Uma espécie de crítica de cinema
A série da Netflix "segurança Nacional" (Homeland), cujas duas primeiras temporadas foram premiadas e elogiadas ao mais alto grau, converteu-se nas temporadas seguintes num pastelão reacionário veículo da mais caricatural propaganda da CIA e do Império. Aliás, alguns bons críticos perceberam isso perfeitamente , por exemplo em 2014, Laura Durkay, do The Washington Post, criticou Homeland pela sua representação de estereótipos islamófobos e considerou-a "a série mais intolerante da televisão" ; não surpreende nada que o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, haja elogiado Homeland e gabar-se se ser fã da série. O gabinete da ex-secretária de Estado, a sanguinária Hillary Clinton (a tal que exibiu com um sorriso nojento dois deedos de triunfo depois do assassinato obsceno de Kadhafi) solicitou cópias antecipadas de episódios da primeira temporada. Também nõ surpreende que
em dezembro de 2023, a Variety tenha classificado Homeland em 98º lugar na sua lista dos 100 melhores programas de televisão de todos os tempos. Também não surpreende que a trama da série fosse baseada num guião escrito por um israelita da Direita.
Todos os clichés da chamada Guerra contra o Terror - a ofensiva do Império depois do 11 de Setembro (no qual a CIA colaborou replicando o célebre incêndio do Reichstag que serviu o pretexto da matança dos comunistas e, inclusivamente meus caros amigos!, de social-democratas demasiado democratas - estão lá desde a primeira temporada (oito temporadas!) : o infame Irão dos infames Guardas Revolucionários que enforcam a torto e a direito, a mistura no mesmo saco da Al-Caeda (criatura inicial da CIA contra os soviéticos) com os resistentes patriotas do Iraque...E, enfim, a glorificação dos Marines (para tentar-se apagar os suicídios no regresso!), e todos os estereótipos vã-se agravando conforme vão decorrendo as temporadas. O que pretendo relevar é a eficácia da construção artística (no cinema, nas televisões por cabo, na nossa RTP2), indiscutivelmente artística na composição das primeiras temporadas, na propagação dos preconceitos e estereótipos para uso das guerras da CIA e do Império que sustentam.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Sobre a série televisiva "Segurança Nacional " (Homeland)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
O DAVID MILLER. Por que a esquerda ocidental não entende a ligação entre imperialismo, sionismo e “mudança de regime” no Irão
Quando a agência de espionagem israelense Mossad pediu tumultos no Irã através de suas redes sociais em persa em 1o de janeiro, quase ninguém no Ocidente prestou atenção a ele.
No entanto, no dia seguinte, o ex-secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo fez sua já famosa intervenção, pedindo abertamente tumultos em cidades iranianas e desejando um Feliz Ano Novo “todo iraniano nas ruas” e “também todo agente do Mossad caminhando ao lado dele”.
Depois disso, havia pouca justificativa para os críticos da política externa ocidentais ignorarem o papel das agências de inteligência estrangeiras e elementos terroristas nos eventos que se seguiram.
No entanto, persiste uma relutância generalizada em confrontar o envolvimento do Mossad – e, de fato, da CIA e do MI6 – nos dois dias de agitação entre 8 e 9 de janeiro.
A esquerda ocidental em grande parte não conseguiu entender a aliança de “mudança de regime” que liga o Mossad, os monarquistas pahlavistas, o grupo terrorista sectário Mujahiden Khalk e uma ampla gama de grupos de “oposição” apoiados pela CIA, quase todos baseados nos Estados Unidos, com uma presença menor no Reino Unido e em toda a Europa.
Poucos entenderam que o British MI6 também desempenhou um papel neste sinistro projeto de “mudança de regime” visando o Irã. Em vez disso, muitos dentro da esquerda ocidental tendem a interpretar essas tentativas como uma “luta pela liberdade”, vendo-as como expressões de agência populares ou até mesmo como uma revolta sindical ou da classe trabalhadora. Não são.
O que se segue é um exame dos múltiplos erros, mal-entendidos e degradação intelectual mostrado por muitos esquerdistas – da esquerda liberal e secular à esquerda revolucionária, incluindo aqueles que afirmam ser anti-sionistas ou defensores do movimento de libertação palestino.
Antes de prosseguir, no entanto, é necessário delinear brevemente o quadro certo para entender o papel da República Islâmica do Irã.
É o principal estado antiperialista do mundo e ponta de lança na luta pela libertação da Palestina. Não é necessário aceitar a minha palavra, nem mesmo a do Líder do Irã, o aiatolá Seyed Ali Khamenei, ou o general Qasem Soleimani.
Basta ouvir as palavras dos próprios líderes da Resistência Palestina.
Aqui está o mártir Yahya Sinwar em 2019: “Se não fosse pelo apoio do Irã à Resistência na Palestina, não teríamos obtido essas capacidades [foguetes e meios técnicos para produzir foguetes fabricados internamente]. Na verdade, nossa nação [árabe] nos abandonou em nossos tempos difíceis, enquanto o Irã nos apoiou com armas, equipamentos e conhecimentos técnicos.
E aqui o ex-chefe do HAMAS, o mártir Ismail Haniya, no Dia Internacional Al-Quds de 2020: “A essência da [nossa] estratégia é o projeto de resistência. Resistência total, incluindo resistência militar armada na cúspide. A partir daqui, saúdo todos os componentes da nação que abraçam e apoiam a opção de resistência no terreno na Palestina... Refiro-me de modo particular à República Islâmica do Irão, que não vacilou em apoiar e financiar a Resistência nos níveis financeiro, militar e técnico. Este é um exemplo da estratégia da República que foi estabelecida pelo Imam Khomeini, que Deus deve ter misericórdia de sua alma.
Em frente à República Islâmica (e à Resistência Palestina) estão, em primeiro lugar, os colonos sionistas na Palestina e seu principal apoio, os Estados Unidos e o Reino Unido.
Também é necessário apontar a auto-intitulada “oposição” iraniana, que assume a forma dos monarquistas que apoiam o ex-Xá que desejam instalar seu filho como o novo rei. Em seguida, há o Mujahideen Jalq (MKO, também conhecido como o Mujahedeen do Povo do Irã / Irã Conselho Nacional de Resistência).
O MKO é um grupo terrorista designado com sede na Albânia, um Estado membro da OTAN, onde mantém uma fazenda de trolls junto com outra infraestrutura operacional.
