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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 

No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike

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Por IVANA BENTES*

A imagem de Nicolás Maduro em Nike Tech Fleece simboliza o capitalismo mafioso, onde a pilhagem geopolítica se converte em mercadoria viral e a guerra vira entretenimento consumível

A divulgação da imagem de Nicolás Maduro, algemado e vendado, envolto em um casaco cinza Nike Tech Fleece, não foi um detalhe secundário na invasão da Venezuela pelos EUA em 03 de janeiro de 2026. Foi a expressão visual da doutrina Trump, baseada em um “capitalismo mafioso”, que fere todas as convenções e acordos internacionais para expropriar o petróleo do país vizinho. A pilhagem geopolítica, brutal e indefensável, encontrou um símbolo irônico e fluído, pronto para ser remixado infinitamente pela lógica do capitalismo digital.


A reação nas redes e plataformas foi instantânea e viral. Usuários apontaram a já batida “contradição” entre o discurso anti-imperialista de Nicolás Maduro e o uso de um ícone do capitalismo global, a Nike. Piadas sobre marketing de “guerrilha”, comentários celebratórios e difamatórios, editoriais de moda e política seguiram a lógica do over exposição algorítmica e a imagem foi viralizada e remixada em memes, vídeos, incluindo várias montagens em que Maduro aparece como rapper ou um DJ.

A imagem pública de um chefe de Estado é construída sobre signos de autoridade: ternos, uniformes, bandeiras. A “semiótica do poder” é rígida. A foto de Nicolás Maduro, divulgada por Donald Trump em sua rede social, rompe com esse protocolo para mostrar um corpo vulnerável e vestido para o lazer.

O conjunto desportivo Nike Tech Fleece, associado ao estilo urbano e ao conforto casual, desloca completamente o contexto da violenta captura de Nicolás Maduro como um prisioneiro político, para mostrá-lo, primeiro ato de uma operação simbólica recorrente na retórica trumpista, como a banalidade cotidiana em pessoa.

A imagem de Nicolás Maduro se torna a do “cara qualquer” que vai à academia ou ao supermercado. A mensagem é clara: seu poder acabou; agora, você é apenas mais um. A narrativa geopolítica de captura e julgamento foi sobreposta por uma narrativa estética domesticada, da mesma forma que Donald Trump declarou que viu a operação militar e a captura de Nicolás Maduro “como se estivesse vendo um programa de televisão”.

Extrativismo cognitivo

Os ataques gravíssimos para a democracia no continente e no mundo não podem produzir turbulência. O que choca o mundo tem que ser naturalizado por Donald Trump como parte de um menu imperial banal.

Donald Trump banaliza ataques a outros países e violações do direito internacional de forma sistemática, primeiro pelo discurso, governa pelo uso da força e por memes e usa de forma performática as redes sociais e as imagens. Logo após o ataque a Venezuela, Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, publicou uma imagem do mapa da Groelândia, em que a ilha dinamarquesa é pintada com as cores da bandeira dos Estados Unidos, as imagens concretizam um extrativismo cognitivo e ofensivo.

Donald Trump faz a guerra na lógica do extrativismo territorial do petróleo, mas também do extrativismo cognitivo. Imagens de Inteligência artificial geram um Donald Trump imperial e brutal retratado como o Papa (vestes brancas, mitra, crucifixo) ou usando uma coroa de rei, uma paródia de capa da revista Timemostrando Donald Trump sob o slogan “Long Live The King”.

Outro vídeo de Inteligência artificial mostra Donald Trump usando uma coroa, pilotando um jato chamado “King Trump” que despeja substância marrom em manifestantes, publicado no dia de protestos nacionais “No Kings” que tomaram as ruas em várias cidades dos EUA e que ironizavam seu desejo de onipotência.

Donald Trump aparece ainda como um “God-Emperor” gigante e dourado em um trono, inspirando-se no jogo Warhammer 40,000, ameaça opositores políticos. Outro vídeo de Inteligência artificial mostra Donald Trump “salvando” Gaza, com uma estátua dourada dele no cenário.

Mas nada se compara ao vídeo gerado por Inteligência artificial no dia 05 de janeiro de em que Donald Trump aparece de bigode e cabelo no estilo Maduro se autoproclamando o novo presidente da Venezuela, falando em inglês e espanhol e invocando “sexy mamacitas, mariachis e drinks de margaritas”.

