Translate

sábado, 27 de dezembro de 2025

 Arthur Schopenhauer

 

O Mundo Como Vontade e Representação

 

 

INTRODUÇÃO DE ROBERT ZIMMER

“A experiência do mundo de Schopenhauer, impregnada de pessimismo, subjaz à sua reflexão filosófica, que culminou num golpe de génio: O Mundo como Vontade e Representação, publicado em 1819, obra de um homem de trinta anos, ampliado, mais tarde, em 1844, para dois volumes, continua fundeado no porto da filosofia ocidental como um navio-tanque exótico. Deus, o velho capitão do idealismo e do racionalismo, não se encontra aqui em lado nenhum, e a razão, até esse momento incontestado timoneiro dos mares filosóficos, foi aqui degradada a grumete encarregado de esfregar o convés. Na ponte de comando, está um indivíduo desbragado de má reputação, um flibusteiro incansável e apostado, ao mesmo tempo, numa destruição implacável, chamado ‘vontade’. As suas acções não obedecem a nenhum plano e as suas rotas não estão desenhadas em nenhuma carta náutica.” [Da Introdução de Robert Zimmer] 

 Bertrand.pt - Como ganhar uma discussão (mesmo sem ter razão)Inspirado nos escritos de Aristóteles, Arthur Schopenhauer explica a diferença entre lógica e retórica, mostrando como é possível, através do poder da palavra, de truques e de armadilhas dialéticas, vencer qualquer argumentação, mesmo sem estar do lado da verdade – assim se vencem debates, se desmentem factos e se manipulam opiniões.
Neste ensaio tão sarcástico quanto perspicaz, o filósofo alemão reuniu 38 estratégias que o vão ajudar não só a convencer alguém de uma tese, como também a defender-se de truques menos honestos que podem ser usados contra si (o que acontece mais vezes do que imagina…).Bertrand.pt - A Arte de Ter Sempre Razão

 

«Com Hegel, a dialéctica atinge o seu perfil filosófico mais elevado. Schopenhauer […] replica com uma operação de força igual e contrária, e redu-la ao mínimo, considerando-a a arte de ter razão, a teoria de arrogância humana natural. Operação que, de um ponto de vista filosófico, é provavelmente menos profunda, mas que acaba por se revelar mais bem-adaptada às mudanças dos tempos, porque Schopenhauer não liga a dialéctica a uma filosofia, mas à própria condição do homem enquanto animal dotado de palavra, quer dizer […], enquanto ser a quem os deuses deram a palavra para que possa ocultar o seu pensamento.»

Franco Volpi

 Bertrand.pt - Aforismos para a Sabedoria da Vida

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

 

Greg Godels 

 

Pode-se pensar que a recente votação do Conselho de Segurança da ONU sobre o plano dos EUA/Israel para manter Gaza como uma semicolónia – governada descaradamente com a brutalidade do antigo Congo Belga – poderia ter provocado uma resistência do "anti-imperialismo" dos BRICS. Em vez disso, os amigos mais sonoros dos BRICS em Gaza optam por se abster na votação. 

 

 

 

 

A multipolaridade – a ideia de que existe mais do que um ator económico decisivo na economia global – é um facto importante. Mais do que qualquer outra coisa, a ascensão da República Popular da China demonstra esse facto. O tamanho e a taxa de crescimento, juntamente com a grande Iniciativa do Cinturão e Rota, estabelecem que a RPC funciona de forma um tanto independente do maior ator mundial no mercado global – os EUA. Enquanto a RPC rejeita a linguagem da rivalidade, caracterizando a sua relação desejada com os EUA como de cooperação ou parceria, o simples facto de os EUA rejeitarem essa relação cria outro polo competitivo na economia global, centrado na RPC. 

Da mesma forma, a classe dominante dos EUA procurou absorver o mundo pós-soviético – Rússia, Europa Oriental e outros ex-colaboradores soviéticos – para a ordem económica dominada pelos EUA. Os EUA exigem que joguem o mesmo jogo e pelas mesmas regras ou sejam banidos da participação. Quando eles se opõem ou desafiam esses termos, também se tornam necessariamente polos alternativos. 

 

À medida que outros participantes anteriormente menores ou concordantes – Brasil, Índia, etc. – ganharam estatura económica, também podem representar contrapontos à unipolaridade dos EUA. 

 

A tendência de afastamento do domínio completo dos EUA na economia de mercado internacional é uma realidade do nosso tempo. Nenhuma pessoa racional pode contestar esse facto (embora a tendência possa facilmente inverter-se). 

 

Desde a origem do comércio internacional, houve tendências conflituantes e contra-tendências em direção à concentração e diversidade, ao monopólio e à concorrência,  à unipolaridade e multipolaridade. É da própria natureza, da essência da troca mercantil que um interveniente privilegiado apareça a dominar, apenas para ser desafiado por rivais que posteriormente compartilham ou dominam o mercado, e o processo repete-se ou reverte-se. Como Friedrich Engels insistiu: "Em resumo, a concorrência passa a monopólio. Por outro lado, o monopólio não pode conter a maré da concorrência – na verdade, ele próprio gera concorrência." 

 

A história mostra que muitos impérios ou países surgiram para dominar uma zona de comércio ou troca contra os seus "parceiros" comerciais: domínio veneziano no Mediterrâneo, domínio holandês no comércio europeu com as Ilhas das Especiarias, domínio dos sucessivos impérios europeus no comércio de escravos, domínio britânico no comércio de ópio com a China, etc. Em quase todos os casos, outros impérios ou nações desafiam e frequentemente prevalecem. 

 

Com a ascensão da Guerra Fria, os imensamente poderosos EUA assumiram e mantiveram o papel de liderança no governo e proteção da ordem capitalista, então mais de metade da população mundial. Após a queda da União Soviética, os líderes dos EUA procuraram estender o seu domínio sobre o mundo inteiro, vislumbrando uma nova ordem que codificasse e garantisse as desigualdades existentes e o desenvolvimento desigual estabelecido. Claro, esse status privilegia os interesses dos EUA. 

 

Se esse estado de coisas constitui o que as pessoas consideram unipolaridade, então está claro que não é sustentável. Os concorrentes erguer-se-ão sempre para desafiar o domínio dos EUA. Os rivais vão empenhar-se em romper o domínio económico dos EUA, através da inovação, de enganos, truques, manipulação de mercado, alianças e até conflitos abertos. Esse é o caminho do capitalismo. 

 

E é isso que está a acontecer. 

 

Assim, as tendências alternadas entre multipolaridade e unipolaridade são consequências inevitáveis da troca mercantil num mundo de propriedade privada e interesses nacionais. 

 

Deve-se notar que – se tudo o mais permanecer igual – essa dinâmica não garantirá que os trabalhadores beneficiem ou sejam prejudicados por mudanças nos polos existentes. Mudanças na posição económica relativa dos Estados-nação na economia global são neutras em relação ao destino daqueles que vivem em sociedades de classes. Um trabalhador ou um camponês podem ganhar pouco com uma tendência de passagem da unipolaridade para a multipolaridade – qualquer ganho será determinado por outros fatores. 

 

***** 

 

Existe, no entanto, uma compreensão totalmente diferente da multipolaridade, não relacionada com a tendência factual da concorrência em levar a economia global para um mundo unipolar ou multipolar. Desde a época de Karl Kautsky, os que se consideravam de esquerda investiram na multipolaridade como resposta moral ao imperialismo, como antídoto para a exploração económica, como anti-imperialismo. Os Estados-nação eram e são considerados como aceitando racionalmente uma ordem estável baseada em interesses comuns e relações justas e equitativas (se ao menos os predadores fossem domados!). Lenine ridicularizou essa visão e a Primeira Guerra Mundial  esmagou-a. 

 

Mas ela não desaparece! A ilusão de uma irmandade de potências capitalistas aceitando relações justas e equitativas persiste teimosamente! 

 

Liberais e sociais-democratas investiram fortemente na Liga das Nações, um reajustamento das regras da política e economia internacionais após o desastre da Primeira Guerra Mundial. Esperava-se que quer as pequenas nações quer as grandes vivessem amigavelmente sob o seu guarda-chuva. A Liga prometeu sufocar a agressividade e a dominação das grandes potências. Em menos de duas décadas, a Guerra Mundial voltou a estar na agenda. 

