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quinta-feira, 30 de abril de 2020

QUESTÃO 15

Domenico Losurdo (falecido recentemente)
Lucien Sève (com 4 recentes obras fundamentais)
Alain Badiou
David Harvey
Fredric Jameson
         Cinco filósofos incontornáveis

Um bom texto em que Alain Badiou é reavaliado justamente.

O vírus corona e o espectro comunista

Por Pedro Mauad*
No exato momento em que começo a escrever este texto (02 de Abril de 2020) o ‘coronavírus’ já infectou mais de um milhão de pessoas e matou mais de cinquenta mil em todo o mundo. São poucos os países em que não há nenhum caso confirmado, algo em torno de 30 de um total de 193 países.Assim como o capitalismo, esse vírus é, podemos dizer, global; e não devemos tratar por simples coincidência o que é, na verdade, expressão de como nossa economia de mercado globalizada é refletida na velocidade e alcance de contaminação do vírus corona. A seu modo, então, a COVID-19 já ocupa um lugar de destaque na história humana: essa doença fez o mundo parar, de norte a sul e de leste a oeste.

Alain Badiou em um texto ‘sobre a revolução russa de 1917’[1] realiza um recorte bastante curioso das revoluções na história humana. Ele pensa o tempo da espécie humana ao longo da História em comparação com o tempo do que entendemos por natureza e afirma o que todos sabemos: o tempo de existência humana é brevíssimo em comparação com o tempo de outras espécies. Sua conclusão, porém, não se detém aí, pois, com isso, ele defende, na contramão dos inúmeros diagnósticos sobre o apocalipse da sociedade e da espécie humana, que talvez toda a história até hoje não tenha sido mais que um começo, o preâmbulo de uma humanidade porvir. O curioso não é apenas certa ousadia em afirmar um futuro humanizado quando tudo que se impõe a nossa imaginação é o colapso, o esgarçamento do tecido social, o fim da espécie e etc., mas a ideia de que até agora só vivemos um primeiro período curtíssimo de nossa história. Impossível não lembrar aqui a famosa expressão de Frederic Jameson, ‘é mais fácil imaginar o fim do mundo do que do capitalismo’. Pois esse é o ponto de Badiou: trata-se, para ele, de inverter essa equação e afirmar, sem medo, de que é necessário e urgente imaginarmos o fim do capitalismo para não termos que presenciar o fim do mundo. Desse modo, Badiou traça uma conexão entre a Revolução Francesa e a Revolução Russa e atesta: as ideias de humanidade e sociedade presentes nas duas revoluções, mas principalmente na segunda, representam um marco na história humana e são o indício de uma nova sociedade em gestação que deixará para trás os, por assim dizer, paradigmas sociais vigentes desde uma outra revolução fundamental para nossa espécie, a saber, a Revolução Neolítica, que ocorreu entre 15 mil e 5 mil anos atŕas. Tais paradigmas sociais, que conhecemos bem, são: as opressões de gênero, classe e raça, as desigualdades econômicas que sustentam tais opressões e a forma cada vez mais privatista, individualizada e lucrativa de nos relacionarmos com o aquilo que nos é comum enquanto espécie e também com todo o restante da natureza. Daí as reivindicações basilares de ambas as revoluções: qualquer pessoa no mundo independente de gênero, raça e classe é um ser humano e, portanto, deve ser considerado um cidadão e ser tratado como tal (algo inédito até a revolução francesa); e na revolução comunista de 1917, a reivindicação de que aquilo que é comum a todos deve ser incessantemente pensado, organizado e objeto da ação coletiva. Esses seriam, para Badiou, os fundamentos de uma humanidade ainda por realizar-se, mas que já teria em germe, graças a essas revoluções, as ideias que permitiriam essa humanidade se efetivar. Uma observação importante a ser feita, dado as inúmeras polêmicas que envolvem ambas as revoluções: Badiou faz essas análises tendo por objeto os períodos revolucionários em suas efervescências políticas disruptivas, em seus momentos de profunda transformação da ordem social e das ideias que movem os sujeitos revolucionários, deixando de lado as sedimentações políticas posteriores que foram atravessadas por diferentes conflitos e contradições que acabaram se distanciando e neutralizando a radicalidade dessas ideias. É como se o tempo de realização das ideias obedecesse a uma ordem temporal diferente daquela em que existem e vivem algumas gerações de indivíduos. Para o espanto ou desespero de alguns, o platonismo de Badiou é muito mais radical e revolucionário do que pensam seus incansáveis mas já impotentes críticos.
Com isso em vista, podemos nos colocar a seguinte questão: o que podemos aprender com a atual pandemia do vírus corona?
Primeiro, por mais que sua nocividade não seja tão potente quanto sua capacidade de contaminação, essa pandemia já deixou claro, assim como outras catástrofes naturais, a fragilidade não só dos humanos como um todo diante do que chamamos convencionalmente de ‘natureza’, mas também do sistema político-econômico em que vivemos, as democracias capitalistas. Maior do que a certeza de que em algum momento essa pandemia acabará, é a consciência da recessão e crise econômica que nos aguarda (o que sem dúvidas trará mais mortes e convulsões sociais). Além disso, o que chamamos de natureza não pode ser compreendida de modo separado das nossas formas de produção e consumo[2]. Há uma dialética intrínseca entre esses dois polos: o capital, como disse David Harvey[3], ‘modifica as condições ambientais de sua própria reprodução, e o faz em um contexto de conseqüências não intencionais (como as mudanças climáticas) e no contexto de forças evolutivas autônomas e independentes que estão remodelando perpetuamente as condições ambientais.’ Assim, o desastre nunca é exclusivamente natural, e sim relacionado dialeticamente com as estruturas sociais de organização e reprodução da vida.
Segundo, as respostas que nosso sistema é capaz de dar para uma crise endêmica dessa magnitude, estão completamente aquém do necessário. O consenso (neo)liberal sobre a economia e fiador de toda ideia de futuro se mostrou completamente impotente para lidar com problemas desse porte, sendo obrigado a recorrer aquilo que nos últimos 50 anos ele se dedicou a criticar e destruir: a intervenção político-estatal na sociedade e na economia e a importância dos serviços públicos. Basta olharmos para os números de infectados e mortes nos países asiáticos em comparação com os países europeus e os EUA. Os países em que o Estado é mais atuante na economia e, consequentemente, também na sociedade de um modo geral, estão conseguindo lidar com muito mais eficácia que os países desenvolvidos do ocidente, onde até mesmo itens básicos de proteção estão em falta para a população e, inclusive, para as equipes médicas. O preço das máscaras e do álcool em gel regulado pelo mercado subiu para níveis obscenos depois que parte da população em pânico começou a comprar todo o estoque desses produtos. Enquanto isso, China e Cuba estão enviando ajuda médica e equipamentos para os países mais afetados pelo vírus.
Terceiro, e como argumentou muito bem Slavoj Zizek[4], no atual estágio das sociedades humanas, cada vez mais os problemas são de ordem global, não mais local ou regional, tornando cada vez mais obsoleta e impraticável ações que partam de governos nacionais isolados. Um golpe não só no liberalismo econômico com suas medidas de austeridade, mas também nos governos neofascistas de extrema-direita que concebem a nação como um bem acima de tudo e de todos. Uma ação verdadeiramente eficaz para os atuais problemas do mundo, como argumentou Zizek, deve abranger a mobilização local de pessoas dentro e fora do controle estatal, bem como coordenação e colaboração internacionais fortes e eficientes entre os órgãos públicos. Ao contrário disso, o que vemos são países fechando suas fronteiras, até mesmo na união européia, acreditando que com isso, cada um por si conseguirá resolver sozinho os problemas de uma epidemia global. É bem provável que isso seja usado para que futuramente cada líder use dos esforços realizados durante essa crise para se autopromover individualmente enquanto líder e coletivamente enquanto nação, escamoteando que as medidas de cooperação internacionais entre Estados e povos teria uma eficácia muito maior.
Quarto, não podemos encarar essa pandemia sob o mito de que os vírus são democráticos, que ricos e pobres serão igualmente vítimas da COVID-19. Certamente diferentes classes sociais serão infectadas, mas quem irá sobreviver com condições adequadas de tratamento serão aqueles que tiverem dinheiro para pagar. Como bem observado por Harvey, a ‘força de trabalho que deve cuidar do número crescente de doentes é altamente seccionada por gênero, raça e etnia na maior parte do mundo. Nisso reflete as forças de trabalho baseadas em classe encontradas em, por exemplo, aeroportos e outros setores logísticos. Essa “nova classe trabalhadora” está na vanguarda e tem o peso de ser a força de trabalho que está com o maior risco de contrair o vírus por meio de seus empregos ou de ser demitida sem ter garantias por causa da contenção econômica imposta pelo vírus.’ Sem contar nos inúmeros trabalhadores informais que não poderão fazer quarentena sob o risco de ao deixarem de trabalhar para não contrair o vírus, morrerem de fome junto com suas famílias. O vírus até pode ser democrático, mas a possibilidade de viver ou morrer ao contraí-lo reproduz perfeitamente as desigualdades da sociedade capitalista.
Tudo isso nos mostra que nosso presente demanda, mais do que qualquer outro momento da história, as ideias fundamentais das duas revoluções que para Badiou anunciaram o futuro da humanidade. Portanto, podemos dizer que em 2020 a forma neoliberal de globalização não regulamentada e de livre mercado, com sua tendência a crises e pandemias, começou a morrer. Cabe não simplesmente à nós, indivíduos singulares, mas às ideias que teremos enquanto coletivo humano para responder e enfrentar essa crise, a imaginação e efetivação de uma outra forma social de produção e reprodução que reconheça a interdependência social e a primazia da ação coletiva.

