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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

 
 

A crise do Sistema Internacional não é uma novidade, ainda que seja recente desde o ponto de vista da longa duração na qual se processam as profundas mudanças sistêmicas. Ela começou na última década do século 20, com o fim da Guerra Fria e o começo de um “mundo regido por regras”. Regras definidas pelo país autodeclarado vitorioso da GF, de uma guerra sem vitória militar, porque não nem houve guerra e apenas ocaso de um dos beligerantes. Hoje, essas regras, impostas unilateral e despoticamente aos países que possam ferir os interesses da hiperpotência, são contestadas pela emergência de potências e foros internacionais que propõem um mundo de cooperação, de isonomia normativa dos países e regido por leis dentro de um sistema internacional de relacionamentos multilaterais isonômico e multipolaridade heterogênea.

Foi a República Popular da China quem começou a disputar o comércio internacional e inserir cautelosamente sua ação diplomática nas esferas de domínio tipicamente hegemonizadas pelos EUA. A emergência da RPC e outras potências concomitantemente ao retraimento do império norte-americano acelerou-se com a pandemia e o redesenho das cadeias de valor internacionais nas crises da primeira década do século 21. Atualmente a RPC domina quase a totalidade das tecnologias críticas e das mais importantes publicações científicas. Desde que a OTAN (plataforma de projeção de força dos Estados Unidos) considerou a Rússia e a RPC como ameaças, Xi Jinping concentrou o direcionamento estatal para a defesa, investindo no desenvolvimento de tecnologia dual aplicável às necessidades bélicas e aproximando o exército do povo. A própria OTAN, ao definir a RPC como ameaça (embora dependesse econômica e tecnologicamente dela), tornou-se uma ameaça para a RPC que, preventivamente, se constituiu numa potência não apenas econômica, científica e tecnológica, mas também militar. 

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Os países europeus, talvez narcotizados pelo Plano Marshall que permitiu a construção do Estado de Bem-estar Social, sucumbiram à prolongada manipulação da percepção por parte dos EUA e deixaram nas mãos da OTAN, comandada pelos EUA, as definições estratégicas da defesa e, portanto, da sua política externa. Empurrados pela necessidade de ampliar o mercado da guerra para escoar a produção do Complexo Industrial Militar norte-americano, foram psicossocialmente induzidos a perceber a Rússia (da qual dependiam, tanto da sua energia fóssil para mover a indústria europeia, quanto de grãos, fertilizantes e insumos agrícolas para sustentar suas sociedades) como uma ameaça existencial. Novamente, guiados pela perturbada percepção para construir ameaças, tornaram-se, eles mesmos, uma ameaça existencial para a Federação da Rússia que, ante o avanço ameaçador da OTAN sobre suas fronteiras, decidiu redesenhar seu Complexo Industrial Militar (CIM) voltando a ser uma grande e inovadora potência militar.

No fatídico 24/02/2022, o presidente Putin aplicou a primeira negativa bélica à liberdade de ação estratégica dos Estados Unidos. Tratou-se do primeiro freio ao ímpeto da OTAN e um claro sinal de que a outrora grande potência já não conseguiria, nem com auxílio da mão de obra europeia, impor seus interesses globalmente. Essa negativa levou à Comissão de Estratégia de Defesa Nacional a uma reflexão sobre a situação real da condição de potência dos Estados Unidos ante a eventualidade de uma Terceira Guerra Mundial. O resultado dessa reflexão legislativa e bipartidária resultou num documento intitulado Commission on the National Defense Strategy. Final Report publicado em 29/06/2024.

Cobertura especial Veja os resultados do 1° turno das Eleições Acompanhe

No documento, essa comissão considera que a próxima guerra é inevitável e que os EUA, nesse momento, não teriam condições claras de uma vitória militar. A autocrítica é aplicada três direções: o CIM obsoleto, a Forma da Força inadequada e a Diplomacia equivocada. Além da revisão desses três conceitos, aconselhava a retirada das tropas distribuídas globalmente e concentrá-las no país para realizar uma profunda reformulação. Imaginavam que poderiam fazer essa reforma naquelas três frentes até 2026, em que podiam entrar em guerra com alguma possibilidade de êxito contra o Eixo do Mal (na verdade um quadrilátero) formado nominalmente pela Rússia, a República Popular da China, Coreia do Norte e o Irã. 

Os primeiros documentos elaborados no segundo mandato de Trump pareciam apontar nessa direção: retirar as tropas distribuídas pelo mundo e tensionar as rédeas estratégicas no continente americano. Recompondo e fortalecendo a hegemonia regional estariam prontos para discutir com as potências emergentes o redesenho do sistema internacional em posição de poder na sua zona de influência. Mostrou sua liberdade de ação estratégia (mais do que liberdade, sua impunidade!) nos mais de 200 assassinatos no Mar do Caribe e no Pacífico, no bombardeamento da Venezuela e no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa em 03 de janeiro de 2026. Todas essas ilegalidades ante o mais profundo e ominoso silêncio da Sociedade Internacional. Embora ilegítimo e ilegal, tanto internacional quanto nacionalmente (tudo foi feito sem o necessário consentimento do Congresso dos Estados Unidos), esses assassinatos e sequestros pareciam indicar que o presidente Donald Trump pretendia, por meio do exercício puro da força, se concentrar no continente em conformidade com a “Doutrina Donroe”. 

Se nos primeiros movimentos estratégicos parecia realmente se concentrar na sua área de interesse, num movimento estrategicamente incompreensível, em 28 de fevereiro de 2026 atacou ilegal e ilegitimamente o Irã, talvez estimulado pelo êxito espúrio na Venezuela, ou enganado por Israel ou ambas as coisas. Ante o que parecia um trabalho fácil, que permitiria aos EUA se apropriar do controle do petróleo do Golfo Pérsico e a projeção de poder de Israel para o Leste, Irã surpreende à aliança agressora e à maioria dos analistas internacionais oferecendo uma defesa organizada sobre a distribuição em redes de 36 Centros de Comando e Controle (CCC) estrategicamente distribuídos por vários pontos do país que, sincronizadamente e com precisão assombrosa, em 15 minutos respondeu acertando as bases americanas na região e se mantendo em combate com absoluto controle estratégico até hoje no que chamaram “defesa em mosaico”. Com o controle do Estreito de Ormuz, colocaram a economia global ao serviço da sua estratégia, com uma eficiência dissuasória maior que a que teria um artefato nuclear hoje banalizado.

Vladimir Putin e Xi Jinping: Rússia e China ampliam sua projeção econômica, política, tecnológica e militar enquanto a hegemonia dos Estados Unidos é contestada e o sistema internacional se reorganiza em novas esferas de poder
Rússia e China ampliam projeção econômica, política, tecnológica e militar enquanto a hegemonia dos EUA é contestada
Wikimedia Commons

Se na Ucrânia a Rússia demarcou os limites de projeção da liberdade estratégica da aliança militar atlântica, Irã deixou a descoberto as vulnerabilidades do império para impor seus interesses ao mundo. Esses dois aspectos, somados ao desamparo e desconcerto europeu, apontam um sistema internacional que se aproxima de um redesenho político e institucional discutido pelas grandes (velhas e novas) potências e suas áreas de influência.

