Dix-huit des meilleurs analystes nord-américains montrent ici que le
22 février 2014, place Maïdan à Kiev, après des mois de déstabilisation
politique financée par les États-Unis et l’Union européenne, des
groupes soutenus par l’Occident ont confisqué par un coup d’état
flagrant le pouvoir d’un président démocratiquement élu. Des extrémistes
néo-nazis, à l’avant-garde des manifestations, ont obtenu
des ministères et d’autres postes importants dans le nouveau
gouvernement non-élu. à cause de la couverture médiatique pro-Maïdan
fortement influencée, sinon contrôlée, par les gouvernements
occidentaux, les Européens ont généralement vécu ce changement de régime
avec apathie. Ils semblent ne pas comprendre qu’il y a eu un coup
d’état fasciste au coeur de l’Europe… et un coup d’état soutenu par
leurs propres dirigeants. Comme en Libye, Syrie, Yougoslavie, Irak,
etc., on a assisté en Ukraine au plus cruel sadisme masqué par une
gigantesque puissance de feu médiatique occidentale : assassinats à
Maïdan par des snipers d’élite néo-nazis maquillés en police d’État ;
immolations vivantes au lance-flammes de fédéralistes pacifiques par des
groupes néo-nazis téléguidés par la junte et maquillées en incendie à
Odessa devant la police passive et complice ; officines
déstabilisatrices de la CIA financées à hauteur de 5 milliards de
dollars depuis 1991 et camouflées en ONG humanitaires « pro-démocratie
», etc.
Cependant, du développement même de cet affrontement mûrit une «
vision politique » : dans le Donbass, le peuple qui pour survivre secoue
le joug du libéral-fascisme, prend conscience du fait que
l’alternative « ou bien mourir pour un oligarque russe ou bien mourir
pour un oligarque ukrainien » n’est pas pertinente et se dépasse
nécessairement en : s’approprier collectivement les biens productifs
usurpés par les oligarques de toute obédience. Puisse alors ce « retour
du réel et du rationnel » refluer comme un boomerang de Donetsk vers
l’ouest et montrer aux pyromanes US/UE que désormais le roi est nu.
Discurso proferido na “Conferência do Fim do Mundo” da Internacional Progressista
Falas como essa costumam começar com o palestrante enfatizando que
nos encontramos em um momento urgente. Hoje, porém, quando você observa o
mundo ao redor, percebe que se trata de uma verdade. Tantas coisas
estão acontecendo no mundo – e tão rapidamente – que, por vezes, é
difícil e atordoante acompanhar.
A Internacional Progressista (IP) é um projeto jovem, mas que já fez
tanto para nos aproximar, pela ação em defesa de transformações radicais
e para tornar nosso mundo acelerado compreensível. Eu me orgulho de que
o Peace and Justice Project seja membro e tenho a honra de compor o seu conselho junto a tantos líderes e ativistas inspiradores.
A primeira conferência da Internacional Progressista, que ocorreu em
setembro de 2020, organizou-se em torno do título “Extinção ou
Internacionalismo”. Um ano e meio depois, devemos ser realistas: o
ponteiro aproximou-se mais da extinção.
No mês passado, os climatologistas alertaram que, para limitar o
aquecimento global, é “agora ou nunca”. É quase possível ouvi-los gritar
diante de seus teclados, desesperados para que os governos realmente
façam alguma coisa, quando destacam a importância de cortes “rápidos,
profundos e imediatos” nas emissões de CO2.
O alerta vermelho começou a soar depois do fracasso da COP26, em
Glasgow, onde dependemos de que vozes alternativas, nas margens do
evento, nos dissessem a verdade e planejassem um futuro melhor. Mas as
suas palavras – assim como as dos cientistas – não são apenas um alerta
acera do futuro; elas descrevem a presente realidade de bilhões de
pessoas.
O sul da Ásia já está no terceiro mês de uma onda de calor extrema,
com temperaturas ultrapassando os 40ºC um dia após o outro. Imagine
isso: nenhuma trégua, nenhum alívio, trabalhar neste calor.
Nós, humanos, somos incrivelmente capazes de nos adaptar, mas a morte
chega antes quando está tão quente. Cientistas descobriram que até
mesmo aumentos relativamente pequenos na temperatura média levam a
riscos muito maiores de mortes em massa devido ao calor. Já vimos como o
calor extremo provoca incêndios florestais, destruindo habitats e
matando animais e pessoas.
Trinta milhões de pessoas tiveram que migrar devido aos choques
climáticos em 2020. E estes choques acumulam mais conflitos futuros ao
arruinar as safras. Punjab, o celeiro da Índia, já observou uma queda
preocupante nas colheitas de trigo deste ano devido ao calor.
E não é apenas o sul da Ásia que está escaldando. Em março, ambos o
Ártico e a Antártica estavam, ao mesmo tempo, a 30ºC acima de suas
temperaturas médias. Deixe-me dizer mais uma vez. O polo Norte e o polo
Sul estavam, ambos, 30ºC mais quentes do que o normal para um mês de
março. O gelo está derretendo e o nível do mar está aumentando. Pequenas
nações insulares estão em risco, assim como bilhões de pessoas que
vivem em regiões costeiras ou dependem de cadeias de abastecimento que
utilizam a infraestrutura costeira.
Sabemos que o modelo econômico dominante, com sua poluição, extração e
obsolescência interna pouco se preocupa com o nosso meio ambiente. Mas
as suas artérias, a cadeias globais de fornecimento que conectam as
minas, as fábricas, as vias de navegação, os portos, os armazéns, as
redes de suprimento e os consumidores de todo o planeta já estão
profundamente abaladas, mesmo antes de se poderem sentir todos os
efeitos do colapso climático.
