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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

ALAIN BADIOU

Sobre o Mal: 

Uma Entrevista com Alain Badiou


Por Christoph Cox e Molly Whalen, via Cabinet Magazine, traduzido por Hugo Gomes Penaranda
“Se tornar um sujeito (e não permanecer um simples animal humano), é participar no surgimento de uma novidade universal”.


Na filosofia e na teoria psicanalítica, o mal está de volta. A questão sobre o mal é, claro, antiga e venerável na filosofia ocidental, tendo fascinado filósofos desde Sócrates e Agostinho a Leibniz e Kant. Em grande parte dessa história, “a questão sobre o mal” é teológica: Se Deus é beneficente e onipotente, por que ele permite a existência de tanta maldade no mundo? Depois de Kant, a filosofia, em grande parte, cortou seus laços com a teologia e, com isso, a questão sobre o mal retrocedeu. O mal parecia não ser mais uma questão para a filosofia, mas ao invés, se tornara uma questão para a psiquiatria, sociologia e biologia. Entretanto, nos últimos anos, um grupo de filósofos e teóricos vagamente conectados, influenciados pelo trabalho de Kant e Jacques Lacan, retornou para a questão sobre o mal. Dentre eles está Alain Badiou, que em 1993 publicou Ética: Um Ensaio sobre o Entendimento do Mal. Uma análise, crítica e reformulação do discurso do mal no pensamento contemporâneo, o trabalho rejeita ambas interpretações, teológica e científica (psicológica, sociológica, etc.), sobre o mal, localizando, em vez disso, o bem e o mal na própria estrutura da subjetividade, agência e liberdade humanas. Christoph Cox e Molly Whalen entrevistaram Badiou por e-mail entre julho – agosto de 2001. Badiou solicitou a adição do parágrafo final dessa entrevista após os eventos do 11 de setembro.
Você argumenta que em nossos discursos filosóficos e políticos de hoje, o mal é “autoevidente” e que ambas, essa “autoevidência” e essa concepção sobre o “mal”, são problemáticas. Qual é a “nossa representação consensual sobre o mal” e o que há de errado com ela?
A ideia de autoevidência do mal não é, na nossa sociedade, muito antiga. Ela data, na minha opinião, do final dos anos 1960, quando o grande movimento político dos anos 1960 tinha acabado. Nós então entramos em um período reativo, um período que eu chamo de Restauração. Você sabe que, na França, “Restauração” refere-se ao período do retorno do Rei, em 1815, após a Revolução e Napoleão. Nós estamos em período assim. Hoje, nós vemos o capitalismo liberal e o seu sistema político, o parlamentarismo, como a única solução natural e aceitável. Toda ideia revolucionária é considerada utópica e, no fim das contas, criminosa. Nós somos feitos para acreditar que a propagação global do capitalismo e o que é chamado de “democracia” é o sonho de toda a humanidade. E que o mundo todo quer a autoridade do Império Americano e sua polícia militar, OTAN.
Na verdade, nossos líderes e propagandistas sabem muito bem que o capitalismo liberal é um regime desigual, injusto, e inaceitável para a vasta maioria da humanidade. E eles também sabem que nossa “democracia” é uma ilusão: Onde está o poder do povo? Onde está o poder político para os camponeses do terceiro mundo, para a classe operária europeia, para os pobres de toda parte? Nós vivemos em uma contradição: um estado das coisas brutal, profundamente desigual — onde toda existência é avaliada exclusivamente em termos de dinheiro — nos é apresentada como ideal. Para justificar seu conservadorismo, os partidários da ordem estabelecida não podem realmente chamá-la de ideal ou maravilha. Então ao invés, eles decidiram dizer que todo o resto é horrível. Claro, eles dizem, nós podemos não viver em um mundo perfeito. Mas nós temos sorte de não vivermos em uma condição perversa. Nossa democracia não é perfeita. Mas é melhor que ditaduras sangrentas. O capitalismo é injusto. Mas não é criminosa como o stalinismo. Nós deixamos milhões de africanos morrerem de AIDS, mas nós não fazemos declarações nacionalistas racistas como Milosevic. Nós matamos iraquianos com nossos aviões, mas nós não cortamos suas gargantas com facões como eles fazem em Ruanda, etc.
É por isso que a ideia sobre o mal se tornou essencial. Nenhum intelectual irá defender o poder brutal do dinheiro e o desdém político pelos desprivilegiados ou trabalhadores manuais que o acompanha, mas muitos concordam em dizer que o mal real está em outro lugar. Quem hoje realmente poderia defender o terror stalinista, os genocídios africanos, os torturadores latino-americanos? Ninguém. É aí que o consenso em relação ao mal é decisivo. Sob o pretexto de não aceitar o mal, nós acabamos fazendo crer que nós temos, se não o bem, pelo menos o melhor estado das coisas possível — mesmo que esse melhor não seja tão bom. O refrão acerca dos “direitos humanos” não é nada além da ideologia do capitalismo liberal moderno: Nós não iremos massacrar vocês, nós não iremos torturar vocês em cavernas, então fique quieto e adore o bezerro dourado. Para aqueles que não querem adorá-lo, ou que não acreditam em nossa superioridade, sempre existirá o exército americano e seus minions europeus para faze-los ficar quietos.
Note que até Churchill disse que a democracia (em outras palavras o regime do capitalismo liberal) não era o melhor dos regimes políticos, mas o menos mal. A filosofia sempre foi crítica às opiniões frequentemente aceitas e sobre o que parece óbvio. Aceitar o que você tem porque todo o resto pertence ao mal é uma ideia óbvia, que deveria portanto ser imediatamente examinada e criticada.
Minha posição pessoal é a seguinte: É necessário examinar, de uma forma detalhada, a teoria contemporânea sobre o mal, a ideologia dos direitos humanos, o conceito de democracia. É necessário mostrar que nada disso leva na direção da real emancipação da humanidade. É necessário reconstruir o direto, tanto na vida cotidiana quanto na política, da verdade e do bem. Nossa habilidade de uma vez mais ter ideias reais e projetos reais depende disso.
Você diz que, para o capitalismo liberal, o mal sempre está em outro lugar, o temido outro, alguma coisa que o capitalismo liberal acredita ter, ainda bem, banido e mantido à distância. Porém ainda não existe, no imaginário coletivo, uma ideia poderosa do mal (social, psicológico, doméstica) interior? Por décadas, filmes populares e romances têm sido obsessivos com a ideia sobre o mal à espreita internamente (na mente, na casa, na vizinhança). O caso do Timothy McVeigh nos EUA parece ter renovado preocupações políticas sobre “o mal interior” (dentro de cada um de nós, dentro do coração dos EUA). Há apenas um mês, Andrea Yates, uma mãe texana, sistematicamente afogou suas cinco crianças, levando a um debate nacional sobre se somos ou não todos capazes de tal mal. Filosoficamente, o novo interesse no conceito de Kant sobre o “mal radical” (e sua reinterpretação lacaniana) parece ir ao encontro dessa ideia de mal interior (ao invés de exterior, político). Certamente, durante a maior parte da história do ocidente, poderia parecer que o mal foi concebido como “interior”, como algo que moralmente assombra cada um de nós. Então, minhas questões: Em adição à noção de mal “exterior” que você propõe, você também reconhece essa noção de mal “interior”? Essa ideia é perene, ou ela nos conta algo peculiar sobre nosso momento histórico? Você enxerga essas duas noções de mal (exterior e interior) como conectadas uma a outra de alguma forma?
Não há nenhuma contradição entre a afirmação de que o capitalismo liberal e a democracia são o bem e a afirmação de que o mal é uma permanente possibilidade para qualquer indivíduo. A segunda tese (o mal interior de cada um de nós) é simplesmente o complemento moral e religioso da primeira tese, que é político (capitalismo parlamentar como o bem). Existe até uma conexão “lógica” entre as duas afirmações, como segue:
  1. A história mostra que o capitalismo liberal democrático é o único regime econômico, político e social que é verdadeiramente humano, que verdadeiramente se conforma ao bem da humanidade.
  1. Qualquer outro regime político é uma ditadura monstruosa e sangrenta, completamente irracional.
  1. A prova desse fato é que todos os regimes políticos que têm lutado contra o liberalismo e a democracia dividem a mesma face do mal. Assim, fascismo e comunismo, que pareciam ser opostos, eram na verdade muito similares. Eles são ambos da família “totalitária”, que é oposta a família democrática-capitalista.
  1. Esses regimes monstruosos não podem produzir um projeto racional, uma ideia de justiça ou alguma coisa desse tipo. Aqueles que lideraram esses regimes (fascismo ou comunismo) eram necessariamente casos patológicos: É preciso estudar Hitler ou Stalin sob a ótica da psicologia criminal. Para aqueles que apoiaram eles, e foram centenas deles, eles foram alienados pela mística totalitária. Eles eram finalmente dirigidos por paixões más e destrutivas.
  1. Se milhares de pessoas foram capazes de participar de tal empreendimento ridículo e criminoso, isso é obviamente porque a possibilidade de estar fascinado pelo mal existe em cada um de nós. Essa possibilidade será chamada de “aversão pelo Outro”. A conclusão será que, primeiro, nós devemos apoiar a democracia liberal em todos os lugares e que, segundo, nós devemos ensinar nossas crianças o imperativo ético do amor ao Outro.
Minha posição é obviamente que esse “raciocínio” é puramente ideologia ilusória. Primeiro, o capitalismo liberal não é o bem da humanidade de forma alguma. Muito pelo contrário; é o veículo do niilismo selvagem, destrutivo. Segundo, as revoluções comunistas do século XX representaram esforços grandiosos para criar um universo histórico e político completamente diferente. Política não é a gestão do poder do Estado. Política é primeiro a invenção e o exercício de uma realidade absolutamente nova e concreta. A política é a criação do pensamento. O Lenin que escreveu Que Fazer?, o Trotsky que escreveu História da Revolução Russa (tradução literal) e o Mao Zedong que escreveu A Correta Abordagem das Contradições Entre as Pessoas (tradução literal) são gênios intelectuais, comparáveis a Freud ou Einstein. Certamente, as políticas de emancipação, ou políticas igualitárias, não foram, até agora, capazes de resolver o problema do poder do Estado. Elas tentaram um terror que é no limite inútil. Mas isso deveria nos encorajar a tomar a questão onde eles a deixaram, ao invés de unir-se ao inimigo capitalista, imperialista. Terceiro, a categoria “totalitarismo” é intelectualmente muito fraca. Há, do lado do comunismo, um desejo universal pela emancipação, enquanto que do lado do fascismo, há um desejo nacional e racial. Esses são dois projetos radicalmente opostos. A guerra entre os dois tem sido realmente entre a guerra entre ideia da política universal e a ideia da dominação racial. Quarto, o uso do terror em circunstâncias revolucionárias ou de guerra civil não significa de forma alguma que os líderes e os militantes estão insanos ou que eles expressam a possibilidade do mal interior. O terror é uma ferramenta política que tem sido usada desde quando as sociedades humanas têm existido. Ele deveria dessa forma ser julgado como uma ferramenta política, e não submetida a um julgamento moral infantilizado. Deveria ser adicionado que existem diferentes tipos de terror. Nossos países liberais sabem como usá-lo perfeitamente. O colossal exército americano exerce chantagem terrorista em uma escala global, e prisões e execuções exercem uma chantagem interior não menos violenta. Quinto, a única teoria coerente sobre o sujeito (minha, eu devo adicionar, um gracejo!) não reconhece nisso nenhuma disposição particular para o mal. Até a pulsão de morte de Freud não é particularmente vinculada ao mal. A pulsão de morte é um componente necessário de sublimação e criação, assim como o é para o assassinato e suicídio. Quanto ao amor pelo Outro, ou, pior, o “reconhecimento do Outro”, isso não é nada além de confeites cristãos. Nunca há “o Outro” enquanto tal. Existem projetos de pensamentos, ou de ações, na base da qual nós distinguimos entre aqueles que são amigos, aqueles que são inimigos, e aqueles que podem ser considerados neutros. A questão de saber como tratar inimigos ou neutros depende inteiramente do projeto concernido, o pensamento que o constitui, e as circunstâncias concretas (O projeto está em uma fase ascendente? Ele é perigoso? etc.).
Dado o que você disse, alguém pode esperar que você vire a mesa ao afirmar que, ao contrário da visão predominante, o capitalismo liberal é o “mal” em si. Mas você não faz isso. Ao invés, você oferece uma teoria alternativa sobre o mal.
