Translate

terça-feira, 8 de novembro de 2016


Provocar uma guerra nuclear através dos media

John Pilger    07.Nov.16    



Um homem acusado do pior dos crimes (genocídio) foi declarado inocente. O assunto não fez manchetes. Nem a BBC nem a CNN deram cobertura ao caso. O The Guardian permitiu um breve comentário. Um reconhecimento oficial raro, como este, foi enterrado ou suprimido, compreensivelmente. Explicaria muito bem como governam os governantes do mundo.
O Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia (TPIAJ), em Haia, absolveu discretamente o malogrado presidente sérvio, Slobodan Milosevic, dos crimes de guerra cometidos durante a guerra da Bósnia de 1992-1995, incluindo o massacre de Srebrenica.
Longe de ter conspirado com o líder bósnio-sérvio condenado Radovan Karadzic, na verdade Milosevic “condenou a limpeza étnica”, opôs-se a Karadzic e tentou impedir a guerra que desmembrou a Jugoslávia. Escondida quase no fim de um veredicto de 2 590 páginas sobre Karadzic em Fevereiro passado, esta evidência destrói a propaganda que justificou o massacre ilegal da NATO na Sérvia em 1999.
Milosevic morreu de ataque cardíaco em 2006, sozinho na sua cela em Haia, durante o que se revelou um julgamento fantoche num “tribunal internacional” inventado pelos americanos. Foi-lhe negada uma cirurgia cardíaca que poderia ter-lhe salvo a vida, a sua condição deteriorou-se e foi monitorizada e mantida sem segredo por oficiais dos EUA, como o Wikileaks revelou.
Milosevic foi vítima da propaganda de guerra que hoje corre pelos nossos ecrãs e jornais como uma torrente e representa grande perigo para todos nós. Ele era o protótipo do demónio, vilipendiado pelos media ocidentais como o “carniceiro dos Balcãs” responsável pelo “genocídio”, especialmente na província separatista do Kosovo. Afirmou-o o Primeiro-ministro Tony Blair, que invocou o Holocausto e instou à tomada de medidas contra “este novo Hitler”. David Scheffer, o embaixador itinerante dos EUA para os crimes de guerra [sic], declarou que cerca de “225 000 homens de etnia albanesa”, com idades entre os 14 e os 59” poderão ter sido assassinados pelas forças de Milosevic.
Foi esta a justificação para o bombardeamento da NATO, liderado por Bill Clinton e Tony Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu a infra-estrutura económica da Sérvia. A motivação foi claramente ideológica; numa célebre “conferência pela paz” em Rambouillet, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a Secretária de Estado norte-americana, que observou, de forma infame, que as mortes de meio milhão de crianças iraquianas valeram “a pena”.
Albright fez chegar a Milosevic uma “oferta” que nenhum líder nacional poderia aceitar. A não ser que aceitasse a ocupação militar estrangeira do seu país, com as forças de ocupação “fora do processo legal”, e a imposição de um “mercado livre” neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Esta informação constava dum “Apêndice B”, que os media não leram ou suprimiram. O objectivo era esmagar o último estado independente “socialista” da Europa.
Quando a NATO começou o bombardeamento, houve uma debandada de refugiados kosovares “fugindo de um holocausto”. Quando acabou, equipas internacionais de polícias foram ao Kosovo exumar as vítimas do “holocausto”. O FBI não conseguiu encontrar uma única vala comum e retirou-se. A equipa forense espanhola fez o mesmo, com o seu chefe denunciando, irritado, “uma pirueta semântica por parte das máquinas de propaganda de guerra”. A contagem final dos mortos no Kosovo foi de 2 788. Este número incluiu combatentes de ambos os lados e sérvios e Roma assassinados pela Frente Nacional do Kosovo, que era pró-NATO. Não houve genocídio. O ataque da NATO foi uma fraude e um crime de guerra.
Apenas uma fracção dos apregoados misseis de “precisão” dos EUA atingiu alvos militares e não civis, incluindo os estúdios noticiosos da Rádio Televisão Sérvia, em Belgrado. Dezasseis pessoas foram assassinadas, incluindo operadores de câmara, produtores e uma maquilhadora. Blair descreveu os mortos, de modo obsceno, como parte do “comando e controlo” da Sérvia. Em 2008, o procurador do TPIAJ, Carla Del Ponte, revelou que tinha sido pressionada para não investigar os crimes da NATO.
Foi este o modelo de Washington para as subsequentes invasões do Afeganistão, Iraque, Líbia, e, de modo oculto, a Síria. Todas são “crimes maiores”, de acordo com os padrões de Nuremberga. Todas dependem da propaganda mediática. Enquanto o jornalismo dos tablóides desempenhava o seu papel tradicional, o jornalismo mais eficaz era o jornalismo liberal sério e credível; a promoção evangélica de Blair e das suas guerras pelo The Guardian, as mentiras incessantes sobre as não existentes armas de destruição maciça no Observer e no New York Times, e os persistentes tambores da propaganda governamental da BBC no silêncio das suas omissões.
No momento mais intenso do bombardeamento, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o General Wesley Clark, comandante da NATO. A cidade sérvia de Nis acabara de ser varrida com bombas de fragmentação norte-americanas, matando mulheres, velhos e crianças numa feira e num hospital. Wark não fez uma única pergunta sobre isto, ou sobre quaisquer outras mortes de civis. Outros foram mais descarados. Em Fevereiro de 2003, um dia depois de Blair e Bush terem posto o Iraque em chamas, Andrew Marr, o editor de política da BBC, estava em Downing Street e proferiu praticamente um discurso de vitória. Disse entusiasticamente aos espectadores que Blair “afirmara que seriam capazes de tomar Bagdad sem um banho de sangue e que, no fim, os iraquianos iriam celebrar. E em ambos os casos ele está comprovadamente certo.” Hoje, depois de um milhão de mortos e com uma sociedade em ruínas, as entrevistas da BBC com Marr são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres. Os colegas de Marr prontificaram-se a perdoar Blair. O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, afirmou “Não há dúvida de que o desejo de trazer o bem, levar os valores americanos ao resto do mundo, e em especial ao Médio Oriente … está agora cada vez mais ligado ao poder militar.”
Esta reverência aos EUA e seus colaboradores como uma força benigna que “traz o bem” está profundamente enraizada no jornalismo mainstream ocidental. Ela garante que a responsabilidade da actual catástrofe na Síria é atribuída exclusivamente a Bashar al-Assad, que o Ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por quaisquer preocupações humanitárias, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas aproveitadas e armadas pelos EUA, a Inglaterra, a França, a Turquia, e os representantes de “coligação” servem este objectivo. São eles que distribuem a propaganda e os vídeos que se tornam notícia nos EUA e na Europa e dão acesso a jornalistas e garantem uma “cobertura” unilateral dos acontecimentos na “Síria”.
A cidade de Alepo está nas notícias. A maior parte dos leitores e espectadores não saberão que a maioria da população de Alepo vive na parte ocidental da cidade controlada pelo governo. Que sofrem bombardeamentos diários de artilharia da al-Qaida, patrocinada pelo Ocidente, não vem nas notícias. A 21 de Julho, bombardeiros norte-americanos e franceses atacaram uma aldeia governamental na província de Alepo, matando cerca de 125 civis. Isto foi relatado na página 22 do The Guardian; sem fotografias.
Tendo criado e mantido o jihadismo no Afeganistão nos anos 1980 como a Operação Ciclone (uma arma para destruir a União Soviética), os EUA estão a fazer algo semelhante na Síria. Como os mujahidins afegãos, os “rebeldes” sírios são os soldados rasos dos EUA e da Inglaterra. Muitos lutam pela al-Qaida e pelas suas variantes; alguns, como a Frente Nusra, reviram a sua imagem para não ferir susceptibilidades nos EUA por causa do 11 de Setembro. A CIA vai governando-os com dificuldade, tal como governa jihadistas em todo o mundo.
O objectivo imediato é destruir o governo em Damasco, que, de acordo com a sondagem mais credível (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoia, ou pelo menos procura por protecção, apesar das barbaridades por que é responsável. O objectivo de longo prazo é negar à Rússia um aliado fundamental no Médio Oriente como parte de uma guerra de desgaste contra a Federação Russa que eventualmente a destrua.
O risco nuclear é óbvio, apesar de suprimido pelos media em todo o “mundo livre”. Os editores do Washington Post, tendo promovido a ficção das armas de destruição maciça, pedem a Obama que ataque a Síria. Hillary Clinton, que publicamente exultou com o seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, repetiu que, como presidente, irá “mais longe” que Obama.
Gareth Porter, um jornalista clandestino a trabalhar em Washington, revelou recentemente os nomes de pessoas que provavelmente integrariam um gabinete de Clinton, que planeiam um ataque à Síria. Todas têm histórias beligerantes durante a guerra-fria; o antigo director da CIA, Leon Panetta, afirma que “o próximo presidente terá de considerar acrescentar mais forças especiais no terreno”.
O que é mais notável acerca da propaganda de guerra actual é o óbvio absurdo e a familiaridade. Tenho visto imagens de arquivo de Washington nos anos 1950, quando diplomatas, funcionários públicos e jornalistas foram alvo de uma caça às bruxas e arruinados pelo Senador Joe McCarthy, por desafiar as mentiras e paranóia sobre a União Soviética e a China. Como um tumor em recidiva, o culto anti-Rússia voltou.
Em Inglaterra, Luke Harding, do The Guardian, dirige os opositores à Rússia do seu jornal numa série de paródias jornalísticas que atribuem a Vladimir Putin todas as iniquidades à face da Terra. Quando a fuga de informação dos Panama Papers foi publicada, a primeira página referia Putin, e publicou uma fotografia de Putin; pouco importa o facto de Putin não ter sido mencionado em parte alguma nos documentos.
Tal como Milosevic, Putin é o demónio número um. Foi Putin quem abateu um avião malaio que sobrevoava a Ucrânia. Manchete: “Tanto quanto me diz respeito, Putin assassinou o meu filho.” Sem provas. Foi atribuído a Putin o derrube, pelo qual Washington foi responsável (e pelo qual pagou), como está documentado, do governo eleito em Kiev, em 2014. A subsequente campanha de terror por milícias fascistas contra a população russa de fala ucraniana foi o resultado da “agressão de Putin”. Impedir a Crimeia de se tornar uma base de mísseis da NATO e proteger a população maioritariamente russa que votou num referendo voltar a juntar-se à Rússia (da qual a Crimeia fora anexada) foram mais exemplos da “agressão” de Putin. A difamação mediática transforma-se inevitavelmente em guerra mediática. Se a guerra com a Rússia rebentar, planificada ou por acidente, os jornalistas terão muita responsabilidade.
Nos EUA, a campanha anti-Rússia foi elevada a realidade virtual. O colunista do New York Times Paul Krugman, um economista com o Prémio Nobel, chamou a Donald Trump o “candidato siberiano” porque Trump é, afirma, o homem de Putin. Trump atrevera-se a sugerir, num raro momento de lucidez, que a guerra com a Rússia poderia ser uma má ideia. De facto, ele foi mais longe e retirou carregamentos de armas norte-americanas para a Ucrânia da plataforma republicana. “Seria óptimo se nos entendêssemos com a Rússia”, afirmou.
É por esta razão que o establishment liberal beligerante o odeia. O racismo de Trump e os seus devaneios demagogos nada têm que ver com isso. O racismo e o extremismo de Bill e Hillary Clinton vão muito mais longe que os de Trump. (Esta semana assinala o 20º aniversário da “reforma” da segurança social de Clinton, que lançou uma guerra contra os afro-americanos). Quanto a Obama, enquanto a polícia dos EUA dispara sobre os seus congéneres afro-americanos, esta grande esperança da Casa Branca nada fez para os proteger, nada para aliviar o seu empobrecimento, enquanto travava quatro guerras de rapina e uma campanha de assassinatos sem precedentes.
A CIA exigiu que Trump não seja eleito. Os generais do Pentágono exigiram que ele não seja eleito. O belicista New York Times, fazendo uma pausa na sua contínua campanha contra Putin, exige que ele não seja eleito. Alguma coisa se passa. Estes tribunos da “guerra perpétua” estão cheios de medo de que o negócio da guerra de muitos biliões de dólares, através do qual os EUA mantêm o seu domínio, seja ameaçados se Trump fizer um acordo com Putin, e depois com Xi Jinping, da China. O seu pânico perante a possibilidade, mesmo que altamente improvável, da grande potência mundial discutir a paz, seria a mais negra das farsas, se o assunto em causa não fosse tão preocupante.
“Trump teria adorado Stalin!”, vociferou o vice-presidente Joe Biden num comício por Hillary Clinton. Com Clinton acenando com a cabeça, gritou, “Nós nunca nos curvamos. Nunca nos dobramos. Nunca ajoelhamos. Não pedimos. A meta é nossa. É isso que somos. Somos a América!”
Na Inglaterra, Jeremy Corbyn foi também alvo de histeria dos belicistas no Labour Party e duns media que se dedicam a destruí-lo. Lord West, antigo almirante e ministro do trabalho, pôs bem a questão. Corbyn tomou uma “escandalosa” posição antiguerra “porque isso faz as massas não pensantes votarem nele”.