As imagens de Donald Trump travestido de Nicolás Maduro são a captura do outro pela caricatura, uma forma de assujeitamento político, uma arma da guerra cultural, projetada para dominar o ciclo de notícias, humilhar os oponentes, inflamar a sua base e testar os limites do discurso público.

Mas, como os vírus, os memes “não tem moral” ou destino e podem ser reapropriados ao infinito. As imagens produzidas por Inteligência artificial de Nicolás Maduro capturado trazem uma linha tênue entre os que condenam e zoam o ditador venezuelano e os que o enxergam como um descolado DJ ou rapper, uma celebrity pop, um anti-herói.

Outras imagens e memes ridicularizando a “doutrina Monroe” de Donald Trump, sua voracidade pelo petróleo venezuelano, sua persona bufona e sua política de saqueio, “orange is the new black” , em trocadilhos com a cor do topete e do petróleo.

Comodities narrativas

O deslizamento infinito de sentidos mostra o quanto a fabricação das imagens é decisiva e prefiguração futura de cenários horríveis demais ou belos demais, que explodem inclusive os clichês. A imagem antecipa e “realiza” os fatos. As imagens são as fábricas de fatos desejáveis ou a exorcizar e a enxurrada de imagens e memes que recebemos pelas plataformas entram na disputa dos sentidos e desejos, na disputa de mundos.

Nos grupos de WhatsApp, em que a polarização se materializa em memes e mensagens, não recebo mais fake news simplesmente, mas imagens geradas por Inteligência artificial com o que extremistas e democratas querem expressar, prefigurando desejos e sentimentos moldados nas imagens. A questão hoje é que a fábrica das Big Techs e plataformas também desafiam e violam, como Donald Trump, as leis e regras nacionais e promovem conteúdos extremos, são um laboratório de modulações afetivas e políticas.

Para manter os usuários conectados, os algoritmos priorizam conteúdo que gera reações fortes (raiva, indignação, zoação, deboche, constrangimento), criando câmaras de eco e alimentando a polarização. Claro que a economia da atenção e do engajamento usa como métrica do sucesso o viralizar, não informar, formar ou educar. As imagens mais chocantes, falsas ou manipuladas, ganham uma sobrevida nesse modelo de negócio.

Enquanto o petróleo era um recurso para um sistema (industrial-militar), as plataformas digitais são o recurso e o próprio sistema (econômico, social, comunicativo, afetivo). O petróleo precisa de oleodutos e forças armadas para ser gerado e assegurado. As Big Techs já são em si, infraestrutura de poder em um capitalismo de dados e commodities narrativas, vitais na economia da atenção e para a mobilização política no século XXI.

O que aconteceu na Venezuela tem o nome que a América Latina conhece de cor: imperialismo nu, a guerra comercial e os negócios travestidos em guerra moral. Os espantalhos mudam de nome (combate ao comunismo, ao narcotráfico, ao “terrorismo”), mas o objetivo é o mesmo: assujeitar países e povos pela força para se obter vantagens comerciais, territoriais e desequilibrar o jogo geopolítico das influências.

E essa força se exerce também no campo das imagens, transformando a derrota de Nicolás Maduro em um espetáculo midiático em que o prisioneiro de guerra vira o garoto propaganda involuntário de uma das marcas globais mais icônica dos EUA: a Nike.


A guerra será memetizada

A invasão de um outro país é violação do direito internacional quando começa com bombardeio e termina com sequestro de um chefe de Estado (mesmo que este seja um ditador), violação que se agrava com o anúncio de que os EUA passam a “administrar o país” e expropriar as riquezas naturais: o petróleo venezuelano.

A imagem do corpo capturado de Nicolás Maduro, envolto em um produto Nike que imediatamente se torna objeto de desejo e dispara nas buscas de forma exponencial é o embrulho dessa operação: a guerra, e as suas violações, além de um negócio, é também um fenômeno de “merchandising” viral.

E a perplexidade aumenta quando o subtexto, se apropriar do petróleo, é a fala oficial. Donald Trump anunciou que grandes petroleiras americanas vão “investir bilhões” para “consertar” a infraestrutura de negócio venezuelana e que a presença militar fica “até as exigências serem atendidas”. Isso é extrativismo armado, uma carta branca para violar a soberania de um país e estabelecer um saque de riquezas.

