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quarta-feira, 27 de março de 2019

Este artigo de Daniel Oliveira com bons argumentos para refletirmos para as próximas eleições eiropeias, não exprime toda a minha opinião, mas a dele.


Antes pelo contrário
Antes pelo contrário
Daniel Oliveira
No Brexit, sinto-me Corbyn
A narrativa que se está a construir sobre Brexit ridiculariza a democracia, retoma o discurso suicida de Hillary Clinton sobre os eleitores “deploráveis” e anuncia o Apocalipse. Há uma tentativa de despolitizar o Brexit, ignorando as contradições que ele exibe à esquerda e à direita. Nos trabalhistas, o paradoxo é evidente: apesar de Corbyn ser oficialmente contra o Brexit, o seu manifesto eleitoral é incompatível com o Mercado Único. Não é porque o euroceticismo seja xenófobo que quase só vemos xenófobos a dar-lhe voz. Há excelentes razões de esquerda contra esta União. No Reino Unido o euroceticismo até é uma velha tradição de esquerda. Mas a esmagadora maioria da esquerda debandou desse espaço e entregou-o aos piores argumentos. Corbyn foi a última oportunidade de deixar de o fazer. Como o europeísmo de esquerda foi derrotado há muito, algures entre Maastricht e Lisboa, sobram chavões sobre a paz e a democracia que ignoram o programa ideológico que hoje determina quase todas as políticas fundamentais impostas pela União. Pode estar tudo errado no Brexit, e quase tudo está. Mas não está pior do que esta UE e do que a reveladora altivez com que olhamos para este momento. Sinto-me como Corbyn, entalado entre o debate que devia ter sido feito e o debate que realmente se fez.
<span class="creditofoto">Foto epa</span>
Foto epa
A narrativa do Brexit para os europeus concentra-se na “trapalhada”. Não que a confusão seja falsa, com sucessões de votações e sem se saber ao certo o que vai acontecer a poucas semanas do eventual desenlace. Mas não é inocente a despolitização do debate sobre a decisão tomada pelos britânicos de forma democrática e livre. Há até alguma chacota com os procedimentos parlamentares a que qualquer populista poderia aderir com facilidade. Muitos dos países onde tantos se riem do difícil momento que o Reino Unido vive nunca fizeram qualquer tipo de debate democrático e sério sobre a sua adesão à UE. Não referendaram, não discutiram, não votaram. Limitaram-se a estender a mão para receberem fundos e entregarem os seus destinos a terceiros, fazendo figas para que tudo corra bem em Bruxelas, Paris e Berlim. Quanto aos recuos e avanços do Brexit, será necessária uma cronologia sobre o processo que levou a cada novo tratado, referendos feitos e repetidos e trapalhadas em nada diferentes destas? Estamos a rir de quê?
David Cameron <span class="creditofoto">Foto Reuters</span>
David Cameron Foto Reuters
Tudo esteve errado na forma como David Cameron marcou este referendo, tendo como único objetivo encostar os eurocéticos do seu partido a um canto. E tudo está errado na debandada dos que, tendo dirigido a campanha do “leave”, não se responsabilizaram pelas suas consequências. E é natural que não o tenham querido fazer. A direita xenófoba não tinha qualquer projeto para depois. O Reino Unido decidiu sair da União Europeia sem um plano, sem tempo para o que precisava de fazer, sem seriedade política e honestidade intelectual. Mas, é bom dizer, a própria União foi-se construído com a possibilidade de sair expressa no artigo 50º mas sem qualquer roteiro para a forma de o fazer.
Com base no amadorismo dos brexiteers, não podemos tratar a decisão tomada pelos britânicos como um mero capricho de irresponsáveis. O euroceticismo britânico, à direita e à esquerda, é anterior à adesão ao projeto europeu. E tem, historicamente, algumas excelentes razões. O referendo de 1975, imposto pelos trabalhistas dois anos depois da adesão, foi a última vez que esse debate se fez a sério. As razões mais relevantes foram agora expressas numa frase de leitura dúbia que foi usada na campanha do Brexit para um discurso xenófobo mas podia ser usada, com toda a propriedade, na defesa intransigente da democracia: “take back control.”