[1] Alain Badiou ‘Petrogrado, Xangai: as duas revoluções do século XX’, págs.33 a 50.
[2] Para uma rica reflexão sobre isso, ver o texto do coletivo anti-capitalista chinês ‘Chuang’ em http://afita.com.br/outras-fitas-contagio-social-coronavirus-china-capitalismo-tardio-e-o-mundo-natural/

*Pedro Mauad é mestrando em filosofia pela FFLCH.
in LavraPalavra

terça-feira, 28 de abril de 2020

A socialização da economia somente será uma utopia enquanto não a realizarmos

A pandemia revela porquê precisamos socializar o sistema alimentar

26/04/2020
Por
Matt Huber
Tradução
Natanael Alencar
O coronavírus revelou uma verdade que sabíamos antes da pandemia: o sistema alimentar capitalista é irracional e não serve às necessidades humanas. Os socialistas devem remodelar a produção alimentar para atender as necessidades sociais e ecológicas – provendo alimentos para todos.

Trabalhadores agrícolas colhem abobrinha na Sam Accursio & Son's Farm em 1 de abril de 2020 em Florida City, Flórida. Joe Raedle / Getty.

A crise da COVID-19 está revelando uma contradição básica no núcleo do capitalismo. Por um lado, aprendemos que o vírus é um produto de nosso sistema agrícola capitalista. Como Rob Wallace e seus coautores argumentam, as condições para transmissão do vírus estão enraizadas em nossa propensão a cortar as florestas densas – elas geralmente são reservatórios de vírus – e substituí-las por ecologias de plantação homogênea como palmeiras ou pastos com uma única espécie de animal vivendo abarrotada.  
Segundo eles:
a totalidade da linha de produção é organizada ao redor de práticas que aceleram a evolução de virulência patógenas e a subsequente transmissão. Monoculturas genéticas em crescimento – de animais e plantas com genomas praticamente idênticos – removem a as fortalezas de imunidade que em populações mais diversas diminuem a taxa de transmissão.   
Por exemplo, o surto de influenza aviária e suína de anos passados tem sua origem no confinamento dos criadouros de engorda. A COVID-19 aparentemente emergiu em um mercado de rua que combinou todo tipo de mercadorias naturais de animais exóticos, como cobras, a víveres domesticados, como porquinhos. Pôr em interação múltiplas espécies, em um espaço pequeno, com multidões de vendedores e compradores humanos é uma excelente plataforma para a transmissão de um vírus.
Como um intelectual disse, “nós cortamos as árvores; nós matamos os animais ou os colocamos em gaiolas e os enviamos para os mercados. Nós desequilibramos ecossistemas e nós atiçamos os vírus a abandonarem seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de novos. Geralmente, nós seremos os hospedeiros”.
Por outro lado, para milhões de trabalhadores ao redor do mundo, uma realidade ecológica brutal do capitalismo se auto afirma: para viver, dependemos de dinheiro para acessar aquelas mesmas cadeias de suprimentos agrícolas. Milhões de trabalhadores vivendo apenas de seus salários mínimos veem seus empregos ou rendas serem cortados, forçando as famílias a decidir se devem pagar o aluguel ou comprar comida.
Para aquelas pessoas da classe trabalhadora que ainda possuem renda, a experiência da epidemia tem sido de um ritmo nervoso entre idas aos corredores de supermercados, lutando por papel higiênico e encontrando séries de prateleiras vazias. Especialistas em cadeias de produção de supermercados declaram que “existe comida suficiente no mundo”, mas é claro que a sincronia imediata das cadeias de produção capitalistas é mal equipada para servir a todas as necessidades da sociedade em uma pandemia global.
As cadeias de abastecimento usam algoritmos estatísticos para reafirmar a demanda dos consumidores de forma a sintonizar as redes logísticas e de produção. Esses sistemas são concebidos de forma a poupar gastos das corporações varejistas com custos de inventário (armazenamento), mas elas facilmente falham quando a demanda dispara inesperadamente ou quando a cadeia de abastecimento é “perturbada”.
Agora, a violência do mercado está se impondo através da elevação abrupta do preço de alimentos básicos. As comunidades estão ficando famintas a medida em que os estoques de itens básicos se esgotam, agricultores deixam vegetais frescos apodrecerem nos campos e os produtores de leite jogam leite no ralo por causa da queda dos preços e falta de demanda. É demais para o gracioso e resiliente mercado, supostamente o sistema mais eficiente em alocar recursos.
O sistema agroalimentar é claramente irracional. A demanda socialista que pode nos levar a um sistema alimentar baseado em necessidades sociais e ecológicas deveria soar familiar: comida para todos.
Se a luta por “saúde para todos” tem mostrado a popularidade do slogan “assistência médica é um direito humano”, então por que com a alimentação não é vista da mesma forma? A única coisa que impede a “alimentação como um direito humano” é uma indústria que depende da criação da escassez artificial de alimentos para manter preços e lucros.
Uma abordagem socialista desses problemas não pode dirigir-se a eles de forma compartimentalizada, reformando a agricultura de um lado e delivering: entregando a alimentação como um direito humano de outro. O objetivo deve ser revolucionar todo o sistema alimentar e orientá-lo para as necessidades sociais e ecológicas.

A COVID-19 e o sistema alimentar capitalista 

Conforme descobrimos que nosso sistema agrícola é responsável pela disseminação do vírus, também percebemos como perigosamente dependentes somos desse mesmo sistema alimentar para provisão de alimentos e sobrevivência. Ambos os problemas possuem a mesma causa: nosso sistema alimentar como um todo é controlado por entes capitalistas privados em busca de lucro.
Segundo Wallace, o sistema agrícola é estruturado de forma estreita: “o comando privado da produção permanece totalmente focado no lucro”. A motivação e competição por lucro que compele os produtores agrícolas a racionalizar e homogeneizar brutalmente a natureza em forma de monoculturas e criações mono-espécies de animais de pasto. Isso não apenas fornece o sistema ecológico perfeito para uma transmissão viral, também substitui a biodiversidade ecológica que tende a manter vírus selvagem à distância.
Ainda assim, não conseguimos pensar nessas fazendas agroindustriais isoladas do sistema maior. Todo lucro dos agroindustriais capitalistas seria impossível se não fosse pela fonte principal da demanda consumidora: a classe trabalhadora ao redor de todo mundo que não possui meio algum de ganhar a vida, que só pode comer na medida em que trabalha por dinheiro.
Conforme Raj Patel argumentou uma década atrás, vivemos um sistema alimentar “ampulheta” no qual, em ambas as extremidades, milhões de agricultores e trabalhadores-consumidores são explorados por um pequeno grupo de corporações agroindustriais ao meio, os processadores de alimentos e gigantes varejistas. A demanda da classe trabalhadora é essencial para todo o sistema. Mesmo o melhor tipo provisão de bem-estar governamental, como cestas básicas e o interesse atual na Renda Básica Universal (RBU), apenas garante mais fluxo de dinheiro para as mãos das gigantes cadeias varejistas, processadores de comida e companhias do agronegócio.