Pressionado para dizer se autorizaria a guerra contra a Rússia “se tivesse de o fazer”, Corbyn respondeu: “não quero a guerra; o que quero é que possamos ter um mundo em que não precisemos de nos envolver em guerras.”
O tipo de perguntas deve muito à ascensão dos belicistas liberais ingleses. O Partido Trabalhista e os media há muito que lhes oferecem oportunidades de carreira. Durante um tempo. Durante algum tempo, o tsunami moral do grande crime iraquiano deixou-os em dificuldades, as suas distorções da verdade deixaram-nos temporariamente embaraçados. Apesar de Chilcot e da montanha de factos incriminadores, Blair permanece a sua inspiração, porque foi um “vencedor”.
O jornalismo e a investigação independentes têm sido sistematicamente banidos ou apropriados, e as ideias democráticas esvaziadas e preenchidas com “políticas de identidade” que confundem género com feminismo e o protesto público com libertação e ignoram deliberadamente a violência de estado e o negócio das armas que destrói vidas incontáveis em locais distantes como o Iémen e a Síria e acenam à guerra nuclear na Europa e em todo o mundo.
A agitação de pessoas de todas as idades em torno da espectacular ascensão de Jeremy Corbyn contraria este aspecto até certo ponto. Ele passou a sua vida a chamar a atenção para os horrores da guerra. O problema para Corbyn e os seus apoiantes é o Partido Trabalhista. Nos EUA, o problema para os milhares de apoiantes de Bernie Sanders era o Partido Democrático, para não mencionar a sua maior traição, da sua grande esperança branca. Nos EUA, pátria dos grandes movimentos pelos direitos civis e antiguerra, são movimentos como o Black Lives Matter e o Codepink que criam as raízes duma versão moderna.
Porque apenas um movimento que se afirme em cada rua e além-fronteiras e que não desiste pode parar os belicistas. No próximo ano, fará um século desde que Wilfred Owen escreveu estes versos. Todos os jornalistas deveriam lê-los e lembrar-se deles…

Se puderes ouvir, em cada abalo, o sangue
Gargarejando dos pulmões em espuma,
Canceroso, acre e regurgitado,
De feridas torpes, incuráveis, em línguas inocentes,
Meu amigo, não dirias com esse entusiasmo,
A crianças que ardem por uma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori [1]

[1] Nota do tradutor: versos do poeta latino Horácio: “Doce e glorioso é morrer pela pátria”.
Tradução de André Rodrigues 

in ODiario.info

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

11 filmes sobre manipulação mediática

“Esses filmes são verdadeiras obras-primas conscientizadoras sobre a máquina manipulativa que são as mídias, eles mostram de forma crua e bastante didática o poder de persuasão delas sobre as massas. Em vários países as mídias derrubam governos, formam opiniões, ditam modas, criam ídolos, símbolos e mitos. Vemos o seu poder manipulativo principalmente em países onde o índice educacional é baixo, onde governos trabalham em prol da corrupção e onde as grandes mídias são economicamente dependentes do governo, tipo no Brasil por exemplo.
O que mais chama a atenção nesses filmes é como o sensacionalismo pode ser algo assustadoramente chamativo, como essas mídias se aproveitam de artifícios baixos em busca de altas audiências, e de como estruturas sociais e vidas pessoais são destruídas no processo.
Esses filmes são magníficos, são aulas de como se prevenir contra as artimanhas midiáticas para te tornar num espectador em transe, acreditando piamente em tudo que é mostrado nessas mídias.”
Leandro Godoy
Veja a lista (disposta por ordem cronológica).

