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sábado, 24 de agosto de 2019

Ivan Pinheiro * – Entrevista (2.ª parte)

[A entrevista é publicada em 2 partes. Hoje, publica-se a segunda]
Entrevista concedida por Ivan Pinheiro (membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro – PCB ) para o Portal PCB/SC [Partido Comunista Brasileiro/Comité Regional de Santa Catarina – NE], na qual ele analisa o cenário político internacional, o governo Bolsonaro e aponta os desafios colocados para a classe trabalhadora na construção de uma alternativa revolucionária.
Segundo Ivan: “Para reverter essa correlação de forças desfavorável e avançar na luta é necessário combater as ilusões em soluções institucionais, jogar toda a energia militante na conscientização, organização e mobilização dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum”.


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(continuação)
PCB/SC: E sobre Cuba? Como vai enfrentando as sanções e ameaças do governo Trump? Qual a importância da ilha na atualidade?
Ivan: A Revolução Cubana segue sendo um grande exemplo para todos os povos do mundo. Cuba é o único país em que me sinto pessoalmente seguro de dizer que mantém uma experiência de construção do socialismo.
Apesar de 60 anos de um cruel e desumano bloqueio levado a efeito pela maior potência mundial, a poucas milhas de seu território, Cuba segue soberana. Apesar do fim da União Soviética, que sempre lhe deu suporte político, econômico e militar, o socialismo sobreviveu em Cuba, com muito sacrifício, ao chamado período especial que se seguiu, num momento em que o fim do socialismo no país era estimado em dias, meses ou em poucos anos.  Apesar das dificuldades de construir o socialismo praticamente em um só país, uma pequena ilha, Cuba continua revolucionária, internacionalista e anti-imperialista.
Mas não podemos deixar de reconhecer e compreender que a Revolução Cubana, por conta de todas essas dificuldades, sobretudo econômicas, não achou outra alternativa senão a adoção de algumas mudanças que vêm abrindo espaço à iniciativa privada, para poder manter alguns dos mais importantes princípios da Revolução: as garantias de trabalho e de gratuidade em todos os níveis da educação e em todos os serviços de saúde. Uma das soluções encontradas foi um plano de demissão voluntária de servidores públicos em áreas com grande excesso de pessoal, em troca do direito de empreender alguma atividade que lhes gerasse renda com seu trabalho e de pessoas de sua família, num sistema que ficou conhecido como contrapropismo. 
Entretanto, na busca por mais valor (e confirmando a inescapável lei da acumulação capitalista), alguns desses empreendimentos, sobretudo na diversificada e importante área do turismo, se desenvolveram e passaram a utilizar mão de obra informal de terceiros. Esse tema foi objeto de amplo debate no recente processo de revisão da Constituição Cubana, que envolveu praticamente toda a população. O anteprojeto que resultou desta consulta foi submetido a um referendo nacional, sendo aprovado por 87% dos cubanos, com comparecimento às urnas de 90% dos eleitores. Entre as principais mudanças constitucionais estão medidas para conter a expansão do setor privado na economia, com regras rígidas para coibir a exploração de mão de obra, o aumento de preços dos produtos de consumo popular, a evasão de impostos, além de vários ajustes e correções de rumo para resolver os principais problemas do país, dentro de um contexto de reafirmação da construção do socialismo.
Já com relação às manobras, provocações e agressões do imperialismo norte-americano – que nunca deu trégua nos 60 anos de Revolução Socialista – a atual crise na Venezuela suscitou uma nova onda de ameaças e sanções específicas contra Cuba, mas que na realidade têm o objetivo de tentar “matar dois coelhos com uma só cajadada”, ou seja, atingir e tentar fragilizar esses dois países que não se submetem aos seus desígnios, procurando debilitar uma relação bilateral que beneficia os dois povos. Com este objetivo, o governo Trump mente descaradamente para apertar o cerco econômico contra a Ilha, afirmando que há tropas cubanas na Venezuela. 
Baseada na famigerada Lei Helms-Burton, de 1996 (governo Clinton), a ofensiva atual ataca exatamente as duas necessidades fundamentais para a solução dos problemas econômicos cubanos: os investimentos estrangeiros e o setor do turismo, suas principais fontes de receitas em moedas estrangeiras e de geração de emprego e renda. Para afastar investimentos, usando seu arbitrário poder extraterritorial, o governo dos EUA resolveu impor sanções às empresas que tenham alguma relação comercial em imóveis nacionalizados há décadas pela Revolução Cubana e, para estancar o crescente fluxo de turistas estrangeiros na ilha caribenha (4 milhões, em 2018), estabeleceu fortes restrições a viagens de cidadãos estadunidense a Cuba.