Na economia capitalista global intensamente integrada, especialmente
após o FMI passar décadas forçando os países a abandonarem a produção
para seus mercados domésticos, a interrupção implica desastre. Mais de
800 milhões de pessoas – uma a cada dez pessoas da população mundial
inteira – já estão indo dormir com fome.
O preço do trigo já dobrou este ano. E ele pode continuar subindo
conforme os efeitos da invasão criminosa da Rússia na Ucrânia e do
isolamento parcial da economia russa, decorrente disso, são sentidos. Os
dois países estavam dentre os cinco maiores exportadores de trigo do
mundo antes da guerra. Muitos países no Sul Global dependem deles para
seu abastecimento alimentar.
A guerra da Rússia na Ucrânia deve ser condenada. E ela devia focar
nossa atenção em todas as outras vítimas de guerra em países
beligerantes por todo o mundo. É claro, estamos com o povo ucraniano,
assim como estamos com qualquer população vítima de invasão,
deslocamento e ocupação. E devemos, enquanto movimentos progressistas
por todo o mundo, nos manter extremamente firmes em nosso apoio aos
refugiados, cujos direitos e cujas vidas devem ser protegidos. Aqueles
fugindo da violência e da fome no Afeganistão e no Iêmen, atualmente os
lugares mais pobres do planeta devido à sua destruição pela guerra,
devem ser recebidos com humanidade e hospitalidade, não racismo e
ressentimento.
Guerras levam à fome, ao sofrimento psíquico e à morte por anos
depois que as lutas cessam. Não temos tempo a perder. Deve haver um
cessar-fogo imediato, a retirada das forças russas e a negociação de um
acordo.
Se não houver, não apenas o povo ucraniano continuará enfrentando o
horror das bombas, dos tanques e das sirenes antiaéreas; não apenas os
refugiados ucranianos sofrerão futuros incertos e terão que se deslocar
de suas famílias e comunidades; não apenas jovens recrutas russos serão
enviados para serem brutalizados no exército e para morrer em uma terra
estrangeira por uma guerra que não compreendem; não apenas o povo russo
irá sofrer sob sanções; não apenas as pessoas no Egito, na Somália, em
Laos, no Sudão, e muitas outras que dependem do trigo das nações em
guerra enfrentarão o aumento da fome; não apenas os preços para os
consumidores por todo o mundo irá aumentar, intensificando a luta para
simplesmente seguir em frente.
Mas todos na Terra enfrentarão a ameaça do Armageddon
nuclear. A ameaça de um confronto direto entre as forças russas e a OTAN
é uma ameaça clara e atual para todos nós. Ambos os lados estão sendo
incentivados por forças selvagens e perigosas em suas respectivas
mídias. Estas ações são extremamente perigosas. Elas estabelecem uma
atmosfera de ameaça e de medo extremos que tornam a destruição da vida
como a conhecemos muito mais provável.
Já estivemos aqui antes. A maioria das pessoas não sabe quão perto
chegamos de uma guerra nuclear. Em 1983, as lideranças soviéticas
estavam convencidas de que o Ocidente iria lançar um ataque nuclear. Em
26 de setembro, o sistema soviético de alarme nuclear prévio disparou,
sugerindo que os Estados Unidos haviam dado início a um ataque. De
acordo com o protocolo, a URSS lançaria um ataque nuclear retaliatório
imediato.
O oficial encarregado, Stanislav Petrov, desrespeitou o protocolo,
evitando um ataque em retaliação por acreditar – ou talvez esperar – que
se tratava de um alarme falso. Ele aguardou, durante aqueles nervosos
minutos, para ver se as bombas viriam. Ele estava certo, e salvou a
humanidade. É a essa distância que chegamos da aniquilação: um homem
revogando os protocolos militares estabelecidos e confiando em seus
instintos em vez de na tecnologia.
É por isso que é tão importante defender a proibição de armas
nucleares, o tratado global de proibição, que hoje faz parte das leis
internacionais devido a campanhas inspiradoras do Sul Global. E, agora,
devemos nos unir e construir um movimento global pela paz. Conforme
afirma a declaração política da Internacional Progressista: desmontar a
máquina de guerra e construir uma diplomacia dos povos.
Não será fácil. Empresas armamentistas se dão muito bem fora da guerra. Elas financiam políticos e think tanks.
Elas têm muitos porta-vozes midiáticos. Aqueles que lutam pela
verdadeira paz são demonizados, uma vez que os interesses da máquina de
guerra estão por detrás do conflito.
É por isso que defensores da justiça também são atacados com tanta
persistência. Eles ameaçam a riqueza e o poder ilícito dos poucos. Vemos
isso acontecer repetidamente. Seus interesses não são os interesses
gerais. Eles não são os interesses de vocês.
Podemos ver isso com uma clareza dolorosa na pandemia, conforme o Big Pharma
se recusa a compartilhar a tecnologia das vacinas que foram
desenvolvidas, principalmente, com financiamentos públicos. Quem se
beneficia disso? Os executivos da indústria farmacêutica e seus
acionistas. Quem perde? Todas as outras pessoas. Mais mães e mais pais
morrem. Mais vidas são arruinadas. E a ameaça da mutação viral ronda
sobre todos, vacinados e não vacinados.