Via: GPS & MEDIA http://bit.ly/2ftgIVS

Programa das Comemorações do Centenário da Revolução de Outubro


Estados Unidos: Trump es un loco pero Clinton es más peligrosa, dice Oliver Stone

sábado, 5 de novembro de 2016

Alepo

Utilizo os tempos verbais do passado porque Alepo pouco mais é hoje do que um aglomerado de ruínas, um imenso cemitério, tal como Beirute Ocidental foi no início da década de oitenta do século passado, como Gaza é nos dias que correm.
http://www.abrilabril.pt/sites/default/files/styles/jumbo1200x630/public/assets/img/siria-alepo-rt.jpg?itok=CFWnrLtl
Ao combater os terroristas no leste de Alepo, o exército sírio e a aviação russa limitam-se a aplicar as recomendações da citada resolução da ONU
Ao combater os terroristas no leste de Alepo, o exército sírio e a aviação russa limitam-se a aplicar as recomendações da citada resolução da ONUCréditos
Muitos opinadores que até há meia dúzia de anos mal sabiam apontar a Síria num mapa e, com alguma sorte, conheciam o nome da capital, tornaram-se, subitamente, conhecedores e especialistas sobre a realidade em Alepo, coisa de que jamais tinham ouvido falar.
Não têm qualquer dúvida – e ai daqueles que as têm – de que, por causa de Alepo, o governo da Síria e a Rússia têm de pagar por crimes contra a humanidade e deverão ser proscritos para todo o sempre dos polidos e democráticos corredores da ONU, onde o maior vetador da história da organização e respectivos súbditos entendem que o pior dos crimes é vetar por causa de Alepo, enquanto eles próprios fazem exactamente a mesma coisa.
A cidade de Alepo era, até há meia dúzia de anos, uma vibrante cidade de negócios, importante entreposto entre o Mediterrâneo e o Eufrates no final da histórica rota da seda asiática. Sendo uma das mais antigas cidades do mundo, Alepo era também olhada como uma capital cultural do islamismo.
Utilizo os tempos verbais do passado porque Alepo pouco mais é hoje do que um aglomerado de ruínas, um imenso cemitério, tal como Beirute Ocidental foi no início da década de oitenta do século passado, como Gaza é nos dias que correm, do mesmo modo que numerosas aldeias, vilas e cidades da Palestina, do Afeganistão, Iémen, Iraque ou Líbia – todas elas vítimas das acções benfazejas de «libertadores» chegados de fora.
Foi assim também em Alepo, na origem da grande tragédia da cidade. Um dia, replicando essa reconhecida fraude que foi a «primavera árabe», chegaram os «rebeldes» a Alepo. Diziam-se a «oposição» síria, levaram a tiracolo algumas organizações não-governamentais que alguns governos «amigos da Síria» financiam, inspirados directamente pela senhora Clinton, e fizeram de Alepo o seu bastião militar para derrubar o governo de Damasco.
«Utilizo os tempos verbais do passado porque Alepo pouco mais é hoje do que um aglomerado de ruínas, um imenso cemitério, tal como Beirute Ocidental foi no início da década de oitenta do século passado, como Gaza é nos dias que correm»
Acontece, como está provado através de fontes que a comunicação social dominante silencia, que a esmagadora maioria desses «rebeldes» armados e «moderados» não têm qualquer relação com a Síria e são terroristas mercenários oriundos principalmente da Arábia Saudita, Koweit, Tunísia, Líbia, de regiões russas como a Chechénia ou uigures chineses. Foram eles, empunhando bandeiras como as da al-Qaida, do Isis e mil e uma outras de bandos afins, que levantaram Alepo contra Damasco, transformando a cidade num símbolo de toda a guerra de agressão externa contra a Síria, e tornando-a uma chave dessa mesma guerra.
A perda de Alepo pelos «rebeldes» significará um ponto de viragem no conflito não propriamente favorável aos invasores e aos que neles apostam as mais valiosas fichas diplomáticas. São esses «rebeldes» e respectivos apoiantes os principais responsáveis pela tragédia humanitária que atinge a cidade. Eles criaram o conflito e provocaram a batalha de Alepo, com todo o repugnante desfile de chacinas, vinganças e banditismo numa cidade onde cinco milhões de civis viviam em paz até chegarem os «libertadores».
Alepo é hoje uma cidade desigualmente dividida. A oeste, sob controlo de Damasco, vivem um milhão e meio de pessoas ansiando pela unificação e pelo fim do martírio, para poderem recomeçar praticamente do zero; a leste, e ao contrário do que afiança a propaganda terrorista, restam ao todo cerca de 35 mil pessoas, isto é, alguns milhares de civis sobreviventes, tornados reféns do desespero de terroristas em pânico.
O enviado do secretário-geral da ONU para a região tentou que a França incluísse na sua recente proposta de resolução do Conselho de Segurança a hipótese de os civis do leste da cidade poderem ser evacuados, numa operação que implicasse um cessar-fogo. Paris rejeitou – ao que parece depois de consultar Israel –, provando-se a sua vontade de provocar um veto russo.
«Reclamar que a Rússia e o governo sírio sejam acusados de crimes contra a Humanidade é um artifício que revela, em relação às vítimas de Alepo, uma emoção condoída e chorada com lágrimas de crocodilo»
Quem «governa» o «rebelde» sector leste de Alepo? Em termos gerais é a al-Qaida, aliás al-Nusra, aliás Fateh al-Cham, tantos são os heterónimos da herança de Bin Laden. O chefe nominal é o xeique Abdullah al-Muhaysini, cujo credo recomenda o extermínio de todos os xiitas duodecimais, conceito que integra os xiitas iranianos e libaneses, mas também os drusos e os alauitas, que dizem ser o grupo dominante por detrás do governo da Síria. Al-Muhsaysini é o supremo juiz do Tribunal da Charia do Exército Conquistador (Jaish al-Fatah), uma espécie de coligação transversal do terrorismo salafita que integra elementos da al-Qaida. No recente cessar-fogo fracassado, o citado xeique condenou à morte todos os cidadãos do leste que tentassem refugiar-se no sector oeste. Atiradores de elite estrategicamente colocados cumpriram pelo menos 40 execuções.
Entretanto, também por ocasião do recente e fracassado cessar-fogo, os Estados Unidos foram convidados pela Rússia a salvaguardar os «rebeldes moderados», associando-os operacionalmente ao combate contra os terroristas salafitas. Passou-se o cessar-fogo e nenhum «moderado» foi encontrado – simplesmente porque eles não existem sem estar enquadrados na al-Qaida ou no Isis.
Recorda-se que a resolução 2249 do Conselho de Segurança da ONU, de Novembro de 2015, «pede aos Estados-membros que redobrem esforços e coordenem acções para prevenir e por fim aos actos de terrorismo cometidos em particular pelo Isis, igualmente conhecido por Daesh, e também pela Frente al-Nusra e todos os outros indivíduos, grupos, empresas e entidades associadas à al-Qaida».
Ao combater os terroristas no leste de Alepo, o exército sírio e a aviação russa limitam-se a aplicar as recomendações da citada resolução da ONU.
Ao recusarem introduzir no texto de um projecto de resolução uma reafirmação do objectivo central da resolução 2249, o combate ao terrorismo, neste caso em Alepo, a França, os Estados Unidos e o Reino Unido não obrigavam apenas a Rússia a vetar; estavam a revogar uma resolução antiterrorista que aprovaram há menos de um ano.
Na verdade, e para que conste quando se fala em combate ao terrorismo, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido usaram os mecanismos da ONU para tentar poupar a al-Qaida e o terrorismo salafita a uma derrota em Alepo.
Reclamar que a Rússia e o governo sírio sejam acusados de crimes contra a Humanidade é um artifício que revela, em relação às vítimas de Alepo, uma emoção condoída e chorada com lágrimas de crocodilo. O principal objectivo das três potências ocidentais presentes em permanência no Conselho de Segurança, ou seja, da NATO, não é combater o terrorismo, mas sim acabar na Síria um trabalho de desmantelamento idêntico ao que já praticaram no Iraque e na Líbia, ao que está também em curso no Iémen, ao que desenvolvem ainda no Afeganistão, onde a única libertação alcançada até agora foi a dos grandes traficantes mundiais de heroína.

