Nozes Pires
Ensaio
Processos e conteúdos de manipulação e formatação das mentalidades
(Excerto)
Esta exposição é apenas um resumo, mal alinhavado presumo, de alguns, e de somente de alguns, mecanismos e processos de formação de comportamentos padronizados (sobre aqueles que compõem de modo universal os comportamentos humanos) e de formatação de mentalidades (sempre históricas e sociais).
Na época que atravessamos – crise do sistema capitalista no ocidente- encontra-se abalado aquele que foi, por ventura, o mais eficaz modo de formatação da consciência social: a relativa abundância de oferta e de possibilidades de acesso ao consumo, isto é, a massificação ou, se preferirmos, a democratização do consumo. Consumismo facilitado em períodos de relativa abundância de mercadorias, em ciclos pretéritos de prosperidade consubstanciada na formação de amplas e fortes camadas intermédias (sempre com ritmos desiguais adentro do sistema mundial). Promovido universalmente pelas modernas técnicas de marketing, pelos media, redes de comunicação digital, e invenção e profusão super rápida de cartões de crédito e débito e outras formas de pagamento por via digital. Assim, a burguesia submeteu os indivíduos, parecendo desapreciar pelo mercado diferenças sociais, culturais, etárias e étnicas, convertendo toda a gente, em todos os lugares, à utopia de sociedades que iriam produzir e reproduzir-se infinitamente. De facto transformaram-se “cidadãos” (essa denominação progressista da Revolução Francesa) em sujeitos livres consumidores. O ser "livre" entre comas. O núcleo do comportamento do indivíduo urbano ("civitas"- cidade e cidadania) passou a ser este: "consumidor". A vida individual - familiar - dos indivíduos convertido ao jugo voluntário do débito/crédito.
Os indivíduos permanecem julgando-se livres pois julgam-se com poder de escolher. A mobilidade social parecia funcionar (a mobilidade foi real) através da medida do poder de consumo. Provocou-se a ganância (possuir mais e mais coisas) e a cobiça das "marcas" (sempre de corporações multinacionais evidentemente) , a inveja pelas elites que efetivamente as podem consumir. Produziram-se aumentos quantitativos consideráveis nas compras com relativa facilidade de aquisição de eletrodomésticos abundantes no mercado, criaram-se necessidades onde não existiram nunca e facilitou-se a vida moderna dos empregados e trabalhadores nas suas casas com tecnologias constantemente melhoradas e de preços que pareciam submetidos à tendência de diminuição do preço de mercado, construiram-se cidades-bairro urbanos nas periferias das capitais, "ofereceram-se" automóveis "utilitários" que tornava possível residir-se a quilómetros de distância dos empregos, viagens nas férias (turismo de massas), etc. A lógica do capitalismo dirigida ao lucro máximo mas sob a forma (real ou imaginária) de progresso e bem-estar, pareceu funcionar bem durante dezenas de anos nos Estados Unidos do pós-guerra, na Europa reconstruida, inclusivamente em países de outros continentes outrora do "Terceiro Mundo". Uma máquina autónoma eficiente sem avarias graves, permitindo que todo o mundo consumisse, embora com desigual poder de compra mas correndo todos pelo mesmo sonho: consumir. Sobre a satisfação de necessidades objetivas, universais e inatas (comer, vestir, abrigar-se, mover-se, conviver) desenvolveram-se novos hábitos e padrões sociais, portanto, artificiais. A ansiedade pelo novo "status" e as identidades (de género e outras) pareceram "apagar" as diferenças de classes.
