tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universo
aves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,
mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertos
sombra e luz, noites e estações, nuvens, trovões,
neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,
religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,
tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdade
irmã da subtil magia dos filhos da eternidade.
no meu coração, aqui sem fundo nem medida,
a morte dança com os espectros da vida.
aqui sopram os terrores da noite,
treme o sofrimento das rosas
e, ao seu eco, ergue-se a arte.
Abû al-Qâsim al-Shâbbî (Tunísia, 1909-1934)
(Trad. de Adalberto Alves)
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sábado, 13 de novembro de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
CANÇÃO
(América do Sul, Piaroas)
Um dia
a lua estacará no céu;
secarão as flores,
e na selva
só gão-de crescer as pedras.
E então,
depois de esmagar as cabanas
e todo o povo piaroa,
no mundo haverá apenas
a Grande Pedra negra.
(Trad. de Herberto Helder)
Um dia
a lua estacará no céu;
secarão as flores,
e na selva
só gão-de crescer as pedras.
E então,
depois de esmagar as cabanas
e todo o povo piaroa,
no mundo haverá apenas
a Grande Pedra negra.
(Trad. de Herberto Helder)
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Ninguém meu amor
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
Sebastião Alba (1940-2000)
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
Sebastião Alba (1940-2000)
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in Rosa do Mundo.
Tristeza
Perto de onde se ouvem as ondas azuis do céu
Acho que perdi
Qualquer coisa de muito valor.
Numa estação nitidamente do passado
Em frente do funcionário dos perdidos e achados
Senti-me ainda mais triste.
Tanikawa Shuntaro
Acho que perdi
Qualquer coisa de muito valor.
Numa estação nitidamente do passado
Em frente do funcionário dos perdidos e achados
Senti-me ainda mais triste.
Tanikawa Shuntaro
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Assírio e Alvim,
in Rosa do Mundo.,
trad. José Alberto Oliveira
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Poesia clássica
Meleagro
Antologia Palatina
(séc. II-I a.C.)
CEGUEIRA DE AMOR
(XII.60)
Um caso singular
mas sempre verdadeiro:
se poiso em ti o olhar
-abranjo o mundo inteiro!...
Porém, ó fado torvo e prepotente,
porém, ó sorte perra e negregada,
se tu não vens, e passa toda a gente,
Cego de repente
- já não vejo nada!...
trad.: Augusto Gil
Antologia Palatina
(séc. II-I a.C.)
CEGUEIRA DE AMOR
(XII.60)
Um caso singular
mas sempre verdadeiro:
se poiso em ti o olhar
-abranjo o mundo inteiro!...
Porém, ó fado torvo e prepotente,
porém, ó sorte perra e negregada,
se tu não vens, e passa toda a gente,
Cego de repente
- já não vejo nada!...
trad.: Augusto Gil
sexta-feira, 5 de março de 2010
CONFISSÃO
Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou o autor destas páginas.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vítima, o culpado, o carrasco.
Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.
Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.
Meus olhos são os fornos em que ardeu
a criação inteira.
Meu canto é o silêncio.
Homem, mulher, criança, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível.
Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.
Não tenho maneira de escapar.
CINTIO VITIER ( n. 1921)
trad.: José Bento.
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Ed. Assírio e Alvim,
in Rosa do Mundo.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
América, Aztecas
Até o jade se parte,
até o ouro se dobra,
até a plumagem de quetzal se despedaça...
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!
até o ouro se dobra,
até a plumagem de quetzal se despedaça...
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!
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in Rosa do Mundo.,
Versão: Herberto Helder
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
CONFISSÃO ( Cintio Vitier-n.1921)
Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou o autor destas páginas.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vítima, o culpado e o carrasco.
Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.
Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.
Meus olhos são os fornos em que ardeu
a criação inteira.
Meu canto é o silêncio.
Homem, mulher, crianças, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível.
Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.
Não tenho maneira de escapar.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vítima, o culpado e o carrasco.
Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.
Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.
Meus olhos são os fornos em que ardeu
a criação inteira.
Meu canto é o silêncio.
Homem, mulher, crianças, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível.
Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.
Não tenho maneira de escapar.
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in Rosa do Mundo.,
Trad.: José Bento
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.
Elas me ensinam que possuo espaço
p´ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.
Elas me ensinam que possuo espaço
p´ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.
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2001,
Ed. Assírio e Alvim,
in Rosa do Mundo.,
Trad.: Ana Hatherly
CANÇÃO ( Madagáscar)
Se é para ti,
sou o ovo da cotovia à beira do caminho.
Se é para outro qualquer,
sou o pequeno pássaro que dorme numa ilha longínqua.
sou o ovo da cotovia à beira do caminho.
Se é para outro qualquer,
sou o pequeno pássaro que dorme numa ilha longínqua.
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in Rosa do Mundo.,
Versão: Herberto Helder
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Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.
Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.