Muitos dos países que se riem do difícil momento que o Reino Unido vive nunca fizeram qualquer tipo de debate democrático sério sobre a sua adesão ao projeto europeu. Limitaram-se a estender a mão para receberem fundos e entregarem os seus destinos a terceiros. Da Roménia a Portugal não falta quem queira dar lições de democracia aos ingleses. Não deixa de ser irónico
Com a mais velha democracia parlamentar, os britânicos não se adaptaram com facilidade à informalidade antidemocrática e ao poder dos burocratas de Bruxelas. E tiveram dificuldade em assistir, sem comichões, ao projeto imperial alemão em que a União se transformou, desde a criação do euro e do alargamento da UE a leste. Estes dois incómodos, que muitas vezes foram expressos de forma demagógica e simplista mas que nem por isso perderam razão de ser, podem manifestar-se à direita ou à esquerda de formas diferentes, com exigências mais liberais ou mais sociais, mais cosmopolitas ou mais xenófobas. Mas são incómodos legítimos. E a troça que dele fazemos diz mais da nossa anemia democrática do que do caos britânico. Da Roménia a Portugal não falta quem queira dar lições de democracia aos ingleses. Não deixa de ser irónico.
Os loucos dirigem-se para o abismo
A narrativa do Brexit para os europeus também se concentra na demonização dos eleitores britânicos. E não é por acaso que se tenta resumir o Brexit a uma espécie de surto psicótico dos ingleses. De tal forma que que há mesmo quem acredite que, se repetir o mesmo referendo fora da fase maníaca, o resultado será necessariamente diferente. É a velha tática de recomeçar todos os jogos até vencer. Ela deixou um lastro de ilegitimidade que as forças da vanguarda europeísta sempre desprezaram até serem surpreendidas por maiorias cansadas de tanta arrogância. Uma arrogância que nasce da certeza de que quem está do lado do bem não precisa de apoio popular. Lidera a marcha inexorável para o progresso e isso chega. E se os eleitores não o percebem é porque são ignorantes, tacanhos, velhos e racistas. Há uma total coincidência entre o discurso que se fez sobre o referendo francês, em 2005, e o que se faz agora. Com uma diferença: na altura houve uma esquerda que, apesar da chantagem que a colava à extrema-direita, não teve medo de estar do lado do “não”, o que permitiu que naquela campanha houvesse argumentos de esquerda e democráticos. O tempo veio a dar-lhes plena razão, quer no erro óbvio que teria sido o Tratado Constitucional, quer no que veio a ser o seu sucedâneo, o Tratado de Lisboa.
Quem oiça o tom geral concluirá que o Reino Unido passará a ser a Coreia do Norte, com fronteiras hermeticamente fechadas e sem trocas comerciais ou culturais com a Europa e com o mundo. Que se transformará numa espécie de Venezuela da Europa. Que dependerá da caridade de Donald Trump. E que abandonará o clube das democracias
<span class="creditofoto">Foto Reuters</span>
Foto Reuters
Por fim, a narrativa do Brexit para os europeus concentra-se no anúncio do Apocalipse. Quem oiça o tom geral concluirá que o Reino Unido passará a ser a Coreia do Norte, com fronteiras hermeticamente fechadas e sem trocas comerciais ou culturais com a Europa e com o mundo. Que se transformará numa espécie de Venezuela da Europa. Que dependerá da caridade de Donald Trump. E que abandonará o clube das democracias. Já se sabe que se não fosse a União Europeia, com os seus comissários não eleitos e a permanente lei do mais forte como regra, o Reino Unido nunca teria conhecido tal coisa. Só que, apesar de o Reino Unido caminhar para as trevas, continua a haver mais europeus a emigrarem para a Inglaterra do que ingleses a fugir do que aí vem. E tendo o saldo migratório com a UE caído, com o resto do mundo até subiu. Isto apesar de todos já terem percebido que este divórcio é mesmo inevitável. Mais: ao contrário do que se anunciava, a economia britânica não colapsou – longe disso – depois do referendo.
Sim, esperam o Reino Unido momentos muito difíceis. Até porque a integração europeia tem alguns pontos quase irreversíveis – e por isso mesmo cada passo deveria ter sido longamente discutido e até, pecado dos pecados, referendado. E será especialmente difícil com uma saída feita com os pés, em que os seus principais defensores desertaram e tudo está a ser negociado debaixo de uma pressão que só pode correr mal a todos. E não faltam incendiários, em Londres e nas capitais europeias, a achar que a pressão devia ser ainda maior. Há coisas que foram resolvidas dentro da União que têm mesmo de ser adaptadas às novas condições. A fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda da Norte é seguramente a mais difícil. Mas não deve ser tratada como um problema britânico. Porque não é. É uma questão europeia, que envolve um estado que continua a ser membro. Poderia até acabar da melhor forma, com a unificação das irlandas. Mas isto já sou eu a sonhar.