O “consumismo” tem sido suficientemente estudado para que necessitemos aqui de esmiuçar. Cabe aqui apenas sublinhar este fenómeno considerando-o a utopia mais poderosa do capitalismo contemporâneo: a transformação do cidadão livre em mera força de trabalho explorada pelos possuidores de dinheiro , e, simultaneamente, consumidor pagante das mercadorias que produz. Neste ênfase reside a minha tese. O consumo de massas (os supermercados, as super cadeias de distribuição ) como combustível da máquina mercantil capitalista; a captura de novas e amplas faixas de consumidores: mulheres, jovens, crianças, populações do Terceiro Mundo, colónias libertadas recentemente; expansão das relações capitalistas de produção pelo planeta (de que a Coca-Cola e o fastfood norte-americano são bem o símbolo); a deslocação de empresas para países com baixos salários ou oferta de matérias-primas ,produzindo-se, assim, consumidores de mercadorias de origem e patente norte-americana em todos os lugares do planeta com exceção do bloco socialista enquanto este durou. Colapsado este , o triunfo e a expansão dos mercados capitalistas alcançou o zénite.
O capitalismo assenta na propriedade privada dos meios de produção e na exploração dos que foram expropriados de meios de produção –camponeses, artesãos- forçados a vender a sua força de trabalho a preços (variáveis) de modo que produzam um excedente (mais valia) apropriado pelo capitalista (mercadorias e tempo). É nesse contexto que o capitalismo vai introduzir o desejo compulsivo de consumo: quanto mais elevado for o rendimento do trabalhador, maior será o consumo de mercadorias que este realiza na sua vida aparentemente privada. Os capitalistas ganham duas vezes (isto é, os diversos sectores em que se dividem os capitalistas), na mais valia e na venda aos trabalhadores dos bens que outros trabalhadores produziram. Esta lógica é fundamental. Porém para o capitalista, de modo geral, não é do seu interesse pagar salários elevados (entenda-se : bem acima da inflação e conforme o que os trabalhadores e seus sindicatos reivindicam em cada momento e em cada lugar da produção). Contradição do sistema.
A prática contradiz a doutrina da livre escolha e da igualdade. Vai daí inventaram-se os cartões de crédito/débito. Vai daí os organizaram-se sindicatos “amarelos” para gerirem com os patrões os limites razoáveis dos salários pois é preciso que os assalariados possuam suficiente poder de compra para que os bens se escoem; porém, não é isso que sucede regularmente, aprofundando-se, assim, crises do sistema e descontentamento social.
A queda tendencial da taxa de lucro, analisada por Karl Marx como o fator fundamental das crises imanentes ao modo de produção mercantil capitalista, sejam elas provocadas pela invenção e utilização das máquinas, isto é, do capital constante que não produz valor, seja provocada por períodos de sobreprodução, isto é, diminuição da realização do capital por causa das mercadorias que não vendem ; e não se vendem, em casos frequentes, porque o rendimento dos consumidores é baixo, insuficiente.
A especulação bolsista como fonte de rendimento e multiplicação artificial do capital, o crédito mal parado, o endividamento privado, são consequências e simultaneamente causas de novos efeitos, ou efeitos modernos do sistema. Evidentemente que o consumo, a venda para os mercados, o escoamento dos excedentes e tudo o mais, constituíram desde sempre a lógica do Capital à conquista do mundo. Mas também as suas fragilidades e contradições: a venda, o escoamento dos bens, é travado por excessos de produção e/ou por insuficiência de consumo; os métodos de inovação tecnológica (o racionalismo técnico do capitalismo) ao mesmo tempo que têm demonstrado a capacidade de renovação e adaptação do sistema –o revolucionamento das forças produtivas, como descobriu Marx na natureza da civilização capitalista – colidem com o colete de forças das relações de produção originárias e persistentes : propriedade privada dos meios de produção, exploração da força de trabalho enquanto meio de produção do Valor. Mas também desregulamentação dos mercados por ausência de planeamentos que o capitalismo geneticamente recusa, produzindo-se mais do que o necessário ;políticas inflacionárias decorrentes de guerras e corridas armamentistas, legislação laboral sempre tencionada à expansão de empregos precários (a precariedade estrutural e intencional), a concorrência intrínseca aos mercado entre empresas e países, etc.), acentuam o descontentamento e o antagonismo de classes. Contudo, ou por isso mesmo, o chamado “consumismo” propiciado com as políticas keynesianas de recuperação da crise de 1929, com a reconstrução do pós-guerra, com o progresso técnico e científico que a própria guerra propiciou, forneceu um fôlego sem precedentes ( julgaram-se até mesmo encerrados os ciclos das crises) e permitiu não só que o capitalismo resistisse a todas as crises sociais que percorreram o século passado, como desempenhou um papel crucial na derrota dos sistemas socialistas. O “comunismo”, diz a propaganda, demonstrou ser incapaz de concorrer com o capitalismo. Isto é : com Mercado.