Se fosse para eu virar a mesa, como você sugere, eu deixaria tudo no lugar. Dizer que o capitalismo liberal é mal não mudaria nada. Eu ainda estaria subordinando a política à moralidade humanista e cristã: Eu diria: “Vamos lutar contra o mal.” Mas eu já tive o bastante de “lutar contra”, de “desconstrução”, de “insuperável”, de “colocar um fim em”, etc. Minha filosofia deseja afirmação. Eu quero lutar por; eu quero saber o que eu tenho para o bem e colocar isso para trabalhar. E me recuso a me contentar com o “menos mal”. Está muito na moda agora ser modesto, não pensar grande. A grandeza é considerada um mal metafísico. Eu, eu sou pela grandeza, eu sou pelo heroísmo. Eu sou pela afirmação do pensamento e da ação.
Certamente, é necessário propor outra teoria sobre o mal. Mas isso é dizer, essencialmente, outra teoria sobre o bem. O mal poderia comprometer a questão sobre o bem. Desistir é sempre mal. Desistir das políticas de liberação, renunciar à um amor apaixonado, renunciar à uma criação artística… O mal é o momento em que me falta a força de ser verdadeiro ao bem que me compele.
A verdadeira questão subjacente à questão sobre o mal é a seguinte: O que é o bem? Toda a minha filosofia luta para responder a essa questão. Por razões complexas, eu chamei o bem de “verdades” (no plural). Uma verdade é um processo concreto que se inicia por uma agitação (um encontro, uma revolta generalizada, uma nova invenção surpreendente), e se desenvolve com fidelidade à novidade então experimentada. Uma verdade é o desenvolvimento subjetivo sobre o que é de uma só vez ambos novo e universal. Novo: aquilo que é jamais visto pela ordem da criação. Universal: aquilo que pode interessar, perfeitamente, a cada indivíduo humano, de acordo com sua pura humanidade (que eu chamo sua humanidade genérica). Se tornar um sujeito (e não permanecer um simples animal humano), é participar no surgimento de uma novidade universal. Isso requer esforço, persistência, as vezes auto-privação. Eu digo frequentemente que é necessário ser “ativista” da verdade. Existe mal sempre que o egoísmo leva à renúncia da verdade. Então, o indivíduo é dessujeitivizado. Interesses próprios egoístas têm mão única, arriscando a interrupção de todo o progresso de uma verdade (e portanto do bem).
Alguém pode, assim, definir o mal em uma frase: o mal é a interrupção da verdade pela pressão de interesses particulares ou individuais. Mesmo o caso que você citou acima — a mulher que afogou suas cinco crianças — se origina dessa visão das coisas. O debate que você levanta é absurdo: Obviamente, todo mundo é “capaz” de tudo. Já se viu em toda parte pessoas boas se tornando torturadores, ou cidadãos pacíficos atacando brutalmente pessoas por coisas insignificantes. Essa consideração tem nenhum interesse. Ela somente nos lembra que as espécies humanas são uma espécie animal, governada pelos interesses mais baixos, cujo lucro capitalista é meramente a formalização legal. Tudo isso é falta de bem e mal, não é nada mais que o governo dos impulsos. A questão sobre o mal se inicia quando alguém pode dizer de qual bem se está falando. Estou convencido que o assassinato de cinco crianças está realmente relacionado a uma renúncia brutal do bem, na forma de um processo amoroso. Em todo caso, esse é o único caso em que se faz qualquer sentido falar sobre o mal. O mito que pensa isso é Medeia. Ela também matou suas crianças. E isso não é mal, no sentido trágico do termo, por que esse assassinato é inteiramente dependente de seu amor por Jason.
Na sua visão, então, o domínio animal humano está simplesmente abaixo do bem e do mal (de forma que atos de tortura, por exemplo, não são propriamente “maus”)? Um indivíduo não tem a obrigação moral de se tornar sujeito (ao invés de permanecer um animal humano)? E, portanto, a falha em se tornar sujeito não é uma falha moral?
A questão realmente combina duas concepções comuns de moralidade (e portanto da distinção entre o bem e o mal): a concepção “natural”, derivada de Rousseau, e a concepção “formal”, derivada de Kant:
  1. Existe uma moralidade “natural”, coisas que são obviamente más na opinião de qualquer consciência humana. Consequentemente, o mal existe para o animal humano. O exemplo dado é o da tortura.
  1. Existe uma moralidade “formal”, uma obrigação universal que está acima de qualquer situação particular. E, dessa forma, existe um mal universal, que, também, é independente das circunstâncias. O exemplo dado é o da obrigação de se tornar um sujeito, de colocar-se acima do animalismo humano básico. É ruim se recusar a se tornar um sujeito humano por completo, não importa quais os termos específicos dessa transformação.
Eu devo, claro, especificar que me oponho absolutamente a essas duas concepções. Eu sustento que o estado natural do animal humano não tem nada a ver com o bem ou o mal. E sustento que o tipo de obrigação moral formal descrito no imperativo categórico de Kant não existe realmente.
Pegue o exemplo da tortura. Em uma civilização tão sofisticada como o Império Romano, não só a tortura não é considerada um mal, como é considerada um espetáculo. Nas arenas, as pessoas são devoradas por tigres; elas são queimadas vivas; a audiência regozija-se ao ver combatentes cortarem uns aos outros as gargantas. Como, então, podemos pensar que a tortura é mal para todo animal humano? Não somos o mesmo animal que Sêneca ou Marcus Aurelius? Eu devo adicionar que as forças armadas do meu país, a França, com a aprovação dos governos do período e da maioria da opinião pública, torturou todos os prisioneiros durante a guerra da Argélia. A recusa da tortura é um fenômeno histórico e cultural, de forma alguma natural. De uma maneira geral, o animal humano conhece a crueldade assim como conhece a pena; uma é tão natural como a outra e nenhuma tem nada a ver com o bem ou o mal. Pode-se saber de situações cruciais onde a crueldade é necessária e útil, e outras situações onde a pena não é nada além de uma forma de desprezo pelos outros. Você não irá encontrar nada na estrutura do animal humano onde basear o conceito de mal, nem, ademais, o de bem.
Mas a solução formal não é nada melhor. Ao contrário, a obrigação de ser um sujeito não tem nenhum significado, pela seguinte razão: A possibilidade de se tornar um sujeito não depende de nós, mas daquilo que ocorre nas circunstâncias que são sempre singulares. A distinção entre bem e mal já pressupõe um sujeito, e portanto não se aplicam a ele. É para um sujeito, não para um animal humano pré-subjetivizado, que o mal é possível. Por exemplo, se, durante a ocupação da França pelos nazistas, eu me junto à resistência, eu me torno um sujeito de um momento histórico. Do interior dessa subjetivização, eu posso dizer o que é mau (trair meus companheiros, colaborar com os nazistas, etc.). Eu também posso decidir o que é bom fora das normas habituais. Assim a escritora Marguerite Duras relatou como, por razões relacionadas à resistência aos nazistas, participou de atos de tortura contra traidores. Toda a distinção entre o bem e o mal surge de dentro de um tornar-se-sujeito, e varia com esse tornar-se (que eu mesmo chamo de filosofia, o tornar-se de uma verdade).
Resumindo: Não existe uma definição natural do mal; o mal é sempre aquilo que, em uma situação particular, tende a enfraquecer ou destruir um sujeito. E a concepção de mal é portanto inteiramente dependente dos eventos nos quais um sujeito constitui a si mesmo. É o sujeito que prescreve o que é o mal, não uma ideia natural do mal que define o que um sujeito “moral” é. Também não existe um imperativo formal a partir do qual definir o mal, mesmo negativamente. De fato, todos os imperativos presumem que o sujeito do imperativo já está constituído, e em circunstâncias específicas. E assim não pode existir um imperativo para se tornar sujeito, exceto como uma declaração absolutamente vazia. É por isso também que não existe nenhuma forma geral do mal, porque o mal não existe, exceto como um julgamento, feito por um sujeito, em uma situação, e nas consequências de suas próprias ações nessa situação. Então o mesmo ato (matar, por exemplo) pode ser mal em certo contexto subjetivo, e uma necessidade do bem em outro.
Eu devo particularmente insistir que a fórmula “respeito pelo Outro” não tem nada a ver com nenhuma definição séria de bem e mal. O que “respeito pelo Outro” significa quando se está em uma guerra contra um inimigo, quando se é brutalmente deixado por uma mulher em função de outra pessoa, quando se precisa julgar o trabalho de um “artista” medíocre, quando a ciência é confrontada com seitas obscurantistas, etc.? Quase sempre, é o “respeitos pelos Outros” que é injuriosa, que é má. Especialmente quando é resistência contra os outros, ou até a aversão a outros, que anima uma ação subjetivamente justa. E é sempre nesses tipos de circunstâncias (conflitos violentos, mudanças brutais, amores apaixonados, criações artísticas) que a questão sobre o mal pode ser verdadeiramente perguntada por um sujeito. O mal não existe nem como natureza nem como lei. Ele existe, e varia, no ato singular tornar-se da verdade.
Em resposta a uma pergunta anterior, você destacou que “É necessário reconstruir o direto, tanto na vida cotidiana quanto na política, da verdade e do bem”. Você pode falar mais sobre como a ética da verdade pode ser mobilizada em termos práticos, e como isso pode constituir uma alternativa ao conceito atual de “direitos humanos”?
Pegue o exemplo mais próximo: o terrível ataque criminoso em Nova Iorque em setembro, com suas milhares de vítimas. Se você raciocinar em termos de moralidade dos direitos humanos, você diz, com o presidente Bush: “Esses são terroristas criminosos. Isso é uma luta do bem contra o mal”. Mas as polícias de Bush, na Palestina ou no Iraque por exemplo, são realmente boas? E, afirmando que essas pessoas são más, ou que eles não respeitam os direitos humanos, nós entendemos alguma coisa sobre a mentalidade daqueles que mataram a si mesmos com suas bombas? Não existe muito desespero e violência no mundo causadas pelo fato de que políticas das potências ocidentais, e do governo Americano em particular, são completamente destituídas de ingenuidade e valor? Frente a crimes, crimes terríveis, nós devermos pensar e agir de acordo com verdades políticas concretas, ao invés de sermos guiados por estereótipos de qualquer tipo de moralidade. O mundo todo entende que a verdadeira questão é a seguinte: Por que políticas das potências ocidentais, da OTAN, da Europa e dos EUA, parecem completamente injustas para dois de cada três habitantes do planeta? Por que cinco mil mortes de americanos são consideradas uma causa para guerra, enquanto quinhentas mil mortes em Ruanda e uma estimativa de dez milhões de mortes pela AIDS na África não são, na nossa opinião, merecedoras de indignação. Por que o bombardeio de civis nos EUA é mau, enquanto que o bombardeio de Bagdá ou Belgrado atualmente, ou de Hanói ou Panamá no passado, é bom? A ética das verdades que proponho procede de situações concretas, ao invés de um direito abstrato, ou um mal espetacular. O mundo todo entende essas situações, e o mundo todo pode agir de modo desinteressado quando incitado pela injustiça dessas situações. É fácil enxergar o mal na política: É a absoluta desigualdade em respeito à vida, à riqueza, ao poder. Bom é a igualdade. Por quanto tempo podemos aceitar o fato de que aquilo é preciso para fornecer água corrente, escolas, hospitais, e comida suficiente para toda a humanidade é uma soma que corresponde ao total gasto pelos países ricos do ocidente em perfume durante um ano? Isso não é uma questão sobre direitos humanos ou moralidade. É uma questão sobre a batalha fundamental por igualdade para todas as pessoas, contra a lei do lucro, seja pessoal ou nacional.
Do mesmo modo, o bem na ação artística é a invenção de novas formas que transmitem o significado de mundo. O bem na ciência é a audácia do pensamento livre, a alegria do conhecimento preciso. Igualmente, o bem no amor é o entendimento sobre o que a diferença realmente é, sobre o que é construir um mundo em que se é dois, e não um. E o mal, então, são ensaios acadêmicos ou comércio “cultural”; é o conhecimento a serviço do lucro capitalista; é a sexualidade considerada como uma mera técnica de prazer [jouissance]. Vou repeti-lo: O mundo todo divide essas experiências. A ética da verdade sempre retorna, em circunstâncias precisas, para lutar pela verdade contra as quatro formas fundamentais de mal: obscurantismo, academicismo comercial, as políticas de lucro e a desigualdade, e a barbárie sexual.