Ele foi removido da lista de organizações terroristas dos EUA em 2012 após uma intensa campanha de lobby apoiada por redes de lobby sionistas.
Em junho de 2023, a polícia albanesa invadiu as instalações do grupo e confiscou cerca de 150 dispositivos de computador. O ataque ocorreu depois que a aproximação Irã-Arábia Saudita mediada pela China, após o que Riad, que há muito negava qualquer ligação com o MKO, foi forçada a retirar seu apoio.
Os sauditas também negaram o financiamento da República Anti-Islâmica Internacional do Irã, mas uma vez que o acordo mediado pela China foi assinado, o apoio financeiro foi abruptamente cortado e o escritório do canal em Londres foi fechado.
Vários meses depois, no entanto, um novo escritório foi aberto em Londres depois de garantir novo financiamento da entidade sionista, que continua a financiar o meio de propaganda até hoje.
O caso da Iran International destaca o ecossistema mais amplo de grupos de oposição externos que visam o Irã. Muitos deles são financiados através de intermediários plausíveis de negação, como o National Endowment for Democracy e sua rede de agências afiliadas.
O jornalista Alan MacLeod documentou recentemente várias dessas organizações na MintPress, incluindo ativistas de direitos humanos no Irã / Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, o Abdorrahman Boroomand Center for Human Rights no Irã e o Centro de Direitos Humanos no Irã. No entanto, existem muitas outras entidades que operam dentro desta infraestrutura paralela.
Posição da esquerda sobre o Irã
Devemos começar com aqueles “esquerdistas” que historicamente ocuparam posições profundamente errôneas sobre a “mudança de regime” e o papel da CIA, do MI6 e do Mossad.
Muitos já estão familiarizados com as limitações de figuras como Bernie Sanders, que falou de um “regime abominável” e elogiou a “incrível coragem” dos “manifestantes” liderados pelo Mossad; ou Alexandria Ocasio-Cortez, muitas vezes mordazmente referido por seus críticos como “AOCIA”; ou Jeremy Corbyn, que afirmou estar “horrorizado com a morte de manifestantes”
No Reino Unido, Owen Jones, Michael Walker da Novara Media e muitos outros seguiram o mesmo padrão. Para aqueles que ainda não estão convencidos desses pontos, sugiro consultar as fontes vinculadas nas afirmações acima.
As “mulas”, os “ayatolás” e os “islamistas”
Parte do problema é que a islamofobia está profundamente enraizada dentro da esquerda. É muitas vezes disfarçado como um secularismo moralmente correto, mas um exame mais detalhado revela superfície muito inferior.
Em 2017, eu co-editei um livro sobre islamofobia que propunha uma teoria que identificava cinco pilares da islamofobia. Junto com os Estados ocidentais, os neoconservadores, o movimento sionista e a extrema direita, argumentamos que um quinto pilar estava dentro de certas seções dos movimentos esquerdistas, seculares e feministas.
No livro analisamos a chamada esquerda pró-guerra, os novos ateus, grupos feministas e as correntes do secularismo. Naquela época, concluímos que:
É claro que, embora alguns dentro desses grupos não tenham inicialmente se proposto a fazer campanha contra as condições opressivas enfrentadas pelos muçulmanos no Ocidente, muitos finalmente terminaram lá.
Nesse sentido, descrevemos esses movimentos como “movimentos sociais de cima”, cujas trajetórias os alinharam de fato com outras correntes islamofóbicas, intencionalmente ou não.
Porém, o problema na Esquerda Ocidental é muito mais profundo. Penetra no núcleo dos movimentos anti-sionistas e anti-imperialistas e é evidente em toda a chamada esquerda “revolucionária”.
Assim, além da “esquerda pró-guerra”, quando se trata do Irã, também devemos examinar criticamente a esquerda anti-guerra e pró-palestina.
Muitos à esquerda mantêm posturas anti-teístas e anti-slâmicas. Talvez vacilantemente no início, eles acabam adotando a linguagem racista comumente usada para descrever muçulmanos e sociedades muçulmanas.
Termos como “mulas”, “ayatollahs” e “islamistas” – este último, como argumentei em outros lugares, popularizados por ideólogos sionistas e promovidos por Benjamin Netanyahu – são aceitos como descritores naturais.
“Fundamentalismo Islâmico”
Outro termo-chave na islamofobia de esquerda é o “fundamentalismo”. No Reino Unido, um certo fluxo de feministas se formou no final da década de 1980 um grupo chamado Women Against Fundamentalism.
Eles não adotaram uma definição diferenciada ou restrita de “fundamentalismo” limitada a um pequeno subconjunto dentro dos movimentos religiosos. Pelo contrário, afirmaram explicitamente (1994, p. 7) que se referiam a movimentos que “usam a religião como base” para estratégias políticas.
Esta descrição abrange praticamente todos os movimentos políticos muçulmanos, com exceção de um punhado de grupos seculares ocidentalizados, quase todos financiados por interesses ligados ao Estado.
Segundo a sua definição, a teologia da libertação cristã e até mesmo os Quakers, um conhecido grupo cristão liberal, também se qualificariam.
É notável que este termo islamofóbico foi considerado apropriado para uma organização que afirmava ser progressista, mas sim. Uma das principais ativistas foi Julia Bard, membro do Grupo de Socialistas Judeus, levantando várias questões sobre a organização.
Outras pessoas envolvidas incluíram Nira Yuval-Davis, que se descreve como “um judeu diaspórico israelense anti-sionista”, uma expressão que parece legitimar a falsa noção sionista de que os judeus fora de Israel constituem uma diáspora e concedem legitimidade política ao conceito de “Israel”.
Talvez a figura mais conhecida de Mulheres Contra o Fundamentalismo tenha sido Gita Sahgal, tristemente famosa por chamar o grupo de direitos civis Cage de “jihadista”, um tema que discuti em profundidade em outro lugar. O termo “jihadista” é outro rótulo islamofóbico usado para demonizar os muçulmanos que participam da vida política.
Maryam Namazie e a aliança secular/feminista/comunista com o Mossad
Gita Sahgal também tem sido intimamente associado com o Conselho de Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha (CEMB). Por exemplo, ele apareceu em uma reunião de 2013 para “óculos noturnos” ao lado de Maryam Namazie, porta-voz do CEMB.
Fundada em 2007, o CEMB é uma organização anti-slâmica. Namazie, que é iraniana, desempenhou um papel de destaque nas primeiras manifestações em outubro de 2022 contra a República Islâmica em Trafalgar Square, representando o CEMB.
