quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Na Hora da Nossa Morte (cont.)-

Diário de Carlos 4

Morreu na cama, durante o sono. Ninguém ao seu lado para pedir socorro. E como saber, se a pessoa ao nosso lado aparenta simplesmente dormir? Ninguém sabe se teve um sobressalto, se pediu ajuda, se teve a noção de que ia morrer. A única doença - os diabetes - que quase não o incomodavam, matou-o. A mulher, minha mãe, fora levada numa ambulância nesse dia para Coimbra, julgando que era ela que ia morrer. Provavelmente a aflição matou-o. Alguém deu-me a notícia pelo telefone, o traço com que desenhava uma vivenda para um cliente saiu subitamente torto, pousei o telefone e fixei demoradamente a chuva que fustigava a janela ampla do gabinete. Avisei os colegas, a Carla de olhos claros abraçou-me com insuspeitado carinho, o Vasco de brinco na orelha e esguio como um cipreste pôs ambas as mãos nos meus ombros, não senti vontade de chorar mas, antes, uma desconcentração, atrapalhei-me a encontrar o caminho para a saída, deixei ir abaixo o automóvel, estacionei em frente de casa amolgando a porta de outro carro, fiz um saco de viagem com meia dúzia de roupas sem nexo e já em plena viagem é que informei a Sofia do que sucedera e para onde eu ia. A vila onde meu pai falecera e ia ser enterrado ficava a mais de duas centenas de quilómetros. Cinquenta quilómetros andados voltei para trás, dirigi-me ao local de trabalho da Sofia, abracei-me a ela e foi então que chorei. Partimos juntos depois dela preparar a sua maleta com mais demora.

O meu pai havia sido um bom pai para mim, talvez duro demais com os outros filhos, comigo fora sempre compreensivo, mesmo quando reprovei um ano escolar naquela idade em que só fazemos parvoíces. Fui dos meus irmãos o único a querer seguir os estudos e ele apoiou-me, apesar de não existirem meios para mos sustentar. Foi por ele que aprendi muito cedo a apreciar a grande literatura, foi por ele que comecei muito cedo a gostar dos jogos com as palavras. Então, via nelas as ondas ora bravas, ora mansas, do mar. Hoje, vejo apenas a espuma.

Ontem fui jantar com a Carla. Devia dizer: levei-a a jantar? Na verdade já não se leva mulher alguma a jantar, a não ser que ela viva naquele sertanejo onde está sepultado o meu pai. Convencemo-nos ambos que poderia surgir algo da nossa longa camaradagem de trabalho. Divorciada, solteira, os olhos vivos, o andar tímido, miúda, Carla é a fragilidade em pessoa. Sempre a pedir desculpa por existir, por estar ali ou acolá. Todavia, por detrás daquela mansidão natural, não há submissão consentida. Se fomos para o seu apartamento fingir que íamos beber um último copo, foi porque ela o quis. De resto, ela não bebe qualquer espécie de álcool. Se fizemos amor foi porque ela me pediu para dançarmos ao som do cd que colocou, e ela saberá porque o escolheu, Prophesy, de Gilio Sawhney. Versos graves e quase tristes sobre um ritmo erotizante. Desprendeu-se (porque não fiquei surpreendido?) soltou a sua natureza feminina, maneou as ancas estreitas, primeiro com alguma timidez, depois foi crescendo no espaço, libertou-se no tempo, a Carla, afinal, mostrava experiência de discotecas, e porque não havia de ser assim? Não olhava para mim quando ritmou os movimentos preliminares, depois olhava-me cada vez mais longa e fixamente, a Carla exibiu uma perfomance magnífica, um corpito fino e juvenil, as mamitas sem volume, aquele tipo de mulher-rapariguita que os jovens não reparam , excepto cara a cara, porque são claríssimos os seus olhos azuis, vistosa a sua abundante cabeleira de cores quentes, calculadas as suas palavras. Dela se pode dizer que vai à fonte insegura mas formosa.

Hoje penso nela assim: um pequeno vulcão adormecido, a metáfora gasta serve muito bem. Penso nela e desisto dela. A diferença brutal de idades não me permite alimentar ilusões. Não se trata de paixão (em ambos a paixão seria recíproca e fulminante), ou melhor: porque se tratam de paixões é que não posso, não devo, permitir que Cupido faça de mim um alvo fácil, é comum a sabedoria de que a mulher jovem é ciumenta e, eu, se o não for de início, tornar-me-ei logo que lhe dê a conhecer os primeiros sinais da velhice que avança inexorável. Antevejo o sofrimento que virá, um dia não muito longínquo, quando ela se vir cortejada por um rapaz da sua idade ou pouco mais, um amigo, um colega da universidade onde ela tenta alcançar o mestrado (trabalha connosco em part-time). Inevitável. A Carla só pode ser um episódio na minha vida, um anúncio apenas de felicidade, de rejuvenescimento, dessa potência activa, alegre, de existir, de que tanto necessito. Somente isto: um clarão na noite escura.

Amanhã é sexta feira, não vou produzir, não vou criar nada. Vou conduzir duzentos quilómetros, rever a campa onde meu pai foi sepultado há vinte anos, quando eu era tão jovem que acreditava no amor apaixonado.

2 comentários:

Méon, disse...

Visitamos as campas dos nossos mortos e sabemos que NOS estamos a visitar.
Nenhum amor nos salvará e só a lucidez de nos sabermos tão pequenos num universo absurdamente grande nos dá a única saída: rir deste absurdo!

Meg disse...

Gostei mais uma vez de te ler...
Não sei se estou de acordo com o Méon, porque ainda acho que o amor, embora nos tire por vezes a lucidez, ainda nos ilumina e ajuda a sobreviver neste universo tão absurdo.
E que venham os clarões... muitos... que a noite não será tão escura...

Um abraço


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