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sábado, 13 de novembro de 2010

O CORAÇÃO DO POETA

tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universo
aves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,
mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertos
sombra e luz, noites e estações, nuvens, trovões,
neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,
religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,
tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdade
irmã da subtil magia dos filhos da eternidade.
no meu coração, aqui sem fundo nem medida,
a morte dança com os espectros da vida.
aqui sopram os terrores da noite,
treme o sofrimento das rosas
e, ao seu eco, ergue-se a arte.

Abû al-Qâsim al-Shâbbî (Tunísia, 1909-1934)
(Trad. de Adalberto Alves)

sábado, 31 de julho de 2010

CANÇÃO

(América do Sul, Piaroas)

Um dia
a lua estacará no céu;
secarão as flores,
e na selva
só gão-de crescer as pedras.
E então,
depois de esmagar as cabanas
e todo o povo piaroa,
no mundo haverá apenas
a Grande Pedra negra.

(Trad. de Herberto Helder)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Sebastião Alba (1940-2000)

Tristeza

Perto de onde se ouvem as ondas azuis do céu
Acho que perdi
Qualquer coisa de muito valor.

Numa estação nitidamente do passado
Em frente do funcionário dos perdidos e achados
Senti-me ainda mais triste.

Tanikawa Shuntaro

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Poesia clássica

Meleagro
Antologia Palatina
(séc. II-I a.C.)

CEGUEIRA DE AMOR
(XII.60)

Um caso singular
mas sempre verdadeiro:
se poiso em ti o olhar
-abranjo o mundo inteiro!...

Porém, ó fado torvo e prepotente,
porém, ó sorte perra e negregada,
se tu não vens, e passa toda a gente,
     Cego de repente
     - já não vejo nada!...

trad.: Augusto Gil

sexta-feira, 5 de março de 2010

CONFISSÃO


Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou o autor destas páginas.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vítima, o culpado, o carrasco.

Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.

Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.

Meus olhos são os fornos em que ardeu
a criação inteira.

Meu canto é o silêncio.

Homem, mulher, criança, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível.

Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.

Não tenho maneira de escapar.

CINTIO VITIER ( n. 1921)
trad.: José Bento.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

América, Aztecas

Até o jade se parte,
até o ouro se dobra,

até a plumagem de quetzal se despedaça...
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CONFISSÃO ( Cintio Vitier-n.1921)

Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou o autor destas páginas.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vítima, o culpado e o carrasco.
Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.
Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.
Meus olhos são os fornos em que ardeu
a criação inteira.
Meu canto é o silêncio.
Homem, mulher, crianças, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível.
Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.

Não tenho maneira de escapar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.

Elas me ensinam que possuo espaço
p´ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.

CANÇÃO ( Madagáscar)

Se é para ti,
sou o ovo da cotovia à beira do caminho.
Se é para outro qualquer,
sou o pequeno pássaro que dorme numa ilha longínqua.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.