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domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

O fascismo foi profundamente antissocialista: o que a série “Mussolini, o filho do século” tem a ver com o livro do mês o Armas da Crítica 

Imagem: Divulgação

Por Alvaro Bianchi

A série Mussolini: o filho do século, disponível em streaming na plataforma Mubi, pode ser assistida como uma introdução poderosa e extremamente eficaz ao meu novo livro, Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, lançamento que chega em primeira mão aos assinantes do Armas da Crítica —o clube do livro da Boitempo. O caminho também pode ser feito no sentido inverso: o livro ajuda o espectador a compreender melhor alguns dos acontecimentos que a série dramatiza. 

Quando assisti à série, o manuscrito já estava nas mãos da editora. Eu conhecia previamente o livro homônimo de Antonio Scurati — M, o filho do século —, e acompanhava com curiosidade o debate que tanto a obra quanto sua versão audiovisual vinham provocando na imprensa italiana. Ainda assim, a experiência superou minhas expectativas. 

Dirigida por Joe Wright, a série narra a trajetória de Benito Mussolini entre 1919 e 1925. Luca Marinelli interpreta o duce com uma intensidade rara, construindo um personagem atravessado por contradições, ao mesmo tempo brutal e carismático, grotesco e sagaz, temerário e inseguro. Ao seu lado, destacam-se Francesco Russo, no papel de Cesare Rossi, figura central nos bastidores do jornal Il Popolo d’Italia naqueles primeiros anos; Barbara Chichiarelli, que encarna Margherita Sarfatti, a intelectual de modos aristocráticos e sofisticados que era amante do chefe fascista; e Benedetta Cimatti, como Rachele Mussolini, esposa fiel e traída, quase sempre colocada à margem dos grandes acontecimentos. 

Imagem: Divulgação

O roteiro, assinado por Stefano Bises e Davide Serino, se beneficia do rigor narrativo da saga de Scurati e de sua colaboração como consultor. Evidentemente, a pentalogia não é uma biografia acadêmica como o empreendimento monumental de Renzo De Felice, publicado entre de 1965 e 1997, obra que utilizei amplamente em minha pesquisa. No livro de Scurati, encontram-se aqui e ali erros de datação e atribuições imprecisas de títulos e frases a personagens históricos. De resto, nenhuma obra volumosa está imune a deslizes, e mesmo De Felice incorreu nos seus. 

Ainda assim, no conjunto, a saga de Scurati permanece bastante próxima do que hoje se conhece sobre Mussolini e sobre a dinâmica política do fascismo nascente. A série, por sua vez, busca seguir essa fonte de inspiração tanto quanto a linguagem audiovisual permite, condensando a narrativa e fazendo suas escolhas dramáticas. 

Imagem: Divulgação

O fato de o livro ser um romance, e não um trabalho historiográfico, dá a Scurati uma liberdade decisiva, inclusive para não explicitar suas matrizes de leitura. Em alguns momentos, reconheço sob a superfície a presença de De Felice, mas também a de intérpretes que o enfrentaram e reorientaram o debate, como Giulia Albanese. Pode ser, em parte, um efeito da minha familiaridade com esse campo historiográfico, mais do que um traço inequívoco do texto. Ainda assim, não creio que sejam apenas “vozes em minha cabeça”. 

Na série, essas camadas não são tão audíveis. Com pouco tempo à disposição, sutilezas historiográficas tendem a se tornar ainda mais tênues. O que me parece, ao contrário, claramente perceptível é uma opção estética que remete ao futurismo italiano, ao mesmo tempo justificável do ponto de vista histórico e incrivelmente eficaz como dispositivo de encenação. A direção aposta na velocidade dos acontecimentos, e a fotografia constrói uma sensação de vertigem que evoca a atmosfera das vanguardas, como se a aceleração fosse parte do próprio argumento. 

Para o historiador, essa rapidez pode soar excessiva. Quem assistir à série tendo em mãos a cronologia que publiquei ao final do livro, ou mesmo acompanhado do texto de Scurati, perceberá que eventos separados por meses aparecem como se fossem quase contíguos. Mas o tempo acelerado produz um efeito estético que, na maior parte das vezes, justifica as escolhas do diretor. 

Em vários momentos, os enquadramentos evocam a aeropittura de Gerardo Dottori, reforçando a impressão de que a linguagem visual foi concebida como comentário sobre a modernidade agressiva e exaltada que acompanhou os primeiros passos do fascismo. Essa estética funciona muito bem para esse período inicial do fascismo, marcado por aceleração, improviso e violência. Tenho dúvidas, porém, de que ela se ajustasse aos anos seguintes, quando a rotina da política estatal e a administração do poder foram drenando a energia do movimento e impondo outra temporalidade ao regime. Não por acaso, Marinetti perde centralidade à medida que o fascismo se burocratiza e constrói suas instituições estatais. 