José Goulão

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


eua

Por dentro do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton & Trump


O papel dos media no condicionamento e manipulação da opinião pública nunca foi tão grande. Nunca foi tão grande a sua cumplicidade com os objectivos, as estratégias, as guerras e os crimes do imperialismo. O facto de apoiarem Clinton na eleição presidencial nos EUA quase obriga a reflectir sobre o que é que os incomoda em Trump.
O jornalista norte-americano Edward Bernays é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna. Sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays que cunhou o termo “relações públicas” como um eufemismo para os truques de comunicação (spin) e seus enganos.
Em 1929, persuadiu feministas a promoverem cigarros para mulheres fumando no desfile da Páscoa de Nova Iorque – comportamento considerado então bizarro. Uma feminista, Ruth Booth, declarou: “Mulheres! Acendam outra tocha da liberdade! Derrubem outro tabu sexista!”
A influência de Bernays estendeu-se muito para além da publicidade. O seu maior sucesso foi papel que desempenhou em convencer o público norte-americano a aderir ao morticínio da Primeira Guerra Mundial. O segredo, disse, era a “engenharia do consentimento” das pessoas a fim de as “controlar e arregimentar de acordo com a nossa vontade sem que se dêem conta disso”.
Descreveu isso como “o verdadeiro poder dominante na nossa sociedade” e chamou-lhe um “governo invisível”.
Actualmente o governo invisível nunca foi tão poderoso e tão pouco compreendido. Na minha carreira como jornalista e cineasta, nunca conheci propaganda que interviesse tanto nas nossas vidas e permanecesse incontestada.
Imaginem duas cidades.
Ambas estão sob o cerco das forças do governo do país. Ambas estão ocupadas por fanáticos que cometem atrocidades terríveis, tais como a decapitação de pessoas.
Mas existe uma diferença fundamental. Num dos cercos, os soldados do governo são descritos como libertadores por repórteres ocidentais neles incorporados, que entusiasticamente relatam as suas batalhas e ataques aéreos. Há primeiras páginas de jornais com fotos destes heróicos soldados a fazerem o V de vitória. Há escassa menção a baixas civis.
Na segunda cidade – em outro país vizinho – quase exactamente o mesmo está a acontecer. As forças do governo sitiam uma cidade controlada pela mesma raça de fanáticos.
A diferença é que esses fanáticos são apoiados, financiados e armados por “nós” – Estados Unidos e Grã-Bretanha. Eles dispõem até de um centro de media que é financiado pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha.
Outra diferença é que os soldados do governo que mantêm esta cidade sob cerco são os maus, condenados por agredir e bombardear a cidade – o que é exactamente o que os bons soldados fazem na primeira cidade.
Faz confusão? Na verdade não. Tal é o duplo critério básico que é a essência da propaganda. Refiro-me, naturalmente, ao cerco actual da cidade de Mossul pelas forças do governo do Iraque, que são apoiadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e ao cerco de Alepo pelas forças do governo da Síria, apoiados pela Rússia. Um é bom; o outro é mau.
O que raramente se informa é que ambas as cidades não teriam sido ocupadas por fanáticos e devastadas pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Esse empreendimento criminoso foi lançado sob mentiras notavelmente semelhantes à propaganda que agora distorce a nossa compreensão da guerra civil na Síria.
Sem o rufar dessa propaganda apresentada como notícia o monstruoso Daesh, a Al-Qaida, a al-Nusra e o resto da gangue jihadista poderia não existir, e o povo da Síria poderia não estar hoje a lutar pela sua vida.
Alguns podem lembrar, em 2003, uma sucessão de repórteres da BBC a voltarem-se para a câmara e a dizer-nos que Blair fora “vingado” pelo que acabou por ser o crime do século. As redes de televisão norte-americanas produziram a mesma validação para George W. Bush. A Fox News foi buscar Henry Kissinger para apoiar as falsificações de Colin Powell.
No mesmo ano, logo após a invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, o famoso jornalista de investigatigação americano. Perguntei-lhe: “O que teria acontecido se os meios de comunicação mais livres do mundo tivessem seriamente contestado o que acabou por ser crua propaganda?”
Respondeu que se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, “há uma muito, muito boa probabilidade de que não teríamos ido para a guerra no Iraque”.
Foi uma declaração chocante, e apoiada por outros jornalistas famosos a quem coloquei a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores da BBC, que preferiram o anonimato.
Por outras palavras, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem contestado e investigado a propaganda ao invés de a amplificar, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas hoje, e não haveria ISIS nem o cerco de Alepo ou Mossul.
Não teria havido nenhuma atrocidade no metro de Londres em 7 de Julho de 2005. Não teria havido nenhuma fuga de milhões de refugiados; não haveria acampamentos miseráveis.
Quando a atrocidade terrorista de Novembro último aconteceu em Paris, o presidente François Hollande enviou imediatamente aviões para bombardear a Síria – e mais terrorismo seguiu-se, como era de prever, o resultado da fanfarronada de Hollande acerca de a França estar “em guerra” e não “mostrar nenhuma clemência”. Que a violência estatal e violência jihadista se alimentam mutuamente é a verdade que nenhum líder nacional tem a coragem de exprimir.
“Quando a verdade é substituída pelo silêncio”, disse o dissidente soviético Yevtushenko, “o silêncio é uma mentira.”
O ataque ao Iraque, o ataque à Líbia e o ataque à Síria aconteceram porque o governo de cada um desses países não era um fantoche do Ocidente. O cadastro de direitos humanos de um Saddam ou de um Kadhafi era irrelevante. Não obedeceram a ordens nem renunciaram ao controlo dos seus países.
O mesmo destino aguardava Slobodan Milosevic uma vez que se recusou a assinar um “acordo” que exigia a ocupação da Sérvia e a sua conversão numa economia de mercado. O seu povo foi bombardeado, e ele foi processado em Haia. Independência deste tipo é intolerável.
Como revelou a WikiLeaks, foi apenas quando o líder sírio, Bashar al-Assad, rejeitou em 2009 um oleoduto que atravessaria o seu país do Qatar para a Europa, que foi atacado.
A partir desse momento, a CIA planeou destruir o governo da Síria com fanáticos jihadistas – os mesmos fanáticos que actualmente mantêm refém o povo de Mossul e de Alepo oriental.
Por que não é isso notícia? O ex-funcionário da chancelaria britânica Carne Ross, que foi responsável pela manutenção de sanções contra o Iraque, disse-me: “Nós alimentávamos os jornalistas com factóides de inteligência higienizada, ou deixávamo-los congelados do lado de fora. Era assim que funcionava.”
O cliente medieval do Ocidente, a Arábia Saudita – à qual os EUA e a Grã-Bretanha vendem milhares de milhões de dólares em armas – está actualmente destruindo o Iémen, um país tão pobre que, no melhor dos casos, metade das crianças são desnutridas.
Procure no YouTube e verá o tipo de bombas maciças – “nossas” bombas – que os sauditas usam contra aldeias miseráveis e contra casamentos e funerais.
As explosões parecem pequenas bombas atómicas. Os apontadores de bombards na Arábia Saudita trabalham lado a lado com os oficiais britânicos. Este facto não está no noticiário da noite.
A propaganda é mais eficaz quando o nosso consentimento é engendrado por gente com uma boa educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – e com carreiras na BBC, The Guardian, The New York Times, The Washington Post.
Estas organizações são conhecidos como os media liberais. Apresentam-se como escllarecidos, tribunas progressistas do espírito moral (zeitgeist) da época. São anti-racistas, pró-feministas e pró-LGBT.
E amam a guerra.
Enquanto falam em defesa do feminismo, apoiam guerras de rapina que negam os direitos de inúmeras mulheres, incluindo o direito à vida.
Em 2011 a Líbia, então um estado moderno, foi destruída com o pretexto de que Muammar Kadhafi estava prestes a cometer genocídio contra o seu próprio povo. Foi uma notícia incessantemente repetida; mas não existia qualquer prova. Era uma mentira.
Na verdade, a Grã-Bretanha, Europa e os Estados Unidos queriam aquilo a que gostam de chamar “mudança de regime” na Líbia, o maior produtor de petróleo da África. A influência de Kadhafi no continente e, acima de tudo, a sua independência eram intoleráveis.
Assim, ele foi assassinado com uma faca no traseiro por fanáticos apoiados pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton aplaudiu a sua morte horrível diante das câmaras, declarando: “Viemos, vimos, ele morreu!”
A destruição da Líbia foi um triunfo dos media. À medida que os tambores de guerra eram rufados, Jonathan Freedland escrevia no Guardian: ”Embora os riscos sejam muito reais, a necessidade de intervenção continua a ser forte.”
Intervenção – uma palavra polida, benigna, utilizada pelo Guardian, cujo significado real, para a Líbia, foi a morte e destruição.
De acordo com os seus próprios registos, a OTAN lançou 9.700 “missões de ataque” contra a Líbia, das quais mais de um terço foram apontadas a alvos civis. Incluíam mísseis com ogivas de urânio. Olhem para as fotografias dos escombros de Misurata e Sirte, e as valas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz, “a maioria [delas] com idade inferior a dez anos”.
Como consequência directa, Sirte tornou-se a capital do Daesh.
A Ucrânia é outro triunfo dos media. Jornais liberais respeitáveis, como o New York Times, o Washington Post e The Guardian, e emissoras tradicionais, como a BBC, NBC, CBS, CNN têm desempenhado um papel fundamental no condicionamento dos seus telespectadores para aceitar uma nova e perigosa guerra fria.
Todos têm deturpado os acontecimentos na Ucrânia como sendo um acto perverso da Rússia quando, na verdade, o golpe na Ucrânia em 2014 foi trabalho dos Estados Unidos, ajudados pela Alemanha e pela NATO.
Esta inversão da realidade é tão difusa que a intimidação militar da Rússia por parte Washington não é notícia. É ocultada por trás de uma campanha de difamação e terror da mesma espécie daquela em que cresci durante a primeira guerra fria. Mais uma vez, os Ruskies estão a vir apanhar-nos, liderados por outro Estaline, que The Economist descreve como o diabo.
A supressão da verdade sobre a Ucrânia é um dos mais completos blackouts noticiosos que posso lembrar. Os fascistas que engendraram o golpe em Kiev são da mesma cepa que apoiou a invasão nazi da União Soviética em 1941. De todos os alarmismos acerca da ascensão do fascismo anti-semita na Europa, nunca algum líder sequer menciona os fascistas na Ucrânia – excepto Vladimir Putin, mas esse não conta.
Muitos nos media ocidentais têm trabalhado arduamente para apresentar a população étnica de língua russa da Ucrânia como estranha a seu próprio país, como agentes de Moscovo, quase nunca como ucranianos que pretendem uma federação dentro da Ucrânia e como cidadãos ucranianos resistindo a um golpe orquestrado pelo estrangeiro contra o seu governo eleito.
Há quase a alegria de uma reunião de ex-alunos entre os belicistas.
Os que rufam o tambor do Washington Post a incitar à guerra com a Rússia são os mesmos editorialistas que publicaram a mentira de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.
Para a maior parte de nós, a campanha presidencial norte-americana é um espectáculo mediático coisas esquisitas, em que Donald Trump é o arqui-vilão.
Mas Trump é odiado por aqueles com poder nos Estados Unidos por razões que pouco têm a ver com os seus comportamento e opiniões obnóxias. Para o governo invisível em Washington, o imprevisível Trump é um obstáculo para o projecto da América para o século 21.
Este é manter o domínio dos Estados Unidos, subjugar a Rússia e, se possível, a China.
Para os militaristas em Washington, o verdadeiro problema com Trump é que, nos seus momentos de lucidez, ele parece não querer uma guerra com a Rússia; quer dialogar com o presidente russo, não combatê-lo; diz que quer dialogar com o presidente da China.
No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a introduzir armas nucleares num conflito. Afirmou: “Eu certamente não faria o primeiro ataque. Uma vez que a alternativa nuclear se verifica, está tudo acabado”. Isso não foi notícia.
Será que ele realmente quis dizer isso? Quem sabe? Muitas vezes ele contradiz-se. Mas o que está claro é que Trump é considerado uma séria ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina de segurança nacional que dirige os Estados Unidos, pouco importando quem está na Casa Branca.
A CIA quer vê-lo derrotado. O Pentágono quer vê-lo derrotado. Os media querem vê-lo derrotado. Mesmo o seu próprio partido quer vê-lo derrotado. Ele é uma ameaça para os governantes do mundo – ao contrário de Clinton, que não deixou nenhuma dúvida de que está preparada para ir para a guerra com armas nucleares contra a Rússia e a China.
Clinton tem cabedal para isso, como muitas vezes se gaba. Na verdade, o seu registro é comprovado. Como senadora, apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008 ameaçou “obliterar totalmente” o Irão. Como secretária de Estado, foi conivente com a destruição de governos na Líbia e em Honduras e pôs em marcha o assédio da China.
Ela já se comprometeu a apoiar um No Fly Zone (interdição de voo) na Síria – uma provocação directa para a guerra com a Rússia. Clinton pode muito bem tornar-se a mais perigosa presidente dos Estados Unidos de toda a minha vida – uma distinção para a qual a concorrência é feroz.
Sem um fiapo de prova, Clinton pôs-se a acusar a Rússia de apoiar Trump e de ter hackeado os seus emails. Divulgados pela WikiLeaks, esses emails revelam que tudo que Clinton diz em privado, em discursos e “palestras” compradas pelos ricos e poderosos, é exactamente o oposto do que ela diz publicamente.
Por isso é tão importante silenciar e ameaçar furiosamente Julian Assange. Como editor da WikiLeaks, Assange conhece a verdade. E deixem-me esclarecer desde já e tranquilizar os muitos que se preocupam: Assange está bem; e a WikiLeaks está operando a pleno vapor.
Está hoje em curso a maior acumulação de forças lideradas pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial – no Cáucaso e na Europa Oriental, na fronteira com a Rússia, na Ásia e no Pacífico, onde o alvo é a China.
Tenha isso em mente quando o circo da eleição presidencial chegar ao seu final em 8 de Novembro. Se o vencedor for Clinton, um coro grego de patetas comentadores irá celebrar a sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum vai mencionar as vítimas de Clinton: as mulheres da Síria, as mulheres do Iraque, as mulheres da Líbia. Ninguém vai mencionar os exercícios de defesa civil que estão sendo realizados na Rússia. Ninguém vai lembrar as “tochas da liberdade” de Edward Bernay.
O porta-voz de George Bush certa vez chamou aos media “facilitadores cúmplices”.
Vindo de um alto funcionário numa administração cujas mentiras, potenciadas pelos media, causaram aquele sofrimento, essa descrição é uma advertência da história.
Em 1946 o acusador público do Tribunal de Nuremberga disse acerca dos media alemães: “Antes de cada grande agressão eles iniciaram uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer as suas vítimas e para preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque. No sistema da propaganda, as armas mais importantes foram a imprensa diária e a rádio.”
28/Outubro/2016
O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/…
Encontra-se em http://resistir.info/
A tradução de choldraboldra.blogspot.pt/… foi revista por odiario.info
John Pilger | ODiario.info 

