ESTÁTUA DA LIBERDADE
Venezuela: quem se mete com o dólar, leva!
Luís Gomes|
05/01/2026
No passado sábado, na Venezuela, consumou-se mais um acto solene do teatro imperial contemporâneo. Os Estados Unidos lançaram uma operação militar de grande envergadura, com bombardeamentos sobre Caracas e outras zonas sensíveis do território, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, conduzidos a solo norte-americano para enfrentarem acusações criminais.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, sem rodeios nem pudor, que o país seria “gerido temporariamente” por Washington. A linguagem é reveladora: não se fala de soberania, nem de autodeterminação, nem sequer de transição negociada. Fala-se de administração, como se um país fosse uma massa falida, um condomínio mal gerido, uma colónia regressada ao seu tutor natural.

Perante este quadro, impõe-se a pergunta elementar, aquela que precede todas as outras e que raramente é respondida com honestidade: para que serviu esta intervenção? ↓
Uns dizem que foi para combater o narcotráfico, como se as drogas fossem um fenómeno exógeno que cai do céu tropical sobre as cidades norte-americanas. Outros afirmam que se tratou de restaurar a “liberdade” do povo venezuelano – curiosamente, à bomba, ao míssil, à prisão do chefe de Estado, numa pedagogia que faria corar qualquer tirano do século XX. Outros ainda apontam para o petróleo, e não sem razão: a Venezuela possui reservas estimadas entre 300 e 303 mil milhões de barris de crude, cerca de 17 a 20% das reservas globais, superiores às da Arábia Saudita. Quando a realidade é incómoda, multiplica-se a retórica; quando o motivo é simples, inventam-se justificações morais.
Comecemos pelo primeiro argumento, o mais gasto e talvez o mais cínico: o combate ao narcotráfico. O proibicionismo moderno, erigido como cruzada moral em 1971, iniciou-se num contexto em que cerca de 1 a 2% da população norte-americana apresentava dependência de drogas. Meio século depois, após décadas de guerra declarada, de repressão policial, de encarceramento em massa, de vigilância e controlo, o problema não diminuiu: multiplicou-se.

O número de dependentes é hoje várias vezes superior ao de então. Se os Estados Unidos quisessem, genuinamente, resolver o problema das drogas, a solução seria simples e já conhecida: pôr termo ao proibicionismo, retirar o negócio ao crime organizado, tratar a dependência como uma questão de saúde e responsabilidade individual. Mas isso não interessa. O proibicionismo não é um fracasso acidental; é um instrumento funcional. Serve de pretexto para intervenção externa, para financiamento de aparelhos repressivos, para expansão do Estado penal e para exportação do caos sob a capa da moral.
Passemos ao segundo argumento: a “libertação dos povos”. Mais de metade da população mundial vive sob regimes autoritários ou ditaduras declaradas. Se a solução “ética e lúcida” para cada tirania é chamar o império de serviço, então abrimos a porta à intervenção permanente: África, Médio Oriente, Ásia, América Latina – não sobra um continente incólume. Isso não é realismo político; é guerra sem fim. O critério deixa de ser a justiça e passa a ser a conveniência do mais forte – a lei da selva, a única que se aplica entre Estados, organizações criminosas por excelência –, aplicada de forma selectiva, arbitrária e interessada. Ditaduras amigas são toleradas; ditaduras desalinhadas são demonizadas. A moral varia conforme a latitude e o subsolo.
Além disso, convém desfazer um equívoco persistente: as chamadas democracias não são moralmente superiores por definição. São, em muitos casos, ditaduras da maioria, sustentadas por eleições onde se promete roubar uma minoria para comprar os votos da maioria. O mecanismo é mais sofisticado, mais polido, mais decorado com linguagem jurídica e cerimónia institucional, mas a essência permanece: coerção legitimada pela maioria que deseja assaltar a outra parte. Não é virtude; é aritmética. Quem aceita um salvador armado abdica, desde logo, da própria dignidade política.

Resta o petróleo, o argumento que muitos repetem como se fosse a chave de tudo. Mas também aqui a análise exige sobriedade. Os Estados Unidos são, há vários anos, o maior produtor de petróleo do mundo, à frente da Arábia Saudita e da Rússia. Produzem energia suficiente para cobrir o seu consumo interno e, desde 2019, são exportadores líquidos de energia. Importam petróleo, sim, mas por razões logísticas, de refinação e de qualidade do crude: importam alguns tipos pesados e exportam outros mais leves. Não precisam do petróleo de ninguém para sobreviver. Importam e exportam por eficiência económica, não por necessidade vital. O petróleo venezuelano, por si só, não explica aviões, helicópteros e bombardeamentos.
A razão principal é outra, mais funda e mais perigosa: a defesa do dólar norte-americano. Desde a Segunda Guerra Mundial, ao tornarem-se emissores da moeda reserva do mundo, os Estados Unidos habituaram-se a um privilégio exorbitante: imprimir dinheiro e comprar ao resto do mundo aquilo que este produz.
Não é casual que a produção industrial norte-americana seja hoje uma sombra do que foi, quer no pós-guerra imediato, quer mesmo há algumas décadas. A fábrica do mundo é hoje a China. O dólar permitiu aos norte-americanos viverem sistematicamente acima do que produzem, exportando inflação e importando bens reais. É um estatuto que nenhum império abdica voluntariamente. A história ensina-o: a perda do estatuto de moeda reserva termina quase sempre com violência.

