconder em outro prédio da siderúrgica. Os trabalhadores, no entanto, conseguiram localizá-lo e o espancaram brutalmente. O executivo foi posteriormente resgatado e levado para um hospital, mas acabou falecendo em consequência das agressões.

A morte de Chen deu ao conflito trabalhista os contornos de uma grave crise política, evidenciando o grau de insatisfação acumulada. Assustadas com a intensidade da reação popular e temendo que o conflito se espalhasse para outras regiões, as autoridades chinesas decidiram retroceder e reverter a privatização.

Ainda no dia 24 de julho, o governo provincial anunciou o cancelamento definitivo da aquisição da Tonghua pelo Grupo Jianlong. O presidente, o vice-presidente e vários membros do conselho diretor da Tonghua renunciaram aos seus cargos.

Embora os trabalhadores tenham alcançado seu principal objetivo, o governo chinês deixou claro que não toleraria a violência empregada durante o motim. Investigações foram abertas para identificar os responsáveis diretos pela morte de Chen Guojun e vários manifestantes foram presos. Em 2010, Ji Yigang, um dos operários da siderúrgica, foi condenado à prisão perpétua por seu envolvimento no assassinato de Chen. A pena foi posteriormente convertida para 16 anos de prisão.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Futurologias e politólogos

 Todos fazemos "futurologia". Contudo, esta expressão pejorativa somente devia cobrir opiniões desgarradas, despojadas de qualquer consistência lógica e factual, simplesmente emocional, sectária, desprovida por vezes do mínimo de literacia ou cultura geral, ou em suma : mera propaganda partidária sem fundamentos.
Não devia cobrir previsões e simulações, conforme métodos rigorosamente testados, consensuais , científicos tanto no respeito pelas descobertas comprovadas pelas ciências da natureza ou pelas ciências sociais, como pela logicidade da reflexão filosófica de teor realista e materialista a qual sempre desbravou caminhos para o pensamento científico.
Estas elucubrações vêm a propósito de infindáveis e cansativas sentenças opinativas e mesmo textos que defendem teses sobre esse mundo inexistente que é o futuro. O passado já não decorre no tempo como presente e o presente já é passado quando termino a frase.
A própria Historiografia (os historiadores) não é por si só, nem necessariamente, científica (consensual) , depende do método, da documentação, da interpretação e da articulação com outras ciências convergentes (arqueologia, antropologia, paleontologia, etc.). Sempre existiram historiadores que falsificam ou enviesam os factos segundo as suas conveniências. Só um exemplo : aqueles historiadores que falsificaram números e factos sobre os "mundo socialista" durante a chamada "Guerra Fria". Poderia citar vários "cientistas" reputados se fosse necessário, e que foram desmascarados ou deveriam ser. E até (pasme-se!) historiadores que ainda hoje procuram falsificar o longo período da ditadura fascista em Portugal (designam-na com o nome que o próprio Salazar se atribuiu: "Estado Novo"!).
Não surpreende, pois, que proliferem (por meio do direito de expressão conquistado pelo mundo fora com sangue, suor e lágrimas) teses e opiniões "adivinhando" (a imaginação é muito bonita mas é uma faca de dois gumes!) a vitória militar da Ucrânia sobre a Rússia, ou a destruição da Federação Russa pela "Europa unida" armada até aos dentes (não se sabe como nem quando), ou que a União Europeia que temos vai ser substituída por outra dominada absolutamente pelos partidos que se assumem fascistas.
Estes desejos que se disseminam pelas próprias estações e canais de televisão, embora aqui por processos sofisticados elaborados e dirigidos no vértice por organizações como a CIA e o M16, desenham um quadro do mundo futuro que corresponde às suas estratégias imperialistas. Inocula-se lentamente como um veneno desde a família, a escola, as televisões, imprensa escrita e redes sociais. Os manuais escolares desde o ensino básico, sobretudo no ensino da História, do Português ou da Filosofia, têm vindo a compor uma visão do mundo (passado e presente) conforme os interesses dessa estratégia de hegemonia dos países imperialistas unidos.
Neste contexto os "futurólogos" (ou "politólogos") são largamente otimistas. Os próprios desastres naturais ou provocados pelas atividades imperialistas são mistificados de modo a provocar o medo do "fim do mundo" e ódio a inimigos inventados que causarão esse tal futuro de insegurança permanente.
Previsão é outra coisa.
E na boa filosofia "A coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer."
(expressão do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel utilizada em o Prefácio da sua obra Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito (Grundlinien der Philosophie des Rechts, 1821)

Ao lado destas futurologias, contra elas ou segurando-as sem o saberem, circulam aquelas opiniões otimistas nas quais se exibe a nossa crença, de recorte religiosa ainda que orgulhosamente ateia, de que ninguém do mal nos vencerá, Vitória ou Morte!, não vemos que estamos derrotados ali francamente, não entendem que para sobreviver é necessário adaptarmo-nos, tal qual na na seleção natural, e que por vezes mesmo dando dois passos atrás já não voltaremos mais a recuperar o mesmo pois o possível já se foi, o tempo não volta para trás, a história não se repete da mesma maneira. São os crentes. E todos os que assim não pensarem são derrotistas. Ámen.

(Pintura : Cena Aberta, António DaCosta, 1940)

 

EDUARDO ÁLVAREZ ESTÉVEZ. A gratidão que humilha (Delcy Rodriguez agradecendo a Trump)

José Martí escreveu: “A gratidão, como certas flores, não é dada em altura, e o mal concorda com a sombra”. Ele o escreveu pensando em homens dignos, em povos que não se esquecem, na memória como fundamento da virtude. Hoje, essas palavras me queimam quando li as declarações do presidente responsável pela Venezuela.

Delcy Rodriguez agradeceu a Donald Trump. Ele não o fez num lado diplomático, num sussurro no corredor. Ele fez isso em um microfone aberto, diante do mundo, com a solenidade daqueles que assinam um documento de capitulação: “A Venezuela nunca esquecerá a mão estendida ao nosso povo nessas horas difíceis”.

Não vou negar que um país pode agradecer a ajuda humanitária, de onde quer que venha. Mas isto não é um agradecimento. Trata-se de um ato de humilhação. E dói-me. Dói porque por mais de vinte anos Cuba procurou a Venezuela sem pedir nada em troca, e nunca, nunca, recebeu tanta gratidão.

O que Cuba deu sem perguntar

Eu digo isso sem hipérbole. Centenas de milhares de médicos, professores, treinadores esportivos, conselheiros agrícolas cubanos pisaram em terras venezuelanas desde os anos do furacão Vargas até a pandemia. Salvaram vidas nos bairros, literados, operados em salas de cirurgia improvisadas, trouxeram saúde onde nunca haviam chegado. A Missão Barrio Adentro foi o maior trabalho de solidariedade internacionalista deste século.