América Latina parece organizada militarmente para defender os interesses estadunidenses em torno do Escudo das Américas. Trata-se do compromisso de 12 líderes latino-americanos ultradireitistas, submissamente alinhados estrategicamente ao império, que foram convocados pelo autócrata Trump ao seu hotel na Flórida para assumir de forma inconteste a defesa dos interesses personalíssimos do déspota. Na verdade, comprometeram a carne, o sangue e o derrame orçamentário das suas sociedades como funcionalidades para uma eventual guerra por procuração do império sobre as soberanias resistentes. Todavia, esse escudo tem importantes fissuras. Em quase todos esses países que que participam, a pressão social está crescendo ante o efeito devastador das pautas neoliberais de inflação, desindustrialização e desemprego a que seus governos submetem suas sociedades nesta etapa tristemente histórica das economias nacionais. 

Recentemente houve um exercício militar na selva do Peru empregando tropas dos EUA, Peru, Chile e da Argentina próximo da fronteira com o Brasil. Todos eles comprometidos com a “guerra ao narcoterrorismo” e com o emprego das suas Forças Armadas no esforço dessa “guerra” que qualificou grupos do crime organizado brasileiros como “narcoterroristas”. O governo de Lula no Brasil, recusa essa arbitrária qualificação, que permitira a ingerência externa armada direta no seu território no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) tildados pela caneta do déspota como organizações terroristas estrangeiras.  

Neste momento, o primeiro turno das eleições brasileiras apontou para um segundo turno entre o ultradireitista Flávio Bolsonaro e Lula de centro-esquerda. Como resultado do primeiro turno, tanto em deputados quanto em senadores a ultradireita foi a grande vencedora, colocando ao seu alcance o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Se no segundo turno Flávio Bolsonaro, que saiu na dianteira no primeiro, conseguir se eleger, gozará da prerrogativa para indicar até quatro ministros para o STF que esse Congresso confirmaria. Também prometeu que se ganhasse no segundo turno, com o controle das duas câmeras do Congresso mudaria a Constituição Nacional de 1988, o que permitiria encaixar nela os atos discricionários que sejam necessários para assegurar a realização da sua pura vontade, o que, com os antecedentes do candidato, como de ter condecorado milicianos, podemos imaginar o que pode resultar. 

O sombrio quadro atual que se apresenta para o país não se deterá nas suas fronteiras, mas poderá alastrar sua pestilência pelo continente fornecendo ao déspota do norte o que precisa para exercer um poder global. Com efeito, se os piores presságios se concretizassem, o perigo iminente é continental com projeção global. Nesse nefasto quadro, a ultradireita brasileira controlará o Executivo, o Legislativo e o Judiciário nacionais e, com isso, estaria configurada a cabeça da serpente: o IV Reich, desta vez ironicamente norte-americano. Sabidos da voracidade e violência impiedosa dessa serpente, podemos imaginar o alcance destrutivo da mesma. Tempos tenebrosos se avizinham para este conturbado mundo ante a cegueira embrutecedora de sociedades ciberneticamente narcotizadas.

​(*) Héctor Luis Saint-Pierre é professor da Unesp, coordenador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e ex-diretor da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). É autor de “Max Weber: entre a paixão e a razão” (Editora Unicamp) e “A política armada: fundamentos da guerra revolucionária” (Editora Unesp).

Notas:

[1] https://www.armed-services.senate.gov/imo/media/doc/nds_commission_final_report.pdf

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 

Físico português explica Nobel da Física: as “partículas-fantasma” que permitem observar o lado invisível do Universo

Quase sem massa e sem carga elétrica, os neutrinos atravessam a matéria praticamente sem deixar rasto. Francis Halzen percebeu que o gelo da Antártida podia ser usado para os detetar, criando uma nova forma de observar os fenómenos mais violentos do Universo.

NEUTRINO: The nearly massless, ghostly particle; RARE INTERACTION: Neutrino capturing an atomic nucleus

A atribuição do Prémio Nobel da Física de 2026 a Francis Halzen coloca os neutrinos no centro da investigação sobre alguns dos fenómenos mais extremos do Universo. Para José Maneira, professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), o reconhecimento distingue décadas de trabalho que abriram uma nova forma de observar o cosmos.

“É um justíssimo reconhecimento de um empenho de décadas que se provou ter dado de facto frutos”, afirma José Maneira ao 24notícias, que acompanha há mais de duas décadas a investigação na área dos neutrinos e participou em experiências internacionais como SNO e SNO+ e DUNE.

Para o investigador, a importância da descoberta vai muito além da deteção de uma nova classe de partículas provenientes do espaço. “A observação de neutrinos de origem astrofísica é uma nova janela sobre o Universo”, explica, acrescentando que estas partículas permitem observar “fenómenos extremos, de muito alta energia” que estão ligados a alguns dos ambientes mais violentos do cosmos.

Uma nova forma de observar o Universo

Os neutrinos de alta energia são produzidos em processos físicos diferentes daqueles que dão origem à luz visível. A sua presença pode, por isso, revelar mecanismos que permanecem inacessíveis através da observação convencional do céu.

“É preciso que haja aceleração de partículas carregadas como protões ou núcleos, que depois irão colidir com o meio interestelar”, diz José Maneira, salientando que “os neutrinos são subprodutos dessas colisões e, portanto, a sua observação indica-nos que tem de haver mecanismos capazes de produzir acelerações muito elevadas.”

A escala dessas energias é particularmente relevante. De acordo com o investigador, os processos responsáveis pela produção destes neutrinos atingem níveis “várias ordens de grandeza acima dos aceleradores mais potentes da Terra”.

É precisamente essa característica que torna os neutrinos uma ferramenta científica única. “Apenas com luz visível não podemos aceder a isso”, sublinha.

A astronomia de neutrinos permite, assim, complementar aquilo que é observado através dos telescópios convencionais. Em vez de “depender apenas da radiação eletromagnética emitida por um objeto”, os cientistas podem “procurar partículas que foram produzidas diretamente nos processos físicos que pretendem estudar”.

Neutrinos dão pistas sobre os buracos negros

Um dos campos em que esta nova abordagem poderá ser particularmente importante é o estudo dos núcleos galácticos ativos, regiões extremamente energéticas no centro de algumas galáxias onde existem buracos negros supermassivos.

Há décadas que os cientistas procuram compreender como estes objetos atraem matéria e como esse processo pode produzir jatos de partículas com energias extraordinariamente elevadas. Observações em diferentes comprimentos de onda já tinham fornecido fortes indícios sobre o funcionamento destes sistemas.

Mas os neutrinos podem oferecer algo mais. “Podem fazer a diferença entre ter indicações indiretas ou provas sobre o funcionamento desses fenómenos extremos”, afirma José Maneira.