Imagens de seu protesto com o tronco nu foram posteriormente removidas pelo Instagram e Twitter.
Naquele dia, ele se juntou a monarquistas islamofóbicos e outras facções anti-governo. Namazie é um ex-membro proeminente do Partido Comunista-Operário iraniano, embora até 2017 ele continuou a se identificar como “comunista”.
Isso não o impediu de colaborar com grupos de extrema-direita através de sua organização de campanha “anti-sharia”, One Law for All. Entre seus partidários de redes islamofóbicas estão proeminentes neoconservadores como Ayaan Hirsi Ali e Caroline Fourest, além de sionistas como Alan Johnson, que trabalha para o grupo de lobby israelense BICOM.
Além disso, vários grupos da sociedade civil anti-slâmica britânica participaram, incluindo a Sociedade Secular dos Advogados, a Sociedade Secular Nacional, o Women Against Fundamentalism (previamente mencionado) e os muçulmanos britânicos pela Democracia Secular.
One Law for All também trabalhou em estreita colaboração com a figura de extrema-direita Baronesa Cox, conhecida por convidar os islamofóbicos holandeses Geert Wilders para o Reino Unido.
Em 16 de janeiro deste ano, Namazie publicou um artigo no site da ONG islamofóbica britânica National Secular Society, intitulado Iran: The Generation That Broke Up With Theocracy.
O artigo reproduziu muitas das principais falsidades espalhadas por atores ligados ao Mossad e à CIA, incluindo atribuindo à polícia e às mortes básicas causadas por terroristas apoiados pelo exterior, alegando que as famílias devem pagar pelas balas que mataram seus entes queridos para recuperar seus corpos, entre outros.
Oposição de esquerda e “trabalhismo”
Há também uma tendência a se apegar a qualquer crítica aos governos dos Estados que o Ocidente designa como inimigos. A oposição liberal é suficiente, mas muitas vezes é preferível se ela pode se apresentar como uma crítica ou revolta de esquerda ou “progressista”. Assim, Owen Jones tem errado em citar o partido “comunista” iraniano, citando o Tudeh, o partido marginal, contra-revolucionário e islamofóbico.
O “trabalhador” ingênuo que prevalece em seções amplas da esquerda também é digno de nota. Consequentemente, muitos esquerdistas transmitiram comunicados sindicais em Teerã e em outros lugares, tentando usá-los como prova de descontentamento genuíno de base, escondendo assim a cobertura que fornecem a atos de terrorismo.
Um dos exemplos mais sofisticados dessa abordagem apareceu em um artigo publicado pela Progressive International, o think tank em parte financiado pelo Instituto Sanders, criado por Bernie Sanders.
Embora o artigo tenha oferecido uma análise matizada das forças alinhadas contra a República Islâmica, caiu na ilusão de que as lutas dos trabalhadores no Irã poderiam estar livres de intervenção estrangeira. No entanto, como o escritor britânico Phil Bevin demonstra, o apoio dessas ações pelo culto terrorista MKO prejudica seriamente tais argumentos.
Não é surpreendente que a Progressive International, com seu elenco estelar de intelectuais, incluindo Noam Chomsky, Jeremy Corbyn e Yanis Varoufakis, também seja um forte defensor da operação da CIA no nordeste da Síria, comumente conhecida como Rojava.
Os envolvidos na gestão de Rojava estão intimamente ligados à corrente política de Sanders-Corbyn. Seu diretor, David Adler, vem do Instituto Sanders, e seu diretor de comunicação, James Schneider, é o altamente controverso ex-chefe de propaganda de Corbyn. Seu envolvimento na campanha Justiça para os curdos se encaixa perfeitamente com a cobertura eficaz que eles fornecem ao terrorismo apoiado pela CIA e pelo Mossad no Irã.
Anti-sionistas contra o Islã
Aqui estão algumas palavras de um auto-proclamado anti-sionista e defensor da libertação da Palestina, falada nas últimas duas semanas.
Para ser claro, não é alguém que apoia o símbolo de “sandy” os “direitos” palestinos superficialmente, mas de suposto apoio genuíno para a resistência e libertação da Palestina, pelo menos de acordo com suas declarações públicas.
- “Sim, Israel e os Estados Unidos estiveram envolvidos em atacar o regime durante os protestos, mas ignorar o ódio do povo iraniano pelo governo repressivo, corrupto e teocrático dos mulás é racista e orientalista. O regime clerical do Irã é banhado pelo sangue de seu próprio povo.
- “O regime clerical no Irã tem semelhanças com o fascismo.”
- “Eu acho que quando a religião assume o controle do Estado, isso inevitavelmente significa que é repressivo.”
É verdadeiramente esmagador ouvir essas crenças racistas saírem da boca de autoproclamados anti-racistas e anti-sionistas. Todos os termos do bingo islamofóbico estão lá: “regime”, “teocrático”, “mulas”, “repressivo” e, claro, “fascismo”.
Este exemplo é apenas um dos muitos que revelam até que ponto as ideias islamofóbicas estão enraizadas na esquerda, mesmo dentro dos círculos anti-sionistas, incluindo grupos judaicos anti-sionistas.
Socialistas revolucionários a serviço do terror de Mossad
Aqui temos uma postagem “socialista revolucionária” no Facebook, um post que recebeu 172 “curtidas” de proeminentes esquerdistas britânicos e internacionais, incluindo muitos membros de grupos trotskistas, como Counterfire e o Partido Socialista dos Trabalhadores.
O autor, John Clarke, um acadêmico e ativista socialista canadense, abriu seu breve texto afirmando que “a luta no Irã deve ser apoiada, mas, ao mesmo tempo, devemos falar contra a interferência e intervenção dos Estados Unidos e de Israel”.
Parece não haver reconhecimento de que isso equivale a apoiar o Mossad e condená-lo simultaneamente. Clarke continua a reconhecer que “não há dúvida de que as agências de inteligência ocidentais e israelenses estão tentando influenciar o movimento no Irã”.
“Sem dúvida, há também elementos reacionários e monárquicos no terreno que fazem todo o possível para garantir que a luta sirva aos interesses dos Estados Unidos.”
Na realidade, as manifestações originais que começaram em 28 de dezembro foram protestos por queixas econômicas, não contra a própria República Islâmica. A esquerda parece alheia à dinâmica política interna em jogo. Quando os palavistas e agentes do Mossad apareceram, eles foram condenados pelos manifestantes.