Cuba não acusou a Venezuela. Ele não exigiu petróleo a preço de mercado. Ele não colocou as condições políticas em ajuda. Compartilhamos o que tínhamos, que nunca foi muito. Nós fizemos isso porque somos um povo que aprendeu, com Martí, que “A pátria é a humanidade”.

E o que recebemos em troca? Silêncio. E agora, esta cena abafada.

A mão que aplaude o carrasco

O mais sério não é que ele agradece a Trump. O mais sério é quem é agradecido e em que contexto. Trump é o mesmo que chamou a Venezuela de “ameaça incomum e extraordinária”. O mesmo que ordenou sanções que impediu a Venezuela de comprar remédios, alimentos e suprimentos. O mesmo cujo secretário de Estado, Marco Rubio, chama os médicos cubanos que salvaram vidas venezuelanas de “escravos modernos”.

Agora, esse mesmo Trump, tendo sufocado o povo venezuelano, oferece-lhe uma mão de “solidariedade”. Essa mão não é de ajuda. É o último ato de entrega. São as esmolas que a casa roubou, com as quais ele finge que vai agradecer e entregar as escrituras.

E Delcy Rodriguez, presidente responsável, aceita esmolas e agradecimentos.

A memória como um ato de dignidade

Martí também disse: “O homem que se conforma com o que lhe dão, e não pede o que deve pedir, é escravo”. É isso que se livra dessa afirmação. Não é um acto diplomático. É a naturalização da submissão.

Eu comparo e minha alma sangra. Durante décadas, Cuba não recebeu um agradecimento da Venezuela por esse calibre. Não uma frase. Não é um gesto público de fraternidade. Presidentes venezuelanos, os chanceleres, os ministros, ficaram em silêncio. E agora, antes do mundo, o presidente responsável quebra esse silêncio para agradecer ao presidente do império.

Não é coincidência. É uma mensagem. É a certificação que a Venezuela deixou de ser um país soberano para se tornar um protetorado agradecido. A “mão do curso” de Trump não é solidariedade. É a corrente que fecha sobre o pescoço de uma aldeia que estava um dia livre.

O que nos resta

Não estou a insultar a Delcy Rodriguez. Não precisa. Suas próprias palavras definem isso. O que farei é lembrar. Porque a memória é a única coisa que o império não pode bombardear, ou bloquear, ou comprar com petróleo.

Lembremo-nos dos médicos cubanos que morreram na Venezuela cumprindo sua missão. Recordemos os professores que letraram as colinas. Vamos lembrar os treinadores que formaram atletas. Lembre-se que Cuba nunca pediu um tapete vermelho ou um desfile de agradecimento. Mas também não merece esse silêncio cúmplice, essa ingratidão que está revestida de diplomacia.

O que eu tenho

A gratidão, quando prostituída, deixa de ser virtude. Torna-se servil. E o servilismo não é revolucionário, nem é bolivariano, nem é humano. É a morte da alma antes do corpo morrer.

Nós não gostamos deles. Nós agradecemos. Para aqueles que estavam. Para aqueles que são. Aqueles que, sem pedir nada, compartilhavam seu pão e seu telhado.

E para aqueles que se ajoelham hoje, lembramos a Martí: “Aqueles que não têm a coragem de ser homens têm pelo menos o instinto de serem sombras”.

Cuba não é sombra. Cuba é leve. E a luz não é apreciada por aquele que a desliga.

Pátria ou morte. Nós vamos ganhar.EDUARDO ÁLVAREZ ESTÉVEZ. A gratidão que humilha (Delcy Rodriguez agradecendo a Trump)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

 Para I. KANT o que importa é a forma como se deve pensar (in Crítica da Razão Pura) e a forma segundo a qual se deve agir (Crítica da Razão Prática).

     Isto é a validade lógica dos conhecimentos (juízos).

A validade em sua pura formalidade dos comportamentos. Somente podem ser universais - válidos para todos - se forem formalmente elaborados e, assim, exigidos. Despidos de qualquer concretude e empiricidade. São normas que se apresentam como jurídicas. Os direitos e deveres somente podem alcançar a universalidade se se constituírem como normas despidas de qualquer subjetividade. 

Na verdade, despidas de historicidade. Portanto, servem para tudo e não servem para nada, porque omitem ou desprezam a época, os factos e circunstâncias, as classes sociais. Pelo menos na formação dessas normas: 

Na realidade, não são aplicáveis. Exceto se vierem acompanhadas por leis.  

Isto é, por obrigações, contratos e penas. 

Sendo assim, a ética neokantiana resume-se em DIREITO.

 O Fascismo que se Aproxima

Estamos deslizando em direção ao fascismo? E o que podemos fazer a respeito?

Primeiro, devemos definir corretamente a natureza do fascismo. Seria a loucura de um único homem? As falhas de uma nação? Rejeitando análises superficiais e simplistas, Saïd Bouamama demonstra as forças económicas que levaram Hitler e Mussolini ao poder para servir aos seus próprios interesses. Precisamos tirar as lições corretas desse passado trágico.

Ao mesmo tempo, reconhecendo que a história não se repetirá exatamente da mesma forma. Para compreender o perigo que nos ameaça hoje, há uma necessidade urgente de explicar e conectar esses fenómenos: crise económica, empobrecimento, precarização, ataques às liberdades civis, islamofobia e a criação de bodes expiatórios, o genocídio na Palestina, a ascensão da China e dos BRICS, múltiplas guerras... Para manter sua hegemonia, os Estados Unidos buscam construir uma Internacional fascista na Europa. Eles nos levarão a uma Terceira Guerra Mundial?

O medo poderia nos paralisar. No entanto, Bouamama oferece uma mensagem de esperança. Ele demonstra que o fascismo não é inevitável; podemos barrar o seu caminho. A compreensão possibilita a resistência.

 Le fascisme qui vient

 Uma viagem à Bielorrússia: um olhar além dos estereótipos ocidentais
Philippe Stroot
22 juillet 2026

 
No início do verão de 2026, numa época em que a maior parte da Europa Ocidental está em chamas — tanto literal quanto figurativamente —, os poucos turistas ocidentais que chegam à Bielorrússia impressionam-se com a sensação de calma e serenidade que permeia o país.

É verdade que não há onda de calor aqui — embora uma temperatura recorde de 40°C tenha sido registada brevemente em uma área florestal geralmente mais fresca —, mas a guerra grassa não muito longe da fronteira sul com a Ucrânia, enquanto a OTAN concentra tropas na Polónia e nos Estados Bálticos, ao longo de todo o flanco ocidental da Bielorrússia. Poder-se-ia esperar que isso alimentasse a tensão entre a população, mas os bielorrussos seguem tranquilamente com suas vidas cotidianas ou aproveitam as férias à beira dos inúmeros lagos cercados por planícies e florestas.