Alain Badiou é um dos principais filósofos da França. Um estudante do filósofo Marxista Louis Althusser, Badiou liderou uma facção Maoista nos anos 1970 e continua a trabalhar como um ativista político. Ele é autor de L’Être et l’évenement and Ethics: An Essay on the Understanding of Evil (Verso).
Christoph Cox ensina filosofia, teoria crítica, e música contemporânea na Hampshire College. É um editor colaborador na Cabinet.
Molly Whalen é uma estudiosa de Literatura e Cultura do Início da Era Moderna, e Teoria Literária e Cultural. Ela vive em Amherst, Massachusetts.
Por Christoph Cox e Molly Whalen, via Cabinet Magazine, traduzido por Hugo Gomes Penaranda
“Se tornar um sujeito (e não permanecer um simples animal humano), é participar no surgimento de uma novidade universal”.


Na filosofia e na teoria psicanalítica, o mal está de volta. A questão sobre o mal é, claro, antiga e venerável na filosofia ocidental, tendo fascinado filósofos desde Sócrates e Agostinho a Leibniz e Kant. Em grande parte dessa história, “a questão sobre o mal” é teológica: Se Deus é beneficente e onipotente, por que ele permite a existência de tanta maldade no mundo? Depois de Kant, a filosofia, em grande parte, cortou seus laços com a teologia e, com isso, a questão sobre o mal retrocedeu. O mal parecia não ser mais uma questão para a filosofia, mas ao invés, se tornara uma questão para a psiquiatria, sociologia e biologia. Entretanto, nos últimos anos, um grupo de filósofos e teóricos vagamente conectados, influenciados pelo trabalho de Kant e Jacques Lacan, retornou para a questão sobre o mal. Dentre eles está Alain Badiou, que em 1993 publicou Ética: Um Ensaio sobre o Entendimento do Mal. Uma análise, crítica e reformulação do discurso do mal no pensamento contemporâneo, o trabalho rejeita ambas interpretações, teológica e científica (psicológica, sociológica, etc.), sobre o mal, localizando, em vez disso, o bem e o mal na própria estrutura da subjetividade, agência e liberdade humanas. Christoph Cox e Molly Whalen entrevistaram Badiou por e-mail entre julho – agosto de 2001. Badiou solicitou a adição do parágrafo final dessa entrevista após os eventos do 11 de setembro.
Você argumenta que em nossos discursos filosóficos e políticos de hoje, o mal é “autoevidente” e que ambas, essa “autoevidência” e essa concepção sobre o “mal”, são problemáticas. Qual é a “nossa representação consensual sobre o mal” e o que há de errado com ela?
A ideia de autoevidência do mal não é, na nossa sociedade, muito antiga. Ela data, na minha opinião, do final dos anos 1960, quando o grande movimento político dos anos 1960 tinha acabado. Nós então entramos em um período reativo, um período que eu chamo de Restauração. Você sabe que, na França, “Restauração” refere-se ao período do retorno do Rei, em 1815, após a Revolução e Napoleão. Nós estamos em período assim. Hoje, nós vemos o capitalismo liberal e o seu sistema político, o parlamentarismo, como a única solução natural e aceitável. Toda ideia revolucionária é considerada utópica e, no fim das contas, criminosa. Nós somos feitos para acreditar que a propagação global do capitalismo e o que é chamado de “democracia” é o sonho de toda a humanidade. E que o mundo todo quer a autoridade do Império Americano e sua polícia militar, OTAN.
Na verdade, nossos líderes e propagandistas sabem muito bem que o capitalismo liberal é um regime desigual, injusto, e inaceitável para a vasta maioria da humanidade. E eles também sabem que nossa “democracia” é uma ilusão: Onde está o poder do povo? Onde está o poder político para os camponeses do terceiro mundo, para a classe operária europeia, para os pobres de toda parte? Nós vivemos em uma contradição: um estado das coisas brutal, profundamente desigual — onde toda existência é avaliada exclusivamente em termos de dinheiro — nos é apresentada como ideal. Para justificar seu conservadorismo, os partidários da ordem estabelecida não podem realmente chamá-la de ideal ou maravilha. Então ao invés, eles decidiram dizer que todo o resto é horrível. Claro, eles dizem, nós podemos não viver em um mundo perfeito. Mas nós temos sorte de não vivermos em uma condição perversa. Nossa democracia não é perfeita. Mas é melhor que ditaduras sangrentas. O capitalismo é injusto. Mas não é criminosa como o stalinismo. Nós deixamos milhões de africanos morrerem de AIDS, mas nós não fazemos declarações nacionalistas racistas como Milosevic. Nós matamos iraquianos com nossos aviões, mas nós não cortamos suas gargantas com facões como eles fazem em Ruanda, etc.
É por isso que a ideia sobre o mal se tornou essencial. Nenhum intelectual irá defender o poder brutal do dinheiro e o desdém político pelos desprivilegiados ou trabalhadores manuais que o acompanha, mas muitos concordam em dizer que o mal real está em outro lugar. Quem hoje realmente poderia defender o terror stalinista, os genocídios africanos, os torturadores latino-americanos? Ninguém. É aí que o consenso em relação ao mal é decisivo. Sob o pretexto de não aceitar o mal, nós acabamos fazendo crer que nós temos, se não o bem, pelo menos o melhor estado das coisas possível — mesmo que esse melhor não seja tão bom. O refrão acerca dos “direitos humanos” não é nada além da ideologia do capitalismo liberal moderno: Nós não iremos massacrar vocês, nós não iremos torturar vocês em cavernas, então fique quieto e adore o bezerro dourado. Para aqueles que não querem adorá-lo, ou que não acreditam em nossa superioridade, sempre existirá o exército americano e seus minions europeus para faze-los ficar quietos.
Note que até Churchill disse que a democracia (em outras palavras o regime do capitalismo liberal) não era o melhor dos regimes políticos, mas o menos mal. A filosofia sempre foi crítica às opiniões frequentemente aceitas e sobre o que parece óbvio. Aceitar o que você tem porque todo o resto pertence ao mal é uma ideia óbvia, que deveria portanto ser imediatamente examinada e criticada.
Minha posição pessoal é a seguinte: É necessário examinar, de uma forma detalhada, a teoria contemporânea sobre o mal, a ideologia dos direitos humanos, o conceito de democracia. É necessário mostrar que nada disso leva na direção da real emancipação da humanidade. É necessário reconstruir o direto, tanto na vida cotidiana quanto na política, da verdade e do bem. Nossa habilidade de uma vez mais ter ideias reais e projetos reais depende disso.
Você diz que, para o capitalismo liberal, o mal sempre está em outro lugar, o temido outro, alguma coisa que o capitalismo liberal acredita ter, ainda bem, banido e mantido à distância. Porém ainda não existe, no imaginário coletivo, uma ideia poderosa do mal (social, psicológico, doméstica) interior? Por décadas, filmes populares e romances têm sido obsessivos com a ideia sobre o mal à espreita internamente (na mente, na casa, na vizinhança). O caso do Timothy McVeigh nos EUA parece ter renovado preocupações políticas sobre “o mal interior” (dentro de cada um de nós, dentro do coração dos EUA). Há apenas um mês, Andrea Yates, uma mãe texana, sistematicamente afogou suas cinco crianças, levando a um debate nacional sobre se somos ou não todos capazes de tal mal. Filosoficamente, o novo interesse no conceito de Kant sobre o “mal radical” (e sua reinterpretação lacaniana) parece ir ao encontro dessa ideia de mal interior (ao invés de exterior, político). Certamente, durante a maior parte da história do ocidente, poderia parecer que o mal foi concebido como “interior”, como algo que moralmente assombra cada um de nós. Então, minhas questões: Em adição à noção de mal “exterior” que você propõe, você também reconhece essa noção de mal “interior”? Essa ideia é perene, ou ela nos conta algo peculiar sobre nosso momento histórico? Você enxerga essas duas noções de mal (exterior e interior) como conectadas uma a outra de alguma forma?
Não há nenhuma contradição entre a afirmação de que o capitalismo liberal e a democracia são o bem e a afirmação de que o mal é uma permanente possibilidade para qualquer indivíduo. A segunda tese (o mal interior de cada um de nós) é simplesmente o complemento moral e religioso da primeira tese, que é político (capitalismo parlamentar como o bem). Existe até uma conexão “lógica” entre as duas afirmações, como segue:
  1. A história mostra que o capitalismo liberal democrático é o único regime econômico, político e social que é verdadeiramente humano, que verdadeiramente se conforma ao bem da humanidade.
  1. Qualquer outro regime político é uma ditadura monstruosa e sangrenta, completamente irracional.
  1. A prova desse fato é que todos os regimes políticos que têm lutado contra o liberalismo e a democracia dividem a mesma face do mal. Assim, fascismo e comunismo, que pareciam ser opostos, eram na verdade muito similares. Eles são ambos da família “totalitária”, que é oposta a família democrática-capitalista.
  1. Esses regimes monstruosos não podem produzir um projeto racional, uma ideia de justiça ou alguma coisa desse tipo. Aqueles que lideraram esses regimes (fascismo ou comunismo) eram necessariamente casos patológicos: É preciso estudar Hitler ou Stalin sob a ótica da psicologia criminal. Para aqueles que apoiaram eles, e foram centenas deles, eles foram alienados pela mística totalitária. Eles eram finalmente dirigidos por paixões más e destrutivas.
  1. Se milhares de pessoas foram capazes de participar de tal empreendimento ridículo e criminoso, isso é obviamente porque a possibilidade de estar fascinado pelo mal existe em cada um de nós. Essa possibilidade será chamada de “aversão pelo Outro”. A conclusão será que, primeiro, nós devemos apoiar a democracia liberal em todos os lugares e que, segundo, nós devemos ensinar nossas crianças o imperativo ético do amor ao Outro.
Minha posição é obviamente que esse “raciocínio” é puramente ideologia ilusória. Primeiro, o capitalismo liberal não é o bem da humanidade de forma alguma. Muito pelo contrário; é o veículo do niilismo selvagem, destrutivo. Segundo, as revoluções comunistas do século XX representaram esforços grandiosos para criar um universo histórico e político completamente diferente. Política não é a gestão do poder do Estado. Política é primeiro a invenção e o exercício de uma realidade absolutamente nova e concreta. A política é a criação do pensamento. O Lenin que escreveu Que Fazer?, o Trotsky que escreveu História da Revolução Russa (tradução literal) e o Mao Zedong que escreveu A Correta Abordagem das Contradições Entre as Pessoas (tradução literal) são gênios intelectuais, comparáveis a Freud ou Einstein. Certamente, as políticas de emancipação, ou políticas igualitárias, não foram, até agora, capazes de resolver o problema do poder do Estado. Elas tentaram um terror que é no limite inútil. Mas isso deveria nos encorajar a tomar a questão onde eles a deixaram, ao invés de unir-se ao inimigo capitalista, imperialista. Terceiro, a categoria “totalitarismo” é intelectualmente muito fraca. Há, do lado do comunismo, um desejo universal pela emancipação, enquanto que do lado do fascismo, há um desejo nacional e racial. Esses são dois projetos radicalmente opostos. A guerra entre os dois tem sido realmente entre a guerra entre ideia da política universal e a ideia da dominação racial. Quarto, o uso do terror em circunstâncias revolucionárias ou de guerra civil não significa de forma alguma que os líderes e os militantes estão insanos ou que eles expressam a possibilidade do mal interior. O terror é uma ferramenta política que tem sido usada desde quando as sociedades humanas têm existido. Ele deveria dessa forma ser julgado como uma ferramenta política, e não submetida a um julgamento moral infantilizado. Deveria ser adicionado que existem diferentes tipos de terror. Nossos países liberais sabem como usá-lo perfeitamente. O colossal exército americano exerce chantagem terrorista em uma escala global, e prisões e execuções exercem uma chantagem interior não menos violenta. Quinto, a única teoria coerente sobre o sujeito (minha, eu devo adicionar, um gracejo!) não reconhece nisso nenhuma disposição particular para o mal. Até a pulsão de morte de Freud não é particularmente vinculada ao mal. A pulsão de morte é um componente necessário de sublimação e criação, assim como o é para o assassinato e suicídio. Quanto ao amor pelo Outro, ou, pior, o “reconhecimento do Outro”, isso não é nada além de confeites cristãos. Nunca há “o Outro” enquanto tal. Existem projetos de pensamentos, ou de ações, na base da qual nós distinguimos entre aqueles que são amigos, aqueles que são inimigos, e aqueles que podem ser considerados neutros. A questão de saber como tratar inimigos ou neutros depende inteiramente do projeto concernido, o pensamento que o constitui, e as circunstâncias concretas (O projeto está em uma fase ascendente? Ele é perigoso? etc.).