O investigador explica que as observações feitas no visível, em raios X ou em raios gama apontavam para determinados mecanismos associados aos buracos negros. “A observação de neutrinos de muito mais alta energia acaba por ser uma prova muito mais direta do fenómeno, até pela escala de energias envolvida”, acrescenta.

Esta é uma das principais razões pelas quais a astronomia de neutrinos representa uma mudança na forma de estudar o Universo: as partículas podem transportar informação diretamente dos processos que lhes deram origem.

As “partículas fantasma” ainda escondem segredos

Apesar dos avanços registados nas últimas décadas, os neutrinos continuam a colocar questões fundamentais à Física de Partículas.

Durante muito tempo, o Modelo Padrão assumiu que os neutrinos tinham massa nula. Hoje sabe-se que isso não corresponde à realidade. “Hoje sabemos que isso não é verdade, têm uma massa pequena mas não é zero”, salienta José Maneira.

Também se sabe que existem três famílias de neutrinos e que estas partículas podem transformar-se umas nas outras. Esse fenómeno, conhecido como oscilação dos neutrinos, demonstrou que existe uma diferença entre os três tipos e esteve na base do Prémio Nobel da Física de 2015.

Mas permanecem duas grandes incógnitas. “Falta saber se os neutrinos e as suas antipartículas, os antineutrinos, se comportam exatamente da mesma maneira ou não, e também o valor absoluto da massa”, afirma o investigador.

As respostas podem ter consequências que ultrapassam a Física de Partículas e ajudam a explicar a própria evolução do Universo.

“Ambas as questões são muito relevantes para a Astrofísica e a Cosmologia”, sublinha.

O mistério da matéria e da antimatéria

Uma das perguntas mais profundas está relacionada com a enorme diferença entre a quantidade de matéria e de antimatéria existente no Universo.

A Física prevê que matéria e antimatéria deveriam ter sido produzidas em condições semelhantes no Universo primordial. No entanto, o Universo atual é dominado pela matéria. Perceber se os neutrinos e os antineutrinos apresentam comportamentos diferentes poderá ajudar a explicar como surgiu esse desequilíbrio.

“Será que os neutrinos e antineutrinos têm as mesmas propriedades?”, questiona José Maneira.

Para o investigador, a resposta pode ser fundamental: “A resposta a esta pergunta pode estar relacionada com a origem da grande diferença que existe hoje no Universo entre o número de partículas, muito grande, e antipartículas, muito pequeno.”.

A outra grande questão continua a ser a massa dos neutrinos. As experiências de oscilação permitiram determinar diferenças entre as massas dos três tipos, mas não o seu valor absoluto.

“Com a descoberta das oscilações de neutrinos, sabemos quais as diferenças de massa entre os três tipos, mas não o valor absoluto”, refere.

Portugal também está na investigação de neutrinos

O Nobel atribuído a Francis Halzen surge também num momento em que Portugal mantém uma comunidade científica ativa na área dos neutrinos.

“Portugal tem uma comunidade científica ativa envolvida na investigação de neutrinos desde há cerca de 20 anos”, afirma José Maneira.

Os investigadores portugueses não participam no IceCube, mas estão envolvidos nas experiências SNO+ e DUNE e participaram anteriormente na experiência SNO, que teve um papel importante na investigação das propriedades dos neutrinos.

O percurso da experiência SNO está, aliás, ligado ao Nobel da Física de 2015. Art McDonald, líder científico do projeto, recebeu nesse ano o prémio juntamente com Takaaki Kajita pelo trabalho que demonstrou as oscilações dos neutrinos e, consequentemente, que estas partículas têm massa.

“A participação portuguesa é pequena mas relevante”, considera José Maneira.

Os investigadores nacionais participam tanto na construção dos detetores como na análise dos dados e assumem também responsabilidades na coordenação dos projetos.

Esta participação permite a Portugal integrar algumas das experiências mais avançadas da Física contemporânea. “A ciência de topo é cada vez mais feita de forma colaborativa global”, afirma o investigador.

“E para estarmos nesse ‘campeonato’, temos de participar nas colaborações”, acrescenta.

Além da investigação produzida, estas experiências têm uma dimensão importante na formação científica. “Isso permite aos nossos estudantes o contacto com meios científicos altamente estimulantes, e põe Portugal no mapa da Física atual”, sublinha.

DUNE prepara próxima geração de experiências

O Nobel não encerra uma etapa da investigação. Pelo contrário, os próximos anos deverão ser marcados por experiências capazes de observar fenómenos ainda mais raros e medir as propriedades dos neutrinos com uma precisão muito superior.

“Do ponto de vista tecnológico, o desafio é a observação de eventos cada vez mais raros”, explica José Maneira.

Isso exige fontes de partículas mais intensas, grandes quantidades de material radioativo para estudar determinados decaimentos e detetores maiores e mais sofisticados.

Entre os projetos mais importantes está o DUNE, que utiliza grandes detetores criogénicos baseados em árgon líquido. A tecnologia permitirá observar as interações dos neutrinos com um nível de detalhe muito superior.

“São detetores cada vez maiores e com melhores capacidades de ‘fotografar’ as interações”, explica o investigador.

O projeto está associado ao novo acelerador LBNF, em construção nos Estados Unidos, que permitirá produzir feixes intensos de neutrinos para estudar o comportamento destas partículas.

A combinação entre aceleradores mais potentes, detetores mais sensíveis e grandes colaborações internacionais deverá permitir testar algumas das hipóteses mais fundamentais da Física.

O objetivo final é responder a perguntas que vão muito além dos próprios neutrinos: perceber por que razão existe matéria em vez de antimatéria, determinar a massa destas partículas e compreender melhor os processos responsáveis pelos fenómenos mais energéticos do Universo.

O reconhecimento de Francis Halzen coloca, assim, a física de neutrinos no centro de uma transformação na forma como o cosmos é observado. Se a luz permitiu durante séculos estudar o Universo através da radiação que chega aos telescópios, os neutrinos oferecem agora uma nova via para chegar diretamente a alguns dos seus acontecimentos mais violentos e misteriosos.

 O 7 de Outubro não mudou Israel,
acelerou o caminho da radicalização
A destruição da Palestina é um plano antigo. Há três
anos que Gaza nos mostra o que ouvimos em NAZA
Publico – 07/10/2026

Alexandra Lucas Coelho Escritora e jornalista


1. Há dias, na TV israelita, o colono e ministro da
Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, apresentou a sua
solução para o problema dos nativos. No meio da
gritaria habitual, um dos apresentadores estava a falar
de como será difícil tirá-los de Israel.
APRESENTADOR (apopléctico) — Porque haveria alguém
de os receber?
BEN-GVIR — Por dinheiro!! Em troca de dinheiro!
Ao lado, a esposa colona fazia que sim com o turbante.
APRESENTADOR — Por dinheiro?! BEN-GVIR — Sim. Vai
custar-nos muito. Mas ao mesmo tempo poupamos no
orçamento da Defesa.
APRESENTADOR — Mas vão dizer que estamos a vender os
palestinianos!
E os esposos Ben-Gvir reviravam olhos, cabeças.
A última vez que eu os tinha visto foi quando ela preparou
para ele um bolo de aniversário decorado com uma forca.

