O 7 de Outubro não mudou Israel,
acelerou o caminho da radicalização
A destruição da Palestina é um plano antigo. Há três
anos que Gaza nos mostra o que ouvimos em NAZA
Publico – 07/10/2026
Alexandra Lucas Coelho Escritora e jornalista
1. Há dias, na TV israelita, o colono e ministro da
Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, apresentou a sua
solução para o problema dos nativos. No meio da
gritaria habitual, um dos apresentadores estava a falar
de como será difícil tirá-los de Israel.
APRESENTADOR (apopléctico) — Porque haveria alguém
de os receber?
BEN-GVIR — Por dinheiro!! Em troca de dinheiro!
Ao lado, a esposa colona fazia que sim com o turbante.
APRESENTADOR — Por dinheiro?! BEN-GVIR — Sim. Vai
custar-nos muito. Mas ao mesmo tempo poupamos no
orçamento da Defesa.
APRESENTADOR — Mas vão dizer que estamos a vender os
palestinianos!
E os esposos Ben-Gvir reviravam olhos, cabeças.
A última vez que eu os tinha visto foi quando ela preparou
para ele um bolo de aniversário decorado com uma forca.
Estão sempre estupendos no papel em que a Europa os tenta
conter, como se não representassem parte significativa de
Israel e sim uma excrescência. Hérnias diabólicas, digamos.
Tal qual Smotrich, outro ministro colono. Ou o diabo-mor,
claro, Satanyahu. Mas ao ver esta cena na TV lembrei-me do
Acordo de Associação UE-Israel, que desde 2000 tem sido um
tapete vermelho para Telavive, apesar de o Artigo 2.º exigir
respeito pelos direitos humanos. A UE consolidou-se como a
maior parceira comercial de
Israel. Um terço do que Israel importa vem da UE: imagine-se
o impacto de cortar esse terço.
Os dados do Eurostat, porém, mostram que o bolo não abateu
desde 2023, até foi arrebitando. Somei o total de importações
e exportações dos três últimos anos completos, deu 127,5 mil
milhões de euros, com um balanço muito favorável à Europa,
que vende quase o dobro a Israel do que lhe compra. A esses
127,5 mil milhões haveria que somar ainda comércio de
serviços, ou contratos de empresas israelitas com capitais
fora. O número real será bem mais alto.
Mesmo assim, só pelos dados que temos, a UE lucrou dezenas
de milhares de milhões de euros. É aquela entidade que não
consegue boicotar sequer os colonatos, quanto mais o Estado
colonial. Mesmo admitindo que Israel viola o Artigo 2.º.
Porque há sempre um Merz, uma Meloni para boicotar o
boicote.
E estará isto longe do que é vender um povo?
No caso de Ben-Gvir, na verdade, seria uma compra de
serviços, ou um suborno. No caso da UE, trata-se de vender a
licença para uma terra que não lhe pertence, prosseguindo o
que a Europa começou a roubar aos palestinianos há mais de
cem anos (e os ingleses, no passado protagonistas, prosseguem
também o comércio).
A UE exporta à cabeça maquinaria numa variada lista que de
2023 para cá incluiu cada vez mais armas, bombas, munições.
Mas o que dizia cada item, fosse qual fosse, era que Israel
podia continuar a explodir humanos em Gaza, e a ver cães
famintos a devorá-los.
Assim, durante o primeiro extermínio em directo da história,
o que a Europa dos direitos humanos faz é não só permiti-lo,
como ganhar muito dinheiro com isso.
Ben-Gvir é seu filho.
2. Como Satanyahu é o fruto, não a raiz. Não a raiz do mal,
nem o diabo-mor, mas um fruto alfa da árvore sionista, nativa
da Europa. O fruto que mais se tornou fardo, e tem dado cabo
da coluna a quem o gerou. A Europa já não tem posição em
pé ou sentada, não sabe mais como se contorcer. Todos os dias
reza para que Netanyahu perca nas eleições de 27 de Outubro,
e tudo volte ao que era. Telavive, startups, inteligência
artificial (IA), a fábula Dois Estados. E faz de conta que existe
oposição a sério em Israel (além de um punhado ameaçado,
em perigo), porque Israel é a ficção de democracia que ela
mesma criou.
Mas os esqueletos das 800 aldeias de 1948 foram levados para
a rua desde 7 de Outubro, não voltam ao armário. Os
esqueletos dos etnicamente limpos para que o Estado de Israel
pudesse existir. Os esqueletos dos refugiados fora da Palestina
desde então.
Os esqueletos dos 75 mil mortos em Gaza, mais os soterrados.
As pernas e braços que faltam, mais a parte do cérebro que
não se cura. Os esqueletos da Cisjordânia incendiada por
colonos agora.