 

Mais uma vez, após a Segunda Guerra Mundial, uma nova instituição "multipolar" surgiu – as Nações Unidas. Dominada por potências capitalistas (a maioria também fantoches da classe dominante dos EUA), a promessa de diversos polos garantindo paz, harmonia e justiça deu lugar à manipulação, indecisão e – na melhor hipótese – à impotência. A ONU – hoje, uma instituição multipolar que governa Estados-nação orientados pelo capitalismo – é uma farsa moderna. 

 

Agora, temos os BRICS – a aliança de um conjunto heterogéneo de Estados com ideologias diferentes, modos de governo diferentes, economias diferentes, níveis de desenvolvimento e compromissos com a justiça social diferentes, mas um interesse comum em encontrar algum benefício ao reorganizar a ordem mundial existente. Centristas e gente de esquerda de todas as tendências adotaram os BRICS e os BRICS+ como uma frente anti-imperialista. Com pouca reflexão sobre a história, com pouca apreciação da diversidade e, especialmente, com pouco entendimento das economias baseadas no mercado, eles imaginam que os Estados-nação movidos pelo interesse próprio de alguma forma construirão uma organização comum governada por interesses mútuos. Kautsky abraçaria essa esperança superficial. Lenine descartá-la-ia sumariamente. 

 

Persistente e consistentemente, desafiei esse conceito equivocado de anti-imperialismo. Os BRICS não são uma resposta ao imperialismo mas uma aliança de monopólios, não é uma resposta à exploração capitalista. 

 

E essa é a tragédia da solução dos BRICS para o imperialismo. Ela não aborda a base do imperialismo: o modo de produção capitalista. Ela distrai os guerreiros da justiça social, e até alguns marxistas, da raiz do aumento da desigualdade dentro e entre as nações. Através da ignorância ou frustração, cria a falsa esperança de moderar a exploração sem confrontar o capitalismo. 

 

***** 

Onde os argumentos teóricos falham, tenho proposto um teste prático de multipolaridade e, especificamente, de BRICS. Se os BRICS são uma alternativa anti-imperialista, então eles – ou os seus membros mais comprometidos – devem manter-se firmes contra os atos mais gritantes, mais flagrantes do imperialismo. Sugeri que a resposta dos membros dos BRICS às atrocidades em Gaza é um teste decisivo de compromisso com o anti-imperialismo, um teste que os BRICS falharam miseravelmente. 

 

Pode-se pensar que a recente votação do Conselho de Segurança da ONU sobre o plano dos EUA/Israel para manter Gaza como uma semicolónia – governada descaradamente com a brutalidade do antigo Congo Belga – poderia ter provocado uma resistência do "anti-imperialismo" dos BRICS. Em vez disso, os amigos mais sonoros dos BRICS em Gaza optam por se abster na votação. 

 

E, sim, alguém pensaria que essas abstenções escandalosas fariam muitos multipolaristas pararem para repensarem a sua ilusão de uns BRICS anti-imperialistas. 

 

E muitos à esquerda recuaram diante desse plano e criticaram as abstenções russa e chinesa. O Partido Comunista Palestino denunciou a votação, assim como outros partidos comunistas e operários. 

 

Num artigo intitulado "Os BRICS São os Novos Defensores do Livre Comércio, da OMC, do FMI e do Banco Mundial e Apoiam o Genocídio ao Continuar a Negociar com Israel", Yves Smith, do Naked Capitalism, desafia vigorosamente os BRICS a respeito de Gaza e cita outros, incluindo a podcaster de esquerda Fiorella Isabel e a jornalista de esquerda Vanessa Beeley. 

 

Ainda assim, apologistas como os Amigos da China Socialista defendem a abstenção da China e da Rússia. Eles argumentam de forma bizarra que: "Para a China, ou a Rússia, exercer o veto apenas teria enfraquecido a sua posição em relação às nações árabe e islâmica e, consequentemente, fortalecido ainda mais a dos Estados Unidos." Como se votar contra a resolução do Conselho de Segurança lhes custasse a amizade com alguns dos traidores da causa palestiniana, e desafiar o plano dos EUA teria de alguma forma fortalecido a já complacente relação dos EUA com esses mesmos traidores ao destino de Gaza. 

 

Desde a resolução sobre Gaza, os EUA lançaram uma ofensiva contra a soberania venezuelana. O poder militar dos EUA é colocado em águas próximas da Venezuela, insistindo que o povo venezuelano se curvará à pressão americana. A ameaça é real e acompanhada pela demonstração repugnante do poder dos EUA com o assassinato de tripulações de barcos em águas internacionais, assassinatos que não têm legitimidade estabelecida. 

 

Como responderam a RPC e a Rússia – a "lança" do anti-imperialismo do BRICS ? 

 

Kejal Vyas e James T. Areddy, escrevendo no The Wall Street Journal, afirmam com ar convencido: "Durante duas décadas, a Venezuela cultivou aliados anti-americanos ao redor do mundo, desde a Rússia e a China a Cuba e ao Irão, na esperança de formar uma nova ordem mundial que pudesse enfrentar Washington. Não está a funcionar." Eles entendem que Cuba e o Irão não estão em posição económica de ajudar a Venezuela. Quanto à Rússia e à China, os autores concluem: "Ambos os países estão agora a tentar negociar grandes acordos diplomáticos e comerciais com Trump, dando-lhes pouco incentivo para desperdiçar capital político com a Venezuela." 

 

Deve ser claramente entendido que a Rússia, a RPC e outros Estados dos BRICS têm o direito soberano de forjar a sua própria política externa coletiva ou independente, não obstante o que outros possam querer. Infelizmente, ao contrário do auge da Guerra Fria contra Estados socialistas, nenhuma grande potência ou aliança está disposta a arriscar confrontos com outras grandes potências, onde a disposição para isso é historicamente a medida do anti-imperialismo autêntico. 

 

Deveria ser igualmente claro que aqueles que elevam os países BRICS ao estatuto de ícones anti-imperialistas estão a prejudicar a esquerda. Por mais bem-intencionados que alguns líderes dos BRICS possam ser, ficam muito aquém de constituir um bloco anti-imperialista. Continuar a fantasia de que a união em torno do BRICS é a base de uma frente anti-imperialista só desvia a esquerda de atacar a base do imperialismo: o capitalismo. 

 

 

 

Fonte: https://mltoday.com/brics-will-fail-to-deliver-anti-imperialism/, publicado e acedido em 21.12.2025 

Foto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:BRICS.svg 

 

Tradução de TAM

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 

O mundo após o declínio estadunidense

Tradução
Pedro Silva

 

UMA ENTREVISTA DE

Arman Spéth

Ao descrever o estado atual do mundo, ficou mais difícil evitar clichês. A guerra econômica desencadeada por Donald Trump, a crescente recusa da China em aceitar suas provocações e a guerra em curso na Ucrânia geraram níveis de incerteza sistêmica nunca vistos desde o período entreguerras, se não antes. O medo de outra grande crise, ou mesmo de outra grande guerra, é compreensivelmente generalizado — talvez em nenhum lugar mais do que na Europa, a região que mais tem a perder com a emergente Guerra Fria.

Quanto dessa turbulência pode ser atribuída a um líder estadunidense errático e quanto é resultado de transformações estruturais mais profundas? O surgimento de potências capazes de rivalizar com os Estados Unidos aponta para a possibilidade de uma ordem global mais justa, ou uma hegemonia está simplesmente sendo substituída por outra? E, mais importante, o que tudo isso significa para a vida e as perspectivas políticas dos trabalhadores?

Arman Spéth conversou com o economista marxista Michael Roberts, autor dos livros The Great Recession: A Marxist View [A Grande Recessão: Uma Visão Marxista] e The Long Depression [A Longa Depressão], para saber sua opinião sobre a economia global cada vez mais fragmentada e suas consequências políticas.