Dado o que você disse, alguém pode esperar que você vire a mesa ao afirmar que, ao contrário da visão predominante, o capitalismo liberal é o “mal” em si. Mas você não faz isso. Ao invés, você oferece uma teoria alternativa sobre o mal.
Se fosse para eu virar a mesa, como você sugere, eu deixaria tudo no lugar. Dizer que o capitalismo liberal é mal não mudaria nada. Eu ainda estaria subordinando a política à moralidade humanista e cristã: Eu diria: “Vamos lutar contra o mal.” Mas eu já tive o bastante de “lutar contra”, de “desconstrução”, de “insuperável”, de “colocar um fim em”, etc. Minha filosofia deseja afirmação. Eu quero lutar por; eu quero saber o que eu tenho para o bem e colocar isso para trabalhar. E me recuso a me contentar com o “menos mal”. Está muito na moda agora ser modesto, não pensar grande. A grandeza é considerada um mal metafísico. Eu, eu sou pela grandeza, eu sou pelo heroísmo. Eu sou pela afirmação do pensamento e da ação.
Certamente, é necessário propor outra teoria sobre o mal. Mas isso é dizer, essencialmente, outra teoria sobre o bem. O mal poderia comprometer a questão sobre o bem. Desistir é sempre mal. Desistir das políticas de liberação, renunciar à um amor apaixonado, renunciar à uma criação artística… O mal é o momento em que me falta a força de ser verdadeiro ao bem que me compele.
A verdadeira questão subjacente à questão sobre o mal é a seguinte: O que é o bem? Toda a minha filosofia luta para responder a essa questão. Por razões complexas, eu chamei o bem de “verdades” (no plural). Uma verdade é um processo concreto que se inicia por uma agitação (um encontro, uma revolta generalizada, uma nova invenção surpreendente), e se desenvolve com fidelidade à novidade então experimentada. Uma verdade é o desenvolvimento subjetivo sobre o que é de uma só vez ambos novo e universal. Novo: aquilo que é jamais visto pela ordem da criação. Universal: aquilo que pode interessar, perfeitamente, a cada indivíduo humano, de acordo com sua pura humanidade (que eu chamo sua humanidade genérica). Se tornar um sujeito (e não permanecer um simples animal humano), é participar no surgimento de uma novidade universal. Isso requer esforço, persistência, as vezes auto-privação. Eu digo frequentemente que é necessário ser “ativista” da verdade. Existe mal sempre que o egoísmo leva à renúncia da verdade. Então, o indivíduo é dessujeitivizado. Interesses próprios egoístas têm mão única, arriscando a interrupção de todo o progresso de uma verdade (e portanto do bem).
Alguém pode, assim, definir o mal em uma frase: o mal é a interrupção da verdade pela pressão de interesses particulares ou individuais. Mesmo o caso que você citou acima — a mulher que afogou suas cinco crianças — se origina dessa visão das coisas. O debate que você levanta é absurdo: Obviamente, todo mundo é “capaz” de tudo. Já se viu em toda parte pessoas boas se tornando torturadores, ou cidadãos pacíficos atacando brutalmente pessoas por coisas insignificantes. Essa consideração tem nenhum interesse. Ela somente nos lembra que as espécies humanas são uma espécie animal, governada pelos interesses mais baixos, cujo lucro capitalista é meramente a formalização legal. Tudo isso é falta de bem e mal, não é nada mais que o governo dos impulsos. A questão sobre o mal se inicia quando alguém pode dizer de qual bem se está falando. Estou convencido que o assassinato de cinco crianças está realmente relacionado a uma renúncia brutal do bem, na forma de um processo amoroso. Em todo caso, esse é o único caso em que se faz qualquer sentido falar sobre o mal. O mito que pensa isso é Medeia. Ela também matou suas crianças. E isso não é mal, no sentido trágico do termo, por que esse assassinato é inteiramente dependente de seu amor por Jason.
Na sua visão, então, o domínio animal humano está simplesmente abaixo do bem e do mal (de forma que atos de tortura, por exemplo, não são propriamente “maus”)? Um indivíduo não tem a obrigação moral de se tornar sujeito (ao invés de permanecer um animal humano)? E, portanto, a falha em se tornar sujeito não é uma falha moral?
A questão realmente combina duas concepções comuns de moralidade (e portanto da distinção entre o bem e o mal): a concepção “natural”, derivada de Rousseau, e a concepção “formal”, derivada de Kant:
  1. Existe uma moralidade “natural”, coisas que são obviamente más na opinião de qualquer consciência humana. Consequentemente, o mal existe para o animal humano. O exemplo dado é o da tortura.
  1. Existe uma moralidade “formal”, uma obrigação universal que está acima de qualquer situação particular. E, dessa forma, existe um mal universal, que, também, é independente das circunstâncias. O exemplo dado é o da obrigação de se tornar um sujeito, de colocar-se acima do animalismo humano básico. É ruim se recusar a se tornar um sujeito humano por completo, não importa quais os termos específicos dessa transformação.
Eu devo, claro, especificar que me oponho absolutamente a essas duas concepções. Eu sustento que o estado natural do animal humano não tem nada a ver com o bem ou o mal. E sustento que o tipo de obrigação moral formal descrito no imperativo categórico de Kant não existe realmente.
Pegue o exemplo da tortura. Em uma civilização tão sofisticada como o Império Romano, não só a tortura não é considerada um mal, como é considerada um espetáculo. Nas arenas, as pessoas são devoradas por tigres; elas são queimadas vivas; a audiência regozija-se ao ver combatentes cortarem uns aos outros as gargantas. Como, então, podemos pensar que a tortura é mal para todo animal humano? Não somos o mesmo animal que Sêneca ou Marcus Aurelius? Eu devo adicionar que as forças armadas do meu país, a França, com a aprovação dos governos do período e da maioria da opinião pública, torturou todos os prisioneiros durante a guerra da Argélia. A recusa da tortura é um fenômeno histórico e cultural, de forma alguma natural. De uma maneira geral, o animal humano conhece a crueldade assim como conhece a pena; uma é tão natural como a outra e nenhuma tem nada a ver com o bem ou o mal. Pode-se saber de situações cruciais onde a crueldade é necessária e útil, e outras situações onde a pena não é nada além de uma forma de desprezo pelos outros. Você não irá encontrar nada na estrutura do animal humano onde basear o conceito de mal, nem, ademais, o de bem.
Mas a solução formal não é nada melhor. Ao contrário, a obrigação de ser um sujeito não tem nenhum significado, pela seguinte razão: A possibilidade de se tornar um sujeito não depende de nós, mas daquilo que ocorre nas circunstâncias que são sempre singulares. A distinção entre bem e mal já pressupõe um sujeito, e portanto não se aplicam a ele. É para um sujeito, não para um animal humano pré-subjetivizado, que o mal é possível. Por exemplo, se, durante a ocupação da França pelos nazistas, eu me junto à resistência, eu me torno um sujeito de um momento histórico. Do interior dessa subjetivização, eu posso dizer o que é mau (trair meus companheiros, colaborar com os nazistas, etc.). Eu também posso decidir o que é bom fora das normas habituais. Assim a escritora Marguerite Duras relatou como, por razões relacionadas à resistência aos nazistas, participou de atos de tortura contra traidores. Toda a distinção entre o bem e o mal surge de dentro de um tornar-se-sujeito, e varia com esse tornar-se (que eu mesmo chamo de filosofia, o tornar-se de uma verdade).
Resumindo: Não existe uma definição natural do mal; o mal é sempre aquilo que, em uma situação particular, tende a enfraquecer ou destruir um sujeito. E a concepção de mal é portanto inteiramente dependente dos eventos nos quais um sujeito constitui a si mesmo. É o sujeito que prescreve o que é o mal, não uma ideia natural do mal que define o que um sujeito “moral” é. Também não existe um imperativo formal a partir do qual definir o mal, mesmo negativamente. De fato, todos os imperativos presumem que o sujeito do imperativo já está constituído, e em circunstâncias específicas. E assim não pode existir um imperativo para se tornar sujeito, exceto como uma declaração absolutamente vazia. É por isso também que não existe nenhuma forma geral do mal, porque o mal não existe, exceto como um julgamento, feito por um sujeito, em uma situação, e nas consequências de suas próprias ações nessa situação. Então o mesmo ato (matar, por exemplo) pode ser mal em certo contexto subjetivo, e uma necessidade do bem em outro.
Eu devo particularmente insistir que a fórmula “respeito pelo Outro” não tem nada a ver com nenhuma definição séria de bem e mal. O que “respeito pelo Outro” significa quando se está em uma guerra contra um inimigo, quando se é brutalmente deixado por uma mulher em função de outra pessoa, quando se precisa julgar o trabalho de um “artista” medíocre, quando a ciência é confrontada com seitas obscurantistas, etc.? Quase sempre, é o “respeitos pelos Outros” que é injuriosa, que é má. Especialmente quando é resistência contra os outros, ou até a aversão a outros, que anima uma ação subjetivamente justa. E é sempre nesses tipos de circunstâncias (conflitos violentos, mudanças brutais, amores apaixonados, criações artísticas) que a questão sobre o mal pode ser verdadeiramente perguntada por um sujeito. O mal não existe nem como natureza nem como lei. Ele existe, e varia, no ato singular tornar-se da verdade.
Em resposta a uma pergunta anterior, você destacou que “É necessário reconstruir o direto, tanto na vida cotidiana quanto na política, da verdade e do bem”. Você pode falar mais sobre como a ética da verdade pode ser mobilizada em termos práticos, e como isso pode constituir uma alternativa ao conceito atual de “direitos humanos”?
Pegue o exemplo mais próximo: o terrível ataque criminoso em Nova Iorque em setembro, com suas milhares de vítimas. Se você raciocinar em termos de moralidade dos direitos humanos, você diz, com o presidente Bush: “Esses são terroristas criminosos. Isso é uma luta do bem contra o mal”. Mas as polícias de Bush, na Palestina ou no Iraque por exemplo, são realmente boas? E, afirmando que essas pessoas são más, ou que eles não respeitam os direitos humanos, nós entendemos alguma coisa sobre a mentalidade daqueles que mataram a si mesmos com suas bombas? Não existe muito desespero e violência no mundo causadas pelo fato de que políticas das potências ocidentais, e do governo Americano em particular, são completamente destituídas de ingenuidade e valor? Frente a crimes, crimes terríveis, nós devermos pensar e agir de acordo com verdades políticas concretas, ao invés de sermos guiados por estereótipos de qualquer tipo de moralidade. O mundo todo entende que a verdadeira questão é a seguinte: Por que políticas das potências ocidentais, da OTAN, da Europa e dos EUA, parecem completamente injustas para dois de cada três habitantes do planeta? Por que cinco mil mortes de americanos são consideradas uma causa para guerra, enquanto quinhentas mil mortes em Ruanda e uma estimativa de dez milhões de mortes pela AIDS na África não são, na nossa opinião, merecedoras de indignação. Por que o bombardeio de civis nos EUA é mau, enquanto que o bombardeio de Bagdá ou Belgrado atualmente, ou de Hanói ou Panamá no passado, é bom? A ética das verdades que proponho procede de situações concretas, ao invés de um direito abstrato, ou um mal espetacular. O mundo todo entende essas situações, e o mundo todo pode agir de modo desinteressado quando incitado pela injustiça dessas situações. É fácil enxergar o mal na política: É a absoluta desigualdade em respeito à vida, à riqueza, ao poder. Bom é a igualdade. Por quanto tempo podemos aceitar o fato de que aquilo é preciso para fornecer água corrente, escolas, hospitais, e comida suficiente para toda a humanidade é uma soma que corresponde ao total gasto pelos países ricos do ocidente em perfume durante um ano? Isso não é uma questão sobre direitos humanos ou moralidade. É uma questão sobre a batalha fundamental por igualdade para todas as pessoas, contra a lei do lucro, seja pessoal ou nacional.
Do mesmo modo, o bem na ação artística é a invenção de novas formas que transmitem o significado de mundo. O bem na ciência é a audácia do pensamento livre, a alegria do conhecimento preciso. Igualmente, o bem no amor é o entendimento sobre o que a diferença realmente é, sobre o que é construir um mundo em que se é dois, e não um. E o mal, então, são ensaios acadêmicos ou comércio “cultural”; é o conhecimento a serviço do lucro capitalista; é a sexualidade considerada como uma mera técnica de prazer [jouissance]. Vou repeti-lo: O mundo todo divide essas experiências. A ética da verdade sempre retorna, em circunstâncias precisas, para lutar pela verdade contra as quatro formas fundamentais de mal: obscurantismo, academicismo comercial, as políticas de lucro e a desigualdade, e a barbárie sexual.

