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sábado, 10 de novembro de 2018

SEMANÁRIO#2402 - 10/11/18
Pedro Adão Silva
A fúria identitária e as touradas
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A afirmação da ministra da Cultura sobre as touradas causa estupefação e preocupação. Estupefação, porque colocar uma questão fiscal no domínio da “civilização”, quando estão em causa práticas festivas, ancestrais e populares, faz parte de um impulso totalitário que visa definir uma política do gosto; preocupação, porque sinaliza um regresso às políticas identitárias, uma das causas do declínio eleitoral do centro-esquerda.
Remeter-se a festa taurina para a categoria dos eventos não civilizados é tanto mais chocante quanto foi verbalizado por Graça Fonseca que, numa declaração de grande coragem e alcance, assumiu a sua homossexualidade como ato político. A questão está longe de ser lateral. Como é sabido, a rejeição liminar do que é estranho, estigmatizando práticas que não se entendem, acantonando aqueles que sentem e pensam de forma distinta, é o berço da intolerância. De quem se bate pela tolerância em relação às próprias escolhas, exige-se, sempre, maior prudência nos pronunciamentos sobre as práticas dos outros. Tanto mais que estamos perante uma afronta aos portugueses que têm na festa taurina parte da sua identidade comunitária.
A questão é política e mais vasta. Após a “esquerda moderna”, o PS enveredou pelos temas clássicos do trabalho, rendimentos e proteção social. Com bons resultados. Espanta, por isso, que, a um ano das eleições, um membro do Governo promova uma fratura identitária, abrindo a porta para campanhas de proselitismo civilizacional em torno das touradas (que logo se iniciaram, com níveis de violência insólitos em relação a todos que ousam pensar de forma diferente).
Mas faz sentido. Afinal, a política identitária é, por definição, excludente — valorizamos a nossa identidade, fechamo-nos sobre ela e não toleramos a dos outros. Com graves efeitos: esmorece um discurso partilhado, que é substituído por vários microdiscursos em tensão uns com os outros.
Esta é, aliás, parte da explicação das dificuldades da social-democracia nas últimas décadas. Incapacidade em articular uma ideia de bem comum, assente numa narrativa renovada em torno da economia e do Estado Social, e a sua substituição por políticas identitárias, que dificilmente oferecem uma visão partilhada do que deve ser a nossa sociedade. O colapso dos partidos social-democratas — e a ascensão de formações populistas — está intimamente ligado a este processo.
A fúria abolicionista em relação às touradas é exemplo desta trajetória. Um progressismo liderado por elites urbanas, hostis a visões distintas do que é culturalmente adequado. Este movimento de perda de referências, em que a cultura de um povo passa a ser um produto racional, higienizado e homogéneo, sem distinções nacionais, leva-nos por caminhos tortuosos. Entre eles, a absurda equivalência entre direitos humanos e direitos dos animais, assente, aliás, numa paradoxal rutura na relação entre homens e natureza.

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