Estão sempre estupendos no papel em que a Europa os tenta
conter, como se não representassem parte significativa de
Israel e sim uma excrescência. Hérnias diabólicas, digamos.
Tal qual Smotrich, outro ministro colono. Ou o diabo-mor,
claro, Satanyahu. Mas ao ver esta cena na TV lembrei-me do
Acordo de Associação UE-Israel, que desde 2000 tem sido um
tapete vermelho para Telavive, apesar de o Artigo 2.º exigir
respeito pelos direitos humanos. A UE consolidou-se como a
maior parceira comercial de
Israel. Um terço do que Israel importa vem da UE: imagine-se
o impacto de cortar esse terço.
Os dados do Eurostat, porém, mostram que o bolo não abateu
desde 2023, até foi arrebitando. Somei o total de importações
e exportações dos três últimos anos completos, deu 127,5 mil
milhões de euros, com um balanço muito favorável à Europa,
que vende quase o dobro a Israel do que lhe compra. A esses
127,5 mil milhões haveria que somar ainda comércio de
serviços, ou contratos de empresas israelitas com capitais
fora. O número real será bem mais alto.
Mesmo assim, só pelos dados que temos, a UE lucrou dezenas
de milhares de milhões de euros. É aquela entidade que não
consegue boicotar sequer os colonatos, quanto mais o Estado
colonial. Mesmo admitindo que Israel viola o Artigo 2.º.
Porque há sempre um Merz, uma Meloni para boicotar o
boicote.
E estará isto longe do que é vender um povo?
No caso de Ben-Gvir, na verdade, seria uma compra de
serviços, ou um suborno. No caso da UE, trata-se de vender a
licença para uma terra que não lhe pertence, prosseguindo o
que a Europa começou a roubar aos palestinianos há mais de
cem anos (e os ingleses, no passado protagonistas, prosseguem
também o comércio).

A UE exporta à cabeça maquinaria numa variada lista que de
2023 para cá incluiu cada vez mais armas, bombas, munições.
Mas o que dizia cada item, fosse qual fosse, era que Israel
podia continuar a explodir humanos em Gaza, e a ver cães
famintos a devorá-los.
Assim, durante o primeiro extermínio em directo da história,
o que a Europa dos direitos humanos faz é não só permiti-lo,
como ganhar muito dinheiro com isso.
Ben-Gvir é seu filho.
2. Como Satanyahu é o fruto, não a raiz. Não a raiz do mal,
nem o diabo-mor, mas um fruto alfa da árvore sionista, nativa
da Europa. O fruto que mais se tornou fardo, e tem dado cabo
da coluna a quem o gerou. A Europa já não tem posição em
pé ou sentada, não sabe mais como se contorcer. Todos os dias
reza para que Netanyahu perca nas eleições de 27 de Outubro,
e tudo volte ao que era. Telavive, startups, inteligência
artificial (IA), a fábula Dois Estados. E faz de conta que existe
oposição a sério em Israel (além de um punhado ameaçado,
em perigo), porque Israel é a ficção de democracia que ela
mesma criou.
Mas os esqueletos das 800 aldeias de 1948 foram levados para
a rua desde 7 de Outubro, não voltam ao armário. Os
esqueletos dos etnicamente limpos para que o Estado de Israel
pudesse existir. Os esqueletos dos refugiados fora da Palestina
desde então.
Os esqueletos dos 75 mil mortos em Gaza, mais os soterrados.
As pernas e braços que faltam, mais a parte do cérebro que
não se cura. Os esqueletos da Cisjordânia incendiada por
colonos agora.
Os 10 mil reféns torturados nas cadeias de Israel. A clareza de
que o anti-sionista não é racista, ao contrário: o sionista é

racista, como o anti-semita é racista. Nada disso voltará ao
armário. Nem o que foi vindo a lume sobre o 7 de Outubro.
Nas vésperas do 7 de Outubro, o emir dos Emirados avisou
Netanyahu de um ataque iminente. O chefe das secretas do
Egipto aterrou por 67 minutos em Israel e avisou Netanyahu
de que Gaza lhe ia explodir na cara. Tudo isto foi confirmado
nas últimas semanas.
Netanyahu terá recebido dezenas de avisos, incluindo do
Hamas. E deixou correr. Sacrificou o próprio povo. Os jovens
da rave, os velhos nos kibbutzim. Ao todo, 1200 israelitas, dos
quais 900 civis, uma parte dos quais mortos por Israel mesmo,
via directiva Hannibal. Todos os outros pelos militantes
liderados pelo Hamas, muitas vezes com enorme sofrimento.
E nesse dia mesmo, Gaza começou a ser destruída por Israel,
desfecho de um plano muito antigo. Escrevi sobre essa
destruição em dezenas de textos aqui, remeto para eles.
Guardo o último espaço para NAZA.
3. Yuval Abraham e Rachel Szor são israelitas não sionistas de
30 anos. Já tinham feito No Other Land (com os palestinianos
Basel Adra e Hamdan Ballal). Yuval já tinha publicado textos
na +972, no Local Call e no Guardian, incluindo a
investigação do filme. NAZA é o que tinham de fazer sendo
quem são. Antes de mais para os israelitas, depois para quem
lá fora não deu atenção bastante (ou nenhuma) ao que os
palestinianos mostraram durante três anos. Quem deu está
familiarizado com o que aqueles 24 israelitas anónimos
contam. Desde os snipers a abaterem palestinianos sempre
desarmados até à IA do Lavender, e outros sistemas, que
permitiram arrasar um território com “danos colaterais” na
ordem das centenas para um suspeito do Hamas.
Quem acompanhou estes três anos tem nessas vozes mais
detalhe do que novidade. Mas os detalhes importam. E
importa muito que tudo alcance mais gente. Importa, num
tempo de cobardes, que Yuval e Rachel tenham tido a