ARMAN SPÉTH

Os deslocamentos geopolíticos que presenciamos atualmente são inconcebíveis sem considerar o segundo governo de Donald Trump. Desde que ele retornou ao poder, tanto a política interna quanto a externa dos Estados Unidos mudaram de rumo inegavelmente — e, dado o papel dos Estados Unidos como ator hegemônico global, isso inevitavelmente afeta o resto do mundo. Afastando-se do caos cotidiano, você vê algo que se aproxime de uma estratégia consistente na política econômica de Trump? Existe um método nessa loucura — e, em caso afirmativo, qual é exatamente?

MICHAEL ROBERTS

Primeiro, Donald Trump é um indivíduo seriamente disfuncional, cuja autoexaltação, arrogância intensa e falta de empatia humana são óbvias para todas as pessoas razoáveis. Suas declarações públicas e seus ziguezagues em relação a políticas (tarifas, conflitos internacionais e todo tipo de questões culturais e sociais) demonstram isso. Mas há método nessa loucura. A estratégia de Trump visa restaurar a base industrial dos Estados Unidos, reduzir o déficit comercial em bens e reafirmar a hegemonia global dos EUA, particularmente contra a China.

Trump e seus acólitos do MAGA estão convencidos de que os Estados Unidos foram privados de seu poder econômico e status hegemônico por outras grandes economias, que roubaram sua base industrial e impuseram todo tipo de bloqueio à capacidade das corporações estadunidenses (particularmente as empresas de manufatura) de dominar o mercado. Para Trump, isso se expressa no déficit comercial geral dos Estados Unidos com o resto do mundo.

Donald Trump frequentemente se refere ao presidente dos EUA, William McKinley, ao anunciar suas tarifas. Em 1890, McKinley, então membro da Câmara dos Representantes, propôs uma série de tarifas para proteger a indústria estadunidense, que foram posteriormente adotadas pelo Congresso. Mas as medidas tarifárias não funcionaram bem. Elas não evitaram a grave depressão que começou em 1893 e durou até 1897. Em 1896, McKinley tornou-se presidente e presidiu um novo conjunto de tarifas, a Lei Tarifária Dingley de 1897. Como este era um período de expansão, McKinley alegou que as tarifas ajudariam a impulsionar a economia. Chamado de “Napoleão Protecionista”, ele vinculou sua política tarifária à tomada militar de Porto Rico, Cuba e Filipinas para estender a “esfera de influência” dos Estados Unidos, algo que Trump ecoa hoje com seus comentários sobre o Canadá, a Groenlândia ou Gaza. No início de seu segundo mandato como presidente, McKinley foi assassinado por um anarquista que ficou furioso com o sofrimento dos trabalhadores rurais durante a recessão de 1893-97, atribuindo a McKinley a culpa por isso.

“Trump e sua equipe pretendem enfraquecer, estrangular e promover uma ‘mudança de regime’ na China, ao mesmo tempo em que assumem o controle hegemônico total sobre a América Latina e o Pacífico.”

Agora temos outro “Napoleão Protecionista” na figura de Trump, que afirma que suas tarifas ajudarão os fabricantes estadunidenses. O objetivo de Trump é claro: ele quer restaurar a base industrial estadunidense. Grande parte das importações que chegam aos Estados Unidos de países como China, Vietnã, Europa, Canadá, México, etc., são de empresas estadunidenses que vendem produtos de volta aos Estados Unidos a um custo menor do que se fossem produzidos no país. Nos últimos quarenta anos de “globalização”, empresas multinacionais nos Estados Unidos, Europa e Japão transferiram suas operações de manufatura para o Sul Global para aproveitar os baixos custos de mão de obra, a ausência de sindicatos ou regulamentações e o acesso à tecnologia mais recente. Mas, como resultado, esses países na Ásia industrializaram drasticamente suas economias e, assim, ganharam participação de mercado na manufatura e nas exportações, deixando os Estados Unidos recorrendo a marketing, finanças e serviços.

Isso importa? Trump e sua equipe acham que sim. Seu objetivo estratégico final é enfraquecer, estrangular e implementar uma “mudança de regime” na China, ao mesmo tempo em que assumem o controle hegemônico total sobre a América Latina e o Pacífico. Portanto, a indústria manufatureira dos EUA deve ser restaurada internamente. Joe Biden estava ansioso para fazer isso por meio de uma “política industrial” que subsidiasse empresas de tecnologia e infraestrutura manufatureira, mas isso significou um enorme aumento nos gastos do governo que, por sua vez, elevou o déficit fiscal a níveis recordes. Trump considera que impor tarifas para forçar as empresas manufatureiras estadunidenses a voltarem para casa e as empresas estrangeiras a investirem nos Estados Unidos é um caminho melhor. Ele acredita que pode impulsionar a manufatura, gastar mais em armas e reduzir impostos para as empresas, ao mesmo tempo em que corta os gastos sociais e, assim, manter o orçamento do governo e o dólar estáveis ​​— tudo por meio de aumentos de tarifas.

AS

Quais são as chances dessa aposta dar certo?

MR

Isso não vai acabar bem. Na década de 1930, a tentativa dos Estados Unidos de “proteger” sua base industrial com as Tarifas Smoot-Hawley só levou a uma nova contração na produção, à medida que a Grande Depressão envolvia a América do Norte, a Europa e o Japão. As grandes empresas e seus economistas condenaram as medidas Smoot-Hawley e veementemente fizeram campanha contra elas. Henry Ford tentou convencer o então presidente Herbert Hoover a vetar as medidas, chamando-as de “estupidez econômica”. Palavras semelhantes agora vêm da voz das grandes empresas e finanças: o Wall Street Journal chamou as tarifas de Trump de “a guerra comercial mais idiota da história”. A Grande Depressão da década de 1930 não foi causada pela guerra comercial protecionista que os Estados Unidos provocaram em 1930, mas as tarifas adicionaram força à contração global, à medida que se tornou “cada país por si”. Entre os anos de 1929 e 1934, o comércio global caiu aproximadamente 66%, à medida que países em todo o mundo implementaram medidas comerciais retaliatórias.

“Isso não vai acabar bem.”

Embora Trump tenha rompido com as políticas neoliberais de “globalização” e livre comércio para “tornar a América grande novamente” às ​​custas do resto do mundo, ele não abandonou o neoliberalismo para a economia doméstica. Os impostos serão cortados para as grandes empresas e os ricos, mas também o objetivo será reduzir a dívida do governo federal e cortar os gastos públicos (exceto para armas, é claro). Este ano, o déficit orçamentário dos EUA será de quase US$ 2 trilhões, dos quais mais da metade são juros líquidos — quase o mesmo que os EUA gastam com suas forças armadas. A dívida pública total pendente agora é de mais de US$ 30 trilhões ou 100% do PIB. A dívida dos EUA como porcentagem do PIB em breve excederá seu pico na Segunda Guerra Mundial. O Escritório de Orçamento do Congresso estima que, até 2034, a dívida governamental dos EUA excederá US$ 50 trilhões — 122,4% do PIB. Os EUA gastarão US$ 1,7 trilhão por ano apenas em juros.

Para evitar esse cenário, Trump pretende “privatizar” o máximo possível do governo. “Nós o encorajamos a encontrar um emprego no setor privado assim que desejar”, disse o Escritório de Gestão de Pessoal do governo Trump. Na visão de Trump, o setor público é improdutivo, mas o setor financeiro, é claro, não. “O caminho para uma maior prosperidade estadunidense é encorajar as pessoas a migrar de empregos de menor produtividade no setor público para empregos de maior produtividade no setor privado.” No entanto, esses “ótimos empregos” não foram identificados. Além disso, se o setor privado parar de crescer à medida que a guerra comercial se intensifica, esses empregos de maior produtividade podem não se materializar de forma alguma.

AS

Mas por que Trump dá tanta ênfase à revitalização da indústria e à redução do superávit comercial em bens? Como isso supostamente fortaleceria o capitalismo estadunidense — e por que ele insiste, mesmo que isso contradiga diretamente os interesses de grandes setores da burguesia dos EUA?