PS não mudou de identidade

José Paulo Gascão    03.Nov.16    Colaboradores
Um muito importante texto que nos transporta, numa larga panorâmica, pela crise estrutural do capitalismo, afectando a gigantesca massa proletarizada de todos os que vivem do seu trabalho; pelas propostas de saída desta crise sem colocar em causa o sistema que a gerou; pela natureza e identidade da social-democracia que, hoje como antes, a torna parte do problema e não da solução.
1 – INTRODUÇÃO
Durante a contagem de votos na noite das últimas eleições legislativas em 4 de outubro de 2015, já Marco António Costa tinha agradecido «… a todos os portugueses (…) o sinal muito claro da determinação de manter um percurso muito definido», quando Francisco Lopes (21:40) avançou que a coligação PSD/CDS «perde a possibilidade de formar governo, a menos que haja da parte do Presidente da República uma entorse dos resultados eleitorais».
Jerónimo Sousa, pelas 22:05, concretiza um pouco mais o que Francisco Lopes dissera e afirma que os deputados comunistas «não irão viabilizar um governo de direita que não tenha maioria absoluta». E acrescenta: «está nas mãos do PS a solução».
Ainda pelas 22:40 de 4 de outubro, António Costa saúda Pedro Passos Coelho e Paulo Portas “pelo resultado alcançado” e acrescentou que «a maioria que expressou a vontade de mudança ainda não se expressou numa maioria de governo», concluindo que «o PS assume a plena responsabilidade de garantir que a vontade dos portugueses não se perca na ingovernabilidade». Acrescentou que respeitava o veredicto dos resultados eleitorais, ir fazer uma oposição séria e responsável, e disse aceitar «a decisão dos portugueses, mesmo quando não concorda(mos) com ela».
No dia seguinte, quando Jerónimo de Sousa em conferência de imprensa que se seguiu à reunião do Comité Central afirmou que «o PS só não forma governo se não quiser», o PCP determinou a derrota da coligação PSD/CDS e da sua política submissa ao capital monopolista nacional, europeu e norte-americano.
A longa espera que se seguiu até à posse do governo PS, em 24 de novembro de 2015, foi o tempo necessário às conversações, os passos indispensáveis à colocação de um freio na há muito concretizada conversão do PS à política da direita, e à caminhada de Cavaco Silva contra o muro da realidade em que se esbarrondou, situação que sempre lhe acontece quando tem de encarar situações por ele não previstas ou que não lhe tenham sido, pacientemente, indicadas como possíveis…
As declarações de Jerónimo de Sousa foram decisivas. Extirpar o tumor que o governo PSD/CDS constituía, foi um imperativo patriótico e consumou a derrota de 4 anos e meio de uma política terrorista dos monopólios portugueses associados ao capital imperialista.
Efetivamente, o mandato da coligação PSD/CDS não foi apenas a execução de uma política ao serviço do capital monopolista nacional associado ao capital imperialista, foi também, no parlamento e fora dele, 4 anos e meio de arrogante política terrorista, levada a cabo por uma ditadura do grande capital com fachada democrática.
A concretização de um governo PS, nestas inéditas e surpreendentes condições, se extirpou o tumor maligno que constituía a aliança PSD/CDS, não pode fazer esquecer o longo processo de fusão ideológica do PS com a direita nem a sua opção de classe, principais elementos constitutivos da matriz ideológica daquele partido, que o impedem encarar o caminho da superação da crise estrutural do sistema do capital [1].