Dotados de uma gentileza proverbial — reconhecida até mesmo por cidadãos de outras repúblicas durante a era soviética —, os bielorrussos ficam ao mesmo tempo encantados e surpresos ao saber que turistas escolheram viajar da Suíça para visitar seu país. Vale ressaltar que, no Ocidente, faz-se todo o possível para desencorajar esse tipo de turismo. Os grandes veículos de comunicação raramente mencionam a Bielorrússia e, quando o fazem, é apenas para falar mal do país. Esse menosprezo periódico ocorre invariavelmente após eleições presidenciais perdidas por candidatos que agências ocidentais haviam tirado da cartola na tentativa de derrubar o "ditador maligno" Lukashenko — um homem que não quer saber da União Europeia, muito menos da OTAN.
Foi, portanto, por despeito — e para punir os eleitores bielorrussos por terem depositado votos "errados" — que o Ocidente impôs sanções já em 2020, muito antes da intervenção russa na Ucrânia; tais sanções proibiram, notadamente, a companhia aérea nacional, Belavia, de sobrevoar o território da UE. Enquanto antes havia um voo direto de Genebra para Minsk com duração de pouco mais de duas horas e meia, agora os viajantes precisam fazer conexão em Istambul ou voar até Vilnius e, em seguida, aguardar horas dentro de um autocarro na fronteira antes de entrar na Bielorrússia — já que os agentes alfandegários lituanos fazem de tudo para tornar a vida um tormento para aqueles decididos a visitar esse país vizinho, considerado inimigo por ser aliado da execrada Rússia. Apesar de toda essa pressão, os bielorrussos continuam a apoiar seu presidente, que os poupou do destino da Ucrânia — e do de outras ex-repúblicas soviéticas; um destino que, embora menos trágico, dificilmente é mais invejável.
Após passar alguns dias na magnífica capital, Minsk, uma viagem de carro pelo país proporciona uma verdadeira noção da estabilidade e do desenvolvimento da Bielorrússia. Com estradas excelentes, um nível de limpeza capaz de despertar a inveja até mesmo da Suíça e uma segurança que permite caminhar por qualquer lugar, a qualquer hora, sem medo de assaltos, a Bielorrússia apresenta-se como um exemplo pouco reconhecido de uma nação europeia normal e pacífica — livre do estresse e da histeria que, com tanta facilidade, surgem por motivos banais em outras partes da Europa. É, portanto, do interesse de seus detratores manter esse fato oculto e garantir que os europeus permaneçam, em grande parte, ignorantes a respeito do país. Veja-se, por exemplo, a pandemia de COVID-19: o governo bielorrusso não impôs *lockdowns* nem obrigou a população a adotar medidas compulsórias, permitindo que a economia continuasse funcionando normalmente, ao passo que os indivíduos mantiveram a liberdade de escolher usar ou não máscara ou de se vacinar. No entanto, isso não impediu que a Bielorrússia registasse uma das taxas de mortalidade por COVID-19 mais baixas do mundo... (1)
Além de suas belas paisagens e de uma natureza em grande parte intocada, a Bielorrússia oferece aos visitantes gastronomia de excelente qualidade, uma vasta oferta de atividades culturais e viagens a preços acessíveis — com o litro de gasolina custando apenas cerca de 80 centavos de euro, o valor mais baixo da Europa. Ademais, cidadãos de países ocidentais podem entrar sem visto por um mês e circular livremente pelo país, ao passo que a União Europeia faz todo o possível para impedir a entrada de cidadãos bielorrussos em seu território. Acrescente-se a isso o fato de que a Bielorrússia não censura nenhum canal de transmissão estrangeiro — enquanto emissoras de televisão russas e bielorrussas são banidas na UE — e fica evidente que o "mundo livre" não é exatamente aquilo que se poderia imaginar. O presidente Alexander Lukashenko, no poder desde 1993, merece grande reconhecimento por preservar a soberania de seu país contra todas as probabilidades, apesar dos laços estreitos e privilegiados com sua "grande irmã eslava", a Federação Russa. Desde o início, seu governo teve a sabedoria de não jogar fora o bebé socialista junto com a água do banho soviético. Como certa vez afirmou o ativista revolucionário e engenheiro eletrónico suíço Marcel Gerber — que visitou Minsk quase trinta vezes a trabalho —, a Bielorrússia é vilipendiada pelo Ocidente justamente por ser o único Estado da antiga URSS que não foi "democratizado" por meio de uma transição brutal para o capitalismo...
Neste ano repleto de perigos para a paz mundial, a Bielorrússia — membro de pleno direito da União Económica Eurasiática, da Organização para Cooperação de Xangai e, em breve, do BRICS — mantém-se firme em sua trajetória. O país contrapõe-se ao ostracismo ocidental desenvolvendo laços económicos e políticos com potências-chave do Sul Global, especialmente na Ásia e na África. Essa autoconfiança e fé no futuro provavelmente explicam a serenidade que impera na terra do bisão e da cegonha — símbolos nacionais de uma Bielorrússia que merece ser descoberta.

Philippe Stroot, julho de 2026

Nota:

1. O sistema de saúde da Bielorrússia é elogiado pelo Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde. O país possui o maior número de leitos hospitalares per capita da Europa: 113 por 10.000 habitantes em 2014, em comparação com 64 na França ou 31 na Espanha. (Dados de 2019)

sábado, 25 de julho de 2026

Não disponho de provas da veracidade do conteúdo na sua totalidade.

 

A Microsoft confirmou que o Windows tem um identificador de dispositivo global (GDID) anteriormente desconhecido, um identificador digital exclusivo e permanente atribuído a dispositivos Windows que permite vincular as ações de um usuário ao seu dispositivo. Isso veio à tona quando um suposto membro de um conhecido grupo de hackers foi preso em um aeroporto depois que a Microsoft entregou seu GDID às autoridades.

A Microsoft descreve o GDID em uma reclamação publicada (via Windows Latest) como “um identificador persistente de nível de dispositivo projetado para identificar exclusivamente uma instalação de um sistema operacional Windows em um dispositivo, seja um dispositivo físico (por exemplo, um telefone celular ou um laptop) ou uma máquina virtual, em certos serviços e cenários da Microsoft”.

Assim, quando você configura o Windows pela primeira vez ou registra um novo dispositivo Windows, a Microsoft vincula o GDID dessa instalação com você. Tudo o que acontece nesse sistema pode ser rastreado para você, o usuário individual.

O Windows Latest descobriu que isso é gerado no servidor, mas também é armazenado localmente. Ele pode ser encontrado no registro do Windows em: "HKCU\\SOFTWARE\\Microsoft\\IdentityCRL\\ExtendedProperties".

Embora esse número seja mantido ao atualizar o Windows, ele também é atualizado ao reinstalar o Windows, atribuindo-lhe um novo GDID; embora o original também possa permanecer registrado.