Alain Badiou é um dos principais filósofos da França. Um estudante do filósofo Marxista Louis Althusser, Badiou liderou uma facção Maoista nos anos 1970 e continua a trabalhar como um ativista político. Ele é autor de L’Être et l’évenement and Ethics: An Essay on the Understanding of Evil (Verso).
Christoph Cox ensina filosofia, teoria crítica, e música contemporânea na Hampshire College. É um editor colaborador na Cabinet.
Molly Whalen é uma estudiosa de Literatura e Cultura do Início da Era Moderna, e Teoria Literária e Cultural. Ela vive em Amherst, Massachusetts.
in LavraPalavra (com a devida vénia)

08-01-2010

Por un marxismo creativo
Trotsky no existe



Introducción
Si en este planeta existen recursos para todos pero muchos mueren de hambre, y eso es consecuencia directa del capitalismo, y sólo podemos destruir el capitalismo organizándonos, entonces se hace imprescindible pasar revista al panorama de la izquierda organizada, es decir, de la única oposición existente al capitalismo y el hambre. Pasando revista, lo primero que nos llamará la atención será la infinita división y subdivisión de estas fuerzas, en ciertas ocasiones motivada por bases programáticas (por ejemplo, la división que existe entre Izquierda Unida y la izquierda extraparlamentaria), pero en otras debida a prejuicios mutuos o, peor si cabe, a distintas lecturas de hechos históricos del pasado (como en el caso de dicha izquierda extraparlamentaria, que se encuentra fraccionada hasta la impotencia política).
¿Recuerdan aquella escena de La vida de Brian? Brian le pregunta a unos hombres si son del Frente Judaico Popular y estos le contestan: “¡Vete a la mierda! ¿Frente Judaico Popular? Somos del Frente Popular de Judea” (http://www.youtube.com/watch?v=hMvcjzEKTMw). Pues así se siente uno muchas veces, como en una película de los Monty Python, como si estuviéramos insensibilizados contra el hecho de que no se nos puede tomar en serio; y todo por confundir, como decía Galeano hace unos días, unidad con unanimidad, política con religión, divergencia con herejía.
Es curioso rastrear el origen del enfrentamiento que, en el seno del islam, se desarrolla entre sunnitas y chiitas. Resulta que Mahoma no dejó un sucesor oficial, así que, a su muerte, sus seguidores Alí y Muawiya se enfrentaron entre ellos, siendo derrotado el primero. Mas de mil años después, sus partidarios continúan divididos, y a partir de una simple pelea sucesoria han inventado imbricadas teorías por las que enfrentarse. Algo parecido sucede hoy día con el enfrentamiento que, en el seno del marxismo-leninismo, separa a trotskistas y estalinistas. Resulta que los comunistas nos encontramos insensatamente divididos por el enfrentamiento (en muchos sentidos personal) que tuvieron dos hombres hace 80 años, en una mera pelea sucesoria a la muerte de Lenin.
Por supuesto, si el propósito de este trabajo fuera otro, debería ahondar en el estudio de los condicionantes históricos que rellenan de contenido una pelea sucesoria, como codificación histórica de los conflictos sociales. Sin embargo, sería una simplificación ingenua del marxismo decir que Alí y Muawiya se enfrentaron para defender sus respectivos ideales. ¿Es que para el marxismo no existen la ambición personal entre las motivaciones de los personajes históricos? ¿Es idealismo aludir a un enfrentamiento personal? Puestos a hacer metáforas forzadas al estilo del marxismo dogmático y vulgar, ¿por qué no ver en el supuesto enfrentamiento político una superestructura, cuya base fuera una lucha por el poder tras la muerte de Lenin? Podemos analizar, por ejemplo, qué factores materiales han motivado que en unos países el trotskismo haya tenido arraigo a posteriori y en otros no (o incluso analizar factores como la psicología de masas, la necesidad de una figura “diferente” a lo que realmente se alcanzó en la URSS y la insatisfacción consecuente). Pero eso sigue sin explicar lo acontecido en el Partido Bolchevique durante los años 20 del siglo XX.

Una superación dialéctica
Hoy en día, y menos por evolución que por desaparición política, quedan pocos estalinistas (al menos “estalinistas” que se reconozcan en dicha denominación y que den culto a la imagen del personaje histórico); en cambio, podemos encontrar bastantes activistas y partidos que se reconocen como “trotskistas” y, en función de ello, se dividen de otros partidos (e incluso entre sí, celosos por ver quién efectúa la exégesis más ortodoxa de los textos del profeta armado y luego desarmado).
Sin embargo, Trotsky no existe, ni Stalin tampoco. Y no sólo porque ambos hayan muerto y no puedan venir, por tanto, aquí a “hacernos” la revolución; sino porque de hecho nunca existieron (en las versiones icónicas que sus respectivos seguidores nos han legado). Ni Stalin fue el glorioso padre infalible de la revolución, ni Trotsky el adalid antiburocrático y antirrepresivo que se nos quiere vender.
No se trata de negar el destacado papel de Trotsky durante la Revolución Rusa, ni su destreza como teórico y escritor; tampoco se trata de justificar las falacias vertidas contra él durante los Procesos de Moscú de 1936-38, su cruel asesinato (o el de sus hijos) u otros crímenes cometidos. Para mí no se trata de jugar a “trotskistas” y “estalinistas”. Si algún día esto pudo significar algo y la gente pudo morir por ello, hoy no es más que una pelea de bar que divide nuestras propias fuerzas. De lo que se trata es de hacer una modesta reflexión, escrita por un compañero más de los que está cansado de ciertos clichés que ya sólo sirven para perder credibilidad, en eternos debates que no afectan a la vida de (ni interesan a) nadie. Porque un estudio serio y sosegado de la historia acaba por desacreditar el maniqueísmo. Y porque nuestra táctica ahora debe ser el reagrupamiento de las fuerzas anticapitalistas que no se hayan integrado en el sistema.
¿Realmente tenemos un objetivo diferente? A nivel de propuestas concretas y dentro de la izquierda extraparlamentaria, ¿hay tanta diferencia entre los partidos “trotskistas” y los “estalinistas”? ¿No abogan ambos por la construcción de una sociedad lo más democrática posible, que evite repetir los errores de la experiencia soviética, pero que emule sus logros? Si la única diferencia es a nivel de interpretación del pasado histórico (es más, a nivel de conceptualización de dicho juicio: “defectuoso pero aceptable por ser mejor” versus “mejor pero defectuoso e inaceptable”), ¿vale la pena dividirse por ello? Entonces, se me dirá, ¿para qué tratar este tema, por qué hablar de ello? Porque para mí no se trata de callarlo, ni de olvidarlo, ni de “sustituirlo” por otra cosa. Para mí no se trata de matarlos a todos, sino de tragárselos vivos, es decir, de efectuar una superación dialéctica y crítica de ambas tendencias. Como diría Apollinaire, no podemos llevar a todos sitios el cadáver de nuestro padre, pero como diría Gabriel Aresti, de lo que se trata es de que la casa de nuestro padre siga en pie.