Como é que eles se safam disso? Eles convenceram os governos de
alguns dos países mais ricos e poderosos de que os interesses
empresariais são os seus interesses. Não é uma conspiração. Apenas
observem os fatos. O Estado é usado para sustentar a riqueza dos mais
ricos. Bancos centrais injetaram 9 trilhões de dólares em 2020 em
resposta à pandemia. O resultado? O patrimônio dos bilionários aumentou
em 50% em um ano enquanto, ao mesmo tempo, a economia global retraiu.
Ela ficou menor.
Os bilionários e as empresas dizem que odeiam a ação governamental.
Na verdade, eles a amam. A única coisa que odeiam são governos agindo em
defesa dos interesses de vocês.
E, por isso, eles lutam para manter os governos em seus bolsos e
tentam derrubar aqueles que não estão. Eles precisam que o Estado os
sustente. Uma vez que o crescimento econômico provavelmente será pequeno
nas próximas décadas, conforme as elites evitam e administram mal a
transição energética, a riqueza e as dívidas dos poderosos precisarão
ser constantemente reforçadas por bancos centrais e políticas
governamentais.
Assim, quando damos um passo atrás e avaliamos todas as dinâmicas e
perigos que acompanham isso, uma verdade surge diante de nós. Estávamos
acostumados a pensar que existe uma série de crises distintas: a
climática, a dos refugiados, a habitacional, a da dívida, as crises de
desigualdade, a crise dos ricos ficando mais ricos e os pobres mais
pobres. Tentávamos isolar cada uma para resolvê-las.
Então começamos a perceber que as crises principais – do capital, do
clima e do imperialismo – estavam entrelaçadas. Por isso, tivemos que
enfrentar todas elas ao mesmo tempo, mas de maneiras distintas.
Agora, podemos ver que não enfrentamos múltiplas crises distintas. O
próprio sistema está em crise. O sistema global não está em uma crise que pode ser resolvida. O sistema é
a crise e deve ser superado, substituído, transformado. Conforme diz o
slogan, precisamos de mudanças sistêmicas, não de mudanças climáticas.
É por isso que, nesta semana, a Internacional Progressista se
encontra sob o título não tão animador de “Conferência no Fim do Mundo”
[“Summit at the End of the World”].
Porque o fim do mundo já está aqui – ele só é mal distribuído. A
imagem do apocalipse – bombas e ataques aéreos, vazamentos de petróleo e
incêndios florestais, doenças e epidemias – já é a realidade para
pessoas por todo o planeta.
A periferia é o futuro, não o passado. Nos disseram que os países
desenvolvidos oferecem àqueles em desenvolvimento uma imagem de seu
futuro. Mas a periferia está na vanguarda da história – onde a crise do
capital ataca com mais força, as consequências do colapso climático
chegam mais rápido e o grito de resistência soa mais alto.
E essa resistência é poderosa e inspiradora. Existe, apesar de tudo, muito para nos dar esperança.
Desde a última conferência da Internacional Progressista, o mundo
assistiu à maior greve da história. Agricultores e trabalhadores aliados
na Índia resistiram a dois projetos neoliberais que o governo de
Narenda Modi queria aprovar no seu parlamento. Os agricultores
defenderam seus interesses, os seus meios de vida e as necessidades dos
mais pobres. E eles venceram.
Ou, então, considere a Amazon, a quinta empresa com maiores lucros
durante a pandemia. Sua ganância e exploração têm sido corajosamente
enfrentados pelos trabalhadores, pelas comunidades e pelos ativistas em
todos os continentes do mundo. Eles se uniram para “fazer a amazon
pagar” [Make Amazon Pay].
Na América Latina, em país após país, as pessoas estão se mobilizando
em defesa de líderes políticos progressistas que dizem chega à
dominação pelo capital, à destruição de suas comunidades e ao abuso do
meio ambiente.
Mas resistir não é o suficiente. Precisamos construir.
E é isso que eu vejo em comunidades por todo o mundo: pessoas se
unindo diante da adversidade e percebendo que, se trabalharem juntas,
suas conquistas são maiores. O socialismo já está presente em nossas
comunidades. Cultivá-lo até que se torne uma alternativa poderosa é a
nossa tarefa, nossa causa.
E é isso que estamos fazendo nesta semana. Esta conferência é um
local de construção. Por que estamos fazendo um balanço deste mundo
agonizante? Para construir o novo, aquele que o substituirá –
transbordando de vida, unido pelo amor, e movido pela soberania popular.
Como fazemos isso? É algo tão urgente. Não há mais tempo a perder.
Em primeiro lugar, nos unimos. Forças progressistas precisam se unir
para além das fronteiras e das dificuldades para mobilizar-se e
organizar-se no confronto às crises do capital, do clima e do
imperialismo.
Isso significa que a tarefa com a qual cada um de nós se confronta é
dupla. Nós fortalecemos os trabalhadores urbanos e rurais em suas lutas
contra a exploração, pessoas e comunidades em suas lutas por dignidade, e
forças progressistas que trabalham para mobilizar o poder estatal. E
nós reunimos todas elas em alianças populares poderosas com a capacidade
de reconstruir o mundo.
Conforme os sistemas entram em colapso, enfrentaremos os defensores
da reação, assim como a elite que deseja manter as coisas como estão. Já
sentimos o gosto de seu veneno com Trump, Bolsonaro, Modi, Erdogan,
Putin e Duterte.
Para derrotar estes monstros de nosso tempo e os novos que virão,
construímos o poder popular para unir as lutas contra o fim do mundo com
a batalha no fim do mês. Nossos movimentos devem levar a uma vida
melhor para as pessoas comuns, garantindo sua sobrevivência, moradia,
saúde, seu direito a ter mais tempo para passar com os amigos e com
aqueles que amam, o poder sobre suas próprias vidas, e um meio ambiente
limpo, seguro e sustentável.