Após as duas noites de tumultos e terror instigados pelo Mossad e seus recrutas, houve marchas em massa, de milhões de pessoas, em Teerã e outras cidades em todo o país. Praticamente nenhum esquerdista ocidental reconheceu essa demonstração maciça de unidade nacional.
O mais impressionante é que Clarke cita Lenin sobre a Revolta da Páscoa de 1916 na Irlanda, escrevendo que Lenin “confrontou aqueles que se concentraram na forma imperfeita da luta e sublinharam o caminho que ele apontou”. Embora isso seja verdade, é absolutamente fantasioso comparar uma revolta anticolonial na Irlanda com um ataque terrorista orquestrado pelo Mossad no Irã.
Este último aponta para o possível fim da República Islâmica, a Balcanização do Irã e sua eliminação como uma ameaça ao chamado projeto “Grande Israel” e ao principal apoio global à resistência palestina.
Clarke afirma que os socialistas devem oferecer “estratégias vencedoras”, mas a subversão do Mossad e da CIA contra a República Islâmica é uma estratégia perdida, tanto para as perspectivas de uma revolução socialista quanto para a civilização humana.
É também uma maneira segura de garantir o triunfo total do sionismo na Palestina, a expansão para o Grande Israel e, além, em um novo império judeu.
A Nova Esquerda e a análise “matizada”
Então, há uma tendência a produzir uma escrita acadêmica “sofisticada” e “matizada” que deliberadamente diz muito pouco. Eskandar Sadeghi-Boroujerdi, professor iraniano da Universidade de St Andrews, escreve no blog New Left Review:
“Alguns apresentam a agitação como uma ruptura revolucionária iminente; outros, como o produto exclusivo da desestabilização estrangeira; e outros, como o atraso de acerto de contas de uma sociedade, em última análise, empurraram para além de seu limite. Cada um capta parte da imagem, mas nenhum explica adequadamente a dinâmica da situação atual. O que está se desenrolando é melhor entendido como a convergência do esgotamento social acumulado, um agudo choque distributivo e uma crise de governança que a República Islâmica não possui mais os recursos ideológicos, burocráticos ou fiscais para administrar.
Até agora, tudo parece “matizado”. Mas há um sinal de alerta na expressão “situação presente”, que indica que essa história acaba servindo como uma cobertura para o terror apoiada pelo Mossad.
Este termo é um marco do trabalho acadêmico pós-estruturalista e pós-moderno, que muitas vezes tenta manter o aparecimento de um espírito radical e até marxista. Ele se origina do trabalho do marxista italiano Antonio Gramsci e mais tarde foi adotado pelo marxista estruturalista francês Louis Althusser, cuja “garra glacial”, como descrito por Terry Eagleton, foi transmitida ao estudioso de estudos culturais britânico Stuart Hall e seus seguidores.
O problema é que, quando Hall domesticou o conceito na década de 1980, ele havia sido despojado de qualquer política marxista ou anti-imperialista reconhecível. Agora, quarenta anos depois, o termo está confinado a debates acadêmicos e não tem absolutamente nenhuma utilidade prática para movimentos reais que buscam derrotar o poder imperial.
E é assim que, apenas alguns parágrafos depois, encontramos o seguinte:
“Ao mesmo tempo, há provas em vídeo de manifestantes armados confrontando forças de segurança com facas, facões e, em alguns casos, armas de fogo, o que supostamente indica como anos de repressão radicalizaram os segmentos de oposição.”
A evidência dessa afirmação é, naturalmente, inexistente. Essas armas não surgiram da radicalização dos cidadãos iranianos, mas foram fornecidas por agências de inteligência estrangeiras.
Além disso, essa narrativa ignora completamente a agitação pública do Mossad e até mesmo a publicação de Mike Pompeo em 2 de janeiro no X, na qual ele alegou que os agentes do Mossad estavam no terreno. O Sadeqi-Boruyerdi esqueceu esta informação crucial na sua investigação? Na verdade, a palavra “Mossad” não aparece uma vez em seu texto.
A decisão analítica mais flagrante é a sugestão de que o envolvimento do Mossad só fortaleceu os argumentos da República Islâmica.
“Reconhecer a interferência estrangeira não significa apoiar a afirmação de que os protestos nacionais foram puramente orquestrados do exterior. Uma revolta generalizada enraizada em anos de dificuldades sociais e econômicas não pode ser reduzida às maquinações de agências de inteligência externas, mesmo que agências israelenses e norte-americanas tentem sequestrá-lo. O que eles conseguiram principalmente fornecer um álibi conveniente para a repressão, reinterpretando os protestos como uma continuação da guerra de junho, justificando assim um estado de exceção sob o disfarce de segurança nacional.
Esta é uma maneira verdadeiramente deplorável de descrever um ataque aos próprios fundamentos da Revolução Islâmica. Não é de surpreender que Sadeghi-Boroujerdi tenha recorrido ao rótulo racista “islamista” em sua análise da República.
Ele fecha sua publicação lamentando um “estreito rápido do espaço para a agência política”. No entanto, neste contexto, a ideia de “agência” cheira a um dos principais pontos de propaganda da CIA rotineiramente usados em operações de mudança de regime, uma agenda intimamente ligada a uma agência de inteligência específica.
No final, não há como escapar: a esquerda internacional está, na melhor das hipóteses, a proporcionar cobertura e promover os esforços sionistas para destruir a República Islâmica e, com ela, a defesa material do povo palestino.
No pior dos casos, eles são colaboradores diretos do ataque sionista ao Irã e, em clara extensão, do genocídio no Levante. E se eles são iranianos, eles são traidores de seu próprio povo.
David Miller é produtor e co-apresentador do programa semanal de TV de imprensa Palestina Declassified. Ele foi demitido da Universidade de Bristol em outubro de 2021 por sua defesa da Palestina.
Fonte : Insurgent.org
domingo, 25 de janeiro de 2026
Esta gente (economista executivos) é ue sabem. Depois é que vêm os ideólogos produzir ideologia.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Ligado ao sector da energia desde os anos 1980, Agostinho Miranda, especialista em direito da energia e da arbitragem, fez boa parte da sua carreira nos EUA, onde chegou a director jurídico e administrador de empresas do grupo Standard Oil California, hoje Chevron. Em entrevista ao PÚBLICO, considera que um dos traços de Donald Trump é a “petromania”, evidência de que as operações externas que desencadeia visam baixar o preço do barril do petróleo. E que na Venezuela o Presidente norte-americano quis garantir para as petrolíferas americanas o domínio das recentes descobertas de hidrocarbonetos na região de Essequibo, na Guiana, que Nicolás Maduro declarou em 2025 ser o 24.º estado da Venezuela. Já o confronto com a China na área energética visa, entre outras coisas, travar a perda de influência do “petrodólar”, que está sob a ameaça dos BRICS, fórum de cooperação entre grandes economias emergentes.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Na Chevron, a segunda maior empresa petrolífera americana, acompanhou as operações em África, no Médio Oriente e na América Latina. Está a seguir de perto as mais recentes operações externas dos EUA na Venezuela?