MR

A política proclamada por Trump de restaurar a indústria manufatureira dos EUA baseia-se na ideia de que proteger a indústria nacional da concorrência estrangeira revitalizará o capitalismo estadunidense. A ironia é que os Estados Unidos registram um superávit comercial considerável em serviços como finanças, mídia, profissões empresariais, desenvolvimento de software, etc. Assim, o déficit comercial em bens manufaturados é compensado, em parte, pelas exportações de serviços.

“Embora Trump tenha rompido com a ‘globalização’ neoliberal e o livre comércio para ‘tornar a América grande novamente’ às ​​custas do resto do mundo, ele não abandonou o neoliberalismo na economia doméstica.”

A aplicação de tarifas sobre a importação de bens prejudica ainda mais a capacidade de crescimento da indústria e dos serviços dos EUA, pois aumenta o custo dos componentes que entram na produção final. Isso aumentará os preços se esses custos forem repassados ao consumidor ​​ou reduzirá a lucratividade, caso contrário — ou ambos.

As contradições nas tarifas e deportações de Trump foram graficamente reveladas na recente prisão e remoção de mais de quinhentos técnicos coreanos que trabalhavam em um projeto de baterias de carros Hyundai na Geórgia. Trump quer que empresas estrangeiras invistam em empregos nos Estados Unidos, mas depois prende trabalhadores estrangeiros da construção civil. Ele argumenta que as receitas provenientes dos aumentos de tarifas ajudarão a reduzir os déficits e a dívida do governo federal, mas o aumento da receita é insignificante em comparação com as reduções na receita provenientes dos cortes de impostos para empresas e os estadunidenses mais ricos em seu “Big Beautiful Bill”. Trump às vezes reverteu ou reduziu seus aumentos de tarifas quando os mercados financeiros responderam negativamente, mas o setor financeiro parece cada vez mais otimista em relação às medidas de Trump. Portanto, por enquanto, ele persistirá.

AS

Olhando para além das tarifas, o contexto mais amplo é o de mal-estar econômico global. Desde o início da crise financeira global em 2007, o capitalismo global tem vivido o que você chama de uma longa depressão, caracterizada por baixa lucratividade, crescimento estagnado, crises recorrentes e recuperações fracas. Como resultado, os governos dos países ocidentais, e dos Estados Unidos em particular, vêm intervindo mais diretamente nos processos econômicos e protegendo certos interesses. Ao mesmo tempo, você enfatiza que o neoliberalismo continua muito vivo nos Estados Unidos. Isso contradiz as alegações de alguns especialistas de que o neoliberalismo está morto. Você mudou sua opinião?

MR

As principais economias capitalistas têm experimentado um ritmo de crescimento econômico muito mais lento desde a crise financeira global de 2008 e a subsequente Grande Recessão. A economia dos EUA tem se saído melhor, mas o crescimento real do PIB não ultrapassou, em média, 2% ao ano nos últimos dezessete anos, em comparação com mais de 3% ao ano antes de 2008. As outras economias do chamado G7 tiveram um desempenho pior; sua taxa média de crescimento real do PIB tem sido de 1% ao ano, na melhor das hipóteses. Alemanha, França e Reino Unido estão estagnados, enquanto Japão, Canadá e Itália estão se saindo apenas marginalmente melhor.

A estagnação da produção nacional se deve à desaceleração dos investimentos produtivos, à medida que a lucratividade média do capital global se aproxima de mínimas históricas. Como isso pode ser verdade quando sabemos que as mega-gigantes da tecnologia, energia e indústria farmacêutica nos Estados Unidos estão obtendo lucros enormes? Essas empresas são a exceção à regra, em comparação com vastas faixas de negócios nos Estados Unidos, Europa e Japão. De fato, cerca de 20% a 30% das empresas em todo o mundo não obtêm lucro suficiente para pagar suas dívidas e são forçadas a tomar mais empréstimos para sobreviver. Como resultado, até agora neste século, os lucros têm sido cada vez mais investidos não em inovação e tecnologia, mas em especulação imobiliária e financeira. Wall Street prospera enquanto a Main Street enfrenta dificuldades.

“Agora, o governo estadunidense age sozinho, não apenas às custas dos países pobres do chamado Sul Global, mas também de seus parceiros menores na ‘aliança’ liderada pelos EUA.”


As políticas neoliberais baseavam-se na hegemonia dos EUA. Internacionalmente, sempre foi um disfarce para o que costumava ser chamado de Consenso de Washington, ou seja, que os Estados Unidos e seus parceiros menores na Europa e na Ásia-Pacífico decidiriam as regras sobre o livre comércio e os fluxos de capital de acordo com os interesses dos bancos e multinacionais do chamado Norte Global. Trump mudou tudo isso. Agora, o governo estadunidense age sozinho, não apenas às custas dos países pobres do chamado Sul Global, mas também de seus parceiros menores na “aliança” liderada pelos EUA.

O Estado trumpista também intervém na economia e na estrutura social dos EUA. O setor público e muitas de suas agências foram dizimados. Trump busca até mesmo assumir o controle do Federal Reserve (Fed, o banco central estadunidense). Ele governa por decreto, ignorando o Congresso e os tribunais. O livre comércio foi substituído pela proteção; e a imigração foi substituída pela deportação. Ainda assim, sob Trump, o neoliberalismo — no sentido da desregulamentação dos controles ambientais, das salvaguardas sanitárias, dos riscos financeiros e dos cortes nos gastos públicos e nos impostos para os ricos — continua.

AS

Vamos nos voltar para os “parceiros menores” dos Estados Unidos. A UE enfrenta uma humilhação sem precedentes, consentindo efetivamente em sua total subordinação aos Estados Unidos. Isso sinaliza uma clara fraqueza econômica e política. Ao mesmo tempo, a UE tenta conter seu declínio fortalecendo indústrias-chave por meio de iniciativas protecionistas e lideradas pelo Estado, como a Lei dos Chips, o Acordo Verde, etc. O senhor vê alguma chance realista de a Europa interromper sua relevância decrescente no mercado mundial?

MR

Os líderes dos principais países da UE se automutilaram. A crise financeira global de 2008 impôs um enorme endividamento aos países mais fracos da UE. Eles impuseram medidas de austeridade draconianas aos seus cidadãos para atender às demandas dos bancos e das instituições da UE: o BCE e a Comissão Europeia. As taxas de crescimento da produtividade do trabalho, do investimento e da renda real nas principais economias desaceleraram drasticamente, e as principais economias da Europa (incluindo o Reino Unido) não conseguiram acompanhar os avanços tecnológicos mais recentes.

E então veio a guerra na Ucrânia. A política de sanções contra a Rússia e o fim das importações russas de petróleo e gás elevaram os preços da energia a níveis recordes. Isso paralisou a indústria alemã e europeia. A Alemanha rapidamente deixou de ser a potência industrial da Europa e entrou em estagnação e recessão, agora pelo terceiro ano consecutivo. França e Itália não se saíram muito melhor, e a economia britânica está claramente quebrada, com poucos sinais de recuperação.

“Os líderes da UE também estão aplicando sanções e tarifas sobre produtos chineses a mando dos Estados Unidos, ilustrando ainda mais sua covarde subserviência como Estados vassalos de Washington.”

Para agravar a situação, os líderes europeus tornaram-se obcecados em afirmar que a Rússia de Vladimir Putin está prestes a invadir a Europa e “acabar com a democracia”. É difícil dizer se realmente acreditam nisso, mas a solução para eles é exigir que os militares estadunidenses permaneçam na Europa. Os líderes da UE também estão aplicando sanções e tarifas sobre produtos chineses a mando dos Estados Unidos, ilustrando ainda mais sua covarde subserviência como Estados vassalos a Washington.

Enquanto isso, os gastos governamentais europeus têm registrado aumentos acentuados nos gastos militares — mais que dobrando sua participação no PIB antes do final desta década — em detrimento do investimento produtivo, das medidas climáticas, dos serviços públicos e da assistência social. Não é de se admirar que as forças da reação estejam rapidamente ganhando força com suas políticas racistas, anti-imigrantes, céticas em relação ao clima e de “livre mercado” em quase todos os Estados europeus. Diante desse cenário, e do fato de não haver sinais de mudança na trajetória da UE, o declínio relativo da Europa tende a se acelerar. Charles de Gaulle, da França, Helmut Kohl, da Alemanha, e até mesmo Margaret Thatcher, da Grã-Bretanha, devem estar se revirando em seus túmulos.