Se fizermos isso, cultivaremos a esperança e não o desespero. E daremos vida a um novo mundo a partir das cinzas deste.
Portanto, eu quero que vocês se comprometam hoje: dupliquem seus
esforços nas lutas em que estão envolvidos. Juntem-se àquela campanha a
que têm considerado juntar-se. Demonstrem aquela solidariedade real.
Enfrentem os bullies. Construam sindicatos. Façam parte de movimentos. E ajudem a uni-los, como estamos fazendo hoje na Internacional Progressista.
Cabe a nós construir um novo mundo. Faça-o para si mesmo, para a sua
família, para sua comunidade. Faça-o pela humanidade. Se não o fizermos,
a vida irá piorar muito para a maioria das pessoas no intervalo de uma
geração. Mas se o fizermos, a vida será muito melhor.
Quero que vocês sejam capazes de olhar para trás, daqui a uma
geração, e dizer, sim, eu construí os sindicatos, as organizações
comunitárias, os movimentos sociais, as campanhas, os partidos, a
Internacional que inverteu a maré.
Quero que vocês sejam capazes de dizer, sim, somos a maior geração,
que, junta, produziu e distribuiu a comida, as moradias e os cuidados de
saúde para que ninguém enfrentasse a pobreza, que preservou e
compartilhou a sabedoria dos povos deste planeta, espalhou o amor entre
as pessoas e as comunidades, construiu sistemas energéticos para
descarbonizar nosso planeta, destruiu máquinas de guerra e defendeu os
refugiados, que controlou o poder dos bilionários e garantiu uma nova
ordem econômica internacional.
Será fácil? É claro que não. Iremos enfrentar uma resistência enorme.
É claro que iremos. Haverá altos e haverá baixos. Mas todos os dias
podemos nos levantar e saber que faremos nossa pequena parte. É tudo o
que podemos fazer. Dia após dia. Semana após semana. Mês após mês. Ano
após ano. Construindo nossas campanhas, construindo nossos movimentos,
construindo nosso poder, e tomando o futuro em nossas mãos.
É assim que grandes vitórias foram conquistadas no passado – todas as
lutas que se uniram – pelo voto, pela independência, pelos direitos
civis, pela terra, pela saúde, pelos empregos – que tornaram nosso mundo
mais civilizado. Podemos encontrar grande força e orgulho nesta
história. E podemos e iremos nos apoiar nos ombros dos jovens de todo o
mundo e reivindicaremos seus futuros e suas oportunidades.
Mesmo diante de enorme resistência e opressão e de um sistema em
colapso, reconstruiremos um mundo adequado para a próxima geração. Como
escreveu uma vez o grande e maravilhoso poeta chileno Pablo Neruda,
“podes cortar todas as flores, mas não podes impedir a primavera de
aparecer”. E a primavera, meus amigos, está chegando.
*Jeremy Corbyn é membro do parlamento inglês.
Foi líder do Partido Trabalhista e líder da Oposição na Câmara dos
Comuns do Reino Unido de 2015 a 2020.
Tradução: Daniel Pavan.
Publicado originalmente no site da revista Jacobin.
"o futuro do governo Biden, e de certa forma, da própria humanidade,
dependerá muitíssimo da capacidade do governo americano e de todas as
grandes potências ocidentais, de entender e aceitar o fato de que acabou
a exclusividade do sucesso econômico liberal do Ocidente; e o que é
talvez ainda mais importante e difícil de aceitar: que acabou
definitivamente o monopólio moral da “civilização ocidental”. Resposta do sociólogo brasileiro José Luís Fiori, do qual publico em baixo uma parte da entrevista que lhe fizeram em 24 de Dezembro de 2021.
Não adivinhou a guerra Rússia versus Ucrânia-UE-EUA , que veio credibilizar o Império e unir as direitas da UE. Esta guerra realiza até à data (17/05) o grande Plano imperialista : tendo que aceitar dois blocos, o atual hegemonizado pelos EU, e o composto pela China, Federação Russa e seus aliados vizinhos e eventualmente o Irão, tenta enfraquecer o poderio militar dos adversários, começando pelo poderia russo, intervirá com mais força destrutiva no Médio Oriente (Síria, Irão), tentará dividir o continente asiático. O credo "liberal" volta a impôr-se, menos liberal, menos democrático e mais nacionalista.
Tudo mudou. O imperialismo reforçou-se, as perspectivas revolucionárias ficam num longínquo horizonte, sobram as esquerdas de pouco poder reformista.
José Luís Fiori expõe sua hipótese sobre o poder global
Na entrevista em que narra sua trajetória,
ele conta como chegou a uma concepção particular sobre a formação e
dinâmica do sistema capitalista. Seu impulso não viria dos mercados, mas
de uma tendência incontível à guerra e à conquista
Entrevista a Gilberto Bercovici e Luiz Felipe Osório, em Margem Esquerda | Imagem: John S. Sargent
Na sua tese de professor titular, “Instabilidade e crise do
Estado na industrialização brasileira”, de 1988, você faz uma análise do
processo de industrialização brasileiro, falando inclusive dos “sonhos
prussianos” de parte dos nossos dirigentes. Após ter constituído um
parque industrial relevante, a política adotada no país a partir de 1990
foi a da desindustrialização. Como você explicaria isso? Nossos sonhos
prussianos foram abandonados de vez e nosso atraso deixou de ser uma
vantagem?