Sempre que um país necessita de comprar petróleo – a principal fonte de energia do sistema económico moderno – tem, regra geral, de adquirir dólares norte-americanos para efectuar os pagamentos. Essa procura estrutural por dólares norte-americanos permite aos Estados Unidos exportar inflação para o resto do mundo, sem sofrerem as consequências que qualquer outro país sofreria. A inflação torna-se global; o benefício é local. É este mecanismo, e não uma súbita paixão pela “liberdade dos povos”, que sustenta a política externa norte-americana.
É aqui que a Venezuela entra como problema. Há anos que o regime venezuelano procura afastar-se do dólar norte-americano. Em Setembro de 2017, anunciou oficialmente que passaria a cotar o preço do petróleo em iuane chinês, abandonando a referência exclusiva ao dólar norte-americano, como resposta directa às sanções norte-americanas.
O próprio Ministério do Petróleo publicou preços nesse formato, gesto simbólico mas politicamente explosivo. Em 2019, surgiram relatos de ofertas de pagamento a fornecedores e contratados através de contas em iuane mantidas na China, precisamente para evitar os sistemas financeiros em dólares norte-americanos bloqueados pelo OFAC (Office of Foreign Assets Control dos EUA). Durante algum tempo, os preços do petróleo venezuelano foram efectivamente publicados em iuane chinês, sinal claro de intenção estratégica. Não se tratou de uma transição total e imediata, mas de uma ruptura progressiva, e isso bastou.

Por isso sofreu o golpe. O regresso das grandes empresas petrolíferas à Venezuela implicará, quase inevitavelmente, o regresso da venda de petróleo exclusivamente em dólares norte-americanos. O argumento de que tal intervenção serve para reparar antigas nacionalizações não resiste a um exame sério.
Os Estados Unidos são peritos em confiscar o petróleo dos outros quando lhes convém. Síria e Iraque são exemplos recentes de um desprezo absoluto pela propriedade alheia, a que se somam as frequentes apreensões de petroleiros em águas internacionais. A propriedade privada só é sagrada quando pertence aos aliados certos.
O padrão é claro e repete-se com regularidade. No Iraque, Saddam Hussein anunciou, em 2000, que o petróleo passaria a ser vendido em euros. Seguiram-se sanções, invasão em 2003, derrube do governo e retorno imediato do petróleo ao dólar norte-americano. Na Líbia, Muammar Gaddafi defendeu um dinar de ouro africano e comércio energético fora do dólar norte-americano. O resultado foi a intervenção da NATO em 2011, a destruição do Estado, o desaparecimento das reservas de ouro, mercados de escravos a céu aberto, e um país fragmentado até hoje.

Na Venezuela, sob Chávez e Maduro, assistimos a tentativas de vendas em iuane e acordos fora do sistema bancário norte-americano, seguidas de sanções severas, bloqueio da PDVSA (a petrolífera do estado venezuelano), asfixia económica prolongada e uma mudança de regime tentada, agora consumada pela força.
Há ainda o caso que muitos preferem esquecer, talvez por ser demasiado claro: o Irão. Em 2008, criou uma bolsa de petróleo com contratos em euros, rial e iuane, recusando explicitamente o dólar norte-americano. O resultado foi previsível: décadas de sanções, exclusão do sistema SWIFT, pressão militar constante, operações encobertas e sabotagem. É talvez o exemplo mais limpo do padrão depois do Iraque.
Há o caso grande demais para “resolver” da mesma forma: a Rússia. Desde 2014, após o golpe de estado perpetrado pelos EUA, que depôs um presidente ucraniano eleito democraticamente, reduziu o uso do dólar norte-americano e celebrou acordos energéticos em rublos, iuane e ouro.

Após 2022, exigiu pagamentos de gás em rublos. O resultado foi um pacote maciço de sanções, congelamento de reservas, guerra económica aberta e um conflito militar indirecto na Ucrânia. Aqui não houve mudança de regime rápida porque há armas nucleares. A variável decisiva é sempre a mesma: capacidade de dissuasão.
Casos em observação multiplicam-se. A Síria, alinhada com Irão e Rússia, recusou a arquitectura financeira ocidental e foi mergulhada numa guerra prolongada, com sanções e fragmentação territorial. A China criou o petroiuane, contratos de petróleo em iuane convertíveis em ouro, e enfrenta hoje pressão comercial, guerra tecnológica e cerco geopolítico. Aqui o confronto é estrutural, não militar directo – por enquanto.
Energia é poder. O dólar é o instrumento de controlo, a base em que assenta o império norte-americano. Quem tenta sair do sistema é sancionado, isolado ou destruído. Sem dissuasão, cai; com dissuasão nuclear, entra-se numa guerra longa e indirecta. Isto não é teoria da conspiração; é geopolítica monetária elementar.