AS

O declínio e a subordinação da UE aos interesses estadunidenses não podem ser compreendidos isoladamente das mudanças mais amplas no poder global. Trump não está apenas buscando tarifas, mas mudando as condições sob as quais os Estados Unidos exercem seu papel de hegemonia global. Ele busca se livrar dos fardos e obrigações da liderança hegemônica e substituí-los por um sistema de dominação nua e crua. Mas, ao fazê-lo, ele intensificou um processo já em curso: o declínio relativo da hegemonia estadunidense, cujos fundamentos econômicos vêm se erodindo há algum tempo. Isso levará a uma ordem multipolar mais estável ou estamos caminhando para uma fase caótica de rivalidades entre grandes potências?

MR

Trump se considera um “negociador” por excelência. E, na negociação, regras e regulamentos acordados são apenas um obstáculo. Na sua visão, ele pode fechar acordos comerciais internacionais que correspondam aos interesses dos Estados Unidos por meio de negociação direta com os líderes da Europa, Japão, etc. Ele pode acabar com as guerras na Ucrânia, no Oriente Médio, na África e no Sul da Ásia por meio de barganha direta, usando incentivos e ameaças. Essa é a abordagem de Trump para tudo.

Mas, por trás de seus acessos de raiva, reside uma crença racional de que os Estados Unidos estão perdendo rapidamente seu papel hegemônico global. Visto em perspectiva histórica, isso sinaliza uma mudança na ordem global. Sim, agora temos um mundo multipolar, algo não visto desde a década de 1930. Depois de 1945, desenvolveu-se uma ordem mundial bipolar, na qual o imperialismo estadunidense governava o mundo, mas enfrentava um oponente ideológico, a União Soviética. O imperialismo dos EUA acabou vencendo a “Guerra Fria” com o colapso da União Soviética e seus satélites na Europa. A partir de então, houve a Pax Americana, mas com pouca paz real, enquanto os Estados Unidos continuavam a realizar invasões e intervenções para policiar o mundo em defesa de seus interesses e nos de seus parceiros menores no crime na Europa, Oriente Médio, América Latina e Leste Asiático.

Mas nada que é bom pode durar para sempre, e o capitalismo estadunidense entrou agora em um período de declínio irreversível. A indústria e as exportações dos EUA perderam a sua predominância nos mercados mundiais, primeiro para a Europa na década de 1960, depois para o Japão na década de 1970, mas decisivamente para a China no século XXI. Dito isto, não devemos exagerar o declínio relativo da hegemonia dos EUA. Os Estados Unidos ainda têm o maior e mais penetrante setor financeiro do mundo. O seu estoque de ativos estrangeiros é muito superior ao de qualquer outro país. O dólar continua sendo a principal moeda para o comércio, os fluxos de capital e as reservas cambiais nacionais. E as forças armadas dos EUA continuam todo-poderosas, com mais de setecentas bases em todo o mundo e um orçamento maior do que os orçamentos militares do resto do mundo juntos. Seus parceiros no crime estão desesperados por permanecer sob a asa protetora dos EUA, a fim de preservar a “democracia liberal”, ou seja, os interesses de suas elites capitalistas.

“Por trás dos acessos de raiva de Trump existe uma crença racional de que os Estados Unidos estão perdendo rapidamente seu papel hegemônico global.”

Mas agora existem potências significativas e recalcitrantes que não estão jogando pelas regras dos EUA. Algumas delas, como a Rússia, originalmente queriam se juntar ao Ocidente — a Rússia foi até membro do chamado G8 por um tempo. A Índia faz parte do Quad-4, um órgão liderado pelos EUA projetado para mitigar a ascensão da China na Ásia. Quando o povo iraniano derrubou o corrupto e cruel Xá em 1979, até mesmo os mulás procuraram chegar a um acordo com os Estados Unidos e o Ocidente. A África do Sul pós-apartheid também estava ansiosa para se juntar ao Ocidente, apesar de décadas de apoio a governos opressivos do apartheid pelos Estados Unidos e seus aliados. Mas todos os membros do que hoje é chamado de BRICS foram rejeitados pela aliança liderada pelos EUA. O chamado Consenso de Washington, a plataforma ideológica de sucessivos governos dos EUA, visava, em vez disso, a mudança de regime na Rússia, no Irã e, acima de tudo, na China. A sorte estava lançada para um mundo multipolar.

Ainda assim, os BRICS não constituem uma alternativa coerente ao domínio dos EUA. Isso significa que a ideia de um mundo multipolar substituindo a hegemonia estadunidense é prematura. É claro que a Pax Americana, como existiu após a Segunda Guerra Mundial e novamente após o colapso da União Soviética na década de 1990, não funciona mais. Mas os chamados BRICS são uma formação diversificada e flexível de potências regionais sediadas nos países mais populosos e frequentemente mais pobres do mundo, com poucos interesses em comum. Não são os BRICS como tal que representam a ameaça ao domínio dos EUA, mas sim o crescente poder econômico da China — potencialmente um inimigo muito mais poderoso e resistente do que a União Soviética jamais foi.

AS

O declínio da hegemonia dos EUA também levanta a questão das alternativas progressistas e da posição que a esquerda deve assumir. Três tendências se destacam: primeiro, o apoio ao nacionalismo econômico — a ideia de que proteger a própria economia pode proteger empregos e salários da concorrência global. Segundo, um lamento surpreendentemente nostálgico pelo fim do livre comércio — reflexo, por sua vez, dos temores de um nacionalismo ressurgente. E terceiro, uma orientação em direção à multipolaridade e aos BRICS — frequentemente vista como uma alternativa progressista ao imperialismo estadunidense. Nenhuma dessas posições parece particularmente convincente. Como poderia ser uma perspectiva de esquerda que não se prenda ao nacionalismo, à nostalgia do livre comércio ou à orientação em direção a uma multipolaridade capitalista fragmentada?

MR

A “esquerda”, como você a descreve, é o que eu chamaria de esquerda reformista, liberal ou social-democrata. Essa esquerda parte da premissa de que não há alternativa ao sistema capitalista, porque qualquer ideia de socialismo há muito tempo desapareceu. O trabalho dessa esquerda, na visão deles, é fazer com que o capitalismo funcione de forma mais justa para a maioria, mas sem prejudicar significativamente os interesses do capital, porque isso mataria a galinha dos ovos. Essa esquerda perdeu força, porque a galinha dos ovos capitalista não está mais botando ovos suficientes para todos e, cada vez mais, os produz apenas para a minoria dominante.

A esquerda liberal costumava elogiar o sucesso da globalização e do livre comércio no período da Grande Moderação, a partir da década de 1990. A crise financeira global e a Grande Recessão, seguidas pela Longa Depressão da década de 2010, a devastadora crise pandêmica de 2020, a consequente espiral inflacionária no custo de vida — tudo isso expôs o fracasso do capitalismo em atender às necessidades sociais da maioria nos Estados Unidos, na Europa e em todo o mundo no século XXI.

O liberalismo e a reforma gradual, outrora defendidos com sucesso pela esquerda liberal, foram desacreditados em todos os lugares. Foram substituídos pelo apoio popular a um nacionalismo grosseiro, na forma de racismo anti-grandes empresas e anti-imigrantes, disseminado pelos Estados Unidos e pela Europa (por exemplo, 70% das pessoas detidas nos centros de detenção do ICE nos Estados Unidos não tinham condenações criminais, e muitas das que tinham antecedentes criminais cometeram apenas infrações menores, como infrações de trânsito). Trump e seus apoiadores do MAGA, Farage no Reino Unido e outros grupos semelhantes em toda a Europa representam um movimento em direção aos anos sombrios do fascismo da década de 1930, que eventualmente levaram a uma terrível guerra mundial. Para combater isso, a verdadeira esquerda deve partir da premissa de que o sistema capitalista, agora dominante globalmente, está irreversivelmente em crise.