Imagem: Divulgação

Dois temas que atravessam meu livro encontram na série uma tradução particularmente feliz. O primeiro é o caráter profundamente antissocialista do fascismo. Em Scurati, não há margem para dúvidas: a ruptura de Mussolini com seu passado socialista é apresentada como radical, e o fascismo surge como negação ativa daquele passado. A série permanece fiel a esse eixo e evidencia como o antissocialismo foi decisivo para pavimentar a adesão de setores da burguesia rural ao movimento de Mussolini. Nesse ponto, a narrativa é decididamente antifascista e, a meu ver, antidefeliciana, uma vez que não oferece ao protagonista qualquer possibilidade de redenção. Gosto dessa perspectiva. Quem ainda repete a caricatura de que o fascismo teria sido uma espécie de desdobramento do socialismo precisa procurar argumento em outro lugar. 

O segundo tema é a pluralidade interna do fascismo. A série evidencia a tensão entre um fascismo urbano e parlamentar e outro rural e squadrista, retomando uma linha interpretativa inaugurada por Antonio Gramsci, que em 1921 falava em “dois fascismos”. Mas me parece mais adequado reconhecer um leque mais amplo de variações, com fronteiras móveis e conflitos frequentes. Correntes distintas disputavam espaço e redefiniam alianças, como se vê, por exemplo, na distância que separava liberal-fascistas e católico-fascistas, tema que exploro no livro. No fim, o fascismo se constituiu como um ponto de convergência instável, no qual indivíduos, grupos e tendências políticas e intelectuais heterogêneas se reuniram em torno de um programa antissocialista e ultranacionalista. 

Os confrontos entre essas diferentes almas eram permanentes, e a série os dramatiza com inteligência. Eles aparecem no pacto de pacificação com os socialistas em 1921; nas disputas em torno da composição da lista eleitoral de 1924 e na dissidência de Cesare Forni; e, sobretudo, no terremoto político desencadeado pelo assassinato de Giacomo Matteotti, seguido pela ruptura de Cesare Rossi, episódios que a série coloca no centro do seu arco narrativo.  

Imagem: Divulgação

É aqui que o nexo entre a série e meu livro se torna mais produtivo. A série dá forma concreta a problemas que o livro analisa com mais detalhe, como a disputa entre correntes fascistas e as tentativas, em grande parte malsucedidas, de normalizar o movimento e enquadrá-lo como política ordinária. O livro, por sua vez, recoloca os episódios narrados na tela numa moldura interpretativa mais ampla, ao discutir como certas linguagens liberais e certas concepções de Estado, autoridade e ordem ofereceram pontos de contato seletivos com o fascismo e contribuíram para torná-lo aceitável em determinados círculos.  

Assistir à série pode tornar mais intuitivas algumas dinâmicas que o livro reconstrói. Ler o livro permite assistir à série com outro foco, distinguindo ritmo dramático e cronologia, identificando continuidades e inflexões, e percebendo melhor como, naqueles anos decisivos, a violência e a exceção puderam ser reapresentadas como política normal. 

Fica, então, o convite. Assistam à série e leiam o livro, de preferência ao mesmo tempo, colocando-os em diálogo. 


***
Alvaro Bianchi é professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Laboratório de Pensamento Político (Pepol/Unicamp). É mestre em sociologia (2000) e doutor em ciências sociais (2004) pela Unicamp. Além de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas (Boitempo, 2026), é autor de O laboratório de Gramsci (Zouk, 2018) e Gramsci entre dois mundos (Autonomia Literária, 2020). Foi diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (2009-2017) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (2017-2020).


Lançamento de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi. Debate com o autor,Luciana Genro e mediação de Ronaldo Tadeu.


UM ESTUDO PROVOCATIVO SOBRE OS LAÇOS ENTRE O FASCISMO E O LIBERALISMO. 

Desafiando o mito da oposição entre ambos, este livro revela uma tradição liberal-fascista que ligava a liberdade à autoridade e ao Estado forte. Alvaro Bianchi oferece uma visão essencial sobre como os ecos da ideologia fascista persistem nas democracias de mercado atuais.
Clara E. Mattei, autora de A ordem do capital

Há um século a humanidade viu o fascismo chegar ao poder na Itália e espalhar suas ramificações pela Europa e pelo mundo. Ao longo dos anos, houve períodos em que parecia impossível afirmar que algo próximo ao fascismo poderia retornar, mas os regimes e personalidades que emergiram nas últimas décadas deixaram claro que a sombra do fascismo está viva e atuante.  

Na contracorrente da historiografia dominante sobre o tema, este livro se debruça sobre as insistentes tentativas de acomodação da ideologia fascista com o liberalismo. A tese é que longe de negar o projeto fascista, tais esforços de “normalização” representaram uma estratégia para torná-lo perene. Combinando farta pesquisa em arquivos primários e notável rigor sociológico, o cientista político Alvaro Bianchi oferece um raio-x do liberal-fascismo.  

Embora centre sua investigação na Itália – cotejando as aproximações entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile –, o autor examina as características antiindividualistas, antinaturalistas e antidemocráticas dessa corrente política híbrida também em países da América Latina. O resultado é uma contribuição original que não só ilumina o fascínio que o fascismo exerceu sobre os liberais, como fornece um precioso instrumental para compreender o neofascismo e o pós-fascismo atuais.   

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