Via Láctea © Valentina Crespi et al. / CC BY 4.0

Em 1971, os astrofísicos Donald Lynden-Bell e Martin Rees propuseram a existência de um buraco negro no centro da Via Láctea e, provavelmente, de todas as galáxias do universo. Mais tarde, em 1974, descobriu-se que estavam certos e que a intensa fonte de rádio conhecida como Sagitário A* era realmente um objecto deste tipo. Naquela mesma década, Stephen Hawking revolucionou a astrofísica através dos seus estudos relacionados com o comportamento dos buracos negros do centro das galáxias, demostrando que podiam emitir radiação. Isto era algo que se considerava impossível, pois nem a luz consegue escapar de um buraco negro.


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Agora, um artigo recentemente publicado na revista Royal Astronomical Society propõe uma alternativa queexplicaria alguns fenómenos gravitacionais que ocorrem no centro da Via Láctea e que ainda permanecem um mistério. Esta proposta contradiz a existência de um abismo gravitacional infinito no coração da nossa galáxia, substituindo-o por uma estrutura composta por fermiões leves, um elemento capaz de gerar a mesma influência sobre as estrelas vizinhas, mas dispensando a necessidade de um horizonte de acontecimentos.

Matéria escura no núcleo

Este modelo unificado permitiria perceber tanto a velocidade das estrelas S como a rotação das zonas externas da galáxia. Segundo os autores, este núcleo de matéria escura é tão compacto que consegue imitar a atracção gravitacional de um buraco negro com quatro milhões de massas solares. “É a primeira vez que um modelo de matéria escura une com sucesso escalas tão diferentes”, afirmou o investigador Carlos Argüelles sobre o tema.


 

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Esta nova ideia científica é suportada por dados obtidos pela Missão Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), os quais mostram uma diminuição da velocidade de rotação nas franjas da galáxia. O modelo de matéria escura prediz uma estrutura mais apertada e confinada do que os halos convencionais, sendo compatível com as medições actuais. O estudo elimina a necessidade de tratar o objecto central e o halo galáctico como entidades separadas, considerando-os uma substância contínua.

A sombra visual

Uma das provas mais relevantes desta análise é a sua compatibilidade com a imagem de Sagitário A* captada pelo telescópio Event Horizon Telescope (EHT) em 2022. A densidade do núcleo fermiónico é capaz de curvar a luz de uma forma tão extrema que projecta uma zona de escuridão central rodeada de brilho.


 
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Fazendo uma comparação estatística, a equipa determinou que os dados actuais das estrelas S não permitem descartar inteiramente a presença de um buraco negro. Não obstante, a alternativa da matéria escura proporciona um marco teórico que abrange desde os objectos centrais até à dinâmica global da Via Láctea.

O passo seguinte para confirmar esta hipótese requer o uso de tecnologia de alta precisão em observatórios situados em locais como o Chile. O interferómetro Gravity, instalado no Very Large Telescope, será fundamental para procurar rastos específicos da física dos buracos negros. A ausência dos denominados anéis de fotões secundários seria uma prova definitiva a favor da hipótese do núcleo de matéria escura no centro galáctico.

Se as observações futuras confirmarem que Sagitário A* não possui estes anéis luminosos, o nosso conhecimento da Via Láctea mudará de forma irreversível. Este leviatã invisível que governa o coração do nosso sistema deixaria de ser um ponto de não-retorno para se assumir como uma complexa acumulação de partículas subatómicas, deitando por terra décadas de investigação, incluindo de autênticos génios da física.