O que é uma resposta ecossocialista? 

A pandemia revela explicitamente uma crise em nossa relação ecológica com a alimentação e com a natureza. Qual seria uma resposta socialista apropriada? Wallace diagnostica corretamente alguns problemas com nosso sistema agrícola, mas suas soluções são insuficientes para a massa de trabalhadores que depende de dinheiro, mercadorias e supermercados para sobreviver.
Wallace sugere que nós precisamos refazer completamente a agricultura, “primeiramente, reintegrando a produção de alimentos às necessidades das comunidades rurais”. Em outro artigo, ele elabora uma lista de demandas que centram em dois pilares principais: priorizar as lutas por terra enfrentadas por pequenos produtores do campo e indígenas, e reintegrar a produção agrícola com princípios ecológicos (com agroecologia, por exemplo) que substituam as monoculturas de escala industrial com rotação de plantio mais diversificadas, fertilizantes orgânicos e gerenciamento integrado de pestes.
Esse estilo de política agrícola é trazido à tona em uma retórica floreada: “Vamos costurar juntos um nova configuração estratégica do sistema-mundo, com autonomia dos produtores rurais, liberação indígena e agroecologia específica para cada lugar que possam redefinir questões de biossegurança, reintroduzir proteções imunológicas de ampla diversidade em diferentes criações de pasto, aves e plantações.”
Isso tudo soa bem aos ouvidos. Os ecossocialistas deveriam sempre apoiar pequenos proprietários do campo e movimentos indígenas pelo que é chamado de “soberania” alimentar e territorial. Isso está no coração de uma longa história de políticas socialistas de apoio a movimentos por “autodeterminação” ou de pessoas oprimidas.
Contudo, a real tensão nesse tipo de política é que não fica claro como priorizar as comunidades rurais ou criar “agroecologia específica para cada lugar” para produzir um sistema alimentar viável para os quase 71% da força global de trabalho que não está inserida diretamente no trabalho agrícola – ou os 55% do planeta atualmente vivendo em cidades que, apesar da tendência da jardinagem urbana, dependem de dinheiro para acessar a comida que precisam para sobreviver.
A pequena agricultura é excelente em alimentar regiões locais, mas a maioria de nós vive e depende de cadeias de suprimento já existente. A autonomia dos agricultores é um valor crítico, mas e a autonomia dos trabalhadores da maior parte do sistema alimentar além da propriedade produtiva? E que tal a autonomia de todos nós que dependemos desses sistemas de fornecimento de alimentos para comer?
Assim como Karl Marx e Frederich Engels colocam, a contradição central do capitalismo é que aqueles de nós que precisam de mercadorias para sobreviver, dependem de uma densa rede de trabalho, mas todo o dinheiro e mercadoria são apropriados por atores privados. O objetivo do socialismo é a apropriação de sistema de trabalho socializados que já existem e socializar o controle e os benefícios.
Portanto, um programa agroecológico ecossocialista para as massas proletarizadas precisa refletir para além da “autonomia do agricultor”. Ele deve levar em conta a socialização de todo um sistema alimentar de forma que inclua as propriedades rurais produtivas, mas também a rede social mais ampla de trabalho e produção que traz comida aos nossos pratos.

Socializar o sistema alimentar

Mas do que simplesmente abandonar a cadeia agroindustrial de suprimentos de que somos dependentes, precisamos pensar sobre como essa cadeia pode ser reconstruída caso não fossem controladas pela lucratividade. Isso significa confrontar o fato de que o atual sistema alimentar possui vantagens que não podemos descartar.
Na agricultura, tecnologias passaram a poupar muito trabalho, o que produziu uma abundância tremenda de alimentos. Países industrializados aplicam porções minúsculas de sua força de trabalho no trabalho agrícola: 1,7% nos Estados Unidos, 2,9% na França, 1,9% da Suécia, daí por diante. Mesmo em economias emergentes como a brasileira – claramente uma potência agrícola – o número é pequeno (10,3%).
Isso não significa que a agricultura está totalmente automatizada ou independe do trabalho. A crise do coronavírus está revelando como trabalhadores rurais migrantes são simultaneamente explorados e declarados “essenciais” para a plantar nossas frutas frescas e vegetais. Qualquer sistema alimentar socialista precisaria encontrar uma forma igualitária de distribuir esse tipo de trabalho entre a sociedade.
Conforme críticos dessa narrativa apontam, países com pequenas forças agrícolas de trabalho também importam alimentos de outros países, muitos dos quais fruto de trabalho intenso, para se dedicar à produção de plantações altamente exploradoras. Deixando de lado os objetivos do socialismo global, seria insustentável argumentar sobre provisão socialista de alimentos baseada em tal relações de exploração trabalho.
Além disso, a tendência geral do “disponível em qualquer lugar do planeta” é uma mudança de pessoas que abandonam a agricultura e são lançadas na economia monetária, o que Farshad Araghi chamou de “descamponização global”. Para as massas que já foram apartadas de suas terras, os socialistas precisam de uma política alimentar preocupada tanto com a provisão quanto com a produção de alimentos.
Vivemos em um sistema que a vasta maioria não produz alimentos diretamente, ainda que alguns pensadores socialistas argumentem que um sistema alimentar “revolucionário” implica que todos nos tornássemos agricultores, onde “praticamente todo mundo teria um dedo na produção da comida que comem”.
Nós devemos ser claros: trabalho agrícola é incrivelmente difícil. A maioria das pessoas em sociedades industriais não possui nem o desejo nem a grande habilidade necessária para realizar esse trabalho (que é justamente a razão pela qual os agricultores capitalistas dependem dos lucros da exploração de trabalhadores migrantes dispostos a aceitar salários baixíssimos e que podem ser mandados para casa às remessas).
Lembre-se da campanha de 2010 da União dos Trabalhadores Agrícolas, “TRABALHE COM A GENTE” para oferecer empregos aos cidadãos norte-americanos, em uma era de desemprego em massa. Apenas “algumas dúzias” de pretendentes sérios ou qualificados apareceram.
Qualquer política revolucionária que tem como premissa a realização do trabalho agrícola por todos não vai criar o tipo de política de massa necessária para um socialismo vitorioso. Seguindo Friedrich Engels, um retorno ao agrarismo local de trabalho intenso representa um “socialismo utópico” fora de sintonia com as condições que nos confrontam.
Alguns podem argumentar que nós devemos tornar o trabalho agrícola mais recompensador e melhor remunerado, mas meu argumento é que uma abordagem verdadeiramente socialista garantiria que os trabalhos mais perigosos e exaustivos deveriam ser automatizados, assim ninguém teria de fazê-los. Uma questão central para os socialistas deveria ser: que partes dessas tecnologias automatizadas pode ser redirecionada para criar sistemas de produção agroecológicos ao invés de máquinas de lucro monoculturas? Isso significa que o debate não se baseia ou produção agrícola industrial ou de pequenos proprietários, mas provavelmente na combinação de ambos.
A rotação de culturas e métodos de gerenciamento integrado de pestes pode ser combinado com tratores (que não usem combustíveis fósseis) e colheitadeiras automáticas? A produção agrícola automatizada pode ser reduzido de forma a prevenir o tipo de destruição de habitat e biodiversidade responsáveis pela transmissão pandêmica do vírus?
Não é apenas tecnologia de economia de trabalho. As cadeias de suprimento imediato interrompidas pelo pânico das compras ainda representam imensas máquinas de planejamento socializado que usam enormes quantidades de dados e poder computadorizado para predizer exatamente quando você pretende comprar um pacote de amendoins. Imagine se esse sistema logístico não fosse aproveitado para o lucro de gigantes firmas do atacado, mas para assegurar que as necessidades sociais fossem atendidas?
Também devemos resistir à ideia de que devemos mudar para um sistema de alimentação puramente local. Se nós descarbonizarmos os transportes, poderíamos criar uma relação de troca mutualmente benéfica que permita que comunidades desfrutem de alimentos mesmo que não sejam cultivados localmente?
Considere a pequena quantidade de pessoas que, de fato, depende apenas de alimentos sazonais cultivados especificamente em suas regiões, quando disponíveis. Nós podemos debater o valor de certos sanduíches de frango, mas uma visão ampla (socialista) das necessidades humanas acomodaria o desejo genuíno por alimentos frescos e deliciosos provenientes de lugares outros que não a região local.
O problema com alimentos não-locais sob o capitalismo não é a sua origem geográfica, mas o fato de que as relações das mercadorias escondem as condições de exploração humana e ecológica da produção. O socialismo torna visível – e sujeito ao controle democrático – essa produção. Se nós não pudermos encontrar maneiras justas e racionalmente ecológicas de prover alface para regiões temperadas no inverno, que assim seja. Mas não devemos rejeitar tal ideia com base em alguma ideia nostálgica de que o “local” é melhor para todos os envolvidos.
Permanece uma questão aberta o modo que podemos transformar nosso sistema capitalista agroindustrial em um que seja socialista. Nós simplesmente não levamos em conta o quanto nosso sistema alimentar privado e com controle para o lucro é restritivo. Se esse sistema fosse baseado nas necessidades humanas e na racionalidade ecológica, não haveria motivos para assumir que a tecnologia e o comércio não deveriam ser empregadas para finalidades benéficas de larga escala.

