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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

 
 

A crise do Sistema Internacional não é uma novidade, ainda que seja recente desde o ponto de vista da longa duração na qual se processam as profundas mudanças sistêmicas. Ela começou na última década do século 20, com o fim da Guerra Fria e o começo de um “mundo regido por regras”. Regras definidas pelo país autodeclarado vitorioso da GF, de uma guerra sem vitória militar, porque não nem houve guerra e apenas ocaso de um dos beligerantes. Hoje, essas regras, impostas unilateral e despoticamente aos países que possam ferir os interesses da hiperpotência, são contestadas pela emergência de potências e foros internacionais que propõem um mundo de cooperação, de isonomia normativa dos países e regido por leis dentro de um sistema internacional de relacionamentos multilaterais isonômico e multipolaridade heterogênea.

Foi a República Popular da China quem começou a disputar o comércio internacional e inserir cautelosamente sua ação diplomática nas esferas de domínio tipicamente hegemonizadas pelos EUA. A emergência da RPC e outras potências concomitantemente ao retraimento do império norte-americano acelerou-se com a pandemia e o redesenho das cadeias de valor internacionais nas crises da primeira década do século 21. Atualmente a RPC domina quase a totalidade das tecnologias críticas e das mais importantes publicações científicas. Desde que a OTAN (plataforma de projeção de força dos Estados Unidos) considerou a Rússia e a RPC como ameaças, Xi Jinping concentrou o direcionamento estatal para a defesa, investindo no desenvolvimento de tecnologia dual aplicável às necessidades bélicas e aproximando o exército do povo. A própria OTAN, ao definir a RPC como ameaça (embora dependesse econômica e tecnologicamente dela), tornou-se uma ameaça para a RPC que, preventivamente, se constituiu numa potência não apenas econômica, científica e tecnológica, mas também militar. 

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Os países europeus, talvez narcotizados pelo Plano Marshall que permitiu a construção do Estado de Bem-estar Social, sucumbiram à prolongada manipulação da percepção por parte dos EUA e deixaram nas mãos da OTAN, comandada pelos EUA, as definições estratégicas da defesa e, portanto, da sua política externa. Empurrados pela necessidade de ampliar o mercado da guerra para escoar a produção do Complexo Industrial Militar norte-americano, foram psicossocialmente induzidos a perceber a Rússia (da qual dependiam, tanto da sua energia fóssil para mover a indústria europeia, quanto de grãos, fertilizantes e insumos agrícolas para sustentar suas sociedades) como uma ameaça existencial. Novamente, guiados pela perturbada percepção para construir ameaças, tornaram-se, eles mesmos, uma ameaça existencial para a Federação da Rússia que, ante o avanço ameaçador da OTAN sobre suas fronteiras, decidiu redesenhar seu Complexo Industrial Militar (CIM) voltando a ser uma grande e inovadora potência militar.

No fatídico 24/02/2022, o presidente Putin aplicou a primeira negativa bélica à liberdade de ação estratégica dos Estados Unidos. Tratou-se do primeiro freio ao ímpeto da OTAN e um claro sinal de que a outrora grande potência já não conseguiria, nem com auxílio da mão de obra europeia, impor seus interesses globalmente. Essa negativa levou à Comissão de Estratégia de Defesa Nacional a uma reflexão sobre a situação real da condição de potência dos Estados Unidos ante a eventualidade de uma Terceira Guerra Mundial. O resultado dessa reflexão legislativa e bipartidária resultou num documento intitulado Commission on the National Defense Strategy. Final Report publicado em 29/06/2024.

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No documento, essa comissão considera que a próxima guerra é inevitável e que os EUA, nesse momento, não teriam condições claras de uma vitória militar. A autocrítica é aplicada três direções: o CIM obsoleto, a Forma da Força inadequada e a Diplomacia equivocada. Além da revisão desses três conceitos, aconselhava a retirada das tropas distribuídas globalmente e concentrá-las no país para realizar uma profunda reformulação. Imaginavam que poderiam fazer essa reforma naquelas três frentes até 2026, em que podiam entrar em guerra com alguma possibilidade de êxito contra o Eixo do Mal (na verdade um quadrilátero) formado nominalmente pela Rússia, a República Popular da China, Coreia do Norte e o Irã. 

Os primeiros documentos elaborados no segundo mandato de Trump pareciam apontar nessa direção: retirar as tropas distribuídas pelo mundo e tensionar as rédeas estratégicas no continente americano. Recompondo e fortalecendo a hegemonia regional estariam prontos para discutir com as potências emergentes o redesenho do sistema internacional em posição de poder na sua zona de influência. Mostrou sua liberdade de ação estratégia (mais do que liberdade, sua impunidade!) nos mais de 200 assassinatos no Mar do Caribe e no Pacífico, no bombardeamento da Venezuela e no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa em 03 de janeiro de 2026. Todas essas ilegalidades ante o mais profundo e ominoso silêncio da Sociedade Internacional. Embora ilegítimo e ilegal, tanto internacional quanto nacionalmente (tudo foi feito sem o necessário consentimento do Congresso dos Estados Unidos), esses assassinatos e sequestros pareciam indicar que o presidente Donald Trump pretendia, por meio do exercício puro da força, se concentrar no continente em conformidade com a “Doutrina Donroe”. 