Mas a Revolução Cubana tem como uma de suas principais marcas a superação de obstáculos, que não têm sido poucos nem fáceis de vencer. Nunca se entregou! E mais uma vez vencerá!
Por conta desta história de resistência invicta, da mística revolucionária de Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e seus camaradas da Sierra Maestra, de sua determinação de criar uma sociedade sem opressores nem oprimidos, por ser na atualidade o único país, povo e governo do mundo a praticar o internacionalismo proletário, nunca lhe faltou nem faltará a solidariedade vinda de todas as partes do mundo, sobretudo de todas as expressões políticas e sociais comprometidas com a construção de um mundo sem guerras, sem fome nem miséria, onde todos possamos compartilhar os mesmos direitos e deveres e, como em Cuba, nos chamarmos de companheiros.
PCB/SC: Vivemos o esgotamento do ciclo lulista, que foi derrotado pelo Golpe de 2016, que culminou com a prisão de Lula e a derrota de Haddad nas eleições de 2018. O que levou à crise e à derrota desse projeto? Por que, mesmo com o desgaste do projeto petista, a esquerda socialista não conseguiu se apresentar como uma alternativa real para a classe trabalhadora brasileira?
Ivan: O golpe contra Dilma foi consequência do agravamento no Brasil da crise mundial do capitalismo, que levou a burguesia a prescindir da conciliação de classes dos governos petistas que, enquanto a economia ia bem (favorecida pelo “boom das commodities”),  garantiam a expansão e os lucros do capital e, ao mesmo tempo, amaciavam a luta de classes com políticas compensatórias, a cooptação e o apassivamento do movimento sindical e popular. 
Enquanto os efeitos mais graves da crise não chegavam aqui, os governos petistas se mantiveram de pé, sem muitos sobressaltos, por três mandatos consecutivos (2003/2014). A governabilidade petista neste período era garantida por uma ampla aliança com partidos burgueses, que assegurava folgada maioria no parlamento, ao custo da impossibilidade de promover qualquer mudança estrutural. Uma das consequências foi não ter sido feito absolutamente nada ao menos para mitigar o monopólio da mídia burguesa. Pelo contrário, os governos petistas tentavam, em vão, neutralizá-la com robustas verbas públicas. Há um PT na oposição e outro no governo. Com a posse de Lula em 2003, seu partido, que havia liderado a luta pela reestatização da Vale do Rio Doce, privatizada no governo FHC, calou-se e não moveu uma palha a respeito.
Quando a crise econômica atingiu em cheio o final do primeiro mandato de Dilma, os governos petistas se tornaram anacrônicos para o sistema, pois não podiam mais sustentar a conciliação de classes (como se viu a partir das manifestações de 2013) nem assegurar, de forma rápida e intensa, as contrarreformas de que o capital necessita para sair da crise às custas dos trabalhadores. A burguesia precisava de um governo para chamar de seu. Dilma ainda tentou agradar o capital, com a nomeação de um Ministro da Fazenda de absoluta confiança do mercado. Mas sua sorte já estava lançada.
As medidas adotadas pelo governo Temer deixam bem claro que as razões do impedimento da Presidente Dilma não foram as “pedaladas fiscais”, pretexto que até hoje pouca gente sabe do que se trata. Mesmo com um índice de rejeição popular recorde e enredado em graves denúncias de corrupção, Temer conseguiu, em seu breve mandato, aprovar a contrarreforma trabalhista, a generalização das terceirizações, o “teto de gastos públicos” por 20 anos, sem que nem as imagens de uma mala com 500 mil reais carregada por assessor de sua confiança lhe ameaçassem o mandato.
O golpe parlamentar, judicial e midiático contra Dilma só foi possível porque os trabalhadores e as camadas populares – diferente do que vem ocorrendo na Venezuela – não atenderam ao chamado para defendê-la, exatamente porque não havia conquistas significativas nem mudanças estruturais a preservar. E foi facilitado pela conciliação dos governos petistas: pela campanha de satanização da mídia que não combateram, pelo oportunismo dos Ministros do STF que nomearam e pela traição do Vice-Presidente e dos partidos burgueses com os quais se coligaram. Em resumo: o PT foi vítima da sua própria conciliação!