AS

A questão da multipolaridade parece mais complexa. Para alguns, multipolaridade significa simplesmente fortalecer os países capitalistas do Sul Global. Para outros, e esta é a perspectiva mais interessante, trata-se de romper com o domínio ocidental e criar mais espaço de manobra para projetos progressistas que, de outra forma, poderiam ser sufocados pela hegemonia estadunidense.

MR

Os BRICS podem ser uma força alternativa decisiva ao imperialismo liderado pelos EUA com sua sempre ambiciosa aliança com a OTAN? Acho que não. Economicamente, os BRICS e até mesmo os BRICS+, incluindo Indonésia, Egito e possivelmente Arábia Saudita, formam um grupo disperso, no qual a China é a economia dominante. Os outros são relativamente fracos ou excessivamente dependentes de um setor, geralmente energia e matérias-primas.

A influência financeira dos BRICS, com seu Novo Banco de Desenvolvimento, é fraca em comparação com as agências do capital ocidental. Politicamente, os líderes do grupo BRICS têm interesses e ideologias diversos. A Rússia é uma autocracia de compadrio. O Irã é governado por uma elite religiosa islâmica. A China, apesar de seu sucesso econômico fenomenal, tem um regime de partido único. A Índia é governada por um partido nacionalista hindu ex-fascista que reprime qualquer dissidência. Esses não são governos que defendem o internacionalismo ou a democracia dos trabalhadores. Dentro desses países, não há margem de manobra, como você disse. O que é necessário é a remoção desses regimes pelos movimentos dos trabalhadores para estabelecer democracias socialistas genuínas que liderem a mudança internacional.

O surgimento da multipolaridade no século XXI é consequência do declínio relativo do capitalismo estadunidense, especialmente desde a crise financeira global e a consequente Grande Recessão. Mas é uma ilusão perigosa imaginar que as potências resistentes sejam uma força a favor do internacionalismo, que alcançarão uma redução da desigualdade e da pobreza globalmente, ou que deterão o aquecimento global e o iminente desastre ambiental. Precisamos de uma internacional de governos socialistas para isso. Se um governo socialista chegasse ao poder em uma grande economia, isso abriria espaço para outros países resistirem ao imperialismo. Um governo socialista poderia trabalhar com países fora do controle dos EUA, como Venezuela ou Cuba, que hoje têm opções muito limitadas. Mas, o mais importante, também inspiraria o movimento por governos socialistas democráticos em todo o mundo.

Michael Roberts

trabalhou como economista na City de Londres por mais de trinta anos. Ele é autor de "A Grande Recessão: uma visão marxista" e, mais recentemente, de "A Longa Depressão".

Arman Spéth

é doutorando e pesquisa o desenvolvimento do capitalismo no Cazaquistão. Ele escreve para diversas publicações e já fez parte do conselho editorial da revista suíça Widerspruch: Beiträge zu sozialistischer Politik.

                                        Fonte : JACOBINA 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

 Quem duvida, é um traidor!
Anne Morelli
16 Dezembro 2025

Coronel suíço Jacques Baud sancionado pela União Europeia ou a aplicação perfeita do 10º princípio elementar da propaganda de guerra

«Tenho trabalhado ocasionalmente com o Coronel Baud, especialista em análise estratégica e militar, durante debates.
Não sei se ele é, como a grande imprensa quer, um “relé do Kremlin”, mas ele está obviamente muito bem informado e constitui para a versão oficial da guerra OTAN/Rússia sobre a Ucrânia, um contraditor embaraçoso.

Todos aqueles que expressam reservas em relação às teses oficiais da propaganda de guerra dos países “democráticos” são, pelo menos desde o início do século XX, descartar, desqualificar ou encobrir a reprovação. De fato, o décimo princípio elementar da propaganda de guerra diz que “aqueles que questionam a propaganda são traidores”.

Durante a Primeira Guerra Mundial, aqueles que se recusaram a publicar relatos de atrocidades inacreditáveis atribuídas ao inimigo, incorreram em indignação oficial e foram acusados de falta de patriotismo.
Questionar ou contradizer a propaganda oficial é arriscado em tempo de guerra. Fazer perguntas já é como os opositores da Primeira Guerra Mundial de vários países aliados pagaram por ela, acusados de serem “agentes da Alemanha” e conspiradores (já!). Muitas dessas indisciplinas foram presas, presas e até condenadas a trabalhos forçados.

Durante a Guerra Fria também, sem ser um agente do Kremlin, foi difícil contrariar a propaganda de seu próprio país.
A guerra contra a Iugoslávia foi novamente um exemplo marcante onde o simples fato de notar as devastações realizadas pela OTAN fez de você um “anti-ocidental” e um “anti-democrático”. A menor reserva diante das teses oficiais classificou você entre o "vermelho-marrom", os pró-sérvios ou "os cúmplices de Milosevic".

Jacques Baud claramente não está na linha da propaganda ocidental. A União Europeia pretende sancioná-lo como conspiração pró-Rússia (novamente!) e “desestabilizador” (sic).

O fato é extremamente sério e indicativo da impossibilidade em tempo de guerra de se opor à narrativa de seu governo. Mesmo que oficialmente a União Europeia não esteja em guerra com a Rússia e mesmo que a Suíça não seja membro da União Europeia!

Obviamente, não é dito em nenhuma Constituição europeia que a liberdade de expressão é abolida em tempo de guerra, mas na verdade é abolida.

No entanto, é em tempo de guerra, num momento em que os erros dos governos podem custar mais (especialmente em vidas humanas), que essa liberdade deve ser garantida para ser capaz de impedir que os governos prejudiquem, sem encontrar qualquer oposição ou qualquer contra-informação.

Anne Morelli

Professor Honorário da ULBBertrand.pt - Gouverner Par Les Fake News

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

 




  • China deve superar os Estados Unidos como maior economia do mundo nos próximos anos. (Foto: Jason Lee/Illustration/Reuters)

    As diferenças entre capitalismo ocidental e socialismo chinês

    Semelhanças aparentes escondem profundas diferenças entre as duas superpotências do nosso tempo, o que gera um complexo e necessário debate sobre as alternativas concretas para o futuro da humanidade.

    Durante a era unipolar, quando os Estados Unidos reinavam como a única superpotência do mundo, a ideia de planejar a economia para atender as necessidades do povo foi praticamente esquecida ou, pior ainda, considerada ultrapassada. Inspirados pelo julgamento afoito de que a história havia terminado após a queda do Muro de Berlim, muitos pensaram que o socialismo — e, como sua extensão, o planejamento — havia desaparecido. No entanto, o fim da União Soviética não significou nem o fim do planejamento nem da luta de classes.

    O futuro depende de uma discussão aberta e sincera em torno da questão: que tipo de planejamento econômico é capaz de resolver as tarefas que a humanidade se coloca neste século 21? Aquele que se submete à financeirização e à lógica excludente do capitalismo ocidental ou aquele que busca abrir uma situação geopolítica inédita de efetiva cooperação entre os povos de todos os países?

    A ideia do planejamento como solução para os problemas econômicos da modernidade surgiu no século 19 junto com o movimento socialista. Após as grandes mudanças históricas e políticas decorrentes da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Russa e da Crise de 1929, o planejamento econômico, em todas as suas variedades — incluindo uma explicitamente capitalista, supostamente esclarecida — tornou-se o ponto de partida do debate público sobre crescimento e desenvolvimento socioeconômico por décadas. Assim, no pós-Segunda Guerra, a experiência do planejamento foi sistematizada e aplicada tanto no mundo socialista quanto no mundo capitalista realmente existentes.

    Por isso, existem dois grandes tipos de planejamento econômico: o capitalista e o socialista. Saber identificar o que eles têm de igual e de diferente é fundamental para compreender aquilo que se poderia chamar de Guerra Fria 2.0 e que coloca os Estados Unidos e a China no centro da luta de classes mundial contemporânea.