Os 10 mil reféns torturados nas cadeias de Israel. A clareza de
que o anti-sionista não é racista, ao contrário: o sionista é
racista, como o anti-semita é racista. Nada disso voltará ao
armário. Nem o que foi vindo a lume sobre o 7 de Outubro.
Nas vésperas do 7 de Outubro, o emir dos Emirados avisou
Netanyahu de um ataque iminente. O chefe das secretas do
Egipto aterrou por 67 minutos em Israel e avisou Netanyahu
de que Gaza lhe ia explodir na cara. Tudo isto foi confirmado
nas últimas semanas.
Netanyahu terá recebido dezenas de avisos, incluindo do
Hamas. E deixou correr. Sacrificou o próprio povo. Os jovens
da rave, os velhos nos kibbutzim. Ao todo, 1200 israelitas, dos
quais 900 civis, uma parte dos quais mortos por Israel mesmo,
via directiva Hannibal. Todos os outros pelos militantes
liderados pelo Hamas, muitas vezes com enorme sofrimento.
E nesse dia mesmo, Gaza começou a ser destruída por Israel,
desfecho de um plano muito antigo. Escrevi sobre essa
destruição em dezenas de textos aqui, remeto para eles.
Guardo o último espaço para NAZA.
3. Yuval Abraham e Rachel Szor são israelitas não sionistas de
30 anos. Já tinham feito No Other Land (com os palestinianos
Basel Adra e Hamdan Ballal). Yuval já tinha publicado textos
na +972, no Local Call e no Guardian, incluindo a
investigação do filme. NAZA é o que tinham de fazer sendo
quem são. Antes de mais para os israelitas, depois para quem
lá fora não deu atenção bastante (ou nenhuma) ao que os
palestinianos mostraram durante três anos. Quem deu está
familiarizado com o que aqueles 24 israelitas anónimos
contam. Desde os snipers a abaterem palestinianos sempre
desarmados até à IA do Lavender, e outros sistemas, que
permitiram arrasar um território com “danos colaterais” na
ordem das centenas para um suspeito do Hamas.
Quem acompanhou estes três anos tem nessas vozes mais
detalhe do que novidade. Mas os detalhes importam. E
importa muito que tudo alcance mais gente. Importa, num
tempo de cobardes, que Yuval e Rachel tenham tido a
coragem de fazer este filme: a vida deles, e dos seus próximos,
pode ficar em risco para sempre, o que também é um sintoma
da patologia de Israel. Importa que tenha estreado tão rápido,
incluindo em Portugal, quando já se multiplicavam ameaças.
Mas NAZA não é só isso. Talvez o que me tenha
impressionado mais seja como aquela paisagem nocturna fica
tatuada para sempre com o extermínio. Yuval é um
entrevistador exímio, Rachel filma a cidade de forma
assombrosa. Som sobreposto na imagem, tive a sensação de
ver o desmantelamento de Telavive. Aquela cidade de
arranha-céus, carros, casas caríssimas, toda aquela
supremacia racista, mantendo cativos, invisíveis, milhões de
palestinianos, essa cidade nunca mais será a mesma depois de
NAZA. As vozes e cabeças distorcidas dos carrascos gravam o
número da Shoah na pele de Telavive. Li críticas a NAZA de
quem não aceita o filme por ouvir os carrascos e não apontar
ao desmantelamento do Estado. Eu vejo esse
desmantelamento. Aquelas cabeças digitalmente encapuçadas,
aquelas criaturas lançam uma maldição sobre a paisagem.
Foram desumanas quando mataram? Não. Eram humanas,
como Eichmann. Já não serão humanas é ali, naquela
metamorfose digital, como se elas próprias se tivessem
dissolvido na tecnologia que usaram.
Os carrascos estão já condenados a ser aquilo. E não é
shooting and crying, ninguém chora ali, vários não estão
arrependidos, são frios. São a voz da doença, ou da mutação
irreversível.
NAZA importa. Mas é chocante ver relatos de quem sai deste
filme como se os palestinianos nunca tivessem mostrado o que
aqui se ouve. Mais uma vez como se não existissem. Como se
só agora houvesse condições para ver que foi um genocídio.
Os palestinianos estão a ser destruídos agora. Então, quem
não viu antes, vá directo ao essencial: salvar as vidas, punir os
responsáveis, indemnizar a Palestina, recusar a existência de
Israel como um Estado etnoteocrático desde a fundação. Este
estranho fruto nosso, a velha Europa colonial, racista, ontem
anti-semita, hoje anti-islâmica-indostânica, capaz de comprar
e vender a quem extermina.
Isso também será cortar com ela.
A Europa já não tem posição em pé ou sentada, não sabe mais
como se contorcer
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