Apesar desta derrota, considero um erro a teoria do “esgotamento do ciclo petista”, surgida em nosso meio após as manifestações de 2013 e reforçada depois do golpe contra Dilma. Essa teoria induziu ao voluntarismo de achar que o PT estaria morrendo e que chegara a hora e a vez de as forças da esquerda revolucionária dirigirem um novo ciclo de lutas, no qual o reformismo não teria mais espaço, o que é outra ilusão. Mesmo que o PT tivesse desaparecido, o reformismo migraria para outro partido socialdemocrata, pois esta é uma ideologia predominante na pequena-burguesia. Por sinal, o PSOL já vem se beneficiando do desgaste do PT.
Se levarmos em conta que o sistema teve que prender Lula para ele não vencer as eleições de 2018 e que – a despeito de toda a satanização dele e do PT (como se tivessem inventado a corrupção no Brasil) – Haddad ainda assim foi para o segundo turno e o PT elegeu novamente a maior bancada de Deputados Federais, temos que reconhecer que o petismo sofreu um grande desgaste, mas não se esgotou, inclusive no movimento sindical, em que ainda é a maior força. O PT pode até voltar ao governo pelo voto em 2022, já que a crise econômica dá sinais de que pode agravar-se. Nesta hipótese, não podemos descartar que essa eventual volta ao governo se dê com o apoio – no primeiro ou segundo turno – de setores das classes dominantes que deverão ser prejudicados pela contrarreforma da previdência (que deverá provocar a retração do consumo das camadas médias e populares), pela desindustrialização, que se aprofundará com o acordo Mercosul/União Europeia, e com o alinhamento incondicional aos EUA, que afasta mercados importantes para os produtos brasileiros. Ainda mais se as revelações dos bastidores da “Operação Lava Jato” forem mais fundo e deixarem evidentes a parcialidade e a politização do julgamento de Lula.
A esquerda socialista não se tornou alternativa ao desgaste do petismo por várias razões. Uma delas foi que a mídia transformou o PT em sinônimo de esquerda, de socialismo e até de comunismo. Mas há outros fatores que pesam, como a débil inserção na classe operária e nos setores populares, a incapacidade de forjar frentes de luta unitária para além de eleições, o movimentismo e o identitarismo que predominam na grande maioria das correntes que reivindicam a esquerda socialista. Muitas delas se movimentam tendo como bússola a sua performance nas próximas eleições. A mais de um ano das eleições municipais de outubro de 2020 – e em plena tramitação da contrarreforma da previdência – os partidos reformistas já começam a tratar como prioridade o debate sobre coligações e candidaturas a prefeitos e vereadores. Nas sábias palavras de um camarada, nos anos ímpares esta esquerda se prepara para as eleições, que se dão nos anos pares! 
PCB/SC: Qual a sua avaliação sobre os primeiros meses do governo Bolsonaro? Como analisa a crise interna do governo e as consequências do vazamento dos bastidores da Lava Jato? Nesse cenário o que deve ser defendido pelas esquerdas? Como os movimentos sociais e populares podem interferir nesse processo?  Qual a alternativa para a classe trabalhadora mudar uma conjuntura tão adversa?
Ivan: O governo Bolsonaro só não conseguiu ser pior, do nosso ponto de vista, em função das trapalhadas diárias que cria, das crises e conspirações urdidas por seus filhos, seu ideólogo Olavo de Carvalho e seus ministros, que atrasam o ritmo do seu próprio projeto de destruição do que resta do estado social, dos direitos trabalhistas, civis e políticos e da própria soberania nacional. Mas o retrocesso já é muito grande, em todos os aspectos.
Pelo que se observa na mídia hegemônica – a fonte mais reveladora dos humores das classes dominantes – há entre elas um desconforto com as asneiras e destemperos diários do inacreditável presidente que elegeram. Suas propostas preconceituosas e ultraconservadoras e suas declarações histriônicas, algumas de inspiração fascista, dificultam a pressa da imensa maioria de direita no parlamento em implantar as reformas neoliberais que dependem de iniciativa legislativa.  A burguesia está preocupada com medidas a seu favor para a superação da crise econômica, não com o “marxismo cultural”, a “ideologia de gênero” e outras bizarrices.
