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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 A fabricação ideológica do consentimento das novas guerras imperialistas
Saïd Bouamama
12 de fevereiro de 2026

As guerras imperialistas multiplicam-se desde o desaparecimento da URSS, que significou simultaneamente o fim de todos os equilíbrios resultantes da derrota do nazismo. Do Iraque à Síria, passando pela Líbia, Sudão ou Líbano, etc., as grandes potências ocidentais em geral e os Estados Unidos em particular intervêm militarmente, direta e/ou indiretamente, em nome da defesa de «grandes valores universais»: direitos humanos, direitos das mulheres, proteção das minorias, etc.  Estes novos discursos ideológicos de legitimação das guerras tentam criar um consenso popular em torno das guerras, com consequências graves tanto para os povos dos países agredidos como para os dos países agressores.

A consideração do longo prazo

Desde o nascimento do capitalismo no século XVII, os discursos de legitimação das guerras evoluíram paralelamente às mutações do novo sistema capitalista. Na sua fase pré-imperialista, a do capitalismo anterior ao domínio dos monopólios, as guerras tinham como objetivo principal a pilhagem e a destruição de civilizações inteiras. Essas pilhagens e destruições foram justificadas primeiro pela «doutrina da descoberta» [afirmando que as Américas «descobertas» pelos conquistadores não tinham proprietários] e depois pela invenção do racismo [afirmando uma hominisa hominização incompleta dos indígenas e, consequentemente, uma missão de humanização para os colonizadores]. A escravatura, a colonização, a evangelização forçada, o trabalho forçado, etc., eram justificados como meios necessários para humanizar povos ainda em estado animal ou para fazer evoluir «povos infantis».

A segunda globalização do capitalismo [1850-1914] dá continuidade à primeira [1492-1850] com a corrida para a África na segunda metade do século XIX. Os progressos do conhecimento científico, as «famosas luzes» e as suas consequências políticas [afirmações humanistas, universalistas, etc.], o desenvolvimento do movimento operário, etc., todos estes fatores desencadeiam uma mutação nos discursos de justificação da conquista. É assim que, em nome da abolição da escravatura, se justifica a colonização do continente africano. Não se tratava mais de humanizar animais, mas de civilizar povos parados em um estágio anterior da evolução. A missão de humanização deu lugar à missão civilizadora.

A experiência do nazismo e sua derrota tornaram repentinamente obsoletas todas essas ideologias. Foi, de facto, em nome de ideologias semelhantes que os nazis escravizaram a Europa. Eles também afirmavam uma hierarquia entre as «raças» humanas, mas estendiam-na aos povos europeus. Eles também pretendiam «civilizar» o mundo sob a liderança da «raça» mais avançada: os arianos.

 O novo discurso de legitimação será iniciado pela nova potência hegemónica, os Estados Unidos, sob o nome de «guerra fria». É, portanto, em nome do «perigo comunista» que se travam as guerras, que se justifica a manutenção da colonização e, posteriormente, as ingerências nos novos Estados independentes.
Os efeitos sistémicos do desaparecimento da URSS

O desaparecimento do contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos mergulha o mundo numa situação inédita. Pela primeira vez desde o início do capitalismo, o unilateralismo é quase total. Recorde-se que, após uma primeira fase multipolar [durante a primeira globalização], a Grã-Bretanha e a França rapidamente se impuseram como as duas potências hegemónicas. Cada uma dessas duas potências concorrentes era obrigada a levar a outra em consideração e constituía um contrapeso. A partir de 1945, essa função de contrapeso passou a ser desempenhada pela URSS e pelos outros países socialistas.

As vantagens do unilateralismo são colossais para o capital norte-americano. A reflexão estratégica dos Estados Unidos orientar-se-á logicamente para as condições a criar para perpetuar uma situação tão lucrativa. Daí resultarão dois eixos estratégicos que devem ser justificados por novos discursos de legitimação ideológica. O primeiro consiste em realizar uma cirurgia política nos espaços estratégicos do planeta [em termos de recursos ou vias de transporte]. Daí resultará uma  O primeiro consiste em realizar uma cirurgia política nos espaços estratégicos do planeta [em termos de recursos ou vias de transporte]. Isso resultará numa série de guerras de balcanização com o objetivo de dividir em vários Estados as nações que dispõem de uma base territorial e de riquezas, podendo no futuro dar-lhes a possibilidade de recusar a tutela dos Estados Unidos: Jugoslávia, Iraque, Sudão, Líbia, Síria, etc. O ciclo ainda não está encerrado. O segundo eixo é a instalação de pequenos Estados vassalos superarmados, totalmente dependentes dos Estados Unidos, com a função de serem seus gestores locais. A Israel, que já desempenha essa função há muito tempo, junta-se agora o Ruanda, próximo do Congo e das suas imensas riquezas. O mesmo cenário está a ser considerado noutros locais, como em Marrocos, para controlar simultaneamente o Norte de África e o Sahel.

 Tal estratégia de guerras sucessivas só é possível através da difusão massiva da ideia de um perigo iminente que exige uma política ofensiva. Essa foi a ordem dada às estruturas ideológicas dos Estados Unidos [os múltiplos «think tanks» financiados pelas agências de segurança ou pelo exército]. O resultado foi a teoria do «choque de civilizações».Uma das razões para a escolha dessa teorização como eixo central do discurso político norte-americano é a sua generalidade e a sua possível aplicação a uma infinidade de situações. Tal característica tornou-se necessária, tendo em conta as rápidas e imprevistas mudanças na situação mundial. O avanço económico chinês, a criação dos BRICS, experiências de agrupamentos como a ALBA na América Latina, etc., todos esses fatores tornaram necessária a formulação de uma teoria geral que permitisse legitimar uma intervenção militar nos quatro cantos do planeta, do Mar da China à Venezuela, da Síria à Ucrânia, etc

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