Esta é uma questão fundamental em toda discussão a respeito do
desenvolvimento capitalista brasileiro e seu bloqueio a partir da década
de 1980. E é sem dúvida um ponto central que está presente na minha
tese de doutoramento e que reaparece na minha tese de professor titular
defendida em 1989. Até a década de 1980, os “sonhos prussianos” de
alguns setores militares (sim, porque também entre eles sempre houve
liberais e desenvolvimentistas, apesar de quase todos defenderem o
alinhamento automático com os Estados Unidos, em termos estratégicos
internacionais) e de parte da elite política puderam conviver com o
liberalismo da outra parte das mesmas elites e do mesmo empresariado
brasileiro, graças ao apoio estadunidense ao projeto desenvolvimentista e
às condições financeiras criadas pelos Acordos de Bretton Woods.
Mas, como já dissemos, essa aliança foi “estrangulada” na década de
1970 pela mudança da estratégia econômica internacional dos Estados
Unidos, que reduziu a margem de manobra interna da “política
macroeconômica desenvolvimentista” dos governos militares. Primeiro, os
“sonhos prussianos” do general Geisel entraram em conflito com a
“intolerância hemisférica” dos Estados Unidos; depois, seus sucessores
perderam espaço de manobra macroeconômica com a desregulação dos
mercados financeiros globais e o fim da “proteção de Bretton Woods”.
Ainda
sobre a industrialização, você chegou a afirmar que o financiamento
internacional da siderurgia pesada no Brasil, opção tomada graças à
resistência do empresariado nacional e à escassez de recursos próprios,
teria marcado a impossibilidade de qualquer industrialização realmente
autônoma no país. A falta de articulação entre Estado e empresariado,
vetada pelas elites econômicas brasileiras, teria condicionado a
industrialização brasileira a um desenvolvimento associado ao capital
internacional, não sendo um projeto efetivamente nacional. Você continua
entendendo o processo de industrialização brasileira desse modo? Houve a
possibilidade de um processo realmente autônomo?
Acho que o problema não foi falta de articulação entre o Estado e o
empresariado brasileiro. Sempre houve militares e empresários que
sonharam com algum tipo de “capitalismo de Estado” à brasileira, mas
sempre houve também um número bem maior de militares e empresários
liberais e ultraliberais que se opuseram a esse projeto. Foi esse grupo
liberal que acabou vetando e derrotando internamente o projeto do
governo Geisel de transformar o Brasil numa potência intermediária, e
essa facção interna do próprio governo Geisel aproveitou para “saltar do
barco” no momento em que o governo estadunidense tirou seu apoio
internacional ao regime militar brasileiro, menos por conta do seu
autoritarismo e mais por conta do seu veto à autonomização estratégica
do Brasil.
Muitos autores da época falaram de um “tripé” para caracterizar o
modelo de desenvolvimento brasileiro, mas a verdade é que esse tripé
esteve presente em quase todos os casos de desenvolvimento capitalista
depois da Segunda Guerra Mundial. Contudo, nos anos 1970-80 esse “tripé”
acabou sendo inviabilizado, pelo lado econômico, exatamente porque os
“ortodoxos” forçaram o financiamento do II PND por meio do endividamento
externo, que na época estava barato, só que essa dívida explodiu depois
da subida da taxa de juros estadunidense em 1979.
Muitas coisas mudaram no Brasil nas últimas décadas, mas essa
estrutura básica dos interesses e das posições ideológicas segue sendo
muito parecida. O desenvolvimentismo perdeu apoio internacional, e a
abertura do mercado financeiro brasileiro realizada pelo governo FHC na
década de 1990 liquidou de vez qualquer possibilidade de retomar o
arranjo dos anos 1950-60. E esse é o grande bloqueio que o Brasil
enfrenta hoje, parecido com o que a Argentina vem enfrentando desde os
anos 1950. O projeto neoliberal não tem a menor possibilidade de dar
conta do desafio de uma sociedade tão terrivelmente grande, desigual e
miserável como a brasileira, e o projeto desenvolvimentista clássico, ou
de um capitalismo de Estado mitigado, não conta com o apoio
estadunidense, além de ter o veto da burguesia financeira nacional, que
adquiriu enorme poder depois dos anos 1990.
É notória e profícua sua parceria com a professora Maria da Conceição Tavares. Em entrevista à esta Margem Esquerda,
ela mesma confirmou a importância da interlocução intelectual entre
vocês.7 Ela lembrou o episódio de quando vocês se conheceram no Chile,
das discordâncias iniciais e da posterior complementação das ideias –,
sendo que ela com a economia política e, você com a sociologia, a
história e a ciência política. Como se deu essa parceria intelectual que
envolveu, ao mesmo tempo, uma amizade fraternal?
De fato, conheci Conceição Tavares em Santiago do Chile, em 1968, e
depois fui seu aluno na Escolatina da Universidade do Chile, mas
sobretudo fomos sempre grandes amigos, uma amizade fraternal que se
estende até hoje. Ao mesmo tempo, sempre tivemos uma interlocução
intelectual extremamente profícua. Primeiro, acompanhando a experiência
política chilena, depois, no Brasil, onde assistimos e muitas vezes
participamos da luta pela redemocratização brasileira. Do ponto de vista
propriamente acadêmico, creio que nossa parceria esteve estreitamente
associada à criação da pós-graduação do Instituto de Economia Industrial
da UFRJ, na primeira metade dos anos 80, e posteriormente, à criação do
programa de pesquisa no campo da economia política internacional que
montamos com outros colegas no período em que ela foi diretora do
Instituto de Economia Industrial da UFRJ.
