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segunda-feira, 23 de março de 2026

 

       Renascimento e utopia 

 

                                Resumo da comunicação ao colóquio “ O Pensamento utópico do Humanismo na época do Renascimento” (Academia de Ciências, em colaboração com a Convenção Europeia de Filosofia, dias 26 e 27 de Março de 1998 )

 

 

          I.   O papel da utopia na construção da modernidade  

 

  I. 1. A “Imaginação Social” como área de investigação possui todas    as condições para suscitar o interesse renovado dos filósofos.

           I. 2. O lugar de A Utopia, de Tomás Morus ,na construção da      mentalidade moderna.

 

           I. 3. A Utopia como um  paradigma das formas de expressão da        consciência social moderna.  Os percursos vários de   desenvolvimento da “Imaginação Social” moderna.

         

           I. 4. As utopias na sua especificidade : relações com a filosofia, a ideologia e as artes.  

 

 

 

 

Tópicos a desenvolver :

 

- A “Imaginação Social” desempenhou um papel que importa continuar a esclarecer ,para a construção da Modernidade. Neste contexto Tomás Morus ,personalidade e obra,  ocupam um lugar cimeiro e pioneiro.

 

1. Entendo por Modernidade a Era pós-renascentista, durante a qual se adquiriram novas formas e categorias de consciência social, objectivadas em normas , obras de arte, instituições e costumes, a saber: a consciência da temporalidade ( as novas categorias do devir, do Futuro e do Novo, de mudança e de transição, de progresso, de fruição), e, correlativamente, a consciência da subjectividade, da privacidade, dos direitos individuais, das expectativas associadas aos direitos ; as categorias das doutrinas do direito natural; a crença numa atitude de objectividade associada à racionalidade , à universalidade e à necessidade; a crítica dos fundamentos da dominação ; a inclusão das categorias de humanidade e de cidadania no direito penal e no código civil; os novos e sucessivos paradigmas da igualdade e da liberdade ; a possibilidade da felicidade terrena colectiva.

 

2. Entendo por “consciência social” a esfera das ideias e das imagens que se prendem com as expectativas e justificações (ideologias) e que formam atitudes e mobilizam comportamentos colectivos.

 

3. Entendo por “Imaginação Social” o conjunto de representações ( ideias-imagens,símbolos, ideias-força , fantasias e ilusões ) oriundas de uma “atmosfera” social, que  organizam o mundo das experiências dos sujeitos sociais.

 

4. Entendo por “utopia” uma construção mental ordenada específica , que visa uma dada representação do mundo e do todo social, traduzida, sobretudo, em textos, quer sejam “romances” tipificados, quer não. As utopias ,sobretudo de recorte intelectual, reivindicam racionalidade absoluta, uma ordem sistémica ,as mais das vezes totalizadora, e propõem-se como a Alternativa (  por antítese a uma desordem irracional), nos planos da possibilidade lógica, exclusivamente humana. O recurso a crenças e valores religiosos apresentam-se normalmente como meras estratégias de persuasão, pois que o ideólogo utopista visa um público determinado e a sua mensagem é radical apenas no sentido em que radicaliza contradições na mensagem conservadora dominante.

 

5. A obra de Thomas Morus é uma obra paradigmática do utopismo humanista do nascimento da Era Moderna. A Utopia recupera mas inova profundamente a tradição do pensamento social utópico, de Platão e de Santo Agostinho. As utopias modernas tendem a ser laicas e terrenas, humanistas e históricas.

 

6. A Utopia é um género que se apresenta na modernidade, desde logo, como substituição dos milenarismos e dos messianismos, fortemente característicos da baixa idade média, muito embora a contaminação se manifeste em determinadas épocas. O paradigma da utopia de More rompe com a fortíssima tradição de Joachim de Fiore. O caso original de More não se explica exclusivamente pela situação concreta da acumulação original do capital na Inglaterra, sob pena de não se compreenderem as condições gerais da modernidade e, em particular, a influência na obra de Tomás More do seu amigo Erasmo de Roterdão. Durante e após as guerras religiosas (que exprimem, na causa e nos efeitos, a guerra social), numerosos espíritos visavam precisamente construir, per mente, uma sociedade onde essas paixões se extinguissem de vez.

 

7.  Importa esclarecer as relações das doutrinas e sistemas filosóficos com as utopias de recorte filosófico (exemplares nos casos de Meslier, Dom Deschamps, Mably), perguntar-se por exemplo se Espinosa, Locke, Diderot, Rousseau e, mais tarde, Hegel (havendo muitos mais) não contêm elementos utópicos. E distinguir os projectos utópicos de outras doutrinas políticas, e verificar-se como é difícil tal tarefa.

 

8. Cabia referir alguns traços gerais dos percursos sofridos pelas construções utópicas e suas possíveis influências no pensamento político ,desde o século dezasseis da nova Era : os casos de Morus, La Boetie, Pico de la Mirândola ; Campanella; F.Bacon ; Jean Meslier, Swift, Rousseau, Morelly, Dom Deschamps, Mably, Diderot, D’Holbach, Restif de La Bretonne, G. Babeuf ; Saint-Simon, Fourier, Cabet, W. Morris, etc.

 

9. Vivemos o tempo da morte das utopias sociais?

 

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                                                        Torres Vedras, 9.2.98

 

                                                          José Augusto Nozes Pires

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