A crise do momento, em que se destacam os bastidores da Lava Jato (que acirram o conflito entre o STF e o MPF) e as declarações torpes e mentirosas do Presidente sobre a prisão e o assassinato de Fernando Santa Cruz pela ditadura burguesa sob a forma militar, se desenrola exatamente no reinício da tramitação no parlamento da contrarreforma da previdência, considerada pelo “mercado” como a mãe de todas as chamadas reformas estruturantes a favor do capital. 
Entretanto, ao menos no curto prazo, tudo indica que não haverá qualquer iniciativa no andar de cima com vistas a uma campanha pelo impedimento do Presidente. Motivos não faltariam: as fake news nas eleições, a relação íntima do clã com as milícias no Rio de Janeiro, o possível envolvimento no assassinato de Marielle Franco, o esquema de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro, as evidentes manobras para impedir a candidatura de Lula.
A razão principal desta sustentação política, ainda que constrangida, é que, bem ou mal, a agenda das reformas que interessam ao capital começou a andar no parlamento e também em matérias que são da alçada do executivo, como foi a privatização em tempo recorde da BR Distribuidora, aliás, com respaldo do STF. É bom lembrar que a mídia e os três poderes estatais estão perfeitamente afinados com o projeto do capital e só colocam obstáculos a propostas estapafúrdias do executivo, que extrapolem limites do que consideram civilizado, como a liberação da posse e do porte de armas e o afrouxamento das multas de trânsito.
Para garantir seu mandato, Bolsonaro tende a adotar cada vez mais iniciativas que satisfaçam o apetite do capital por extrair mais valor. É o caso da recente Medida Provisória 881/2019, apresentada pelo governo com o esperto título de “MP da Liberdade Econômica” mas que, a pretexto de desburocratizar as empresas, amplia os efeitos perversos da contrarreforma trabalhista de Temer, estabelecendo o aumento da jornada de trabalho de várias categorias, a permissão de trabalho aos domingos e feriados sem negociação coletiva, a suspensão de normas sobre saúde e segurança do trabalho, inclusive a possibilidade de extinção das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes, entre outras perdas de direitos trabalhistas…
Outra razão importante que vem garantindo a governabilidade é que Bolsonaro ainda possui uma sólida base social, radicalizada e idiotizada, que venderia caro uma tentativa de seu impedimento, contando com o apoio das igrejas neopentecostais, da maioria do comando e principalmente das bases das forças armadas, das polícias de todos os âmbitos e esferas, do agronegócio, dos caminhoneiros (que podem parar o país) e de milícias e organizações de ultra direita que podem transformar em episódios sangrentos a defesa do seu “mito”. 
A burguesia só recorrerá ao processo de impedimento contra Bolsonaro se não houver mais condições de administrar as constantes crises que ele gera e se aprofundarem-se o seu isolamento político, inclusive entre seus fiadores militares, e o desgaste em sua base social, a ponto de ele passar a não dispor mais de meios razoáveis para tentar um autogolpe.
Enquanto isso, a burguesia, que não pode esperar, já arranjou uma maneira informal, provisória ou não (a depender dos desdobramentos), de levar à frente sua pauta no legislativo, sem precisar contar com Bolsonaro e, em alguns casos, apesar dele. Dispondo de uma bancada parlamentar de centro-direita maior do que a soma das bancadas da oposição de centro-esquerda e do partido de extrema-direita de Bolsonaro, forjou-se um parlamentarismo de fato, sob a liderança de Rodrigo Maia, alçado à condição de primeiro ministro de fato e, quiçá, de próximo candidato a Presidente da República da maioria das classes dominantes, expressando um campo de centro-direita, neoliberal na economia e “democrático” na política e nos costumes. Essa articulação chamou para si a contrarreforma da previdência e já se prepara para conduzir outras reformas de interesse do capital, a começar pela tributária. 
Já no campo da oposição dita de esquerda e do movimento popular há muitas apostas em soluções institucionais que em nada alterariam a atual correlação de forças desfavorável.