Sim, o Reino Unido corre enormes riscos com esta decisão. Tantos que pode vir a concluir, tarde demais, que foi uma escolha errada. Mas aderir à CEE e à União também foi um desafio perigoso. Assim como aderir ao euro, erro que o histórico euroceticismo britânico os impediu de cometer. O euroceticismo e o facto de Thatcher ter garantido uma disciplina neoliberal que dispensava imposições externas. A elite inglesa sempre foi mais segura do seu poder do que a continental. Já nós, atirámo-nos para a moeda única de cabeça sem um décimo do debate que os ingleses estão a fazer em torno do Brexit e que fizeram quando recusaram dar esse passo. Uma futurologia realista ter-nos-ia explicado que este viria a ser um dos maiores desastres económicos na nossa história recente, com efeitos estruturais na dívida, na balança comercial, na capacidade de segurarmos grandes empresas nacionais e bancos. Tudo o que podia ter corrido mal correu mal. E, no entanto, cá estamos vivos. E a maioria até acha que fizemos otimamente em estar no pelotão da frente desta aventura.
Achámos que a importância deste passo valia o risco. Os britânicos acham que a importância de não estar na União vale o risco. E estão, apesar de tudo, um bocadinho mais bem equipados do que nós para correr esse risco. Sofrerão muito ou pouco, ninguém sabe ao certo apesar de todos fazerem previsões indiscutíveis. Não sabemos o que vai acontecer à UE e se vai sofrer mais quem ficar dentro ou quem sair. Mas, mesmo partindo do princípio que o embate será forte, um povo pode estar disposto a sacrificar-se pela sua independência. E não vejo porque deva ser isso motivo de choque ou de gozo.
A direita e o “egoísmo” dos pobres
Do ponto de vista intelectual, o Brexit confrontou a esquerda e a direita britânicas com as suas contradições. Um confronto saudável de que andamos todos, por essa Europa fora, a fugir.
Margaret Thatcher, em junho de 1975 <span class="creditofoto">Foto Getty</span>
Margaret Thatcher, em junho de 1975 Foto Getty
Se não tivesse existido Thatcher poderíamos dizer que o conservadorismo democrático que não alinhou na deriva neoliberal se confrontaria, neste debate, com a importância que sempre deu ao Estado-Nação como fonte de legitimidade de exercício do poder. E com as maldades que vão sendo feitas ao parlamentarismo. E com a natureza voluntarista, insensata e disruptiva do europeísmo. Mas, apesar da prosápia conservadora, Margaret Thatcher é percursora de tudo o que se fez na Europa. Começou primeiro no Reino Unido, na realidade. Não por acaso, acabou por ser o sinistro Nigel Farage, e não um tory, a capturar o discurso de defesa do parlamentarismo que nas suas diatribes em Estrasburgo quase o faziam passar por alguém que um qualquer democrata deveria aplaudir.
Nigel Farage <span class="creditofoto">Foto Reuters</span>
Nigel Farage Foto Reuters
Mas alguns argumentos da direita pró-Brexit merecem mais atenção do que a mera rejeição enojada. Não nos termos em que são apresentados, mas nas suas origens. Os ingleses (e aqui estou a falar mesmo dos ingleses, não dos britânicos) sentem-se alienados na sua identidade. Alienados da sua identidade colonial e imperial, o que é inevitável e positivo. Mas também alienados na sua identidade nacional. Enquanto escoceses, galeses e até irlandeses puderam construir diferentes graus de autonomia, os ingleses, destinados a ser o centro de um império mirrado, não o fizeram. Não têm parlamento próprio e políticas próprias. E isto até tem consequências práticas. Há uma parte da Inglaterra que foi esquecida. Ao contrário da Escócia, a Inglaterra não tem os seus próprios instrumentos para tratar das suas assimetrias internas. Grande parte do país foi sugado por Londres. E foi esse o país que mais fortemente votou pelo Brexit.