2 – A CRISE ESTRUTURAL

Se há século e meio se podia falar – e falou sem eludir os limites e as contradições que lhe são inerentes – da importância do capitalismo para o alargamento da produção e do consumo, e para o derrube das barreiras que limitavam o desenvolvimento das forças produtivas, o crescimento das necessidades e o desenvolvimento da produção, hoje, não tem qualquer sentido falar de desenvolvimento da produção para a satisfação de necessidades humanas; como é uma completa falta de senso, no mínimo, falar da defesa do meio-ambiente e recusar a condenação do sistema do capital, hoje o principal responsável pela destruição do meio-ambiente, pela crescente agressividade do capital nesta fase do capitalismo imperialista, traduzida em guerras que permanentemente provoca e inicia, mas também pelo constante e crescente aumento da produção destrutiva que caracteriza hoje o sistema do capital.
Por muitos antecipada como inevitável embora sem data prevista no calendário, a crise estrutural do capitalismo teve, há anos, uma primeira intensificação, então resolvida com uma significativa alteração, quantitativa/qualitativa, da estrutura do complexo social então existente.
A acumulação e agudização de contradições tornou previsível uma nova intensificação da crise estrutural do capitalismo, embora desde os anos 60 do século passado as cliques e claques intelectuais do capitalismo tivessem começado a difundir a ideia que as crises tinham acabado… Diziam ter-se aprendido com a crise de 1929, que os meios hoje ao dispor dos Estados eram diferentes, que Keynes tinha destruído as teorias marxistas, que as falências bancárias eram coisas do passado…
A crise que hoje abala o mundo surgiu em 2007 nos EUA e na Europa, como o demonstra a situação de cessar o resgate de dois fundos pelo PNB-Paribas em agosto daquele ano. É uma nova intensificação da crise estrutural do capitalismo.
Perante uma crise é fundamental distinguir se ela é uma crise conjuntural ou uma crise estrutural, visto que são situações e conceitos distintos que, por isso mesmo, exigem remédios diferentes. Não se pode, no entanto, esquecer que a caraterização de uma crise e as propostas de medidas para a sua resolução não são, bem pelo contrário, independentes dos diferentes posicionamentos ideológicos e programáticos partidários, incluindo nos partidos comunistas e operários.
Uma crise conjuntural não afeta a estrutura social, pelo que pode ser resolvida no quadro estrutural em que se desenvolveu. Diferentemente, a crise estrutural afeta a própria estrutura, questiona a totalidade do complexo social envolvido nessa estrutura, pelo que se desenvolve enquanto não for alterada a estrutura do complexo social; não tem momentos tempestuosos, embora, aqui e além, neste e naquele tempo e espaço, possa apresentá-los integrados na sua globalidade e universalidade.
«Mas apesar da profunda seriedade dos seus parâmetros gerais, a crise estrutural pode, à primeira vista, não aparentar ser de uma importância assim tão decisiva quando comparada com as vicissitudes dramáticas de uma grande crise conjuntural. De facto, as «tempestades» com que se manifestam as crises conjunturais são bastante paradoxais, na medida em que, pelo seu modo de desdobramento, as crises conjunturais não só descarregam tais tempestades como acabam, (sublinhado meu) no mesmo movimento por se resolverem enquanto crises (na medida em que as circunstâncias o permitem). Isto é possível graças ao seu carácter parcial, que não implica os limites últimos da estrutura social estabelecida» (Meszaros, 2012).
Ainda segundo Meszaros, a crise estrutural manifesta-se em 4 aspetos essenciais que a diferenciam das crises conjunturais anteriores:
Tem caráter universal, não se circunscreve a um ramo específico da produção, tipo de trabalho, sector financeiro, comercial ou outro, pois, repito, tem caráter universal – atinge todos os ramos e sectores.
É de âmbito global, no sentido literal do termo e, embora de forma diferenciada, atinge todo o planeta, não se limita a alguns países ou regiões, como aconteceu com crises do passado, incluindo a de 1929, que muitos dizem ter sido uma intensificação da crise estrutural, embora não tivesse cumprido estas duas primeiras caraterísticas essenciais para a sua definição como crise estrutural [2].
É permanente, não é limitada, não apresenta ciclos, ao contrário das crises anteriores, embora não se desenvolva sempre num sentido ascendente.
O seu desenvolvimento é gradual, não é explosiva nem, normalmente, terá «grandes tempestades», como aconteceu com crises conjunturais anteriores.
Pondo as opções de classe acima da análise da realidade, políticos e outros defensores do capitalismo, partidos sistémicos com a social-democracia à cabeça, trotsquistas e revisionistas de todos os matizes, assumidos ou escondidos onde quer que estejam, não se entendem quanto às medidas a tomar, nem quando lançar esperanças ou difundir alertas.
Com a intensificação da crise ocorrida no final da primeira década deste século, no imediato, todos se tornaram keynesianos, e defenderam o aumento da despesa pública com o correspondente endividamento dos Estados, na tentativa infrutífera de resolver o problema do fortíssimo endividamento dos monopólios, particularmente os financeiros. Outros dizem ser a crise estrutural, mas não a tratam nem como universal, debruçam-se sobre um sector, normalmente o financeiro, e preconizam remédios de anteriores crises conjunturais. Uns, logo defenderam a austeridade para a classe operária e restantes trabalhadores, outros aplicavam-na de PEC em PEC.
Mas todos defenderam a austeridade e logo a estenderam ao que apelidam de «classe média», um artifício que mete no mesmo saco a classe operária, outros trabalhadores, entre os quais técnicos e intelectuais (médicos, engenheiros, advogados e outras profissões consideradas, hoje erradamente, como liberais), e também franjas da pequena burguesia e até do campesinato.
A expressão «classe média», foi criada, usada e divulgada pelas técnicas de «marketing», que a basearam na fruição de aparelhos elétricos de uso doméstico, dimensões, características e comodidades da habitação, existência de 2ª casa (alugadas ou próprias, mesmo que hipotecadas e em pagamento mensal ao banco), zona residencial, tipo e idade do carro, férias em casa ou fora de casa, etc., como forma de separar ou unir escalões populacionais em função da disponibilidade monetária, para criarem necessidades artificiais e melhor influenciarem o consumo de determinados produtos e marcas.
No caminho, aproveitam para promover entre os trabalhadores não só a imitação do modo de vida burguês, mas também o afastamento da luta e das suas organizações de classe.
Esta é a razão pela qual a dita «classe média» é tão ardorosamente disputada pelos partidos que gerem e defendem nos Estados os interesses do capital monopolista, nacional e internacional; como é também a razão porque continuam a apelidar de membros das «profissões liberais» a esmagadora maioria dos médicos, dos advogados, dos engenheiros, dos arquitetos, etc. Esta é também a razão para se manterem as velhas «Ordens», em quem, hoje injustificadamente, os Estados delegam os seus poderes de regulamentação, e até se assiste à criação de novas «Ordens», mesmo de profissões cujos membros sempre foram trabalhadores assalariados, como os professores, ou foram-no na sua quase totalidade, como os enfermeiros!
A «classe média é hoje uma massa gigantesca proletarizada», como vimos citado de quem tinha a obrigação de denunciar a expressão e os objetivos da sua utilização, se não tivesse abandonado o princípio de que a luta de classes é o motor da história…
Assim, não pode surpreender que a classe trabalhadora, no seu conjunto, procure um status que lhe é alheio e que a imitação do modo de vida burguês se vá generalizando, o que leva trabalhadores cada vez mais proletarizados a procurarem pertencer à inexistente «classe média», um escalão que crêem superior ao dos trabalhadores e proletários.
É a procura de uma ilusão que os faça esquecer a dura realidade.
Mas o que é hoje um proletário, quase dois séculos depois de Marx e Engels definirem o conceito?
Como disse Barata-Moura no I Congresso Internacional Marx em Maio, no debate que se seguiu à sua comunicação, o conceito de proletário hoje, tal como o definiram os fundadores do marxismo, e cito de memória, não andará muito longe do trabalhador que vive essencialmente do seu salário.
Não é o nível cultural nem o grau académico nem tampouco o nível salarial ou a convivência social que definem a pertença a uma classe. A classe social é definida pela posição que cada um ocupa, ou não ocupa, na estrutura de comando do capital, o que não exclui a existência de camadas dentro de uma mesma classe.
Em nota à edição inglesa de 1888 do Manifesto do Partido Comunista, Engels prevenia que «Por burguesia entende-se a classe dos Capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores de trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados modernos, os quais, não tendo meios próprios de produção, estão reduzidos a vender a sua força de trabalho [labourpower] para poderem viver».
Como se torna mais evidente com um exemplo retirado da vida, não é pelo estilo nem pelo padrão de vida ou nível salarial que um trabalhador da Volkswagen em Wolfsburgo, Alemanha, pertence a uma classe diferente, e “superior”, à de um trabalhador da Volkswagen em Palmela, Portugal. Uns e outros produzem mercadorias idênticas, apesar de os trabalhadores alemães, em termos nominais e reais, ganharem muito, muito mais que os portugueses: não é isso que os muda de classe. Nem os trabalhadores alemães nem os trabalhadores portugueses da Volkswagen, enquanto tal, têm qualquer posição na estrutura de comando do capital, não pertencem a nenhuma «classe média», são operários e trabalhadores assalariados com salários bem diferentes é certo, mas sem bens de produção, pelo que não têm lugar na estrutura de comando do capital.
Como também não é pela propriedade de casa-própria, comprada por recurso ao crédito hipotecário (uma forma para que os trabalhadores foram empurrados pelos interesses do capital financeiro), uma opção mais económica e uma solução de aforro forçado que os trabalhadores, cada vez mais proletarizados, assumiram mas não escolheram; como também não é a compra de um carro, novo, em-segunda-mão ou a sua posse ou fruição por recurso a uma qualquer das muitas modalidades oferecidas pela banca, que os trabalhadores são promovidos à inexistente classe média, como cada vez mais a imposição da política «neoliberal» procura interesseiramente fazer crer.