coragem de fazer este filme: a vida deles, e dos seus próximos,
pode ficar em risco para sempre, o que também é um sintoma
da patologia de Israel. Importa que tenha estreado tão rápido,
incluindo em Portugal, quando já se multiplicavam ameaças.
Mas NAZA não é só isso. Talvez o que me tenha
impressionado mais seja como aquela paisagem nocturna fica
tatuada para sempre com o extermínio. Yuval é um
entrevistador exímio, Rachel filma a cidade de forma
assombrosa. Som sobreposto na imagem, tive a sensação de
ver o desmantelamento de Telavive. Aquela cidade de
arranha-céus, carros, casas caríssimas, toda aquela
supremacia racista, mantendo cativos, invisíveis, milhões de
palestinianos, essa cidade nunca mais será a mesma depois de
NAZA. As vozes e cabeças distorcidas dos carrascos gravam o
número da Shoah na pele de Telavive. Li críticas a NAZA de
quem não aceita o filme por ouvir os carrascos e não apontar
ao desmantelamento do Estado. Eu vejo esse
desmantelamento. Aquelas cabeças digitalmente encapuçadas,
aquelas criaturas lançam uma maldição sobre a paisagem.
Foram desumanas quando mataram? Não. Eram humanas,
como Eichmann. Já não serão humanas é ali, naquela
metamorfose digital, como se elas próprias se tivessem
dissolvido na tecnologia que usaram.
Os carrascos estão já condenados a ser aquilo. E não é
shooting and crying, ninguém chora ali, vários não estão
arrependidos, são frios. São a voz da doença, ou da mutação
irreversível.
NAZA importa. Mas é chocante ver relatos de quem sai deste
filme como se os palestinianos nunca tivessem mostrado o que
aqui se ouve. Mais uma vez como se não existissem. Como se
só agora houvesse condições para ver que foi um genocídio.
Os palestinianos estão a ser destruídos agora. Então, quem
não viu antes, vá directo ao essencial: salvar as vidas, punir os
responsáveis, indemnizar a Palestina, recusar a existência de
Israel como um Estado etnoteocrático desde a fundação. Este

estranho fruto nosso, a velha Europa colonial, racista, ontem
anti-semita, hoje anti-islâmica-indostânica, capaz de comprar
e vender a quem extermina.
Isso também será cortar com ela.
A Europa já não tem posição em pé ou sentada, não sabe mais
como se contorcer

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

 

Fascistas estão se beneficiando da crise mundial

Tradução
Gercyane Oliveira
Jacobina 

Uma série de crises abalou o triunfalismo liberal das últimas décadas e produziu novas forças antidemocráticas. O historiador Geoff Eley explica à Jacobin porquê ainda faz sentido falar de "fascismo" - e por que as novas formas de reacionarismo não são apenas um retorno ao passado.

A ascensão dos movimentos de extrema direita desde os Estados Unidos até o Brasil e a Índia tem frequentemente provocado discussões sobre um “novo fascismo”. A vitória eleitoral da Itália em 25 de setembro para Giorgia Meloni, líder de um partido com raízes no fascismo tradicional, polarizou ainda mais as análises entre aqueles que se concentram em comparação com o passado e aqueles que enfatizam sua tonalidade conservadora. Mas as crises de hoje também estão produzindo novas formas de políticas reacionárias que não se parecem com as de 100 anos atrás.

Geoff Eley tem escrito extensivamente sobre a história da esquerda e a história da direita. Atualmente ele está escrevendo uma história geral da Europa no século XX e um novo estudo da direita alemã, Genealogias do nazismo: conservadores, nacionalistas radicais e fascistas na Alemanha, 1860-1945.

Nesta entrevista para a Jacobin, Eley explica como os estudos do fascismo mudaram nas últimas décadas para abordar a ascensão de movimentos antidemocráticos e autoritários em todo o mundo. Eley esclarece que “fascismo” é um conceito versátil que tem múltiplas origens e formas variadas que os estudiosos precisam contextualizar e interpretar como parte de uma estratégia para o antifascismo. Também discute o futuro da esquerda com a ascensão da globalização neoliberal e destruição do meio ambiente no século XXI.


AC

Como os estudos sobre o fascismo mudaram ao longo de sua carreira? Houve fenômenos políticos específicos que estimularam novas abordagens do assunto para você?

GE

Além de alguns poucos marxistas dispersos, os estudos sobre o fascismo durante meus anos como estudante (1967-1974) foram moldados pelas ciências sociais e não pelos historiadores, que em sua maioria eram indiferentes, se não diretamente hostis, ao conceito.

Na época, eram comuns dois volumes de conferência de 1968 editados por Stuart Woolf, intitulados Fascismo Europeu e A Natureza do Fascismo: sendo o primeiro contendo capítulos sobre cada país pelos historiadores nacionais, cada um com uma narrativa empírica útil, mas completamente ignorada, o segundo reunia cientistas políticos e sociólogos que desenvolviam tipologias de governo e desenvolvimento político comparativo, baseadas em teorias do totalitarismo e da sociedade civil.

Alguns historiadores intelectuais, como George Mosse, escreveram sobre o fascismo como um desvio “anti-modernista” das normas do “Ocidente”. Uma exceção interessante foi a obra Three Faces of Fascism de Ernst Nolte, de 1963, cujo impacto transcendeu o conservadorismo obscurantista de seu autor. Ao levar a sério as ideias fascistas e tratá-las comparativamente (não apenas na Itália e Alemanha, mas também na França), o livro despertou muito interesse de todo o espectro político.

De modo geral, foi aqui que os estudos permaneceram por muito tempo: por um lado, acumulando bolsas de estudos de monografia nas historiografias nacionais sobre movimentos fascistas particulares, sem muita teorização; por outro lado, sociologias e tipologias institucionais de desenvolvimento político comparativo explicando porque a Itália fascista e a Alemanha nazista eram diferentes do “Ocidente”.

“Ao longo dos anos, os fascistas têm sido muito hábeis em apropriar-se, redirecionar e rearticular ideias, imagens e técnicas de outros lugares, inclusive de seus oponentes diretos e inimigos mais duros.”

Durante a década de 1970, uma série de grandes antologias juntou tudo isso. O maior e melhor foi um enorme volume de conferências chamado Who Were the Fascists, que colocou os cientistas sociais historicamente preocupados em conversar com as melhores pesquisas históricas em uma escala pan-europeia. Durante este período, poucos historiadores levaram a ideologia fascista muito a sério.

Meu interesse foi muito simples: eu cresci no período pós-guerra mundial e queria compreender de onde tinha vindo o nazismo. Como poderia ter tido sucesso em uma República democrática de Weimar, com uma das esquerdas mais fortes da Europa? Por outro lado, por que a esquerda falhou? Que tipo de crise abriu o caminho para o fascismo, e como essa crise foi produzida?

Após meu primeiro livro, Reshaping the German Right, que estudou “condições de possibilidade para o fascismo” entre os anos 1890 e 1920, decidi organizar um artigo de 1983 sobre o assunto, “What Produces Fascism” (O que produz o fascismo): Tradições pré-industriais ou uma crise do Estado capitalista”. Encontrei a melhor ajuda para isto nos Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci, Fascismo e Ditadura de Nicos Poulantzas, os debates marxistas dos anos 1920 e 1930 (Bauer, Trotsky, Thalheimer, Togliatti), e sobretudo a Política e Ideologia de Ernesto Laclau na Teoria Marxista, publicada em 1977.

As coisas permaneceram, pois meu principal interesse migrou para um terreno teórico mais amplo – questões de ideologia e subjetividade, a utilidade do conceito de esfera pública, problemas de nacionalismo e tudo o que agora chamamos de “giro cultural”.