“Comida para todos” 

Na medida em que as pessoas perdem seus empregos e rendas, elas estão começando a passar fome para assegurar que seus filhos comam. Assim como saúde, alimentação deve sempre ser considerada um direito humano fundamental. Isso significa que precisamos de uma estratégia ecossocialista focada em uma plataforma de desmercantilização dos alimentos. É a mercantilização – e as forças de competição e lucro – que compelem o capital a desenvolver cenários de produção de alimentar como se fosse uma fábrica – sequencias da mesma cultura cultivada em estilo de linha de montagem.
A primeira premissa da desmercantilização é a provisão de alimentos como um direito humano para todos. Considere outra necessidade vital para os humanos: água. Apesar dos esforços de privatização, muitas sociedades fornecem água como uma utilidade pública, seja de graça ou a preços baixos. Quando cidades falem, como Detroit, tentativas de desligar o fornecimento de água em residências pobres são justamente acusadas de abuso dos direitos humanos.
Por que não podemos ver o sistema alimentar como um tipo similar de utilidade pública? O alimento é, óbvio, muito diferente de água (embora nossa necessidade por ela não seja). Comida é algo extremamente diverso: vem em diferentes formas e é produto de práticas culturais variadas. Isso não é um chamado para um planejamento central de racionamento de aveia. É sobre tornar o alimento – em toda sua diversidade cultural – uma questão pública ao invés de privada.
Atualmente, os consumidores votam com dólares para expressar preferências alimentares – mais dinheiro, mais votos – e os vendedores privados fazem as decisões com base nos retornos dos acionistas.
Portanto, tornar o sistema alimentar em uma utilidade público também envolve o segundo aspecto da desmercantilização: controle democrático. Ao passo que a desmercantilização é geralmente encarada como a simples provisão de “coisas grátis”, a dignidade humana básica também deveria incluir as pessoas no controle de decisões que afetam suas vivas.
Com o que se pareceria uma democracia do sistema alimentar? Sam Gindin propõe um terreno socialista intermediário entre trabalhadores locais e planejamento estatal democrático e de alto nível. Ele sugere que criemos “conselhos setoriais” para setores importantes e específicos como comida e agricultura. Esses conselhos seriam idealmente representados tanto pelas comunidades que necessitam do fornecimento de alimentos quanto os trabalhadores envolvidos na produção agrícola.
Esses conselhos poderiam dar forma a esforços de larga escala em “planejamento ecológico”. A pesquisa de Wallace e outros mostra que nosso sistema de produção de alimentos é altamente irracional a partir de uma perspectiva ecológica. Não existe uma escassez de conhecimento científico ecológico que possa ser usado para moldar todos os tipos de produção. O capital simplesmente ignora isso. Os ecossocialistas devem argumentar que o planejamento ecológico deve ser integrado em todos os nossos sistemas de produção – e o nosso sistema alimentar é um óbvio ponto de partida.
A crise do coronavírus revelou que o capitalismo é um sistema em guerra com a vida. Vírus mortais emergem em plantios capitalistas e viajam através de redes de dinheiro e da circulação de mercadorias. Os seres humanos que não são mortos pelos vírus acabam se tornando incapazes de acessar os alimentos que precisam para manter uma vida saudável. Essa crise representa uma oportunidade dramática para reimaginar o que nossa sociedade e economia poderiam ser se organizadas em termos diferentes.
in JACOBIN. Brasil. Assine!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Crónicas como esta é que valem a pena!


Louis Proyect*
Apesar da rejeição de Bernie Sanders de Cuba, como estado policial, há o que poderíamos chamar socialista, em oposição às virtudes bárbaras. Dada a sua generosa assistência médica à Itália e a outros Estados que enfrentam calamidades, Cuba mostra que um outro mundo é possível.