No caso do suposto hacker, ele usou o mesmo dispositivo para todas as suas atividades on-line, portanto, mesmo que sua identidade tivesse sido oculta por outros meios, a Microsoft conseguiu vincular todas essas atividades. Quando a Microsoft detectou padrões de comportamento que combinavam com os de um GDID específico que havia registrado, foi capaz de coordenar com as autoridades para vincular as atividades com o hacker em questão, revelando sua identidade e provocando sua subsequente prisão e a apresentação de acusações contra ele.

Isso levantou preocupações entre os defensores da privacidade, já que a Microsoft não oferece uma opção para desativar esse nível de rastreamento.

 

https://tech.yahoo.com/

quinta-feira, 23 de julho de 2026

segunda-feira, 20 de julho de 2026

 O DRAGÃO
«

 
A Palantir Technologies é uma empresa de software americana especializada em análise de macrodados (Big Data) e inteligência artificial (IA). Fundada em 2003 por Peter Thiel (cofundador do PayPal) e Alex Karp, a empresa é conhecida por desenvolver plataformas avançadas que integram, organizam e interpretam volumes massivos de informações.
O que a Palantir faz?O principal foco da empresa é o software de integração de dados. Em vez de apenas gerar gráficos, ela cria um "gémeo digital" de uma organização, conectando informações de diversas fontes dispersas (como e-mails, imagens de satélite, transações financeiras e registos de saúde). Seu objetivo é transformar dados confusos em decisões em tempo real, permitindo aos analistas identificar padrões e anomalias rapidamente.
As principais áreas de atuação incluem: Setor Governamental e Defesa: Fornece sistemas (como o Gotham) para agências de inteligência e forças armadas, auxiliando em operações de segurança nacional .»
A Palantir deu um forte contributo para a CIA e Pentágono elaborarem o plano de ataque à Rússia ; informada, a Rússia antecipou-se e invadiu. A Palantir continua por detrás da estratégia imperialista.

 O PLANO que vai de CLINTON a TRUMP, PASSANDO POR G. W. BUSH, OBAMA E BIDEN

« A Doutrina Wolfowitz é um conjunto de princípios de política externa e de defesa dos Estados Unidos que defende a manutenção da hegemonia global americana no período pós-Guerra Fria.O termo refere-se à versão inicial do Guia de Planejamento de Defesa (Defense Planning Guidance) de 1992, um documento ultra-secreto elaborado pelo então Subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz, e pelo seu vice, Scooter Libby.
Os pilares fundamentais desta doutrina incluem: Manutenção da Superpotência Única: O principal objetivo é impedir o ressurgimento de qualquer nova potência rival (seja na Europa, na Ásia ou no território da antiga União Soviética).
Unilateralismo: Os Estados Unidos devem estar preparados para agir sozinhos ou com apoio limitado de aliados sempre que os arranjos de segurança coletiva (como a ONU) forem insuficientes para proteger os interesses norte-americanos.Guerra Preventiva: Defende o direito de lançar ataques preventivos contra Estados ou grupos hostis antes que estes representem uma ameaça iminente.Dissuasão Permanente: As forças militares dos EUA devem ser fortes o suficiente para desencorajar qualquer potencial concorrente, mesmo na ausência de um adversário direto.
Contexto e Controvérsia.
O documento foi vazado para o jornal New York Times em março de 1992 e causou forte controvérsia global. Críticos na época consideraram o plano imperialista e agressivo. Contudo, os princípios de ação militar preventiva e unilateralismo acabaram por moldar fortemente a política externa dos EUA pós-11 de Setembro de 2001, influenciando diretamente a Guerra do Iraque em 2003.Para explorar a fundo as origens e os impactos geopolíticos desta estratégia, pode ler mais detalhes nos artigos O Plano Wolfowitz do jornal Público ou na análise Wolfowitz: O arauto da guerra. Se preferir uma perspetiva enciclopédica, pode consultar a página sobre a Doutrina Wolfowitz na Wikipédia.Doutrina Wolfowitz – Wikipédia, a enciclopédia livreA Doutrina Wolfowitz é um nome não oficial dado à versão inicial do Guia de Planejamento de Defesa para os anos fiscais de 1994-19...WikipediaO Plano Wolfowitz | PÚBLICO23/03/2003 — Por um lado, esta guerra representa o primeiro grande teste à nova doutrina da guerra preventiva. » Vista geral da IA

terça-feira, 14 de julho de 2026

 Na URSS: uma história que os vencedores preferem que esqueçamos

Sempre que se fala da União Soviética, parece haver uma obrigação não escrita: começar pedindo desculpas por abordá-la. Como se qualquer análise que não fosse uma condenação absoluta constituísse um ato de heresia política.

Isso não acontece quando se fala de capitalismo. Ninguém quer começar relembrando o colonialismo, a escravidão, as guerras pelo petróleo, as ditaduras financiadas pelo Ocidente ou os milhões de mortes causadas pela fome em um planeta que produz alimentos suficientes para toda a humanidade. Essa assimetria já diz muito sobre quem venceu a batalha da narrativa.

A história é escrita pelos vencedores. E os vencedores da Guerra Fria foram as grandes potências capitalistas, os grandes grupos económicos e um imenso aparato cultural capaz de transformar fatos em uma versão aparentemente aceitável. Hollywood, a grande mídia e até mesmo grande parte do meio académico contribuíram, ao longo de décadas, para construir uma imagem simplificada da URSS que inclui apenas o gulag, a repressão e o fracasso.

Não se trata de negar os erros ou os episódios mais sombrios da experiência soviética. Seria um exercício tão desonesto quanto ocultar os crimes do capitalismo. Trata-se, simplesmente, de exigir rigor histórico e contexto.

Pois processos históricos não podem ser julgados como se ocorressem em um laboratório isolado do mundo. Na União Soviética, nasceu-se após uma guerra mundial, sobreviveu-se a uma guerra civil alimentada por quatorze potências estrangeiras, sofreram-se bloqueios, sabotagem e isolamento económico, e acabou-se por suportar o peso principal da guerra contra o nazismo. Fingir analisar muitas de suas decisões ignorando esse contexto é outra forma de manipulação.

Desde o início, devemos também ter um cuidado especial. À direita, há propagandistas dispostos a demonizar qualquer experiência socialista. Há também historiadores dispostos a prostituir a história para justificar o presente. Nossa obrigação não consiste em repetir esse discurso com uma linguagem aparentemente progressista, mas em fazer uma crítica honesta, equilibrada e materialista.

Pois uma crítica justa não consiste apenas em apontar erros. Ela também exige reconhecer os avanços alcançados.

E esses avanços foram enormes.