O capitalismo tardio completa seu ciclo quando a brutalidade da pilhagem material se casa com a eficiência da pilhagem simbólica, convertendo a imagem do inimigo derrotado em algo humilhante ou “cool”, engraçado, banalizado, repetido infinitamente em um massacre simbólico e em um impulso de consumo para as massas globais.

E quando o próprio secretário de Defesa celebra que, desta vez, os EUA não “pagaram com sangue” para “não receber nada economicamente em troca”, como aconteceu no Iraque, a máscara cai de vez: a guerra foi vendida como moral e anunciada como negócio.

Slop – vida e morte das imagens

A imagem de Nicolás Maduro de Nike é a prova final desse cálculo: a operação militar gerou não apenas o controle do petróleo, mas também um “buzz” midiático gratuito para uma marca multinacional, demonstrando como a violência geopolítica alimenta diretamente as engrenagens do mercado. Tudo pode virar novo consumo e mercadoria.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse ao CBS Evening News que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, é o “exato oposto” da invasão do Iraque pelos EUA: “Passamos décadas e décadas e pagamos com sangue, e não obtivemos nada economicamente em troca, e o presidente Donald Trump inverte o roteiro”, disse Pete Hegseth ao apresentador do CBS Evening News, Tony Dokoupil, assumindo o objetivo comercial e de expropriação de riquezas.

Nesse “roteiro invertido”, a captura de um rival político vira um ativo de marketing, e sua imagem, também capturada torna-se um meme que será infinitamente remixado.

Parte da imprensa chamou a operação de Donald Trump de “imperialismo nu”, juristas ouvidos pela agência Reuters apontaram o nó lógico: tráfico e “gangues” não autorizam invasão sob o direito internacional. Dentro dos EUA, Tim Kaine chamou de ataque não autorizado e avisou que isso empurra a democracia norte-americana para a tirania.

Mas há um nó lógico ainda mais profundo, revelado pela foto: o nó que ata a violação da soberania à indiferença do mercado consumidor, que absorve e celebra o ícone da marca, ignorando ou “bypassando” o contexto de violações que o geram.

A imagem se torna “sujeito”: é da vida das imagens que falamos, pois é nelas que tudo acontece. Como já afirmou Gilles Deleuze em A imagem-tempo, ao anunciar o advento do cinema moderno, o que importa agora é a potência das imagens.

Mas poderíamos falar hoje de outro fenômeno, da geração de um amontoado de “lixo” visual, as imagens-lixo geradas por Inteligência artificial  de baixa qualidade e em grande volume e que recebeu o nome de “slop“, ou “lavagem”, “lama”, imagens com erros factuais ou deepfake, conteúdos genéricos, repetitivos e sem esforço ou originalidade, que poluem de forma semelhante ao spam, entopem os canais, sequestram, nosso tempo. Imagens clichês? Não apenas, um fluxo de imagens deslizantes em um design de rolagem hemorrágica viciante.

Slop” é mais que um defeito, é um sintoma do momento desregulado e massivo da geração por Inteligência artificial, de produção viral e da dieta fast food dos algoritmos. Entender suas camadas ajuda a separar a zoação, dos erros de conteúdo gerado e o extrativismo visual, com objetivo deletério, antiético, falso, alvo de qualquer discussão sobre regulação das plataformas e do negócio digital.

A retórica de Donald Trump é um desses geradores de memes e de lixo, mas o presidente dos EUA transforma imagens geradas por Inteligência artificial, “slop” e lama visual em uma fábrica de fatos.

Economia narrativa

Por isso anunciar ações ilegais, violentas, gerar imagens-lixo, pode redundar em atos: sequestrar um presidente (pouco importa se um ditador ou um democrata) ou saquear um país concretiza a economia narrativa e abre “precedentes” e ameaças. Amanhã poderá ser qualquer outro rival: Colômbia, Cuba, México, o Brasil ou a Groelândia.

Brasil 2026, temos uma eleição decisiva, estremos sob pressão, chantagem e desestabilização da operação retórica e bélica trumpista? Quando o direito internacional é violado e expropriar petróleo vira objetivo, a fronteira entre “intervenção” e pirataria geopolítica desaparece.

E com ela desaparece também a fronteira entre ato de guerra e cultura de consumo, entre prisioneiro político e garoto-propaganda involuntário da Nike, entre a bravata e a retórica e os atos de fala que buscam se concretizar.