    Dois tipos de planejamento econômico: capitalista e socialista

    Podemos definir de forma ampla o planejamento econômico como a ação de deliberadamente desenhar a economia, em vez de deixar que sua arquitetura seja a ordem espontânea resultante dos mercados livres. Essa definição negativa de planejamento, em oposição simples à mão invisível de Adam Smith, é fundamental para compreender corretamente a relação entre as mencionadas duas formas políticas de planejamento econômico: a capitalista e a socialista. Ela é especialmente útil para abarcar uma ampla gama de casos concretos que, na realidade, sempre são economias mistas. O setor privado e o setor público sempre se complementam de modo complexo para formar a unidade dos sistemas econômicos em que o mercado — seja qual for sua qualificação como capitalista ou socialista — é um componente basilar da realidade.

    Nesse sentido, as políticas de gestão macroeconômica em todas as suas vertentes, das mais conservadoras às mais progressistas, podem ser vistas como tipos de planejamento econômico. A busca ativa por resultados específicos em termos de emprego, desenvolvimento, distribuição e industrialização, ou simplesmente o esforço de superação da crise e depressão — e até mesmo a defesa de uma brutal concentração de renda por meio da manutenção da taxa de juros nas alturas — devem ser reconhecidos como negação do laissez-faire e endosso ao planejamento. Tudo depende de quem está planejando: se a minoria exploradora ou a maioria trabalhadora. A aparente confluência entre todos esses diferentes tipos de planejamento econômico, como se eles fossem idênticos, é um fenômeno peculiar que deriva da semelhança formal entre sistemas econômicos planejados para atender metas politicamente muito diversas.

    Nosso argumento é o de que, no nível teórico, os planejamentos capitalista e socialista são formalmente similares, enquanto que no nível empírico eles são realmente distintos. Essa identidade contraditória está por trás da maior parte da confusão na análise de sistemas econômicos comparados hoje. Explicá-la de acordo com a mediação cuidadosa entre diferentes níveis de abstração nos ajuda a visualizar melhor o confronto entre a classe capitalista e a classe trabalhadora em nível mundial no século 21.

    Similaridade formal

    O planejamento econômico capitalista é uma forma específica de capitalismo que já foi amplamente descrita historicamente, mas que ainda necessita de uma elaboração teórica mais profunda. A abordagem aqui empregada é a de conceituar o planejamento econômico capitalista derivando a lógica de tal sistema a partir dos fundamentos da exposição inicial de Marx em O Capital. Isso significa que, para descrever plenamente o que constitui o planejamento econômico capitalista no nível mais abstrato de análise e mostrar sua semelhança formal com o planejamento econômico socialista, precisamos por um instante imaginar o capitalismo num vazio histórico como um movimento abstrato de expansão incessante.

    Marx apresenta o capitalismo como um modo de produção em que o processo pelo qual o dinheiro se torna mais dinheiro incessantemente está no comando da reprodução material da sociedade. O circuito infinito de D – M – D’ (dinheiro – mercadoria – mais dinheiro) domina todo o processo produtivo e todo trabalho é realizado como trabalho assalariado. A continuidade expandida desse circuito depende de um encaixe continuado entre os dois universos que constituem a mercadoria: o universo dos valores de uso, que formam a riqueza concreta da sociedade, e o universo do valor, que forma a riqueza social em abstrato. Pode tal crescimento ocorrer em uma trajetória relativamente estável, na qual a população seja materialmente reproduzida? Se deixarmos de lado a realidade histórica e focarmos apenas nas leis fundamentais e abstratas de movimento do capitalismo, a resposta deve ser um inequívoco sim.

    Basta que no nosso modelo, as matrizes de insumo e produto, tendo seus encaixes garantidos, sejam reproduzidas em escalas maiores. Esse suporte de insumos e produtos  cada vez maior pode ser formatado de modo a permitir a expansão infinita da riqueza abstrata. Assim, a lógica capitalista de expansão e a própria lei do valor não contradizem um sistema econômico plenamente planejado.

    A característica mais marcante aqui é que um planejamento desta natureza não leva ao fim da alienação se o objetivo for apenas expandir o valor indefinidamente. Os elementos essenciais que transformam todos os produtos do trabalho em mercadoria ainda estão presentes e, portanto, todas as consequências alienantes enraizadas nas relações sociais de mercado também se mantêm. As contradições entre a esfera privada e a esfera pública permanecem numa espécie de suspensão. Embora essa situação ideal evite que a crise irrompa e se exteriorize, ela acumula tensões e eleva, assim, o nível de alienação a novas alturas.

    Ambientalistas, especialmente aqueles que defendem o “decrescimento”, podem, neste ponto, argumentar que esse esquema de planejamento econômico acabará por esgotar todos os recursos naturais e que, portanto, é insustentável. A questão ambiental é extremamente relevante para definir o papel do planejamento econômico no século 21. Contudo, o impulso humanista de abordá-la não pode ser estruturado de modo que a unidade da classe trabalhadora internacional seja colocada em risco.

    O ponto que se pretende enfatizar nesta etapa do argumento é que um sistema econômico de expansão infinita tanto da riqueza abstrata quanto da riqueza concreta é teoricamente concebível, e que a possibilidade de existência real de tal sistema é uma questão empírica. Consequentemente, enquanto permanecermos em um nível elevado de abstração, podemos falar de um sistema econômico planejado que atenda igualmente tanto à lógica da acumulação de capital quanto à reprodução das condições materiais/ambientais que permitem que essa acumulação continue indefinidamente. Em outras palavras, em teoria, a expansão do valor não precisa necessariamente se autodestruir. Desde que os recursos naturais sejam utilizados dentro de parâmetros específicos, a reprodução econômica pode atender à dinâmica do capital sem eliminar a base material da vida humana na Terra.

    Além da questão ambiental, existe outro argumento tradicional contra a possibilidade de tal capitalismo eterno. Ele está relacionado às consequências reais do imperialismo. Contudo, no modelo idealizado desta etapa do argumento, não existem Estados capitalistas competindo entre si. Tudo o que se tem aqui é o ímpeto de expansão do valor dominando “a população humana no planeta”.

    Ocorre que, na realidade geopolítica, existem diversos Estados formando seus próprios sistemas econômicos capitalistas nacionais que necessariamente entram em conflito devido à corrida pela dominação do mercado mundial. Focar em um alto nível de abstração nos ajuda a visualizar que a eventual existência de apenas um Estado capitalista mundial extinguiria a disputa territorial entre distintas autoridades políticas. Nesse caso, toda a variedade de conflitos da realidade geopolítica seria reduzida à uma única e mesma luta de classes, opondo proprietários da força de trabalho e proprietários dos meios de produção em escala mundial. Esse tipo de situação se assemelha àquilo que Kautsky chamou de Ultraimperialismo.

    Consequentemente, uma economia totalmente planejada não significa o fim do capitalismo. Expandir a estrutura de valores de uso que atende tanto aos desejos objetivos quanto subjetivos de forma organizada é tudo o que se exige para que a acumulação de capital continue indefinidamente. É necessário notar que, considerando esta modalidade de planejamento, não há espaço para discutir a utilidade dos bens econômicos. Eles são úteis no sentido de servirem ao processo de acumulação do capital. Assim, a própria utilidade da riqueza, nesse contexto, está inteiramente subordinada à lógica da expansão do valor. O aprisionamento psíquico-mental em massa e as guerras são resultados úteis para permitir o crescimento do capital.

    Em suma, o planejamento econômico de natureza capitalista é um sistema regulado onde se garante as condições materiais para a existência contínua da contradição crucial entre valor de uso e valor. Crise, destruição e exploração do ser humano pelo ser humano podem ser administradas ad infinitum. Se for possível montar tal sistema numa espécie de Matrix virtual, tanto melhor para o capital.

    O economista britânico John Maynard Keynes, um estrategista do planejamento e de uma nova sociedade, reconheceu esse fato e influenciou fortemente a política econômica do século 20. Ele sabia que uma economia capitalista não tem como objetivo atender às necessidades humanas, ainda que ela crie todas as condições objetivas para isso colateralmente. Se considerarmos o socialismo, em contraste com o capitalismo, como um sistema cujo objetivo é expandir a satisfação das necessidades da população, então não é difícil estabelecer uma curiosa identidade entre esses dois sistemas. Esse é o ponto crítico de uma interpretação parcial, estritamente welfarista, de socialismo.