Fronteiras abertas sem transferência de recursos é um convite à debandada, traduzida pela personagem do “canalizador polaco”. Num país tão desigual como o Reino Unido, os mais pobres, que se sentem abandonados pelo poder, têm dificuldade em aceitar transferência de recursos para outros países. Porque ela não se faz internamente. Só conheço uma forma de vencer o “egoísmo” dos pobres: políticas igualitárias que os tirem da pobreza
Por outro lado, o debate sobre a imigração é mais difícil do que parece. Não me refiro à imigração exterior à União Europeia. Aí, quase toda a conversa dos defensores do Brexit é só demagógica. Nada mudará depois da saída, até porque as políticas europeias são bastante restritivas. Mas a imigração comunitária corresponde a um problema real da União. Fronteiras abertas sem transferência de recursos é um convite à debandada, traduzida pela personagem do “canalizador polaco”. E é uma equação de resultado negativo para todos: mau para quem recebe as pessoas, porque a pressão leva a redução salarial, mau para quem as perde, que fica quase sempre sem os quadros que andou a formar. Os neoliberais acreditam que isto se resolve deixando que o mercado de trabalho encontre o seu ponto de equilíbrio, a extrema-direita acha que se resolve fechando as fronteiras, a esquerda acha que se resolve aumentando as transferências de recursos de um para outro lado para que faça tanto sentido um inglês ir viver para Bucareste como um romeno ir viver para Londres.
O problema do argumento da esquerda é que, num país tão desigual como a Inglaterra, os mais pobres, que se sentem abandonados pelo poder, têm dificuldade em aceitar essa transferência de recursos para outros países. Porque ela não se faz internamente. Claro que numa campanha a coisa não é posta assim. A extrema-direita sabe explicar isto de forma mais simples, sem acicatar a vontade de justiça mas apenas o ódio pelo outro. Mas o problema está lá. Só conheço uma forma de vencer o “egoísmo” dos pobres: políticas igualitárias que os tirem da pobreza.
A esquerda e os deploráveis
Apesar de grande parte do espetáculo ser dado pelos conservadores, os problemas não acabam à direita. É bom lembrar, aliás, que para o “leave” vencer teve de contar com muitos (mesmo muitos) votos de esquerda. Mais de um terço dos eleitores trabalhistas votou no Brexit. Sobretudo os que foram sendo deixados para trás no processo de globalização e integração europeia. Aqueles que os trabalhistas viram fugir para o UKIP e para os conservadores em 2015 e que, muitos deles, foram recuperados por Jeremy Corbyn em 2017. E é à esquerda que as contradições são mais evidentes.
Não é por acaso que Friedrich von Hayek, o buda dos neoliberais, feroz opositor do programa trabalhista de 1945, admirador de Salazar e que preferia um ditador liberal a um governo democrático a que faltasse liberalismo, via no federalismo a melhor forma de fugir às “pressões da opinião pública e da influência política”. E é por isso que me espanto com os incautos federalistas de esquerda. A União Europeia transformou-se, talvez estivesse mesmo destinada sê-lo, na mais poderosa arma de alienação democrática para fugir às “pressões da opinião pública e da influência política”. Isto não invalida que a direita britânica tivesse querido isso mesmo e até feito pior, por sua iniciativa, do que Bruxelas e Berlim alguma vez exigiram. Mas impede, como veremos mais à frente, que a esquerda se atreva a querer fazer diferente.
O que está em causa no caminho que o projeto europeu levou, dentro ou fora do euro, é a sobrevivência de qualquer programa de esquerda à escala nacional. Dantes, um europeísta ainda poderia explicar que o era com base na defesa do Estado Social, dos valores da tolerância e da democracia e da convergência entre as nações europeias. Hoje, o máximo que pode dizer é que esta é a sua utopia. A UE transformou-se no oposto de tudo o que eles desejavam: a concorrência e o processo de privatização das funções do Estado são os seus dogmas, as políticas anti-imigração é o seu novo mainstream, a fragilização das democracias nacionais e o reforço da burocracia europeia a sua prática e a divergência económica e social entre nações a sua tendência. A estranha pergunta que nos fazemos é se ainda são possíveis políticas de esquerda nesta Europa. E a resposta é cada vez mais clara.
Claro que se pode dizer, com toda a justiça, que o Reino Unido foi um fator de agravamento de grande parte destas tendências. Só que, como qualquer país, o Reino Unido não é uma realidade homogénea. E o mesmo Reino Unido que impôs políticas austeritárias – a UE não foi a causa da austeridade, foi mais um instrumento para a austeridade – elegeu como líder do Partido Trabalhista o social-democrata mais à esquerda da Europa.