O feed de notícias como campo de batalhas

Quando Donald Trump invoca a Doutrina Monroe, criada em 1823 sob o lema “a América para os americanos”, ele não está, e nunca esteve, preocupado em afastar potências europeias do continente. Seu objetivo, ao contrário, é reafirmar a tese de que as Américas são de interesse exclusivo dos Estados Unidos, utilizando-a para “justificar” a intervenção na Venezuela como pilar de uma nova hegemonia norte-americana.

Nessa visão, a América Latina volta a ser reduzida a um “quintal” sob sua influência direta: um território cujas reservas naturais estão à disposição para serem saqueadas e cujos governos podem ser derrubados ou desestabilizados conforme a conveniência de Washington.

A questão é que o “quintal” é agora também um feed de notícias, onde a demonstração de poder se dá tanto pelo bombardeio quanto pela produção de imagens virais consumíveis. Revisitada a doutrina, o petróleo vira objetivo, a fronteira entre “intervenção” e pirataria geopolítica desaparece e, na mesma medida, a política é convertida em entretenimento digital massivo, e a lógica dos algoritmos despejam milhares de imagens reais e geradas por Inteligência artificial, memes e textos.

O algorítmico não parou de despejar, nessas 24 horas pós ataque a Venezuela, milhares de memes e imagens criadas por Inteligência artificial, milhares de declarações de Donald Trump reafirmando suas imagens “slop”, centenas de comentários sobre Nike e Nicolás Maduro, centenas de imagens do uniforme da Nike: Nicolás Maduro DJ, Nicolás Maduro rapper, Nicolás Maduro cool, centenas de fake news sobre a invasão norte-americana, fake news de políticos de direita afirmando que “o MST vai invadir os EUA para libertar Nicolás Maduro” (risos), uma enorme quantidade de lixo, inventariada e desmentida nos sites de checagem em agências como Lupa, Aos Fatos e veículos de grande circulação. Que anticorpos estamos produzindo socialmente para neutralizar esses virais?


O capitalismo mafioso é um modo de acumulação em que a fronteira entre economia legal e ilegal fica estruturalmente borrada: negócios e Estado passam a operar por lógicas de “proteção” e tributo, captura de instituições e uso (ou ameaça) de violência para regular mercados, controlar territórios e extrair renda. Isto é, um capitalismo que funciona com regras de máfia.

A regra do capitalismo desde sempre é que tudo pode ser monetizado, inclusive as maiores violações de todos os tipos. Nada escapa à lógica da monetização.

O ano de 2026 mal começou e começou mal: Donald Trump voltou a tratar a América Latina como território de saques. Ao bombardear o território venezuelano e capturar Nicolás Maduro para levá-lo a Nova York, Donald Trump atropela o núcleo duro da ordem internacional: o princípio de não intervenção e soberania de Estados e povos, a proibição do uso da força, a não ser para autodefesa, etc.

No plano doméstico, a Casa Branca ignora o Congresso: sem declaração de guerra, sem aviso, na contramão da Constituição e da War Powers Resolution.

O método inclui, agora, a fabricação de ícones visuais que resumam e banalizem a complexidade dos conflitos, transformando-os em slogans visuais para geração de engajamento e consumo, uma inteligência artificial generativa para fabricar e extrair valor.

As ameaças de Donald Trump de anexar a Groenlândia pairam sobre esse território autônomo da Dinamarca, rico em recursos, e a ofensiva militar na Venezuela foi seguida por manifestações de integrantes do movimento Maga (Make America Great Again) ligado ao presidente Donald Trump, indicando a Groenlândia como um dos alvos dos EUA. O projeto imperial não se contenta em controlar territórios e recursos, busca dominar o imaginário global, ditando as narrativas.

Os EUA estão tentando fechar o cerco na América Latina para neutralizar a influência da China, enfraquecer os BRICS e frear qualquer movimento de desdolarização. A lógica é simples: tratar infraestrutura, energia, tecnologia e comércio como tema de “segurança nacional”, puxar investimentos e cadeias produtivas de volta para a órbita americana, e pressionar governos para não abrirem espaço para empresas, crédito e acordos chineses.

No mesmo pacote, quando países falam em ampliar pagamentos em moedas locais ou criar mecanismos alternativos, Washington reage com ameaça de tarifas e punições econômicas.

Nesta guerra por hegemonia, a batalha das imagens é crucial. A fotografia de Nicolás Maduro serve como advertência visual brutal: a desobediência ao poder unipolar será punida com a força e, em seguida, transformada em piada, slot, lixo ou produto, esvaziada de sentido.

