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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Antes pelo contrário
Antes pelo contrário
Daniel Oliveira
Costa e Jerónimo: a lisonja não mata, mas mói
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O debate entre Jerónimo de Sousa e António Costa não foi só morno. Não chegou a ser bem um debate. Houve alguns momentos em que até podia ter sido. Em que quase foi. Quando o assunto entrou nas leis laborais, na precariedade e no tempo de experiência. Um ponto em que Jerónimo de Sousa poderia ter desarmado facilmente António Costa. Distinguiu-se dele, explicou a sua posição, mas não aproveitou para o fincar o pé que tinha de fazer. Disse o que tinha dizer, mas quase tratava o primeiro-ministro por “António”, evitando qualquer confronto. Mesmo onde ele existe, existiu durante estes quatro anos e todos esperam que exista.
Isto não seria grave se apenas correspondesse a um estilo cordato que as pessoas, eu incluído, gostam no secretário-geral do PCP. Para debater ideias não é preciso andar à pancada. E ainda mais quando se andou a negociar durante quatro anos. Mas esta simpatia implica que se acentue ainda mais o contraste político. Tudo isto se agrava com a postura de Costa, que numa estratégia que me escapa, tem tratado o PCP como um amigo porreiro, roçando a condescendência. De tal forma que, no debate desta segunda-feira, até explicou que “não queria diminuir a exigência que o PCP sempre pôs nesta relação”. Uma frase que acaba por sublinhar que foi mesmo essa ideia que inadvertidamente passou.
O namoro de Costa a Jerónimo é excessivo e acaba por encabular quem deve aparecer como firme. O incómodo de Costa com Catarina é excessivo e pode levar a uma troca de palavras que favoreça a dramatização que o PS quer fazer. Veremos se Catarina consegue resistir à picardia melhor do que Jerónimo conseguiu resistir à lisonja
Também nada disto teria importância se a bonomia com Jerónimo não tivesse como objetivo criar um contraste com Catarina Martins. Pode dar-se o caso de as excelentes relações com Jerónimo de Sousa funcionarem para o eleitorado que apenas quer impedir uma maioria absoluta não ter dificuldade em votar num Jerónimo colaborante. Não apostaria nisso um cêntimo furado nisso. Até porque o líder do PCP mostra mais reticências que Catarina Martins em repetir a “geringonça”, o que torna o tom deste debate ainda mais absurdo.
A estratégia de Costa, que até pode resultar de simples irritação pessoal, está a criar um problema para o PCP: a sensação injusta de que não é tão vigilante como o Bloco. Que se agrava pela atual falta de estamina política do secretário-geral dos comunistas. Desse ponto de vista, o debate desta segunda-feira poderia ter sido um bom momento para Jerónimo de Sousa mudar esta perceção sem ter de partir a louça ou trair o seu estilo. Reforçou-a.
Apesar da embirração de Costa com o Bloco beneficiar o Bloco, porque o torna preferido para quem quer que o PS governe com um cão de guarda que não lhe largue as canelas, também põe Catarina Martins numa situação sensível. Como lidar com as ferroadas de Costa sem chegar ao ponto de a coisa descambar e as pessoas sentirem que os dois não voltarão a entender-se? É nessa ideia que Costa aposta sem poder parecer ele o irresponsável irascível.
Até outubro será um jogo de nervos para a líder bloquista. Na realidade, semelhante ao que Jerónimo está a viver, mas de sentido oposto. O namoro de Costa a Jerónimo é excessivo e acaba por encabular quem, até por razões culturais, deve aparecer como firme. O incómodo de Costa com Catarina é excessivo e pode levar a uma troca de palavras que comprometa conversas futuras. O que, do ponto de vista de discurso de campanha, favorece a dramatização que o PS quer fazer e por isso dificulta a vida ao BE. Veremos se Catarina consegue resistir à picardia melhor do que Jerónimo conseguiu resistir à lisonja.

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