Quero, portanto, enfatizar este aspeto e, ao mesmo tempo sublinhar a importância da atual crise do capitalismo. A diminuição da capacidade de consumo das massas sociais, que se traduz no depauperamento num polo e na acumulação da riqueza no outro polo (conclusão do Marx economista como se pode ler em “O Capital”), foi provocando aqui e acolá a contestação social (intensa nas últimas décadas do século passado, contestação que vai continuar seja qual for a sua forma. A orientação política do descontentamento pode ser contraditório : as massas votam em partidos cujos interesses verdadeiros não são os seus, porém a origem e a revindicação é a mesma : maior poder de consumo. Tão legítimo que assenta nas mínimas condições de sobrevivência física. Mais profunda é a contradição imanente ao capitalismo : a sua finalidade única é vender (realizar o capital que investiu e aumentá-lo infinitamente), no entanto sempre que pode congela os salários ou diminui-os. Ou pela simples vontade (quer e pode) ou por consequência da inflação, este outra característica do mercado capitalista liberal ou neoliberal.
A produção e acumulação de excedentes sempre constituíram o móbil de qualquer economia desde as origens e do desenvolvimento gradual e desigual da pastorícia e da agricultura. Razão principal da formação da propriedade privada de territórios férteis, de clãs, cidades com hierarquias sociais e classes, com Estados ou governos centrais. Milhares de anos passados o modo de produção capitalista surgiu e vingou em determinadas zonas do planeta por causa de novos meios de exploração : o assalariamento de camponeses pobres ou espoliados pelos grandes proprietários de dinheiro que puderam, assim, construir enormes manufaturas de têxteis e instalar meios mecânicos (a vapor) revolucionários . O que me importa defender é a tese de que o consumo de massa (ou para e pelas massas sociais), sob a fórmula comum de “consumismo”, foi, apesar das contradições profundas, o moderno instrumento fundamental de consentimento, integração e coesão social das formações sociais capitalistas (com forte impulso nos Estados Unidos durante e depois da Segunda Guerra Mundial), através também de coerção, porém sobretudo pela atração e manipulação da consciência social (das atitudes, intenções, desejos, vontades). Esse comportamento coletivo, insidioso, tóxico, de resignação em boa parte, porém mais ainda de consentimento voluntário, associamo-lo à força planetária do moderno Mercado (para o distinguirmos dos mercados urbanos da Idade Média) , à publicidade que se iniciara na parte final do século dezanove na Europa e nos EUA, a técnicas sofisticadas de controlo social (não pela força bruta) - a imprensa e logo a seguir pelo cinema -, à criação de expectativas ( fecundadas pela generalização dos sufrágios e, portanto, das campanhas eleitorais) e às utopias (no sentido “fraco” do termo) capitalistas. Formar crianças e jovens para desejar com urgência o consumo de "modas" possibilitando sentimentos de pertença e configuração de "novas tribos", criar hábitos que se converteram em aditivos ou vícios, semear sonhos de enriquecimento recopiando as histórias da Gata Borralheira (sonhos tão antigos como a formação de elites nas primeiras cidades da Humanidade), inculcar nos estudantes pelas escolas projetos de vida dependentes do desejo (normalmente parental) de seguirem cursos profissionais e superiores para empregos rentáveis que realizassem sonhos de mobilidade social (na realidade dependentes de condicionalismos de classe), eis a finalidade de muitas pedagogias "espontâneas" ou pseudo-científicas, como se constata nas atividades “inofensivas” em jardins-de-infância (aprendendo a comprar), nos "jogos" em família, na persuasão exercida pelos media (publicidade e pelos centros comerciais, esses lugares por excelência dos passeios dominicais). (...)
Sem comentários:
Enviar um comentário