E quanto ao carro, é sempre bom não esquecer que, ao contrário da burguesia, os trabalhadores não escolhem o local onde viver, nem a vista ou a sua exposição solar que a casa proporciona, pois vivem no lugar onde encontram casa à medida dos seus recursos; e não se pode esquecer que, hoje, um carro em-segunda-mão exige muitas vezes um esforço económico menor que o exigido há 60 anos atrás com a compra de uma bicicleta. Como não são os trabalhadores quem define a política de transportes, estes são muitas vezes colocados numa situação de terem de utilizar um transporte particular para o percurso casa-trabalho-casa.
A crise veio evidenciar a realidade: a posição de classe de qualquer pessoa ou grupo de pessoas é pela posição que ocupa, ou não ocupa, na estrutura de comando do capital. É por isso que, em situações de crise como a que estamos a viver a chamada «classe média», ao enfrentar a dura realidade, “regressa” à classe donde nunca saiu: a classe trabalhadora.
Tudo o que acima se disse não significa, de modo algum, que esta gigantesca massa proletarizada, não tenha no seu seio considerável percentagem de antigos detentores de bens de produção, nalguns casos mesmo de consideráveis bens de produção. A maioria deles continua a pensar de acordo com a sua anterior classe e, em momentos agudos da luta de classes, reagem como membros da classe a que já pertenceram, contra os interesses da sua nova classe, o que torna mais difícil o seu esclarecimento e mobilização.
A destruição da chamada «classe média» pela austeridade mais não é do que a feroz ofensiva global do grande capital contra a classe trabalhadora, que a todos os seus membros atinge, independentemente do seu nível salarial, estilo de vida ou consciência de classe, mesmo dos que se julgam inseridos numa inexistente «classe média».
***
Como alternativa à austeridade para superação da crise, a solução mais preconizada tem sido defesa da renegociação da dívida (em bom rigor a maior parte devia ser repudiada por odiosa…) e a saída controlada do Euro, medidas com consequências imediatas muito diferentes, que mesmo que no médio prazo possam trazer um alívio momentâneo, não podem superar a crise estrutural, por deixarem intocável a estrutura do complexo social. Daí, parecer-me injustificado o entusiasmo suscitado pela entrevista de Jorge Pinheiro com Joseph Stiglitz, na Antena Um em 5 de setembro passado. Nessa entrevista, a principal conclusão do mediático Prémio Nobel e colaborador do Expresso de Pinto Balsemão foi a de que «… as escolhas não são agradáveis, mas se reconhecermos o custo de continuar neste pântano, o risco de uma saída de Portugal do euro pode ser mais baixo do que ficar» (sublinhado meu, tradução da Antena 1).
Claro que medidas como a saída do Euro (terá de ser muito bem pensada e preparada para atenuar os custos que serão sempre consideráveis, pois uma coisa é sair do Euro e outra bem diferente seria nunca ter entrado…) ou reestruturação da dívida, particularmente esta, trazem algum alívio imediato e temporário, mas em nada contribuem para eliminar contradição entre a crescente socialização da produção e a sua apropriação individual, a contradição de sempre entre o trabalho e o capital, hoje agravada com o brutal alargamento da socialização do trabalho. Serão indiscutivelmente um alívio temporário, mas daí nunca virá a superação da crise estrutural do capitalismo, e isso, infelizmente, não é dito mesmo por quem tinha obrigação de o fazer.
É este tipo de ações e omissões que contribuem para muitos dos atuais posicionamentos ideológicos reformistas e revisionistas existentes no que resta do movimento comunista internacional.
É verdade que há algumas décadas a intensificação da crise estrutural do capitalismo então verificada foi superada, mas tal só foi possível por ter havido uma alteração, quantitativa/qualitativa, da estrutura do complexo social.
Após as visitas preparatórias de Henry Kissinger em 1971, secretário de Estado dos EUA, a que seguiu a visita de Nixon, acompanhado pelo seu secretário de Estado em 1972 à China, este país iniciou a concretização da tese já anteriormente formulada de «um país dois sistemas».
O capitalismo foi alargado à China, ao sudeste asiático, e posteriormente à Índia, que escolheram o capitalismo como via que consideraram indispensável ao desenvolvimento nos seus países. Foi uma alteração substancial da estrutura. Então, superou-se a intensificação da crise estrutural do capitalismo com esta alteração da estrutura do complexo social, mas as contradições do sistema não só permaneceram como se ampliaram e deram origem a novas contradições.
O sistema do capital alargou-se ao que faltava da Terra, e esta nova intensificação da crise estrutural do capital está muito longe da superação, tudo indicando que se aproxima um novo período de gradual agravamento. Como a crise é estrutural, só uma alteração da estrutura do complexo social a pode superar, nunca é demais repeti-lo. E as medidas de há 4 décadas não podem repetir-se, como é evidente.
É a consciência dessa realidade que levou Joseph Stiglitz à falsa solução de atirar o barro à parede… e “pode” ser que pegue.
Recorrendo a um registo diferente, em 29 de agosto, o próprio capital monopolista alinhou também com a solução de atirar o barro à parede quando, através de um dos seus porta-vozes privilegiados, a Reuters, divulga uma comunicação com o sugestivo título de «O pior cenário: os bancos preparam-se para um “inverno nuclear económico”».
E depois de constatar as quedas vertiginosas da capitalização bolsista, entre outros, do Deutsche Bank, do Crédit Suisse e do Royal Bank of Scotland, a Reuters conclui: «O “Brexit” foi a maior fonte de incertezas da agenda financeira global, mas os analistas incentivam as empresas a continuar a trabalhar, apesar do futuro incerto, e a tomar medidas para “eliminar os riscos e simplificar [mais despedimentos…] os seus negócios”».
(https://actualidad.rt.com/actualidad/217396-bancos-prepararse-invierno-nuclear-economico).
É por tudo isto que cada vez mais políticos, professores universitários e outros epígonos do sistema do capital vêem hoje o Deutsche Bank como o candidato favorito à execução do golpe de misericórdia na curta vida do euro, e o principal responsável pela destruição da «ordem europeia dos últimos 60 anos».
3 – O PS E O PAPEL INSTRUMENTAL DA SOCIAL-DEMOCRACIA
Sendo o resultado de desvios da teoria e da tática marxistas, os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas, integrados na Internacional Socialista, continuam a falar de socialismo e a intitularem-se de partidos de «esquerda».
A palavra «esquerda» é um termo politicamente degradado que, hoje, significa tudo e coisa nenhuma, pouco mais definindo que o lado das bancadas parlamentares em que se sentam os partidos a que chamam de «esquerda». A sua utilização nada esclarece, apenas confunde.
Com poucas exceções como a que resultou na eleição de Salvador Allende, no Congresso chileno, em 24 de outubro de 1970, a prática dos partidos da social-democracia foi sempre, através de um longo, persistente processo a defesa e gestão do capitalismo, num permanente alinhamento com a direita, os monopólios e o imperialismo.
Depois da auto-extinção do anterior Partido Socialista Português, os social-democratas portugueses e republicanos, limitaram-se a participar nas farsas eleitorais permitidas pelo fascismo com as limitações impostas pelo regime, sempre à espera que um golpe militar salvador devolvesse ao povo português as liberdades suficientes e o poder à burguesia liberal de que, naturalmente, eles se consideravam os lídimos representantes políticos.
A subida de Marcello Caetano ao poder (1968) reforça as ilusões entre os social-democratas: por uns foi considerado «um horizonte de esperança para o nosso povo», outros correram a S. Bento, na qualidade de antigos alunos, onde apresentaram cumprimentos e mostraram a sua confiança nas «medidas liberalizadoras», pouco mais do que mudar o nome da PIDE para DGS e aproveitar a RTP para «conversas em família», que propagandeavam naquele influente meio de comunicação a política do regime fascista.
***
Depois do 25 de Abril, o improviso de Mário Soares no 1º de Maio de 74 foi um exercício de radicalismo demagógico, em sintonia com o I Programa do Partido Socialista onde, mentirosamente, se dizia ser objetivo do Partido Socialista a «instauração em Portugal de uma democracia socialista», numa «sociedade sem classes»! Mas o Programa do PS nunca foi um guia nem um compromisso, mas sempre foi entendido pelos seus responsáveis como uma forma de angariar o apoio das massas, pelo que foi redigido em consonância com o que sabiam ser os anseios dos trabalhadores portugueses.
A vida comprovou que não é apenas por uma certa volubilidade temperamental que, frequentemente, Mário Soares dizia uma coisa hoje e o seu contrário amanhã: depois de no Barreiro, então um bastião operário, considerar a nacionalização da banca em 15 de Março de 1975, um «dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou com a nacionalização da banca privada», declarou anos mais tarde em entrevista à televisão que nunca pretendeu liquidar ou destruir os grupos monopolistas, mas apenas condicioná-los.
Líder da contra-revolução em Portugal, Mário Soares transformou então o PS no guarda-chuva protetor de toda a direita que andasse perdida à procura de abrigo.
Aliou-se a Spínola, líder de algumas das mais conhecidas e criminosas organizações terroristas e bombistas pós 25 de abril, formando, na opinião de Álvaro Cunhal, «uma das mais estáveis e duradouras alianças político-militares do processo contra-revolucionário». Logo no 1º Governo Provisório [diz Spínola], «sempre (me) expôs, com a máxima lealdade, as suas opiniões e me alertou para os perigos que o País estava a correr com base na atuação do PC».
No princípio de julho de 1974, teve conhecimento antecipado, se não mesmo participação ativa, da primeira tentativa de golpe contra a democracia portuguesa: reuniu com o Primeiro-ministro Palma Carlos, à margem do governo de que fazia parte, sem o informar como era seu mais elementar dever de lealdade, onde lhe foi exposto o plano golpista de Spínola. Mais tarde disse que discordou, mas logo acrescentou que isso não pressupunha a sua vontade «de que o general Spínola caísse ou saísse de cena», pois queria aguentá-lo…
Depois de Spínola ter uma vez mais conspirado, agora de armas na mão, contra a revolução de abril (11 de março de 1975) e, posteriormente, dirigido a rede bombista que assassinou pessoas e destruiu bens em Portugal, Mário Soares promove o seu regresso ao país e, não só o iliba de qualquer acusação judicial pelos crimes cometidos, alguns deles de sangue, como lhe atribuiu o cargo de chanceler das ordens. [3]
Uma vergonha!