No mundo acadêmico em geral, o interesse pelo fascismo foi renovado, iniciado pela Nature of Fascism de Roger Griffin. Mas a principal tendência agora é para a história cultural e intelectual, com ênfase nas artes, na estética e no espetáculo, junto com a sexualidade, a cultura popular e a vida cotidiana, com estudiosos da literatura e do cinema marcando o ritmo, em uma chama lenta que acabou despertando também a atenção dos historiadores.

Com isso, fui me guiando pelos meus próprios interesses, o que me ajudou a pensar mais sobre questões de ideologia e subjetividade fascista. Foi um pouco mais tarde, no início dos anos 2000, que fiz do fascismo, por assim dizer, minha prioridade novamente.

Em parte, terminei meu histórico da esquerda europeia, o Forging Democracy, e depois do 11 de setembro, comecei a sentir uma nova urgência política que só foi intensificada pelo crescimento constante de uma direita xenófoba contra imigrantes. Os debates sobre “estados de exceção” concentraram ainda mais minhas preocupações, especialmente em torno dos acontecimentos de Guantánamo, do furacão Katrina e das fronteiras do sudoeste.

Comecei a pensar sobre as novas condições de possibilidade para o fascismo hoje. Então, alguns meses antes do Katrina, um amigo sugeriu que a melhor contribuição de um historiador alemão nestes dias seria alguma orientação sobre como pensar o fascismo contemporâneo. Depois do Katrina, com uma atualização de meu artigo de 1983 como resultado inicial (cuja primeira apresentação foi uma palestra em 2009), comecei a trabalhar.

Meu livro de 2013, Nazismo como Fascismo, foi a continuação. Com Donald Trump, as consequências da eleição de 2016, a presidência seguinte e os acontecimentos de janeiro de 2021, a urgência de alcançar uma clareza sobre o passado e o presente dos significados do fascismo se tornou cada vez mais forte. Por isso, publiquei outro ensaio, concluído em setembro de 2020, para ajudar nessa tarefa.

AC

Em seus escritos, você tem argumentado que os acadêmicos devem interpretar o fascismo como um conceito portátil que tem múltiplas origens e formas variadas. Você poderia descrever as principais características do fascismo que aparecem em todos os contextos históricos?

GE

Temos que isolar o que distingue o fascismo como um tipo de política de outras formas de ação e crença de direita. Os fascistas são muito mais extremos em todos os sentidos. Mas há também uma ruptura qualitativa com os conservadores que aceitam a necessidade de operar na estrutura do constitucionalismo liberal ou da democracia constitucional, seja por princípio ou para vários tipos de pragmatismo.

No cerne dessa ruptura – uma ruptura da civilidade – está a virada para a violência política. Em vez de debater honestamente os problemas no discurso, por protocolos de comportamento combinados, os fascistas querem reprimir, prejudicar fisicamente e até matar seus oponentes.

Em segundo lugar, os fascistas preferem – sem dúvida, com veemência – um Estado autoritário à democracia. Terceiro, eles mobilizam uma ideia agressivamente excludente da nação contra um pluralismo que reconhece e até prioriza a diferença. Podemos elaborar ainda mais estes critérios. Misoginia, sexualidade agressiva e uma masculinidade abusiva e blindada são um campo fértil para atitudes e práticas. Marcha, uniformes, porte de armas, coletivismo beligerante, e uma estética de espetáculo seria outra.

No entanto, na minha observação, estes elementos são primários — o tipo de extrema-direita radical que idealiza a violência política, exerce o autoritarismo contra a democracia jurídica, e faz propaganda do patriotismo e do nacionalismo radical. Eles compõem o diferencial mais importante. Trazem consigo diferentes cenários de tempo e lugar — portanto, não apenas no início do século XX na Europa, mas também em nossa própria conjuntura contemporânea.

A pergunta então se torna: que tipo de crise chama esse tipo de política para a agenda? Quando as pessoas começam a achar isso atraente, particularmente o recurso à violência política? O que as faz ver isso como necessário? Que tipo de crise produz fascismo? Há características comuns, mais uma vez, que se repetem estruturalmente ao longo de diferentes épocas.

Neste caso, meu enfoque preferido continua sendo muito “Poulantziano”: o fascismo pode florescer sob a impressão de uma crise dupla especialmente extrema. Primeiro, os arranjos políticos estabelecidos não permitem mais a realização de governo estável e eficaz; segundo, esses arranjos de governo funcionam tão mal que perdem o apoio popular. Quando essas crises paralelas acontecem juntas — crise de representação, crise de aprovação; paralisia governamental, impasse democrático — são criados estados de exceção onde uma política especificamente fascista pode começar a ganhar força.

AC

Você também sugeriu que o fascismo do tipo clássico dos anos 1920 e 1930 não aparece devido às crises estruturais no mundo atual. Dentro desses contextos, quais são os caminhos para a esquerda combater, contestar ou resistir ao fascismo hoje?

GE

Se estou certo neste ponto, então a frente política mais ampla possível de defesa democrática tem que ser essencial. Isso significa que a maior frente ampla possível de coalizão dentro e através de uma gama desconcertante de agências progressistas multivariadas atualmente ativas atrás de agendas deixadas de um ou de outro tipo – desde as organizações progressistas dentro do próprio Partido Democrata e outros partidos progressistas, movimentos e organizações em geral, através dos meios de comunicação da esquerda, e grupos de lobby.

Isso também exige a proliferação de iniciativas de defesa do voto e aparentemente uma sempre crescente de grupos de campanha de uma só questão, incluindo a multitudinária feminista, direitos reprodutivos, LGBTQ, saúde pública, ambientalista, relacionada à pobreza, liberdades civis, anti-ódio, direitos humanos, sindicatos, e outros movimentos. Portanto, é preciso construir uma conversa urgente através destas mobilizações geralmente discretamente montadas. Somente então o establishment democrata poderá ser movido de forma mais decisiva na direção necessária.

Isso exigirá: (a) uma intensa e paciente aliança de base do tipo raramente praticada em todo o setor político progressista e incorrigivelmente fragmentado deste país; (b) sustentada pela pressão popular afetada tão dramaticamente pela Black Lives Matter, porque a “sala do comitê” nunca será movida para a ação necessária sem as “ruas”; e (c) realmente nomear o perigo do fascismo pelo que é.

Quando isso for feito será uma questão estratégica complicada, porque para ser usada com responsabilidade, essa linguagem específica de “fascismo” e “antifascismo” precisa de real clareza de significado do tipo que tenho sugerido anteriormente.

AC

Você argumentou que Donald Trump pode ser antidemocrático e autoritário, mas carece de uma ideologia coerente que é um aspecto crucial do fascismo. Como devemos interpretar uma figura como Narendra Modi neste contexto, dado que ele adere à ideologia de Hindutva. De modo mais geral, como podemos interpretar os vínculos entre religião e fascismo?