La inexistencia de Trotsky
En 1919 Trotsky promulgó el Decreto de Rehenes, ordenando secuestrar a la familia de todo oficial que desertara del ejército. Indignado por el hecho de que no se cumpliera su orden, en telegrama al Consejo Militar Revolucionario de Serpujov, Trotsky insistiría: “la mala conducta o la traición provocará el arresto de sus familias” (aún en 1939, poco antes de ser asesinado, Trotsky seguirá defendiendo el sistema de rehenes en el artículo Su moral y la nuestra). En marzo de 1921 lanzó a 50.000 soldados del Ejército Rojo contra los obreros de Kronstadt, después de que estos se sublevaran contra el Estado socialista al que acusaban, paradojas de la historia, de “burocratismo” (entre sus reivindicaciones estaban la libertad de palabra y de prensa para todos los partidos obreros o anarquistas, la liberación de los prisioneros políticos socialistas, la reactivación de los soviets sin injerencias del Partido, etc.) La represión de Kronstadt se saldaría con centenares de fusilamientos. En el X Congreso de los bolcheviques, celebrado también en 1921, Trotsky propuso la total subordinación de los sindicatos al Estado, el Partido y el Ejército. Es más, ya en su documento Tesis sobre la transición entre la guerra y la paz, había propuesto Trotsky el llamado “comunismo de guerra”, es decir, una militarización total de la población, de modo que el Estado decidiera dónde debía trabajar cada persona, del mismo modo que el Ejército Rojo decidía dónde debía ubicarse cada soldado. En contra de dicha propuesta se creó la Plataforma de los Diez, compuesta, entre otros, por Lenin y Stalin. La propuesta de Trotsky fue rechazada por el congreso, por 336 votos contra 50. En este X Congreso, además, Trotsky votó a favor de la prohibición de las fracciones dentro del Partido Bolchevique.
Los ejemplos podrían ser innumerables. ¿Trotsky antiburocrático? Pero, es más, ¿Lenin antiburocrático? ¿Y cómo se hacía la política entonces? Por ejemplo, cuando se decide firmar la Paz de Brest-Litovsk, ¿se convoca un referéndum para que las masas populares decidan democráticamente? ¿O la realidad es que se reúnen en una mesa siete líderes del Partido y allí lo deciden? Como denunciaron los consejistas (duramente criticados por Lenin, que les atribuía una “enfermedad infantil”), el control obrero sólo tuvo una existencia efectiva en Rusia durante apenas unos meses. Ya en diciembre de 1917 se crea el Vesenkha (Consejo Supremo de la Economía Nacional), compuesto de comisarios políticos y expertos nombrados por el Partido. Un decreto del 3 de marzo establece que en las empresas nacionalizadas se someterán “todas las declaraciones y decisiones del comité de fábrica o de taller, o de la comisión de control, a la aprobación del consejo económico administrativo”. Lenin lo escribirá claramente: “hemos pasado del control obrero a la creación del Vesenkha”. También en marzo de 1918 se promulga la Constitución Soviética, que centraliza el poder en detrimento de los soviets (consejos obreros). Y en el VIII Congreso (1919) Lenin dirá: “los soviets que, según el programa, son órganos de gobierno por los trabajadores, son en realidad órganos de gobierno para los trabajadores, ejercido por la capa avanzada del proletariado y no por las masas trabajadoras”. Como escribió John Reed, “A pesar de la autonomía local, los decretos del comité Central Ejecutivo y las órdenes de los delegados son válidos para todo el país”. Por lo que respecta al pluripartidismo, todavía en marzo de 1922, Lenin escribía en el Informe político del Comité Central al undécimo congreso del Partido que “las manifestaciones públicas de menchevismo son penadas con la muerte por nuestros tribunales” (por no hablar de la represión contra los anarquistas, que puede consultarse en Vsevolod Volin). Rosa Luxemburgo fue muy critica con la recién acontecida Revolución Rusa, escribiendo que “esta dictadura debe ser obra de la clase y no de una pequeña minoría que dirige en nombre de la clase”, porque “ahogando la vida política en todo el país, es inevitable que la vida en los soviets mismos esté cada vez más paralizada. Sin elecciones generales, sin libertad ilimitada de prensa y de reunión, sin lucha libre entre las opiniones, la vida se muere en todas las instituciones públicas, se convierte en una vida aparente donde la burocracia es el único elemento activo”. Vale la pena recordar que Rosa Luxemburgo murió en enero de 1919, es decir, casi una década antes del acceso de Stalin al poder. Una línea parecida defendería por esas mismas fechas la Oposición Obrera, encabezada por Alexandra Kollontai. ¿Y qué hay de la disolución de la Asamblea Constituyente Rusa, en enero de 1918, tras haberse convocado unas elecciones el 12 de noviembre anterior que perdieron los bolcheviques (Socialistas Revolucionarios, 17.100.000 votos y 380 diputados; Bolcheviques, 9.800.000 y 168 diputados)?
Desde luego, todas estas medidas han de verse en su contexto. Es más, probablemente la mayoría de ellas fueran decisiones acertadas y, por desgracia, necesarias. Pero una cosa es decir que quizá fueran necesarias, y otra muy distinta decir que eran buenas en sí mismas. Lo que no se puede hacer es manipular la historia, como si antes de 1924 (fecha de la muerte de Lenin) la Unión Soviética fuera un paraíso y desde entonces un infierno. De hecho, en todas las líneas de fuerza lo que existe es continuidad, tanto en las luces como en las sombras, y el mito del “corte de 1924” es una completa arbitrariedad carente de rigor. Es probable que mis palabras dejen estupefactos a aquellos que se han acostumbrado a cierta manera de razonar (de no razonar, quiero decir), según la cual si eres partidario de un régimen, debes justificar todas y cada una de sus acciones, negando todos aquellos aspectos que sean negativos o incluso cuestionables. También puede ser que otros se estén dando cuenta de cosas que jamás se habían planteado. No es una cuestión de inteligencia; ni siquiera de erudición. Sencillamente se trata de promover que, en nuestras organizaciones, los militantes piensen por sí mismos, en lugar de enseñarles una retahíla que han de repetir como borregos. Por lo demás, admito estar haciéndole el debate a los sectores atrasados de estos movimientos, que (nadie lo niega) cuentan con teóricos de altura, pero ¿para qué debatir en las alturas, mientras la formación media de los militantes perpetúa el estilo de cliché, el divisionismo y los falsos debates, imposibilitando, como decimos, la generación de una alternativa que a la gente de la calle le suene creíble?

Otros mitos sorprendentes
Hay más mitos: por ejemplo, el mito de la identidad entre Lenin y Trotsky. La realidad, avalada por toda la historiografía solvente sobre el periodo, es que Lenin y Trotsky mantuvieron un fortísimo antagonismo político durante años. En Nuestras tareas políticas (1904) Trotsky rechazó la concepción del partido que propugnara por Lenin en su obra de 1902 Qué hacer. Para Trotsky, Lenin era“el dirigente del ala reaccionaria de nuestro partido” y su concepción del partido suponía un “sistema de sustitución política” de la clase obrera. No en vano Trotsky era en aquella época un dirigente de los mencheviques. No estoy, además, descontextualizando ninguna frase, porque esa obra entera, al igual que el Informe de la delegación siberiana (también de 1904), son furibundos ataques contra la política de Lenin. Pero todavía en febrero de 1917, Lenin afirmaba, en carta a Inés Armand, lo siguiente: “¡Así es Trotsky! Siempre fiel a si mismo, se revuelve, hace trampas, finge ser izquierdista y ayuda a la derecha cuando puede”. Y en la última carta al congreso de Lenin, que se ha venido considerando su “testamento político” (a pesar de que Trotsky estuvo tan interesado como Stalin en que no saliera a la luz), Lenin (que ante todo -y deberían tomar nota nuestros particulares “chiitas y sunnitas”- trataba de evitar una escisión en el partido) afirmaba que Trotsky estaba “demasiado ensoberbecido y demasiado atraído por el aspecto puramente administrativo de los asuntos”. Paradójico en quien se ha considerado a sí mismo el paladín de la lucha antiburocrática; aunque no tanto si consideramos, como Otto Rühle, que “Trotsky no quiere reconocer que él fue uno de los fundadores de la burocracia rusa”. Lo que queda claro en ese “testamento” es que, para Lenin, ninguno de sus sucesores está a la altura de las circunstancias. Eso por no hablar de las agrias diferencias entre Lenin y Trotsky acerca de la Paz de Brest-Litovsk, que Trotsky se negaba a firmar (a pesar de la promesa de los bolcheviques a las masas: darles “paz y pan”).
También es un mito que realmente existieran diferencias políticas entre Trotsky y Stalin durante los años 20. La crítica literaria actual considera que la tradicional (por ejemplo Menéndez Pelayo) se equivocaba al considerar que el culteranismo de Góngora y el conceptismo de Quevedo eran dos tendencias opuestas; como aclara Blecua, en realidad estamos ante una falsa dicotomía, porque, aunque sus cabecillas se odiaran mutuamente, son movimientos afines y con raíces compartidas. Algo similar ocurre con el trotskismo y el estalinismo. La escenificación de una supuesta polémica entre “socialismo en un solo país” y “revolución permanente” no resiste un análisis crítico. Dada la derrota de la revolución alemana, no existían más que dos posibilidades: o acometer la construcción del socialismo en la URSS, o enviar al Ejército Rojo a imponer el socialismo pisoteando Europa. Si Trotsky no proponía esto segundo, ¿era sencillamente un derrotista? Es sorprendente que nadie conteste nunca a esta sencilla pregunta, pero obviamente se trata de una falsa dicotomía: se puede compatibilizar perfectamente la construcción del socialismo con una política internacionalista y revolucionaria.
Más tarde, Trotsky compilará sus ideas en La revolución permanente (1930), afirmando, por ejemplo, lo siguiente: “Un país colonial o semicolonial, cuyo proletariado resulte aún insuficientemente preparado para agrupar en torno suyo a los campesinos y conquistar el poder, se halla por ello mismo imposibilitado para llevar hasta el fin la revolución democrática”. No sólo es una frase derrotista, dogmática y etapista (¿no culpaban a Stalin de eso?), sino que, además, si esta es la teoría de la revolución permanente, la misma historia del siglo XX le quita la razón. De hecho, todas las revoluciones, no ya democráticas sino en muchos casos incluso socialistas, que se han producido desde la escritura de este texto hasta la actualidad se han dado en países coloniales o semicoloniales (Yugoslavia y Albania, 1945; Corea del Norte, 1948; China, 1949; Bolivia, 1952; Cuba, 1959; Argelia, 1962; Vietnam, 1975; Nicaragua, 1979... y podríamos incluir el Chile de Allende y la Venezuela de Chávez), siendo protagonizadas no por el proletariado industrial (inexistente o insignificante en esos países, y en la mayoría de los países del mundo), sino por el campesinado (con frecuencia organizado en guerrillas). Si como Marx en la Crítica del programa de Gotha pensamos que “cada paso del movimiento efectivo es más importante que una docena de programas”, ¿a quién creer, a nuestros ojos, o a un libro escrito hace 8 décadas?

Separar la paja del grano
Sin embargo, así nos va. La historia se analiza ad hoc, porque cada cual intenta justificar a su personaje histórico favorito. Si Stalin (en lugar de Lenin) hubiera propuesto la NEP, el trotskismo diría que las concesiones al capitalismo de la NEP suponían una traición a la revolución. Como fue al contrario; como lo que hizo Stalin fue detener la NEP para colectivizar y planificar toda la economía, se quejan de que esta colectivización fuera forzosa. Por activa o por pasiva, la conclusión ha de ser siempre la misma, porque está prefabricada. Sin embargo, Trotsky proponía exactamente lo mismo: colectivizar, sin haber especificado en ninguna parte que dicha colectivización debiera hacerse de manera sólo voluntaria. Por tanto, las acciones de Trotsky, aunque fueran extremadamente represivas o burocráticas, se justifican como necesidades impuestas por las durísimas circunstancias (la guerra civil, por ejemplo); y no les falta razón al hacerlo. Sin embargo, se actúa como si las circunstancias de la época de Stalin fueran una especie de idilio, a pesar de que estas circunstancias supusieran la mayor colectivización de toda la historia humana y una de las mayores invasiones también de toda la historia (que acabaría provocando 25 millones de bajas soviéticas). Sin el menor rigor metodológico, se afirma que todo lo bueno es gracias a la economía planificada, y todo lo malo por culpa de Stalin. A pesar de que el burocratismo existía antes y existiría después de Stalin, se denomina a este fenómeno “estalinismo”, término del que, además, se abusa de manera simplista para referirse a todos aquellos comunistas que no sean trotskistas. De hecho, cuando cae la URSS en 1991, se corona a Trotsky como el profeta o futurólogo que supo preverlo. ¿No se equivocaba por un siglo entero de revoluciones encabezadas por el campesinado de países semicoloniales, pero acierta cuando la URSS cae en el 91?
Lo peor de esta manera de enfocar las cosas, de este marxismo anquilosado, es que impide separar la paja del grano, e imposibilita hacer la crítica seria que en efecto necesitamos y que, aun reivindicando con orgullo los logros del socialismo, debe hablar del cambio de paradigma que no se dio en la Unión Soviética y que en el futuro sólo podrá darse tomando ejemplo lo que los revolucionarios latinoamericanos denominan Poder Popular.

Contra la cita descontextualizada
Hasta aquí he hablado de la forma de entender el marxismo que considero inoperante y estéril. Trataré ahora de oponer una alternativa, exponiendo qué es lo que yo defiendo.
Esta forma de entender el marxismo mitifica y rehúye el análisis concreto de la circunstancia concreta, apostando por repetir fórmulas del pasado y hacer un calco mimético de la experiencia rusa, incluso aunque estemos ante circunstancias históricas o geográficas completamente diferentes. Algo así como ponerse un abrigo de pieles en pleno verano sevillano porque, de estar en Rusia, sería necesario. Como diría Salvador Allende, cada país tiene su propia vía al socialismo. Pero la izquierda del Estado español, quizá excluyendo a la izquierda abertzale (véanse para ello los análisis de Euskal Herriko Komunistak), sigue teniendo cierta tendencia a la escolástica.
Cada secta esgrime su cita descontextualizada para justificar su política. Pero todo el mundo sabe que con un poco de tiempo y habilidad pueden buscarse citas al uso de Marx o Lenin para justificar algo o lo contrario. Si estás a favor del Frente Popular, acudes a La lucha de clases en Francia, donde Marx defiende la posibilidad de una alianza del proletariado con sectores de la burguesía, para derrotar a la aristocracia alemana. Si estás en contra, encontrarás, y además en la misma obra, que Marx rechaza toda alianza de clase cuando habla de Francia, porque allí ya se ha hecho la revolución burguesa. Si quieres justificar la apuesta por Comisiones Obreras, descontextualizas La enfemerdad infantil del izquierdismo en el comunismo, de Lenin; si te opones a ella puedes aludir al análisis sindical del II Congreso de la III Internacional Socialista (o a la misma creación de Comisiones Obreras, en detrimento del sindicato vertical OSE). Falta siempre un conocimiento operativo de las obras de Marx, Lenin y otros, que implica asimismo el conocimiento exacto de las coyunturas políticas concretas en que dichas obras fueron concebidas, así como la consideración del marco desde el que partimos nosotros. Todo esto se sustituye por el fetichismo de la cita descontextualizada que preside análisis y textos, en una batalla de frases infantil y paternalista que no invita a pensar por uno mismo.