    Se o socialismo for simplesmente pensado como um sistema econômico racional com o objetivo de elevar o bem estar da população num sentido economicista, ou seja, como um Estado de bem estar social que não ataca a dimensão imaterial da qualidade de vida nem rompe com o véu da alienação, então ele se torna formalmente similar a uma versão idealizada do capitalismo.

    Distinção real

    Similaridade formal, no entanto, não significa identidade absoluta. Assim que o planejamento econômico é concebido como política econômica com impacto no mundo real torna-se claro que o planejamento econômico capitalista e o socialista são duas coisas muito diferentes.

    Neste nível mais concreto de abstração, a análise deve levar em conta a realidade geopolítica na qual o novo paradigma de planejamento está se manifestando. As disputas que definem o planejamento econômico da Realpolitik no século 21 estão diretamente relacionadas a dois países que são os grandes atores na economia mundial contemporânea: os Estados Unidos e a China.

    Considerando que esses Estados nacionais exercem influência sobre praticamente todos os países e que uma divisão tácita ronda o debate, o conceito de Guerra Fria tem sido invocado. No entanto, há um forte consenso na literatura de que o tipo de oposição que testemunhamos hoje é muito diferente daquele do Pós-Segunda Guerra Mundial. Portanto, a analogia entre as relações Estados Unidos-China de hoje e Estados Unidos-União Soviética de ontem deve ser feita com muita cautela.

    É amplamente reconhecido que os Estados Unidos e a China compartilham muitas características, especialmente no que diz respeito aos aspectos quantitativos da economia. Também é amplamente reconhecido que os Estados Unidos e a China representam Estados nacionais que diferem fundamentalmente quanto a seus sistemas políticos.

    A metodologia analítica do par conceitual “similaridade formal” e “distinção real” pode ajudar a explicar algumas coisas na controvérsia sobre capitalismo e socialismo hoje. Enquanto o foco na similaridade formal enfatiza as características convergentes entre essas duas economias, a consideração da distinção real destaca o contraste crescente entre como elas podem vir a deixar suas respectivas marcas na história da humanidade. Há múltiplas formas de chamar a atenção para os aspectos que diferenciam os sistemas.

    A mais óbvia é notar que seus respectivos Estados nacionais descrevem sistemas políticos muito diferentes, tanto no âmbito doméstico quanto no internacional. Enquanto, de um lado, o poder econômico privado ameaça o processo democrático eleitoral interno, levando os Estados Unidos a se tornarem uma plutocracia, de outro, há uma nítida diminuição da riqueza privada enquanto fonte de poder político, o que ajuda a responder na negativa se A China se voltou ao capitalismo? — além disso, a forma como esses Estados se comportam em relação a outras nações também é radicalmente diferente, exigindo que se resgate um conceito que nunca deveria ter sido posto de lado: imperialismo.

    A avaliação de como os Estados Unidos e a China se comportam na arena internacional varia não só porque os analistas são participantes na luta de classes mundial, mas também porque divergem em questões profundas devido às suas diferentes interpretações quando estão do mesmo lado na luta. De todo modo, parece haver consenso sobre qual lado está pressionando por uma nova guerra mundial. John Mearsheimer explica desde 2014 porque a crise na Ucrânia é culpa do Ocidente, enquanto Jeffrey Sachs denuncia os US Neocons por estarem levando o mundo à guerra. Os dois passam longe do marxismo, mas reconhecem a debacle do Ocidente nos novos tempos.

    Outra maneira de separar os sistemas é apontar para diversos indicadores econômicos e sociais, de modo a comparar o desempenho desses sistemas em áreas selecionadas. Aqui, também há um contraste amplamente documentado em relação a indicadores básicos de desenvolvimento humano.

    Por exemplo, é consensual que suas respectivas contribuições para a redução da pobreza nas últimas quatro décadas diferem significativamente. Além disso, as estatísticas de defesa de suas respectivas populações contra o vírus Covid-19 denotam qual tipo de sistema é mais adequado para proteger as massas de uma ameaça à saúde pública. Nesse sentido, relatórios sobre a expectativa de vida e as taxas de suicídio indicam um nítido contraste: a qualidade de vida em queda livre nos Estados Unidos, subindo na China.

    Todos esses dados empíricos são, evidentemente, altamente disputados, como já era regra durante a Primeira Guerra Fria, quando os sistemas econômicos comparados constituíam um dos campos mais populares da pesquisa científica em economia. Assim, indicar os elementos de distinção real não leva necessariamente a tomar partido. Significa apenas que deve haver alguma forma de conceber essas diferenças concretas sem precisar abandonar a noção de similaridade formal, que tem sua função: a de reconhecer o processo amplamente contraditório de transição do capitalismo para o socialismo no mundo real.

    Em outras palavras, a classificação proposta não pretende aumentar a tensão do debate interno, tão fundamental para a esquerda como um todo. Para que a controvérsia em torno da China não fique travada, precisamos de um arcabouço mediador, que viabilize a troca de ideias em um sentido produtivo. O que se faz necessário é estabelecer um quadro de referência para sintetizar e situar a posição de cada participante nesse desafio que é rotular sistemas que parecem ser ao mesmo tempo iguais e diferentes.

    O método proposto é útil porque, após reconhecer que ambos os sistemas são economias planejadas dentro da dinâmica de expansão eterna do valor, uma análise empiricamente fundamentada é capaz de mostrar qual sistema exerce melhor controle sobre a lei do valor para promover o bem-estar social.

    Em resumo, ao concebermos as duas principais modalidades de planejamento econômico sistêmico, tanto em termos abstratos quanto concretos, é possível compreender que elas são ao mesmo tempo formalmente similares e realmente distintas. Embora pareçam ser a mesma coisa, um dos lados sustenta a expansão do valor sem melhorar claramente os indicadores de bem-estar do povo, é assombrado pelo negacionismo e delira com um discurso abstrato de direitos humanos. O outro lado leva realmente adiante o legado positivo do iluminismo, venera a ciência e anuncia oficialmente o fim da pobreza extrema junto a uma população de 1,4 bilhão de pessoas.

    Conclusão

    O capitalismo ocidental e o socialismo chinêspodem ser concebidos tanto como formalmente similares, quando o foco está na modelagem teórica, quanto como realmente distintos, quando o foco está nos aspectos concretos da geopolítica.

    Enquanto permanecemos em um alto nível de abstração e lidamos apenas com a similaridade formal, a análise comparativa não consegue informar “qual lado é melhor” e os dois parecem ser a mesma coisa. Entretanto, assim que avançamos para a análise concreta e reconhecemos a distinção real, vemos que os dados empíricos apontam para o fato de que o controle da lei do valor por um dos lados leva a um resultado superior em termos de promoção do bem-estar humano.

    O reconhecimento dessa duplicidade entre similaridade e distinção é fundamental para a avaliação científica dos sistemas econômicos comparados na atualidade. Os dados apresentados aqui não pretendem resolver a questão, mas apenas destacar a separação entre teoria e empiria que está por trás de grande parte da confusão em torno da comparação entre os principais competidores geopolíticos do século 21. Deve-se notar que existem maneiras alternativas de apresentar e avaliar os dados, e pesquisadores de todas as abordagens metodológicas devem ser encorajados a participar e enriquecer esse debate.

    Devido a essa duplicidade de igualdade e diferença, concluímos que o planejamento econômico, tal como vem sendo praticado com acertos e erros desde o fim do laissez-faire, constitui a escalada de todas as contradições do modo de produção capitalista, conforme apontado por Marx. Assim, ele reforça as relações sociais de (re)produção da mercadoria e seus aspectos alienantes, ao mesmo tempo em que amplia as condições objetivas para negá-los, ao possibilitar a transição das instituições bestiais do capitalismo mais selvagem para um sistema socialista real: humano, cuidadoso com a vida e …imperfeito.

    Tiago Camarinha Lopes

    é professor de economia na Universidade Federal de Goiás. Seus trabalhos incluem Technical or Political? The socialist economic calculation debate e Rejoinder: Mises's attempt to scientifically reject socialism failed (acesso ao texto completo no link contido na página)

     

    Viagem à Polónia

    Viagem à Polónia
    Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

    Viagem à Polónia

    Viagem à Polónia
    Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.