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quinta-feira, 8 de agosto de 2019


Sumário
Ártico
A batalha pelo cimo do mundo
Um navio de exploração, no caso o canadiano CCGS Amundsen, no Oceano Ártico <span class="creditofoto">Foto Getty</span>
Um navio de exploração, no caso o canadiano CCGS Amundsen, no Oceano Ártico Foto Getty
À custa do ambiente, parece estar a desenhar-se a guerra fria do século XXI, desta vez no sentido literal - a guerra dos direitos de passagem no Ártico, que o degelo provocado pelas alterações climáticas torna cada vez mais navegável. Além de abrir uma nova rota marítima, permitindo reduzir semanas de viagem, trata-se também de um mar inexplorado de recursos naturais e potencial foco de conflitos geoestratégicos
Texto Hélder Gomes
As notícias sucedem-se a um ritmo diário e assustador. Uma das mais recentes indica que neste momento o Alasca está livre de gelo. Mas se as consequências das alterações climáticas tendem a fazer sombra sobre as possibilidades de sobrevivência do ser humano no planeta, no curto e médio prazos também abrem novas vias de exploração comercial. Isso é especialmente verdade no caso do Ártico.
A Passagem do Noroeste, o nome que se dá à via marítima acima do Círculo Polar Ártico entre os oceanos Atlântico e Pacífico, aguça a sede de descoberta desde o século XV. O rei D. Manuel I terá enviado Gaspar Corte-Real à descoberta de “uma passagem noroeste para a Ásia”. O navegador chegou à Gronelândia, no que pensou ser o continente asiático. Também os ingleses Francis Drake e James Cook exploraram as águas do norte do Canadá.
No entanto, foi só no início do século passado, em 1906, que o norueguês Roald Amundsen chegou à costa pacífica do Alasca ao fim de três anos a bordo de um pequeno veleiro. Se o fizesse hoje, encontraria uma via aberta - e não mais as extensas camadas de gelo polar que durante séculos tornaram aquela região do globo inexplorável. O fado do Ártico parece estar escrito. Todos os anos, o oceano perde uma área de gelo maior do que a Escócia, nota o jornal “The Independent”.
MAIS ZONAS LIVRES DE GELO POR MAIS TEMPO
À medida que o gelo derrete, abrem-se novos canais de navegação. As calotas polares encolhem a uma cadência regular. As mantas outrora titânicas de gelo deixam a nu uma nova topografia no “cimo” do mundo.
O Venta Maerks foi o primeiro porta-contentores a navegar sozinho e sem ajuda através do Oceano Ártico, em setembro de 2018. Depois de carregar peixe na Rússia e aparelhos eletrónicos na Coreia do Sul, fez uma paragem em São Petersburgo (na foto), antes de seguir para a Alemanha <span class="creditofoto">Foto Getty</span>
O Venta Maerks foi o primeiro porta-contentores a navegar sozinho e sem ajuda através do Oceano Ártico, em setembro de 2018. Depois de carregar peixe na Rússia e aparelhos eletrónicos na Coreia do Sul, fez uma paragem em São Petersburgo (na foto), antes de seguir para a Alemanha Foto Getty
Os navios passam a ter o caminho desimpedido para viagens mais curtas do que as oferecidas pelas rotas dos canais do Suez e do Panamá, para já não falar das que contornam os continentes africano ou americano.
O Ártico é a porta de entrada para três rotas: além da Passagem do Noroeste, há a Passagem do Nordeste, ou Rota Marítima do Norte, e a Rota Marítima Transpolar. Esta é a mais curta mas, por ora, também a mais inviável. A Passagem do Nordeste é a mais comercialmente viável das três. Centenas de autorizações de navegação estão ser emitidas para esta rota quando, no início da década, não havia praticamente nenhuma.
O aumento das passagens no Ártico cresce a um ritmo lento mas estável, com embarcações de todos os tipos, incluindo navios de carga. O número de viagens nas águas do Ártico canadiano quase duplicou em dez anos. E tudo isto acontece devido aos verões mais quentes que levam ao degelo de superfícies que antes estavam cobertas de gelo o ano todo. Em resumo: há mais zonas livres de gelo e por mais tempo.
UMA OUTRA GUERRA FRIA
Além da óbvia fatura ambiental que este admirável mundo novo, outrora gelado e inóspito, representa, há desafios de segurança que se colocam num Ártico que se impõe progressivamente como uma autoestrada marítima e um centro de recursos naturais do futuro. O petróleo, o gás natural e os recursos pesqueiros a explorar através da Passagem do Noroeste e da Rota Marítima do Norte serão pontos de grande conflito geopolítico em breve, estimam os especialistas.
A Rússia conhece bem as oportunidades de desenvolvimento que o Ártico promete. O Presidente Vladimir Putin considera aquele oceano uma via para consolidar o estatuto do país como gigante energético. De resto, a Rússia parece estar mais bem equipada, até psicologicamente, para vencer o grande deserto gelado do que, por exemplo, os EUA. Por isso, os estrategas norte-americanos de segurança aconselham Washington a coordenar-se com o Canadá, a Dinamarca, a Islândia e a Noruega, todos aliados da NATO com costas ao longo do Ártico.
Cerca de metade das reservas pesqueiras dos Estados Unidos provém da zona económica exclusiva até 320 quilómetros da costa do Alasca. Muitos dos outros países do Ártico desenvolvem operações de pesca semelhantes, pelo que a competição deverá intensificar-se de forma acentuada. Com as crises alimentares que se adivinham no futuro, a pesca industrial tenderá a deslocar-se para mais longe com vista a encontrar reservas mais abundantes.
A NOVA FEBRE DO OURO
A crescente viabilidade da Passagem do Noroeste gera desentendimentos potenciais até entre aliados. O Canadá insistirá em que seja reconhecida como parte das suas águas territoriais, enquanto os EUA deverão preferir que se transforme numa hidrovia internacional. Moscovo continua à espreita e, em parte motivada pela guerra comercial com Washington, Pequim juntou-se-lhe na exploração do Ártico. Também o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, está interessado nos recursos energéticos do oceano, tendo sido convidado pela Rússia a presidir a uma mesa de debate no Fórum Económico Oriental de Vladivostok, em setembro.
Se é verdade que o Ártico se pode tornar o epicentro de uma febre do ouro do século XXI, não o é menos que se trata do oceano mais desconhecido. De facto, a humanidade já mapeou as superfícies da Lua e de Marte em maior escala do que o fundo do Ártico. Estima-se que 30% dos hidrocarbonetos não explorados possam esconder-se naquele oceano. Mas o que era antes um destino sobretudo de embarcações militares e de investigação promete transformar-se em breve num entreposto comercial, com as implicações de pegada ecológica que isso acarreta. A batalha pelo cimo do mundo parece, pois, seguir em contracorrente com a batalha pela sobrevivência.
in Expresso Diário

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