Nasceu o neoliberalismo climático
11.10.19
José Goulão
E se, por uma hipótese absurda, algum jovem ou alguma jovem assumir um papel semelhante ao de Greta Thurnberg, mas em defesa da eliminação total das armas nucleares, certamente não lhe será facultado o púlpito dos oradores nas Nações Unidas e não será transformado em ícone pela comunicação mainstream. Pelo contrário, não tardaria a ter à perna a comunidade global de espionagem e certamente seria tratado como reles agente russo ou chinês.
04 de outubro de 2019
Manifestação do grupo ambientalista Extinction Rebellion em Londres,
a 15 de Abril de 2019. Sky News
Salvar o planeta de quê? Das
alterações climáticas, de que mais haveria de ser? Haverá mais coisas
assim tão ameaçadoras com que tenhamos de nos preocupar?
Salvar o planeta! Ora aí está uma causa nobre, por certo não fracturante, à medida do mainstream,
padronizada segundo as normas da opinião única, enfim polémica quanto
baste porque os seus opositores são encabeçados por figuras que estão de
passagem, como Donald Trump, por certo uma excepção na tão recomendável
classe bipartidária e monolítica dos Estados Unidos da América.
Atentemos nos casos de Obama, de Hillary Clinton, consabidamente tão
amigos do planeta e do ambiente.
Salvar o planeta de quê? Das alterações
climáticas, de que mais haveria de ser? Haverá mais coisas assim tão
ameaçadoras com que tenhamos de nos preocupar?
Na verdade, parece não haver coisa mais
necessário na sociedade global em que vivemos do que mobilizar-nos no
urgentíssimo e justíssimo combate contra a degradação do ambiente e as
mudanças climáticas dela decorrentes.
Mobilizemo-nos, pois. Sigamos as marchas
juvenis e coloridas inspiradas algures nos meandros onde se move essa
tão carismática como recatada figura de George Soros, conhecido como
«filantropo», um verdadeiro papa do globalismo, do neoliberalismo,
reconhecido patrono ou mesmo proprietário da democracia autêntica.
Sigamos Greta Thurnberg lamentando os
seus «sonhos perdidos», juntemo-nos ao Eng.º Guterres, a quem as
aflições do clima proporcionaram uma energia interventiva até agora
desconhecida, sobretudo desde que se tornou secretário-geral da ONU;
acompanhemos Obama, Mark Zuckerberg, Al Gore, Richard Branson e outros
patronos do movimento de Greta Thurnberg; desfilemos de braço dado com o
benemérito Bill Gates, agora dedicado à causa dos negócios da
geoengenharia a bem do ambiente, com as comissárias e os comissários
europeus, os generais da NATO, os poluidores e as suas vítimas, todos
irmanados nesta imensa vaga regeneradora que a muitos parece cativar e
verdadeiramente não tem inimigos pois todos habitamos nesta Terra e
2030, «o ponto de não retorno», é já amanhã.
Além disso, «não há planeta B», como muito bem recordou o prof. Marcelo mesmo que, desta feita, a autoria do sound bite não lhe pertença.
O sistema autorregenera-se
A crer nesta espécie de «revolução
colorida» – o que não é de espantar, pois várias outras têm a chancela
inconfundível do «filantropo» Soros – o seu êxito não suscita grandes
dúvidas, porque estão mais do que identificadas as causas da revolta do
clima.
O segredo não estará, ao que parece, em
atacá-las mas sim em «adaptar-nos» a elas e acreditar que os grandes
poluidores industriais se converterão beatificamente à causa; os
gigantes do agronegócio transnacional deixarão benevolamente de destruir
os solos, esbanjar água e expandir a seca; os monstros da indústria
mineira global, comovidos pela grande movimentação, deixarão de
contaminar os solos para os expurgar de riquezas; os negociantes de
madeiras não mandarão acender nem mais um fósforo nas florestas; os
magnatas do petróleo abandonarão o fracking e deixarão os mares
e os solos em paz, genuinamente convertidos às energias renováveis; os
impérios do armamento chegarão à conclusão de que as actividades amigas
do ambiente são muito mais interessantes que as guerras, quiçá até do
ponto de vista económico; os generais e outros senhores do militarismo
deliberarão espontaneamente que o dinheiro investido em armas, sobretudo
as nucleares, deve ser transferido para o combate à fome no mundo.