Sem Título (19).jpg
Photograph Source: Angel Talansky – CC BY 2.0
No evitar a COVID-19, tenho estado à frente da curva. Em outubro passado, depois de uma crise de bronquite aguda que durou a maior parte do mês, resolvi nunca mais passar por tal provação. Comecei a usar desinfetante para as mãos e a evitar tocar no meu rosto. Tal como o meu glaucoma, é uma doença geriátrica. Quando investiguei os arquivos do New York Times em busca de dicas sobre como lidar com bronquites, fiquei chocado ao descobrir quantos velhos, conhecidos e poderosos, adoeceram com essa doença: Konrad Adenauer, Boris Yeltsin, Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Paul Robeson. Nenhum morreu de bronquite, mas cerca de metade foi hospitalizada, um tratamento de rotina para poderosos chefes de Estado (exceto Robeson).
Embora a bronquite não seja fatal, a COVID-19 certamente o é. Como septuagenário, sou vulnerável. Além disso, a doença indicava que o meu sistema imunológico estava comprometido, como seria de esperar. Superar esta pandemia é uma questão de vida ou de morte para mim, principalmente porque moro na cidade de Nova York, o epicentro.
Uma vez por semana, vou às compras com a minha mulher e não consigo deixar de me sentir enjoado ao pegar num abacate para ver se está suficientemente maduro. Na minha memória, isto evoca cenas, com um toque zombie, de George Romero, ou “The Walking Dead” [série de televisão dramática e pós-apocalíptica norte-americana – NT]. Da sua bem guardada base, os vivos fazem incursões periódicas em várias cidades, em busca de comida, remédios ou outros bens essenciais. Isto equivale a irmos a uma mercearia ou a uma farmácia. Em “The Walking Dead” (eu abandonei o espetáculo depois de Rick morrer), um da sua equipe teve de abrir uma porta à procura de produtos enlatados, só para descobrir que zombies espreitavam por trás dela. A morte podia chegar na forma de um ataque de zombies, ou numa acidental exposição a um abacate cheio de coronavírus. A lógica dos zombies e do coronavírus é mortal. Ambos existem para se replicarem, tal como acontece com a classe capitalista.
Em 2004, Luis P. Villarreal, professor emérito de Biologia e Bioquímica Moleculares da UC Irvine, colocou a questão na Scientific American: “Os vírus estão vivos?”:
Os vírus, no entanto, parasitam essencialmente todos os aspetos biomoleculares da vida. Ou seja, dependem da célula hospedeira para obterem as matérias-primas e a energia necessárias à síntese de ácidos nucleicos, à síntese de proteínas, ao processamento e transporte e a todas as outras atividades bioquímicas que permitem que o vírus se multiplique e se espalhe. Pode então concluir-se que, muito embora esses processos apareçam sob direção viral, os vírus são simplesmente parasitas não vivos de sistemas metabólicos vivos. Mas pode existir um espectro entre o que está certamente vivo e o que não está.
Parasitas entre a vida e a morte? Isso descreve certamente os zombies e, também, a burguesia. Eu não ligava muito ao “Parasita” de Bong Joon-ho [cineasta sul-coreano – NT], mas ele estava, com certeza, por dentro de algo com essa metáfora.
A cidade de Nova York era suscetível de se tornar um epicentro, pois estava também muito perto do conforto. O que nela agradou a pessoas como eu, nos anos sessenta, foi a vida nas ruas que juntava ricos e pobres. Quando morei em Houston, em meados dos anos 70, nunca me habituei à ideia de ter de ir de carro para encontrar uma livraria ou um restaurante. Ou que, quando ia dar uma volta no meu bairro, ninguém estava ao meu lado. Eu estava com saudades de Nova York, onde nos misturávamos com as massas e encontrávamos tudo o que precisávamos em poucos minutos a pé. Afortunado o bastante para viver no lado leste superior, onde há museus e parques a uma curta distância.
Devagar, mas progressivamente, tudo o que me encantou Nova York morreu, em grande parte por causa da natureza predatória do desenvolvimento imobiliário, simbolizada pela maligna presença da Casa Branca.
Jeremiah Moss, que bloga no Vanishing New York , acaba de colocar um post sobre o fotógrafo Robert Herman, que saltou para a morte do apartamento do 16º andar do seu prédio, em Tribeca, na última sexta-feira à noite. A nota de suicídio de Herman dizia: “Como é que gostam da vida?”. Por acaso, Moss entrevistou Herman há algum tempo. Como Moss e como eu, Herman amava a Nova York que está a desaparecer. Moss fez-lhe uma pergunta sobre as diferenças entre as pequenas lojas caseiras e as mega lojas empresariais, que simbolizam a sobrevivência das mais aptas, mas menos desejáveis. Herman respondeu:
A diferença entre as mega lojas empresariais e as independentes é a de que o aspeto das placas e os arranjos são determinados a um nível de corporação e feitos para múltiplas lojas ao mesmo tempo. O proprietário da loja local está a criar o aspeto da sua loja localmente e em reação ao ambiente e à vizinhança. Tudo isto é óbvio, mas são as lojas independentes que criam a sensação de especificidade do lugar: “só em Nova York”.
Com os exorbitantes arrendamentos em todos os bairros devido à gentrificação, as diferenças de classe também aumentam. Apenas alguns dias atrás, o Times noticiou a morte de treze pessoas de COVID-19 no Hospital Elmhurst, em Queens. Este é um hospital público, com 545 camas, e carência de ventiladores. Para lidar com a acomodação de cadáveres, o hospital tem agora uma morgue improvisada na rua – um camião refrigerado. Aberto ao público em 1832, é um dos mais antigos hospitais da cidade. Dois terços dos residentes de Elmhurst nasceram fora dos Estados Unidos, a taxa mais alta da cidade. O Times referiu-o como um hospital de rede de segurança, atendendo principalmente pacientes de baixos rendimentos, incluindo muitos que não têm médicos de cuidados primários. Pode ficar-se com uma ideia do tipo de pessoas que vão ao hospital, a partir do artigo:
Julio Jimenez, 35 anos, esperou seis horas na sala de emergência, no domingo à noite, após ter sentido febre, enquanto trabalhava num armazém em Nova Jersey. Regressou na segunda-feira de manhã para ficar na fila de testes, à chuva. Na terça-feira, ainda com tosse e com os olhos inchados, ficou na fila quase sete horas e voltou para casa sem ser testado.
“Não sei se tenho o vírus”, disse o Sr. Jimenez. “É tão difícil. E não só para mim. É-o para muitas pessoas. É de loucos”.
Além dos idosos serem vulneráveis, podemos também incluir os imigrantes que têm de contar com cuidados de saúde inadequados. Ironicamente, a suscetibilidade dos pobres à doença –, por causa dos seus trabalhos, principalmente orientados para serviços como os de porteiros, zeladores, empregadas domésticas, guardas de segurança, auxiliares hospitalares etc. –, também ameaça os ricos. Os vírus, como os zombies, são assassinos com iguais oportunidades. Passando por algum gestor de fundos abutres na rua, pode acontecer a Julio Jiminez espirrar.
Sempre houve uma mística sobre centros metropolitanos como Nova York, Paris, Londres, Viena, Tóquio e Pequim. Eles representam a “civilização”, em oposição aos subúrbios e aldeias rurais maçadores e desanimadores. No conflito político dos últimos quatro anos nos Estados Unidos, os apoiantes de Donald Trump veem os lugares como Nova York como território inimigo. Nos anos sessenta, os yahoos [pessoa não sofisticada ou violenta – NT] costumavam referir-se-lhe como Jew York [judeu York – NT] .
Além de museus e teatros de ópera, a cidade também abriga pragas. Se vivêssemos numa tribo nómada, talvez tivéssemos de  lidar com lobos ou leões, mas as pragas eram menos problemáticas. Espirros e tosse são problemas associados, na maior parte das vezes, à proximidade de multidões e vastas populações. Vírus mortais como os da varíola, da peste, do sarampo e da gripe florescem numa alta densidade populacional de humanos, de manadas de animais e na interação das suas excreções. Quando a agricultura suplantou a caça e a recolha, a civilização tornou-se possível, pois grãos como o trigo e o arroz permitiram permanentes culturas. Mas este benefício também permitiu que os patógenos passassem de uma pessoa para outra através de gotículas no ar, exatamente como as que eu temo na Whole Foods [empresa de produtos alimentares estadunidense – NT].
O académico anarquista James C. Scott abordou estes problemas no seu último livro, “Against the Grain” [Contra o grão]. Usando a mesma metodologia de trabalhos marxistas anteriores –, como “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, de Friedrich Engels, ou “O homem faz-se a si próprio”, de V. Gordon Childe –, interroga toda a noção de progresso em “Contra o grão: uma história profunda dos primeiros Estados”. Este livro, de 2018, antecipou a pandemia de hoje, referindo-se às “imprevisíveis doenças epidémicas decorrentes da aglomeração de plantas, animais e grãos", como menciona o sítio na rede da Universidade de Yale.
No penúltimo parágrafo do capítulo final, Scott refere-se a uma “era de ouro para os barbarismos”, quando havia uma alternativa aos prazeres ocos, se não letais, da civilização:
A vida dos “bárbaros tardios” teria sido, em geral, bastante boa. A sua subsistência ainda estava espalhada por várias redes alimentares; dispersos, teriam sido menos vulneráveis ​​às falhas de uma única fonte de alimentos. Era mais provável que fossem mais saudáveis ​​e vivessem mais – especialmente se fossem mulheres. Um comércio mais vantajoso gera mais tempo livre, ampliando ainda mais a proporção lazer-trabalho entre forrageiros e agricultores. Finalmente, e de maneira alguma trivial, os bárbaros não estavam subordinados ou domesticados à ordem hierárquica social da agricultura sedentária e do Estado. Eles eram, em quase todos os aspetos, mais livres do que o celebrado pequeno proprietário rural. Este não é um mau balanço para uma classe de bárbaros sobre os quais as ondas da história supuseram ter ocorrido há muito tempo.
O próximo e conclusivo parágrafo é um elogio a um tipo de vida que sucumbiu à “civilização”. Mesmo que eles tivessem uma vida mais saudável e livre, a maior parte dos guerreiros equestres acabavam como vassalos de potências estatais, como os otomanos ou as dinastias chinesas.
Isso, é claro, levanta a questão da alternativa que temos à civilização que nos está a matar. Como Samuel Moyn assinala numa perspicaz análise de “Against the Grain” em The Nation, intitulada “Virtudes bárbaras”, o próprio estado está dentro e fora, não necessariamente de forma opressiva. Ele escreve: “No entanto, Scott está tão enamorado pela versatilidade dos nossos ancestrais caçadores e coletores – especialmente quando comparados com as monotonias do cultivo de grãos – que nunca pensa em descrever como interpretavam a liberdade e a igualdade que ele lhes atribui. Ele nunca confronta a possibilidade de que só um novo tipo de Estado pode possibilitar novos tipos de ideais, inclusive o dele”.
Apesar da rejeição de Bernie Sanders de Cuba, como estado policial, há o que poderíamos chamar socialista, em oposição às virtudes bárbaras. Dada a sua generosa assistência médica à Itália e a outros Estados que enfrentam calamidades, Cuba mostra que um outro mundo é possível.
Há cinquenta e três anos, quando me tornei socialista, a maioria das pessoas entendeu que tínhamos uma dura batalha para convencer os americanos de que este sistema poderia beneficiá-los. Tudo o que sabiam sobre o socialismo era a sua crónica escassez e má qualidade dos bens. Quando a União Soviética colapsou, colocámo-nos na defensiva, pois não havia alternativa, ao que parecia, às capacidades produtivas dinâmicas e inovadoras do capitalismo. Como poderia, afinal, o socialismo competir com jeans Levi, bananas e pornografia?
Com a atual pandemia e uma economia que ameaça transformar-se numa depressão em grande escala, do tipo da dos anos de 1930, o sistema capitalista perdeu a sua invencibilidade. Entrando numa das mais graves crises do século XXI, lembrei-me das palavras de Rosa Luxemburgo em “O Folheto de Junius”, escrito após o rebentar da Primeira Guerra Mundial:
Este brutal desfile de vitórias do capital pelo mundo, conseguido através da utilização todas as formas de violência, assalto e infâmia, tem o seu lado positivo. Cria as pré-condições para a sua própria destruição final. Põe em prática o sistema capitalista de dominação mundial, pré-condição indispensável para a revolução socialista mundial. Isto, por si só, constitui o lado cultural e progressivo de sua reputada “grande obra de civilização” nas terras primitivas. Para economistas e políticos burgueses liberais, as ferrovias, os fósforos suecos, os sistemas de esgoto e as lojas departamentais são "progresso" e "civilização". 
Estes trabalhos em si, executados em condições primitivas, não são civilização nem progresso, pois são comprados com a rápida ruína económica e cultural dos povos que têm de experimentar, simultaneamente, a completa miséria e o horror de duas épocas: a do tradicional e natural sistema económico e a do mais moderno e voraz sistema capitalista de exploração. Assim, o desfile da vitória capitalista e de todas as suas obras têm o selo do progresso, no sentido histórico, apenas porque criam as pré-condições materiais para a abolição da dominação capitalista e da sociedade de classes em geral. E, neste sentido, o imperialismo, basicamente, trabalha para nós.
* Louis Proyect – tem o blog em http://louisproyect.org e é o moderador da lista de discussão do marxismo. Nas horas vagas, analisa filmes para o CounterPunch.
Tradução do inglês de MFO
in Pelo Socialismo. blog