Cambiar lo que deba ser cambiado
En mi opinión, debemos tomar de cada autor lo que nos interese: de Trotsky, de Stalin, de Mao, de Althusser, de Mandel, de Gramsci, de Mariátegui, de Rosa Luxemburgo, del Che Guevara (e incluso de autores anarquistas, como Malatesta)... O los aceptamos a todos, o buscamos figuras más incluyentes, que no dejen fuera a la mitad de los comunistas. No se puede predicar “la unidad de los comunistas” de otro modo. Debemos aprender de todos ellos y de muchos más, pero siempre enfrentándonos a nuestra realidad concreta. Sobre todo, debemos efectuar una reapropiación crítica del marxismo, con el objetivo irrenunciable de la colectivización de los medios de producción. No es eso lo que hay que superar; sin embargo, cada uno de los líderes de cada una de las revoluciones socialistas han efectuado una reapropiación crítica de sus predecesores.
Superar es adaptar las tesis fundamentales del marxismo a las nuevas circunstancias. De no haber superado a Marx (o, al menos, a la lectura de Marx que efectuaba su tiempo), Lenin no habría podido hacer ninguna revolución en Rusia; habría adoptado la tesis del introductor del marxismo en Rusia, Georgi Plejanov, según la cual había que esperar a que se produjera un desarrollo capitalista, a que surgieran las “condiciones objetivas” (un proletariado industrial moderno), etc. Tomando las obras más divulgadas, esa era efectivamente la tesis más marxiana, la más apegada a la doctrina del barbudo alemán (aunque en rigor, el propio Marx de la vejez, por ejemplo en 1882, fecha de su prefacio a la edición rusa del Manifiesto comunista, ha superado ya al joven Marx, economicista y etapista, de 1848; y admite, ahora sí, la posibilidad de una revolución en Rusia antes que en los países industriales). Más allá de Plejanov, Lenin le dio la vuelta a determinados aspectos de este primer marxismo economicista en El desarrollo del capitalismo en Rusia (1899), donde expuso la “teoría del eslabón más débil”, que trataba de demostrar la probabilidad de que la cadena del imperialismo se rompiera no por Alemania, sino por el eslabón más débil: Rusia. También matiza de manera importante la tesis marxiana de la “autoemancipación del proletariado”, arguyendo en el ya aludido Qué hacer lo siguiente: “Los obreros no podían tener conciencia socialdemócrata. Esta sólo podía ser traída desde fuera. (...) La clase obrera está en condiciones de elaborar exclusivamente con sus propias fuerzas sólo una conciencia tradeunionista, es decir, la convicción de que es necesario agruparse en sindicatos”, si bien años más tarde aclarará que exageró esta postura porque la polémica con los economicistas le obligaba a hacer excesiva fuerza en esa dirección, como para enderezar un bastón torcido. Tal vez el concepto de autoemancipación en Marx sólo pueda comprenderse correctamente como una afirmación a una escala histórica, superior; con todo, es innegable que el leninismo refuerza la importancia del factor subjetivo.

El marxismo como creación heroica
Si Lenin supera a Marx (o a “cierto” Marx), nosotros debemos superar a Lenin y superarlos a todos, como ya hemos dicho. Marx defendía que la ideología está condicionada por los límites de cada época. Aplicando la metadialéctica, el propio Marx está condicionado por su época: el siglo XIX, la época del positivismo. Marx comete un craso error: el eurocentrismo. Como recordaba en un artículo reciente el comandante de las FARC-EP Jesús Santrich, comentando el libro de Nestor Kohan Marx en su (tercer) mundo, Marx hizo un análisis muy deficiente de la figura de Simón Bolívar, atacando al Libertador por haber emancipado a Latinoamérica del imperialismo... un imperialismo que habría acelerado la llegada de la etapa capitalista, la creación de un proletariado industrial y, por tanto, el socialismo. Por no hablar de Engels, que festejó así la conquista de California por parte de EE UU: “Es en interés de su propio desarrollo que México estará en el futuro bajo la tutela de los Estados Unidos. (…) ¿O acaso es una desgracia que la magnífica California haya sido arrancada a los perezosos mexicanos, que no sabían que hacer con ella?”
Hay que ser dialécticos, hay que renovar el marxismo constantemente; el marxismo no puede sonar a una cosa muy vieja llena de polvo. El comunismo debe ser un movimiento teórico-práctico en constante cuestionamiento de sí mismo. Como dijo Mariátegui, “el socialismo latinoamericano no debe ser calco ni copia, sino creación heroica”. El europeo tampoco, añadiríamos nosotros. Hay que superar el eurocentrismo, el dogmatismo, la deshistorización, la pedagogía de la repetición, el sectarismo, la cita mecánica, la extrapolación de experiencias... Para ello, propongo leer a aquellos autores renovadores del marxismo, que practican un marxismo abierto, antidogmático, adaptado al mundo actual, como Nestor Kohan, Carlos Fernández Liria, Luis Alegre Zahonero, Santiago Alba Rico, Slovaj Zizek, Terry Eagleton, Marta Harnecker (que ha sabido evolucionar desde el DIAMAT hacia el marxismo abierto), James Petras, Carlo Frabetti, Iñaki Gil de San Vicente... Podemos diferir en muchas cosas; aprovechar otras; pero, al menos, estaremos creando, estaremos pensando nuestra propia realidad... en lugar de repetir fórmulas del pasado.

Contra el monoazulismo quijotesco y la vanguardia
Sin este enfoque renovador, antidogmático; sin este comunismo del siglo XXI es imposible comprender experiencias como la Revolución Bolivariana de Venezuela o el Movimiento de Liberación Nacional Vasco, sencillamente porque son espacios antiimperialistas que permiten crecer y acumular fuerzas para la lucha por el socialismo; procesos de integración que nos interesa que avancen, aun con sus contradicciones o peculiaridades. De ahí que los sectores más ortodoxos del trotskismo y el estalinismo no comprendan la necesidad de apoyar estos procesos sociales.
El marxismo anquilosado nos lleva al obrerismo monoazulista (calco quijotesco de Marx; enfoque que, en el mundo actual, deviene irreal y que, además, pasa por alto que casi todas las revoluciones socialistas han sido campesinas) y al vanguardismo (calco no menos quijotesco de Lenin, que lleva a las organizaciones comunistas a disputarse la dirección de los movimientos, dinámica que acaba por destruirlos). Debemos, por un lado, participar en los movimientos sociales, no sólo en el movimiento obrero; y, por otro, poner nuestras organizaciones, su capacidad logística y su experiencia organizativa al servicio de las luchas, en lugar de intentar liderarlas.
Por otra parte, ceñirse a un solo autor, dividirnos por matices, puede ser una necesidad en otras circunstancias históricas; pero en una situación de extremo repliegue, de subsunción real en el capital, sólo nos lleva a la ridícula sopa de letras que describimos al inicio de este escrito, situación más propia de los Monty Python que de la realidad misma.

Conclusión
No se trata, en suma, de unirse con quien sea y para lo que sea. Se trata de identificar la verdadera brecha, que no es entre trotskistas y estalinistas, sino entre los que deciden pactar con el sistema y entre quienes deciden (quienes decidimos) romper toda colaboración con el mismo. Se trata, además, de saber identificar cuál es nuestro papel aquí y ahora, lo que supone una superación dialéctica, crítica y creativa del legado teórico de los clásicos del marxismo. Se trata, por último, de renunciar a la jerga, a todo ese caudal de terminología decimonónica que sólo consigue espantar y que jamás podrá encajar en el mundo subjetivo del ciudadano medio. Sólo así, y en el seno del movimiento obrero y de los movimientos sociales, podremos reconstruir unos hábitos de actuación política que dejen de dar la impresión de una disputa extraña, sectaria y marginal; que resulten creíbles para cualquiera, para la gente de a pie. De lo contrario, nos arriesgamos a que el comunismo se convierta en algo parecido a lo que el Macbeth de William Shakespeare afirmaba acerca de la vida: “it is a tale, told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”.
Rebelión ha publicado este artículo a petición expresa del autor, respetando su libertad para publicarlo en otras fuentes.

sábado, 11 de março de 2017

«O “Holodomor” e o filme “Bitter Harvest” são mentiras fascistas»



Com a subida ao poder de fascistas e anticomunistas na Ucrânia, regressaram velhas mentiras históricas. Como a do alegado genocídio de ucranianos por fome alegadamente imposta pelos “estalinistas” em 1932-33: o alegado “Holodomor” retratado no filme “Bitter Harvest” (Colheita Amarga) a circular brevemente em Portugal.
   
Mentiras apoiadas pelos serviços secretos imperiais. Para branquear, saudar e legitimar o poder pró-imperial extremamente reaccionário, imposto na Ucrânia para servir os interesses do grande capital. E também para alimentar a campanha contra Estaline e o socialismo soviético.
   
Esta campanha chegou a Portugal. Em 3 de Março, duas semanas depois de a AR ter condenado a ilegalização do PC da Ucrânia, o PSD propôs um voto de “condenação pelo Holodomor”. O PS – que não gosta de deixar créditos direitistas em mãos alheias, ainda que escondidos por detrás de belas palavras como “homenagem” e “vítimas” – também propôs um voto de «homenagem às vítimas da grande fome na Ucrânia». Ambos os votos foram aprovados. O do PSD, com o apoio do CDS, PAN e um deputado do PS, a abstenção do PS e votos contra do PCP, BE, PEV e três deputados do PS. O do PS, com os votos do CDS, PAN e BE, a abstenção do PSD e votos contra do PCP e PEV. Note-se (mais uma vez!) o alinhamento do BE com o PS.
   
O PCP desmascarou, em certa medida, a «exumação do cadáver de uma campanha lançada há vários anos pela extrema-direita ucraniana». É uma campanha que desde a Guerra Fria tem sido desmascarada. É claro que muitos cidadãos honestos não têm conhecimento disso. No PSD, PS, etc., também há os desconhecedores; mas, mais do que isso, abundam os desonestos lambe-botas do grande capital e do império.
  
Para os cidadãos desconhecedores mas honestos aqui deixamos ficar a tradução de um excelente artigo de Grover Furr, Professor e especialista em história da URSS da Universidade de Montclair, EUA, publicado na revista Counterpunch em 3 de Março.
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O “Holodomor” e o filme “Bitter Harvest” são mentiras fascistas
   
(Nota do autor: Neste artigo baseio-me em grande medida em evidência citada na investigação de Mark Tauger da Universidade da Virgínia Ocidental. Tauger dedicou a sua vida profissional a estudar as fomes e agricultura russa e soviética. É uma autoridade mundial nestes temas e alvo do desagrado vigoroso dos nacionalistas e anticomunistas ucranianos porque a sua investigação explode as falsidades deles.)
   
O filme nacionalista ucraniano “Bitter Harvest” propaga mentiras inventadas pelos nacionalistas ucranianos. Na sua análise Louis Proyect propaga essas mentiras.
   
Proyect cita o artigo de Jeff Coplon “Em busca do Holocausto Soviético: Uma Fome de Há 55 Anos Atrás Alimenta a Direita” publicado em Village Voice, 1988. Nele, Coplon mostra que os mais destacados peritos ocidentais na versão dominante e anticomunista da história soviética, rejeitaram qualquer noção de uma fome deliberada imposta aos ucranianos. E continuam a rejeitá-la. Proyect omite a menção deste facto.
   
