4 ESQUINAS
Por António Rodrigues Jornalista.
Público 09 Outubro 2026
Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de
negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete
atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar
professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos,
discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o
clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e
liberar recursos nacionais para país estrangeiro. Ignorar a
Constituição. E você diz sim, negócio fechado” Conrado
Hübner Mendes Cronista da Folha de S. Paulo Queimar
Um dos edifícios da Universidade Federal de Pernambuco foi
destruído pelas chamas na noite de quarta-feira. O
historiador Jones Manoel, eleito deputado federal no
domingo, escreveu nas redes sociais que estudantes da
universidade receberam ameaças por terem organizado um
acto de apoio à reeleição de Lula da Silva. Numa delas, um
anónimo falava em “explodir o departamento”, cita a Folha
de S. Paulo.
As chamas consumindo um centro de investigação científica
numa universidade federal, o que poderia ser mais simbólico
do Brasil que emergiu destas eleições? A ignorância, o ódio, a
maldade, a vileza contra a ciência e o saber conquistaram o
poder em toda a escala (mesmo que Lula consiga ganhar na
segunda volta, terá nas mãos um país ingovernável) e será um
Brasil substancialmente diferente o das próximas eleições —
se ainda forem livres, justas e transparentes.
Com a ajuda dos grandes meios de comunicação, dos
algoritmos das redes sociais, dos púlpitos das igrejas
evangélicas neopentecostais (os vendilhões expulsos do templo
voltaram com sanha de vingança), a extrema-direita
bolsonarista, aliada às milícias armadas, à corrupção em
grande escala, conseguiu construir essa ideia de que estavam
em disputa apenas duas visões para o povo brasileiro. E não
explicaram que de um lado está uma visão democrática para o
país (com todos os seus erros acumulados e digna de crítica),
do outro alinha-se o velho país dos coronéis, dos ricos, dos
brancos, das milícias, do racismo, da exploração, o país da
classe média que perdeu o privilégio de ter mucama, de ter
babá porque Lula deu direitos laborais aos explorados. Esse
Brasil que gosta (ou fecha os olhos) do trabalho análogo à
escravatura, do desmatamento da Amazónia e que é contra os
“privilégios” dos povos indígenas e as quotas nas
universidades.
O Brasil que se vê acima da lei ganhou. E agora vai deixar
passar a boiada. É de temer que o incêndio de Pernambuco
seja só o começo.
Queimar
Um dos edifícios da Universidade Federal de Pernambuco foi
destruído pelas chamas na noite de quarta-feira. O
historiador Jones Manoel, eleito deputado federal no
domingo, escreveu nas redes sociais que estudantes da
universidade receberam ameaças por terem organizado um
acto de apoio à reeleição de Lula da Silva. Numa delas, um
anónimo falava em “explodir o departamento”, cita a Folha
de S. Paulo.
As chamas consumindo um centro de investigação científica
numa universidade federal, o que poderia ser mais simbólico
do Brasil que emergiu destas eleições? A ignorância, o ódio, a
maldade, a vileza contra a ciência e o saber conquistaram o
poder em toda a escala (mesmo que Lula consiga ganhar na
segunda volta, terá nas mãos um país ingovernável) e será um
Brasil substancialmente diferente o das próximas eleições —
se ainda forem livres, justas e transparentes.
Com a ajuda dos grandes meios de comunicação, dos
algoritmos das redes sociais, dos púlpitos das igrejas
evangélicas neopentecostais (os vendilhões expulsos do templo
voltaram com sanha de vingança), a extrema-direita
bolsonarista, aliada às milícias armadas, à corrupção em
grande escala, conseguiu construir essa ideia de que estavam
em disputa apenas duas visões para o povo brasileiro. E não
explicaram que de um lado está uma visão democrática para o
país (com todos os seus erros acumulados e digna de crítica),
do outro alinha-se o velho país dos coronéis, dos ricos, dos
brancos, das milícias, do racismo, da exploração, o país da
classe média que perdeu o privilégio de ter mucama, de ter
babá porque Lula deu direitos laborais aos explorados. Esse
Brasil que gosta (ou fecha os olhos) do trabalho análogo à
escravatura, do desmatamento da Amazónia e que é contra os
“privilégios” dos povos indígenas e as quotas nas
universidades.
O Brasil que se vê acima da lei ganhou. E agora vai deixar
passar a boiada. É de temer que o incêndio de Pernambuco
seja só o começo
Redemocratizar
As democracias não morrem de repente, vão morrendo,
muitas vezes sob o disfarce da revitalização. O bolsonarismo é
essa pulsão da morte. Visão antidemocrática que aproveita as
fragilidades da democracia para se impor como alternativa
dentro de um sistema que quer destruir. O bolsonarismo odeia
a democracia porque vitupera a pluralidade, detesta que o
contradigam, abomina quando lhe pedem explicações e vê a
oposição como inimigo. Tolera a democracia como sistema
político cujo poder emana do povo se esse povo votar nele,
todo o outro sofrerá as consequências da ousadia.