sábado, 25 de abril de 2020

Capitalismo incapacitou governos de responder à emergência sanitária

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos publicou um ensaio em que reflete sobre como a pandemia covid-19 veio revelar que o capitalismo neoliberal incapacitou o Estado de responder a emergências, e que a natureza consegue defender-se da ação humana.

Notícias ao Minuto
25/04/20 08:41 ‧ Há 4 Horas por Lusa
Cultura Boaventura de Sousa Santos
"A cruel pedagogia do vírus" é o título do ensaio publicado em formato digital pela Almedina, e que é apenas "um embrião para um livro maior" que Boaventura de Sousa Santos está a escrever, e que deverá ser publicado no final do ano, explicou o sociólogo à agência Lusa.
Neste pequeno livro, o sociólogo expõe ao longo de cinco capítulos as suas reflexões sobre o impacto da pandemia causada pelo novo coronavírus à luz do contexto social, económico e político dos últimos anos.
Uma das "cruéis" lições dadas pelo vírus é que o grande perigo não é a sua letalidade, mas a incapacidade de os sistemas públicos de saúde darem resposta às emergências, fruto de anos de cortes, na saúde e nas políticas sociais, e de privatizações.
Se essas lições que o vírus está a dar "não forem minimamente aprendidas, nunca se voltará à normalidade, e o novo normal será o que designo como pandemia intermitente", afirmou o sociólogo, em entrevista à Lusa.
O especialista nas áreas da cidadania, poder social e globalização sublinha a "extraordinária" rapidez com que esta pandemia se propagou em todo o mundo, como nunca antes tinha acontecido, "produto das comunicações e da globalização que tornam o mundo mais pequeno, mais interdependente, mais vulnerável a tudo isto".
O problema é que, "a continuar este modelo de desenvolvimento, haverá outras pandemias, que tenderão a ser mais mortíferas e tenderão a propagar-se mais rapidamente".
Segundo Boaventura de Sousa Santos, desde a década de 1980, e "à medida que o neoliberalismo se foi impondo como a versão dominante do capitalismo, e este se foi sujeitando mais e mais à lógica do setor financeiro", o mundo tem vivido em permanente estado de crise, porque só assim se justificam os cortes e o desinvestimento nas políticas sociais, que têm como objetivo legitimar a concentração de riqueza.
Desta forma, as alternativas ao modo de vida imposto pelo hipercapitalismo foram sendo "expulsas do sistema político", e "irão entrar cada vez mais frequentemente na vida dos cidadãos pela porta dos fundos das crises pandémicas, dos desastres ambientais e dos colapsos financeiros", escreve no ensaio.
Qual a cruel pedagogia que se retira daqui? Que, "ao contrário do que se dizia nos últimos quarenta anos - que o Estado é ineficiente e que devemos privatizar a saúde, a educação, a previdência social -, vemos que começa uma pandemia e os mercados não existem, são silenciosos".
"Qual é a solução que os mercados nos oferecem para esta pandemia? Nenhuma. Portanto as pessoas recorreram ao Estado, não um Estado que os reprima, mas um Estado que os proteja", salientou.
Boaventura de Sousa Santos considera, pois, que "a primeira mudança que tem de ser feita é esta nova centralidade de um Estado protetor, de bem estar, onde o investimento na saúde publica não seja um custo como tem sido até agora -- os cortes foram em praticamente em todos os países - mas um investimento".
Como exemplo, na Europa refere Itália e França, que "foram os [países] que mais privatizaram a saúde e foram também os que tiveram muito mais dificuldades", mas também aqueles, como os Estados Unidos, que "nunca quiseram ter um SNS, [que] estão em situação de desastre".
"Portugal teve cortes, desde 2011 foi objeto de muitos cortes. Há dez anos, o país estaria mais bem preparado, mas não foi dizimado e está a reagir bem, e através de uma politica bastante coerente que é hoje considerada modelar para evitar que o Sistema Nacional de Saúde entre em pandemia", afirmou.
A segunda lição "cruel" que o vírus está a ensinar, e que está intrinsecamente ligada à primeira, é que o próprio modelo de desenvolvimento tem de mudar, para um mais sustentável e mais respeitador dos recursos naturais do planeta, defende o catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
O sociólogo acredita que as pandemias são a punição da natureza, pela sua violação sem limites, não no sentido de vingança, mas de "auto-defesa, para garantir a sua vida".
"Sabemos hoje que todas estas grandes formas de mutação que os vírus estão a ter resultam de uma interação cada vez mais invasiva da vida humana na vida não humana. Desde há alguns séculos decidimos explorar a natureza sem limites. A vida humana é 0,01% da vida do planeta, a vida humana é muito pouca, o planeta não precisa de nós, nós precisamos mais do planeta do que ele de nós, e é evidente que temos de mudar o modelo de desenvolvimento e ter outra atenção à ecologia e à natureza", afirmou.
Na opinião do catedrático, "deve estar condenada toda a energia assente nos combustíveis fosseis: temos de alterar a natureza energética, alterar os sistemas de transporte e favorecer os sistemas elétricos e os sistemas públicos em detrimento dos privados, temos que ter muitas alterações no nosso sistema de consumo".
Após a pandemia, no regresso à normalidade possível, "não prevejo que possamos continuar a ter grandes aglomerações de gente durante muito tempo", afirma, dando como exemplo os centros comerciais.
"Eu penso que este modelo de consumo está condenado e temos de acabar com estes centros comerciais e substituí-los por unidades mais pequenas, mais descentralizadas, mais próximas das populações e onde não se junte tanta gente durante tanto tempo", acrescentou.
A atenção aos idosos não vai poder também continuar a ser a mesma que tem sido até agora, e os lares vão ter de aliar a componente residencial com unidade de saúde, para atuar preventivamente.
O sociólogo lança também um olhar à indústria que não pode continuar a crescer assente na mão de obra barata, com vista apenas ao lucro financeiro, para resultar depois em situações "patéticas" como a "do país mais rico, mais poderoso do mundo - os EUA - que não produz luvas, não produz máscaras, não produz respiradores".
"O presidente Trump teve de recorrer a uma lei da guerra da Coreia para impor à General Motors que fabricasse respiradores, para não depender exclusivamente da China. Por isso, hoje em dia já se está a falar muito da relocalização em vez da globalização, de relocalizar as indústrias", acrescentou.
Boaventura de Sousa Santos critica também toda a "hipertrofia que demos ao turismo", a "indústria mais suscetível e mais vulnerável a qualquer crise", que deixa o país em grande dependência, além de "subsidiar a indústria dos aviões, que é uma das mais poluentes".
Na opinião do investigador, o caminho a seguir deveria ser aquele de que "já se está a falar, de uma soberania alimentar e industrial" do país.
Boaventura de Sousa Santos dedica ainda parte do ensaio aos grupos mais vulneráveis, que inclui, além dos idosos, as mulheres (designadamente vítimas de violência doméstica), os trabalhadores precários, os sem-abrigo, os moradores em bairros periféricos e degradados (como as favelas), os refugiados, os presos, os deficientes e os doentes mentais, todos aqueles que já são vítimas de desigualdade, mas que perante uma situação destas veem a sua situação agravar-se e, simultaneamente, tornar-se mais "invisível", face ao pânico que se apodera dos que não estão habituados a ele.
Terminando o ensaio com um capítulo dedicado ao futuro, Boaventura de Sousa Santos sublinha que "há aqui uma mudança de época que deveria ser tomada em conta", a questão em aberto é se "seremos capazes de aprender" com "as lições que a pandemia nos dá".