Os grandes interesses económicos do
planeta, desde o grande especulador financeiro ao incansável barão da
droga, curvar-se-ão, enfim, perante os activismos desinteressados que
decidiram salvar a harmonia climática poupando, ao mesmo tempo, o
sistema que a destrói. O capitalismo ecológico, o neoliberalismo
climático estavam, afinal, a umas mobilizações bem comportadas e a uns
discursos lamurientos de distância. E sem que a ordem que nos governa
seja minimamente beliscada. Como não nos havíamos lembrado disto antes?
Mas talvez ainda estejamos a tempo, mais vale tarde do que nunca, os
destrambelhamentos climáticos serão domesticados. Com uma condição: que
os aceitemos e nos adaptemos, como recomenda, sábio, Bill Gates. A
«adaptação» será, afinal, a alma do negócio.
Nada de distracções
Mas atenção: foco total, nada de
distracções, dedicação absoluta à «adaptação» do planeta às alterações
climáticas e sempre no quadro da ordem estabelecida. Caso contrário, a
ameaça persistirá.
Não há que esbanjar esforços em causas
fracturantes e que, como se percebe pelo consenso quase global suscitado
pelo caos climático, acabam por ser marginais.
Em poucas ou nenhuma ocasião como esta vamos encontrar do mesmo lado da barricada as paupérrimas vítimas das inundações do Bangladesh e o presidente do Goldman Sachs, o banco que, segundo o próprio, desempenha o papel de Deus na Terra; ou o indígena da Amazónia e o presidente cessante do Banco Central Europeu, Mario Draghi; ou os sudaneses vítimas da seca e os todo-poderosos dirigentes do Carlyle Group.
Em poucas ou nenhuma ocasião como esta vamos encontrar do mesmo lado da barricada as paupérrimas vítimas das inundações do Bangladesh e o presidente do Goldman Sachs, o banco que, segundo o próprio, desempenha o papel de Deus na Terra; ou o indígena da Amazónia e o presidente cessante do Banco Central Europeu, Mario Draghi; ou os sudaneses vítimas da seca e os todo-poderosos dirigentes do Carlyle Group.
O mesmo não acontece com outras
situações que suscitam mobilizações, mas nunca com esta amplitude e
consenso. É o caso das guerras que se multiplicam pelo mundo, ou das
crescentes desigualdades e do fosso que se alarga entre a maioria de
pobres e a minoria de ricos, da acumulação de armas, sobretudo as
nucleares, da globalização do trabalho escravo, dos milhões de
desalojados e refugiados.
São, de facto, problemas em torno dos
quais não encontramos mobilizações tão massivas, uma tal convergência de
opiniões, uma cobertura tão abrangente dos meios de comunicação
globais.
Fizeram-se – e fazem-se – manifestações
contra as guerras, acções contra as injustiças e as desigualdades,
iniciativas contra a pobreza, a fome ou os refugiados. Mas nela não
encontraremos as figuras que lhe dão peso, prestígio e fama como Obama, o
Eng.º Guterres, o presidente do Goldman Sachs, o diligente Bill Gates
ou a presidente da Comissão Europeia. E se, por uma hipótese absurda,
algum jovem ou alguma jovem assumir um papel semelhante ao de Greta
Thurnberg, mas em defesa da eliminação total das armas nucleares,
certamente não lhe será facultado o púlpito dos oradores nas Nações
Unidas e não será transformado em ícone pela comunicação mainstream.
Pelo contrário, não tardaria a ter à perna a comunidade global de
espionagem e certamente seria tratado como reles agente russo ou chinês.
No entanto, a proliferação de guerras e
de armas cada vez mais modernas e com efeitos letais massivos pode
provocar amanhã, depois de amanhã, de uma penada, os efeitos que as
alterações climáticas produzem gradualmente e que têm ponto de não
retorno agendado para 2030, segundo as previsões mais repetidas. Porém,
ao que parece por aquilo a que temos vindo a assistir, a crise do clima é
certa enquanto a destruição do planeta por um conflito global pode
acontecer ou não, saibamos correr riscos… Portanto, nada de alarmismos
e, sobretudo, de dispersões em relação à causa definitiva, a da
«adaptação» às derrapagens do ambiente.
Alerta às alterações climáticas. Concentração de estudantes realizada em Coimbra,
15 de Março de 2019.
E se ligássemos tudo?