A União Soviética transformou um território vasto, atrasado e majoritariamente analfabeto em uma potência científica, industrial e tecnológica em apenas algumas décadas. Implementou saúde pública universal, educação gratuita, acesso garantido à moradia, pleno emprego, sistemas avançados de proteção social, igualdade jurídica entre homens e mulheres e uma Constituição que chegou a reconhecer o direito à autodeterminação das repúblicas que a compunham.

Enquanto grande parte do mundo continuava a considerar as mulheres cidadãs de segunda classe, a URSS incentivou sua ampla participação no ensino superior, na pesquisa científica, na engenharia, na medicina, na administração pública e até mesmo na exploração espacial.

Enquanto milhões de pessoas no Ocidente não tinham acesso a assistência médica, na União Soviética a saúde era um direito garantido.

Enquanto em muitos países o analfabetismo continuava sendo uma realidade cotidiana, a alfabetização atingiu níveis praticamente universais.

E, enquanto o capitalismo enfrentava crises cíclicas de desemprego em massa, o trabalho era considerado um direito e uma obrigação social.

Nada desaparece só porque houve erros. Da mesma forma que ninguém invalida todos os avanços científicos dos Estados Unidos por causa das guerras que o país promove há décadas.

Há também um episódio que simboliza, melhor do que qualquer outro, a abordagem internacional da União Soviética e que raramente aparece nos livros de história: a erradicação global da varíola.

Pouca gente conhece o nome de Viktor Zhdanov. No entanto, milhões de seres humanos devem a ele, indiretamente, a própria vida. Foi ele quem apresentou à Organização Mundial da Saúde um plano ambicioso para eliminar definitivamente uma doença que, durante séculos, matou e mutilou milhões de meninos e meninas.

A proposta parecia impossível. Nunca antes a humanidade havia conseguido erradicar uma doença infecciosa.

Na URSS, não se tratava apenas de um impulso ou de um projeto. Produziram-se milhões de doses de vacina, mobilizaram-se milhares de profissionais de saúde e deixou-se claro que a iniciativa prosseguiria mesmo que o resto do mundo não cooperasse. Por fim, a OMS aprovou o programa e, após quinze anos de cooperação internacional, a varíola desapareceu para sempre do planeta.

Milhões de vidas salvas.

Com que frequência esse fato é lembrado quando se fala da União Soviética?

Muito raramente.

Também não se costuma lembrar que foi o Exército Vermelho quem suportou o peso principal da derrota do nazismo. Aproximadamente 70% das baixas militares alemãs ocorreram na Frente Oriental. Mais de 24 milhões de cidadãos soviéticos perderam a vida para derrotar Hitler.

No entanto, a cultura popular conseguiu consolidar a ideia de que a Segunda Guerra Mundial foi vencida quase exclusivamente pelos Estados Unidos.

Vale lembrar também outro fato que desmente muitas narrativas.

Em março de 1991, os cidadãos soviéticos foram consultados, por meio de um referendo, sobre a continuidade da União Soviética.

Mais de 76% votaram a favor da manutenção da União.

Não foi uma simples pesquisa de opinião.

Foi uma consulta democrática.

E essa vontade popular foi ignorada.

Poucos meses depois, Boris Yeltsin e outros líderes dissolveram a URSS, contrariando o resultado expresso pela maioria da população. O que se viu em seguida foi uma das maiores transferências de riqueza pública para mãos privadas em toda a história contemporânea. Privatizações em massa, o surgimento de oligarcas, a queda na expectativa de vida, a pobreza, o desemprego e a desigualdade marcaram a década de 1990.

É por isso que milhões de pessoas ainda se lembram daquela época com nostalgia.

Não necessariamente porque acreditam que tudo era perfeito.

Mas porque comparam dois modelos diferentes de sociedade.

Comparam segurança com incerteza.

O direito ao trabalho precário.

Uma casa garantida com a especulação imobiliária.

A educação pública com sua comercialização.

Um sistema universal de saúde com cortes orçamentários.

Há uma velha piada russa que resume perfeitamente essa experiência:

"O problema não é que o Partido Comunista tenha nos enganado sobre o comunismo; o problema é que ele nos contou a verdade sobre o capitalismo e nós não quisemos acreditar."

Após várias décadas de capitalismo desenfreado, milhões de trabalhadores ao redor do mundo estão percebendo que muitos desses alertas não eram propaganda, mas sim uma descrição bastante precisa de como funciona um sistema baseado na transformação de direitos em mercadorias e de pessoas em benefícios.

Até mesmo Vladimir Putin, cujo projeto político nada tem a ver com o socialismo, reconheceu uma realidade difícil de negar ao afirmar que quem não sente falta da União Soviética não tem coração.
Como comunistas, discordamos da segunda parte da sua frase. Precisamente porque temos memória histórica e consciência de classe, sabemos que o mundo perdeu muito com o desaparecimento do primeiro Estado socialista da história.

Sua existência obrigou o capitalismo, durante décadas, a fazer concessões que hoje estão sendo desmanteladas. A expansão da saúde pública, a dualidade dos direitos trabalhistas, a dualidade dos sistemas de previdência, a negociação coletiva ou o Estado de bem-estar social não podem ser compreendidos sem a pressão exercida sobre a existência de um modelo alternativo.

O desaparecimento da URSS enfraqueceu enormemente a classe trabalhadora internacional.

Por isso, é profundamente injusto reduzir toda a sua história a uma lista de erros cuidadosamente amplificada por aqueles que nunca analisam com o mesmo rigor as tragédias causadas pelo capitalismo.

A União Soviética não era perfeita.

Não há processo histórico nem é histórico.

Mas foi, provavelmente, o maior salto em frente protagonizado pela classe trabalhadora na história contemporânea. Mostrou que era possível alfabetizar povos inteiros, universalizar a saúde, garantir emprego, derrotar o fascismo, promover a ciência, conquistar o espaço, erradicar doenças e colocar a dignidade humana acima do lucro privado.

Essa é também a história da URSS.

E quem tenta apagá-la não busca compreender o passado.

Busca impedir que as novas gerações imaginem um futuro diferente.

Porque o povo pode ser derrotado. Pode ser enganado. Pode até ser traído.

Mas enquanto existir exploração, a possibilidade de construir uma alternativa continuará a existir.

E, com sorte, apesar das muitas derrotas acumuladas, sempre acaba encontrando um caminho de volta.

André Abeledo Fernández
Traduzido do catalão
Publicado:
julho 13, 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Trotsky e PADURA

 

Trotsky, a esposa Natalya e filho Sedov em Alma Ata (1928). Wikimedia.

Trotsky em Cuba

Tradução
Deborah Almeida e David Guapindaia

O revolucionário russo Leon Trotsky foi assassinado por um agente stalinista neste dia, em 1940, na cidade de Coyoacán, México. Resgatamos aqui seus últimos anos de vida, narrado pelo escritor cubano Leonardo Padura.