sexta-feira, 24 de abril de 2020

UM grande americano, um homem sério.

Bernie Sanders: “Vencemos a batalha ideológica”

08/04/2020
Por
Bernie Sanders
Tradução
Débora Nascimento
Em um discurso citando Martin Luther King e Nelson Mandela, Bernie Sanders anuncia o fim de sua candidatura em um tom desafiador, dizendo que “nunca fomos apenas uma campanha. Somos um movimento de base, multirracial e multigeracional, que sempre acreditou que a mudança real nunca vem de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima”. Veja aqui sua fala na integra.

Bernie Sanders apresentou uma proposta de aumento de salários e de inclusão dos trabalhadores na junta diretiva do Walmart - Frederic J. Brown / AFP.

Quero expressar a cada um de vocês minha profunda gratidão por ajudar a criar uma campanha política de base sem precedentes, que teve um impacto profundo na mudança de nossa nação.
Quero agradecer às centenas de milhares de voluntários que bateram em milhões de portas nos invernos gelados de Iowa e New Hampshire e no calor de Nevada e Carolina do Sul e nos demais estados de todo o país.
Quero agradecer aos 2,1 milhões de americanos que contribuíram para nossa campanha e mostraram ao mundo que podemos assumir um sistema financeiro de campanha corrupto e executar uma grande campanha presidencial sem depender dos ricos e poderosos. Obrigado por suas 10 milhões de contribuições, com uma média de US$ 18,50 por doação.
Quero agradecer aos que telefonaram para nossa campanha e aos que se uniram para enviar milhões de textos. Quero agradecer às centenas de milhares de americanos que participaram de nossos comícios, reuniões e festas, de Nova York a Los Angeles. Alguns desses eventos tiveram mais de 25 mil pessoas. Alguns tinham algumas centenas e outros uma dúzia. Mas todos foram importantes. Gostaria de agradecer àqueles que tornaram possíveis esses eventos.
Quero agradecer aos nossos substitutos, que são muitos para citar. Não posso imaginar que algum candidato tenha sido abençoado com um grupo mais forte e dedicado de pessoas que levaram nossa mensagem a todos os cantos do país. E quero agradecer a todos que fizeram da música e da arte parte integrante da nossa campanha.
Quero agradecer a todos vocês que falaram com seus amigos e vizinhos, postaram nas mídias sociais e trabalharam o máximo possível para tornar esse país um país melhor.
Juntos, transformamos a consciência americana quanto ao tipo de país em que podemos nos tornar e demos um passo importante na luta interminável por justiça econômica, justiça social, justiça racial e justiça ambiental.
Também quero agradecer às muitas centenas de pessoas em nossa equipe de campanha. Vocês se dispuseram a viajar de um estado a outro e fizeram tudo que precisava ser feito. Nenhum trabalho era grande ou pequeno demais para vocês. Vocês arregaçaram as mangas e conseguiram. Vocês incorporaram as palavras que estão no centro do nosso movimento: não eu, nós. E agradeço a cada um de vocês.

Vencemos a batalha ideológica

Como muitos de vocês devem se lembrar, Nelson Mandela, um dos grandes nomes na luta pela liberdade na história do mundo moderno, disse: “Sempre parece impossível até que seja feito”. E o que ele quis dizer com isso é que o maior obstáculo à mudança social real está relacionado ao poder do establishment corporativo e político de limitar nossa visão sobre o que é possível e o que temos direito como seres humanos.
Se não acreditarmos que temos direito à assistência médica como um direito humano, nunca obteremos assistência médica universal.
Se não acreditarmos que temos direito a salários e condições de trabalho decentes, milhões de nós continuarão vivendo na pobreza.
Se não acreditamos que temos direito a toda a educação necessária para realizar nossos sonhos, muitos de nós deixarão a escola sobrecarregados e com dívidas enormes ou nunca receberemos a educação de que precisamos.
Se não acreditarmos que temos o direito de viver em um mundo com um meio ambiente limpo e não devastado pelas mudanças climáticas, continuaremos vendo mais secas, inundações, aumento dos níveis dos oceanos e um planeta cada vez mais inabitável.
Se não acreditarmos que temos o direito de viver em um mundo de justiça, democracia e igualdade – sem racismo, sexismo, homofobia, xenofobia ou intolerância religiosa – continuaremos a enfrentar enormes desigualdades de renda e riqueza, preconceito e ódio, encarceramento em massa, imigrantes aterrorizados e centenas de milhares de americanos dormindo nas ruas do país mais rico do mundo.
Focar nessa nova visão para os Estados Unidos é o objetivo da nossa campanha e o que, de fato, realizamos. Poucos negariam que, nos últimos cinco anos, nosso movimento tenha vencido a luta ideológica. Nos chamados estados “vermelhos”, “azuis” e “roxos”, a maioria do povo americano agora entende que devemos aumentar o salário mínimo para pelo menos US$ 15 por hora; que devemos garantir os cuidados de saúde como um direito para todo o nosso povo; que devemos transformar nosso sistema de energia baseado em combustíveis fósseis; e que o ensino superior deve estar disponível para todos, independentemente da renda.
Não faz muito tempo que as pessoas consideravam essas ideias radicais e marginais. Hoje, elas são comuns, e muitas delas já estão sendo implementadas em cidades e estados do país. Foi isso que vocês conseguiram.
Em termos de assistência médica, mesmo antes da terrível pandemia que estamos enfrentando, cada vez mais americanos entenderam que devemos mudar para um sistema de pagamento único, o Medicare for All. Durante as eleições primárias, as pesquisas de boca de urna mostraram, em um estado após outro, que uma forte maioria de eleitores primários democratas apoiou um único programa de seguro de saúde do governo para substituir o seguro privado. Isso era verdade mesmo nos estados em que nossa campanha não triunfou.
E preciso dizer o seguinte: em termos de assistência médica, esta terrível crise em que estamos agora expôs o quão absurdo é nosso atual sistema de seguro-saúde baseado no empregador. A atual crise econômica que estamos enfrentando não apenas levou a uma enorme perda de empregos, mas também resultou em milhões de americanos perdendo seu seguro-saúde. Embora tenham dito aos americanos, repetidamente, o quão maravilhoso é o nosso sistema de seguro privado baseado em empregadores, essas afirmações soam muito vazias agora, à medida que um número crescente de trabalhadores desempregados luta entre deixar de ir ao médico ou ir à falência com uma enorme conta do hospital. Sempre acreditamos que a assistência à saúde deve ser considerada um direito humano, não um benefício do empregado – e estamos certos.
Entenda também que não apenas estamos vencendo a batalha ideologicamente, como também estamos vencendo de maneira geracional. O futuro de nosso país recai sobre os jovens e, estado após estado, vencendo ou não as primárias ou caucus, recebemos uma maioria significativa dos votos, às vezes uma maioria esmagadora, de pessoas não apensas de até 30 anos, mas de muitas com até 50 anos. Em outras palavras, o futuro deste país está com nossas ideias.