GE

Primeiro, preciso esclarecer como vejo a “ideologia” em si mesma. Por um lado, temos o uso comum na linguagem comum, geralmente referindo-se a algum corpo familiar do pensamento político, um programa facilmente reconhecível, ou um corpo codificado de valores e crenças dominantes (por exemplo, liberalismo, conservadorismo, socialismo, etc.). Trump mostra poucas evidências de uma ideologia coerente nesse sentido mais restritivo, exceto no conjunto mais rebaixado, banalizado e indisciplinado dos caminhos.

Por outro lado, ele vê e lê o mundo através de um conjunto definido de lentes, com base em suposições, preconceitos, pedaços de ideias e retórica, citações fragmentárias, impulsos viscerais e compreensões inconscientes, cuja coerência certamente está disponível para ser reconstruída – como uma relação fantasiosa com suas condições reais de existência, na famosa frase de Louis Althusser.

Trump, naturalmente, tem uma perspectiva cuja coerência pode ser encontrada. Mas isto não está organizado em torno de, ou mesmo conscientemente derivado de, qualquer núcleo codificado de textos ou ideais. É o oposto de qualquer sistema formal de crença. É mais uma matriz de disposições, um bando de tropas principais centradas narcisisticamente em torno da masculinidade tóxica, desejos monstruosamente egoístas, ganância e riqueza, “América”, violência, sucesso, domínio, lealdade, poder, e assim por diante.

Ao compreender as especificidades fascistas em qualquer período ou lugar em particular, da mesma forma, precisamos separar o que afirmei ser o núcleo portátil – violência política mortal, antidemocracia desatenta e nacionalismo excludente, mais masculinidade misógina e uma estética política descaradamente adversária – das formações discursivas e recursos ideológicos particulares do fascismo, como o Hindutva ou o nacionalismo cristão branco.

O próprio acoplamento entre “Nacional” e “Socialismo” ocorreu logo no início, afinal de contas. Benito Mussolini aprendeu sua política como maximalista do Partido Socialista antes de 1914 – 15. Durante 1919 – 1923, as formas políticas de esquerda baseadas em massa provaram ser uma fonte vital para as próprias técnicas políticas dos fascistas e para a estética de massificação.

Portanto, Modi é realmente um bom exemplo dessa inventividade e sincretismo. A religião sempre foi um campo complicado, mas fértil de ideias, práticas e associações para os fascistas, sejam eles do passado ou do presente. Veja, por exemplo, o agora clássico O Santo Reich de Richard Steigmann-Gall: Concepções Nazistas do Cristianismo, 1919 – 1945.

AC

Considerando seu interesse em cinema e estética, quais filmes e obras de arte fornecem as melhores interpretações e críticas do fascismo?

GE

Essa é uma pergunta difícil, pois as opções são ilimitadas. Sou sempre atraído por John Heartfield e fotomontagem, por exemplo, e um equivalente contemporâneo seriam figuras como Banksy e grafiteiros, juntamente com outras formas de arte guerrilheira. Para as artes visuais, alguns grandes catálogos de exposições das últimas décadas fornecem excelentes guias — por exemplo, a Arte e o Poder: Imagens da exposição dos anos 1930 ou o Estado do Engano: O Poder da Propaganda Nazista.

Julia Adeney Thomas e eu publicamos recentemente a antologia Visualizando o Fascismo: A Ascensão do Século XX do Direito Global de explorar as coisas comparativamente através de diferentes épocas e lugares. Por uma questão de brevidade, e no mesmo espírito de movimento entre o fascismo do início do século XX e o fascismo de hoje, eu sugeriria a justaposição de The Conformist de Bernardo Bertolucci com The Zack Snyder ‘s 300. Bertolucci ‘s 1900 seria também um candidato.

Para o cinema dos anos 1920 e 1930, eu combinaria Metropolis e M de Fritz Lang com Triunfo da Vontade e Olympia de Leni Riefenstahl. Os filmes oferecem um ótimo meio de explorar como as percepções do fascismo mudaram. O que pode ser dito sobre o movimento da Noite e Névoa de Alain Resnais, através de A Tristeza e a Piedade de Marcel Ophuls, até a Shoah de Claude Lanzmann e a Lista de Schindler de Stephen Spielberg, por exemplo?

AC

Em sua avaliação, qual é o caminho da política de esquerda para combater o aumento do autoritarismo, a globalização neoliberal e a degradação do clima, com o espectro do fascismo em geral?

GE

Passando por minha resposta anterior, implicitamente, é uma espécie de auto-limitação “popular de fronteira”. Dadas as derrotas históricas da esquerda nas últimas quatro décadas, as consequências da reestruturação capitalista (seja global ou dentro de sociedades individuais), o alcance generalizado dos preceitos e presunções neoliberais e a atual distribuição das capacidades democráticas nos Estados Unidos e em outros países capitalistas tardios, qualquer política de esquerda efetiva precisa agora passar pela dura escola das expectativas modestas.

Em segundo lugar, a criação de um “mundo sem fronteiras” (no sentido neoliberal agora entendido), o colapso das soberanias estatais em uma enorme extensão de território da África Ocidental através do Oriente Médio até o Afeganistão e Paquistão, e a continuidade desenfreada da crise da migração global (estas são obviamente abreviaturas) estão gerando os materiais para virulentas ansiedades populares sobre limites e fronteiras dentro das sociedades dos países capitalistas avançados.

E essas condições desencadeiam dinâmicas que só podem se tornar cada vez mais desestabilizadoras à medida que as rivalidades sobre os recursos se tornam cada vez mais imprevisíveis e extremas sob o impacto incontrolável da mudança climática.

“É esta síndrome geral, especialmente as ansiedades sobre fronteiras e limites e sobre a “diferença” e a estrangeirice, que impulsionam grande parte da veemência nacionalista de direita contemporânea.”

As contradições sobre a diminuição dos recursos globais (especialmente alimentos, água, energia e combustível), as mentalidades de fortaleza, os idiomas da política organizados pela ansiedade, a porta de entrada como paradigma social emergente — são estes os motivos que impulsionam tantas das tendências autoritárias e violentas do descontentamento social contemporâneo e da governabilidade intrusiva.

Se colocarmos tudo isso junto, temos o tipo de crise que pode permitir que uma política que parece fascismo se consolide. Foi aí que Trump e as forças políticas associadas prosperaram. Isto enfatiza novamente a importância da maior frente ampla democrática.

é professor de História Contemporânea na Universidade de Michigan, Ann Arbor.

Arjun Chaturvedi
é um estudante da University High School em Irvine, Califórnia.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 Valores?
 Publico - 06 Outubro 2026
 Manuel Loff Historiador.