A pesquisa começou em 1986 e nos levou à Europa, Ásia e Estados
Unidos, onde pudemos estudar as transformações econômicas e geopolíticas
que começaram com a crise da década de 1970 e culminaram com o fim da
União Soviética e da Guerra Fria e com o grande avanço da globalização
financeira dos anos 1990, sob a batuta do poder militar global
estadunidense. E hoje estou convencido de que a grande originalidade do
nosso novo programa de pesquisa, naquele momento, no campo da economia
política internacional, foi a de juntar duas questões que apareciam
inteiramente separadas nos debates acadêmicos da época: a “crise do
desenvolvimentismo brasileiro” e latinoamericano e a “crise e retomada
da hegemonia estadunidense” dos anos 1970-80. E esse passou a ser o tema
dominante das nossas tertúlias intelectuais nas décadas seguintes.
Essa releitura da conjuntura internacional foi o pontapé inicial
da pesquisa mencionada na pergunta anterior, e que reuniu vários
professores da UFRJ e da Unicamp, que trabalharam juntos durante vários
anos, culminando na formação, em 2008, do Programa de Pós-Graduação em
Economia Política Internacional, no Instituto de Economia da UFRJ.
Na
sua concepção teórica, você aponta para elementos centrais como
tendência expansiva e internacionalizante dos capitais, hegemonia,
imperialismo, sistema interestatal capitalista, poder e riqueza. Em
quais pontos você se aproxima de Marx ou das teorias marxistas em geral e
em quais momentos você se afasta? O conceito de imperialismo, central
na leitura marxista, influencia sua obra? Como?
Acho que
se pode dizer, sem medo de errar, que as teorias do imperialismo do
início do século XX foram as grandes precursoras da atual economia
política internacional, que só se assumiu como disciplina acadêmica nas
últimas décadas do século passado, em particular no mundo acadêmico
anglo-americano. É óbvio que elas exerceram grande influência sobre
minhas ideias e pesquisas no campo internacional. De qualquer forma, o
deslocamento da minha reflexão para o campo do “poder” e suas várias
formas de organização e expansão só se deu a partir da publicação do meu
ensaio “Formação, expansão e limites do poder global”, no livro O Poder Americano
que organizei e editei em 2004, na Coleção Zero à Esquerda, liderada
pelo professor Paulo Eduardo Arantes, na Editora Vozes. E, em
particular, no prefácio do meu outro livro O poder global e a nova geopolítica das nações,
onde acho que realmente formulei as bases da minha nova visão do
sistema de poder mundial. Creio que foi aí, depois da formulação do que
chamei de “paradoxo de Petty”, a respeito da origem do “excedente
econômico”, que comecei minha leitura da história do sistema
interestatal capitalista, de forma autônoma com relação à economia
política clássica e à teoria do imperialismo.
Considero que foi
só então que consegui definir meu enfoque pessoal de pesquisa, dentro da
economia política internacional. Um enfoque que parte do conceito de
“poder” como uma “energia que se expande a partir de si mesma”, para
chegar a deduzir algumas hipóteses sobre a dinâmica de todo “poder
territorial”, em particular, do poder dos “Estados e economias
nacionais” que se transformaram na unidade competitiva e motora do
sistema interestatal capitalista. Um sistema que funciona como uma
espécie de máquina de acumulação de poder e riqueza e que se expande de
forma contínua sem nenhum tipo de telos, ou de destino necessário ou
predeterminado.
Foi a partir dessas hipóteses que me debrucei
sobre a história de longo prazo de formação e desenvolvimento do sistema
interestatal capitalista, começando pelas “guerras de conquista” e pela
“revolução comercial” que ocorreram no continente europeu nos séculos
XII e XIII, para chegar até a formação dos Estados e economias nacionais
europeias e o início da sua vitoriosa expansão mundial, a partir do
século XVI. Como é sabido, na Europa, ao contrário do que aconteceu nos
impérios asiáticos, a desintegração do Império Romano e, depois, do
império de Carlos Magno provocou a fragmentação do poder territorial e o
desaparecimento quase completo da moeda e da economia de mercado entre
os séculos IX e XI. Nos dois séculos seguintes, entretanto – entre 1150 e
1350 –, aconteceu a grande revolução que mudou a história do continente
e do mundo: forjou-se uma associação indissolúvel e expansiva entre a
“necessidade da conquista” e a “necessidade de produzir excedentes” cada
vez maiores, que se repetiu, da mesma forma, em várias unidades
territoriais soberanas e competitivas, que foram obrigadas a desenvolver
sistemas de tributação e criar suas próprias moedas para financiar suas
guerras de conquista. As guerras, os tributos, as moedas e o comércio
existiram sempre, em todo tempo e lugar; a grande novidade europeia foi a
forma como se combinaram, somaram e multiplicaram em conjunto, dentro
de pequenos territórios altamente competitivos e em estado de permanente
preparação para a guerra. Na Europa, a preparação para a guerra e as
guerras propriamente ditas se transformaram na principal atividade de
todos seus “príncipes”, “feudos”, ou outras formas de “poder
territorial”, e a necessidade de financiamento dessas guerras se
transformou num multiplicador contínuo da dívida pública e dos tributos.
E, por derivação, num multiplicador do “excedente”, do “comércio”, do
“mercado de moedas” e dos “títulos da dívida”, produzindo e alimentando –
na Europa – um circuito acumulativo absolutamente original entre os processos de acumulação de poder e riqueza.