A crise atual

Como todos sabemos dolorosamente, agora enfrentamos uma crise sem precedentes. Não apenas estamos lidando com a pandemia do coronavírus, que tirou a vida de muitos milhares de pessoas, como também estamos lidando com um colapso econômico que resultou na perda de milhões de empregos.
Hoje, famílias em todo o país enfrentam dificuldades financeiras inimagináveis apenas alguns meses atrás. E, por causa dos níveis inaceitáveis de distribuição de renda e riqueza em nossa economia, muitos de nossos amigos e vizinhos têm pouca ou nenhuma poupança e estão desesperadamente tentando pagar o aluguel ou a hipoteca, ou até colocar comida na mesa. Essa realidade deixa claro que o Congresso deve enfrentar essa crise sem precedentes de uma maneira também sem precedentes, que proteja a saúde e o bem-estar econômico das famílias trabalhadoras de nosso país, e não apenas interesses especiais dos poderosos. Como membro da liderança democrata no Senado dos Estados Unidos e como senador de Vermont, é algo em que pretendo me envolver intensamente e que exigirá uma quantidade enorme de trabalho.

Para onde vamos a partir daqui?

Isso me leva ao estado de nossa campanha presidencial. Eu gostaria de poder trazer notícias melhores, mas acho que vocês já sabem a verdade. Agora, temos cerca de 300 delegados atrás do vice-presidente Biden, e o caminho para a vitória é praticamente impossível. Portanto, enquanto estamos vencendo a batalha ideológica e enquanto estamos ganhando o apoio de jovens e trabalhadores em todo o país, concluí que essa batalha pela indicação democrata não será bem-sucedida.
Hoje, estou anunciando a suspensão da campanha ativa e parabenizamos Joe Biden, um homem muito decente, por sua vitória.
Saibam que eu não tomo essa decisão de ânimo leve. De fato, foi uma decisão muito dolorosa. Nas últimas semanas, Jane e eu, em consulta com os principais funcionários e muitos de nossos apoiadores de destaque, fizemos uma avaliação honesta das perspectivas de vitória. Se eu acreditasse que tínhamos um caminho possível para a indicação, certamente continuaria a campanha. Mas não temos essa chance.
Sei que alguns de nosso movimento discordam dessa decisão e gostariam que lutássemos até a última votação na convenção democrata. Eu entendo essa posição. Mas, como vejo a crise dominando a nação – exacerbada por um presidente que não quer ou não pode oferecer nenhum tipo de liderança confiável – e o trabalho que precisa ser feito para proteger as pessoas nesta hora mais desesperadora, não posso, em sã consciência, continuar a montar uma campanha sem perspectiva de vitória e que interferiria no importante trabalho exigido de todos nós nesta hora difícil.
Mas digo isto com muita ênfase: como todos sabem, nunca fomos apenas uma campanha. Somos um movimento de base, multirracial e multigeracional, que sempre acreditou que a mudança real nunca vem de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima. Enfrentamos Wall Street, as seguradoras, as farmacêuticas, a indústria de combustíveis fósseis, o complexo industrial militar, o complexo industrial prisional e a ganância de toda a elite corporativa. Essa luta continua. Embora esta campanha esteja chegando ao fim, nosso movimento não está.
Martin Luther King, Jr. nos lembrou que “o arco do universo moral é longo, mas se inclina em direção à justiça”. A luta pela justiça é o objetivo da nossa campanha. A luta pela justiça é o tema do nosso movimento.
E, de maneira prática, também digo o seguinte: Permanecerei na votação em todos os estados restantes e continuarei a reunir delegados. Embora o vice-presidente Biden seja o candidato, ainda devemos trabalhar para reunir o maior número possível de delegados na convenção democrata, onde poderemos exercer influência significativa sobre a plataforma do partido e outras funções.
Então, juntos, unidos, avançaremos para derrotar Donald Trump, o presidente mais perigoso da história moderna dos Estados Unidos. E lutaremos para eleger fortes progressistas em todas as esferas do governo, do Congresso ao conselho escolar.
Como espero que todos saibam, essa corrida nunca foi sobre mim. Concorri à presidência porque acreditava que, como presidente, poderia acelerar e institucionalizar a mudança progressiva que todos estamos construindo juntos. E, se continuarmos nos organizando e lutando, não tenho dúvidas de que nossa vitória é inevitável. Embora o caminho possa ser mais lento agora, mudaremos este país e, com amigos com ideias semelhantes em todo o planeta, mudaremos o mundo inteiro.
Em caráter pessoal, falando por Jane, por mim e por toda a nossa família, sempre teremos em nossos corações a memória das pessoas extraordinárias que conhecemos em todo o país. Muitas vezes ouvimos sobre a beleza dos Estados Unidos. E este é um país incrivelmente bonito.
Mas para mim, a beleza da qual mais me lembrarei está no rosto das pessoas que encontramos de um canto ao outro deste país. A compaixão, o amor e a decência que vi nelas me deixam esperançoso com o nosso futuro. Também me deixa mais determinado do que nunca a trabalhar para criar um país que reflete esses valores e eleva todo o nosso povo.
Fiquem nessa luta comigo. Vamos avançar juntos. A luta continua.
«É muito simples e bastante óbvio, mas nele se concentram todas as análises multifacetadas da ordem capitalista. É o seguinte: há uma contradição flagrante entre o carácter cada vez mais social do processo de produção e o carácter anti-social da propriedade capitalista. Nosso modo de existência, to-do o modo de produção, torna-se cada vez mais social, no sentido de que os antigos produtores autónomos não podem mais continuar a produzir independentemente uns dos outros, geração após geração, como faziam no sistema pré-capitalista. Cada elemento, cada fracção, cada pequeno organismo de nossa sociedade depende de todo o resto. Todo o processo de produção se torna um único processo de produção - e não apenas um único processo de produção nacional, mas um único processo de produção internacional. Ao mesmo tempo, temos um tipo anti-social de propriedade privada. Tal contradição entre o carácter anti-social da propriedade e o carácter social de nossa produção é a fonte de toda a irracionalidade existente no capitalismo” (Deutscher)
Isaac Deutscher
Escritor
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Descrição

Isaac Deutscher foi um escritor polonês, jornalista e ativista político que se mudou para o Reino Unido no início da Segunda Guerra Mundial. Ele é mais conhecido como biógrafo de Leon Trotsky e Joseph Stalin e como comentarista sobre assuntos soviéticos. Wikipédia
Nascimento: 3 de abril de 1907, Chrzanów, Polónia
Falecimento: 19 de agosto de 1967, Roma, Itália
The Prophet: The Life of Leon Trotsky
The Prophet: The Life.

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.