Há algum tempo, o escritor cubano Leonardo Padura explora seu desencanto com algumas das realidades de sua amada cidade por meio de seus romances sobre o detetive Mario Conde. Mas é em seu O Homem que Amava os Cachorros, que suas reflexões sociais e políticas sobre o socialismo e a liberdade – em Cuba e fora dela – alcançam sua maior profundidade.

Padura entrelaça as histórias do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, o comunista catalão Ramón Mercader, que ele traz pelas lentes de um narrador cubano, um jornalista despedido do cargo por motivos políticos e forçado a trabalhar como revisor para um diário veterinário.

O fato histórico de que Mercader viveu em Cuba por cerca de quatro anos no final dos anos setenta, trabalhando como assessor do repressivo Ministério do Interior (e que sua mãe Caridad trabalhou durante sete anos como funcionária encarregada de relações públicas na embaixada cubana em Paris nos anos 60), dá a Padura os meios para conectar o assassino com o jornalista. Eles se encontram um dia quando Mercader, acompanhado por um guarda-costas, está passeando com seus amados cachorros na praia de Santa María del Mar onde o jornalista tinha ido ver o pôr do sol.

Sem expor sua identidade, Mercader revela muito de sua vida ao jornalista cubano, fingindo que está falando de uma terceira pessoa e não de si mesmo. E é por meio dessa convenção artística que Padura articula suas idéias sobre o stalinismo, sua psicologia e seus horrores, tanto na esfera da alta política quanto no plano individual. Ao contrário do estereótipo de comunistas semelhantes a robôs, Padura apresenta uma visão diferenciada de uma série de personalidades comunistas. Apesar do peso esmagador da ortodoxia ideológica e do terror, a individualidade de Mercader permanece.

Mercader é inicialmente um comprometido revolucionário lutando do lado republicano na Guerra Civil Espanhola, uma pessoa pensante com uma mente independente. Essa independência começa a ruir sob a pressão de seus camaradas comunistas, que continuamente o lembram de que “o partido está sempre certo e se você não entende, não importa: você tem que obedecer”.

Isso é minado ainda mais quando, depois de ter sido recrutado por oficiais da inteligência soviética, seu superior o informa no meio da Guerra Civil que o próprio Stalin ordenou o expurgo do comando republicano leal ao presidente socialista Largo Caballero. Com isso, Padura também desafia um dos muitos mitos sobre o papel do Partido Comunista e da URSS como salvadores da República Espanhola que ainda prevalecem em grande parte da esquerda internacional.

O golpe final na capacidade já decadente de Mercader de raciocinar de forma independente ocorre quando, em uma das cenas mais assustadoras do livro, o ativista comunista é transformado, em um campo de treinamento na URSS, no soldado anônimo número treze e é compelido a matar um homem desamparado e esfarrapado por ser um “cachorro trotskista, inimigo do povo”.


O outro comunista no romance de Padura é Trotsky, um homem que também amava cães. Com profundo conhecimento e compreensão da obra do líder bolchevique, o escritor cubano o descreve com genuína simpatia: perdido no exílio, privado da cidadania soviética e incapaz de encontrar asilo em qualquer país até que o presidente mexicano Lázaro Cárdenas lhe dá abrigo no México.

O Trotsky de Padura é um homem perseguido – muitos de seus parentes e seguidores foram assassinados por ordem de Stalin. Mas existem diferentes tipos de pessoas perseguidas. Existem aqueles como Nelson Mandela que, durante suas décadas sombrias na prisão, foi apoiado por um grande movimento social e político. E há quem, como Trotsky, perceba, como Padura o fez dizer: “Estou cada vez mais só, sem amigos, sem camaradas, sem família… Stalin levou todos eles. ”

Compreender essa solidão permite a Padura descrever um Trotsky que não se surpreende com as confissões absurdas extraídas das vítimas dos grandes expurgos dos anos 30 na URSS, mas que se entristece muito com a confissão auto-incriminatória de Christian Rakovsky, seu antigo camarada na luta contra Stalin, no terceiro julgamento de Moscou em 1938.

Instigado pela simpatia ao líder russo, Padura mostra Trotsky censurando-se internamente por não ter reconhecido os excessos que ele mesmo cometeu ao tentar defender a sobrevivência da revolução, “embora nunca o admitisse publicamente”, afirma o autor. O Trotsky imaginado por Padura lamenta as ações que tomou para militarizar os sindicatos ferroviários e as políticas coercitivas aplicadas durante a reconstrução pós-Guerra Civil, a substituição de dirigentes sindicais e até mesmo seu papel no esmagamento sangrento da revolta de Kronstadt.

Estas são especulações plausíveis, embora excessivas, de Padura à luz das revisões que Trotsky fez durante os anos 30 sobre muitas das idéias políticas que ele havia adotado particularmente durante a Guerra Civil de 1918-20 – revisões que o fizeram rejeitar, por exemplo, o princípio do partido único como pedra angular do socialismo no poder. Ao mesmo tempo, essas podem muito bem ser as projeções de Padura refletindo retrospectivamente sobre como um sistema semelhante foi implantado em seu próprio país.

Padura, vivendo sob uma espécie de comunismo em Cuba, também destaca Trotsky como um crítico literário que afirma, sem hesitar, que “tudo é permitido na arte”. Não por acaso, o escritor cubano destaca a ocasião em que André Breton, em sua visita ao México, diz a Trotsky que tudo é permitido na arte exceto ataques à revolução proletária. Trotsky responde que na arte nenhuma restrição pode ser permitida – que não há nada que uma ditadura deva impor ao criador sob a desculpa de necessidade histórica e política, e que a arte deve obedecer apenas às suas próprias exigências.


Com tanta simpatia e respeito pela verdade histórica como pela forma que trata Trotsky, seria um grande erro ver Padura como simpatizante do trotskismo. Sem diminuir a notável realização de Padura em retratar não apenas Trotsky, o homem, mas também Trotsky, o pensador político, ele falha em compreender, talvez por causa de sua própria formação política, certos conceitos estratégicos do pensamento trotskysta.

Padura apresenta com precisão a dura crítica de Trotsky ao comunismo alemão e sua política suicida em relação ao nazismo que tratava a social-democracia (“social fascismo”, de acordo com a linguagem dos stalinistas) como equivalente ao nazismo. Mas ele erroneamente deixa implícito que Trotsky defendeu uma espécie de Frente Popular de todas as forças de “centro e esquerda” para combater o nazismo e o fascismo. Em vez disso, ecoando o Comintern do início dos anos 20, Trotsky propôs uma política da Frente Unida que reuniria todas as forças da classe trabalhadora, que incluía a social-democracia, mas excluía os partidos burgueses, independentemente de quão liberais e democráticos eles fossem.