4 - O PS não mudou de identidade

Se extirpar o tumor que a coligação constituía era um imperativo, não se pode esquecer que o PS de António Costa é o partido que se fundiu ideologicamente com a direita, num longo processo iniciado pelo seu primeiro secretário-geral, Mário Soares, e concluído por José Sócrates, de quem Costa foi ministro de Estado e da Administração Interna (2005-2007), cargo que abandonou para se candidatar à Câmara de Lisboa, desafio que lhe foi feito por José Sócrates.
E, apesar da sufocante ditadura mediática há uma consciência generalizada dessa fusão, do que o PS tem sido, e do que fez ao longo dos últimos 42 anos.
Como também não se pode esquecer que a solução encontrada está longe de ser a única possível, desde logo, pela decisão tomada de manter as massas afastadas da procura da solução, em vez de com a sua luta as fazer participar nesta ou numa outra solução, que não acorrentasse os trabalhadores e as suas organizações de classe ao jogo parlamentar burguês.
Em 2014, após as eleições para o Parlamento Europeu António Costa sucede a António José Seguro como secretário-geral do PS, num processo que em tudo faz lembrar o de António Guterres quando apeou Jorge Sampaio do mesmo cargo, igualmente com base numa alegada insuficiência os resultados eleitorais do Partido.
O PS de António Costa é o mesmo PS de Mário Soares, de Vítor Constâncio, de Jorge Sampaio, de António Guterres, de José Sócrates e António José Seguro. Não alterou a sua opção de classe, mantém os mesmos princípios identitários e os objetivos de sempre, o que lhe permitiu ser o interlocutor privilegiado, como a vida evidenciou, do capital monopolista português, do imperialismo e das suas estruturas de intervenção, situações que, em princípio, poderiam parecer mais adequadas ao PSD e CDS.
Penso que foi por tudo o que acima se sumaria, que à necessidade de pôr cobro à devastação perpetrada pela coligação PSD/CDS e ao alívio sentido pelo afastamento da coligação PSD/CDS do governo não sucedeu qualquer euforia ou esperança, mesmo entre quem alimenta ilusões com a solução encontrada para o governo do PS.
Só a luta de massas, organizada, disciplinada, com objetivos claros e definidos, com palavras de ordem precisas, bem pensadas e adequadas a cada momento preciso podiam ter levado a uma solução diferente que abrisse uma janela de esperança entre a classe trabalhadora.
Só o efetivo e constante reforço das organizações dos trabalhadores, a sua atenta auscultação podem aprofundar a necessidade e a disponibilidade dos trabalhadores para lutarem por uma clara e profunda transformação social.
Nota:
[1] Sobre a sequência das declarações dos responsáveis partidários na noite eleitoral de 4 de dezembro ver: http://www.dn.pt/politica/interior/passos-coelho-seria-estranho-que-quem-ganhasse-as-eleicoes-nao-pudesse-governar-4814650.html); e http://www.dn.pt/politica/interior/sem-maioria-absoluta-psd-e-cds-perdem-o-governo-diz-bloco-4815623.html?id=4815623
[2] Embora a China continua a crescer a ritmos impensáveis para qualquer país desenvolvido a taxa de crescimento já não se apresenta folgadamente com dois dígitos, e tem mostrado uma tendência inalterável para baixar.
[3] Ver «Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido», de Rui Mateus D. Quixote em:
https://aventadores.files.wordpress.com/2010/12/livro_contos_proibidos.pdf.

in ODiario.info

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.