Mas só depois que compreendi plenamente o “paradoxo do Petty” é que
ficou claro para mim que era logicamente impossível explicar o
aparecimento da “necessidade europeia” de acumulação de um “excedente”
cada vez maior apenas a partir do “mercado mundial” ou do “jogo das
trocas”. Como escrevi naquele momento, mesmo que os homens tivessem uma
propensão natural para trocar – como pensava Adam Smith –, isso não
implicaria necessariamente que também tivessem uma propensão natural
para acumular lucro, riqueza e capital. Ou seja, do meu ponto de vista, a
verdadeira força expansiva que acelerou o crescimento dos mercados e
produziu as primeiras formas de acumulação capitalista não veio do “jogo
das trocas” ou do próprio mercado; veio do “poder”, da “conquista” e da
energia gerada pela “acumulação do poder”. E essa “energia” se manteve
ativa, central e decisiva, mesmo depois da constituição das relações de
produção “propriamente capitalistas” e mesmo depois da própria
industrialização.
Nos livros O poder global e A nova geopolítica das nações, de 2007, e, principalmente, em seu artigo no livro O mito do colapso do poder americano,
de 2008, você antecipa questões centrais na geopolítica mundial que com
o tempo vão se confirmando, como a manutenção instável, e ainda assim
crescente, do poderio americano, a ascensão da China e o retorno da
Rússia aos grandes palcos globais. Hoje estamos assistindo de novo a um
intenso debate sobre o fim da “ordem liberal americana”. Fora a
ansiedade de muitos analistas por um novo horizonte, que contamina a
frieza necessária ao teórico, como você entende a discussão? Em que
aspectos há diferenças e quais são os pontos de convergência dos dois
momentos?
Depois da contundente vitória americana na Guerra Fria e
na Guerra do Golfo, os EUA desfrutaram, durante uma década, da condição
de centro unipolar do poder global. Mas essa condição começou a se
alterar a partir do início do século XXI, quando eles iniciaram sua
“guerra global ao terrorismo” e se envolveram progressivamente numa
sucessão de guerras no Oriente Médio que já se prolongam há duas
décadas. Nesse período, os EUA foram também o epicentro de uma enorme
crise econômica que começou por seu sistema financeiro imobiliário, em
2008, e acabou atingindo toda a economia mundial. Mas foi na última
década, e mais particularmente nos últimos cinco anos, que o mundo vem
assistindo atônito à vertiginosa ascensão da China como potência militar
regional; à reconstrução acelerada do poder militar global da Rússia; à
fragmentação e ao declínio do poder global da União Europeia (UE),
junto com o ocaso da Grã-Bretanha como potência individual; além do
crescimento da presença miliar da Rússia e do Irã no Oriente Médio; o
afastamento da Turquia com relação aos seus aliados da OTAN; e, num
nível mais baixo de importância global, a “degringolada” internacional
do Brasil.
O mais surpreendente, no entanto, no período recente, foi o fato de
os próprios norte-americanos terem tomado a decisão de se afastar de
seus antigos aliados liberais, e de atacar de forma direta e agressiva s
valores e instituições da ordem internacional liberal que eles mesmos
haviam criado depois da Segunda Guerra, e haviam reafirmado depois do
fim da Guerra Fria. Entre 1989 e1991, o Ocidente festejou a vitória
definitiva da “democracia”, da “economia de mercado” e de uma nova
“ordem ética internacional”, orientada pela defesa dos “direitos
humanos”. Mas trinta anos depois, o panorama mundial mudou radicalmente.
A velha “geopolítica das nações” voltou a funcionar como a bússola do
sistema interestatal, o “nacionalismo” e o “protecionismo” voltaram a
ser praticados pelas grandes potências e os grandes “objetivos
humanitários” dos anos 90 parecem ter sido relegados a um segundo plano
da agenda internacional. Nada disto é prova suficiente do fim do poder
americano, mas sem dúvida, é a evidência de que o sistema internacional
está vivendo uma transformação geopolítica profunda, que entretanto, vem
sendo provocada, em grande medida, pela própria expansão do poder dos
EUA, que não foi interrompida mesmo nos anos “pacíficos” da década de
90.
O que os analistas mais “ansiosos” às vezes não tomam na devida conta
é que, na expansão contínua do sistema interestatal “inventado” pelos
europeus, a própria lógica competitiva do sistema impede que a “potência
hegemônica” aceite o status quo que ela instalou através de
suas vitórias. Por isso, quando se sente ameaçada, muitas vezes a
potência hegemônica destrói as próprias “regras” e “instituições” que
criou, mas o faz como estratégia de preservação do seu poder. Exatamente
como ocorreu com os EUA em 1973, quando se desfizeram do sistema de
Bretton Woods que haviam criado em 1944. E agora de novo estão se
desfazendo das regras e instituições que criaram ou reafirmaram depois
de sua vitória de 1991. Ou seja, ao contrário do que afirmam todas as
teorias da “estabilidade hegemônica”, nesse sistema interestatal e
capitalista que está em permanente expansão, nunca houve nem haverá
hegemonia estável, porque se trata de um sistema e de uma liderança que
precisam se expandir, e que por isso mesmo estão em permanente estado de
guerra ou de “preparação para a guerra”.
Está muito difundida a teoria que o escritor Lourenço Mutarelli ficcionou num romance a que deu o título: A arte de produzir efeito sem causa
(2008). Uma reflexão acerca dos fenómenos da desrazão (da ilógica) e do
nonsense. Uma tese sobre o absurdo, que renega o princípio lógico da
causalidade, que determina que todo efeito deve ser consequência de
alguma causa.