Atendendo à gravidade dos cenários que
ameaçam o planeta, o mais natural seria transformá-los numa causa única e
poderosa capaz de reduzir os riscos. Defender a Terra e os sistemas de
vida que nela existem seria uma acção muito mais eficaz e abrangente se
interligássemos as lutas contra as alterações climáticas, a guerra, a
pobreza, as desigualdades, as agressões aos direitos humanos, a
escravatura e outras.
Esta seria a ordem natural das coisas.
Mas não a ordem natural do sistema em que vivemos.
Ao associar as causas amigas do planeta
seríamos conduzidos, inevitavelmente, à evidência que a defesa da Terra
é, em si mesma, uma causa fracturante. Não conseguiremos encontrar na
luta contra a guerra as mesmas vedetas globais e a mesma projecção da
suposta luta contra as alterações climáticas. Em boa verdade, essas
figuras dizem estar do lado do ambiente enquanto promovem as guerras e o
negócio de armas, ao mesmo tempo que geram milhões de desalojados e
refugiados.
Negócio é, de facto, a palavra-chave, o conceito que transpõe de forma traiçoeira, enganosa e oportunista a movimentação contra as alterações climáticas para o lado da guerra, das desigualdades, da pobreza, da exploração – tudo fruto do mesmo sistema.
Negócio é, de facto, a palavra-chave, o conceito que transpõe de forma traiçoeira, enganosa e oportunista a movimentação contra as alterações climáticas para o lado da guerra, das desigualdades, da pobreza, da exploração – tudo fruto do mesmo sistema.
Os expoentes do capitalismo na sua
versão fundamentalista neoliberal estão em pleno desenvolvimento de uma
operação de apropriação das questões ambientais tentando impor uma
milagrosa quadratura do círculo.
Ou seja, o capitalismo que envenena o
planeta, que o põe diariamente em risco, surge como salvador do planeta
privatizando uma justíssima causa para que lhe seja possível, com grande
ajuda do sistema mediático, arrastar massas que sofrem de genuínas
inquietações à mistura com ingenuidade e vulnerabilidades.
Mas não só.
O principal é que o capitalismo
neoliberal transformou a luta contra as alterações climáticas num
negócio. O método é insidioso: dá como adquiridas as transformações já
ocorridas ou em curso e põe a tónica na «adaptação» do planeta a essas
circunstâncias. O negócio do clima junta-se assim ao negócio da guerra,
ao negócio da droga, ao negócio do trabalho escravo, ao negócio da
exploração dos recursos naturais.
Desenvolver pretensas soluções
científicas capazes de responder ao aquecimento global, à subida dos
mares, aos degelos, às carências de água e outros fenómenos está a
transformar-se na antecâmara de novos grandes negócios. Aos lucros da
contaminação do planeta somam-se os proveitos gerados pela
«adaptação» aos efeitos da contaminação.
O sistema que ganha destruindo o planeta
é o mesmo que continua a ganhar pretensamente «adaptando-o» às
mudanças – não atacando as causas e manipulando multidões. Por isso, de
acordo com a sua estratégia, a nobre causa da luta contra as alterações
climáticas, que mobiliza dezenas de milhões de pessoas genuinamente
alarmadas, tem de ser isolada de outras que, na realidade, lhe são afins
e complementares, como a da luta pela paz. É a manobra a que estamos a
assistir.
O capitalismo neoliberal conseguiu
encontrar um caminho para transformar as questões ambientais e
climáticas em lucros. Quanto à «paz», a única maneira de a fazer gerar
proveitos é espalhando a ilusão de que pode ser estabelecida através da
multiplicação de guerras. Nasceu assim o neoliberalismo ambiental,
humanista, pacifista.
É necessário desmontar esta mistificação
e impedir que as causas ambientais sejam capturadas pelos terroristas
do ambiente para que tudo continue na mesma, isto é, deteriorando-se. A
luta contra as alterações climáticas é indissociável dos combates contra
a guerra, a pobreza, a austeridade, as desigualdades, os problemas dos
refugiados, a censura, a exploração, a extinção dos direitos sociais, a
violação dos direitos humanos. Converge tudo na mobilização contra o
sistema que está na base de todas as aberrações que afectam o ser humano
e o planeta.
Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/nasceu-o-neoliberalismo-climatico, colocado em 2019/10/04, acedido em 2019/10/07.
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