<span class="creditofoto">Foto Reuters</span>
Foto Reuters
A primeira dificuldade dos trabalhistas é mesmo com o processo. Jeremy Corbyn foi escolhido pelo eleitorado contra a vontade de uma elite do partido responsável pela maior traição histórica a que assistimos à esquerda, que conduziu à terceira via e à implosão da social-democracia europeia. Foi escolhido através de uma profunda democratização do partido e de um apelo à participação cidadã. É impensável ter Corbyn a aliar-se a essa mesma elite partidária para trair a vontade que foi expressa pelos eleitores. Mesmo a sua cedência aos sectores do partido que querem a repetição do referendo, que lhe são próximos, é uma traição às suas promessas de regeneração democrática. Ainda mais quando isso se faz em nome de uma altivez antidemocrática de uma parte dos eleitores. O discurso que confronta os cidadãos educados, civilizados e cosmopolitas com a populaça boçal dos pubs e que alimenta o combate geracional insulta o melhor da tradição da esquerda. É um subgénero da reveladora expressão usada por Hillary Clinton para caracterizar os eleitores de Trump – “os deploráveis”. Uma arrogância social e cultural que representa o mais monumental suicídio da esquerda.
O discurso que confronta os cidadãos educados, civilizados e cosmopolitas com a populaça boçal dos pubs e que alimenta o combate geracional insulta o melhor da tradição da esquerda. É um subgénero da reveladora expressão usada por Hillary Clinton para caracterizar os eleitores de Trump – “os deploráveis”. Uma arrogância social e cultural que representa o mais monumental suicídio da esquerda
Corbyn também tem dificuldades eleitorais. Apesar de todo o desprezo que merece da elite do agonizante centro-esquerda europeu, Corbyn fez aumentar o número de membros do Partido Trabalhista de 200 mil, em 2015, para quase 400 mil, em 2016. Depois do referendo e de várias renúncias entraram mais cem mil. Mesmo depois de uma queda mais recente, por causa da pressão dos últimos meses, o Labour de Corbyn é, se as minhas contas não estão erradas, o maior partido europeu. E os principais responsáveis por esse aumento foram jovens de classe média, em grande parte votantes do “remain”. E isso explica a pressão do Momentum, grupo de apoio a Corbyn, para um referendo ao inaceitável acordo de Theresa May.
Depois há os outros, que votaram no “leave”. É o eleitorado operário, das regiões industriais e deprimidas de Inglaterra. Este voto da classe trabalhadora não pode ser ignorado. Porque sem ela o Labour perde as suas raízes e Corbyn não tem futuro para a defesa do seu programa político. Porque sem ele a esquerda britânica cometerá o mesmo erro da esquerda francesa, norte-americana e italiana: entregará o seu povo à extrema-direita. Temo, aliás, que as indecisões de Corbyn venham a custar-lhe muitos votos nas europeias, se o Reino Unido lá chegar. Para um lado e para o outro.
O Mercado Único contra Corbyn
Corbyn tem tudo contra si: um Brexit que afasta a atenção do seu programa progressista de defesa do Serviço Nacional de Saúde e intervenção do Estado para retomar a relevância industrial inglesa; o boicote à elite do partido, que o impede de ter uma gestão com cabeça, tronco e membros de todo este complexo processo; o ódio da elite milionária que o teme vinte vezes mais a ele do que ao Brexit; e uma campanha nauseabunda que, utilizando episódios que nada têm de novo no Labour (ou nos conservadores), o tenta apresentar como um antissemita. Que tenha sobrevivido até aqui é quase um milagre.
Mas a sua maior dificuldade é mesmo programática. É o conteúdo das suas políticas. Vale a pena, para perceber a insanável contradição, ler ESTE TEXTO do economista de esquerda Costa Lapavitsas. A tese de Lapavitsas é simples: se o Reino Unido ficar no Mercado Único europeu O MANIFESTO DE CORBYN é impraticável.