A
afirmação muito explorada de que na Ucrânia ocorre uma invasão
determinada por um imperador louco, assenta na crença de que os grandes
fenómenos sociais, como uma grande guerra, uma grande revolução, um
fenómeno de domínio como o colonialismo, ou a escravatura, por exemplo,
podem não ter outra causa se não o impulso emocional e descontrolado de
um homem. Há até historiadores e cientistas ditos sociais que defendem
com arreganho a tese de que há uma invasão sem causa, apenas determinada
por um ser diabólico que habita um palácio assombrado, com enormes
mesas e tetos altos!
As
centrais de manipulação de massas, que existem com vários nomes, umas
públicas, diretamente dependentes dos Estados e outras privadas:
Agências de Comunicação, de Relações Publicas, de Publicidade, com
assessores contratados entre antigos políticos ou jornalistas avençados,
conseguiram fazer passar a mensagem de que a Rússia tinha invadido a
Ucrânia sem razão, apenas por puro imperialismo ou paranoia de um antigo
agente do KGB apoiado por um sinistro Rasputine, a que foi dado o nome
de Lavrov!
A
arte de produzir este efeito sem causa tem sido um sucesso de
aceitação, do tipo das igrejas evangélicas (velhas utilizadoras da
doutrina da criatura não gerada). O êxito é tanto mais de exaltar quanto
a falácia vendida como efeito sem causa é desmentida pelos autores dos
efeitos.
A
narrativa do efeito — a invasão da Rússia à Ucrânia — sem causa
racional é desmentida pelos autores em declarações públicas: O atual
secretário geral da NATO, um economista norueguês que já está nomeado
para o Banco Central do seu país e que, de facto, é um desastrado,
tem-se encarregado de descobrir as reais causas para a invasão da
Rússia, obrigando os profissionais da manipulação ao duplo trabalho de
inventarem causas fantasiosas — tornar o nonsense comestível pelas
opiniões públicas — e de apagarem as pistas deixadas pelo senhor Jens
Stoltenberg.
Lembrava
o Secretário-geral da NATO com a candura de um sacristão, à entrada
para a reunião extraordinária dos ministros da Defesa, em Bruxelas, a 16
de Março de 2021, que durante muitos anos (desde quando?) a NATO,
treinou “dezenas de milhares de tropas ucranianas e fornecemos grandes
quantidades de equipamentos críticos para ajudar a Ucrânia a defender o
seu direito à autodefesa” https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2022/03/16/nato-permanece-unida-no-apoio-a-ucrania/276558/
Além
de explicar a antiguidade da manobra de provocar a Rússia e de preparar
a Ucrânia para a chamar à guerra, o cândido Secretário-geral
encarregou-se de explicar a causa do efeito que é a guerra que hoje se
trava na Ucrânia, causando o sofrimento que é visível nos povos e
explorado até à exaustão pelos meios de propaganda.
A
causa para espoletar a intervenção da Rússia pretende obter o efeito de
a enfraquecer e de permitir aos Estados Unidos enfrentarem a nova ordem
mundial numa posição de domínio. Numa reunião a 6 de Abril, Jens
Stoltenberg explicou: “(…) seja quando for que a guerra acabe, terá
implicações a longo prazo para a nossa segurança, pois vimos a
disponibilidade do presidente Vladimir Putin em usar força militar para
atingir os seus objetivos” (a NATO, como se sabe, não dispõe de força
militar, é uma igreja missionária!), mas o esclarecedor vem a seguir:
Stoltenberg abordou também um dos tópicos da reunião da Aliança de
quarta-feira, o da definição de um novo “conceito estratégico da NATO”
(citado pelo The Guardian): “Neste conceito, precisamos de abordar as
consequências securitárias das agressivas ações russas, o equilíbrio de
poder mundial em mudança, as consequências securitárias de uma China
muito mais forte, e os desafios que Rússia e China estão a impor juntos a
uma ordem internacional de valores democráticos baseada em regras.
Definiremos a estratégia sobre como líder com terrorismo ciber e
híbrido, bem como as consequências das alterações climáticas para a
segurança”, acrescentou.
Isto
é e em claro: a guerra na Ucrânia, a tal do efeito sem outra causa
senão a maldade do chefe russo, conduzida pelos EUA através da NATO, o
seu braço armado para a Europa, faz parte de uma manobra estratégica de
domínio planetário dos EUA a longo prazo, que tem como inimigos a Rússia
e a China e teve como primeiras vítimas os ucranianos e o projeto de
uma União Europeia autónoma, regida pelos seus valores e interesses.
Com
esta apresentação em claro dos inimigos e dos objetivos talvez se
perceba a causa daquela que foi considerada uma vergonhosa retirada dos
EUA do Afeganistão (Agosto de 2021) após 20 anos de ocupação:
Interessava concentrar forças na Europa para “desgastar” a Rússia e a
China. Os “afegões” (como os designava aqueles povos o escritor Luiz
Pacheco) que se danassem, as mulheres que voltem à burka, as raparigas
que sejam analfabetas! O decisivo é a invasão russa! Afinal havia uma
causa para a retirada americana de Cabul: a guerra na Ucrânia que iria
ter lugar dentro de seis meses (Fev 2022)!
Reduzir a manobra de grande estratégia da criar um casus belli
na Ucrânia que levasse a Rússia a intervir a um caso de efeito sem
causa, de maus invasores e infelizes invadidos, parece-me muito próximo
do absurdo, mas talvez seja reconfortante para almas sensíveis.