Em outras palavras, Trotsky apoiava uma política de classe, não uma política “popular”. Ele supôs, como no caso da Espanha, que a oposição ao fascismo só poderia ter sucesso se fosse baseada na mobilização dos interesses de classe, o que acabaria por levar à revolução socialista – a única alternativa real ao fascismo para Trotsky, dada a decadência da sociedade capitalista, mesmo em suas versões democráticas.

Qualquer dúvida que possa ter permanecido sobre as possíveis inclinações trotskistas de Padura foi removida por sua recente entrevista ao Espacio Laical, a publicação liberal católica cubana, onde ele disse que Trotsky tinha sido tão “fanático” quanto Mercader – uma declaração que parece completamente em desacordo com o espírito e a letra de O Homem que Amava os Cachorros.


Ainda assim, o personagem principal de O Homem que Amava os Cachorros não é Leon Trotsky nem Ramón Mercader. É a única figura da trama totalmente fictícia, a única das três que é cubana: o próprio narrador. Iván é um jovem jornalista que já foi punido duas vezes pelo sistema por ser muito independente na época que conhece Mercader.

Pouco depois de se formar na universidade, as autoridades o enviaram para a longínqua cidade de Baracoa para trabalhar como chefe da estação de rádio local – uma ação destinada a servir como um “corretivo” do governo cubano para “me derrubar e me impor este mundo”. Na segunda vez, ele foi enviado para trabalhar para uma revista veterinária como revisor. Então, para aumentar seus infortúnios profissionais, seu irmão é excluído da universidade por ser gay e desaparece ao tentar fugir para os EUA.

A história pessoal de Iván começa a se desenrolar na década de setenta, período que marca os quatro anos em que Mercader residiu em Cuba como assessor do Ministério do Interior e também o ponto alto da repressão política e cultural do stalinismo na ilha.

Foi durante esses anos “amargos” que Iván foi marginalizado e reprimido pelas autoridades cubanas – justamente quando começava a se revelar como escritor sério. Iván esclarece que a vida de escritores como ele não corria perigo naquela época. Em vez disso, o sistema os transformou em nada. Ou seja, conta Iván, quando soube o que era o medo:

Acho que naqueles anos devemos ter sido os únicos membros de nossa geração em toda a civilização estudantil ocidental que, por exemplo, nunca colocaram um baseado entre os lábios e que, apesar do calor correndo em nossas veias, nos libertaríamos tardiamente do atavismo sexual, liderado pelo maldito tabu da virgindade (não há nada mais próximo da moralidade comunista do que os preceitos católicos); no Caribe espanhol éramos os únicos que vivíamos sem saber que estava nascendo a salsa ou que os Beatles (os Rolling Stones e Mamas and the Papas também) eram os símbolos da rebelião e não da cultura imperialista, como nos diziam muitas vezes; e além disso, éramos, na época, os menos informados sobre a extensão das feridas físicas e filosóficas produzidas em Praga por tanques que funcionavam como mais do que ameaças, sobre o massacre de estudantes em uma praça mexicana chamada Tlatelolco, sobre a devastação histórica e humana desencadeada pela Revolução Cultural do nosso querido camarada Mao, e sobre o nascimento, para as pessoas da nossa idade, de outro tipo de sonho, morto nas ruas de Paris e nos concertos de rock da Califórnia.

Em seguida, situando-se nos anos 90, Iván revisita o nascimento e a morte das esperanças suscitadas pela Perestroika, a descoberta da verdade sobre o ditador romeno Nicolae Ceaucescu, os horrores da Revolução Cultural na China e a decepção por ter descoberto que o grande sonho de emancipação humana e igualdade estava mortalmente doente, e que genocídios como o cometido no Camboja pelo regime do Khmer Vermelho de Pol Pot foram cometidos em seu nome. O que parecia indestrutível havia se rasgado nas costuras.


Leonardo Padura, é um dos principais representantes de um novo ambiente intelectual e cultural da ilha que apoia a liberalização e democratização da sociedade cubana. Mas ele está em uma posição única no sistema cubano: embora tolerado e até festejado, sua obra mais crítica não foi divulgada ao grande público. Ele parece ter alcançado um grau muito maior de independência das autoridades do que outros artistas e intelectuais conhecidos na ilha.

Assim, ele tem apoiado criticamente o programa de reforma do governo, mas tem agido com muito mais independência do regime do que outros artistas e intelectuais cubanos de renome – por exemplo, abstendo-se de endossar muitas das declarações denunciando dissidentes patrocinados pelo aparato cultural do Estado cubano. Como o próprio Padura sugeriu em várias ocasiões, isso foi possível em parte devido à sua independência econômica do governo, que foi conquistada com a publicação de suas obras no exterior.

Nos agradecimentos ao final de O Homem que Amava os Cachorros, Padura escreve que a “semente” do livro começou a germinar em sua mente durante uma visita que fez, pouco tempo antes do colapso do bloco soviético, a casa de Trotsky no bairro de Coyoacán na Cidade do México, um museu que para ele era “um verdadeiro monumento à ansiedade, ao medo e ao triunfo do ódio durante a época em que os Trotsky moravam lá”.

Quinze anos depois, com a URSS morta e enterrada, diz o romancista cubano, ele contou a história do assassinato de Trotsky “para refletir sobre como a grande utopia do século XX foi corrompida”. Vergonhosamente, após ter sido publicado e comentado favoravelmente pela imprensa oficial da ilha, e mesmo tendo recebido o Prêmio Nacional de Literatura em 2012, a tiragem da edição cubana de seu livro foi tão pequena que ficou indisponível logo após sua apresentação pública.

O governo cubano quer matar dois coelhos com uma cajadada só: relaxar alguns controles políticos e ao mesmo tempo impedir a difusão de idéias que podem subverter seu monopólio de poder. Padura não foi censurado ou reprimido pelo governo cubano. Mas, semelhante a seu narrador Iván, ele foi modulado para ter menos importância do que deveria.

nasceu e foi criado em Cuba e é autor de muitos artigos e livros sobre esse país. Seu livro Before Stalinism: The Rise and Fall of Soviet Democracy acaba de ser reimpresso e disponível para venda pela Verso Books.

domingo, 12 de julho de 2026

3º CONGRESSO

 3º CONGRESSO DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA

A minha participação no 3ª Congresso da Oposição Democrática (Aveiro 4 a 8 de Abril de 1973) começou muito antes, provavelmente um ano antes. Os ativistas do Movimento da Oposição no distrito do Porto reuniram-se frequentemente no decurso dos meses de preparação. Muitas dessas reuniões realizaram-se na cave da República de estudantes “24 de Março”, na cidade do Porto, edifício que ainda existe e ostenta uma placa de homenagem da cidade e da respetiva edilidade.  A Oposição Democrática já dispunha de um escol muito experimentado de ativistas- de operários, empregados, funcionários públicos, estudantes - muitos deles jovens oriundos das batalhas políticas de 1969, entre os quais eu me incluo. Os encontros não se dedicavam exclusivamente à preparação da nossa participação no Congresso ; primeiro, porque a organização deste esteve entregue em grande parte aos ativistas antifascistas do distrito de Aveiro; segundo, porque o Congresso inseria-se nas batalhas políticas desse ano crucial em que se realizariam também eleições legislativas em Outubro. Por conseguinte cada um de nós ia operando em múltiplas frentes, desde a Universidade onde estudava, a escola onde já lecionava, a fábrica, o escritório...discutindo e votando documentos que iria a seguir distribuir à população fosse nos locais reservados para o recenseamento eleitoral em situação legal embora completamente vigiada, fosse em distribuições ilegais alguns deles (nesse ano eu e outros ativistas fomos detidos pela PIDE-DGS nas celas da Rua do Heroísmo, dias ou semanas ; quanto a mim fui detido mais do que uma vez).