Há os que torcem para Bolsonaro ficar na presidência até o fim do mandato, considerando que ele complica os projetos da burguesia e chegaria desgastado às eleições de 2022, facilitando a vitória de Lula ou de outro candidato progressista. Já os que torcem por Mourão (e, portanto, pelo impedimento do Presidente) iludem-se com a maquiagem que o general vem fazendo em sua imagem, contrapondo suas opiniões às do Presidente. Acham que ele não causaria tantos retrocessos e estaria aberto ao diálogo. 
É preciso acabar com essas ilusões. Um processo de impedimento antes das principais reformas neoliberais e do aprofundamento do desgaste de Bolsonaro atrasaria mais os planos das classes dominantes do que a diarreia verbal incontinente do Presidente e ainda poderia trazer instabilidade política e social. Por outro lado, os militares ainda apoiam e participam do governo Bolsonaro. Não são democratas nem nacionalistas. Vários dos seus expoentes, inclusive os generais Mourão, Heleno e Vilas-Boas, pronunciaram-se publicamente a favor do golpe contra Dilma e contra a libertação de Lula, chantageando a opinião pública, o parlamento e o poder judiciário, e não levantaram uma só palavra contra a entrega da Embraer à Boeing e da base de Alcântara aos EUA e tampouco a sanha privatizante do governo. Humilhados pela fritura de alguns de seus generais e sem conseguir cumprir o papel moderador que imaginavam, os militares sairão desmoralizados por sua participação neste governo.
Doces ilusões! Não podemos nos comportar como torcedores, na expectativa de soluções vindas de cima que pareçam “menos ruins”.  Só a conscientização, a organização e a luta dos trabalhadores e das camadas populares, com independência de classe, poderão evitar a destruição dos direitos trabalhistas, sociais, civis e políticos e avançar em outras conquistas. Essa é a nossa tarefa principal, não pensando apenas na atual conjuntura, mas em qualquer cenário, qualquer correlação de forças, a qualquer tempo. Não podemos subestimar as divisões e contradições interburguesas, que são inerentes ao capitalismo; quando possível, devemos aproveitá-las a nosso favor. Mas sem ilusões! Não há divergências inconciliáveis nas classes dominantes sobre a pauta que as levaram a apoiar Bolsonaro. Muito menos no governo, onde as diferenças são de forma e estilo, não de conteúdo!
Um outro entrave ao movimento de massas é o fato de o campo petista privilegiar o “Lula Livre!” como a bandeira principal, em detrimento da luta contra a ofensiva do capital. Essa prioridade debilita o movimento de massas, estimulando a ilusão de que só com eleições e a volta de Lula ao governo podemos assegurar nossos direitos. Não se trata aqui de negar a justeza desta bandeira. O julgamento de Lula foi político e seletivo, um novo golpe para evitar sua candidatura em 2018.  Devemos prestar nossa solidariedade ao ex-Presidente, participando de algumas iniciativas específicas da campanha por sua libertação, mas sem priorizar esta bandeira nem abrir mão das necessárias críticas à conciliação dos governos petistas.
É preciso também combater as ilusões de classe disseminadas por setores da socialdemocracia “de esquerda”, que enganam e desmobilizam as massas com a vã esperança de derrotarmos ou mitigarmos os planos do capital no parlamento ou na justiça (instituições do estado burguês), como vimos durante a fase da luta contra a “reforma” da previdência anterior à votação em primeiro turno na Câmara dos Deputados, onde, por sinal, os reformistas negociam e conciliam com o seu Presidente, cacifando ainda mais este líder emergente da centro-direita, queridinho da mídia e do “mercado”. Os deputados do PcdoB, por exemplo, votaram nele para Presidente da Câmara, já no primeiro turno, mesmo havendo um candidato da bancada de esquerda! 
Outra questão é a caracterização do governo Bolsonaro. Apesar de declarações e atitudes de inspiração fascista da parte dele e de seu entorno político mais próximo, não me parece correto definir o governo como fascista ou neofascista e nem exagerarmos os riscos do advento de uma ditadura aberta. Isso nos levaria ao erro de privilegiar os esforços por uma gelatinosa frente democrática policlassista e não pela necessária unidade na ação com a esquerda socialista e os movimentos sindicais e populares. Significaria privilegiar a luta em defesa da democracia burguesa, em detrimento dos direitos trabalhistas e sociais. 