Estou sim, e com enorme interesse, considerando, devo dizer, que nada justifica no plano jurídico o que os Estados Unidos fizeram: raptar um Presidente [Nicolás Maduro] para o julgar nos Estados Unidos, com todo o aparato. É uma solução sem precedentes históricos nos tempos modernos, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, um rapto que alguns já classificam de golpe de mão, uma acção de uma pequena força num curto espaço de tempo.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Num artigo publicado a 5 de Janeiro, o Prémio Nobel da Economia Paul Krugman considerou a operação norte-americana na Venezuela um delírio de Donald Trump.
A Venezuela vende 80% do seu petróleo à China, o que equivale a cerca de 600 mil barris por dia, não chega anualmente a 30 mil milhões de dólares, mais coisa menos coisa. Por si só não justifica desencadear uma acção. Mas existem sempre várias camadas a justificarem uma intervenção com a natureza daquela que está em curso na Venezuela, oficialmente descrita como “policial”. Há que decidir qual é a mais verosímil.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Qual é a mais verosímil?
Primeiro há que compreender Trump, o líder da nação mais poderosa do mundo, pelo menos militarmente, há que atender a uma das componentes do seu carácter, aquilo a que chamo de petromania: a ideia fixa de que a prosperidade do mundo assentou no sector da energia fóssil, em particular do carvão, do petróleo e do gás natural. E não há dúvida de que potencialmente trouxe — é importante dizê-lo — a cada ser humano a força mecânica equivalente a 200 escravos, como dizia Daniel Yergin no livro The Prize [1990]. E Trump pensará: se foi sobre o petróleo que se erigiu a prosperidade que fez dos EUA a maior potência mundial, então não é preciso inovar, não é preciso olhar para as alternativas… Basta continuar a fazer o mesmo que se fez até agora.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
A luta pelas fontes de energia está quase sempre na origem de muitos conflitos…
… Claro que sim. A retrofantasia já levou ao início de muitos conflitos para controlar as fontes de energia. O caso do Iraque, onde os EUA tiveram algum sucesso, vem-me imediatamente à cabeça. E Trump está a aplicar à Venezuela a mesma fórmula, acrescentando-lhe uma ficção: roubaram-nos, vamos lá buscar aquilo que é nosso.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Uma das razões do crescente protagonismo da China está na captação intensiva de recursos naturais à escala global e os EUA justificam a vaga de operações externas para conterem o seu principal competidor, especialmente tecnológico.
A China National Oil Operator Company (CNOOC) tem a dimensão da Exxon Mobil, é muito grande, a sua produção mundial é equiparável à da Exxon, mas insuficiente para as necessidades da China. As acções dos EUA não se resumem só à China, só ao petróleo e também não são só delírio. Deixe-me voltar à tese de Krugman de delírio na Venezuela. É que outras intervenções externas dos EUA decorreram em contextos muito diferentes do de hoje. Em 2003, a invasão do Iraque deu-se num quadro em que a procura de petróleo era muito superior e havia uma escassez generalizada de fontes primárias de energia, com o preço do petróleo numa curva ascensional, tendo chegado no final da década a 100 e 147 dólares por barril.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Hoje temos uma situação inversa?
Precisamente, porque hoje existe mais oferta de petróleo do que de procura, embora ainda não de gás natural. Além de que nunca houve um tão grande concerto do oligopólio produtor de petróleo, da OPEP+ [formada por 23 grandes produtores], como nos dias de hoje. Portanto, a despeito dos cortes da OPEP+, continuamos a ter excesso de oferta, e no último ano o preço do petróleo desceu praticamente 20%. Como em todas as decisões estratégicas dos EUA há vários clientes, vários protagonistas, desde os políticos conservadores mais tradicionalistas em termos de política externa aos vendedores de equipamento militar, e até aos que ainda defendem o excepcionalismo americano.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Para si, a operação dos EUA na Venezuela não está relacionada com o controlo das fontes energéticas? Percebi bem?
Não foi o que eu disse. Se por hipótese, estivesse no board [conselho de administração] da Exxon Mobil, a maior petrolífera do mundo, estaria muito, mesmo muito feliz, mas não era para voltar para a Venezuela, onde a Exxon tem um crédito de seis mil milhões de dólares sobre o qual já terá feito o write-off [reconhecimento de dívida irrecuperável]. É que a Exxon e a Chevron andam há dez anos a trabalhar na maior descoberta de petróleo dos últimos 15 anos, cuja extracção está a ter lugar na Guiana, uma ex-colónia britânica, na fronteira com a Venezuela.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Já escreveu que a descoberta da maior bacia de hidrocarbonetos na região amazónica é um “prémio demasiadamente tentador para qualquer autocrata”…
Exactamente. Os campos offshore na bacia Stabroek, na região de Essequibo, são titulados em 75% pela Exxon e pela Chevron. Neste momento, já estão a produzir 650 mil barris por dia, a 30 dólares por barril, com a expectativa de mais do que duplicar a produção em 2027, superando a produção anual da Venezuela. Já é uma produção maior do que a do Reino Unido no Mar do Norte. E Nicolás Maduro reclamou a região de Essequibo como pertença da Venezuela. Depois de muitas ameaças, confrontado com uma acção no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, interposta em 2018, e que perdeu, fez um referendo aos venezuelanos, e não aos habitantes da Guiana Essequiba, a perguntar se Essequibo era, ou não, parte da Venezuela. E, claro, ganhou o sim e Essequibo tornou-se o 24.º Estado da Venezuela — desde Junho de 2025 que tem um governador venezuelano empossado. Nessa altura, a Guiana pediu a intervenção de uma força norte-americana.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Foi um factor determinante para Trump retirar Maduro do poder?