Quando Flávio Bolsonaro vem afirmar que pretende
“redemocratizar” o Brasil, estamos seguros de que haverá
mudanças profundas, mas nenhuma delas terá realmente a
ver com democracia.
“Olha o que o povo brasileiro falou nas urnas. Olha o
Congresso Nacional que será configurado a partir de Janeiro.
Acho que nenhum Presidente da República com meu perfil
casou tanto com um Congresso como esse de centro-direita,
em que a maioria está ali estabelecida por identidade
programática”, disse, cita o G1.
Bolsonaro quer mudar a Constituição, sobretudo em relação
ao Supremo Tribunal Federal, aumentar o número de juízes
para poder nomear mais ocupantes das cadeiras sintonizados
com o seu discurso. E iniciar um processo de impeachment
contra Alexandre de Moraes porque ousou condenar o pai,
Jair Bolsonaro, a 27 anos e meio de prisão por tentativa de
golpe de Estado.
“Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena?”,
questionou retoricamente.
“A gente quer respeitar a política”, uma frase que tem lá
tudo, respeitar a política é um eufemismo para “quando eu
for Presidente, aquilo que eu disser é lei e a lei não me pode
perseguir pelo que eu digo e faço”. Tal como Donald Trump
conseguiu nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro quer
imunidade total para o bolsonarismo, mesmo quando planeia
golpes de Estado.
Eleita e ameaçada
Houve um fogacho de luz no meio da derrocada da esquerda
nas eleições de domingo no Brasil, com o PT afundado por
erros próprios e alheios que lhe são atribuídos, incapaz de
contrariar os sofismas do bolsonarismo com uma mensagem
nova e de futuro. Os mesmos rostos a disputar os mesmos
cargos com as mesmas estratégias e discursos. Desse
descalabro, um rosto emergiu como o vento de Aracati, a
brisa fresca e húmida que refresca as noites do sertão no
Ceará.
Ana Elisa, de 21 anos, militante do PT, foi eleita deputada
federal em Minas Gerais com mais de 524 mil votos,
tornando-se a mulher mais votada da história do estado na
primeira vez que se apresenta a uma eleição para cargo
público, e a mulher mais jovem eleita para o Congresso de
Deputados.
Estudante de Direito, negra, t raz consigo a experiência das
redes sociais, daí que Lula, que a convidou em Março para se
filiar no partido, a tenha mandado chamar agora para
integrar o seu núcleo de estratégia digital para a segunda
volta das eleições.
“Acredito que esta semana ficou provado para a esquerda que
a rede social elege, porque até há pouco tempo só elegia a
direita”, disse Ana Elisa aos jornalistas. “Toda a minha
campanha foi pautada, óbvio, em campanha de rua, mas
muita campanha de rede, porque eu entendi que quem faz um
milhão de votos, quem faz três milhões de votos, é porque
realmente prioriza a rede social.”
Num clima de normalização do discurso de ódio, Ana Elisa já
foi insultada e recebeu um email com ameaças de morte de
alguém que mostrou saber pormenores da sua vida.
Chicote e bala
Criança com arma na mão, deputada eleita saindo pela rua
com um chicote, deputado justificando a vitória da extrema-
direita no Brasil com o facto de as pessoas se sentirem
“humilhadas” pelo Supremo Tribunal Federal como estavam
os alemães que votaram no Partido Nazi por causa da
“humilhação” do Tratado de Versalhes.
O resultado das eleições brasileiras libertou o coração dos
reaccionários para expressões de grande sinceridade pública.
Júlia Zanatta, a senhora do chicote, reeleita em Santa
Catarina, é conhecida pela sua tiara de flores germânica que
usa como imagem de marca e muitos vêem como apologia ao
nazismo — as blumenkränze ficaram associadas à Liga das
Raparigas Alemãs (Bund Deutscher Mädel), a ala feminina da
Juventude Hitleriana.
Zanatta vai ter assento num Congresso onde nunca tantas
mulheres se tinham sentado ao mesmo tempo (serão 120, 108
deputadas e 12 senadoras). Como escreve Camila Galetti no
Intercept Brasil, “é um recorde, e deveria ser só uma boa
notícia. Mas na realidade não é.” Porque uma fatia delas,
como Zanatta, ou Michelle Bolsonaro, a ex-primeira-dama,
eleita senadora, diz-se antifeminista.
“Uma mulher que rejeita o feminismo oferece à extrema-
direita algo que um homem dificilmente poderia oferecer da
mesma maneira: a possibilidade de dizer que a crítica
feminista não representa necessariamente as mulheres”,
explica a jornalista.
A viragem ultraconservadora do Congresso legitima o
discurso contra o feminismo, contra a comunidade LGBTQI+,
contra os nordestinos, contra a diversidade e a igualdade,
contra o outro, aquele que não é como eles: a bancada da
Bíblia, do Boi e da Bala alargou-se nesta eleição e vem com
sanha, de chicote e arma na mão. E tiara de flores na cabeça:
resta saber se será para o caixão da democracia brasileira
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sexta-feira, 9 de outubro de 2026
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