Se o Reino Unido ficar no Mercado Único europeu o manifesto de Corbyn é impraticável. A sua política industrial, que se baseia na possibilidade de o Reino Unido, tal como a China ou a Coreia do Sul, poder apoiar financeiramente alguns grandes motores da sua indústria, choca de frente com as regras da concorrência da União. A contratação pública com critérios de responsabilidade social também. E o programa de nacionalizações, sendo teoricamente possível, violaria toda a orientação da União
A sua política industrial, que se baseia na possibilidade de o Reino Unido, tal como a China ou a Coreia do Sul, poder apoiar financeiramente alguns grandes motores da sua indústria (não estamos a falar de apoio à modernização, a regiões deprimidas ou a PME), choca de frente com as regras da concorrência da União. Porque essas regras de concorrência, com um sentido ideológico bastante determinado, olham para o Estado como um elemento neutro na economia. O resultado, para a Europa, tem sido o que se vê: está a ser ultrapassada pelo pragmatismo asiático. As regras europeias impedem que o Estado seja um verdadeiro estratega da economia. Os neoliberais adoram, a competitividade externa das suas nações europeias nem por isso. A não ser na Alemanha, claro. Essa faz o que lhe apetece.
Também a contratação pública de serviços e bens com critérios de responsabilidade social, um dos pilares importantes do programa de Corbyn, fica muitíssimo limitado. A defesa das regras de concorrência, mais uma vez, e o tratamento de igualdade, tornam esse caminho espinhoso e virtualmente impossível.
Por fim, o programa de renacionalizações dos caminhos de ferro, correios, energia e água, sendo teoricamente possível, violaria toda a orientação da União, que aponta de forma clara e quase impositiva para a privatização. Para além de toda a resistência interna, Corbyn teria de lidar com o boicote ativo da União e todas as suas instituições. Mesmo que as renacionalizações destes gigantes fossem aceites, a imposição seguinte é a que temos conhecido e que é explícita no sector bancário: os monopólios públicos são inaceitáveis, as regras de gestão do que é público devem ser as mesmas do que no privado para não criarem distorções no mercado. Estes dogmas políticos alguma vez foram a votos? Claro que não. Não estamos a falar de uma democracia, estamos a falar da União Europeia. E já não falo, claro do controlo de capitais, sem os quais qualquer programa de esquerda é uma doce ilusão.
A esquerda ausente em cima do Brexit
Um dos grandes problemas de grande parte da esquerda, ao debater o Brexit, é que o despolitizou. Porque não tem nada a dizer sobre a Europa que não sejam chavões sobre a paz e a democracia, porque está obrigada a ignorar o programa ideológico que hoje determina quase todas as políticas fundamentais impostas pela União, porque se tentar ser consequente na defesa desta integração acaba por tropeçar nos seus próprios pés. Qualquer sofisticação sobre as vantagens de ficar no mercado único deixaria a esquerda totalmente nua nas suas contradições. E isto faz com que se limite a ser uma ajudante histérica e vazia numa luta entre a direita neoliberal europeísta e a direita xenófoba nacionalista. Sem nada a acrescentar, de um lado ou do outro, ao que está a ser discutido.
A esquerda despolitizou o debate sobre o Brexit. Porque não tem nada a dizer sobre a Europa que não sejam chavões sobre a paz e a democracia, porque está obrigada a ignorar o programa ideológico que hoje determina quase todas as políticas fundamentais impostas pela União, porque se tentar ser consequente na defesa desta integração acaba por tropeçar nos seus próprios pés. Limita-se a ser uma ajudante histérica numa luta entre a direita neoliberal e europeísta e a direita xenófoba nacionalista
A vantagem de confrontar o manifesto político de Corbyn com os efeitos de continuar no Mercado Único é perceber a enorme dificuldade em manter um discurso coerente de esquerda e europeísta. Há um discurso utópico, talvez. Mas se é para ignorar a correlação de forças, a história recente e a exequibilidade do que se defende, sonhemos realmente alto com um mundo todo sem fronteiras e classes sociais. Se é para lidar com o que temos, esta é a União que deixámos que fosse construída, bloqueada por tratados que só podem ser mudados por unanimidade e que tem um sentido ideológico que se tornou parte da sua natureza. Aprendamos de uma vez por todas a lidar com isso.
É importante recordar, mais uma vez, que a tradição do Labour não é, ao contrário da ideia instalada, europeísta. Dois anos depois de ter aderido ao Mercado Comum e à CEE, pela mão do primeiro-ministro conservador Edward Heath, o primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson cumpriu uma promessa eleitoral e levou a adesão a referendo. Já então o Partido Trabalhista, mais eurocético do que os conservadores, estava dividido. De tal forma que, ao contrário dos conservadores e dos liberais, que fizeram campanha pelo “sim”, o Labour não tomou posição oficial.