Houve uma fome muito séria na USSR, incluindo na (mas não limitada à) RSS da Ucrânia em 1932-33. Mas nunca existiu qualquer evidência de um “Holodomor” ou “fome deliberada” e não existe nenhuma hoje.
   
A ficção do “Holodomor” foi inventada por ucranianos colaboradores dos nazis, que encontraram depois da guerra portos de abrigo na Europa Ocidental, Canadá e EUA. Uma narrativa inaugural é a de Yuri Tchumatski, Porque Razão Um Holocausto Vale Mais Do Que Outros? publicada na Austrália em 1986 pelos “Veteranos do Exército Insurgente Ucraniano”; este trabalho constitui um ataque alargado aos “Judeus” por serem demasiado pró-comunistas.
   
A apreciação de Proyect perpetua as seguintes falsidades sobre a colectivização soviética da agricultura e sobre a fome de 1932-33:
   
* Que, em geral, os camponeses resistiram à colectivização porque era uma “segunda servidão”.
   
* Que a fome foi causada pela colectivização forçada. Na realidade a fome teve causas ambientais.
   
* Que “Estaline” – a liderança soviética – criou deliberadamente a fome.
   
* Que ela tinha como objectivo destruir o nacionalismo ucraniano.
   
* Que “Estaline” (o governo soviético) pôs um fim à política de “ucranização”, à promoção de uma política de encorajamento da língua e cultura ucranianas.
   
Nenhuma destas alegações é verdadeira. Nenhuma delas é apoiada por evidências. São simplesmente afirmadas pelas fontes nacionalistas ucranianas com o objectivo de justificar ideologicamente a sua aliança com os nazis e a sua participação no Holocausto Judaico, o genocídio dos polacos ucranianos (os massacre 1943-44 na Volínia) e o assassinato de judeus, comunistas, e muitos camponeses ucranianos depois da guerra.
   
O objectivo final é igualar o comunismo ao nazismo (o comunismo foi posto fora da lei na actual “Ucrânia democrática”), a USSR à Alemanha nazi, e Estaline a Hitler.
   
Colectivização da Agricultura – A Realidade
   
A Rússia e a Ucrânia sofreram fomes graves em ciclos de poucos anos durante mais de um milénio. A fome acompanhou a revolução de 1917, tornando-se mais séria em 1918-1920. Outra fome grave, incorrectamente chamada “fome do Volga”, surgiu em 1920-21. Houve fomes em 1924 e de novo em 1928-29, esta última especialmente severa na RSS da Ucrânia. Todas estas fomes tiveram causas ambientais. O método medieval de “campo aberto” da agricultura camponesa tornava impossível uma agricultura eficiente e inevitáveis as fomes.
   
Os líderes soviéticos, entre eles Estaline, decidiram que a única solução seria reorganizar a agricultura na base de grandes herdades como se fossem fábricas, tais como as que existem no Midwest Americano, que foram deliberadamente adoptadas como modelo. Quando os sovkozes  ou “herdades soviéticas” pareceram funcionar bem, a liderança soviética tomou a decisão de colectivizar a agricultura.
   
Contrariamente à propaganda anticomunista, a maioria dos camponeses aceitou a colectivização. A resistência foi modesta; os actos de rebelião aberta foram raros. Em 1932 a agricultura soviética, incluindo a da RSS da Ucrânia, estava largamente colectivizada.
   
Em 1932 a agricultura soviética foi atingida por uma combinação de catástrofes ambientais: seca em algumas áreas; demasiada chuva, noutras; ataques de “ferrugem”-puccinia e de “carvão” (doenças fungais); infestações de insectos e ratos. A erradicação de ervas daninhas foi negligenciada por fraqueza dos camponeses, reduzindo ainda mais a produção.
   
A reacção do governo soviético mudou quando a escala da falência das colheitas se tornou clara no Outono e Inverno de 1932. Acreditando inicialmente que a má gestão e sabotagem eram as principais causas de colheitas pobres, o governo removeu muitos líderes do partido e das herdades colectivas (não há qualquer evidência de que tenha havido “execuções” como a de Mykola no filme).  No início de Fevereiro de 1933, o governo soviético começou a fornecer ajudas massivas de cereais a áreas de fome.
   
O governo soviético também organizou rusgas em herdades camponesas para confiscar excessos de cereais a fim de alimentar as cidades, que não produziam a sua própria alimentação. Fizeram-no também para impedir o açambarcamento; numa fome os cereais poderiam ser revendidos a preços inflacionados. Em condições de fome um mercado livre de cereais não poderia ser permitido, a não ser que se deixassem os pobres morrer à fome como tinha sido a prática no regime dos Czares.
   
O governo soviético organizou departamentos políticos (politotdely) para ajudar os camponeses nos trabalhos agrícolas. Tauger conclui: “O facto de que a colheita de 1933 foi muito maior do que as de 1931-1932 significa que os politotdely por todo o país ajudaram uniformemente as herdades a trabalhar melhor.” (Modernização, 100)
   
A boa colheita de 1933 foi conseguida por uma população consideravelmente menor, já que muitos morreram durante a fome, outros estavam doentes ou fracos, e ainda outros tinham fugido para outras regiões ou para as cidades. Isto reflecte o facto de que a fome não foi causada nem pela colectivização, nem pela interferência do governo, nem ainda por resistência dos camponeses, mas sim por causas ambientais que já não estavam presentes em 1933.
   
A colectivização da agricultura foi uma verdadeira reforma, um marco na mudança revolucionária da agricultura soviética. Ainda houve anos de colheitas pobres; o clima da URSS não se alterou. Mas, graças à colectivização, só houve mais uma fome devastadora na URSS, a de 1946-1947. O mais recente estudioso desta fome, Stephen Wheatcroft, concluiu que a fome foi causada por condições ambientais e pelas devastações da guerra.
   
As Falsas Alegações de Proyect
   
Proyect repete acriticamente a inqualificável versão da história dos fascistas ucranianos cozinhada para benefício próprio.
   
* Não houve nenhuma “máquina estalinista da morte”.
   
* Funcionários dedicados do partido não foram “expurgados e executados”.
   
* “Milhões de ucranianos” não foram “forçados a entrar em herdades estatais e colectivas”. Tauger conclui que a maior parte dos camponeses aceitou as herdades colectivas e trabalhou bem nelas.
   
* Proyect aceita a alegação nacionalista ucraniana de “3 a 5 milhões de mortes prematuras”. Isto é falso.
Alguns nacionalistas ucranianos citam números de 7 a 10 milhões, para igualar ou ultrapassar os seis milhões do Holocausto Judaico (vide o Porque Razão Um Holocausto Vale Mais Do Que Outros? de Tchumatski). O próprio termo “Holodomor” (“holod” = “fome”, “mor” do polaco “mord” = “assassínio”, ucraniano “morduvati” = “assassinar”) foi deliberadamente construído para soar de forma semelhante a “Holocausto”.
O mais recente estudo académico das mortes pela fome avalia-as em 2,6 milhões (Jacques Vallin, France Meslé, Serguei Adamets, and Serhii Pirojkov, “A New Estimate of Ukrainian Population Losses during the Crises of the 1930s and 1940s” [Uma Nova Estimativa das Perdas Populacionais Ucranianas durante as Crises dos anos de 1930 e de 1940] Population Studies 56, 3 (2002): 249-64).
   
* Jeff Coplon não é um “sindicalista canadiano” mas sim um jornalista e escritor de Nova Iorque. O livro do falecido Douglas Tottle, Fraud, Famine and Fascism [Fraude, Fome e Fascismo], uma resposta razoável ao fraudulento livro de Robert Conquest Harvest of Sorrow [Colheita de Dor], foi escrito (tal como o livro de Conquest) antes da torrente de fontes primárias dos antigos arquivos soviéticos tornados públicos desde o fim da URSS em 1991, estando portanto muito desactualizado.
   
* A afirmação de Walter Duranty acerca de “omeletas” e “ovos” não foi feita “em defesa de Estaline” como alega Proyect mas como crítica da política do governo soviético:
Mas — para pôr as coisas nuas e cruas — não se pode fazer uma omeleta sem partir ovos, e os líderes bolcheviques eram tão indiferentes às vítimas que pudessem estar envolvidas na sua acção dirigida para a socialização como qualquer General que durante a Guerra Mundial ordenou um ataque custoso para mostrar aos superiores que ele e a sua divisão possuíam o espírito militar apropriado. De facto, os bolcheviques eram mais indiferentes, porque estavam animados por uma convicção fanática. (The New York Times March 31, 1933)
É evidente que Proyect simplesmente copiou esta falsidade proveniente de alguma fonte nacionalista ucraniana. “Garbage In, Garbage Out” [Entra Lixo e Sai Lixo].
   
* Andrea Graziosi, citado por Proyect, não é um estudioso da agricultura soviética ou da fome de 1932-33, mas um anticomunista ideológico que concorda com qualquer e toda a falsidade anti-soviética. O artigo citado por Proyect provém do Harvard Ukrainian Studies, uma revista vazia de qualquer investigação objectiva, editada e financiada pelos nacionalistas ucranianos.
   
* Proyect menciona “dois decretos secretos” do Politburo soviético de Dezembro de 1932 que claramente não leu. Estes punham um fim à “ucranização” fora da RSS da Ucrânia.  Dentro da RSS da Ucrânia a “ucranização”continuou inalterada. Não foi “terminada” como alega Proyect.
   
* Proyect, relativamente à União Soviética, não cita qualquer evidência de uma “política de destruição física na nação ucraniana, especialmente da sua intelligentsia” porque uma tal política não existiu.
   
O Triunfo do Socialismo
   
A colectivização soviética da agricultura constituiu um dos maiores feitos de reforma social do século XX, se não o maior deles todos, a par da “Revolução Verde”, do “arroz milagroso”, e dos empreendimentos da China e EUA no controlo da água. Se houvesse Prémio Nobel para proezas comunistas, a colectivização soviética seria um forte candidato.
   
A verdade histórica sobre a União Soviética não é só intragável para os colaboradores dos Nazis; ela é-o para os anticomunistas de todas as cores. Muitos que se consideram da Esquerda, tais como os Sociais-Democratas e os Trotskistas, repetem as mentiras dos fascistas confessos e dos escritores abertamente pró-capitalistas. Estudiosos objectivos da história soviética, como Tauger, determinados a dizer a verdade mesmo quando essa verdade é impopular, são demasiado raros e estão frequentemente soterrados pelo coro dos falsificadores anticomunistas.
   
Fontes: Trabalhos de investigação de Mark Tauger, especialmente “Modernization in Soviet Agriculture” [Modernização da Agricultura Soviética] (2006); “Stalin, Soviet Agriculture, and Collectivization” [Estaline, Agricultura Soviética e Colectivização] (2006); e “Soviet Peasants and Collectivization, 1930-39: Resistance and Adaptation.”  [Camponeses Soviéticos e Colectivização, 1930-1939: Resistência e Adaptação] (2005), todos disponíveis na Internet. Outros artigos de Tauger estão disponíveis nesta página: https://www.newcoldwar.org/archive-of-writings-of-professor-mark-tauger-on-the-famine-scourges-of-the-early-years-of-the-soviet-union/
Ver também o Capítulo I do meu livro Blood Lies; The Evidence that Every Accusation against Joseph Stalin and the Soviet Union in Timothy Snyder’s Bloodlands Is False [Mentiras Sangrentas: A Evidência de que Toda a Acusação contra José Estaline e a União Soviética em Terras-Sangrentas de Timothy Snyder É Falsa ] (New York: Red Star Press, 2013), em http://msuweb.montclair.edu/~furrg/research/furr_bloodliesch1.pdf
Sobre a fome de 1946-47 ver Stephen G. Wheatcroft, “The Soviet Famine of 1946–1947, the Weather and Human Agency in Historical Perspective.” [A Fome Soviética de 1946-1947, o Clima e Acção Humana em Perspectiva Histórica] Europe-Asia Studies, 64:6, 987-1005.

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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