É seguramente um elemento central. Estão em causa 11 mil milhões de barris de reservas certificadas recuperáveis. É brutal! Note bem: a capacidade que uma petrolífera tem de substituir reservas condiciona o valor das acções em mercado. E quanto mais barato sair o barril, maior o interesse em titular os campos. E estando o sector no geral a cortar em média 10% dos seus investimentos, com grandes cortes de pessoal, e não existindo na Venezuela novas descobertas, para quê investirem ali? O petróleo está lá, mas a que custo sairá a exploração? A que custo médio sai o barril de petróleo? Na mesmíssima formação geológica da bacia Stabroek, no Suriname e no Brasil foi também descoberto petróleo.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
A actual Administração acabará por ser forçada a procurar alternativas não-fósseis?
Devo dizer que o que hoje se passa nos EUA é muito grave, pois esta é uma Administração que não vê alternativa aos combustíveis fósseis. Havia uma decisão tomada por Biden de a partir do próximo ano se começar a desmantelar as políticas pró-fósseis, aquelas que a Administração Trump defende. E Trump já começou a reverter os apoios às soluções pró-clima. Trump refere-se às energias não-fósseis como “as energias dos liberais”
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
A reversão do plano de Biden é uma tentativa de fazer fracassar a agenda climática?
É, sim. Se há lobby poderosíssimo junto de Trump é o da energia fóssil. O secretário de Estado da Energia, Chris Wright [crítico da tese da crise climática e defensor das energias fósseis] vem dessa área. E o grupo dos maiores produtores do shale [gás de xisto], liderado pela Chevron, tem muito, muito poder. Através de uma ordem executiva, Trump retirou aos estados a possibilidade de darem incentivos às empresas de energias renováveis. Uma decisão que há-de ser descrita como um dos maiores erros da Administração Trump. Já foram anulados contratos assinados com empresas renováveis equivalentes a mais de 100 mil milhões de dólares.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Voltando à disputa pelas fontes de energia, em que medida a operação na Venezuela visa ter um efeito dominó para conter estrategicamente a China no espaço que os EUA reclamam como seu?
Peter Zeihan escreveu um livro a evidenciar que há razões económicas, políticas, estratégicas e de segurança para os Estados Unidos concentrarem as prioridades nas Américas. Vejamos: a América Latina tem matérias-primas suficientes para os Estados Unidos, enquanto a África e o Médio Oriente têm para alimentar a China. Estou convencido de que a China vê a América Latina mais como “bargaining chip” [moeda de troca], mais como uma forma de melhorar as condições de negociação com os Estados Unidos, do que como fonte de acesso a matérias-primas, ainda que sejam baratas. Na prática, na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal! E acho que têm grandes hipóteses de sucesso.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
Porquê?
A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada em 2025, é muito clara: o objectivo central é o controlo das Américas. E temos de reconhecer que, entre o Canadá e a Argentina, os EUA têm tudo o que precisam, não precisam de ir mais longe: petróleo, gás natural, cobre, terras raras, lítio… É perto, são países com muita gente nova, gente com vontade de trabalhar e de ganhar dinheiro.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
A perda progressiva do peso do dólar como moeda de reserva e de referência nas trocas comerciais é um sinal da perda de hegemonia dos EUA que deve preocupar a Casa Branca?
Em Novembro de 2024, um dos autores do acordo secreto de Mar-a-Lago, que advoga a reforma do sistema financeiro internacional, Stephen Miran [que Trump nomeou para liderar o conselho de assessores económicos e acaba de indicar para a FED], escreveu um artigo a alertar para o facto de os principais bancos centrais mundiais terem diminuído em quase 20% a utilização do dólar enquanto moeda de reserva, levando a uma perda da posição da moeda norte-americana nos últimos 15 anos. E, portanto, a substituição de dólares por outras moedas, por ouro e prata, começou bastante lá atrás.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
A "desdolarização" do sistema internacional, uma aposta dos BRICS [criada pela China, Rússia, Brasil e Índia], é um desafio à ordem liderada pelos EUA?
Os BRICS já têm uma moeda para fazer trocas comerciais entre si, o BRICS Pay, e um sistema de compensação, o mBridge, dois instrumentos a funcionar plenamente que retiram poder ao dólar, que continua a ser dominante. A questão é: até quando? O momento de viragem do lugar do dólar no sistema financeiro internacional deu-se em 2025 quando a Arábia Saudita aderiu aos BRICS, colocando em causa o acordo entre Nixon e os sauditas que determinava o uso do dólar como moeda de referência nas transacções petrolíferas. Agora, a Arábia Saudita — que esteve na origem dos petrodólares — já faz transacções noutras moedas.
Agostinho Miranda: “Na Venezuela, os EUA disseram à China: saiam do nosso quintal!”
No puzzle pela expansão do domínio norte-americano rumo ao Hemisfério Ocidental está a arma da guerra comercial?
O acordo de Mar-a-Lago considera ultrapassado o sistema de Bretton Woods [regras para o sistema monetário e financeiro definidas em 1944] e advoga um novo: defender a hegemonia do dólar com uma desvalorização até 30% e, simultaneamente, promover a procura do dólar por parte dos bancos centrais. Tudo isto está escrito no texto de Miran: os EUA vão utilizar tarifas alfandegárias simétricas; se a União Europeia não mantiver os níveis de reservas em dólares nos limites que os EUA querem, os EUA revalorizam o ouro da Reserva Federal, presentemente contabilizado ao valor do tempo de Nixon, a 35 dólares a onça, o que será terrível para a Europa, pois tornaria a dívida americana (obrigações e bilhetes do tesouro) mais atractiva. Foi isto o que disseram ao Banco Central Europeu.
(...)
Fonte : Jornal PÚBLICO
sábado, 24 de janeiro de 2026
Discordando ambora de determinadas afirmações , julgo de interesse
Fonte : JACOBINA Brasil
A década perdida da esquerda europeia
Pedro Silva
Há dez anos, partidos insurgentes do sul da Europa foram eleitos com a promessa de transformar o capitalismo. O fracasso desses partidos oferece lições que a esquerda contemporânea não pode se dar ao luxo de ignorar.
Com o surgimento de novos projetos de esquerda — desde o recente triunfo de Mamdani até a ascensão de um novo partido de esquerda na Grã-Bretanha — vale a pena revisitar o “momento de esquerda” europeu da década de 2010. Há dez anos, as expectativas eram altas. Embora o governo do SYRIZA tivesse acabado de ceder à Troika, as esperanças ainda se concentravam em outros partidos de esquerda do sul da Europa (Podemos, Bloco de Esquerda), em um Partido Trabalhista revigorado no Reino Unido e no novo partido de Mélenchon na França. Dez anos depois, no entanto, o neoliberalismo permanece firmemente estabelecido, cada vez mais autoritário e abertamente belicista. Pior ainda, a extrema-direita se consolidou como a principal adversária do centro político, apesar de sua suposta ruptura com a ortodoxia neoliberal ser, em grande parte, ilusória. Como chegamos a este ponto?