Edward Heath e Harold Wilson <span class="creditofoto">Fotos Getty</span>
Edward Heath e Harold Wilson Fotos Getty
Entre os que fizeram campanha pela adesão estava a recém-eleita líder conservadora Margaret Thatcher. Entre os que fizeram campanha pelo “não” estava Tony Benn, um carismático deputado trabalhista de esquerda, que participou em vários governos e esteve quase cinquenta anos no Parlamento, tendo sido dos mais notáveis rostos do euroceticismo progressista. Costuma ser referido como o mentor de um jovem trabalhista que, na altura, tinha 26 anos e também votou “não”. Viria a ser deputado oito anos mais tarde e chamava-se Jeremy Corbyn. Mesmo que a narrativa dominante tenha conseguido forçar a colagem do euroceticismo ao nacionalismo xenófobo, nem Thatcher nem Corbyn estavam enganados no lado da trincheira que então escolheram.
O que se passa com os trabalhistas, que têm merecido menos atenção do que os conservadores, tratando Corbyn como uma excentricidade esquerdista, é o que acabará por se passar com toda a esquerda europeia. Mas nos Estados membros onde o aprofundamento da integração ainda não arrasou todos os partidos de esquerda, a coisa será mais dramática: aí sim, a incompatibilidade do reforço do Estado Social e do papel do Estado na economia com as regras da moeda única é absoluta. As clivagens que atravessam a política inglesa são as clivagens que atravessam o resto da política europeia. Só que isto se passa num país que sempre desconfiou da União Europeia e que tem um sistema eleitoral que o divide por dois partidos sem verdadeira coesão política. A clivagem do Brexit só é mais clara nos conservadores porque a esquerda, no Reino Unido e na Europa, se demitiu do debate.
O europeísmo de esquerda foi derrotado há muito, algures entre Maastricht e Lisboa. O euroceticismo de esquerda pode ter tido a sua última oportunidade com Corbyn. Tudo o que defendo é incompatível com esta União, e isso levar-me-ia a ser pelo Brexit. A ausência da esquerda no debate entregou o Brexit à xenofobia e ao egoísmo, o que me levaria a ser contra o Brexit. Sinto-me como Corbyn, entalado entre o debate que devia ter sido feito e o debate que realmente se fez
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Não é porque o euroceticismo seja xenófobo que quase só vemos xenófobos a dar-lhe voz. É porque a esquerda debandou desses espaço e entregou-o aos piores argumentos. Hoje, temos um confronto entre neoliberais e neofascistas. No discurso público, não há europeísmo de esquerda, assim como não há euroceticismo de esquerda. E Corbyn, dependente de um partido que não lhe quer bem, não conseguiu inventar nem um nem outro. O europeísmo de esquerda foi derrotado há muito, algures entre Maastricht e Lisboa. O euroceticismo de esquerda pode ter tido a sua última oportunidade com Corbyn. A conjuntura não lhe deu espaço político para o afirmar. Não sou, no entanto, injusto com o único líder social-democrata europeu com um programa ambicioso à esquerda. Ele teve o azar de cair bem cima de todas as contradições deste espaço político.
Já não há argumentos de esquerda em defesa desta União. Sempre que os começamos a esmiuçar acabamos por ouvir a inevitável frase: não podemos desistir de sonhar. Percebemos então que estamos perante alguém que se sabe derrotado. E há, como mostrei aqui, excelentes argumentos de esquerda pelo Brexit. Só que, ao contrário do que aconteceu no referendo francês contra o Tratado Constitucional, eles estiveram ausentes da campanha e de todo este processo. Ao não saírem do armário, os brexiteers de esquerda entregaram milhões de eleitores trabalhistas aos argumentos da extrema-direita.
Nunca tomei uma posição clara sobre o Brexit porque tenho a mesma dificuldade de Corbyn. Tudo o que defendo é incompatível com esta União, e isso levar-me-ia a ser pelo Brexit. A ausência da esquerda no debate entregou o Brexit à xenofobia e ao egoísmo, o que me levaria a ser contra o Brexit. O que é estrutural faz-me concordar com o Brexit, o que é conjuntural faz-me ser contra. Sinto-me como Corbyn, entalado entre o debate que devia ter sido feito e o debate que realmente se fez.

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