Apesar de Bolsonaro, o chamado “estado democrático de direito” funciona normalmente nestes sete meses de governo, embora com viés autoritário. O fato de haver neofascistas no governo não significa que estejamos sob o fascismo. Seria o mesmo que caracterizar os governos petistas como socialistas ou comunistas só porque deles participavam partidos que ainda mantêm nos seus nomes esses conceitos. Não há qualquer indício de que as classes dominantes em nosso país apoiariam, nos dias de hoje, uma ditadura aberta ou um processo de fascistização, alternativas a que recorreram, em 1964, quando viram ameaças concretas de mudanças estruturais, com o avanço do movimento de massas que empurrava o governo João Goulart para a esquerda. Isso se deu no auge da União Soviética e em plena Guerra Fria, na época das revoluções socialistas e de libertação nacional e numa América Latina rebelde, onde a Revolução Cubana inspirava movimentos revolucionários, o que levou o imperialismo a apoiar e articular ditaduras burguesas fascistizantes em quase todo o nosso continente.
Nos dias de hoje, o rompimento do “estado democrático de direito”, além de anacrônico e absolutamente desnecessário para o sistema, seria um tiro no pé dos interesses das classes dominantes, exatamente quando clamam de joelhos por investimentos estrangeiros, que dependem de segurança jurídica e estabilidade política. Além do mais, desde a chamada “transição democrática” – lenta, gradual e segura, como convinha aos interesses das classes dominantes – nunca houve uma correlação de forças tão favorável para assegurar os interesses do capital.
Isso não significa que a democracia burguesa (em verdade uma ditadura de classe) não possa recrudescer seu lado repressor. Ela é flexível, em função das necessidades do capital e da correlação de forças. Por isso – sem nos desviarmos da centralidade da luta contra a ofensiva do capital em relação aos direitos trabalhistas e sociais -, não podemos perder de vista a defesa das liberdades democráticas, entendidas como o conjunto de direitos políticos conquistados, nomeadamente os de expressão, organização e manifestação. Nesse sentido, não podemos descuidar do diálogo, de forma pontual e independente, com as forças reformistas de centro-esquerda nem das necessárias precauções ligadas à segurança e autodefesa. Quanto mais se desgasta o governo e ficam evidentes as barreiras aos seus delírios, mais radicalizados e ousados ficarão seus fiéis apoiadores.
Se fizermos um balanço realista da atual correlação de forças em nossa sociedade, infelizmente teremos que reconhecer que a disputa pelo poder não é entre esquerda e direita, como aqui em 1964 ou na Venezuela na atualidade, mas entre a direita e a centro-direita, de cujos embates é que podem surgir aventuras golpistas e autoritárias. De certa forma, ainda pagando o preço dos governos petistas de conciliação de classe e do reformismo que hegemoniza o que chamamos de esquerda, temos influído pouco na conjuntura, sendo mais expectadores da cena política do que atores. 
Para reverter essa correlação de forças desfavorável e avançar na luta é necessário combater as ilusões em soluções institucionais, jogar toda a energia militante na conscientização, organização e mobilização dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum. Nesse sentido, seria fundamental a realização de um encontro nacional das centrais e correntes sindicais e dos movimentos, entidades e coletivos populares classistas, com vistas a unificar as bandeiras políticas, a pauta comum e uma articulação nacional, superando a fragmentação dos recentes dias nacionais de luta, que têm sido convocados de forma setorial, ora apenas pelas centrais sindicais ora por entidades de estudantes ou de professores para a defesa de pautas específicas.  
Quanto à ação dos comunistas revolucionários (com perdão da necessária redundância), a crise mundial do capitalismo e o consequente aprofundamento da exploração e da barbárie nos propiciam melhores argumentos e condições para esclarecer as massas sobre a natureza da luta de classes e do estado burguês, favorecendo a agitação e a propaganda do socialismo e do comunismo e, portanto, as nossas possibilidades de inserção entre o proletariado e as camadas populares, fator indispensável para o crescimento qualitativo do partido revolucionário e para o acerto da linha política, nos princípios do marxismo-leninismo.
Nosso principal desafio é avançar na construção revolucionária do partido, girando a militância para atuação nas lutas do movimento sindical e operário e da juventude proletária, promovendo atividades próprias e autônomas em relação a outras forças e praticando uma política de alianças com independência e identidade própria.

* Ivan Pinheiro é associado da “ISKRA – Associação de Estudos Marxistas-Leninistas”

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