Desde o fim do padrão-ouro, o mundo tornou-se totalmente dependente da infra-estrutura do dólar, um império que começa a ruir, visível nas fracturas abertas pela guerra na Ucrânia e pelos acordos energéticos fora do dólar norte-americano entre Rússia e China. O império apela ao direito internacional quando lhe convém e ignora-o quando o contraria. As fronteiras são sagradas, excepto quando estão sobre petróleo, rotas estratégicas ou moedas indisciplinadas.
O ponto de partida é simples e raramente explicitado: o dólar norte-americano não é dominante apenas porque é usado, mas porque se tornou a moeda reserva do mundo desde a segunda guerra mundial. Qualquer transacção que toque no dólar norte-americano, ou que atravesse um banco correspondente sediado nos Estados Unidos, cai automaticamente sob jurisdição norte-americana, ainda que nenhuma das partes seja norte-americana e a operação ocorra integralmente fora do território dos EUA.
Uma empresa portuguesa pode comprar petróleo a uma empresa angolana, ambas em pleno acordo e sem qualquer conflito jurídico entre si; se o pagamento for feito em dólares norte-americanos, esse pagamento terá de passar por um banco correspondente em Nova Iorque, ficando sujeito às regras, sanções e listas do Departamento do Tesouro e da OFAC. O dólar norte-americano transforma um negócio externo num assunto interno dos Estados Unidos. Isto não é uma anomalia: é jurisdição extraterritorial de facto, normalizada e aceite como se fosse uma lei da natureza.

Este poder não se exerce directamente, mas através de um filtro silencioso: o sistema de branqueamento de capitais. O AML (políticas de combate ao branqueamento de capitais) funciona como um porteiro do sistema financeiro global, com uma pergunta implícita e não negociável: “queres operar no mundo?” – então terás de cumprir regras que não definiste. KYC (Conhece o teu Cliente) detalhado, monitorização permanente, reporte de transacções suspeitas e cooperação estreita com as autoridades, sobretudo norte-americanas, tornaram-se condições de existência.
Formalmente, os padrões são definidos por entidades multilaterais como o GAFI (liderada por burocratas não eleitos e totalmente desconhecidos); na prática, alinham-se com os interesses estratégicos dos Estados Unidos e dos seus aliados. Não se trata de combater crime, mas de condicionar o acesso. O sistema não pergunta se algo é justo ou legítimo; pergunta se é compatível com a arquitectura dominante.
O verdadeiro gargalo está nos bancos correspondentes. Mesmo um banco europeu, a operar em euros e a servir clientes não norte-americanos, depende estruturalmente do acesso ao dólar norte-americano para o comércio internacional, energia, matérias-primas e liquidação final. Se violar – ou apenas se aproximar perigosamente – das regras AML ou das sanções dos EUA, perde esse acesso e fica morto do ponto de vista funcional.

Não é preciso encerrar o banco; basta cortar o dólar. É por isso que bancos europeus já pagaram multas multimilionárias por violarem sanções norte-americanas, mesmo quando não infringiram qualquer lei local. É por isso que o cumprimento com excesso de zelo se tornou regra: perante um cliente venezuelano, iraniano ou russo, perfeitamente legal à luz do direito europeu, o banco prefere recusar. Não por justiça, mas por medo. O AML deixa de ser jurídico e passa a ser preventivo.
Daí a parte mais desconfortável: na prática, o AML não elimina o grande crime financeiro. A lavagem sistémica, os fluxos gigantescos através de fundos, veículos offshore e instituições “grandes demais para cair” continuam a passar.
O que é efectivamente punido são países, empresas e indivíduos que tentam sair da órbita do dólar norte-americano. Quando um país decide vender petróleo fora do sistema, usar iuane, ouro ou trocas directas, o castigo chega sem tiros: bancos recusam pagamentos por “risco AML”, seguradoras retiram cobertura, transportadoras recusam cargas, o acesso ao SWIFT é cortado. O país fica isolado sem que uma única bomba seja lançada.

Tudo legal, tudo regulatório. É assim que o dólar norte-americano mantém a sua hegemonia sem necessidade de coerção permanente – e é por isso que qualquer alternativa monetária real, do iuane ao Bitcoin, provoca reacções tão viscerais: não ameaça o crime, ameaça o controlo, obrigando o exército norte-americano a actuar em defesa.
A Venezuela é apenas o capítulo mais recente de uma longa narrativa. Não é sobre drogas, nem sobre liberdade, nem sequer sobre petróleo em bruto. É sobre a sobrevivência de um sistema monetário que permite a uns viverem do trabalho dos outros. Quando esse sistema é posto em causa, as bombas voltam a falar. Sempre falaram!
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
in PÁGINA UM
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