Entretanto, a Oposição Democrática dera grandes passo em frente ( criação de comissões distritais coordenadoras ou diretivas representando democraticamente numerosas comissões de base, Comissão dos Trabalhadores, Comissão dos Jovens Trabalhadores, C. das Mulheres, C. dos Estudantes . Comissões sócioprofissionais tais como dos Médicos, dos Bancários, fundação da Comissão Central ou Nacional da Oposição Democrática (deixo o rigor das designações e das datas aos que dispõem de mais memória e mais documentação), a qual realizou mais de um encontro em Lisboa e da qual fizeram parte talvez três ativistas, entre eles eu próprio. Nestes encontros discutiu-se a realização do III Congresso e como transformar o curto período da campanha eleitoral do de 1973 num prolongado, ininterrupto período de lutas unindo cada vez mais todas as correntes políticas e sectores da população. No Porto havia-se fundado um periódico - semanário- intitulado “A Opinião” que obteve desde logo um notável sucesso, tanto mais que era legal apesar da vigilância da censura. Por conseguinte, as atividades antifascistas constantes (não dávamos tréguas à ditadura nem férias a nós mesmos) que iam desde unitários e eficientes encontros locais e nacionais até à edição de semanários e ao muito ativo associativismo e cooperativismo, propiciaram uma larga e enérgica participação dos democratas de norte a sul do país.

Distribuímos as tarefas e responsabilidades. Fez-se a distinção na apresentação dos textos para o Congresso os textos  a título coletivo, dos textos a título pessoal (as chamadas “Teses” apresentadas por oradores dirigentes do Movimento da Oposição Democrática do Norte foram dadas a conhecer nas suas linhas principais em Plenários Distritais, sendo embora elaborados a título pessoal) . Entreguei à direcção executiva do Congresso duas Teses, que apresentei e que estão publicadas: “Esboço para um quadro afirmativo das contradições do capitalismo em Portugal”, e A crise do fascismo e a aproximação da vitória das forças democráticas” ; a primeira dirigida à Secção “Desenvolvimento Económico e Social” (a C. Executiva do Congresso nomeou-me membro da mesa coordenada desta secção); a segunda, à Secção “Situação e Perspetiva Política no Plano Nacional e Internacional”. Neste texto pretendi expor as contradições em que estava enredado o regime fascista : económicas, sociais, políticas. Escrevi então que “Os sectores sociais que constituíam o regime: meia dúzia de  industriais e financeiros que gozavam de monopólios,  aliados aos latifundiários do Alentejo, submetendo-se ambos sectores do capitalismo ao imperialismo internacional, recusam e revelam-se incapazes em resolver os graves problemas nacionais de que são inteiramente responsáveis e que se agudizam rapidamente”, particularmente pela guerra colonial e pelos seus custos em vidas,  financeiros e políticos (nomeadamente o isolamento internacional), as consequências estranguladoras da meia dúzia de monopólios industriais-comerciais-financeiros (uma concentração e centralização absolutas que criavam profundos descontentamentos na pequena e média burguesia dependente e sufocada por impostos ). Deste modo procurei demonstrar a existência de condições excecionalmente favoráveis para lutas unitárias que confluiriam no Congresso e depois dele, trazendo a “aproximação da vitória das forças democráticas”. As Conclusões da minha Tese não colidiram de modo algum com as Conclusões finais e consensuais que iriam ser votadas pelo Congresso. Escrevi eu então: “Plataforma Mínima com base nos seguintes objetivos de acção: 1- Luta pelas Liberdades Fundamentais e Contra todas as formas de repressão; 2- Luta contra a Guerra Colonial , exigindo-se o seu fim imediato e abertura de negociações com os Movimentos de Libertação com base nos direitos dos povos à autodeterminação e independência; 3- Luta contra a carestia de vida e contra a política monopolista e de submissão ao imperialismo; enfim, 3- Luta pela conquista de um Regime Democrático de base popular [sublinhado agora por mim], pela paz e pela independência nacional.

 

Chegou o dia inicial do Congresso. Para lá viajei sempre na companhia do saudoso camarada Joffre Amaral Nogueira, meu amigo mais velho muito querido e respeitado. Durante o decorrer da apresentação das Teses em nome individual ou coletivo levantavam-se acaloradas discussões (nem sempre de bom tom) entre as diversas correntes ideológico-políticas que atravessavam a massa dos colaboradores e assistentes. Contudo, a poderosa nota final que o Congresso transmitiu foi de unidade, como se demonstrou na aprovação, sem conflitos, da Resolução final ou Plataforma. Constituíam os objetivos imediatos a serem alcançados pela luta nacional contra a ditadura e para a implantação de um regime patriótico, democrático e anticolonialista!

Foram três dias que marcaram a história de Portugal .

 

No final, esses três dias intensos convergiram em uma romagem ao cemitério da cidade de Aveiro para homenagear o grande intelectual antifascista Mário de Sacramento.manifestação pública grandiosa que foi violentamente reprimida ela tropa-de-choque, guardiões da ditadura. Esse ato , que eu classifico como desesperado do fascismo,  foi o seu erro político definitivo : o Movimento dos Capitães já preparava as suas reuniões clandestinas...

 

A carga policial terrorista atacou a linha da frente da manifestação ordeira e pacífica. Corremos eu e a minha mulher grávida o melhor que pudemos para uma estreita rua lateral. Sentámos-nos porque ela já não aguentava mais o esforço. Momentos depois sentou-se ao nosso lado o Zeca Afonso. E ali ficámos os três silenciosos. “Ao contrário do que parece, fomos nós que vencemos!”, disse eu dirigindo-me ao admirado companheiro daquela hora. E ele assentiu com aquela cabeça que criava então canções que ainda me comovem até à lágrimas.

-----NOZES PIRES----16/10/2022

 

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.