Durante grande parte do período pós-Guerra Fria, a esquerda radical europeia permaneceu marginalizada. O colapso do Bloco Oriental minou não apenas o socialismo de Estado como modelo, mas a própria ideia de uma alternativa sistêmica ao capitalismo. As décadas de 1990 e 2000 foram definidas pelo triunfo da hegemonia neoliberal e pela erosão da consciência de classe. Nesse período, a esquerda radical obteve uma média de apenas 6,6% dos votos nas eleições nacionais.
No entanto, a guinada neoliberal da social-democracia criou um vácuo político. Do final da década de 1990 em diante, surgiram novas formações de esquerda — Die Linke na Alemanha, o Parti de Gauche na França, o SYRIZA na Grécia, o Bloco de Esquerda em Portugal e, mais tarde, o Podemos na Espanha. Esses partidos se posicionaram como alternativas tanto à social-democracia neoliberal quanto aos partidos comunistas fossilizados, incapazes de se conectar com as novas camadas ativistas moldadas pelo movimento antiglobalização.
A crise da zona do euro na década de 2010 abriu caminho para esses partidos. Na Grécia, Espanha e Portugal, a austeridade foi inicialmente imposta por governos de centro-esquerda, resultando em ondas massivas de resistência popular. Embora os sindicatos por vezes tenham desempenhado um papel, os protestos assumiram, em grande parte, a forma de movimentos sociais de massa, desobediência civil e redes de solidariedade popular. Alguns desses novos partidos, especialmente o SYRIZA e o Podemos, conseguiram se inserir nesses movimentos e tornaram-se seus veículos políticos.
Em meados da década, com o arrefecimento da mobilização em massa, a oportunidade eleitoral atingiu o seu auge. Só em 2015, o SYRIZA chegou ao governo na Grécia, o Podemos e o Bloco alcançaram resultados históricos, Jeremy Corbyn assumiu a liderança do Partido Trabalhista e Bernie Sanders lançou uma campanha que revitalizou a social-democracia nos EUA. Antes de Trump e do Brexit, parecia que a esquerda radical tinha tomado a iniciativa, conseguindo inclusive impedir a entrada da extrema-direita nos parlamentos de Espanha e Portugal.
Nenhuma dessas forças, contudo, cumpriu sua promessa. A capitulação do SYRIZA à Troika em julho de 2015 marcou um ponto de virada. Após desafiar brevemente a austeridade, o governo aceitou um novo resgate financeiro, novos cortes e extensas privatizações. Essas políticas abriram caminho para o retorno da direita ao poder e a transformação do SYRIZA em um partido social-democrata tradicional. Em Portugal, o apoio parlamentar prolongado do Bloco a um governo de centro-esquerda teve pouca influência sobre as políticas efetivadas, culminando em um colapso eleitoral e na ascensão do partido de extrema-direita Chega. O Podemos seguiu um caminho semelhante ao entrar no governo com o PSOE, perdendo seu perfil anti-establishment e permitindo que seu parceiro majoritário reivindicasse o crédito por reformas modestas. Hoje, o Podemos está na parte inferior das pesquisas, enquanto o Vox cresce de forma constante.
Apesar da abertura histórica criada pela crise financeira, a esquerda radical não conseguiu alterar a ordem neoliberal. As limitações objetivas eram reais: sindicatos fracos, desenvolvimento desigual dentro da UE, uma classe trabalhadora europeia fragmentada e, de fato, uma esquerda europeia fragmentada. A consciência de classe recuperou-se parcialmente desde 1989, mas permanece em grande parte reformista, hesitante em tirar conclusões sistêmicas mesmo em meio à catástrofe climática, à guerra e à desigualdade crescente. Décadas de domínio neoliberal continuam a moldar os horizontes políticos.
Contudo, esses obstáculos não eram imutáveis. A esquerda radical foi limitada pelas circunstâncias, mas também fez suas próprias escolhas decisivas. Em diferentes contextos nacionais, esses partidos compartilhavam características programáticas, estratégicas e organizacionais comuns que explicam tanto sua ascensão meteórica quanto seu declínio subsequente, ainda mais rápido.
Do radicalismo ao reformismo
Ser radical é atacar os problemas pela raiz — ou seja, pelo próprio capitalismo. Nessa perspectiva, a esquerda radical da década de 2010 foi radical em sua origem. Esses partidos emergiram de tradições comunistas não stalinistas: o Bloco, das correntes trotskista, maoísta e eurocomunista; o SYRIZA, de uma coalizão centrada nos Sinaspismos eurocomunistas; e o Podemos, de uma mistura de intelectuais populistas de esquerda, trotskistas e ativistas dos Indignados.
Com o tempo, porém, seus programas foram sendo moderados progressivamente. Os primeiros apelos do SYRIZA pela nacionalização deram lugar, em 2015, a uma plataforma social-democrata limitada à oposição à austeridade e à restauração do Estado de bem-estar social, sem sequer questionar a permanência da Grécia na zona do euro. Essa recusa em cogitar uma ruptura com a união monetária enfraqueceu fatalmente a posição negocial do SYRIZA e refletiu uma perspectiva neorreformista mais ampla: a tentativa de apaziguar o capitalismo neoliberal por meio da representação, em vez do confronto.
Os defensores dessa abordagem argumentavam que a saída da zona do euro teria sido catastrófica. Ao fazer isso, simplesmente reproduziam a lógica do TINA (“não há alternativa”, “There Is No Alternative”, em inglês) e pressupunham um equilíbrio estático das forças de classe. No entanto, o referendo do Oxi demonstrou momentaneamente o potencial para uma mudança radical, caso o governo tivesse optado por mobilizar sua base e implementar medidas como controle de capitais, nacionalização de bancos e política industrial liderada pelo Estado. Essa alternativa nunca foi seriamente considerada, porque o SYRIZA já havia abandonado qualquer programa de transição para além do capitalismo.