2,2 milhões de votos num total de quase 159 milhões de
eleitores, a menor diferença entre os dois candidatos que
passam a uma 2.ª volta nas eleições brasileiras desde a
chamada redemocratização. É a vantagem do Bolsonaro-filho
sobre Lula. Dizer que o cenário político brasileiro está
polarizado é uma banalidade. Em todas as sociedades onde as
direitas extremas herdeiras do fascismo conseguem criar a
sensação de que podem assaltar o poder, todas as eleições
parecem ser disputadas junto a um abismo. Pior ainda nos
sistemas presidencialistas, onde as escolhas são
completamente personalizadas e onde os governos se decidem
em duelos, modelo claramente preferido pela extrema-direita,
cujo modelo de comunicação política — isto é, desinformação
em estado puro — substitui a discussão dos problemas sociais
e económicos pelas fakes que forem necessárias para
assassinar moralmente o adversário.
O perfil do eleitorado bolsonarista permanece
fundamentalmente o mesmo de 2018 e 2022. Como se verifica
com todas as direitas fascizadas, Bolsonaro terá recebido os
votos da maioria dos homens (42% contra 37% de Lula), mas
perde entre as mulheres (34%/42%). Tem o apoio de uma
pequena maioria dos eleitores em idade ativa, nas faixas dos
25 aos 59, mas perde entre os jovens (16 a 24 anos, por
32%/46%) e entre os maiores de 60 (38%/47%). Desmentindo

a já velha ideia feita de que a extrema-direita tem o seu celeiro
eleitoral entre os menos escolarizados e (também por isso) os
mais pobres,
Bolsonaro perde por grande distância entre quem tem apenas
o ensino básico (28%/56%) ou é negro (25%/43%), mas ganha
entre os licenciados (43%/31%) e os que ganham mais de
cinco salários mínimos (45%/34%).
Apesar da interferência do fator religioso (evangélicos votam
cada vez mais Bolsonaro, católicos ainda votam
maioritariamente
Lula), o voto brasileiro continua a ser sobretudo de classe: as
classes populares, os que menos rendimento têm e as regiões
onde elas são maioritárias continuam a votar à esquerda, ou
seja, Lula. Votam à direita os bairros ricos, o mundo rural dos
proprietários que continuam, ao fim de 500 anos, a roubar
terras aos povos originários.
Depois de ter derrotado Bolsonaro-pai em 2022, depois de o
negacionismo científico (uma das componentes centrais do
bolsonarismo) deixar centenas de milhar de mortos na
pandemia, e apesar de se ter arriscado a fazer apurar
responsabilidades pelo golpe que o bolsonarismo organizou
em 2023, Lula perdeu dois milhões de votos entre a 1.ª volta
de 2022 e a de anteontem; o bolsonarismo ganhou cinco. A
transição autoritária que se iniciou com o impeachment de
Dilma (2016), que parecia travada em 2022, está a ganhar um
novo impulso. O Brasil, uma das sociedades mais
contraditórias e desiguais do mundo e, simultaneamente, uma
das mais criativas, é um bom exemplo (Portugal é outro) de
quão arriscado é querer democratizar sem tocar nos
fundamentos desigualitários da ordem social, ou consagrar

formas de emancipação legal mas deixá-las sujeitas ao assédio
e ao ódio de quem conserva o domínio material da economia e
da informação. É o que permite que corruptos protegidos pelo
privilégio social encenem todo o debate político no campo da
moral, que políticos autoproclamados cristãos violem todas as
normas da moral cristã, ao mesmo tempo que juram ser
“instrumentos de Deus”.
Não creio, por isso, que o cientista político Felipe Nunes tenha
razão ao dizer que “o voto económico explicava muito; o que
explica agora são os valores, e a direita tem identidades e
valores que são muito claros” (O Globo, 5.10.2026). Os
“valores” da direita não são claros: são velhos, reconhecíveis;
os de Lula no poder perdem-se na inconsistência da coligação
contraditória que, com um Parlamento tão reacionário, é
obrigado a dirigir. Nada disto é novo na história. Sobrepor à
realidade uma alucinação foi o que a propaganda fascista fez
há cem anos, criando um imaginário que mobilizava um voto
há muito ressentido com a sensação de que soprava um vento
de mudança na História, mas que passara a ser possível
inverter o seu sentido. Isto é, derrotar a História.

domingo, 4 de outubro de 2026

 

Filósofo australiano, professor na Universidade de Princeton, na área de ética prática, trata as questões sob a perspectiva utilitarista. Eleito o Humanista do Ano pelo Conselho de Sociedades Humanistas Australiano em 2004, Singer é considerado um dos maiores filósofos contemporâneos.

Sua obra Libertação animal foi de importante influência formativa no movimento homônimo de defesa dos animais, que argumenta contra o "especismo", a discriminação de certos seres baseada apenas no fato de estes pertencerem a uma dada espécie. Para o pesquisador, todos os seres que são capazes de sofrer devem ter seus interesses considerados de forma igualitária. Autor, também, de Quanto custa uma vida? e Um só Mundo.

Peter Singer é um filósofo moral australiano e professor de ética prática em Princeton, famoso por propor uma nova ética baseada no utilitarismo das preferências e na expansão da consideração moral para além dos seres humanos. [1, 2]
O Conceito de uma Nova Ética
  • Princípio da Igual Consideração de Interesses: Singer defende que os interesses de qualquer ser com capacidade de sofrer (senciente) devem receber igual peso aos interesses semelhantes de qualquer outro ser. [1, 2]
  • Rejeição do Especismo: Em livros como Libertação Animal, ele argumenta que discriminar animais com base na espécie é injusto e comparável ao racismo ou sexismo. [1, 2]
  • Altruísmo Eficaz: Na vertente humana, defende que temos a obrigação moral estrita de ajudar quem sofre globalmente (como erradicar a pobreza extrema), comparando a omissão de doações financeiras a deixar uma criança afogar-se à nossa frente. [1, 2]
  • Repensar a Vida e a Morte: Na bioética, propõe substituir dogmas tradicionais por uma avaliação centrada na qualidade de vida, afetando debates sobre aborto, eutanásia e o estatuto de seres sencientes. [1, 2]
Gostarias de aprofundar de que forma o utilitarismo de Singer se aplica a um tema específico, como o consumo de carne ou a doação para a pobreza global?Peter Singer

 in CRÍTICA 

18 de Março de 2008   História da filosofia

Carta a Meneceu

Epicuro
Tradução de Desidério Murcho

Epicuro a Meneceu, saudações.

Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o futuro. Temos portanto de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para a obter.

Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa. Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem-aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada. Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retêm a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente.

Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade.

Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado. A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são.

Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida. O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal. Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa mas sim a da mais feliz.

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido mas, uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades.

Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento.

Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.

Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa de fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.

Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas. Todo o prazer é um bem dado ter uma natureza congénere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.

Encaramos a auto-suficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome. Estar acostumado à vida simples e básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de o encontrar, e faz-nos intrépidos face à fortuna.

Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe ou seja o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das quais a mente fica dominada pelo maior tumulto.

De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes.

Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas acções não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas acções merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males. Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planeado nas nossas acções do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planeado.

Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião. Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.

Epicuro

Nota do tradutor

Esta é uma tradução da tradução inglesa anónima disponível no site da Universidade da Colúmbia. Esta tradução supera claramente a tradução de Brad Inwood e L. P. Gerson (Hackett) e a mais antiga de Robert Drew Hicks, iluminando algumas partes do texto que até agora eram algo incongruentes.

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Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.