Se nos primeiros movimentos estratégicos parecia realmente se concentrar na sua área de interesse, num movimento estrategicamente incompreensível, em 28 de fevereiro de 2026 atacou ilegal e ilegitimamente o Irã, talvez estimulado pelo êxito espúrio na Venezuela, ou enganado por Israel ou ambas as coisas. Ante o que parecia um trabalho fácil, que permitiria aos EUA se apropriar do controle do petróleo do Golfo Pérsico e a projeção de poder de Israel para o Leste, Irã surpreende à aliança agressora e à maioria dos analistas internacionais oferecendo uma defesa organizada sobre a distribuição em redes de 36 Centros de Comando e Controle (CCC) estrategicamente distribuídos por vários pontos do país que, sincronizadamente e com precisão assombrosa, em 15 minutos respondeu acertando as bases americanas na região e se mantendo em combate com absoluto controle estratégico até hoje no que chamaram “defesa em mosaico”. Com o controle do Estreito de Ormuz, colocaram a economia global ao serviço da sua estratégia, com uma eficiência dissuasória maior que a que teria um artefato nuclear hoje banalizado.

Vladimir Putin e Xi Jinping: Rússia e China ampliam sua projeção econômica, política, tecnológica e militar enquanto a hegemonia dos Estados Unidos é contestada e o sistema internacional se reorganiza em novas esferas de poder
Rússia e China ampliam projeção econômica, política, tecnológica e militar enquanto a hegemonia dos EUA é contestada
Wikimedia Commons

Se na Ucrânia a Rússia demarcou os limites de projeção da liberdade estratégica da aliança militar atlântica, Irã deixou a descoberto as vulnerabilidades do império para impor seus interesses ao mundo. Esses dois aspectos, somados ao desamparo e desconcerto europeu, apontam um sistema internacional que se aproxima de um redesenho político e institucional discutido pelas grandes (velhas e novas) potências e suas áreas de influência.

América Latina parece organizada militarmente para defender os interesses estadunidenses em torno do Escudo das Américas. Trata-se do compromisso de 12 líderes latino-americanos ultradireitistas, submissamente alinhados estrategicamente ao império, que foram convocados pelo autócrata Trump ao seu hotel na Flórida para assumir de forma inconteste a defesa dos interesses personalíssimos do déspota. Na verdade, comprometeram a carne, o sangue e o derrame orçamentário das suas sociedades como funcionalidades para uma eventual guerra por procuração do império sobre as soberanias resistentes. Todavia, esse escudo tem importantes fissuras. Em quase todos esses países que que participam, a pressão social está crescendo ante o efeito devastador das pautas neoliberais de inflação, desindustrialização e desemprego a que seus governos submetem suas sociedades nesta etapa tristemente histórica das economias nacionais. 

Recentemente houve um exercício militar na selva do Peru empregando tropas dos EUA, Peru, Chile e da Argentina próximo da fronteira com o Brasil. Todos eles comprometidos com a “guerra ao narcoterrorismo” e com o emprego das suas Forças Armadas no esforço dessa “guerra” que qualificou grupos do crime organizado brasileiros como “narcoterroristas”. O governo de Lula no Brasil, recusa essa arbitrária qualificação, que permitira a ingerência externa armada direta no seu território no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) tildados pela caneta do déspota como organizações terroristas estrangeiras.  

Neste momento, o primeiro turno das eleições brasileiras apontou para um segundo turno entre o ultradireitista Flávio Bolsonaro e Lula de centro-esquerda. Como resultado do primeiro turno, tanto em deputados quanto em senadores a ultradireita foi a grande vencedora, colocando ao seu alcance o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Se no segundo turno Flávio Bolsonaro, que saiu na dianteira no primeiro, conseguir se eleger, gozará da prerrogativa para indicar até quatro ministros para o STF que esse Congresso confirmaria. Também prometeu que se ganhasse no segundo turno, com o controle das duas câmeras do Congresso mudaria a Constituição Nacional de 1988, o que permitiria encaixar nela os atos discricionários que sejam necessários para assegurar a realização da sua pura vontade, o que, com os antecedentes do candidato, como de ter condecorado milicianos, podemos imaginar o que pode resultar. 

O sombrio quadro atual que se apresenta para o país não se deterá nas suas fronteiras, mas poderá alastrar sua pestilência pelo continente fornecendo ao déspota do norte o que precisa para exercer um poder global. Com efeito, se os piores presságios se concretizassem, o perigo iminente é continental com projeção global. Nesse nefasto quadro, a ultradireita brasileira controlará o Executivo, o Legislativo e o Judiciário nacionais e, com isso, estaria configurada a cabeça da serpente: o IV Reich, desta vez ironicamente norte-americano. Sabidos da voracidade e violência impiedosa dessa serpente, podemos imaginar o alcance destrutivo da mesma. Tempos tenebrosos se avizinham para este conturbado mundo ante a cegueira embrutecedora de sociedades ciberneticamente narcotizadas.

​(*) Héctor Luis Saint-Pierre é professor da Unesp, coordenador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e ex-diretor da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). É autor de “Max Weber: entre a paixão e a razão” (Editora Unicamp) e “A política armada: fundamentos da guerra revolucionária” (Editora Unesp).

Notas:

[1] https://www.armed-services.senate.gov/imo/media/doc/nds_commission_final_report.pdf

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