O Bloco seguiu um caminho semelhante. Focado principalmente na defesa do Estado de bem-estar social, apoiou por duas vezes um governo social-democrata sem apresentar uma alternativa socialista crível. Quando retirou o apoio em 2022, era indistinguível do status quo e pagou o preço eleitoral. A trajetória de moderação do Podemos foi ainda mais rápida: abraçando abertamente uma agenda neokeynesiana e social-democrata, conseguiu reformas limitadas no governo, que sendo politicamente capitalizadas pelo PSOE.
Essa moderação programática foi impulsionada pelo eleitoralismo. Na busca pela “elegibilidade”, esses partidos se limitaram a ressuscitar elementos do keynesianismo do pós-guerra — impostos mais altos, bem-estar social, serviços públicos — combinados com políticas culturais progressistas. Mas as condições que outrora permitiram tais reformas dentro do capitalismo já não existem. Na policrise atual, o neorreformismo não leva à reforma, mas à adaptação e eventual absorção pelo status quo.
Das ruas às instituições
A ascensão da esquerda neorreformista dependeu não apenas de programas anti-austeridade, mas também de seu engajamento precoce com os movimentos de massa. SYRIZA, Bloco e Podemos atuaram inicialmente como partidos-movimento, convertendo a resistência social em capital político. Os laços estreitos do SYRIZA com os movimentos sociais gregos possibilitaram sua ascensão meteórica em 2012, quando substituiu o PASOK como o principal partido de esquerda. Contudo, esse sucesso gerou complacência. Com o declínio da mobilização social, o partido voltou-se decisivamente para a política parlamentar, negligenciando as forças populares que o impulsionaram inicialmente.
Essa virada institucional culminou na dependência do SYRIZA em negociações de alto nível com a Troika. O referendo do Oxi poderia ter marcado um retorno à mobilização de massas e um desafio à austeridade em toda a Europa. Em vez disso, permaneceu uma manobra tática dentro de uma estratégia geral que se manteve dentro dos limites da democracia capitalista. O partido perdeu porque optou por jogar um jogo cujas regras haviam sido definidas por seus adversários.
A fixação do Bloco no parlamento durante os anos em que apoiou um governo minoritário corroeu de forma semelhante a sua presença popular. O Podemos institucionalizou-se ainda mais rapidamente, proclamando explicitamente uma mudança da mobilização para as instituições no primeiro ano após a sua fundação. Durante a crise catalã de 2017, limitou-se ao reformismo constitucional enquanto os protestos em massa se desenrolavam nas ruas.
A nível europeu, o institucionalismo era ainda mais acentuado. A cooperação transnacional era mínima, limitando-se a gestos simbólicos e a uma fraca coordenação no Parlamento Europeu. Mesmo durante o confronto do SYRIZA com a Troika, não houve qualquer esforço sério para construir uma frente pan-europeia contra a austeridade. A oportunidade de revitalizar o internacionalismo de esquerda foi desperdiçada, deixando a esquerda radical europeia atual mais fragmentada do que nunca no período pós-1989.
Organização interna
A moderação programática e a institucionalização estratégica refletiram-se internamente. Partidos que começaram como pluralistas e democráticos gradualmente se burocratizaram, muitas vezes para suprimir a dissidência interna diante da moderação programática e estratégica. A transformação do SYRIZA de uma coligação em um partido unitário fazia sentido, mas assumiu a forma de concentração de poder no topo, desempoderando a base. A entrada no governo acelerou esse processo, abrindo caminho para carreiristas e uma constante guinada à direita. A eventual, ainda que efêmera, eleição de um ex-banqueiro do Goldman Sachs como líder simbolizou a degeneração do partido.
Bloco e Podemos seguiram caminhos semelhantes. As organizações fundadoras do Bloco dissolveram-se num aparato rigidamente controlado, enquanto o Podemos centralizou rapidamente a tomada de decisões através de mecanismos online que atomizaram os seus membros. A participação inicial em massa deu lugar à desmobilização e à personalização em torno de Iglesias, cuja saída deixou um vácuo que ainda não foi preenchido. Ironicamente, todos estes desenvolvimentos foram justificados, muitas vezes explicitamente, por uma rejeição do centralismo democrático “leninista”, mas o que a esquerda neorreformista acabou por reproduzir foi a sua caricatura burocrática: centralismo sem democracia. Ao fazê-lo, traiu a sua promessa original de construir um tipo diferente de partido de esquerda.
Lições para a esquerda
Após décadas de neoliberalismo e em meio a uma crescente policrise sistêmica, a esquerda europeia enfrenta sua própria crise prolongada. Os sindicatos estão fracos, os partidos operários de massa desapareceram, a consciência de classe está aquém das realidades materiais e a esquerda revolucionária está fragmentada e marginalizada. Nesse contexto, a experiência da esquerda do sul da Europa oferece três lições importantes uma década depois.
Em primeiro lugar, a esquerda não pode se limitar a gerir o capitalismo. Reformas são necessárias, mas devem estar inseridas num programa radical de democracia econômica e política. Sem essa ponte entre as demandas imediatas e a transformação sistêmica, o reformismo não leva a lugar nenhum.
Em segundo lugar, o verdadeiro poder vem da mobilização em massa. A política eleitoral e o ativismo de base não são caminhos alternativos a serem escolhidos, mas estratégias complementares — duas faces da mesma moeda. Os partidos de esquerda radical devem voltar a ser partidos de movimento; e permanecer assim, em vez de trocar um pelo outro ao primeiro vislumbre de glória eleitoral.
Em terceiro lugar, a unidade importa. A fragmentação na esquerda radical atual supera em muito as diferenças políticas reais. Igualmente importante, qualquer projeto de unidade deve ser pluralista e democrático, combinando debate interno com ação coordenada. Quando compreendido e aplicado corretamente (e não apenas da boca para fora), o centralismo democrático continua sendo indispensável.
O capitalismo há muito insiste que não há alternativa a si mesmo. Grande parte da esquerda internalizou essa ideia, limitando suas ambições a administrar ou reformar levemente o sistema. No entanto, a desigualdade, o autoritarismo, a catástrofe climática e a guerra estão levando cada vez mais pessoas a questionar radicalmente esse sistema que, como todos os sistemas anteriores, pode parecer eterno. A esquerda precisa acompanhar essa corrente histórica e redescobrir a coragem para lutar por uma nova sociedade.
Vladimir Bortun
é um cientista político que pesquisa partidos de esquerda, elites políticas e política transnacional. Ele é o autor de "Crise, Austeridade e Cooperação Transnacional entre Partidos no Sul da Europa: A Década Perdida da Esquerda Radical".
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
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