Mas a memética é cruel e divertida e subverte em uma liquidação dos sentidos os que querem governar por memes. Jair Bolsonaro, no Brasil se tornou um presidente-meme, Donald Trump é sua própria caricatura. O veneno é o antídoto em uma economia dos memes.

Make America Latina again

Nesse cenário, Lula e o Brasil aparecem como foco de resistência porque defendem soberania e autonomia diplomática, sem aceitar alinhamento automático com Donald Trump. O governo brasileiro condena intervenções militares, condenou a invasão a Venezuela e insiste em saída política e negociação regional, recusando a ideia de intervenção dos EUA pela força.

Ao mesmo tempo, Lula sustenta nos BRICS a discussão sobre meios de pagamento fora do domínio do dólar e maior uso de moedas locais no comércio. É exatamente por isso que o Brasil vira obstáculo: porque atrapalha o projeto de transformar a América Latina em zona de obediência econômica e geopolítica dos EUA.

Essa resistência, portanto, deve ser também no plano simbólico. É preciso recusar a leitura banalizadora e consumista que o capitalismo impõe aos eventos graves, reafirmando e construindo uma política das imagens, para além das imagens da política, restituindo a complexidade da história contra a redução a tendências de consumo ou imagens-lixo.

Em um Brasil polarizado e em ano eleitoral, a intervenção norte-americana vira ameaça concreta: pressão econômica, chantagem diplomática, turbulência na fronteira amazônida do Brasil com a Venezuela e Colômbia e em outros lugares de cobiça: taxações comerciais indevidas e nosso capital maior: a Amazônia brasileira e panamericana, território de terras raras, água, biodiversidade e culturas indígenas.


Diante dessa ameaça multifacetada, compreender a dimensão da guerrilha das imagens não é um exercício secundário, mas parte essencial de uma nova ética e ecologia visual.

Os EUA convivem e comercializam com regimes ditatoriais e arbitrários em todo o mundo. Mesmo o governo de Nicolás Maduro sendo condenável, a intervenção na Venezuela é indefensável, uma face explícita do capitalismo mafioso, em que o negócio e os lucros são o motor brutal, não existe moral ou ética que a sustente.

Não há o que sustente um capitalismo mafioso, a não ser a guerra, a violência e o uso da força e das armas, exatamente como o narco e as milícias que Donald Trump diz combater.

Violência semiótica

E essa violência é também semiótica: é a violência de esvaziar o significado, de roubar a narrativa, de vestir a tragédia com a camiseta do time vencedor, oferecendo-a ao público como mais um item descartável do espetáculo midiático esquecível no dia seguinte.

O presidente Lula e todos os líderes das democracias latino-americanas tem um enorme desafio: articulação política, econômica, cultural no continente e em torno de um sonho lúcido e concreto: os países dos BRICS, como um fórum político-diplomático, promovendo interesses do Sul Global e criando alternativas financeiras e culturais em tempos de turbulência.

Essa alternativa cultural precisa forjar imagens e narrativas, oferecendo sentido onde o capitalismo mafioso impõe apenas um liquidificador algorítmico que nos entrega dopamina.

Diante do retrocesso norte-americano, levando o mundo em direção a novos conflitos e investindo na manutenção de sua primazia global ilusória, uma visão de mundo unipolar, a realidade geopolítica aponta em outra direção: para uma multipolaridade sem volta.

Uma multipolaridade real, no entanto, será também uma batalha de imaginários, de plurimundos, de multiversos. Será a luta para que as imagens de países e povos não possam ser sequestradas ou reduzidas a banalidade e ao clichê.

Donald Trump lembra as figuras dos filmes hollywoodianos que romantizam o saque, o colonialismo, as velhas e novas formas de escravidão e assujeitamento e que diante de mudanças estruturais, reais e imateriais, caem atirando.

Vivemos a era da desregulação radical da imagem que correm em um esgoto público semiótico em fluxo contínuo. Essa avalanche tóxica de visões não solicitadas (o que gostaríamos de “desver”?) transforma o ato de olhar, historicamente violento, em umanova violência: somos forçados a consumir um lixo visual projetado para capturar nossa atenção e extrair mais dados, em um ciclo que converte nossa paisagem mental em território de mineração predatória.

*Ivana Bentes é professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autora, entre outros livros, de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X) [https://amzn.to/4aLr0vH]

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